A VIAJANTE


Traduzido e Revisado
pelo
Grupo DianaGabaldon_Brasil
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PRLOGO


Quando eu era pequena nunca queria pisar em poas. No porque temia molhar as meias ou pisar nos vermes afogados; era, em general, uma criatura suja, com uma bem
aventurada indiferena para qualquer tipo de limpeza.
Era porque no acreditava que aquele espelho liso s era uma pequeno espao de gua sobre a terra slida. Estava persuadida de que era uma porta para algum espao
insondvel. As vezes, ao ver as pequenas ondas provocadas por minha proximidade, pensava que a poa era profunda, um mar sem fundo no que se ocultavam a preguiosa
espiral do tentculo e o brilho da escama, com a ameaa de enormes corpos e dentes agudos  deriva, sem lentes, nas remotas profundidades.
E ento, baixando os olhos ao reflexo, via minha prpria cara redonda e meu cabelo encaracolado numa extenso azul sem contornos, e pensava que a poa era a entrada 
a outro cu. Se pisava cairia de imediato e seguiria caindo, mais e mais, no espao azul. 
S tinha um momento em que ousava caminhar atravs de uma poa: era no anoitecer, quando assomavam as estrelas vespertinas. Se ao olhar na gua eu ver ali um ponto 
luminoso, ento podia pisar sem medo, pois se caa na poa e no espao poderia me agarrar a essa estrela, ao passar, e estaria segura. 
Ainda agora, quando vejo uma poa em meu caminho, minha mente se detm (ainda que meus ps no o faam) e depois segue seu caminho, deixando atrs s o eco do pensamento: 
E se esta vez eu cair? 
A batalha e os amores dos homens 


CAPTULO 1
O banquete dos corvos 


l6 de abril de 1746


Estava morto. No entanto o nariz lhe palpitava dolorosamente, coisa que lhe era estranha, dadas as circunstncias. Ainda que depositava uma considervel confiana 
no entendimento e a graa de seu Criador,sentia culpa pelo que todos tememos a possibilidade do inferno. Ainda assim, pelo que tinha ouvido falar sobre o inferno, 
parecia-lhe improvvel que os tormentos reservados para seus infortunados habitantes pudessem restringir-se a uma dor de nariz. 
Por outra parte, aquilo no podia ser o cu, tendo em conta vrias coisas. Para comear, ele no o merecia. Tambm no tinha pinta de ser. E duvidava de que uma 
fratura de nariz estivesse incluso entre as recompensas para os abenoados, e no para os condenados. 
O quanto se tinha imaginado sempre o Purgatrio como um lugar cinza, as vadias luzes avermelhadas que o ocultavam tudo lhe pareciam adequadas. Estava despejando 
um pouco na mente e voltava, com lentido, sua faculdade de raciocnio. Bastante incomodado, disse a s que algum deveria atend-lo e dizer-lhe exatamente qual 
era sua sentena, at que tivesse sofrido o suficiente para purificar-se e entrar, por fim, no Reino de Deus.
Enquanto esperava, comeou a fazer inventrio de qualquer outro tormento que se lhe exigisse suportar. Tinha numerosos cortes, machucados aqui e l; estava quase 
seguro de ter sido fraturado outra vez no dedo anular direito; era difcil proteg-lo pelo modo em que sobressaa, com a articulao paralisada. Mas nada disso era 
to mau.  O Que mais? 
Claire. O nome lhe apunhalou o corao com a dor mais atroz do que seu corpo tivesse suportado at ento. Ignorava se as pessoas do Purgatrio lhe permitiam rezar, 
mas igualmente o tentou. "Senhor", orou, "que ela esteja a salvo. Ela e o nosso filho." Estava seguro de que Claire teria chegado ao crculo; com s dois meses de 
gravidez, ainda era rpida nas pernas... e teimosa como nenhuma outra mulher que conhecesse. Mas se tinha conseguido efetuar a perigosa transio ao lugar de que 
tinha vindo (deslizando-se precariamente pelos misteriosos estratos que jaziam entre o depois e o agora, indefesa no abrao da rocha), no o saberia jamais; o mero 
fato de pens-lo bastou para fazer-lhe esquecer at o palpitar do nariz.
Ao retomar o seu interrompido estado fsico, afligiu-se mais do habitual ao descobrir que parecia faltar-lhe a perna esquerda. A sensao se cortava no quadril, 
com uma srie de ferroadas que lhe faziam ccegas na articulao. 
Aquilo feriu sua vaidade. Ah, a estava a coisa: um castigo destinado a cur-lo do pecado de vaidade. Apertou mentalmente as mandbulas, decidido a aceitar o que 
viesse com fora e com tanta humildade como pudesse. Ainda assim no pde evitar alongar uma mo exploratoria (ou o que fora que estava usando como mo) para ver 
onde terminava agora o membro. 
A mo chocou com algo duro; os dedos se embaraaram em um cabelo mido e enredado. Incorporou-se bruscamente e, com algum esforo, rompeu a capa de sangue seco que 
lhe selava as plpebras. A memria voltou numa enxurrada, fazendo-lhe rosnar em voz alta. Tinha-se equivocado. Estava no inferno, sim. Mas desgraadamente James 
Fraser no estava morto, depois de tudo. 
Tinha o corpo de um homem cruzado sobre o seu. O peso morto lhe achatava a perna esquerda, o qual explicava a ausncia de sensibilidade. A cabea, pesada como uma 
bala de canho, descansava de bruos sobre seu abdomem; o cabelo endurecido caa, escuro, sobre o leno molhado de sua camisa. Incorporou-se bruscamente, preso do 
pnico; a cabea rodou com dificuldade at o seu colo e um olho entreaberto olhou cegamente para acima, depois das protetoras mechas de cabelo. 
Era Jack Randall; sua fina jaqueta vermelha de capito estava to escurecida pela umidade que parecia quase negra.Jamie fez um lerdo esforo por afastar-se ao cadver, 
mas se descobriu assombrosamente fraco; sua mo se esticou debilmente contra o ombro de Randall; o cotovelo do outro brao cedeu de sbito quando tratou de apoiar-se. 
Estava outra vez tombado de costas, com o cu cinza da nevasca vertiginosamente aglomerado no alto. A cabea de Jack Randall se movia obscenamente em seu ventre, 
para acima e para baixo, ao compasso de seu esforo. 
Pressionou com as mos o solo pantanoso (a gua se elevou entre seus dedos, fria, empapando a parte posterior de sua camisa) e se retorceu para um lado. Enquanto 
se debatia no solo, lutando com os vincos enrugados de seu cobertor escocs, chegaram-lhe sons acima do uivar do vento de abril: gritos longnquos e gemidos, como 
um reclamo de fantasmas no vento. E acima de tudo, o barilho grasnido dos corvos. Dzias de corvos, a julgar pelo rudo. 
Aquilo era estranho, pensou difusamente. As aves no voam com semelhante tormenta. Com um esforo final, conseguiu liberar o cobertor de seu corpo e se cobriu com 
ele. Ao esticar-se para cobrir as pernas viu que tinha a saia e a perna esquerda empapadas de sangue. O espetculo no o afligiu; oferecia um mal vago interesse 
pelo contraste das manchas de cor vermelha escuro contra o verde acizentado do marasmo que o rodeava. Os ecos da batalha se esfumaram de seus ouvidos e abandonou 
o campo de Culloden entre o reclamo dos corvos. 
Acordou muito depois ao ouvir chamar o seu nome: 
-Fraser!Jamie Fraser! Est aqui? 
"No", pensou aturdido. "No estou." Onde quer que tivesse estado durante sua inconscincia, era um lugar melhor do que aquele. Jazia num pequeno declive, meio encharcado 
de gua. 
-Eu o vi descer por aqui. Cercado de um grande matagal de aliagas. -A voz soava longe, apagando-se enquanto discutia com algum.
Teve um sussurro em ouvido. Ao girar a cabea viu o corvo na grama, a trinta centmetros de distncia: um borro de plumas negras agitadas pelo vento, que o olhava 
com um olho brilhante. Como se decidisse que ele no representava ameaa alguma, moveu o pescoo com desenvoltura e afundou o bico afiado e gordo no olho de Jack 
Randall. 
Jamie se agitou com um grito de asco que ps o corvo em fuga dando grasnidos de alarme. 
-Sim!Por ali! 
Um chapeado no solo pantanoso, uma cara ante ele, e a bem-vinda sensao de uma mo no ombro. 
-Est vivo! Vem, MacDonald! Vem, me d uma mo. No poder caminhar sozinho. 
Eram quatro. Levantaram ele com bastante esforo; seus braos pendiam, inertes, sobre os ombros de Ewan Cameron e Iain Mac-Kinnon. 
Teria preferido dizer-lhes que o deixassem; ao acordar tinha recordado sua inteno de morrer. Mas a doura daquela companhia era irresistvel. O descanso tinha 
devolvido a sensao de sua perna dormente, fazendo-lhe compreender a gravidade da ferida. De qualquer modo morreria cedo; graas a Deus, no teria que o fazer s, 
na escurido. 
-gua? -Notou a borda da xcara nos lbios. Incorporou-se o suficiente para beber, com cuidado de no derramar a gua. Uma mo lhe oprimiu a testa durante um segundo 
e se retirou sem comentrios. 
Estava ardendo; quando fechava os olhos podia sentir as chamas por trs deles. Os arrepios acordavam os demnios que dormiam em sua perna. 
Murtagh. Tinha uma sensao horrvel com respeito a seu padrinho, mas nenhuma recordao que lhe desse forma. Murtagh tinha morrido; sabia que assim foi, mas ignorava 
como ou por que o sabia. A metade do exrcito das Terras Altas tinha morrido, massacrado; ao menos, isso deduzia pelo que conversavam os homens no estbulo, ainda 
que por sua vez no recordava a batalha. No era a primeira vez que combatia com um exrcito e sabia que essa perda de memria no era estranha entre os soldados, 
ainda que nunca a tivesse experimentado pessoalmente. 
-Tudo vai bem, Jamie? -Ewan, ao seu lado, incorporou-se sobre um cotovelo, plida a cara preocupada  luz da aurora. Uma bandagem manchado de sangue lhe rodeava 
a cabea; tinha marcas enferrujadas na gola da camisa, pelo atrito de uma bala no couro cabeludo. 
-Sim, eu me arranjo. -lanou uma mo para tocar Ewan no ombro, em sinal de gratido. Ewan lhe deu umas palmadas e voltou acostar-se. 
Quatro dos homens falavam baixinho ao lado da nica janela. 
-Tratar de correr? -disse um, assinalando para fora com uma cabeada-. Por Deus, homem, o que melhor est mal pode andar. E seis de ns no esto em condies de 
dar um passo. 
-Se podes fugir, faa -disse um homem do fundo. Assinalou com uma careta sua prpria perna, envolvida nos restos de uma colcha maltrapilha - No fique por ns. 
Duncan MacDonald se afastou da janela com um sorriso lgubre, mexendo a cabea. A luz da janela recortava os rasgos rudes de seu rosto, acentuando as rugas da fadiga. 
-No, esperaremos -disse - Para comear, os ingleses multiplicam-se como piolhos por aqui; da janela se v em bandos. Neste momento ningum poderia escapar inteiro 
de Drumossie. 
-Nem sequer os que fugiram ontem do campo de batalha podero chegar longe -interveio MacKinnon com suavidade - No ouviu as tropas inglesas que passavam pela noite, 
a marcha forada? Acredita que lhes custariam muito derrubar o nosso miservel grupo? 
Ante isso no teve resposta; todos a conheciam demasiado bem. Antes da batalha j eram muitos os escoceses que mal podiam manter-se em p, debilitados como estavam 
pelo frio, a fadiga e a fome. 
Jamie voltou a cara  parede, rezando para que seus homens tivessem partido com tempo suficiente. Lallybroch estava muito longe; se conseguiam distanciar-se bastante 
de Culloden era improvvel que os pegassem. No entanto, Claire lhe tinha dito que as tropas de Cumberland assolariam as Terras Altas, adentrando-se muito por sua 
sede de vingana. 
Esta vez, ao pensar nela s sentiu uma onda de terrvel nostalgia.Deus, t-la aqui, sentir suas mos curando minhas feridas, acolhendo-me a cabea em seu colo! Mas 
ela se foi; estava a duzentos anos de distncia... Graas ao Senhor! As lgrimas lhe gotejaram lentamente entre as plpebras fechadas. 
"Senhor, que esteja a salvo", rezou. "Ela e o nosso filho." 
A meia tarde, o ar se carregou subitamente de cheiro a queimado; entrava pela janela sem vidros, mais denso do que a fumaa de plvora negra, picante, com um cheiro 
vagamente horrvel, por sua lembrana a carne assada. 
-Esto queimando os mortos -disse MacDonald. No tempo todo que ficavam na cabana ele mal se tinha afastado de seu assento junto  janela. Ele mesmo parecia uma caveira, 
com o cabelo negro pelo carvo e amassado como a terra, recolhido para atrs para descobrir um rosto entre os que assomavam todos os ossos. 
Aqui e l, no marasmo, soavam estalos leves. Disparos de pistola. Os tiros de graa, administrados pelos oficiais ingleses dotados de alguma compaixo, antes de 
que um pobre diabo vestido de tartn xadrez fosse jogado  pira, com seus camaradas mais afortunados. Quando Jamie levantou os olhos, Duncan MacDonald continuava 
sentado junto  janela, mas tinha os olhos fechados. 
A seu lado, Ewan Cameron se benzeu. 
-Queira Deus que ns recebamos a mesma misericrdia -sussurrou.
Assim foi. Mal passado o meio dia da segunda jornada, uns ps calados com botas se aproximaram  casa; a porta se abriu. 
-Por Deus. -Foi uma exclamao sufocada ante a cena que se via dentro da casa. A corrente de ar que entrou pela porta agitou o ar fedorento dos corpos, esfarrapados 
e cobertos de sangue, estendidos ou encurvados no solo de terra aplainada. 
Ningum tinha mencionado a possibilidade de uma resistncia armada; no tinham nimos e seria intil. Os jacobitas ficaram sentados, esperando conhecer a vontade 
do visitante.
Era um comandante, limpo e reluzente com seu uniforme passado e suas botas lustradas. Depois de um momento de vacilao para vistoriar os habitantes, entrou seguido 
de perto por seu tenente. 
-Sou lorde Melton -disse olhando ao seu arredor, como se procurasse o lder daqueles homens, a quem seria mais correto dirigir seus comentrios. 
Duncan MacDonald, depois de devolver-lhe a olhada, levantou-se com lentido e inclinou a cabea. 
-Duncan MacDonald, de Glen Richie -disse-. E os outros -fizeram um aceno com a mo-, que faziam parte das foras de Sua Majestade, o rei Jacobo. 
-Isso eu imaginava -disse o ingls seco. Era jovem, de uns trinta anos, mas tinha o porte e a segurana de um militar avezado. Olhou deliberadamente aos homens, 
de um a um; depois afundou a mo em sua jaqueta para pegar um papel enrolado- Aqui tenho uma ordem de Sua Excelencia, o duque de Cumberlad -disse- Autorizando a 
execuo imediata de qualquer homem que tenha participado da traidora rebelio que acaba de terminar. -Percorreu uma vez mais com a vista aos confns da cabana - 
H aqui algum que se proclame inocente da traio? 
Teve um levssimo seguro de riso entre os escoceses. Inocentes, com a fumaa da batalha ainda enegrecendo-lhes a cara? Ali,  beira do matadouro?
-No,milord -disse MacDonald com um ligeiro sorriso nos lbios-. Traidores, todos. Vai ter que nos enforcar, no? 
Melton contraiu a cara numa pequena careta de desgosto; depois voltou a sua impasividade. Era um homem leviano, de ossos finos, apesar que levava bem a autoridade. 
-Vamos fuzilar -disse- Voces tem uma hora para prepara-los. -Vacilando, olhou ao seu tenente, como se temesse parecer muito generoso ante o subordinado, mas continuou_: 
Se algum de vocs deseja escrever uma carta, vir o escrevente de minha Companhia. 
Depois de saudar brevemente ao MacDonald com a cabea, girou sobre seus calcanhares e se retirou. 
Foi uma hora lgubre. Uns poucos aproveitaram do oferecimento de pluma e tinta. Outros oravam em silncio ou se limitavam a esperar, sem levantar-se. 
MacDonald tinha implorado misericrdia para Giles McMar-tin e Frederick Murray, argumentando que mal tinham dezessete anos e que no podiam ser castigados igual 
aos seus maiores.
A solicitao foi negada; os moos permaneciam sentados com as costas contra a parede, plidos e tomados pelas mos. 
Jamie sentiu um profundo pesar por eles... e pelos outros que estavam ali, amigos leais e soldados valentes. Por ele s experimentava alvio. Essa misria fsica 
estava a ponto de terminar. 
Mais por salvar as formas que por necessidade, fechou os olhos para rezar o Ato de Contrio em francs, como sempre o fazia: 
"Mon Dieu, je regrette..." Mas no se arrependia de nada. Era demasiado tarde para arrependimentos. 
Perguntou se ao morrer se encontraria imediatamente com Claire. Ou talvez, como esperava, estaria condenado por um tempo  separao. Esquecendo a orao, comeou 
a conjurar seu rosto depois das plpebras: a curva da bochecha e a tmpora, essa frente larga e despejada que sempre o incitava a beij-la, justo ali, nesse ponto 
suave entre as sobrancelhas, entre os claros olhos ambarinos. 
Mais tarde regressou Melton, desta vez seguido por seis soldados, alm do tenente e o escrevente. Uma vez mais se deteve na soleira da porta, mas MacDonald se levantou 
antes de que pudesse dizer. 
-Eu serei o primeiro -disse. E cruzou a cabana com passo firme. No entanto, quando inclinou a cabea para cruzar a porta, lorde Melton lhe apoiou uma mo na manga. 
-Me d o seu nome completo, senhor? Meu empregado tomar nota. 
MacDonald deu uma olhada ao escrivente, com um sorriso amargo tratando de aparecer em sua boca. 
-Uma lista de trofus, no? Bem. -Encolheu-se de ombros erguendo as costas- Duncan William MacLeod MacDonald, de Glen Richie. -Fez uma corts reverncia a lorde 
Melton- A seu servio... senhor. 
Cruzou a porta. Pouco depois se ouviu um disparo a curta distncia. 
Aos moos permitiu irem juntos, pegados com fora nas mos. Os demais foram tirados de um a um; a cada qual se perguntou o nome para que o escrivente pudesse registr-lo. 
Quando chegou a vez de Ewan, Jamie esforou-se para incorporar-se sobre os cotovelos e lhe estreitou a mo com tanta fora como pde. 
-Cedo voltaremos a nos ver -sussurrou. 
Ewan Cameron tremia a mo mas se limitou a sorrir. Depois se inclinou para beijar a mo de Jamie na boca e saiu. 
Ficavam os seis que no podiam caminhar. 
-James Alexander Malcolm MacKenzie Fraser -disse ele com lentido para que o escrivente tivesse tempo de anot-lo bem- Senhor de Broch Tuarach. -Soletrou com pacincia; 
depois levantou os olhos para Melton.
-Devo pedir milord, a cortesia de me ajudar a pr-me em p. 
Melton, em vez de responder-lhe, olhava-o fixamente; sua expresso de remoto desgosto tinha dado passo a uma mistura de assombro e de algo parecido ao horror. 
-Fraser? -repetiu- De Broch Tuarach? 
-Esse sou eu -confirmou Jamie com pacincia. No se daria um pouco de pressa aquele homem? Uma coisa era resignar-se a ser fuzilado e outra muito diferente era escutar 
matando aos teus amigos; aquilo no acalmava os nervos, precisamente. 
-Por todos os diabos -murmurou o ingls. Inclinou-se para olhar bem a Jamie, que jazia  sombra da parede. Depois fez uma sinal ao seu tenente. 
-Ajuda-me a lev-lo  luz -ordenou. 
No o fizeram com suavidade; Jamie grunhiu durante o trajeto, que lhe provocou um raio de dor desde a perna esquerda at a coronilha. Aturdido, no escutou o que 
Melton lhe estava dizendo. 
- Voce  o jacobita que chamam  de Jamie o Ruivo? -perguntou outra vez, com impacincia. 
Aquilo provocou um relmpago de medo em Jamie; que se tomassem conhecimento de que era o conhecido Jamie o Ruivo no o fuzilariam. O levariam A Londres para julg-lo, 
encadeado, como botim de guerra. Depois, com a corda do carrasco  jazer no cadafalso, at que lhe abrissem o ventre e lhe arrancassem as entranhas. Suas barrigas 
expeliu outro estrondo longo e ressonante; a elas tambm no lhe agradava a idia. 
-No -disse com tanta firmeza como pde reunir- Vamos terminar de uma vez? 
Melton, sem prestar ateno, deixou ele cair sobre os joelhos para rasgar a gola da camisa. Depois pegou o Jamie pelo cabelo e lhe jogou a cabea para atrs. 
-Maldio! -disse, fincando-lhe um dedo acima da clavcula. Ali tinha uma pequena cicatriz triangular, que parecia ser a causa da preocupao de seu interrogador. 
-James Fraser, de Broch Tuarach; cabelo ruivo e uma cicatriz de trs centmetros no pescoo. -Melton lhe soltou o cabelo e se sentou sobre os calcanhares, esfregando 
o queixo com ar distrado. Depois, j tomada a deciso, voltou-se para o tenente e fez sinal com um gesto aos cinco homens que restavam na cabana. 
-Levem os demais -ordenou. Tinha as loiras sobrancelhas unidas numa profunda ruga. Se ergueu ante Jamie enquanto levavam os outros prisioneiros escoceses. 
-Tenho que pensar -murmurou- Maldita seja tenho que pensar! 
-Faa se podes -disse Jamie- Por minha parte, preciso encostar-me. -Tinham o erguido e tinha as costas apoiadas na parede mais afastada e as pernas esticadas, mas 
aquela posio era mais do que podia suportar depois de ter estado dois dias estendido de costas. Inclinou-se para um lado para deslizar-se para o solo. 
Melton murmurava baixo e Jamie no chegou a distinguir as palavras; de todas formas, no lhe interessavam muito. Assim, sentado  luz do sol, tinha-se visto a perna 
com clareza pela primeira vez; estava quase seguro de que no viveria o suficiente para que o enforcassem. 
O vermelho intenso da inflamao se estendia desde a metade da coxa para acima, bem mais visvel do que as manchas de sangue seco. A ferida em si estava purulenta; 
como j tinha diminudo o fedor dos outros homens, era-lhe possvel perceber o cheiro enjoativo do pus. De qualquer modo, uma rpida bala na cabea parecia mil vezes 
prefervel  dor e ao delrio da morte causada pela infeco. Adormeceu, com a terra fresca sob a bochecha ardente, fresca e reconfortante como o peito de uma me. 
No estava realmente dormindo, seno sonolento pela febre, mas a voz de Melton em seu ouvido lhe despertou bruscamente. 
-Grey -disse a voz- John William Grey! Recordas esse nome? 
-No -disse ele, desorientado pelo sonho e a febre- Olha,vai me matar ou no? Estou enfermo. 
-Perto de Carryarrick. -A voz de Melton o incitava com impacincia- Um jovenzinho, um moo loiro de uns dezesseis anos. Encontrou ele no bosque. Jamie olhou para 
o seu torturador. A febre lhe distorcia a viso, mas lhe pareceu ver algo vagamente familiar naquele rosto de finos ossos e olhos grandes, quase de menina. 
-Ah -disse resgatando uma cara de entre as torrentes imagens que se aglomerava erraticamente em seu crebro- o mocinho que queria me matar. Sim, eu recordo.
Fechou os olhos outra vez. Devido  febre, uma sensao parecia fundir-se com outra. Uma vez tinha quebrado o brao de John William Grey; a recordao do delicado 
osso sob sua mo se converteu no antebrao de Claire, ao arranc-la entre as pedras. A brisa fresca e brumosa lhe acariciou a cara como os dedos de Claire. 
- Desperta, maldito sejas! - A cabea lhe balanou sobre o pescoo. Melton o sacudia com impacincia.-Escuta-me! 
Jamie abriu os olhos, fatigado. 
-Sim? 
-John William Grey  meu irmo -disse Melton-. Ele me falou de seu encontro contigo. Voce perdou-lhe a vida e ele te fez uma promessa.  verdadeiro?
Com grande esforo, Jamie deixou seus pensamentos para trs. Tinha encontrado o menino dois dias antes da primeira batalha da rebelio, a vitria escocesa de Prestonpans. 
Os seis meses decorridos desde ento pareciam um vasto abismo, pelas muitas coisas que tinham sucedido naquele tempo. 
-Me Recordo, sim. Prometeu matar-me. No me incomodaria que o fizesses por ele. 
Estavam caindo as plpebras. Tinha que permanecer desperto para que o fuzilassem? 
-Disse que tinha uma dvida de honra contigo. E  verdadeiro. -Melton se levantou, sacudindo as joelheiras das calas de montar, e se voltou para o tenente que observava 
o interrogatrio com evidente desconcerto.
-Que situao desgraada, Wallace. Este... este jacobita  famoso. No ouviu falar de Jamie o Ruivo? A figura nos cartazes? 
O tenente assentiu, olhando com curiosidade a silhueta desalinhada que jazia sobre o p, a seus ps. Melton sorriu com amargura. 
-No, agora no parece to perigoso, no ? Mas ainda assim  o Ruivo Jamie Fraser. A sua pessoa lhe causaria bons gozos, informando de que temos um prisioneiro 
to ilustre. Ainda no acharam o Carlos Stuart, mas quantos jacobitas conhecidos sero igualmente gratos para as multides de Tower Hill. 
-Devo enviar uma mensagem a seu respeito? -O tenente alongou a mo para a caixa das mensagens. 
- No! - Melton virou de costas fulminando com o olhar seu prisioneiro - A est o problema! Apesar de ser excelente  carne de priso, esta runa malcheirosa  tambm 
o homem que capturou o menor de meus irmos, preto de Preston, e em vs de mat-lo, que ra o que ele merecia, lhe poupou a vida e o devolveu a seus companheiros. 
Desse modo - falou entre dentes - minha famlia contraiu uma maldita dvida de honra.
- Meu deus - disse o tenente - Assim, no podeis entreg-lo a Sua Alteza, depois de tudo.
-No, maldito seja! No posso sequer fuzilar a esse cretino sem faltar ao juramento de meu irmo!
O prisioneiro abriu um olho.
-Pode faltar com ele; no lhe direi nada - sugeriu. E voltou a fech-lo rapidamente.
-Cale-se! - J tendo perdido completamente a calma, Melton chutou o prisioneiro, que lanou um gemido diante do impacto, porm no disse mais nada.
-Poderamos fuzil-lo com um nome falso - sugeriu o tenente numa tentativa de ajudar.
Lord Melton lanou ao seu assistente um olhar fulminante de desdm. Logo deu uma olhada pela janela para calcular a hora.
-Dentro de trs horas ter escurecido. Supervisionarei o enterro dos outros executados. Busca-me uma carroa pequena e cheia de feno. Consegue um carroceiro. Escolhe 
uma pessoa discreta, Wallace, e...subornvel. Quero que esteja aqui com o veculo enquanto escurece.
-Sim, senhor. Eh.... Senhor? Que faremos com o prisioneiro? - O tenente sinalizou com timidez o corpo estendido no cho.
- Carroa? - O prisioneiro mostrava sinais de vida. De fato, diante do estmulo da agitao havia conseguido apoiar-se sobre um cotovelo - Para onde me envias?
Melton se virou diante da porta com um profundo olhar de desgosto.
-s o senhor de Broch Tuarach, no? Bom, pois pra l te envio.
-Mas eu no quero ir para casa! Quero que me fuzile!
Os ingleses se entreolharam.
-Delira - disse o subordinado.
Melton assentiu.
-Duvido que sobreviva  viajem, porm ao menos sua morte no cair sobre a minha conscincia.
A porta se fechou com firmeza atrs dos ingleses, deixando a Jamie Fraser muito s... e com vida.







SE INICIA A BUSCA

CAPTULO 2

Invemess
2 de maio de 1968


- Claro que morreu! -A voz de Claire soava spera pela agitao e retumbava com fora no estudo mdio esvaziamento, produzindo ecos entre as prateleiras cheias de 
livros revirados. Estava apoiada na parede revestida de cortia, como uma prisioneira que esperasse ao peloto de fuzilamento, olhando alternativamente a sua filha 
e a Roger Wakefeld. 
-No creio.- Roger se sentia terrivelmente cansado. Depois de esfregar a cara com uma mo, recolheu uma pasta da escrivaninha que continha toda a investigao que 
tinha feito desde que Claire e sua filha lhe pediram ajuda, trs semanas atrs. 
Folheou lentamente o contedo. Os jacobitas de Culloden. O Levantamento de 1745. Os valentes escoceses que se tinham agrupado sob o estandarte de Carlos Stuart, 
o Bonnie Prince, atravessando Esccia como uma espada flamejante... s para cair na runa e na derrota contra o duque de Cumberland, no pramo cinza de Culloden. 
-Toma -disse retirando vrias pginas juntas. A arcaica escritura parecia estranha na nitidez do xerox- Aqui tem o contra-cheque do regimento de Lovat. 
Estendeu as folhas a Claire, mas foi Brianna, sua filha, quem as pegou voltando as pginas, com uma leve ruga entre as sobrancelhas ruivas. 
-L este encabeamento -disse Roger-. Onde diz "Oficiais". 
-Est bem. "Oficiais" -leu ela em voz alta-: "Simn, filho de Lovat..." 
-O Jovem Zorro -interrompeu Roger-. O filho de Lovat. E mais cinco nomes, no? 
Brianna o olhou levantando uma sobrancelha, mas continuou com a leitura. 
-"William Chisholm Fraser, tenente; George D'Amerd Fra-ser Shaw, capito; Duncan Joseph Fraser, tenente; Bayard Murray Fraser, comandante." -Fez uma pausa para engulir 
saliva antes de ler o ltimo nome-. "James Alexander Malcolm Mackenzie Fraser. Capito." -Baixou os papis, um pouco plida- Meu pai.
Claire se aproximou para estreitar o brao. Ela tambm estava plida. 
-Sim - disse a Roger- Sei que foi a Culloden. Quando me deixou ali..., no crculo de pedra..., pensava voltar ao campo de Culloden para resgatar os seus homens, 
que estavam com Carlos Stuart. E sabemos que o fez. -Apontou com a cabea a pasta da escrivaninha, limpa e inocente a superfcie de manilha  luz do lustre - Voce 
achou seus nomes. Mas... mas... Jamie... -Pronunciar o nome em voz alta parecia comov-la; fechou os lbios com fora. 
Agora cabia a Brianna dar apoio a sua me. 
-Disse que tinha inteno de regressar. -Seus olhos alentadores, de um azul escuro, estavam fixos na cara de Claire- Queria tirar os seus homens do campo e depois 
voltar  batalha. 
A me assentiu, recobrando-se um pouco. 
-Sabia que no eram muitas as possibilidades de escapar; se fosse pego pelos ingleses..., disse que preferia morrer em combate. Essa era sua inteno. -Voltou-se 
para Roger; seus olhos ambarinos eram inquietantes. Pareciam olhos de falo, como se ela pudesse ver bem mais longe do que a maioria- No posso crer que no morreu 
ali. Morreram tantos...! E ele queria! 
Quase a metade do exrcito das Terras Altas tinha morrido em Culloden, derrubados por uma rajada dos canhes e fogo dos mosquetes. Mas Jamie Fraser, no. 
-No -disse Roger com obstinao-. Esse fragmento do livro de Linklater que eu li... -Alongou a mo para um volume branco, titulado O prncipe do Urzal -. "Depois 
da batalha -leu-, dezoito oficiais jacobitas feridos se refugiaram numa velha casa, perto do firmamento. Ali penaram durante dois dias, com as feridas sem curar. 
Ao terminar esse perodo foram tirados para fora e fuzilados. Um homem chamado Fraser, do regimento de Lovat escapou  matana. O resto foi sepultado no limite do 
parque agregado." V? -adicionou, olhando com severidade s duas mulheres acima do livro-. Um oficial do regimento de Lovat. 
Pegou as folhas do contra-cheque.
- E aqui esto! S seis. Agora bem: sabemos que o homem da velha casa no pode ter sido o jovem Simn, porque  um personagem histrico muito conhecido e estamos 
bem inteirados do que lhe sucedeu. Retirou-se do campo de batalha com um grupo de seus homens, sem ferida alguma, e marchou para o norte, combatendo, at chegar 
ao castelo de Beaufort, perto daqui. - Exibiu-se vagamente o brilho de Invemess, que tremeluzia debilmente na enorme janela. _ O homem que escapou do estbulo de 
Leanach tambm no era um dos outros quatro oficiais: William, George, Duncan nem Bayard. Por que? -Tirou outro papel da pasta para abanar quase triunfalmente- Porque 
todos eles morreram em Culloden! Os quatro foram executados no campo; seus nomes aparecem numa placa da igreja de Beauly. 
Claire deixou escapar um longo suspiro; depois se instalou no velho cadeiro de couro, por trs da escrivaninha.

-Jesus bendito -disse. Inclinou-se para frente com os olhos fechados, apoiando os cotovelos na escrivaninha, e escondeu a cabea entre as mos; o cabelo castanho, 
denso e encaracolado, caiu ocultando-lhe a cara. Brianna lhe ps uma mo nas costas, preocupada. Era uma moa alta, de ossos grandes, e sua longa cabeleira ruiva 
cintilava  luz clida do lustre. 
-Se no morreu... -comeou vacilando. 
Claire levantou bruscamente a cabea.
-Morreu, com certeza! -disse. Tinha a cara tensa, com pequenas rugas visveis arredor dos olhos-. Por Deus, passaram duzentos anos. Tenha morto em Culloden ou no, 
j no existe! 
Ante a veemncia de sua me, Brianna deu um passo atrs, baixando a cabea; o cabelo ruivo, como o de seu pai, ficou pendurando junto  bochecha. 
-Suponho que sim -sussurrou. 
Roger notou que estava contendo as lgrimas. Tinha uma explicao: se inteirar em to pouco tempo de que, primeiro, o homem ao que tinha amado e chamado "papai" 
toda sua vida no era seu pai; segundo, que seu verdadeiro pai era um escocs que viveu nas Terras Altas duzentos anos atrs; e terceiro, que provavelmente tinha 
perecido de alguma maneira horrvel,longe da esposa e da filha por quem se tinha sacrificado, isso disquicia qualquer um, pensou Roger. 
Cercou a Brianna para tocar-lhe o brao. Ela o olhou tratando de sorrir e Roger a rodeou em seus braos.
Claire seguia sentada ante a escrivaninha, imvel. Os dourados olhos de falo tinham agora uma cor mais suave, pela lonjura da recordao. Descansavam olhando sem 
ver a parede oriental do estudo, ainda coberta desde o cho at o teto de notas e memorandos deixados pelo reverendo Wakefield, o defunto pai adotivo de Roger. 
O historiador pigarreou um pouco. 
-Eh... Se Jamie Fraser no morreu em Culloden... -disse. 
- provvel que morresse muito pouco depois. - Claire o olhou diretamente aos olhos; a serenidade tinha voltado a seus olhos dourados-. Voce no tem idia do que 
foi aquilo. Nas Terras Altas tinha fome; os homens que foram  batalha levavam vrios dias sem comer. Ele estava ferido; isso sabemos. Ainda se escapou, no tinha 
ningum... ningum que o atendesse. -A voz se lhe rompeu ao diz-lo; na atualidade era mdica; por aquele ento, vinte anos antes, ao sair do crculo de pedras para 
encontrar seu destino junto a James Fraser, era curandeira.
Roger era muito consciente das duas presenas: a moa alta e trmula que tinha entre os braos e a mulher da escrivaninha, to quieta e serena. Tinha viajado atravs 
das pedras, atravs do tempo; foi suspeita de espionagem, presa por bruxaria, arrebatada, por umas inconcebveis estranhas circunstncias, dos braos de Frank Randall, 
seu primeiro esposo. E trs anos depois James Fraser, seu segundo esposo, tinha enviado-a novamente atravs das pedras, gestante, num desesperado esforo por salv-la, 
e salvar a criana que ia nascer, do iminente desastre que cedo sucederia. 
Sem dvida alguma, pensou, a mulher tinha passado por muitas coisas. Mas Roger era historiador. Tinha a curiosidade insacivel e amoral do erudito demasiado potente 
para deixar-se restringir pela simples compaixo. 
-Se no morreu em Culloden -seguiu com firmeza-, talvez eu possa averiguar que lhe sucedeu. Quer que eu tente?
Esperou, sem alento, notando atravs da camisa a clida respirao de Brianna. 
Jamie Fraser tinha tido uma vida e uma morte. Roger se sentia escuramente obrigado a averiguar toda a verdade; as mulheres de Jamie mereciam saber tudo o possvel 
sobre ele. Para Brianna, esse conhecimento era tudo o que poderia ter do pai ao que nunca tinha conhecido. E para Claire... Por trs da pergunta que tinha formulado 
estava a idia que, obviamente, ela no tinha captado, aturdida como estava ainda pela impresso: j tinha cruzado duas vezes a barreira do tempo. Era possvel que 
o fizesse outra vez. E se Jamie Fraser no tinha morrido em Culloden... 
Viu que o pensamento chuviscava no mbar turvo de seus olhos. Ela passou longo momento sem falar. Sua vista permaneceu fixa em Brianna por um instante. Depois voltou 
 cara de Roger. 
-Sim -disse com um sussurro to suave que mal pde escut-la-. Sim, Averigua, por favor. Averigua.





Franca e Plena Revelao

CAPTULO 3

Inverness
9 de maio de 1968

A ponte sobre o rio Ness tinha um denso trnsito para pedestres, muita gente voltava a sua casa para tomar o ch. Roger caminhava diante de mim, protegendo-me dos 
empurres com seus largos ombros. 
Me palpitava com fora o corao a capa rgida do livro que eu levava apertado contra o peito. Assim era cada vez que me detinha ao pensar no que estava fazendo. 
No estava segura de qual das duas alternativas era pior: descobrir que Jamie tinha morrido em Culloden ou descobrir que tinha sobrevivido. 
As tbuas da ponte soavam num eco sob nossos ps enquanto voltvamos ao casaro. Doam-me os braos pelo peso dos livros que levava; passava de um lado ao outro. 
-Cuidado, homem! -gritou Roger apartando-me com destreza de um trabalhador que, montado numa bicicleta, tinha-se lanado pela ponte e esteve a ponto de atirar-me 
contra o balastre. 
-Perdo! -foi seu grito de desculpa. E o ciclista sacudiu a mo acima do ombro, enquanto a bicicleta ia em encontro a dois grupos escolares que voltavam para casa. 
Olhei para trs para ver se via a Brianna, mas no tinha sinais dela. 
Roger e eu tnhamos passado a tarde numa Reunio para Conservao de Antigidades e Brianna tinha ido ao escritrio de Cls das Terras Altas para fazer xerox de 
uma lista de documentos recopilados por Roger.
- muito amvel em dar-se o trabalho, Roger -disse elevando a voz para me ouvir acima do rudo da ponte e o rumor do rio. 
-No  nada -disse. Deteve-se esperando que eu o alcanasse - Sou curioso -adicionou com um ligeiro sorriso. - J sabe como so os historiadores: no podemos deixar 
passar uma charada. 
E sacudiu a cabea para afastar o cabelo escuro dos olhos, revolto pelo vento, sem utilizar as mos. 
Eu sabia como eram os historiadores; tinha convivido com um durante vinte anos. Frank tambm no teria deixado passar aquela charada, mas tambm no esteve disposto 
a solucion-lo. De qualquer modo, Frank tinha morrido dois anos atrs e agora tinha chegado a mim vez e a de Brianna. 
-Teve notcias do doutor Linklater? -perguntei enquanto descamos pelo arco da ponte. Apesar de tarde, o sol ainda estava alto naquela zona to setentrional. 
Roger sacudiu a cabea, entornando os olhos para proteg-los do vento.
-No, faz apenas uma semana que lhe escrevi. Se no receber notcias suas at segunda-feira, eu telefonarei. No se preocupe. -Sorriu. - Fui muito circunspecto. 
S lhe disse que, para um estudo que eu estava realizando, precisava de uma lista, se existia alguma, dos oficiais jacobitas que estiveram no estbulo de Leianach 
depois de Culloden. E lhe pedi que, se existe alguma informao quanto ao sobrevivente daquela execuo, me remetesse s fontes originais. 
-Conhece pessoalmente o Linklater? -perguntei apoiando os livros no quadril para aliviar o brao esquerdo. 
-No, mas lhe escrevi com um lembrete do Balliol Co-llege e fiz uma sutil referencia ao senhor Cheesewright, meu antigo mentor; ele sim conhece o Linklater. -Roger 
me piscou um olho reconfortantemente e eu ri.
De novo no estudo do defunto reverendo Wakefield, depositei minha braada de livros na mesa e, aliviada, deixei-me cair no cadeiro, junto a lareira, enquanto Roger 
ia  cozinha a procura de um refrigerante. 
Enquanto minha respirao se acalmava; meu pulso, em mudana, seguia sendo inconstante. Contemplei a imponente pilha de livros que tnhamos trazido. Apareceria Jamie 
em algum deles? E nesse caso... "No me antencipando demais", aconselhei-me. " muito melhor esperar ver o que ele consegue descobrir ." 
Roger estava pesquisando as estantes de estudo, em procura de outras possibilidades. Por fim deixou cair a mo sobre uma pilha de livros na mesa prxima. Eram os 
de Frank: uma exibio impressionante, pelo que diziam os elogios impressos nas sobrecapas. 
-Leu este? -perguntou pegando o volume titulado Os jacobitas. 
-No. -Tomei um reconfortante gole de refrigerante e tossi- No, no pude. 
Depois de minha volta eu tinha negado determinadamente a olhar qualquer material relacionado com o passado de Esccia, apesar de que Frank estava especializado, 
entre outras coisas, no sculo XVIII. Sabendo que Jamie tinha morrido, enfrentando  necessidade de viver sem ele, evitei tudo o que pude trazer-me  mente. Era 
intil (a existncia de Brianna era uma lembrana cotidiana), mas ainda assim no podia ler aqueles livros referidos ao Bonnie Prince, aquele jovem terrvel e ftil, 
nem sobre seus seguidores. 
-Compreendo. S me ocorreu que poderia saber se tinha aqui algo til. -Roger fez uma pausa; o rubor se acentuou em seus pmulos. - Teu... eh... teu marido... Frank, 
quero dizer  - acrescentou precipitadamente-  Lhe disse... hum... o de...? -Falhou sua voz, sufocada pelo rubor.
-Claro! -respondi com aspereza-. Que pensas? Depois de trs anos afastada de casa, no era questo de entrar em seu escritrio dizendo: "Oi, querido, o que gostaria 
de jantar?" 
-No, claro que no -murmurou Roger. Voltou-se para os livros. Tinha o pescoo vermelho de vergonha. 
-Desculpa -eu disse respirando fundo- Tua pergunta  normal. S que... ainda di um pouco. 
Muito, na realidade. Surpreendia-me horrorizada o quanto que ainda me doa aquela ferida. Deixei o copo na mesa, junto ao meu cotovelo. Se amos seguir com o tema, 
precisaria algo mais forte do que um refrigerante. 
-Sim, eu disse -continuei- Contei-lhe tudo: as pedras...de Jamie. Tudo. 
Roger demorou um momento em replicar. Depois se voltou, deixando-me ver s as linhas fortes e ntidas de seu perfil, sem olhar-me. Contemplava os livros de Frank, 
a foto da sobrecapa: Frank, delgado, moreno e aposto, sorrindo  posteridade. 
-Ele acreditou? -perguntou baixinho.
Tinha os lbios pegajosos pelo refrigerante. Mas lambi antes de responder. 
-No. Ao princpio, no. Achava que eu estava louca. At me fez visitar um psiquiatra. -Soltei um riso breve, mas a recordao me fez apertar os punhos com fria. 
-E depois? -Roger se voltou para mim. O rubor tinha desaparecido, deixando s um eco de curiosidade nos olhos- O que pensou? 
respirei fundo, fechando os olhos. 
-No sei.
O pequeno hospital de Inverness tinha um cheiro estranho, como a desinfetante e algodo. 
No podia pensar e tratava de no sentir. A volta era bem mais aterrorizador do que minha expedio ao passado, pois ali tinha protegido a capa da dvida e incredulidade 
quanto a onde me encontrava e da estava sucedendo; alm do mais, tinha vivido com a esperana constante de escapar. Agora sabia muito  bem onde estava e tinha a 
certeza de que no tinha maneira de escapar. Jamie tinha morrido.
Os mdicos e as enfermeiras me tratavam com amabilidade; davam-me de comer e me traziam bebidas, mas em mim s tinha espao para a pena e o terror. Tinha-lhes dito 
meu nome, mas no quis falar mais. 
Estendida na cama branca e limpa, mantinha os dedos apertados sobre meu ventre vulnervel e os olhos fechados. Recordava uma e mais uma vez as ltimas coisas que 
tinha visto antes de cruzar entre as pedras (o pramo chuvoso e a cara de Jamie), sabendo que, se olhasse muito tempo o novo ambiente que me rodeava, aquelas imagens 
se desvaneceriam, substitudas por coisas mundanas: as enfermeiras, o ramo de flores junto a minha cama... Disimuladamente, apertava um polegar contra a base do 
outro, achando um pequeno consolo na ferida que tinha ali, um pequeno corte com forma de J. Que Jamie tinha feito e ele  pediu a minha: o ltimo de seus contatos 
em minha carne.
Devia ter permanecido algum tempo assim; s vezes dormia, sonhando com os ltimos dias do Levantamento Jacobita; revia o morto no bosque, dormido sob um cobertor 
de fungos muito azuis, e A Dougal MacKenzie, agonizando no solo de um desvo, na casa Culloden, e aos homens esfarrapados do exrcito das Terras Altas, dormindo 
nas valas lodosas, o ltimo descanso antes da matana. 
Por fim abri os olhos. Frank estava ali, no vo da porta, alisando o cabelo com uma mo. Eu o via desconcertado... e no era de estranhar, pobre homem.
Me recostei nos travesseiros, observando-o sem falar. Parecia com seus antepassados, Jack e Alex Randall: feies ntidas e aristocrticas, cabea bem formada sob 
o cabelo abundante, escuro e escorrido. No entanto, em sua cara tinha uma diferena indefinivel com respeito a eles, alm da leve diferena de feies. Nele no 
existia a marca do medo nem da crueldade; nem a espiritualidade de Alex nem a glacial arrogncia de Jack. Sua cara delgada parecia inteligente, bondosa e algo cansada; 
estava com olheiras e sem barbear. Soube, sem que ningum me dissesse, que tinha passado a noite ao volante para chegar at ali. 
-Claire? -Aproximou-se  cama, falando vacilante, como se no estivesse seguro de que eu fora realmente Claire. 
Eu tambm no estava segura, mas assenti. 
-Oi, Frank. -Minha voz soava rouca e rude, como se no estivesse acostumada a falar. 
Ele me pegou numa mo e eu a deixei. 
-Voce est... bem? -perguntou depois de um minuto, com o cenho franzido.
-Estou grvida. -A minha mente desordenada, esse lhe pareca o ponto mais importante. No tinha pensado em que dizer ao Frank se voltasse a v-lo, mas quando o vi 
ante a porta isso pareceu ficar claro. Lhe diria que estava grvida e ele iria embora, deixando-me s com minha ltima imagem do rosto de Jamie, com seu ardente 
contato na mo. 
Seu rosto  se ps um pouco tenso, mas no me soltou a mo. 
-Eu sei. Me disseram. -Respirou fundo e deixou escapar o ar.- Pode me dizer o que aconteceu,Claire? 
Por um momento fiquei em alvo e me encolhi. 
-Suponho que sim-disse. Com fadiga, ordenei meus pensamentos, no queria falar disso, mas tinha certas obrigaes com aquele homem. No me sentia culpada, ainda 
no; obrigada sim. Tinha estado casada com ele.
-Bom -eu disse- Me apaixonei por outro e me casei com ele. Ele sentou -vi em resposta  expresso de horror que lhe cruzou a cara. - No pude evitar. 
Ele no esperava isso. Abriu a boca e voltou a fech-la. Apertava-me a mo com tanta fora que a retirei, fazendo uma careta. 
-O que queres dizer? -perguntou com voz spera.- Onde esteve, Claire? -Levantou-se subitamente, erguendo-se junto  cama. 
-Lembra que a ltima vez em que me viu eu ia ao crculo de pedras de Craigh na Dun? 
-Sim? -Olhava-me com uma mistura de raiva e desconfiana. 
-Bom... -passei a lngua pelos lbios; estavam muito secos.- A verdade  que, nesse crculo, entrei numa pedra fendida e terminei em 1743.
-No se faa de palhaa, Claire! 
-Pensa que  uma piada? -A idia era to absurda que me joguei a rir, ainda que me sentia muito longe de tomar-me as coisas com humor. 
-Chega! 
Deixei de rir. Como por arte de magia duas enfermeiras apareceram na porta; deviam de ter estado espreitando no corredor. Frank se inclinou para apertar o meu brao. 
-Escuta -disse entre dentes.- Quero que me diga onde esteve e o que tens feito. 
-Estou te dizendo. Me Solta! -Incorporei-me na cama e soltei meu brao. - J te disse: cruzei uma pedra e acabei duzentos anos atrs. E ali conheci o teu maldito 
antepassado Jack Randall. 
Frank piscou, completamente desconcertado. 
-Quem?
Jack Randall, o Black Jack. E era um pervertido, sujo e asqueroso! 
Frank tinha ficado boquiabierto, igual as enfermeiras. Ouvi passos que vinham pelo corredor, depois delas, e vozes apressadas. 
-Tive que me casar com Jamie Fraser para escapar de Jack Randall, mas depois... Jamie... No o pude evitar, Frank; me apaixonei por ele e teria ficado ao seu lado 
se tivesse podido. Mas ele me enviou de volta por causa de Culloden e pelo beb, e... -Me interromp; um mdico com bata cruzou a porta, afastando s enfermeiras. 
-Eu sinto muito, Frank - eu disse fatigada.- No queria que passasse tudo isso. Fiz o possvel para voltar, de verdade, mas no pude. E agora  muito tarde. 
Contra minha vontade, as lgrimas se acumularam em meus olhos e comearam a rolar pelas bochechas. Quase todas por Jamie, por mim mesma e pelo filho que esperava, 
mas tambm algumas por Frank. Sorvi pelo nariz, engulindo com fora, numa tentativa de me conter, e me ergui na cama.
-Veja - eu disse-, sei que no queres saber nada mais de mim e no te critico. Simplesmente... vai embora? 
Tinha mudado de cara. J no parecia aborrecido, seno inquieto e algo desconcertado. Sentou-se junto  cama, sem prestar ateno ao mdico, que tinha entrado e 
procurava o meu pulso. 
-No vou -disse com muita suavidade. E voltou a pegar-me a mo, ainda que eu tratava de retir-la.- Esse tal... Jamie. Quem era? 
Respirei fundo e entrecortadamente. 
-James Alexander Malcolm MacKenzie Fraser -disse espaando as palavras com formalidade, tal como as tinha pronunciado Jamie a primeira vez que me disse seu nome 
completo..., no dia de nosso casamento. A idia me trouxe novas lgrimas; mas sequei com o ombro, pois no dispunha das mos.
-Era um escocs das Terras Altas. O ma...mataram... em Culloden. 
No serviu de nada: estava chorando outra vez; as lgrimas no constituam um calmante para a dor que me destroava, seno a nica reao possvel ante um sofrimento 
insuportvel. Inclinei-me um pouco para frente, tratando de envolver aquela pequena e imperceptvel vida que tinha no ventre, o nico que ficava de Jamie Fraser. 
Frank e o mdico trocaram olhares do quanto parecia que eu estava mal. Para eles, naturalmente, Culloden fazia parte de um passado remoto. Para mim tinha acontecido 
mal dois dias antes. 
-Deveramos deixar que a senhora Randall descansasse um pouco -sugeriu o mdico-. Neste momento parece estar um pouco alterada.

Frank nos olhou sem saber o que fazer. 
-Bom,  verdade que parece alterada. Mas quero averiguar... O que  isto, Claire? 
Ao acariciar a minha mo tinha descoberto o anel de prata em meu dedo anular e se inclinou para examin-lo. Era o anel que Jamie me tinha dado no casamento: uma 
larga faixa de prata com o desenho entrecruzado das Terras Altas, pequenas flores de cardo estilizadas, gravadas nos elos. 
-No! -exclamei presa de pnico ao ver que Frank tratava de tirar do dedo. Arranquei a mo e protegi o punho sob o seio, coberto pela mo esquerda, onde ainda tinha 
a aliana de ouro que Frank tinha me presenteado. - No, no pode me tirar. No vou permitir!  meu anel de casamento! 
-Olha, Claire... 
O mdico interrompeu, chegou perto dele e se inclinou para murmurar algo ao ouvido. Captei algumas palavras: 
-... No incomode a sua esposa justamente agora. O choque...
Um momento depois Frank estava novamente em p, firmemente conduzido para fora pelo mdico, que ao passar fez um sinal a uma das enfermeiras. 
Mal senti a picada da agulha hipodrmica, no estado como eu estava numa onda de pesar. Ouvi vagamente as palavras com que se despedia Frank: 
-Est bem, Claire, mas vou investigar! 
Depois desceu a bendita escurido e dormi sem sonhar durante muito tempo. 
Roger se inclinou a garrafa, enchendo o copo at a metade, e entregou a Claire com um leve sorriso. 
-A av de Fiona dizia sempre que o whisky  bom para todos os males. 
-Vi remdios piores. -Ela pegou o copo e lhe devolveu o sorriso. 
Roger tomou um gole e se sentou ao seu lado, absorvendo sua bebida em silncio.
-Fiz para ele ir embora, sabe? -disse ela baixando o copo-. Eu disse que compreenderia se seus sentimentos por mim tinham mudado, acreditando ou no. Ofereci o divrcio; 
que se fosse, que me esquecesse, que reiniciasse a vida que tinha comeado a construir sem mim. 
-E ele no quis -disse Roger. Ao descer o sol, comeava a fazer frio no estudio. Agachou-se para acender a antiga estufa eltrica.- Por tua gravidez? -Adivinhou. 
Claire lhe deu uma rpida olhada. Depois sorriu com ironia. 
-Isso. Disse que s um canalha era capaz de abandonar uma mulher grvida e sem recursos. Sobretudo se sua viso da realidade parecia algo tnue -acrescentou risonha-. 
Eu no estava sem recursos, tinha um pouco de dinheiro de meu tio Lamb. Mas Frank tambm no era um canalha. 
Seus olhos se desviaram at as estantes de livros. Ali estavam as obras histricas de seu marido, com os lombos cintilantes  luz do lustre.
-Era um homem muito decente -concluiu com suavidade. E tomou um gole mais, fechando os olhos ao subir dos vapores alcolicos-. Ainda mais, sabia ou suspeitava que 
no podia ter filhos. Um verdadeiro golpe para um homem to dedicado  histria e s genealogias. Com todas essas idias dinsticas, no? 
-Sim, compreendo -disse Roger com lentido-. Mas no sentia...? Isto ..., o filho de outro homem... 
-Talvez. -Os olhos de mbar voltaram a olh-lo, algo amaciados pelo whisky e as reminiscncias.- Mas como no sentia, nem podia crer em nada do que eu dissesse sobre 
Jamie, essencialmente a criana seria filho de pai desconhecido. Se ele ignorava quem era esse homem (e se convenceu de que eu tambm no sabia, de que tinha inventado 
essas alucinaes por efeito do choque traumtico), ento ningum diria que a criana no era sua. Eu no -acrescentou com uma deixa de amargura.
Tomou um grande gole do whisky, que a fez lacrimejar um pouco, e enxugou os olhos. 
-Mas a verdade  que me levou longe. A Boston. Tinham-lhe oferecido um bom posto em Harvard onde ningum nos conhecia. Ali nasceu Brianna. 
O choro nervoso me acordou mais uma vez. Tinha voltado  cama s seis e meia, depois de levantar-me cinco vezes pela noite para atender  menina. Uma lenta olhada 
ao relgio me revelou que eram sete horas. Pelo banheiro surgia uma alegre cano: a voz de Frank se elevava em "Rule, Britannia", acima do rudo da gua corrente. 
Permaneci na cama, com os membros pesados pelo esgotamento, perguntando-me se teria foras necessrias para suportar o pranto at que Frank sasse do chuveiro e 
me trouxesse a Brianna. Mas o pranto subiu de tom e se converteu num grito.
Cruzei pesadamente o corredor gelado at o quarto do nen. Brianna, de trs meses, estava estendida de costas, gritando a pleno pulmo. Aturdida pela falta de sonho, 
demorei um momento ao recordar que a tinha deixado de bruos. 
-Querida! Voce se virou sozinha! -Aterrorizada por sua audcia, Brianna agitou os punhosinhos rosados e gritou com mais fora, apertando os olhos. 
Levantei ela depressa para dar-lhe palmadinhas nas costas, murmurando sobre a penugem ruiva que lhe cobria a cabea. 
-Oh, minha pequena pedra preciosa! Que menina to inteligente! 
-O que foi? -Frank saiu do banho secando a cabea e com uma segunda toalha envolta no quadril-. Algum problema com Brianna?
Aproximou-se de ns com cara de preocupao. Perto do nascimento, ns dois tnhamos estado nervosos: Frank, irritado; eu, aterrorizada. No tnhamos idia do que 
podia suceder entre ns logo que nascesse o filho de Jamie Fraser. Mas quando a enfermeira pegou a Brianna de seu bero e a entregou a Frank dizendo: "Aqui est 
a menina do papai", ele ficou com a cara sem expresso; depois, ao olhar o pequeno rostinho, perfeita como um pimpolho, ficou maravilhado. Menos de uma semana a 
menina j era sua, em corpo e alma. 
Voltei-me para ele, sorrindo. 
-Ela deu a volta! Sozinha! 
-De verdade? -Refulga de prazer-. No  muito cedo para que ela faa isso? 
-Sim. Segundo o doutor Spock, no deveria ter feito at o ms que vem, pelo menos.
-Bom, o que sabe esse doutor Spock? Vem aqui, minha preciosa; d um beijo no papai por ser to precoce. 
Levantou o corpinho suavemente, envolvido em seu pijama rosado, e deu um beijo na ponta do nariz. Brianna espirrou e ns dois rimos. 
Ento fui consciente de que era minha primeira risada em todo um ano. Mais ainda: era a primeira vez que eu ria com Frank. 
Ele tambm o notou; seus olhos se encontraram com os meus acima da cabea de Brianna. Eram de um suave cor avel e nesse momento estavam cheios de ternura. Sorri, 
um pouco trmula, alerta pelo fato de que ele estava quase nu, com gotas de gua deslizando-se pelos ombros delgados e brilhando na pele morena e suave do peito.
Os dois perceberam simultaneamente o cheiro a queimado. Isso nos arrancou da bem-aventurana domstica. 
-O caf! -Frank ps a Bree em meus braos, sem nenhuma cerimnia, e saiu disparado para a cozinha, deixando ambas as toalhas feitas um vulto aos meus ps. Eu segui 
lentamente, levando a Bree apoiada no ombro. 
Estava de p ante a pia da cozinha, nu, entre uma nuvem de vapor que surgia da cafeteira chamuscada. 
-Que tam um ch? -sugeri, acomodando destramente a Brianna em meu quadril com um brao, enquanto voltava ao aparador- Que droga acabou; s tem de saquinho. 
Frank fez uma careta; sendo ingls at os tutanos, teria preferido lamber a gua sanitria do que tomar ch de saquinhos.
-No, posso tomar uma xcara de caf no caminho para a universidade. A propsito: lembra que nesta noite viro jantar o reitor e sua esposa? A senhora Hinchcliffe 
traz um presente para Brianna. 
-Est bem -eu disse sem entusiasmo. J tinha tratado com os Hinchcliffe e no estava muito desejosa de repetir a experincia. 
Brianna afundou o nariz sobre o meu peito em cima de minha bata vermelha, emitindo pequenos rosnados. 
-No pode ser que tem fome outra vez - Mamou no faz nem duas horas. 
-A senhora Hinchcliffe diz que no  conveniente alimentar um beb cada vez que chora -observou Frank- Se no ensinar a respeitar os horrios, ficam malcriados. 
-Bom, ento ser uma malcriada, no? -repliquei com frieza e sem olh-lo. A boquinha rosada se fechou com fora e Brianna comeou a mamar com despreocupado apetite. 
A senhora Hinchcliffe tambm opinava que dar o peito era vulgar e anti-higinico.
Frank suspirou sem insistir. 
-Bom -disse incmodo - Voltarei antes das seis. Quer que eu traga algo para te poupar de sair? 
Dei-lhe um breve sorriso. 
-No, posso me virar. 
-Est bem. 
Vacilou um momento enquanto eu acomodava a Bree em meu colo, com a cabea no espao de meu brao; a curva de sua cabea reproduzia a de meu peito. Ao afastar os 
olhos da menina descobri que ele estava me observando apaixonadamente, com um olhar fixo na redondeza do meu seio semidescuberto. 
Eu tambm o correspondi. Ao detectar um comeo de excitao sexual, inclinei a cabea sobre a pequena para ocultar meu rubor. 
-Adeus -murmurei sem olh-lo.
Ficou imvel um momento; depois se inclinou para frente e me deu um beijo na bochecha; o calor de seu corpo nu me inquietava. 
-Adeus, Claire -disse suavemente- At a noite. 
Como no voltou  cozinha antes de sair, pude terminar de dar o peito a Brianna e tratar de pr um pouco de ordem em meus prprios sentimentos. 
Desde minha volta no tinha visto Frank nu, pois se vestia sempre no banho ou no closet. At essa manh tambm no tinha tratado de beijar-me. Como a minha gravidez 
foi dos que os ginecologistas denominam "de alto risco", ele no pde compartilhar minha cama, ainda no caso de que eu estivesse estado disposta...,mas no estava. 
A menina era nosso interesse compartilhado, um ponto atravs do qual podamos contatar de imediato, mas mantendo a mnima distncia. Ao que parece, essa distncia 
mnima j era excessiva para Frank.
Eu podia fazer..., fisicamente ao menos. A semana anterior, com uma piscada e uma palmada no traseiro, o mdico me tinha assegurado que podia retomar "as relaes" 
com meu esposo quando quisesse. 
Sabia que Frank no tinha sido fiel desde meu desaparecimento. Ainda no chegava aos cinquenta anos; era delgado, moreno e musculoso, um homem muito charmoso. Nas 
festas, as mulheres se aglomeravam ao seu arredor como abelhas em torno do mel, emitindo pequenos murmrios de excitao sexual. Mas ele tinha sido discreto. Sempre 
passava a noite em casa e cuidava de no se apresentar com manchas de lpis labial no pescoo da camisa. Agora que tinha intenes de lanar-se afundo. Ao que parece 
tinha certo direito; talvez no era meu dever, j que eu era novamente sua esposa? 
S existia um pequeno problema. Quando eu acordava pela noite, no era a Frank quem eu procurava.
-Jamie -sussurrei- Oh,Jamie. 
Minhas lgrimas crepitavam na luz matinal, enfeitando a penugem ruiva de Brianna como prolas e diamantes espalhados. 
No foi um bom dia. Brianna tinha uma feia irritao devido aos cueiros. Tinha que a levantar continuamente. Mamava e alvoroava alternativamente; a intervalos vomitava, 
deixando manchas molhadas e pastosas em toda minha roupa. Antes das onze eu j tinha mudado trs vezes a blusa. 
O pesado sustento da mama me incomodava nas axilas e tinha os mamilos frios e rachados. No meio de minha laboriosa limpeza, a caldeira morreu com rudo sibilante 
sob as tbuas do solo.
-No, a semana que vem no pode ser -eu disse por telefone a oficina de reparos. Olhei para a janela, onde o frio nevoeiro de fevereiro ameaava filtrar sob o parapeito 
para devorar-nos-. Aqui dentro faz menos cinco graus e tenho uma menina de trs meses. Est ouvindo chorar? 
-Est bem, senhora -disse uma voz resignada ao outro lado da linha-. Irei esta tarde, entre as doze e as seis. 
-Entre as doze e as seis? No pode indicar uma hora mais precisa? Tenho que ir ao mercado -protestei. 
-A sua no  a nica caldeira rompida da cidade, senhora -disse a voz com deciso. 
Apertando os dentes, liguei ao mercado que fazia entregas a domiclio e pedi o necessrio para preparar o jantar. Depois levantei  menina, que naquele momento tinha 
a cor de uma beringela e cheirava notoriamente mau.
-Tudo bem, tesouro.- Me  apoiei no ombro para dar palmadinhas, mas os gritos continuavam. No se podia criticar, pobrezinha; tinha o traseiro quase em carne viva. 
Como Brianna no podia dormir mais de dez minutos seguidos, eu tambm no podia. s quatro, quando adormecemos, nos acordou com uma estrondosa chegada o homem que 
vinha consertar a caldeira: bateu a porta sem se incomodar em deixar sua enorme chave inglesa. 
Sustentando  menina com um brao, comecei a preparar o jantar com a outra mo livre, acompanhada pelos gritos em minha orelha e os rudos violentos que vinham do 
poro. 
-No lhe prometo nada, senhora, mas por agora ter calefao. -O homem da caldeira apareceu bruscamente, limpando uma mancha de gordura da testa enrugada.
Meia hora depois, o frango jazia em sua pia, recheado e lambuzado, rodeado de alho picado, raminhos de alecrim e cascas de limo. Depois de jogar um jorro de limo 
sobre a pele untada de banha, pude coloc-lo no forno e iniciar a tarefa de me vestir. A cozinha parecia ter tido um assalto, com os armrios abertos e todas as 
superfcies horizontais cheias de louas. Fechei violentamente um par de aparadores e, por fim, a porta da mesma cozinha, confiando que isso mantivesse fora do alcane 
 senhora Hinchcliffe, se os bons modos no bastavam. 
Frank tinha comprado um vestido novo para Brianna. Era um bonito traje rosado, dei uma olhada duvidosa no encaixe do pescoo. Pareciam um pouco speras mas tambm 
delicadas. 
-Bom, vamos provar -eu disse-. Papai quer que esteja muito bonita. Tratamos de no vomitar, n?
Ela piscou com uns gorgorejos tentadores. Para dar-lhe gosto, baixei a cabea e lhe fiz "Pufff" no umbigo, no qual se retorceu de prazer. Fizemos vrias vezes antes 
de iniciar o penoso trabalho de coloc-la no vestido rosado. 
A no agradou a Brianna; comeou a se queixar quando eu passei o vestido pela cabea. Quando passei nos braos rechonchudos pelas mangas enchidas, ela jogou a cabea 
para atrs com um grito penetrante. 
-O que foi? -perguntei sobressaltada. A essa altura j conhecia todos seus gritos e o que significavam,um pouco mais ou menos. Mas esse era novo; estava carregado 
de medo e dor. 
- O que foi,querida? 
Agora gritava furiosamente, com lgrimas escorrendo pela rosto. Ao levant-la vi uma longa linha vermelha no interior do brao que ela agitava. No vestido tinha 
ficado um alfinete e eu acabei de abrir a pele ao subir-lhe com a manga.
-Oh, querida! Oh, me perdoa! Mame sente muito! -Banhada em lgrimas, retirei o alfinete, vacilando entre a fria e a aflio. Levei Brianna ao dormitrio e me encostei 
em uma das duas cama, a minha, para pr rapidamente uma saia decente e uma blusa limpa. 
O campanhia soou quando eu estava colocando os sapatos. Tinha um buraco no calcanhar, mas j no tinha tempo para solucion-lo. Meti os ps nuns ajustados sapatos 
de lagarto e, pegando a Brianna, fui abrir. 
Era Frank, to carregado de pacotes que no podia usar a chave. Com uma s mo, aliviei-o da maior parte e amontoei tudo na mesa do hall.
-O jantar j est pronto, querida? Trouxe uma toalha de mesa e guardanapos novos; achei que o jogo velho estava um pouco surrado. E aqui est o vinho. 
Pegou a garrafa com um sorriso; depois se inclinou para me olhar. Deixando de sorrir, olhou com reprovao o meu cabelo desalinhado e minha blusa, recm manchada 
por um vmito de leite. 
-Por Deus, Claire -disse-, no pode se arrumar um pouco? Afinal de contas, voce est em casa o dia todo sem outra coisa pra fazer. No podia tomar uns minutos pra... 
? 
-No -disse em voz bem alta. 
Deixei em seus braos a Brianna, que choramingava outra vez, nervosa pelo cansao. 
-No -repeti. 
Peguei a garrafa de vinho de sua mo. 
-NO! -gritei batendo o cho com um p.
Balancei a garrafa com um gesto amplo. Agachou a cabea, mas foi o batente da porta que eu golpeei. Voaram salpicos purpro de Beaujolais e lascas de vidro cintilaram 
 luz da entrada. 
Atirei a garrafa quebrada entre as azaleias e sa correndo no meio do nevoeiro gelado, sem casaco. No extremo do caminho cruzei com os assombrados Hinchcliffe, que 
chegavam com meia hora de antecipao, provavelmente com a esperana de surpreender-me em alguma deficincia domstica. Oxal que desfrutassem o jantar.
Fui sem rumo pelo nevoeiro, com a calefao do carro a todo vapor, at que comecei a ficar sem gasolina. No queria voltar pra casa; ainda no. Uma dessas cafeterias 
que esto abertas toda a noite? Ento me dei conta de que era sexta-feira noite e de que era muito tarde. Ainda, tinha um lugar a ir. Virei para trs, para o subrbio 
onde vivamos, rumo  igreja de San Finbar. 
-San Finbar? -tinha dito Frank incrdulo-. Esse santo no existe. No  possvel. 
-Existe -eu disse presuno-. Foi um bispo irlands do sculo XII. 
-Ah, irlands -replicou depreciativo-. Isso se explica. O que no posso entender - acrescentou tentando agir com tato- ... eh... bom, por que? 
-Por que, o que? 
-Por que isso da Adorao Perptua? Nunca foi devota, no mais do que eu. Voce no vai a missas nem nada disso. O pai Beggs me pergunta por voce todas as semanas.
Sacudi a cabea. 
-No saberia explicar, Frank. Simplesmente...,  algo que preciso fazer. -Olhei-o incapaz de me expressar adequadamente-. Ali h... paz. 
Ele abriu a boca para dizer algo mais, mas me deu as costas mexendo a cabea. 
Tinha paz, sim. O estacionamento da igreja estava deserto, sem contar o carro do nico devoto que estaria de turno quela hora. Ajoelhei-me por trs dele; era um 
homem corpulento, com uma capa de chuva amarelo. Pouco depois se levantou e, depois de fazer uma meditao ante o altar, dirigiu-se para a porta, saudando-me brevemente 
com a cabea ao passar. 
Fechei os olhos escutando o silncio. 
Tudo o que tinha sucedido durante o dia passava pela minha mente, num grande desencadeamento de idias e sensaes. Por fim, como costumava me ocorrer ali, deixei 
de pensar.
-Oh, Senhor -sussurrei-, peo a tua misericrdia a alma de teu servidor James. -"E a minha", acrescentei em silncio. "E a minha." 
Permaneci sentada, sem me mover, at que ouvi os passos suaves do seguinte *adorador, que se aproximava  pelo corredor. Vinham em cada hora, dia e noite. O Bendito 
Sacramento no devia ficar s. 
Enquanto me dirigia para os fundos da capela, vi uma silhueta na ltima fila,  sombra da esttua de Santo Antonio. Ao aproximar, moveu-se; depois se ps em p e 
saiu ao meu encontro. 
-O que fazes aqui? -susurrei. 
Frank apontou com a cabea ao novo adorador, que j estava ajoelhado, e me pegou pelo cotovelo para me guiar para fora. 
Esperei que fechasse a porta da capela antes de girar para olh-lo de frente.
-O que significa isto? -exclamei, com raiva-. Por que veio me procurar? 
-Estava preocupado contigo. -Sinalizou o estacionamento vazio, onde seu grande Buick guardava protetoramente junto ao meu pequeno Ford.-  perigoso que uma mulher 
ande s a esta hora por esta parte da cidade. Vim para te levar pra casa. Nada mais. 
No mencionou os Hinchcliffe nem falou do jantar. Meu aborrecimento cedeu um pouco. 
-Ah. E o que fizeste com Brianna? 
-Pedi a nossa vizinha, a velha senhora Munsing, que estivesse alerta caso chorasse. Mas parecia dormir profundamente. Vm, que faz frio aqui fora. 
-Nos veremos em casa -eu disse.
Quando entrei para ver a Brianna, havia um silencio no quarto. Ainda dormia, mas notei ela um pouco inquieta. 
-Comea a ter fome -sussurrei a Frank, que se tinha aproximado por trs e a olhava afetuosamente acima de meu ombro-. Ser melhor de que eu lhe d o peito antes 
de me deitar, assim dormir at mais tarde. 
-Vou te trazer algo quente. 
Enquanto eu levantava o vulto clido e sonolento, ele desapareceu pela porta da cozinha. 
Tinha tomado em  um s peito, mas estava com sono. Por muito que eu falasse ou a sacudisse suavemente, no acordou o suficiente para mamar do outro peito; assim 
que a coloquei no bero, dando palmadinhas nas costas at que emitisse um arroto satisfeito, seguido pela respirao pesada da satisfao absoluta. 
-Esta noite no vai acordar, verdade? -Frank a cobriu com o cobertor decorado com coelhinhos amarelos.
-Sim. -Sentei-me na cadeira, muito exausta, fsica e mentalmente, para levantar-me outra vez. Frank se deteve ao meu lado e ps a sua me leve em meu ombro. 
-Assim que ele morreu? -perguntou com suavidade. 
"Te disse que sim", ia responder. Mas me interrompi e fechei a boca. Limitei a assentir com a cabea, mecionei lentamente com os olhos fixos no bero escuro em sua 
pequena ocupante. 
Ainda tinha o seio direito dolorosamente enchido de leite. Com um suspiro de resignao, alonguei a mo para o extrator de leite, um artefato de borracha, feio e 
ridculo. 
Dispensei Frank com um aceno. 
-Anda, saia. Demorarei s uns minutos, mas tenho que... 
Em vez de me responder ou retirar-se, ele tirou o extrator da mo para deix-lo na mesa. Depois, inclinando a cabea, fixou suavemente os lbios em meu mamilo. Lancei 
um gemido, sentindo a ardncia quase dolorosa do leite que corria pelos pequenos condutos. Pus uma mo na nuca para apert-lo um pouco mais a mim.
-Com mais fora -sussurrei. Sua boca absorvia suavemente; no se parecia em nada s implacveis e duras gengivas de um beb. 
Fechei os olhos e me deixei levar pela mar. 
A porta principal do velha casaro se abriu com um chio de gonzos enferrujados, anunciando o regresso de Brianna Randall. Roger se levantou de imediato para sair 
do hall, atrado pelas vozes das moas. 
-Meio quilo da melhor manteiga. Isso  o que me encarregaste de pedir e o fiz, mas existe manteiga pior ou melhor? -Brianna estava entregando uns pacotes a Fiona, 
rindo enquanto falava. 
-Bom, se comprou para esse velho vigarista de Wicklow, esta ser das piores, diga ele o que disser - interrompeu Fiona.-  Ah, trouxe a canela, timo! Ento vou fazer 
pozinhos de canela. Quer ver como preparo?
-Sim, mas antes quero o jantar. Estou morta de fome! -Brianna se ps de p, farejando esperanosa para a cozinha-. Que temos para o jantar? Assados? 
-Assados! Por Deus, na primavera no se comem entranhas, Sassenach tonta! Comem-se no outono, quando se matam as ovelhas. 
-Eu sou uma Sassenach? -Brianna parecia encantada com o termo. 
-Claro, boba. Mas me agrada, apesar de tudo. 
Fiona ria com a cabea levantada para Brianna, que lhe passava quase trinta centmetros. A mida escocesa tinha dezenove anos; era bonita, simptica e um pouco gorda; 
ao seu lado,Brianna parecia uma escultura medieval, por sua seriedade e seus ossos fortes. Com seu nariz longo e reto e a cabeleira refulgindo como ouro avermelhado 
sob o balo de vidro que pendia do teto, teria podido sair de um manuscrito alumiado, to real como se tivesse suportado um milnio sem mudanas.
Roger se deu conta de que Claire estava de p ao seu lado. Olhava a sua filha com uma expresso que se misturavam o amor, o orgulho e algo mais: recordaes, talvez? 
Com uma leve surpresa, pensou que tambm Jamie Fraser teria tido, no s a atraente estatura e o cabelo viking que tinha legado a sua filha, seno tambm, provavelmente, 
a mesma presena fsica. 
Era notvel, pensou. Ela no fazia nem dizia nada para sair-se do normal; no entanto, era inegvel que Brianna atraa  gente. Existia nela certo atrativo quase 
magntico, pelo que todos se sentiam impulsionados a aproximar-se ao fulgor de sua aura. 
-Oi-eu disse sorrindo-. Teve sorte no escritrio dos Cls ou tens estado muito ocupada se fazendo de cozinheira? 
-Cozinheira? -Os olhos de Brianna se rasgaram em azuis tringulos divertidos-. Cozinheira! Primeiro me chamam de Sassenach; agora, cozinheira. Como se chamam os 
escoceses quando querem ser amveis?
-Prrreciosa -respondeu ele, arrastando exageradamente os erres  maneira escocesa. 
As duas garotas riram. 
-Parece um terrier enfadado -comentou Claire-. Encontraste algo na biblioteca dos Cls, Bree? 
-Um monto de coisas -respondeu a moa remexendo nos xerox que tinha deixado na mesa do hall.- Me arrumei para ler a maior parte enquanto tiravam as cpias. A mais 
interessante  esta. 
Tirou uma folha do feixe e a entregou a Roger. Era um extrato de um certo livro sobre lendas das Terras Altas, um artigo encabeado "Salto do Tonel". 
-Lendas? -estranhou-se Claire, olhando acima do ombro de Roger-.  isso o que precisamos?
-Poderia ser -respondeu com ar distrado, pois estava lendo a pgina por cima . Pelo que se refere s Terras Altas de Esccia, a maior parte da histria  oral, 
mais ou menos at mediados do sculo XIX. Isso significa que no se distinguia entre os relatos baseados em personagens histricos e os contos sobre coisas mticas, 
como cavalos aquticos, fantasmas e faanhas do Povo Antigo. Com freqncia, os eruditos que tomavam notas dos relatos no sabiam com certeza de que estavam falando; 
as vezes era uma combinao de mito e realidade; outras vezes se podia notar que o descrito era um fato histrico. 
"Isto, por exemplo -passou o papel a Claire- parece um fato real. Explica como se originou o nome de certa formao rochosa das Terras Altas. 
Claire colocou o cabelo atrs da orelha e inclinou a cabea para ler, vesgueando  luz escassa do teto.
-"Salto do Tonel" -leu Claire-. "Esta estranha formao, situada a certa distncia de um ribeiro, denomina-se assim por um senhor jacobita e seu servente. O senhor, 
um dos poucos afortunados que conseguiu escapar do desastre de Culloden, regressou dificultosamente a sua casa, mas se viu obrigado a permanecer quase sete anos 
oculto numa gruta de suas terras, enquanto os ingleses percorriam as Terras Altas em procura dos fugitivos partidrios de Carlos Stuart. Os arrendatrios do senhor 
guardaram lealmente o segredo de sua presena e lhe levavam comida e provises ao seu esconderijo. Sempre tinham cuidado em referir-se ao fugitivo chamando-o s 
de "O Gorropardo". 
Certo dia, um menino que levava um tonel de cerveja para o senhor, encontrou-se na trilha com um grupo de drages ingleses. Ao negar valorosamente a responder s 
perguntas dos soldados e a entregar seu nus, o menino foi atacado por um dos drages e deixou cair o tonel, que baixou quicando pela empinada colina, at a ribeiro 
abaixo." 
Levantou os olhos do papel, olhando a sua filha com uma sobrancelha levantada. 
-Por que isto? Sabemos..., ou acreditamos saber -corrigiu com uma irnica inclinao de cabea dirigida a Roger- que Jamie escapou de Culloden, mas no foi o nico. 
O que faz pensar que este senhor pde ter sido Jamie? 
-O Gorropardo, imagino -respondeu Brianna, como se a pergunta a surpreendesse. 
-O que? -Roger a olhou intrigado-. O que pensa como Gorropardo? 
Ao modo de resposta, Brianna mexeu numa mecha de seu denso cabelo ruivo e o sacudiu sob o nariz do historiador. 
-Gorropardo! -repetiu impaciente-. Um gorro de cor castanho claro, certo? Usava constantemente um gorro, porque podiam reconhec-lo por seu cabelo ruivo. No diz 
que os ingleses o chamavam "Jamie o Ruivo"? Sabiam que era ruivo. Tinha que esconder a cabea!
Roger a olhou fixamente, emudecido. 
-Pode estar certo -reconheceu Claire. O entusiasmo fazia que lhe brilhassem os olhos - Era como o teu. Jamie tinha o cabelo igual ao teu,Bree. - Alongou uma mo 
para acariciar suavemente a cabeleira de Brianna. A moa suavizou a expresso ao olhar a sua me. 
-Sei -disse- No deixava de pensar enquanto lia. Imaginava v-lo, compreende? Interrompeu-se com um pigarreio como se tivesse engasgado com algo. Via-o ali, escondido 
nos urzais, com o sol refletindo-se em seu cabelo. - Voce disse que tinha sido um proscrito. Me ocorreu..., Me ocorreu que devia saber muito bem como esconder-se. 
Se o procuravam para mat-lo -concluiu com suavidade.
-Correto. -Roger falou com energia para dispersar a sombra que nublava os olhos de Brianna-. Fez um timo trabalho de deduo. Mas talvez possamos comprov-lo se 
trabalharmos um pouco mais. Se localizarmos no mapa o Salto do Tonel... 
-Pensa que sou estpida? -replicou Brianna desdenhosa- J pensei. -A sombra tinha desaparecido, substituda por uma expresso ufana-. Por isso voltei to tarde; 
fiz que o empregado tirasse todos os mapas das Terras Altas que tinham ali. 
Retirou outra folha fotocopiada.
-V?  to pequena que no aparece na maioria dos mapas, mas neste figurava. Justo aqui; aqui est a aldeia de Broch Mordha, que segundo mame est prximo de Lallybroch. 
E aqui... -moveu o dedo mdio um centmetro para assinalar uma linha de letras microscpicas.- V? Voltou a sua fazenda, Lallybroch, e ali se escondeu. 
-No tenho uma lupa a mo -disse Roger dando as costas- estou disposto a crer que a foi "Salto do Tonel", se me d tua palavra. -Olhou a Brianna com um amplo sorriso-. 
Minhas felicitaes. Creio que voce o encontrou... At aqui, ao menos. 
Brianna sorriu, com um brilho suspeito nos olhos. 
-Sim -disse suavemente. E tocou as duas folhas de papel- Meu pai.
Claire lhe estreitou a mo. 
-Voc tem o cabelo de teu pai, alegra-me ver que tens o crebro de tua me -disse sorrindo-. Vamos celebrar tua descoberta com o jantar de Fiona. 
-Bom trabalho -disse Roger a Brianna, enquanto seguiam a Claire para o refeitrio. Apoiou uma mo na cintura- Pode estar muito orgulhosa. 
-Obrigado -replicou ela com um breve sorriso. Mas a expresso pensativa voltou quase de imediato.
-O que foi? -Roger se deteve no hall. 
-Em realidade nada. -Ela se voltou a olh-lo, com uma ruga visvel entre as sobrancelhas ruivas.- S que... estava pensando, tratando de imaginar. Como acha que 
foi aquilo para ele? Passar sete anos numa gruta... 
Movido por um impulso, Roger se inclinou para depositar um leve beijo entre suas sobrancelhas. 
-No sei, querida -disse- Mas talvez possamos averiguar.


























   
   
   
   
   
   
   
                            SEGUNDA PARTE
   Lallybroch
   
   CAPTULO 4


    
    
    
    
    
O Gorropardo


Lallybroch 
Novembro de 1752

Uma vez ao ms, quando algum dos meninos levava a mensagem de que no tinha perigo, ele descia a casa para se barbear. Sempre pela noite, caminhando com os passos 
suaves de uma raposa na escurido. 
Filtrava-se como uma sombra pela porta da cozinha, onde lhe recebiam o sorriso de Ian ou o beijo de sua irm, ento se iniciava a transformao. A cumbuca de gua 
quente e a navalha recm afiada j estavam o esperando na mesa, com o sabo. De vez em quando era sabo de verdade, o seu primo Jared tinha enviado um pouco da Frana; 
com mais freqncia, o sebo irritava os olhos pela fora da gua. 
Sentia iniciar uma mudana com o primeiro aroma da cozinha, to forte e rico depois dos cheiros do lago, o pramo e a lenha, atenuados pelo vento. Mas s ao concluir 
com o rito do barbeado  que se sentia completamente humano mais uma vez.
Havia aprendido a no falar antes de se barbear; as palavras no surgiam facilmente depois de um ms de solido. Tinha algo que pedir e escutar: sobre as patrulhas 
inglesas no distrito, a poltica, as detenes e juzos em Londres e Edimburgo... Mas isso podia esperar. Era melhor falar com Ian sobre a propriedade e com Jenny 
sobre os meninos. Se parecia no ter perigo, faziam descer os meninos para que saudassem o seu tio com abraos sonolentos e beijos midos, antes de voltar cambaleando 
em suas camas. 
-Cedo ser um homem -tinha sido seu primeiro tema de conversa em setembro, sinalizando com a cabea ao filho maior de Jenny, o que levava seu nome. O menino, que 
tinha sete anos, permanecia sentado  mesa, algo coibido e muito consciente da dignidade de ser, pelo momento, o homem da casa. 
-Sim, como que necessito outro desses seres para me preocupar -replicou azedamente sua irm. Mas tocou o seu filho no ombro ao passar com um orgulho que desmentia 
suas palavras.
-No teve notcias de Ian? -Seu cunhado tinha sido preso pela quarta vez, trs semanas antes, e levado a Inverness sob a suspeita de se simpatizar com os jacobitas. 
Jenny sacudiu a cabea, colocando ante ele um prato coberto. 
-No h por que de se preocupar-disse, servindo-lhe docinho de perdiz. Sua voz era serena mas se acentuou ama pequena ruga vertical entre suas sobrancelhas.- Mandei 
Fergus para que lhes mostrem a escritura de transferncia e a constncia de que Ian foi descadastrado por seu regimento. O enviaro para casa quando entenderem que 
no  o senhor de Lallybroch e que nada conseguiro acusando-o. -Depois de lanar um olhar ao seu filho, alongou a mo para a jarra de cerveja-. Para eles ser difcil 
apresentar uma acusao de traio num menino.
Sua voz era lgubre, mas encerrava com um acento de satisfao ao pensar na confuso da corte inglesa. A escritura de transferncia, salpicada da chuva, demonstrava 
que o ttulo de Lallybroch tinha passado do James adulto ao menor; cada vez que aparecia nos tribunais, burlava as tentativas da Coroa de apoderar-se da fazenda 
como propriedade de um traidor jacobita. 
Os ingleses tinham incendiado trs plantaes alm do campo alto. Arrancaram de seus lares a Hugh Kirby e A Geoff Murray para fuzil-los em suas prprias casas, 
sem perguntas nem acusaes formais. O jovem Joe Fraser tinha sido advertido por sua esposa, que viu quando chegaram os ingleses, e passou trs semanas vivendo com 
Jamie na gruta, at que os soldados estivessem bem longe do distrito..., levando assim a Ian. 
Em outubro falou com os meninos maiores: Fergus, o francesinho que tinham o tirado de um bordel de Paris, e Rabbie MacNab, o filho da empregada e grande amigo de 
Fergus.
Enquanto se barbeava tinha visto, pelo canto do olho, a fascinada inveja de Rabbie MacNab, Fergus e o pequeno Jamie, que o observavam com ateno, pouco boquiabertos. 
-Nunca viram um homem se barbeando? -perguntou levantando uma sobrancelha. 
Rabbie e Fergus trocaram olhares; a resposta correu por conta do pequeno Jamie, proprietrio titular da propriedade. 
-Oh, bom... sim, tio -disse ruborizando-se-. Mas... isto ... -gaguejou um pouco, ruborizou-se ainda mais-. Agora papai no est... e ainda quando estava em casa 
no viamos sempre se barbeando... e alm disso, tem tanto cabelo na cara, tio, depois de um ms...  que nos alegramos muito de te ver outra vez e...
Subitamente, Jamie se deu conta de que, para os pequenos, ele devia parecer um personagem de histrias. Viver s numa gruta, sair a caar na escurido, descer na 
bruma da noite, sujo, barbudo e com o cabelo revirado... A essa idade, ser forajido e viver escondido no morro, numa gruta mida, podia parecer uma aventura fascinante. 
Podiam entender o medo, at certo ponto. O medo  captura,  morte. Mas no o medo  solido, ao prprio temperamento,  loucura. 
-Bom, sim -disse, voltando-se com ar indiferente para o espelho-. O homem nasce para sofrer e para se barbear. Uma das pragas de Ado. 
-De Ado? -Fergus fez cara de confuso enquanto os outros fingiam ter alguma idia do que Jamie dizia. De Fergus ningum esperava que soubesse tudo, porque era francs.
-Ah, sim. -Jamie meteu o lbio superior sob os dentes para raspar delicadamente embaixo do nariz-. No princpio, quando Deus criou o homem, o queixo de Ado era 
to limpinho como a de Eva. E os dois tinham o corpo to suave como um recm nascido -acrescentou, vendo que seu sobrinho dava uma olhada em Rabbie. Ele ainda no 
tinha barba, mas o tnue focinho do lbio superior revelava crescimentos em outras partes. 
-Mas quando o anjo da espada flamegou os expulsou do Edn, nem tinham bem cruzado as portas do jardim, os pelos comearam a crescer e a arder no queixo de Ado. 
E desde ento o homem est condenado a barbear-se. -Terminou seu prprio queixo com um garboso movimento final e se inclinou teatralmente ante seu pblico.
-Mas e o outro plo? Por que? -quis saber Rabbie-. A embaixo no se barbeou! 
O pequeno Jamie soltou uma risada aguda, outra vez corado. 
-Ainda bem -observou seu tocaio-. Faria falta uma mo muito firme. Isso sim: no teria necessidade de espelho -acrescentou entre um coro de risos. 
-E as senhoras? -perguntou Fergus. Ao dizer "senhoras" se quebrou a voz num graznido de r que fez rir ainda mais aos outros dois-. As senhoras tambm tm pelo ali 
e no se barbeiam..., geralmente, ao menos -adicionou pensando, obviamente, em algumas das coisas que tinha visto no bordel. 
Jamie ouviu os passos de sua irm no corredor, que se aproximava com o passo lento e bambaleante da gravidez avanada. Trazia a bandeja do jantar sobre seu ventre 
inchado.
-Silncio! -ordenou aos meninos, que interromperam bruscamente os risos. E se adiantou de pressa com a bandeja para p-la na mesa. 
Era um prato apetitoso, com toucinho e carne de cabra; viu que a proeminente pomo de Ado subia e baixava na garganta de Fergus ao sentir o aroma. Sabia que eles 
guardavam a melhor comida para ele; era bvio, era o mais abatido das caras que rodeavam a mesa. Cada vez que ele descia trazia toda a carne que conseguia conseguir: 
coelhos ou galos silvestres caados com armadilha e alguns ovos de maarico; mas nunca era suficiente para aquela casa, cuja hospitalidade devia cobrir as necessidades, 
no s dos seus e dos criados, como tambm das famlias de Kirby e Murray, ambos assassinados. Ao menos at a primavera, as vivas e os rfos de seus arrendatrios 
deviam permanecer ali e a ele lhe correspondia fazer o possvel por aliment-los.
-Senta ao meu lado -disse a Jenny pegando pelo brao para traz-la suavemente at o banco posto junto a ele. Com grande firmeza, cortou um bom pedao de carne e 
ps o prato na frente dela. 
-Mas isso  tudo para voce! -protestou ela-. Eu j comi. 
-No o suficiente. Precisas mais..., pelo beb -disse inspirado. Se no comia por si mesma, o faria pela criana. 
Sua irm vacilou um momento e, sorrindo-lhe, pegou a colher e comeou a comer. 
Corria o ms de novembro; o frio se filtrava pela camisa delgada e as calas de montar que levava postos. Atencioso ao rasto, mal o notou. O cu estava coberto com 
pequenas nuvens, mas a lua cheia dava abundante luz. 
No chovia, graas a Deus; com o rudo do gua ao cair era impossvel ouvir nada, e o aroma penetrante das plantas molhadas disfarava o cheiro dos animais. Seu 
olfato se tinha voltado quase penosamente agudo nos longos meses passados ao ar livre; as vezes, quando entrava na casa, os cheiros pareciam capazes de derrub-lo.
Girou com toda a lentido possvel para o lugar onde seus ouvidos lhe tinham indicado onde estava o veado. Tinha o arco na mo e uma flecha pronta. Poderia disparar 
uma s vez, talvez, quando o animal fugisse. 
Ali! O corao lhe subiu  garganta ao ver os cornos, agudos e negros acima das aliagas. Firmou o corpo, respirou fundo e deu um passo adiante. 
Foi um disparo limpo, felizmente se fincou justo por trs da paleta. Dificilmente teria tido foras para perseguir a um veado adulto ferido. Tinha cado num lugar 
livre, depois de uma mata de aliagas, com as pernas tesas, na forma estranhamente indefesa em que fazem os ungulados moribundos.
Jamie tirou a faca do cinto e se ajoelhou junto ao veado, dizendo apressadamente a orao de Gralloch que lhe tinha ensinado o velho John Murray, o pai de Ian. Com 
a segurana que lhe dava a prtica, levantou o focinho pegajoso com uma mo e, com a outra, cortou o pescoo do animal. Depois, o brusco esforo de mover e estripar 
a rs, o longo talho onde se misturavam fora e delicadeza para abrir o couro entre as patas sem penetrar no saco que encerrava as entranhas. Meteu as mos na rs, 
profanando a intimidade quente e mida, e fez outro esforo para retirar o saco viscoso, que brilhava entre suas mos ao luar. Um talho acima, outro abaixo. E a 
massa ficou livre, na transformao de magia negra que convertia a um veado em carne.
Era um animal pequeno, ainda que sua galhada j tinha pontas. Com um pouco de sorte poderia carreg-lo sozinho, em vez de deix-lo a graa das raposas e dos texugos 
at que pudesse trazer ajuda para transport-lo. Meteu um ombro sob uma das patas e se incorporou com lentido,grunhindo pelo esforo, at acomodar firmemente o 
peso nas costas. 
Sentia-se um pouco mareado. Cada vez lhe afetava mais a desorientao, a fragmentao de si mesmo entre o dia e a noite. Durante o dia era s uma criatura que escapava 
de sua mida imobilidade mediante uma disciplinada e teimosa retirada pelas vias do pensamento e a meditao, procurando refgio nas pginas dos livros. Mas ao sair 
a lua, sucumbindo de imediato s sensaes, emergia, como uma besta de sua guarida, ao ar fresco para correr pelas colinas escuras e caar sob as estrelas, impulsionado 
pela noite, brio de sangue e influxo lunar.
S quando surgiram  vista as luzes de Lallybroch deixou, por fim, que o manto de humanidade casse sobre ele, que mente e corpo voltassem a unir-se, enquanto se 
preparava para saudar a sua famlia.






CAPTULO 5

NOS DO UM MENINO

Trs semanas depois ainda no tinhamos notcias de Ian. Fergus levava vrios dias sem ir  gruta, pelo que Jamie se consumia de preocupao para saber como ia tudo 
na casa. Os veados j tinham desaparecido, com tantas bocas que alimentaram, e a horta rendia muito pouco naquela poca do ano. 
Sua preocupao era tanta que se arriscou fazendo uma visita inesperada; depois de revisar suas armadilhas, desceu das colinas justo antes do crepsculo. Mas, teve 
a prudncia de pr o gorro tecido com uma tosca l parda que lhe protegeria o cabelo de qualquer raio revelador do sol poente. Sua estatura, por si s, podia provocar 
suspeitas, mas no dar certeza, e tinha plena confiana na fora de suas pernas para escapar se tivesse a m sorte de encontrar-se com uma patrulha inglesa. As lebres 
dos urzais no podiam medir foras com Jamie Fraser, estava precavido.
Ao aproximar-se notou que a casa estava estranhamente silenciosa. Faltava o alvoroo habitual dos meninos: os cinco de Jenny e os seis dos arrendatrios, no mencionando 
a Fergus e a Rabbie MacNab, que deixaram a muito tempo de se perseguirem pelos estbulos, gritando como possudos. 
Deteve-se na porta da cozinha, sentindo a casa deserta ao seu arredor. Encontrava-se no hall, com a dispensa em um lado, o tanque ao outro e a parte principal da 
cozinha bem na frente. Permaneceu imvel, aguando todos os sentidos, escutando enquanto inalava os abrumadores aromas da casa. Tinha algum ali: um leve rasgo, 
seguido por um tinido suave e regular, surgia atravs da porta recoberta de pano que retinha o calor na cozinha, impedindo que se filtrasse para a gelada dispensa.
Reconfortado pelo barulho domstico, abriu a porta com cautela, mas sem medo. Jenny, s e grvida, estava de p na frente da mesa, batendo algo numa cumbuca amarela. 
-O que fazes aqui? Onde est a senhora Coker? 
A irm soltou a colher com um grito sobressaltado. 
-Jamie! -Apertou uma mo contra o peito e fechou os olhos, plida. 
-Por Deus! Quase me mata de susto! -Abriu os olhos, de cor azul escuro como os dele, e lhe fincou uma olhada penetrante-O que est fazendo aqui, Virgem Santa? No 
te esperava dentro de uma semana. 
-Faz dias que Fergus no sobe  colina; estava preocupado -disse simplesmente. 
-Voce  um tesouro, Jamie. -Seu rosto estava recobrando a cor. Com um sorriso, se aproximou ao seu irmo para abra-lo.
-Onde esto todos? -perguntou, soltando-a na m vontade. 
-Bom, a senhora Coker morreu -respondeu acentuando a leve ruga entre suas sobrancelhas. 
-? -Jamie se benzeu suavemente- Lamento. -A senhora Coker tinha sido criada primeiro e caseira depois, desde o casamento de seus pais, mais de quarenta anos atrs-Quando? 
-Ontem pela manh. No foi inesperado, pobrezinha, e se foi aprazivelmente. Em sua prpria cama, como queria, com o pai McMurtry orando junto a ela. 
Jamie deu uma olhada reflexiva para a porta que levava para as habitaes do servio. 
-Ainda est ali? 
A irm sacudiu a cabea.
-No. Eu disse ao seu filho que deviam vel-la aqui, na casa, mas os Coker pensaram que, estando as coisas como esto -abrangeu com uma careta a ausncia de Ian, 
o espreito dos ingleses, os arrendatrios refugiados, a falta de comida e a presena de Jamie na gruta-, era melhor faz-lo em Broch Mordha, em casa de sua irm. 
Foram todos ali. Eu disse que no estava em condies de acompanh-los -deu um sorriso amarelo.- Mas em realidade precisava umas horas de paz e silncio. 
-E aqui venho eu, a interromper tua paz -disse Jamie melanclico.-  Queres que eu v? 
-No, cabea de vento -disse a irm afavelmente.- Senta enquanto sigo preparando o jantar. 
-Que tem para comer? -perguntou olfateando com ar esperanoso.
-Depende do que tenhas trazido -replicou Jenny. Moveu-se pesadamente pela cozinha, retirando coisas dos armrios, e se deteve a mexer o grande caldeiro que pendia 
sobre o fogo, do que surgia um vapor tnue. 
-Se trouxe carne, a comeremos. Se no, ser cevada fervida e carne em conserva. 
-Ainda bem que tive sorte -disse ele. Virou sua bolsa e deixou cair os trs coelhos na mesa, um vulto inerme de pelagem cinza e orelhas cadas- E amoras -disse virando 
o contedo de seu gorro pardo, manchado por dentro por uma substncia vermelha. 
A Jenny iluminou os olhos.
-Claro que posso -respondeu sua irm, distrada, enquanto folheava o volume- Mas quando falta a metade das coisas necessrias, as vezes encontro aqui algo que eu 
posso usar. Normalmente prepararia o molho com vinho, mas s tem um tonel no "buraco da cura" e no quero toc-lo. Poderia fazer-nos falta. 
Ele no perguntou para que. Um tonel de vinho podia engraxar as engrenagens para que liberassem a Ian ou, ao menos, para conseguir notcias suas. Distrado, inclinou-se 
para o caldeiro para submergir a faca no lquido fervente; depois o secou. 
-Por que fez isso, Jamie? -Jenny o estava olhando. 
-Ah -disse ele aparentando indiferena enquanto pegava um dos animais-. Claire me ensinou a lavar as facas em gua fervendo antes de tocar os alimentos com eles.
Sem ver, sentiu que ela levantara as sobrancelhas. S uma vez lhe tinha perguntado por Claire, quando voltou de Culloden, um pouco consciente e quase morto de febre. 
"Se foi", tinha sido sua resposta, afastando o rosto. "No volte a mencionar o nome dela." Leal como sempre, Jenny no fazia e ele tambm no. Ignorava por que acabava 
de pronunciar seu nome, a no ser fora de seus sonhos. 
Teria podido jurar que as vezes acordava com o cheiro dela no corpo, almiscarado e intenso, sempre misturado com um fresco aroma a ervas verdes. Mais de uma vez 
tinha ejaculado sua semente enquanto sonhava, coisa que o deixava um pouco envergonhado e intranqilo. Para distrao de ambos sinalizou o ventre de Jenny. 
-Quanto falta? -perguntou carrancudo- Voce parece uma gaita: um toque e puf! 
-Sim? Ah se fosse to fcil. -Arqueou as costas, esfregando a cintura, e seu ventre se projetou de uma maneira alarmante. Ele se apertou contra a parede para dar-lhe 
espao.- Ser em qualquer momento, suponho. Nunca se sabe com exatido.
Pegou uma xcara para medir a farinha e notou que na bolsa tinha muito pouca. 
-Quando comear, manda-me chamar  gruta -disse subitamente.- Vou descer, com ingleses ou sem eles. 
Jenny deixou de mexer para olh-lo. 
-Para que? 
-Bom, Ian no est aqui -apontou Jamie pegando um dos coelhos esfolados. Com a destreza da prtica, desarticulou uma coxa e, com trs rpidos golpes, a carne plida 
ficou aplanada, pronta para o docinho. 
-De pouco me serviria t-lo aqui -sussurou ela- J ocupou de sua parte faz nove meses. -Olhando a seu irmo com o nariz franzido, pegou o prato com a banha. 
Jamie no pde resistir a tentao de apoiar levemente a mo naquela curva monstruosa para perceber os poderosos pontaps do habitante, impaciente por abandonar 
seu encerro.
-Me manda Fergus quando chegar o momento -repetiu. 
Ela o olhou com exasperao e lhe afastou a mo com um golpe de colher. 
-No acabei de dizer que no preciso? Por Deus, homem, muitas preocupaes eu j tenho, com a casa cheia de gente, mal o indispensvel para aliment-la, Ian preso 
em Inverness e os ingleses rondando as janelas cada vez que me dou uma volta. Devo me preocupar tambm com o risco de te pegarem? 
-Por mim no se preocupe. Sei me cuidar -assegurou sem olh-la. 
-Bom, se sabe se cuidar, fique na colina. J tive seis filhos. No v que posso me arranjar?
-Com voce no se pode discutir -acusou. 
-No -replicou ela de imediato.Assim ficando por l.
-Verei. 
-Voce deve de ser o tonto mais teimoso da Esccia. 
Pela rosto de seu irmo se estendeu um enorme sorriso. 
-Pode se dizer que sim -disse dando-lhe umas palmadinhas no ventre enorme.- E pode se dizer que no. Mas vou vir. Quando chegar o momento, me envia Fergus. 
Trs dias depois, ao amanhecer, Fergus subiu com custo at a gruta, ofegando e perdendo a trilha na escurido. Fez tanto rudo entre as aliagas que Jamie o ouviu 
muito antes de que chegasse. 
-Milord... -comeou sem alento ao aparecer no extremo da trilha.
Mas Jamie j o tinha deixado para trs e descia apressadamente para a casa, jogando-se o manto pelos ombros. 
-Mas milord... -ouviu-se a voz do garoto depois dele, ofegante e assustado-. Os soldados... 
-Que soldados? -Jamie se deteve bruscamente. 
-Drages ingleses, Milord. Milady me manda dizer que no abandone a gruta sob nenhum motivo. Um dos homens os viu ontem, acampados cerca de Dunmaglas. 
-Malditos sejam. 
-Sim, milord. -Fergus se sentou numa pedra para abanar-se, seu estreito torso palpitava aceleradamente. 
Jamie vacilava. Todos seus instintos se negavam a voltar  gruta.
-Hum... -murmurou olhando a Fergus. Nele se percebia certa suspeita. Por que sua irm lhe mandava Fergus a uma hora to estranha? A resposta era bvia: temia no 
estar em condies de enviar-lhe a mensagem  noite seguinte. 
-Como est minha irm? -perguntou. 
-Oh, bem, milord, muito bem! -O caloroso tom da afirmao confirmou as suspeitas de Jamie. 
-Est a ponto de ter o menino, no? 
-No, milord, claro que no! 
Jamie firmou uma mo no ombro de Fergus. Os ossos pareciam pequenos e frgeis sob seus dedos; recordou, incmodo, os coelhos que tinha picado para Jenny. 
-Me diz a vedade -exigiu! 
- verdade, milord!
A mo apertou inexoravelmente. 
-Ela ordenou que no me dissesses? 
A proibio de Jenny devia ter sido literal, pois Fergus respondeu a essa pergunta com evidente alvio. 
-Sim, milord! 
-Ah. -Jamie afrouxou a mo e o garoto se levantou de um pulo. Enquanto ajeitava o ombro dormente, comeou a falar com volubilidade. 
-Disse que eu no devia dizer-lhe nada, salvo o dos soldados, milord, e que se fizesse me cortaria os testculo para ferver como nabos. 
Jamie no pde reprimir um sorriso. 
-Por falta de comida como estamos -assegurou ao seu protegido-, no  para tanto. -Deu uma olhada ao horizonte, onde aparecia uma fina linha rosada, depois da silhueta 
negra dos pinheiros.- Vem, vamos. Em meia hora ter amanhecido.
No amanhecer no havia rastos do silncio. Quem tinha os olhos na cara podia ver que em Lallybroch estava acontecendo algo anormal. O caldeiro da colagem tinha ficado 
no ptio, com o fogo apagado, cheio de gua fria e roupa molhada. Uns gemidos lamuriante, como se estivessem estrangulando a algum, indicavam que a nica vaca restante 
precisava com urgncia que a ordenhassem. Os balidos irritantes, no beiral das cabras, revelaram-lhe que seus ocupantes teriam agradado receber um atendimento similar. 
Quando entrou no ptio, trs frangos passaram correndo num plumoso alvoroo, perseguidos por Jehu, o cahorro. Jamie lhe acertou com a bota sob as costelas, fazendo-o 
voar pelo ar.
Os meninos, os moos maiores, Mary MacNab e Sukie, a outra criada, estavam reunidos na sala sob a vigilante olhada da senhora Kirby, uma viva severa, que estava 
lendo a Bblia. 
Em cima ouviu-se um gritos que pareceu prolongar-se indefinidamente. A senhora Kirby se interrompeu um momento para permitir que todos o percebessem, antes de continuar 
com a leitura. Seus olhos, plidos e midos como ostras cruas, desviaram-se fugazmente para o teto; depois voltaram a posar, satisfeitos, na fileira de caras tensas. 
Kitty estourou em histricos soluos e sepultou a cara no ombro de sua irm. Maggie Ellen estava vermelha; seu irmo maior, mortalmente plido depois de ouvir o 
grito. 
-Senhora Kirby -disse Jamie- Calle, por favor.
A senhora Kirby, afogando uma exclamao, deixou cair a Bblia, que aterrizou com um golpe surdo. Jamie se inclinou para recolh-la; depois mostrou os dentes  mulher. 
Pelo visto, seu gesto no teve sucesso como sorriso mas algum efeito produziu, pois a mulher, palideceu, levou uma mo ao amplo seio. 
-Creio que vocs seriam mais teis na cozinha -disse ele. Seu aceno de cabea enviou a Sukie para ali como se fosse uma folha no vento. A senhora Kirby se levantou 
para segu-la, com muita mais dignidade, mas sem vacilar. 
Arroubado pela pequena vitria, Jamie se desfez em poucos instantes dos outros ocupantes da sala. A viva Murray e suas filhas saram para lavar roupa e os meninos 
menores, para trancafiar os frangos, sob a superviso de Mary MacNab. Os meninos maiores foram, com alvio, a ocupar-se do gado.
Uma vez deserta a casa, vacilou um momento. Sentia que devia ficar na casa montando guarda, ainda que tinha aguda conscincia de que no podia fazer nada para ajudar, 
tal como Jenny tinha dito. No ptio tinha visto uma mula desconhecida; provavelmente, a parteira estava l em cima, com Jenny. 
Incapaz de permanecer sentado, vagou inquieto pela sala, com a Bblia nas mos, tocando coisas. Um gemido prolongado no andar superior lhe fez olhar involuntariamente 
o Livro Sagrado. No tinha muitas vontades de faz-lo, mas deixou que o livro se abrisse pela primeira pgina, onde se registravam os casamentos, nascimentos e mortes 
da famlia.
As anotaes comeavam com o casamento de seus pais, Brian Fraser e Ellen MacKenzie. Os nomes e a data estavam escritos com a letra redonda de sua me; abaixo, uma 
breve anotao com o garrancho de seu pai, mais firmes e negros: "Casados por amor", dizia; a observao, tendo em conta o registo seguinte, que datava o nascimento 
de Willie dois meses depois. 
Como sempre, Jamie sorriu ao ver aquelas palavras, levantando os olhos para o retrato: ele mesmo, aos dois anos, com Willie e Bran, o enorme cachorro. Era tudo que 
corte, provavelmente obra de uma faca, para descarregar a frustrao de seu dono.
-E se no tivesse morto? -disse suavemente ao quadro. 
Ao fechar o livro viu a ltima anotao. Caitlin Maisri Murray, nascida no dia 3 de dezembro de 1749, falecida no dia 3 de dezembro de 1749. Se os soldados ingleses 
no tivessem chegado no dia 2 de dezembro, teria se adiantado o parto de Jenny? Se tivessem tido suficiente comida, se ela no tivesse sido pele, ossos e o vulto 
do ventre,teria evitado? 
Em cima chegou outro grito. Num espasmo de medo, Jamie apertou o livro entre as mos. 
-Ora por ns, irmo -sussurrou. Depois de se benzer, deixou a Bblia e foi ao celeiro, para ajudar com os animais.
Ali tinha pouco o que fazer; Rabbie e Fergus eram suficientes para atender os poucos animais restantes. O jovem Jamie, com seus dez anos, estava j em idade de prestar 
bastante ajuda. Procurando algo que fazer, Jamie pegou uma braada de feno para lev-la  mula da parteira. Quando acabar o feno teria que matar  vaca; a diferena 
das cabras, a ela no lhe bastava o pasto de inverno das colinas, mesmo ainda com as ervas que os meninos traziam. Com sorte, os animais durariam at a primavera. 
Quando entrou no celeiro, Fergus levantou os olhos. 
-Ela  uma boa parteira, de boa reputao? -Perguntou disparando agressivamente a mandbula- No creio que a Madame deva estar em mos de uma camponesa!
-Como quer que eu saiba? -replicou Jamie irritado- Talvez eu devia me ocupar de contratar parteiras? -A senhora Martin, a velha parteira que tinha assistido o nascimento 
a todos os Murray anteriores, tinha morrido durante a fome do ano seguinte a Culloden, como tantos outros. A senhora Innes, a nova parteira, era bem mais jovem; 
era de esperar que j tivesse experincia suficiente para saber o que fazia. 
Rabbie tambm parecia inclinado a participar da discusso. Olhou Fergus com gesto cenhoso. 
-O que significa isso de "camponesa"? Voce tambm  campons, no se deu conta disto. 
Fergus o olhou alando o nariz com muita dignidade. 
-Que eu seja campons ou no, no tem importncia -disse alterado.- Eu no sou parteira. 
-No, s um fiddle-ma-fyke! -Rabbie deu a seu amigo um forte empurro.
Com uma exclamao de surpresa, Fergus caiu pesadamente para trs. Levantou-se rapidamente para se jogar contra Rabbie, que ria, sentado na borda do prespio, mas 
Jamie o pegou pelo pescoo da camisa. 
-Nada disso -ordenou-. No quero que destrua o pouco feno que nos resta. - Ps Fergus em p e, para distra-lo, perguntou:- O Que sabes sobre parteiras, afinal de 
contas? 
-Muito, milord. -Fergus sacudiu a roupa com gestos elegantes- Enquanto vivia em casa de Madame Elise, muitas das damas foram postas no leito. 
-No duvido -interps Jamie com secura-. Para dar  luz, queres dizer? 
-Para dar  luz, claro. Caramba, eu mesmo nasci ali! 
-Evidentemente. - Jamie contraiu a boca- Bom, confio que tenhas de fato cuidadosas observaes e que possa dizer como se devem fazer as coisas.
Fergus ignorou o sarcasmo. 
- verdade -disse despreocupado-. Naturalmente, a parteira deve pr uma faca sob a cama, para cortar a dor. E um ovo consagrado com gua bendita aos ps da cama 
para que a mulher possa expulsar o menino com facilidade. Depois do nascimento -prosseguiu perdendo as dvidas no entusiasmo de sua dissertao-, a parteira deve 
preparar um ch com a placenta e dar para a me beber, para que o leite flua em abundncia. 
Rabbie teve uma nsia. 
-Com a placenta? -exclamou incrdulo- Deus meu! 
Jamie tambm sentia um pouco enojado com aquela exposio de conhecimentos mdicos modernos. 
-Bom, sim -disse a Rabbie tratando de fingir desembarao- Eles comem rs, sabia? E caracis. Suponho que comer placenta no  to estranho.
Para seus botes ele mesmo se perguntou se eles demoraram muito em comer rs e caracis, mas preferiu reservar o comentrio. 
Rabbie fingiu mais algumas nsias. 
-Cristo, quem quer ser francs! 
Fergus girou em volta e disparou um rpido murro, que lhe atingiu na boca do estmago. Rabbie se dobrou sem fazer rudo, com os olhos dilatados numa expresso de 
intensa surpresa. Estava to ridculo que para Jamie custou no rir, em exceto tambm a sua preocupao por Jenny e a irritao que lhe provocavam as rixas dos moos. 
-Por que no deixa de...! -comeou. 
Interrompeu um grito do pequeno Jamie, que at ento tinha guardado silncio, fascinado pela conversa.
-O que? -Jamie girou sobre seus calcanhares e levou automaticamente a mo  pistola que levava quando abandonava a gruta. Mas no tinha nenhuma patrulha inglesa 
no ptio do estbulo-Que diabo acontece? 
Ento ele viu. Trs pequenas manchas negras que voavam sobre as matas mortas no semeado das batatas. 
-Corvos -disse, sentindo arrepiar o cabelo da nuca. Que aquelas aves da guerra e a matana chegassem numa casa durante um nascimento era o pior dos pressgios. E 
uma daquelas sujas criaturas estavam posando no telhado, ante seus prprios olhos. 
Sem pensar direito, sacou a pistola do cinto e apoiou o cano no antebrao para apontar com cuidado.
A arma sacudiu e o corvo estourou numa nuvem de plumas negras. Seus dois colegas se jogaram ao ar,afastando-se com loucos agitos; seus speros gritos se perderam 
rapidamente no ar de inverno. 
-Mon Dieu! -exclamou Fergus- C'est bem a! 
-Sim, bom disparo, senhor. -Rabbie, ainda impressionado, tinha-se reposto a tempo para ver o tiro. Agora apontava a casa com o queixo- Olha, senhor. No  a parteira? 
Era a senhora Innes, sim, que aparecia com a cabea pela janela do andar superior, com o loiro cabelo solto, tratando de olhar para o pato. Talvez o rudo do disparo 
lhe fez temer algum problema. Jamie saiu do ptio e agitou a mo para tranqiliz-la. 
-Tudo est bem -gritou- Foi s um acidente. -No queria mencionar os corvos para o acaso da mulher comentar a Jenny.
-Sobe! -gritou ela sem dar muita ateno- O beb nasceu e sua irm quer ve-lo! 
Jenny abriu um olho, azul e levemente rasgado, como o de Jamie. 
-Voce acabou vindo,n? 
-Pensei que algum teria que estar aqui, ainda que fosse para orar por voce -respondeu resmungo. 
Ela fechou o olho e um leve sorriso lhe curvou os lbios. Ela parecia muito com uma pintura que ele tinha visto em Frana. 
-Voce  um bobo, mas estou feliz -disse com suavidade. E abriu os olhos para dar uma olhada ao vulto envolto que tinha na dobra do brao- Quer v-lo? 
-Ah,  um homenzinho.
Com mos experientes depois de ser tio durante anos, Jamie pegou o pequeno embrulho e o acomodou contra seu corpo, retirando a ponta do cobertor que tampava o rosto. 
O beb tinha os olhos muito fechados; as pestanas no eram visveis na ruga profunda das plpebras, que formavam um ngulo agudo sobre a suave redondez das bochechas; 
isso imaginava que talvez, seria esse o nico rasgo identificvel, que se pareceria  me. A cabea estava cheia de estranhos volumes e desviada para o lado; seu 
aspecto fez Jamie, incmodo, comparar com um melo; mas a grossa boquinha se mantinha descontrada e aprazvel; o mido lbio interior se estremecia com o ronquido 
que acompanhava ao esgotamento de ter nascido. 
-Foi um trabalho duro, no? -comentou dirigindo-se ao menino. 
Mas foi a me quem respondeu: 
-Sim, efetivamente. No armrio h whisky. Quer me trazer um copo? -Sua voz soava rouca; teve que pigarrear para completar o pedido.
-Whisky? No deveria beber cerveja com ovos batidos? -perguntou seu irmo, reprimindo com dificuldade a imagem mental do que, segundo Fergus, era o alimento adequado 
para as recm mames. 
- Whisky-ela assegurou com deciso- Quando estava doente, cansado e com a perna to dolorida, te dei cerveja com ovos batidos? 
-Voce me deu coisas muito piores -disse ele sorrindo de orelha a orelha- Mas  verdade, tambm me deu whisky. -Colocou cuidadosamente o menino dormindo na cama e 
foi em procura da bebida- J tem nome? -quis saber sinalizando ao beb com a cabea enquanto servia uma generosa quantidade de lquido ambarino.
-O chamarei de Ian, como seu pai. -A mo de Jenny se encostou na cabecinha arredondada, recoberta por uma pelugem castanha dourada. No ponto macio da coronilha palpitava 
visivelmente o pulso; para o Jamie lhe parecia tremendamente frgil, mas a parteira lhe tinha assegurado que era um menino so e vigoroso; teria que acreditar. Movido 
por uma obscura necessidade de proteger aquele ponto macio, to exposto, levantou uma vez mais o beb e lhe cobriu a cabea com o cobertor. 
-Mary MacNab me contou o que fizeste com a senhora Kirby -comentou Jenny tomando um trago - Que pena que eu perdi. Diz Mary que essa velha bruxa esteve a ponto de 
engulir a prpria lngua quando te ouviu. 
Jamie sorriu como resposta, dando suaves palmadas nas costas do beb, que descansava sobre seu ombro, profundamente dormindo. Seu corpinho, inerte como um presunto 
sem osso, era um peso macio e reconfortante.
-Que pena que no o fez. Como faz para suportar essa mulher? Eu a estrangularia se a tivesse em minha casa todos os dias. 
Sua irm ofegou e fechou os olhos, jogando a cabea para trs para que o whisky descesse por sua garganta. 
-Ah, a gente incomoda at onde se permite. E eu no lhe permito muito. De qualquer modo -disse abrindo os olhos-, no me desagradaria livrar-me dela. Estou pensando 
mandar ao velho Kettrick, o de Broch Mordha. O ano passado perdeu a sua esposa e a sua filha; precisar que algum o ajude.
-Sim, mas se eu fosse Samuel Kettrick ficaria com a viva de Murray, no com a de Kirby -observou Jamie. 
-Peggy Murray j est arranjada - assegurou sua irm- Na primavera se casar com Duncan Gibbons. 
-Duncan se moveu depressa -comentou um pouco surpreso. Ento lhe ocorreu algo e sorriu-. Algum dos dois sabe? 
-No -respondeu ela devolvendo-lhe o sorriso. Depois o gesto se esfumou numa olhada especulativa- A no ser que voce tambm esteja pensando em Peggy. 
-Eu -Jamie deu um sobressalto, como se ela acabasse de sugerir que ele desejava saltar pela janela.
-Ela s tem vinte e cinco anos -insistiu Jenny-. Pode ter mais filhos. E  boa me. 
-Voce no bebeu demais? Estou vivendo numa gruta, como um animal, e voce pensa em me arranjar uma esposa! -De repente sentiu um vazio por dentro. 
-Quanto tempo faz que no se deita com uma mulher, Jamie? -perguntou sua irm em tom coloquial. 
Voltou-se a olh-la, estupefato. 
-Que tipo de pergunta  essa? 
-No tem estado com nenhuma das solteiras que vivem em Lallybroch e Broch Mordha -continuou ela sem dar ateno- Eu teria sabido. E creio que tambm com nenhuma 
das vivas. -Fez uma delicada pausa.
-Sabe perfeitamente que -no respondeu sentindo que enrusbeceu as bochechas. 
-Por que? -perguntou Jenny sem rodeios. 
-Como que "por que"! -olhava-a com a boca entreaberta- Perdeu o juzo? Me vs capaz de escapulir de casa em casa, deitando com toda mulher que no me expulse a vassouradas? 
-Como se alguma fosse te expulsar. No, Jamie. s um bom homem. -Jenny sorriu com certa tristeza- No se aproveitaria de nenhuma mulher. Primeiro teria que se casar, 
no? 
-No! -exclamou ele violento. O beb se retorceu com um murmrio sonolento. Automaticamente, mudou para o outro ombro sem deixar de dar algumas palmadas, enquanto 
fulminava a sua irm com os olhos-. No penso em me casar de novo, assim podes esquecer essa idia de casamento, Jenny Murray. No quero saber nada disso, me ouve?
-Te ouo, sim -disse sem se perturbar. E se encostou um pouco mais no travesseiro para olh-lo nos olhos-. Pensa em viver como os monges at o fim de seus dias? 
Ir  tumba sem um filho que te enterre e que abenoe teu nome? 
-Ocupa-se de suas coisas, maldita sejas! -Com o corao acelerado, ele lhe voltou as costas para dirigir-se  janela. Ali ficou olhando sem ver o ptio dos estbulos. 
-Sei que ainda choras por Claire -soou a suas costas, suavemente, a voz de sua irm- Acha que eu poderia esquecer Ian se ele no regressasse? Mas  hora de seguir 
adiante, Jamie. Claire no ia querer que passasses a vida s, sem ningum que te console e te d filhos. 
-Ela estava grvida -murmurou ele, por fim, falando com seu prprio reflexo no vidro embaado- Quando se... Quando a perdi.
De que outro modo podia diz-lo? No tinha maneira de explicar a sua irm onde estava Claire. De explicar-lhe que no podia pensar em outra, com a esperana de que 
estivesse viva, ainda sabendo que a tinha perdido para sempre. 
Depois de um longo silncio, por fim, Jenny perguntou baixinho: 
-Por isso veio hoje? 
Ele suspirou e se voltou. 
-Talvez sim. J que no pude ajudar a minha esposa, pensei que poderia te ajudar.Na realidade, no pude -disse com certa amargura- Para voce sou to intil como 
fui para ela. 
Jenny lhe estendeu uma mo, cheia de aflio.
-Jamie, mo chridhe... -Mas se interrompeu com os olhos dilatados por um sbito alarme: L embaixo chegavam gritos e rudos de madeira estilhaada. 
-Virgem Santa! -disse palidecendo ainda mais-So os ingleses! 
-Deus meu. -Era tanto uma prece como uma exclamao de surpresa. Jamie olhou  cama e  janela, calculando as possibilidades de se esconde e as de escapar. O rudo 
de botas j se ouvia na escada. 
-O armrio, Jamie! -sussurrou sua irm com urgncia. 
Sem vacilar, entrou no roupeiro e fechou diante de si. 
Um momento depois se abriu violentamente a porta da alcova. Seu vo se encheu com uma silhueta de jaqueta vermelha e um chapu agachado que apoiava uma espada desembainhada. 
O capito de drages fez uma pausa, percorrendo o quarto com os olhos; finalmente se fixou na cama.
-A senhora Murray? -perguntou. 
Jenny fez um esforo por erguer as costas. 
-Sou eu. E que demnio faz voce em minha casa? -Perguntou. Estava plida, com a cara brilhante pelo suor e os braos trmulos, mas mantinha a cabea erguida e uma 
olhada fria-Sa daqui! 
Sem pdar ateno, o homem entrou no quarto para se aproximar  janela. Jamie viu passar sua forma imprecisa junto  esquina do roupeiro; depois reapareceu de costas 
a ele, dirigindo-se a Jenny. 
-Um de meus exploradores informou ter ouvido um disparo nos arredores desta casa no faz muito momento. Onde esto seus homens?
-No tenho nenhum. -Os braos trmulos j no a sustentavam mais. Jamie viu que sua irm se deixava cair sobre os travesseiros-. J levaram meu esposo e meu filho 
maior no tem nem dez anos. -No mencionou a Rabbie nem a Fergus, que j tinham idade suficiente para ser tratados (ou maltratados) como homens, se ao capito isso 
lhe ocorria. Era de esperar que tivessem corrido de l quando viram os ingleses. 
O capito era um homem calejado, de idade madura,com pouca credulidade. 
-Nas Terras Altas, ter armas  delito grave -disse voltando-se para o soldado que tinha entrado depois dele- Reviste a casa, Jenkins.
Teve que levantar a voz para dar essa ordem, pois na escada a comoo er alta. Jenkins girou para sair do quarto, mas naquele momento entrou a senhora Innes, a parteira, 
passando violentamente junto ao soldado que tratava correr com o passo. 
-Deixa em paz  pobre senhora! -exclamou enfrentando ao capito com os punhos apertados junto ao corpo. Tremia a voz e o coque estava se desfazendo, mas se manteve 
firme- Sa daqui, condenados, e deixa-a em paz! 
-No estou maltratando a tua senhora -disse o capito com certa irritao; era bvio que tinha imaginado  senhora Innes como uma das criadas-. S venho a... 
-No faz ainda uma hora que deu a luz! No  decente sequer olh-la, muito menos do que...!
-A senhora deu a luz? -A voz do capito se fez mais aguda. Com sbito interesse, seus olhos passaram da parteira  cama- Deu luz  um menino, senhora Murray? Onde 
est a criana? 
A criana em questo se moveu dentro de suas envolturas, perturbada pela mo tensa de seu horrorizado tio. Nas profundidades do roupeiro, Jamie podia ver a cara 
de sua irm, branca at os lbios, imvel como uma pedra. 
-A criana morreu -disse. 
A parteira abriu a boca, espantada. Por sorte, o capito seguia concentrado em Jenny. 
-Verdade? -disse lentamente- Foi...?
-Mame!-O grito de angstia vinha da porta. O pequeno Jamie se desprendeu das mos de um soldado para se jogar em sua me- O menino morreu, mame? No, no! -Soluando 
caiu de joelhos, escondendo a cara entre os lenis. 
Como chamando ao seu irmo, o pequeno Ian deu evidncias de seu estado esperneado com notvel vigor contra as costelas de seu tio; a seguir emitiu uma srie de rosnados 
sufocados, que felizmente passaram despercebidos no alvoroo exterior.
Jennie estava tentando consolar o pequeno Jamie; a senhora Innes fazia esforos inteis para levant-lo; o capito tentava em vo fazer-se ouvir acima dos gemidos 
entristecidos do menino e, por toda a casa, vibravam os sons apagados das botas e os gritos. 
Jamie teve a impresso de que o capito queria saber onde se encontrava o corpo do recm nascido. Apertou o corpo em questo, para sufocar qualquer inteno de pranto. 
Levou a outra mo  manivela do punhal, mas era um gesto vo; se abrisseem o roupeiro, nem sequer cortar o pescoo lhe serviria de nada. 
O recm nascido emitiu um rudo, sugerindo que no lhe agradavam essas chacoalhadas. Jamie, que j via a casa em chamas e seus habitantes massacrados, se viu to 
potente como os agoniados uivos de seu sobrinho maior.
-Foi voce! -O pequeno Jamie se tinha posto em p, inchado pelas lgrimas e a ira, e estava avanando para o capito, com a cabea baixa, como um pequeno carneiro- 
Voce matou o meu irmo, ingls de merda! 
O capito,surpreso por aquele ataque, deu um passo atrs, piscando. 
-No, garoto, est muitoengando. Caramba, eu s... 
-Maldito estpido! A mhic an diabhoil! -Completamente fora de si, o pequeno Jamie ia para o capito, gritando todas as obscenidades que tinha ouvido em sua vida, 
em galico ou em ingls. 
-Enh -disse o beb Ian, ao ouvido de Jamie, o maior- Enh, enh.
Isso se parecia muito aos preliminares de um grito maisculo. Em seu pnico, Jamie soltou o punhal e afundou o polegar na suave e mida abertura que estava emitindo 
aqueles sons. As gengivas desdentadas do beb se fecharam ao redor do dedo, com uma ferocidade que esteve a ponto de arrancar-lhe uma exclamao. 
-Saia.Saia daqui! Saia ou eu te mato! -gritava o jovem Jamie ao capito, com a cara contrada pela clera. 
-Esperarei os meus homens no andar de baixo -informou o capito com toda a dignidade que lhe foi possvel. 
E se retirou, fechando apressadamente a porta. O pequeno Jamie, privado de seu inimigo, caiu ao solo e se derrubou num pranto indefeso.
Pela rachadura da porta, Jamie viu que a senhora Innes olhava  Jenny, abrindo a boca para formular uma pergunta. Jenny se levantou como Lzaro, com uma expresso 
feroz, apertando um dedo contra os lbios para impor silncio. Tirou os ps da cama e sentou para esperar. Os rudos dos soldados soavam em toda a casa. 
Jamie respirou profundamente e se preparou. Teria que correr o risco; tinha a mo e o pulso molhados de saliva e os rosnados frustrados do beb estavam aumentando 
o volume.
Saiu a tropees do roupeiro, banhado em suor, e ps o beb nos braos de Jenny. Ela  descobriu o peito com um s movimento e oprimiu a cabecinha contra o seu mamilo, 
inclinando-se para proteger o vulto pequeno. 
O pequeno Jamie se levantou ao ver o roupeiro se abrir;agora, pasmo contra a porta, aturdido pela impresso, olhava alternadamente a sua me e ao seu tio. 
Quando os gritos e os rangidos da guarnio anunciaram a partida dos soldados, Ian filho, j saciado, roncava nos braos de sua me. Jamie viu eles se afastando 
junto  janela, onde no podia ser visto.
-Descer ao "buraco da cura" -disse suavemente- Quando escureer voltarei  gruta. 
Jenny assentiu com a cabea, sem olh-lo. 
-Crio... que no devo voltar a descer -disse por fim- Durante algum tempo. 
Sua irm assentiu uma vez mais, sem dizer nada.



















    

    
    CAPTULO 6
    
    Estando agora justificado por seu sangue
    

S retornou  casa mais uma vez. Durante dois meses se manteve escondido na gruta; quase no se atrevia nem a sair pela noite para caar, pois os soldados ingleses 
estavam ainda aquartelados em Comar. As tropas saam diariamente, em pequenas patrulhas de oito ou dez homens, e percorriam a campina saqueando o que ainda ficava 
e destruindo o que no podiam utilizar. Tudo com a bno da Coroa inglesa. 
Ao p da colina onde estava a gruta passava um caminho. Era uma tosca trilha utilizada pelos veados, ainda que tonto era o animal que se aventurasse onde seu cheiro 
pudesse chegar  gruta. Ainda assim, de vez em quando Jamie via algum grupo de veados vermelhos ou encontrava suas impresses no dia seguinte.
O caminho tambm era utilizado pelos poucos que tinham algo que fazer na encosta. O vento soprava desde a  gruta, assim Jamie no esperava ver nenhum veado. Tinha 
estado estendido no solo, justo  entrada da caverna, onde as aliagas e as sorveiras deixavam passar luz suficiente para ler em dias de cu aberto. No tinha muitos 
livros, mas Jared sempre dava um jeito de contrabandear alguns quando enviava presentes da Frana. 
Umas sombras se moveram sobre a pgina ao agitar-se das matas. O instinto afinado de Jamie captou de imediato a mudana na direo do vento... e com ele, um som 
de vozes. 
Levantou-se de um pulo, levando a mo ao punhal do qual jamais se separava. Deixando cuidadosamente o livro se segurou junto a uma elevao de granito que usava 
como apoio e se iou at a estreita greta que constitua a entrada da gruta.
O intenso reflexo de vermelho e metal no caminho abaixo lhe surpreendeu desagradavelmente. No  que temesse que algum dos soldados se aproximassem demais da trilha 
(estavam mal equipados para percorrer os trechos mais normais daquele urzal e muito pior para trepar por uma costa espinhosa como aquela) mas sua presena to prxima 
lhe impediria de sair da gruta antes do escurecer, nem sequer para procurar gua ou se aliviar. Deu uma rpida olhada  jarra de gua, ainda que soubesse que estava 
praticamente vazia. 
Um grito lhe obrigou a olhar novamente para baixo; ento esteve a ponto de perder o precrio apoio na rocha. Os soldados estavam agrupados em torno de uma pequena 
silhueta, encurvada sob o peso de um pequeno diminuto tonel. Era Fergus, que subia com um barril de cerveja recm destilada. Por todos os diabos! No lhe teria cado 
nada mal aquela cerveja; fazia meses que no a provava. 
Como o vento tinha voltado a mudar, s lhe chegaram algumas palavras soltas; mas a pequena silhueta parecia estar discutindo com o soldado que tinha  sua frente 
e acenava violentamente com a mo livre. 
-Idiota! -sussurrou Jamie-. Entregue-lhes esse tonel e deixe eles irem, pequeno estpido!
 Um dos soldados lanou algumas bofetadas na direo do tonel, fazendo a mida silhueta morena dar um gil salto para trs. Jamie espalmou a mo na testa, exasperado. 
Fergus no podia insistir em sua insolncia quando enfrentava uma autoridade..., sobretudo quando se tratava de autoridade inglesa. Agora deslizava para trs, gritando 
algo a seus perseguidores. 
-Tonto! -disse Jamie, violentamente- Deixa cair isso e foge!
Em vez de soltar o tonel ou partir correndo, Fergus, visivelmente seguro de sua prpria agilidade, voltou s costas dos soldados e mexeu no traseiro de uma maneira 
insultante. Irritados at o ponto de arriscar-se a pisar aquela vegetao pantanosa, muitos dos Jaquetas Vermelhas saram do caminho para persegu-lo. 
Jamie viu que o chefe levantava um brao e gritava uma advertncia. Pelo visto, tinha compreendido que Fergus podia ser uma isca, enviado para lev-los a uma emboscada. 
Mas Fergus tambm estava gritando. Ao que parece, os soldados entendiam bastante bem seu francs de bueiro pois, ainda que vrios dos homens se detiveram ante o 
grito do chefe, quatro dos soldados se arrojaram contra o rapaz. 
Teve um forcejo e novos gritos; Fergus escapou como uma enguia entre os soldados. Com toda aquela comoo e entre os gemidos do vento, era impossvel que Jamie ouvisse 
o sussurro do sabre ao sair de sua bainha. No entanto, lhe ficaria gravado que o tinha ouvido, como se o leve som do metal tivesse sido a primeira indicao do desastre. 
Parecia ressoar em seus ouvidos cada vez que recordava a cena. E a recordaria durante muitssimo tempo.
Talvez foi pela atitude dos soldados, uma irritao que se percebia at na gruta. Talvez s pela sensao de fatalidade que no o abandonava desde a batalha de Culloden. 
Fora verdadeiro ou no que tinha ouvido o som do sabre, seu corpo estava pronto para saltar quando viu o arco prateado da vara que fendia o ar. 
Movia-se quase com preguia, com lentido suficiente para que seu crebro calculasse sua direo, deduzisse o alvo e gritasse, sem palavras: "No" Sem dvida se 
moveu com tanta lentido que teria podido se lanar sobre os homens, sujeitando o pulso que segurava o sabre e retorc-la at que soltasse a mortfera vara de metal. 
A parte consciente de seu crebro lhe disse que era uma tolice e manteve suas mos petrificadas ao redor da elevao de granito, obrigando-o a resistir o surpreendente 
impulso de sair da gruta e se por a correr.
"No posso", disse-lhe num sussurro imperceptvel sob a fria e o horror que o tomavam "Ele fez isto por voce. No pode", repetia, frio como a morte sob a ardente 
onda que o sufocava. "No posso fazer nada." 
E no fez nada. S observou, enquanto a vara completava sua preguiosa curva dando na mosca com um rudo surdo, quase intransponvel. E o tonel  em disputa caa 
dando tombos pela costa do ribeiro. Seu mergulho final se perdeu num gorgotejo alegre de gua parda, bem mais abaixo.
Os gritos cessaram bruscamente e sobreviveu o silncio, mas nos ouvidos de Jamie o branido continuava. Se afrouxaram os joelhos e compreendeu vagamente que ia desmaiar. 
Sua viso se converteu num negro avermelhado, semeado de estrelas e faixas de luz. Mas nem sequer a sombra que avanava pde apagar a viso final da mo de Fergus, 
sua mo pequena e destra de astuto batedor de carteiras, no lodo do caminho, com a palma voltada para acima num gesto de splica. 
Aguardou durante quarenta e oito longas e interminveis horas, at que ouviu o apito de Rabbie MacNab no caminho, embaixo da gruta. 
-Como est? -perguntou.
-A senhora Jenny diz que ele vai se curar -respondeu Rabbie. Sua cara juvenil estava plida e com olheiras; obviamente, ainda no tinha se reposto da impresso recebida 
pelo acidente de seu amigo- Diz que no tem febre e que no h sinais de gangrena em seu... -Enguliu saliva auditivamente. -... Est..., coto. 
-Assim que os soldados o levaram at a casa? -Sem esperar resposta, Jamie j ia colina abaixo. 
-Sim, deu-me a impresso de que estavam muito nervosos. -Rabbie se deteve para desenredar a camisa de um arbusto. Depois teve pressa para atingir ao seu patro- 
Creio que sentem muito. Ao menos, isso foi o que disse o capito. E deu um ouro  senhora Jenny..., para Fergus.
-Ah, sim? -comentou Jamie- Que generoso. 
No voltou a falar at que chegaram  casa. 
Tinham encostado Fergus com grande pompa no quarto dos meninos, numa cama junto  janela. Jamie, ao entrar, encontrou-o com os olhos fechados e as longas pestanas 
apoiadas suavemente sobre as bochechas magras. Desprovida da animao habitual, as caretas e as poses, sua cara parecia diferente. O nariz um pouco ganchudo sobre 
a boca longa e movedia, dava-lhe um ar levemente aristocrtico; os ossos que se endureciam sob a pele pareciam prever que, ao perder o encanto juvenil, aquele rosto 
seria formoso. 
Quando Jamie avanou para a cama, as pestanas escuras se elevaram de imediato.
-Milord -disse Fergus. Um dbil sorriso devolveu de imediato a suas feies o aspecto familiar- Esta seguro aqui? 
-Por Deus, filho, eu sinto muito. -Jamie se deixou cair de joelhos junto  cama. Mal suportava olhar o delgado antebrao que jazia sobre o edredon, com a frgil 
pulso vendado que terminava em nada, mas se obrigou a estreitar-lhe um ombro como modo de saudao e a esfregar-lhe o abundante cabelo escuro- Di muito? 
-No, milord -disse Fergus. De repente lhe cruzou no rosto um traioeiro gesto de dor. Sorriu com vergonha- Bom, no muito. E a Madame foi muito generosa com o whisky.
- Eu sinto muito -repetiu Jamie. No tinha outra coisa que dizer. Nem sequer podia falar, pelo n que tinha na garganta. Apressou-se a baixar os olhos, sabendo que 
Fergus ficaria nervoso se o visse chorar. 
-Ah, milord, no se preocupe. -Na voz de Fergus tinha uma leve travessa- Tive sorte. 
Jamie enguliu saliva com dificuldade antes de replicar. -Sim, porque ests vivo, graas a Deus. -Oh, mais do que isso, milord! 
Ao levantar a cabea viu o rapaz a sorrir, ainda que muito plido. 
-No lembras do nosso acordo, milord? -Nosso acordo?
-Sim, quando me pegou para os seus servios, em Paris. Prometeu-me que, se eu fosse preso e executado, faras missas por minha alma durante todo um ano. -A nica 
mo voltou para a maltratada medalha esverdeada que lhe pendia do pescoo: San Dimas, santo patrono dos ladres- Mas se eu perdesse uma mo ou uma orelha estando 
a vosso servio... 
-...me manteria durante o resto de tua vida. -Jamie no sabia se ria ou chorava. Contentou-se com uma palmada  mo que agora jazia sobre o cobertor, muito quieta-. 
Recordo, sim. E pode confiar em que cumprirei o trato.
-Oh, sempre confiei em voce ,milord -disse Fergus. Era bvio que estava fatigando; as bochechas estavam ainda mais plidas e o cabelo negro caa para atrs, sobre 
o travesseiro- Assim tenho sorte -murmurou, ainda sorridente- Inesperadamente me converti num cavaleiro ocioso, no? 
Quando saiu do quarto, Jenny o estava esperando. 
-Vem comigo ao "buraco da cura" -lhe pediu pegando-a pelo cotovelo- Preciso falar contigo e no quero estar muito tempo  vista. 
Ela o seguiu sem comentrios ao vestbulo que separava a cozinha da dispensa. Nas lajes do solo tinha um grande painel de madeira com buracos. Teoricamente, servia 
para ventilar o poro, ao que se chegava por uma porta exterior; em realidade, se alguma pessoa suspicaz decidia pesquisar, aquele painel era visvel do depsito 
ao poro.
O que no se via era que os buracos ofereciam tambm ar e luz em um quarto secreto, construdo por trs do depsito, ao que se podia descer retirando o painel, com 
marca cimentada e tudo, para descobrir uma pequena escada. Ali s cabiam duas pessoas, se sentaram juntos no nico banco. Jamie se acomodou junto a sua irm quando 
havia substitudo o painel e baixado a escada. Permaneceu imvel um momento. Depois tomou folego. 
-No agento mais -disse. Falava em voz to baixa que Jenny se viu obrigada a inclinar a cabea para ouvir, como o padre ao receber a confisso de um penitente- 
No posso. Tenho que ir. 
Ela lhe pegou da mo, estreitando-se fortemente com seus dedos pequenos e firmes. 
-Vai tentar outra vez ir a Frana?
Jamie tinha tratado de fugir a Frana duas vezes; e as duas tentativas se viram frustrados pela estreita vigilncia que os ingleses mantinham em todos os portos. 
No tinha disfarce suficiente para um homem de sua estatura e sua cor de cabelo. 
Sacudiu a cabea. 
-No. Vou deixar que me capturem. 
-Jamie! -Em sua agitao, Jenny elevou momentaneamente a voz; depois voltou a baix-la, respondendo ao aperto de advertncia de seu irmo. -No podes fazer isso, 
Jamie. Por Deus, te enforcariam! 
Mantinha a cabea agachada, como se estivesse pensando, mas a sacudiu sem vacilar.
-No creio. -Lanou uma rpida olhada  mulher.- Claire... era vidente. -Era uma boa explicao, ainda que no fosse a verdade.- Ela viu o que sucederia em Culloden; 
ela sabia. E me disse o que passaria depois. 
-Ah -murmurou Jenny suavemente.- Eu o imaginava. Por isso me fez plantar batatas..., e construir este lugar. 
-Sim. -Estreitou a mo de sua irm antes de solt-la e se voltou no estreito assento para olh-la-. Disse-me que a Coroa passaria algum tempo perseguindo aos traidores 
jacobitas... e assim  -disse irnico.- Mas que depois dos primeiros anos j no executariam aos capturados; s iriam a priso. 
-S! -repetiu ela- Se queres fugir, Jamie, o diabo aos urzais. Mas se entregar para ir a um crcere ingls, enforcado ou no...
-Espera -a interrompeu apoiando-lhe uma mo no brao.- Ainda no te disse tudo. No penso em me apresentar aos ingleses e me render sem nada. Puseram um bom preo 
a minha cabea, no? Seria uma pena desperdi-lo, voce no acha? 
Tratou de impor um sorriso em sua voz; ela, ao perceb-la, levantou bruscamente os olhos.
-Me de Deus -sussurrou.- Queres que algum te traia? 
-Sim, aparentemente. -Tinha decidido o plano estando s na gruta, mas s agora parecia real- Talvez Joe Fraser seja o mais indicado. 
Jenny esfregou os lbios com o punho. Compreendeu que tinha captado sua idia de imediato..., com todos seus envolvimentos.
-Mas ainda que no te enforquem no ato, Jamie... -sussurrou-  um risco infernal... Poderiam te matar ao capturar-lo! -Por Deus, mulher, acha que me importo? Teve 
um longo silncio at que ela disse: -No, creio que no. E tambm no posso te censurar. -Fez uma pausa para afirmar a voz-. Mas importa a mim. -Acariciou-lhe suavemente 
o cabelo da nuca.- Vai se cuidar meu grandssimo bobo?
O painel de ventilao se escureceu e ouviram um rudo de passos ligeiros. Provavelmente uma das criadas, dirigindo-se  dispensa. Depois voltou a luz escassa e 
a cara de Jenny voltou a ser visvel. 
-Sim -murmurou por fim.-Me cuidarei. 
Demoraram mais de dois meses para arrumar tudo. Quando ao fim chegou a notcia era primavera. 
Ele estava sentado em sua rocha favorita, cerca da entrada  gruta, contemplando as primeiras estrelas. Inclusive nos piores momentos, no ano seguinte a Culloden, 
tinha encontrado paz naquele momento do dia. Ao esfumar-se a luz diurna, era como se os objetos se iluminassem difusamente desde o interior, recortando-se no cu 
ou a terra, perfeitos e ntidos em todos seus detalhes. Viu a silhueta de uma traa, invisvel  luz do sol, iluminada pelo crepsculo, com um tringulo de sombra 
mais intensa que a destacava sobre o tronco onde se ocultava. Num momento alaria o vo.
Entre os crescentes sons da noite se ouviu um apito agudo. Podia ter sido o reclamo de um apito no lago, mas reconheceu o sinal. Algum vinha pelo caminho: um amigo. 
Ele se reclinou na parede da caverna, cruzado de braos, e fincou uma olhada de exasperao naquela cabea inclinada. 
-Como so as coisas, no? -acusou- De quem foi a idia, tua ou de minha irm? 
-Que importncia tem? -replicou ela muito composta. 
Ele sacudiu a cabea e se agachou para p-la em p. 
-No, no importa, porque no vai ocorrer. Agradeo-te a inteno, mas... 
Ela o interrompeu com um beijo. Seus lbios eram to ternos como pareciam. Jamie a segurou firmemente com ambas as mos e a afastou.
-No -disse- No  necessrio e no quero faz-lo. 
Tinha a incmoda sensao de que seu corpo no estava em absoluto acordo com aquele comentrio. Mais incmodo ainda era saber do que suas calas, demais estreitas 
e gastadas, faziam evidente a magnitude daquele desacordo para quem quisesse olhar. O leve sorriso daqueles lbios sugeriu que estava olhando. 
Fez ela girar para a entrada e lhe deu um leve empurro. Ela respondeu jogando-se a um lado e alongando a mo para atrs, procurando os laos da saia. 
-No faa isso! -exclamou Jamie.
-Como vai impedir? -perguntou Mary tirando a roupa. Dobrou-a sobre o nico banco. 
-Se no vai embora, terei eu que o fazer -replicou decidido. E girou sobre seus calcanhares. Quando se dirigia para a entrada da gruta, ouviu-a dizer por trs: 
-Milord! 
Deteve-se, mas sem girar-se. 
-No  correto que me chames assim.
-Lallybroch  seu e ser enquanto for vivo. Ao senhor, assim devo cham-lo. 
-No  meu. A propriedade pertence ao pequeno Jamie. 
-No  o pequeno Jamie quem faz o que estas fazendo -replicou ela decidida- E no foi vossa irm quem me pediu que fizesse isto. Vire-se. 
Girou-se de m vontade. Mary estava descala e com camisola, com o cabelo solto sobre os ombros. Estava to delgada, mas tinha os peitos maiores do que tinha pensado 
e os mamilos se revelavam, proeminentes, sob a fina tela. A camisola estava to surrada como suas outras prendas, quase translcida em alguns pontos. Ele fechou 
os olhos.
Sentiu um leve contato no brao e se obrigou a permanecer imvel. 
-Sei muito bem o que est pensando -disse ela- Vi a sua senhora e sei como eram as coisas entre vocs dois. Eu nunca tive isso -disse em voz mais baixa- com nenhum 
dos dois homens que me desposaram. Mas sei distinguir o verdadeiro amor. E no  minha inteno faze-lo sentir trar o seu. 
O contato, ligeiro como uma pluma, passou a sua bochecha; um polegar endurecido pelo trabalho seguiu o sulco entre o nariz e a boca. 
-O que quero -continuou ela-  dar a voce algo diferente. Algo inferior, talvez, mas que o seja til; algo que o conserve ntegro.Sua irm e os meninos no podem 
dar mas eu sim.
Jamie ouviu como tomava flego. O atrito desapareceu de seu rosto. 
-Deu meu lar, minha vida e meu filho. Por que no permiti que eu possa te dar uma pequna mudana? 
-Eu... faz muito tempo que no o fao -apontou ele, subitamente tmido. 
-Eu tambm no -disse ela com um leve sorriso- Mas j recordaremos como se faz.





   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   TERCEIRA PARTE
   CAPTULO 7
   
                          Quando sou teu cativo
   
     F nos documentos
   
     Inverness
     25 de maio de 1968
     
     O envelope de Linklater chegou com o correio da manh. 
     -Olha que gordo ! -exclamou Brianna- Enviou algo! -A ponta de seu nariz estava avermelhado pelo entusiasmo. 
     - o que parece -reconheceu Roger. Ainda que mantinha a serenidade exterior, vi bater o pulso em seu pescoo. 
     Tirou um feixe de pginas fotocopiadas e a carta adjunta saiu voando. Lia em voz alta e um pouco trmula: 
-"Apreciado doutor Wakefield: Recebi sua consulta sobre a execuo de oficiais jacobitas pelas tropas do duque de Cumberland, depois da batalha de Culloden. A principal 
fonte que cito no livro ao que voc faz referncia  o dirio privado de certo lorde Melton, ao comando de um regimento de infantaria s ordens de Cumberland, quando 
se produziu a batalha de Culloden. Anexo est o xerox das pginas pertinentes desse dirio; como voc ver, a histria do sobrevivente, sobrevivente James Fraser, 
 estranha e comovedora. Fraser no  um personagem histrico importante e no interessa para minha prpria obra, mas com freqncia pensei em pesquisar um pouco 
mais, com a esperana de determinar que sorte correu finalmente. Se voc descobrir que sobreviveu  viagem para sua prpria propriedade, lhe ficaria grato se me 
comunicasse. Sempre tive a esperana de que assim tenha sido, ainda que sua situao, tal como a descreve Melton, fosse muito improvvel. Sada-o sinceramente, Eric 
Linklater." 
-Muito improvvel, ? -disse Brianna se pondo na ponta dos ps para olhar sobre o ombro de Roger- Ah! Ele regressou a casa. Isso j sabemos. 
     -Acho que assim foi -corrigiu Roger. Mas o fazia s por cautela de erudito. Seu sorriso era to amplo como a de Brianna. 
     -Quer tomar ch ou cacau antes do almoo? -A cabea morena e encaracolada de Fiona assomou pela porta do estudio, interrompendo o entusiasmo- Tenho bolos de 
gengibre recm tirados do forno. 
     -Ch, por favor -disse Roger. 
     Ao mesmo tempo, Brianna dizia: 
     -Oh, cacau, perfeito. 
     Fiona, empurrou a mesa redonda, onde trazia ao mesmo tempo uma chaleira e um pote de cacau junto com a vasilha de biscoitos. 
De minha parte, aceitei uma xcara de ch e me instalei na poltrona, com as pginas do dirio de Melton. 
     "... Para satisfazer a dvida de honra de meu irmo, no pude menos do que respeitar a vida de Fraser. Portanto, omiti seu nome da lista de traidores executados 
na colina e dispus que se transportasse at sua prpria propriedade. No me sinto misericordioso ao fazer isso, nem tambm culpado com respeito as minhas obrigaes 
para com o duque, pois a situao de Fraser, que tem uma grande ferida purulenta na perna, ser muito difcil que possa sobreviver  viagem at sua casa. Ainda assim, 
a honra me impede atuar de outro modo. Reconheo que me alegrou o esprito ao ver que o homem era retirado do lugar ainda com vida, enquanto eu dedicava meu atendimento 
 melanclica tarefa de sepultar os cadveres de seus camaradas. Aflige-me a matana que vi nestes dois ltimos dias."
     Apoiei as pginas em meu joelho, engulindo saliva com dificuldade. "Uma grande ferida purulenta..." Eu sabia melhor do que Roger e Brianna a gravidade que teria 
sido essa leso, sem antibiticos, sem um tratamento mdico adequado, sem nem sequer os vulgares emplastros de ervas de que dispunham os curandeiros das Terras Altas. 
     -Mas chegou. -A voz de Brianna interrompeu meus pensamentos, respondendo a uma idia similar expressada por Roger. Falava com singela segurana, como se tivesse 
presenciado todos os acontecimentos descritos no dirio de Melton e estivesse segura de seu resultado.- Chegou. Ele era o Gorropardo; estou certa. 
     -O Gorropardo? -Fiona que estalava a lngua ao ver intacta minha xcara de ch, j fria, olhou-a com surpresa acima do ombro- Ouviste falar do Gorropardo?
     -Voce ouviu? -Roger olhava a sua jovem caseira com ar atnito. 
     Ela assentiu, esvaziando calmamente minha xcara no vaso da aspirao, para ench-la outra vez com ch recm feito. 
     -Oh, sim. Minha av me contou muitas vezes essa histria. 
     -Conta-nos! -Brianna se inclinou para frente, muito atenciosa, com o cacau entre as mos-Por favor, Fiona! Como  essa histria? 
     A moa pareceu um pouco surpresa ao se ver subitamente no centro de tanta ateno, mas se encolheu de ombros, bem disposta.
     -Bom,  s a histria de um seguidor do Bonnie Prince. Na grande derrota de Culloden morreram muitos, mas uns quatro escaparam. Um homem fugiu do campo de batalha 
e cruzou o rio a nado para escapar, mas os ingleses o perseguiram. No caminho entrou numa igreja onde estavam celebrando um ofcio e implorou misericrdia ao sacerdote. 
Como um padre as pessoas se compadeceram dele, vendo um homem com as vestimentas do padre. Quando os ingleses invadiram, momentos depois, ele estava em p no pulpito, 
pregando seu sermo, com uma poa entre os ps pela gua que lhe jorrava da barba e a roupa. Os ingleses supuseram que tinham se enganado e continuaram o  seu caminho, 
assim que o homem escapou. E na igreja todos disseram que nunca tinham escutado um sermo to bom! -Fiona riu estericamente enquanto Brianna franzia o cenho e Roger 
fez cara de desconcerto.
     -Esse era o Gorropardo? -Estranhou-se- Eu achava que... 
     -Oh, no, no era esse. O Gorropardo foi outro dos homens que escaparam de Culloden. Voltou a sua prpria propriedade, mas como os Sassenachs estavam perseguindo 
aos homens em todas as Terras Altas, passou sete anos escondido numa gruta. 
     Ao ouvir isso, Brianna se deixou cair contra o encosto, lanando um suspiro de alvio. 
     -E seus arrendatrios o chamavam de Gorropardo para no o trair pronunciando seu nome -murmurou. 
     -Conheces a histria? -perguntou Fiona estupefata- Assim era, sim. 
     -E tua av te contou o que lhe aconteceu depois? -Requeriu Roger.
     -Oh, sim! Essa  a melhor parte. Resultou que depois de Culloden teve uma terrvel fome; pessoas morreram de fome nas colinas; em pleno inverno os inlgeses 
tiravam de suas casas, fuzilando os homens e prendiam fogo a suas casas. Os arrendatrios do Gorropardo se viraram melhor do que a maioria, mas ainda assim chegou 
o dia em que se acabou a comida e os estomagos ressoavam da manh  noite; no tinha caa no bosque nem cereais nos campos; os bebs morriam nos braos de suas mes 
por falta de leite para aliment-los.
     Ao ouvir aquelas palavras me percorreu um arrepio. Vi os habitantes de Lallybroch, pessoas s que eu tinha amado, abatidas pelo frio e a fome. No era s espanto 
o que me enchia, seno tambm culpa. Eu me tinha encontrado a salvo, abrigada e bem alimentada, em vez de compartilhar seu destino; tinha-os abandonado, tal como 
Jamie queria. Olhei a Brianna e a opresso de meu peito cedeu um pouco. Ela tambm tinha passado esses anos a salvo, com casaco, comida e amor, porque eu tinha feito 
o que Jamie queria. 
     -Assim o Gorropardo criou um plano audaz -continuou Fiona. Sua cara redonda brilhava pela dramaticidade do relato- Fez que um de seus arrendatrios se apresentasse 
aos ingleses e o dedurassem.
     Tinham posto um bom preo a sua cabea por ter sido um grande guerreiro do prncipe Eduardo. O arrendatrio cobraria o ouro da recompensa e o usaria para as 
pessoas da propriedade, imagino. E a mudana informaria aos ingleses onde podiam capturar o Gorropardo. 
     -Capturaram? -grasnou, rouca pela impresso- O enforcaram? 
     Fiona piscou, surpresa. 
     -Claro que no! -assegurou-Isso era o que desejavam, segundo contava minha av. O julgaram por traio, mas ao final s foi encarcerado. E o ouro passou a mos 
de seus arrendatrios, que sobreviveram  fome -concluiu alegremente, como se fosse um final feliz.
     -Por Deus -sussurrou Roger com um olhar perdido no nada- Encarcerado. 
     -Diz como se fosse uma sorte -protestou Brianna, que tinha as comissuras da boca tensas pela aflio e os olhos acesos. 
     -Assim  -confirmou Roger sem consertar o mal-estar- No eram muitos os crceres onde os ingleses prendiam os jacobitas e todas levavam registos oficiais. No 
se d de conta? -Seu olhar passou do desconcerto de Fiona ao cenho de Brianna; depois se posou em mim, com a esperana de encontrar entendimento- Se foi encarcerado 
posso ach-lo. 
     Voltou-se para as estantes que cobriam trs prateleiras do estudio, para caber a coleo de objetos jacobitas do defunto reverendo Wakefield.
     -Ele est aqui -apontou com suavidade- No registo de uma priso. Num documento.  uma prova real! -Voltou-se outra vez para mim- Ao ser encarcerado voltou a 
fazer parte da histria escrita! O encontraremos, em algum lugar. 
     -E saberemos que foi ele -sussurrou Brianna-, quando o puseram em liberdade. 
     Roger apertou os lbios para no dizer a alternativa que lhe saltava  mente, como tinha saltado  minha: "ou quando morreu". 
     -Sim, efetivamente -disse pegando-a da mo. Seus olhos se encontraram com os meus, muito verdes e misteriosos-Quando o puseram em liberdade. 
     Uma semana depois, a f de Roger nos documentos se mantinha inclume. No podia dizer-se o mesmo da antiga mesa do reverendo Wakefield, cujas finas pernas rangiam 
de maneira alarmante sob seu desacostumado carga.
     -Se por a cabea mais em cima tudo se vir abaixo -observou Claire ao ver que Roger esticava despreocupadamente a mo com inteno de lanar outra pasta sobre 
a pequena mesa. 
     -Eh? Oh, claro. -Mudou de direo em pleno movimento, procurando em vo outro lugar onde pr a pasta, e por fim decidiu deposit-la no cho, a seus ps. 
     -Acabo de terminar com Wentworth -disse Claire, assinalando com o dedo do p uma precria pilha feita no cho- J chegaram os registos de Berwick?
     -Esta mesma manh. Mas onde eu pus? -Roger deu uma olhada confusa pelo quarto, que se parecia muito ao saque da biblioteca de Alexandria um momento antes de 
que se acendesse a primeira tocha. Esfregou a testa, num esforo para concentrar-se. Depois de ter passado uma semana inteira folheando durante dez horas dirias 
registos manuscritos, cartas e dirios ntimos ou pblicos de governadores de priso, em procura de algum rasto oficial de Jamie Fraser, comeava a sentir que algum 
lhe tinha passado papel de lixa pelos olhos. 
     -Era azul -disse por fim- Me recordo claramente que era azul. Me enviou McAllister, um professor de Histria do Trinity College. Trinity usa grandes envelopes 
de cor azul claro, com o escudo de armas. Pode ser que Fiona o tenha visto. Fiona!
     As horas se avanaram, na cozinha ainda tinha luz; no ar perdurava um reconfortante cheiro a cacau e a docinho de amndoas recm assado. Fiona jamais abandonava 
seu posto enquanto tivesse a menor possibilidade de que algum precisasse de comida. 
     -Sim? -Sua cabea encaracolada assomou pela cozinha- O cacau j est. Ia tirar o docinho do forno. 
     Roger lhe sorriu com profundo afeto. Fiona no sabia nada de histria e s lia revista feminina, mas nunca questionava as atividades de seu chefe: tirava o 
p calmamente dos montes de livros e papis sem preocupar-se pelo que contivessem. 
     -Obrigado, Fiona -disse ele- S queria perguntar se voce viu um envelope azul, grande e gordo, mais ou menos assim. -Indicou o tamanho com as mos- Chegou com 
o correio da manh, mas no sei onde o deixei.
     -No banheiro l em cima -respondeu ela de imediato- H um livro muito grande com letras de ouro e a foto do Bonnie Prince, e trs cartas que foram acabadas 
de abrir, e tambm a fatura do gs; no esqueas de atrapalhe. 
     Um claro ding!, emitido pelo relgio do forno, fez que se retirasse a toda pressa, afogando uma exclamao. 
     Roger subiu as escadas de duas em duas, sorrindo. Com essa memria, Fiona teria Desceu com mais lentido, trazendo o envelope azul nas mos, e se perguntou 
o que teria pensado seu defunto pai adotivo da busca iniciada.
     -Estaria metido nela at as sobrancelhas, sem dvida alguma -murmurou para dentro. Rememorou uma imagem vivida do reverendo, com a calva brilhante sob os antiquados 
lustres, andando entre o estudio e a cozinha, onde a anci senhora Graham, a av de Fiona, satisfazia suas necessidades materiais durante seus ataques de erudio 
noturna, tal como o fazia agora sua neta. 
     Estava pensativo ao entrar no estudio. Nos velhos tempos, quando o filho seguia geralmente a profisso do pai, o fazia s por convenincia, para manter o negcio 
da famlia, ou existia alguma predisposio familiar para certo tipo de trabalho?
     Mas na realidade estava pensando em Brianna. Observou a Claire, que mantinha a cabea inclinada sobre a escrivaninha, e se descobriu perguntando-se at que 
ponto a moa se parecia a ela e em que proporo ao obscuro escocs (guerreiro, agricultor, cortesano, senhor feudal) que a tinha gerado. 
     Seus pensamentos seguiam aquela linha quando, quinze minutos depois, Claire fechou a ltima pasta de seu monto e se ergueu com um suspiro. 
     -O que ests pensando? -perguntou alongando a mo para sua xcara. 
     -Nada importante -respondeu Roger com um sorriso, saindo de seus sonhos- S me perguntava como a gente chega a ser o que . Como chegaste a ser mdica, por 
exemplo? 
     -Como cheguei a ser mdica? -Claire inalou o vapor do cacau e, decidindo que estava muito quente o depositou de novo na escrivaninha, entre livros, registos 
e folhas rabiscadas. Depois esfrego as mos- Como chegou a ser historiador?
     -Mais ou menos honradamente -respondeu ele, sentando-se no cadeiro do reverendo. Apontou a acumulao de papis e pequenos enfeites que os rodeava- Me Criei 
no meio de tudo isto. Quando mal sabia ler, j perambulava pelas Terras Altas com meu pai, procurando objetos arqueolgicos. Suponho que continuar fazendo-o era 
o natural. E voce? 
     Ela se espreguiou para aliviar os ombros, depois de muitas horas em mant-los encurvados sobre a escrivaninha. Brianna, sem poder manter-se desperta, tinha 
encostado uma hora antes, enquanto Claire e Roger continuavam a busca pelos registos administrativos das prises inglesas. 
     -Bom, no meu caso teve algo similar -disse ela- No  que decidi subitamente dedicar-me  medicina. Um dia me dei conta de que tinha praticado a medicina durante 
muito tempo, de que j no o fazia e de que o sentia falta.
     Esticou as mos na escrivaninha flexionando os dedos longos, com as unhas polidas em forma de curva. 
     -H uma velha cano da Primeira Guerra Mundial -sussurrou pensativa- Os velhos camaradas do tio Lamb cantavam as vezes, quando ficavam at tarde e bebiam at 
embebedar-se. Dizia algo assim: "Como fars para ret-los na colina, agora que viram Paris?" -Se interrompeu com um sorriso irnico- Eu tinha visto Paris. 
     Afastou os olhos de suas mos, alerta e presente, mas com rastos de nostalgia nos olhos. 
     -E muitas coisas mais. Caem e Amiens, Prestem e Falkirk, o Hpital ds Anges e a suposta sala de operaes de Leoch. Tinha atuado como mdica em todo sentido: 
atendia partos, colocava ossos fraturados, suturava feridas, tratava febres... -Encolheu-se de ombros- Tinha muitssimas coisas que no sabia, desde depois. Por 
isso decidi estudar medicina. Mas a diferena no foi muita, sabe? - Afundou um dedo no creme batido que boiava em seu cacau e a lambeu- Tenho um diploma de mdico, 
mas j era muito antes de pisar a universidade. 
     -No pode ter sido to fcil. -Roger soprou seu cacau, estudando-a com franco interesse- Ento no eram muitas as mulheres que estudavam medicina; agora mesmo 
no so tantas. E ademais, tu tinhas uma famlia. 
     -No, no posso dizer que tenha sido fcil. -Claire o olhou com ar zombador- Esperei  que Brianna comeasse a escola, claro, e at que pudssemos pagar a algum 
para que se encarregasse de cozinhar e limpar, mas... -Encolheu-se de ombros com um sorriso irnico- Passei vrios anos sem dormir. Isso ajudou um pouco. E Frank 
tambm me ajudou, ainda que parea estranho.
     Roger provou sua xcara; j tinha se esfriado o suficiente para beber. 
     -Mesmo? -perguntou com curiosidade- Pelo que me contaste dele, no tinha me ocorrido que lhe agradasse que estudasses medicina. 
     -No lhe agradava. -Ela apertou os lbios; o gesto foi mais expressivo do que as palavras; falava de discusses, conversas abandonadas  metade e uma teimosa 
oposio. 
     Que cara to expressiva, pensou enquanto a observava. De repente se perguntou se a sua seria igualmente fcil de interpretar. A idia o turvou tanto que submergiu 
a cara no copo para beber o cacau a grandes tragos, ainda que ainda estava muito quente. 
     Ao emergir da xcara viu que Claire o observava, um pouco risonha.
     -Por que? -perguntou rapidamente para distra-la- O que o fez mudar de atitude? 
     -Bree -disse ela. Seu rosto se amaciou, como lhe ocorria sempre ante a meno de sua filha- Para Frank, a nico que tinha verdadeira importncia era Bree. 
     Tal como terminava de dizer, tinha esperado que Brianna iniciasse a escola para inscrever-me na carreira de medicina. Mas ainda assim ficavam grandes vcuos 
entre seus horrios e os meus, que enchemos precariamente com uma srie de empregadas domsticas e babs mais ou menos competentes; algumas, mais; a maioria delas, 
menos.
     Minha mente voltou ao horrvel dia em que recebi um telefonema no hospital para informar-me que Brianna estava ferida. Sa correndo, sem deter-me sequer para 
tirar o avental de cirurgia, e voei para casa saltando-me todos os limites de velocidade. Ao chegar me encontrei com um carro patrulha e uma ambulncia que iluminava 
a noite com palpitaes vermelhas e azuis; na rua, frente  entrada, se aglomerava um punhado de vizinhos interessados. 
     Mais tarde soubemos o que tinha sucedido. A ltima bab temporria, incomodada porque eu tinha voltado a atrasar-me, tinha posto o casaco e ido embora, abandonando 
a Briana, que s tinha sete anos, com instrues de "esperar a mame". Ela o fez obedientemente durante uma hora ou duas, mas ao escurecer lhe deu medo estar s 
em casa; ento decidiu ir procurar-me. Quando cruzava uma das ruas transitadas das proximidades foi atropelada por um carro.
     Graas a Deus, no estava mal ferida; o carro circulava com lentido e a experincia no lhe deixou mais do que machucados e susto. No estava to assustada 
como eu,na realidade, nem tinha tantos machucados como as que senti ao v-la estendida no sof da sala, com lgrimas nas bochechas, dizendo: "Mame! Onde estava? 
No podia encontrar-te!" 
     Precisei de toda minha compostura profissional para reconfort-la, examin-la totalmente, atender novamente seus cortes e roaduras e dar o obrigado a quem 
a tinha ajudado (e que me olhavam com ar acusador ou isso me parecia). Depois a levei  cama, com o urso de pelcia apertado entre os braos, e me sentei ante a 
mesa da cozinha para chorar.
     Frank me deu umas palmadas lerdas, murmurando algo, mas ao fim renunciou e, com uma atitude mais prtica, foi preparar o ch. 
     -Estou decidida -disse quando ele ps adiante de mim a xcara fumegante. Falava com voz opaca; sentia a cabea pesada e brumosa- Vou desistir. Amanh mesmo. 
     -Desistir? -A voz de Frank soou aguda. Aos estudos? Por que? 
     -J no agento mais. -Nunca colocava creme nem acar ao ch. Naquele momento joguei ambos; enquanto mexia, observei a espuma que se amontoava na xcara-.No 
suporto deixar a Bree sem saber se est bem atendida..., e sabendo que no  feliz. Bem sabes que no lhe agradou nenhuma das babas que provamos.
     -Sim, eu sei. -Sentou-se frente a mim, removendo sua prpria xcara. Depois de um longo instante, disse-: Mas no creio que devas desistir. 
     Era o ltimo que esperava; tinha imaginado que ele receberia minha deciso com um aplauso de alvio. Olhei-o, atnita. 
     -No? 
     -Ah, Claire. -Falava com impacincia, mas tambm com uma fissura de afeto- Desde o princpio voce soube o que era. Tens idia do raro que  isso? 
     -No. 
     Frank se reclinou na cadeira, mexendo a cabea. 
     -No, suponho que -no disse. Calou um momento com a vista fixa nas mos cruzadas. Tinha os dedos longos e finos, suaves e sem plo, como de mulher. Mos elegantes, 
feitas para os gestos desenvoltos e a nfase do discurso.
     -Eu no o tenho -disse ao fim, baixinho- Sou bom, sim: para ensinar, para escrever. Estupendo as vezes. E me agrada; desfruto com o que fao. Mas o fato  que... 
-vacilou, olhando-me de frente-Poderia dedicar-me a outra coisa e ser igualmente bom. Me agradaria tanto ou to pouco como isto. No tenho essa absoluta convico 
de que na vida h algo para o que estou destinado. Voce sim. 
     -E isso  bom? -Doa-me o nariz e tinha os olhos inchados de tanto chorar. 
     Ele sorriu. 
     - muito incmodo, Claire. Para voce, para mim e para Brianna. Mas no sabes como te invejo as vezes. 
     Alongou uma mo. Depois de uma breve vacilao, entreguei-lhe a minha. 
     -Ter essa paixo por algo... -Uma leve careta lhe esticou a boca- Ou por algum.  maravilhoso, Claire, e muito raro.
     Me estreitou a mo suavemente e a soltou. Depois tirou um livro da estante que tinha junto  mesa. Era um de seus textos de referncia: Patriotas, de Woodhill, 
uma srie de biografias dos Pais Fundadores da Amrica do Norte. 
     -Esta gente era assim. Da que se interessa tanto como para arrisc-lo tudo. A maioria no  assim, sabes? No  que no lhe importe, seno que no lhes importa 
tanto. -Pegou-me a mo outra vez e percorreu com um dedo as linhas da palma- Estar aqui? H gente destinada a algo grandioso? Ou  que nascem com essa grande paixo 
e, se se encontram nas circunstncias adequadas, as coisas passam?  o que se pergunta quando estuda histria. Mas no h modo de sab-lo, mesmo. S sabemos o que 
conseguiram. 
     Seus olhos adquiriram uma clara nota de advertncia. Deu um golpezinho  capa do livro. 
     -Mas esta gente, Claire... pagou seu preo.
     -Eu sei. -Sentia-me como se visse a cena desde longe: Frank, aarrogante, esbelto e pouco fatigado, com belos cabelos brancos nas tmporas. Eu, com meu sujo 
avental de cirurgia, o cabelo escorrido e os olhos enrugados pelas lgrimas de Brianna. Passamos um momento em silncio. Minha mo seguia descansando na de Frank. 
Vi as linhas e os vales misteriosos, claros como um mapa de estradas. Mas a que destino desconhecido levavam aqueles caminhos? 
     Anos antes, uma anci dama escocesa me tinha lido a mo. "As linhas da palma mudam  medida que tu mudas", tinha dito. "Com que tenhas nascido no importa tanto 
como o que faas de ti mesma." 
     E da tinha feito de mim mesma, que estava fazendo? Um desastre. No era boa me, nem boa esposa, nem bom mdico. Um desastre. 
     -Eu me ocuparei de Bree.
     Naquele momento estava to afundada em meus pensamentos angustiantes que no ouvi as palavras de Frank. Olhei-o estpidamente. 
     -Que disse ? 
     -Disse -repetiu com pacincia- que me ocuparei de Bree. Quando sair da escola pode vir  universidade e coloc-la em meu escritrio at que eu tenha terminado. 
     Esfreguei o nariz. 
     -No disse que o pessoal fazia mal em levar os seus filhos ao trabalho? -Ele criticava muito a uma das secretrias por ter levado ao seu neto ao escritrio 
durante o ms em que a me esteve enferma.
     Se encolheu de ombros com ar incmodo. 
     -Bom, as circunstncias mudam tudo. E no creio que Brianna corra pelos corredores, gritando e virando os tinteiros como fazia Bart Clancy. 
     -Eu no colocaria a mo no fogo -apontei irnica- Mas voce faria? -Na boca de meu estmago oprimido comeava a crescer uma pequena sensao, um cauteloso e 
incrdulo alvio. Por enquanto no podia confiar que Frank me fosse fiel (sabia perfeitamente que no o era) podia confiar-lhe calmamente a Bree. 
     De repente a preocupao desapareceu. A menina amava a Frank; estaria na glria ante a perspectiva de ir todos os dias ao seu escritrio.
     -Por que? -perguntei diretamente- Nunca se entusiasmou na idia de que eu fosse mdica. 
     -No -disse pensativo- Mas creio que no h maneira de te impedir. Talvez o melhor seja ajudar, para que Brianna no seja prejudicada. 
     Suas feies se endureceram e me deu  as costas. 
     -Se ele achava ter um seno, esse seno era Brianna -disse Claire removendo pensativamente seu cacau-Por que se interessa, Roger? Por que perguntas? Demorou 
um momento em responder, enquanto tragava lentamente seu cacau. Estava espesso, com nata fresca e um pouco de acar torrado. Ao dar a primeira olhada a Brianna, 
Fiona, sempre realista, tinha abandonado qualquer esperana de levar a Roger ao altar pelo caminho do estmago. Mas Fiona era cozinheira tal como Claire era mdica: 
tinha nascido com essa habilidade e tinha que a utilizar.
     -Porque sou historiador, suponho -respondeu ao fim, olhando-a acima da xcara-. Preciso saber o que o fez e por que. 
     -E acha que eu posso dizer-te? -Claire o olhou firme - Ou o que eu sei? 
     Ele assentiu com a cabea. 
     -Sabes mais do que a maioria. As fontes que ns historiadores usamos no costumam ter teu... digamos... tua perspectiva -terminou com um amplo sorriso. 
     A tenso se aliviou subitamente. Ela recolheu sua xcara, rindo. 
     -Digamos assim -disse. 
     -Alm do mais -prosseguiu observando-a atenciosamente-, s franca. No creio que pudesses mentir nem ainda que o tentasses. 
     Ela soltou um riso breve e seco.
     -Todo mundo pode mentir, jovem Roger, se tem uma boa causa. At eu. S que  mais difcil para quem vive em cubos de vidro. Temos que criar as mentiras com 
antecipao. 
     E inclinou a cabea para os papis que tinha ante si. Roger pensou que tinha abandonado a conversa, mas um momento depois Claire voltou a levantar os olhos. 
     -Tens toda a razo -reconheceu- Sou franca..., me entrego, mais do que nada. Para mim  difcil no dizer o que penso. Imagino que se deu conta porque s igual. 
     -Eu? -Roger se sentiu absurdamente comprazido. 
     Claire assentiu com um leve sorriso nos lbios.
     -Oh, sim.  inconfundvel, sabe? No h muitos capazes de te dizer a verdade sobre si mesmo. S conheci a trs..., quatro, agora -corrigiu, alargando o sorriso-. 
Um era Jamie, por suposto. -Seus longos dedos descansaram sobre o monto de papis, quase acariciando-os- O maestro Raymond, o boticario que conheci em Paris. E 
um amigo que fiz enquanto estudava medicina, Joe Abernathy. E agora, voce. Parece-me. 
     Inclinou a xcara para beber o resto do rico lquido pardo. Depois olhou diretamente a Roger. 
     -Mas Frank tinha razo, em certo sentido. No necessariamente  mais fcil saber para que foste criado; mas ao menos no desperdias tempo em questionamentos 
ou dvidas. Se s sincero... bom, isso tambm no  necessariamente fcil. Mas suponho que s sincero contigo mesmo e sabes o que s, tens menos probabilidades de 
pensar do que desperdiaste a vida fazendo o que no te correspondia.
     Deixou de um lado o monto de papis para pegar outro: uma srie de pastas com o logotipo do Museu Britnico. 
     -Jamie era assim -disse com suavidade, para si mesma- No era dos que do as costas a algo que considerasse seu dever. Perigoso ou no. E creio que no se sentiu 
desperdiado... qualquer que fosse seu final. 
     Ficou em silncio, absorta nos aracnideos traos de algum escrevente morto muito tempo atrs. Procurava alguma anotao capaz de revelar-lhe onde tinha estado 
Jamie Fraser, se tinha desperdiado a vida numa priso ou terminado numa masmorra solitria. 
     Roger deixou as delgadas folhas que tinha estado olhando e bocejou intensamente, sem se incomodar em tampar a boca. 
     -Estou to cansado que vejo duplo -disse- Quer que continuar pela manh? 
     Claire demorou um momento a responder.
     -No. -Pegou outra pasta e lhe sorriu; em seus olhos tinha a expresso de distncia- V dormir Roger. Procurarei um pouco mais. 
     Quando no fim o encontrei estive a ponto de pass-lo por alto. Em vez de ler os nomes com ateno, limitava-me a procurar nas pginas a letra J: "John, Joseph, 
Jacques, James." Tinha James Edward, James Alan, James Walter ad infinitum. E de repente apareceu ali, em letra pequena e exata: "Jms. Mackenzie Fraser, de Brock 
Turac." 
     Depositei cuidadosamente a pgina na mesa; fechei os olhos um instante, para despej-los, e depois voltei a olhar. Ali estava ainda.
     -Jamie -disse em voz alta. O corao me palpitava com fora no peito- Jamie -repeti mais baixo. 
     Eram quase as trs da manh. Todos dormiam. No senti desejo de correr para acordar a Brianna nem a Roger para dar-lhes a notcia. Queria reservar-me um momento, 
como se estivesse s ali, no quarto iluminado pelo lustre, com Jamie em pessoa.
     Segu com o dedo a linha de tinta. A pessoa que tinha escrito aquela linha tinha visto Jamie; talvez a tinha escrito tendo-o ante si. A data era 16 de maio 
de 1753. Mais ou menos nesta poca do ano. No era a primeira vez que o encarceravam. Qual tinha sido seu aspecto ao enfrentar-se ao funcionrio da priso inglesa, 
sabendo o que lhe esperava? Cenhoso como o demnio, provavelmente, olhando ao longo de seu nariz longo e reto, com olhos to frios, to azuis, escuros e formidveis 
como as guas do lago Ness. 
     Abri os olhos. Apegada na recordao, nem sequer tinha visto qual era a priso da que proviam esses registos. 
     "Ardsmuir", dizia o carto, pulcramente colada  pasta. 
     -Ardsmuir? -disse sem entender- E onde diabos fica isso?
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
   CAPTULO 8
     
   Prisioneiro de honra
   
     Ardsmuir, Escocia 
     15 de fevereiro de 1755

-Ardsmuir  o traseiro do mundo-comentou o coronel Harry Quarry. Levantou   a taa para o jovem que estava de p ante a janela- Faz doze meses que estou aqui, isto 
: onze meses e mais vinte e nove dias dos que teria querido. Desfrute seu novo posto, milord. 
     O comandante John William Grey se afastou da janela que dava ao ptio, da qual tinha estado observando seus novos domnios. 
     -Parece um pouco incmodo -reconheceu secamente, levantando sua taa- Sempre chove assim?
     -Sim. Isto  Esccia... Pior ainda: o c desta maldita Esccia. -Quarry deu um longo trago de whisky; depois tossiu e exalou ruidosamente o ar- A nica compensao 
 a bebida -disse algo rouco- Visita os traficantes locais vestido com o seu melhor uniforme, e nos faro um preo decente.  assombrosamente barato sem os impostos. 
Deixo uma lista das melhores destilarias.- Apontou com a cabea a enorme escrivaninha de carvalho. Depois, levantando-se, deu um puxo na primeira gaveta. 
     -Aqui est o contra-cheque dos guardas. -Pegou na escrivaninha uma maltratada pasta de couro. De imediato, outra- E a dos prisioneiros. Por enquanto tem cento 
e noventa e seis; a cifra habitual  de duzentos, somando ou restando os que falecem por doena e algum caador furtivo aprisionado na campina.
     -Duzentos -repetiu Grey- E quantos nas barracas dos guardas? 
     -Oitenta e dois, segundo o contra-cheque. Em condies de ser teis, em torno da metade. -Quarry voltou a afundar a mo na gaveta e tirou uma garrafa de vidro 
pardo tampada com uma cortia. Sacudiu para ouvir o chapino e sorriu sardnico- No s o comandante procura consolo na bebida. A metade destes ordinrios costumam 
estar incapacitados quando passa lista. Eu deixarei isto tambm. Nos far falta. 
     Voltou a guardar a garrafa e abriu a ltima gaveta. 
     -Aqui, requisies e cpias; o pior do posto  a burocracia. No  grande coisa se contar com um empregado decente. Neste momento no o h. Tinha um cabo com 
boa letra mas morreu faz duas semanas. Treina outro, no ter nada a fazer salvo caar galos silvestres e procurar o ouro do Francs.
     Festejou sua prpria anedota com uma gargalhada; naquela parte de Esccia abundavam os rumores sobre o ouro que, supostamente, Luis de Frana tinha enviado 
a seu primo Carlos Stuart. 
     -Os prisioneiros no so desobedientes? -perguntou Grey- Tenho entendido que, em sua maior parte, so jacobitas das Terras Altas. 
     -Efetivamente, mas bastante dceis. -Quarry fez uma pausa para olhar pela janela. Uma breve fila de homens maltrapilhos saam por uma porta praticada na imponente 
muralha de pedra- Culloden os deixou sem coragem -disse indiferente- Disso se encarregou Billy, o carniceiro. E aqui eles trabalham tanto que no fica energia para 
causar problemas.
     Grey assentiu. A fortaleza de Ardsmuir estava em processo de renovao, utilizando, bastante ironicamente, a mo de obra dos escoceses encarcerados ali. Levantou-se 
para reunir-se com Quarry ante a janela. 
     -Ali sai uma quadrilha cortando o caminho pela multido. -O coronel apontou com a cabea ao grupo abaixo: dez ou doze homens barbudos, esfarrapados como espantalhos, 
formados em uma torpe fila ante um soldado com jaqueta vermelha. Acompanhava-nos seis soldados armados de mosquetes, cujo elegante aspecto contrastava notoriamente 
com o dos montanheses. Quarry os contou,cenhoso- Deve de ter alguns enfermos; um bando de trabalho se compe de dezoito homens: trs prisioneiros por guarda, devido 
aos punhais. Ainda que so assombrosamente poucos os que tratam de fugir.
     Se afastou da janela, dando um pontap em um grande cesto cheio de toscos fragmentos de substncia escura. 
     -Deixa a janela aberta ainda que chova -aconselhou- Caso contrrio, a fumaa da multido o sufocar. -Como ilustrao, respirou fundo e deixou escapar o ar 
explosivamente-. Deus meu, que alegria, voltar a Londres! 
     -Suponho que no h muita vida social na rea -perguntou Grey seco. 
     Quarry se curvou a rir, divertido pela idia. 
     -Vida social? Meu querido amigo! Se no encontrar uma ou duas moas que h na aldeia, sua vida social consistir somente em conversar com vossos oficiais. So 
quatro, dos quais s a ordem  capaz de falar sem empregar blasfemias. E um prisioneiro.
     -Um prisioneiro? -Grey afastou os olhos dos registos que estava folheando com uma loira sobrancelha levantada. 
     -Oh, sim. -Quarry se mexia inquieto pelo escritrio, desejoso para partir. A carruagem esperava; s tinha demorado para informar ao seu substituto a efetuar 
o transpasso formal do comando. Deteve-se para dar uma olhada a Grey, curvando a boca como se desfrutasse de uma brincadeira secreta- Suponho que ouvistes falar 
de Jamie Fraser, o ruivo. 
     Grey se ps levemente rgido, mas manteve a cara to impvida como pde. 
     -Como a maioria -respondeu frio- Esse homem se destacou durante a guerra.
     Ento esse maldito Quarry conhecia o caso! Inteiro ou s a primeira parte? 
     O coronel  contraiu levemente a boca, mas se limitou a assentir. 
     -Bastante, sim. Bom, temos ele aqui.  o nico jacobita de alta graduao; os prisioneiros montanheses o tratam como um chefe. Portanto, se surge alguma questo 
relacionada com os internos, e surgir, vos asseguro,  ele quem atua como porta-voz. 
     Quarry tinha estado caminhando em meias; naquele momento se sentou para pr as botas longas da cavalaria para enfrentar o barro de fora.
     -Um, Mac Anfhear Dhuibh. Assim o chamam. Ou simplesmente Mac Dubh. Fala galico? Eu tambm no. Mas Grissom sim, e ele diz que significa "James, filho do Negro". 
Metade dos guardas lhe tm medo; so os que combateram em Prestonpans s ordens de Cope. Dizem que  o diabo em pessoa. Um pobre diabo agora! -O coronel ofegou- 
Os prisioneiros lhe obedecem sem dar um piu. Mas ordena algo sem que ele lhe ponha seu lacre e ser como falar com as pedras do ptio. Teve ajustes com escoceses? 
Ah, por suposto; combateu em Culloden com o regimento de seu irmo, no ? 
     Quarry deu uma palmada na testa ante sua fingida m memria. Aquele maldito homem sabia tudo!
     -Ento voce tem idia. Teimoso  pouco dizer. O que significa que precisa da boa vontade de Fraser..., ou ao menos sua colaborao. -Fez uma pausa para desfrut-lo- 
Eu o convidava a jantar comigo uma vez por semana para falar de como ia tudo e me dava bons resultados. Podes tentar o mesmo. 
     -Suponho que sim. -O tom de Grey era sereno mas tinha os punhos apertados. Jantaria com Fraser quando tivesse maaricos no inferno. 
     - um homem instrudo -continuou Quarry com os olhos brilhantes de malcia- Um interlocutor bem mais interessante do que os oficiais. Sabe jogar xadrez. Voce 
joga alguma partida de vez em quando, no?
     -De vez em quando. -Tinha os msculos do abdomem to apertados que lhe custava respirar. Por que no fechava a boca e se ia de uma vez aquele maldito idiota? 
     -Oh, bom, tudo fica em suas mos. -O coronel  se voltou para a porta com o chapu na mo- Uma coisa mais. Se jantar a ss com Fraser... no lhe d as costas. 
     Sua cara tinha perdido a graa ofensiva. Grey o olhou, cenhoso, mas no viu mostras de que a advertncia fora uma brincadeira. 
     -Digo em srio -aclarou Quarry, subitamente srio- Est encadeado, mas no  difcil enforcar a um homem usando a corrente. E Fraser  um gigante.
     -Eu sei. -Furioso, Grey sentiu que lhe subia o sangue  cara. Para dissimul-lo girou em volta refrescando-se o semblante com o ar frio que entrava pela janela 
entreaberta e disse s pedras cinzas do ptio que brilhavam sob a chuva-: Se  to inteligente como diz, no cometeria a estupidez de atacar-me em minhas prprias 
habitaes e dentro da priso. O que ganharia com isso? 
     O coronel no respondeu. Em um momento Grey girou para ele e o viu olhando-o pensativamente; j no tinha rastos de humor em sua cara larga e rubicunda. 
     -Existe a inteligncia -disse com lentido- E tambm existem outras coisas. Mas voce  muito jovem; talvez no tenha visto de perto o dio e o desespero. Na 
Esccia teve muito nestes dez ltimos anos.
     O comandante Grey era jovem, certamente; tinha mal vinte e seis anos, pele clara e pestanas femininas que lhe davam um aspecto ainda mais juvenil. Para complicar 
o problema, media trs ou menos quatro centmetros da mdia e era de ossos finos. Se ergueu em toda sua estatura. 
     -Conheo bem essas coisas, coronel -disse com voz firme. 
     Como ele, Quarry era o filho menor de uma boa famlia, mas o superava em categoria. Tinha que se controlar. 
     Os brilhantes olhos de avel descansaram nele, especulativos. 
     -Dou conta. 
     Com um brusco movimento, Quarry ps o chapu. Depois tocou a bochecha, onde a linha escura de uma cicatriz sulcava a pele avermelhada: recordao do escandaloso 
duelo que o tinha enviado ao exlio de Ardsmuir.
     -Sabe Deus o que fizeste para o enviar aqui, Grey -disse mexendo a cabea- Por vosso prprio bem, espero que o merea.Te desejo boa sorte! 
     E desapareceu com um volteio em seu manto azul. 
     -Mais vale um mau conhecido do que um bom para conhecer -disse Murdo Lindsay sacudindo lgubremente a cabea- E aposto que Harry no era to mau. 
     -No,  verdade -disse Kenny Lesley- Mas  estavas aqui quando veio, no ? Era muito melhor do que esse merda de Bogle, no? 
     -Sim -reconheceu Murdo inexpressivo. Que queres dizer, homem? 
     -Se Harry era melhor do que Bogle -explicou Lesley paciente-, Harry era  bom para conhecer. E Bogle, o mau conhecido. Apesar de tudo, Harry foi melhor. Assim 
se enganas, homem.
     -No me engano! Ao menos, isso eu creio -murmurou Murdo sem poder recordar exatamente o que tinha dito. Voltou-se para apelar  corpulenta silhueta sentada 
no canto- Me engano, MacDubh? 
     O homem alto se espreguiou, fazendo tinir levemente a corrente de seus grilhetes, e se jogou a rir. 
     -No, Murdo, no se engana. Mas ainda no sabemos se tens razo. Ter que ver o quanto   o bom para conhecer, certo? -Ao ver que Lesley franzia as sobrancelhas, 
preparado para seguir discutindo, alou a voz e disse a todos os presentes:- Algum viu o novo carcereiro? Johnson? MacTavish? 
     -Eu -disse Hayes adiantando-se com gosto para esquentar-se as mos ante o fogo. 
     Na ampla cela tinha uma chamin frente  qual s podiam pr-se seis homens ao mesmo tempo. Os outros quarenta ficavam expostos ao intenso frio, apertadoss para 
dar-se calor. Portanto, tinham lembrado que quem tivesse um conto que relatar ou uma cano que entoar podia situar-se junto ao fogo enquanto tivesse a palavra.
     Hayes relaxou, com os olhos fechados e uma bem aventurado sorriso na cara, alongando as mos para o calor. Os movimentos inquietos, a ambos lados, fizeram que 
se apressasse a abrir os olhos. 
     -Vi-o quando desceu de sua carruagem. E outra vez quando lhes subiu um prato de doces da cozinha, enquanto conversava com o aposto Harry.  loiro, de longos 
cachos amarelos atados com uma fita azul. Tem os olhos grandes e as pestanas longas, como uma moa. 
     Hayes olhou com obcenidade aos seus ouvintes e agitou suas plpebras, zombando. Alentado pelos risos, passou a descrever as roupas do novo carcereiro ("finas 
como as de um lorde"), sua bagagem e seu servente ("um desses Sassenachs que falam como se tivessem queimado a lngua") e tudo o que tinha podido perceber em sua 
maneira de expressar-se.
     -Fala claro e de pressa, como se estivesse muito informado. -Mexeu dubitativamente a cabea- Mas  muito jovem. D a impresso de ser quase um menino, ainda 
que suponho que  maior do que parece. Mantm-se muito erguido, como se lhe tivessem metido uma vara pelo traseiro. 
     Isto deu origem a uma srie de risos e comentrios vulgaress. Depois Hayes cedeu seu lugar a Ogilvie, que conhecia um episdio longo e chocante sobre o senhor 
de Donibristle e a filha do porqueiro. Afastou-se do fogo sem ressentimento e, seguindo com o costume, foi sentar-se junto a Mac Dubh. 
     Mac Dubh nunca ocupava seu lugar junto com eles, nem sequer quando lhes narrava longas histrias dos livros que tinha lido: As aventuras de Roderick Random, 
A histria de Tom Jones ou a favorita de todos: Robinson Crusoe. Alegando que precisava espao para suas longas pernas, ficava sempre no mesmo canto, onde todos 
podiam ouvir-lhe.
     -Crs que falars amanh com o novo carcereiro, Mac Dubh? -perguntou Hayes ao sentar-se ao seu lado- Cruzei-me com Billy Malcolm, que vinha cortando pela multido, 
e gritou que os ratos esto muito audazes em sua cela. Esta semana morderam seis homens enquanto dormiam e dois deles esto purulentos. 
     Mac Dubh mexeu a cabea e coou o queixo. Antes de cada audincia semanal com Harry Quarry se lhe facilitava uma navalha para barbear-se, mas tinham passado 
cinco dias desde a ltima e j tinha o queixo coberto de cerdas vermelhas. 
     -No sei, Gavin -sussurrou- Quarry prometeu explicar ao novo carcereiro o nosso acordo, mas este pode ter costumes diferentes, no? Se me chama no deixarei 
de mencionar os ratos. Malcolm pediu que Morrison visse as feridas?
     Na priso no tinha mdicos. Morrison, que tinha boa mo para curar, permitia ir de cela em cela para atender aos enfermos ou lesados, se Mac Dubh o solicitava. 
     Hayes mexeu a cabea. 
     -No teve tempo para dizer mais. Passavam marchando, entende? 
     -Ser melhor  que envie  Morrison -decidiu Mac Dubh- Ele pode perguntar a Billy se h algum outro problema ali. 
     Tinha quatro celas principais, nas que se alojava os prisioneiros em grupos numerosos; as notcias passavam de uma a outra graas s visitas de Morrison e aos 
intercmbios dos homens que se produziam em bandos quando saam diariamente a trabalhar.
     Morrison veio quando mandou chamar, guardando em seu bolso quatro crnios de ratos talhados, com que os prisioneiros improvisavam jogos de casualidade. Mac. 
Dubh procurou s apalpadelas sob o banco que ocupava e tirou o saco de pano que saa ao pramo. 
     -Oh, outra vez esses malditos cardos! -protestou Morrison, ao ver o homo fazendo uma careta ao rebuscar na bolsa- No posso fazer que comam essas coisas. Todos 
me dizem que no so vacas nem porcos. 
     Mac Dubh tirou cautelosamente um punhado de caules secos e chupou os dedos fincados. 
     -So teimosos como porcos, sem duvid -comentou-  s um bicho leiteiro. Quantas vezes queres que te diga, Morrison? Tira os espinhos, reduz a polpa as folhas 
e os caules e, se so demais espinhosos para comer untados numa bolacha, prepara um ch para que os homens o bebam.
     - Voces lembraram que as vacas e os porcos nunca perdem os dentes. -Depois de emitir o breve rudo que nele passava por gargalhada, Morrison foi recolher as 
poucas ervas e ungentos que utilizava como remdios. Mac Dubh deu uma olhada pela cela para assegurar-se de que no estivesse gestando nenhum problema. Depois fechou 
os olhos. Estava fatigado, tinha passado todo o dia carregando pedras, sem tempo sequer para pensar no novo carcereiro, por importante que fosse aquele homem na 
vida de todos. Jovem, dizia Hayes. Isso podia ser bom, mas tambm podia ser mau. 
     Com um suspiro, mudou de postura, incomodado (pela milsima vez) pelas algemas que levava. Alm das roaduras, causavam-lhe dores de costas pela impossibilidade 
de separar os braos mais de meio metro.
     -Mac Dubh -disse uma voz suave ao seu lado-, posso dizer-te uma palavra ao ouvido? 
     Ao abrir os olhos viu Ronnie Sutherland ao seu lado. 
     -Claro, Ronnie. 
     Incorporou-se, afastando com firmeza sua mente das correntes e do novo carcereiro. 
Essa noite, John Grey escreveu:
     Queridsima me: 
     Cheguei so e salvo ao meu novo posto, estou cmodo. Meu predecessor, o coronel Quarry (sobrinho do duque de Clarence, lembras?) deu-me as boas vindas e me 
ps ao tanto de minhas funes. Conto com um excelente servidor e, por enquanto  inevitvel que muitas coisas de Esccia me paream estranhas num princpio, no 
duvido que a experincia tem de ser interessante. Para jantar me serviram um refogado que, segundo o garom, chama-se "haggis". Dizem ser o rgo interior de uma 
ovelha, recheado com uma mistura de aveia moida e certa quantidade de carne cozida, de origem no identificada. Ainda me assegura que, para os habitantes de Esccia, 
este prato  uma verdadeira preciosidade, enviei-o  cozinha e solicitei a mudana um simples filet de cordeiro. Tendo celebrado desse modo minha primeira e humilde 
comida aqui, e estando algo fatigado pela longa viagem (de cujos detalhes te informarei em minha prxima carta) creio que agora devo retirar-me, deixando uma descrio 
mais completa do ambiente, com o que ainda no estou muito familiarizado, para outra ocasio.
     Fez uma pausa, dando golpezinhos no secante com a pluma, que deixou pequenos pontos de tinta; uniu-os distraidamente com linhas, traando o contorno de um objeto 
irregular.
     Se atreveria a perguntar por George? No podia faz-lo diretamente, mas sim com uma referncia  famlia, perguntando a sua me se tinha visto recentemente 
a lady Everett e pedindo-lhe que lhe transmitisse suas recordaes ao filho.
     Suspirando desenhou outro ponto. No. Sua me viva ignorava a situao, mas o esposo de lady Everett se movia  no crculo militar. Com a influncia de seu 
irmo maior reduziria a fofoca ao mnimo, lorde podia sentir o assunto e no demoraria em somar dois em dois. Com que ele dissesse uma palavra imprudente a sua esposa 
sobre George e essa palavra passasse de lady Everett a sua me... A condessa viva de Melton no era tonta. Sabia muito bem que seu filho menor tinha cado em desgraa; 
aos oficiais jovens bem vistos pelos superiores no se lhes enviava ao c da Esccia a supervisionar a renovao de um pequeno crcere sem importncia. Mas Harold, 
seu irmo, tinha-lhe explicado que se tratava de um azarado assunto do corao, insinuando algo indecoroso, para evitar que ela fizesse perguntas. Provavelmente, 
a condessa pensava que tinham surpreendido a John com a esposa do coronel ou com uma ramera em suas habitaes.
     Um azarado assunto do corao! Molhou a pluma no tinteiro com um sorriso preocupado. Talvez Harold era mais sensvel do que parecia ao qualific-lo assim. Claro 
que, desde a morte de Hctor em Culloden, todos aqueles assuntos tinham sido azarados para John. 
     Ao pensar em Culloden lembrou de Fraser, pouco que tinha estado evitando-o durante todo o dia. Deu uma olhada  pasta onde se guardava o contra-cheque de prisioneiros, 
tentado abr-la para procurar o nome. Mas que sentido tinha? Nas Terras Altas podia ter vinte homens chamados James Fraser, mas s um apelidado como ruivo. 
     -Perdo, senhor. Devo j esquentar a cama?
     O acento escocs, a suas costas, sobressaltou-lhe. Ao girar em volta se encontrou com a cabea revolta do prisioneiro encarregado de atender suas habitaes. 
     -Oh! Eh... sim, obrigado... MacDonell?-arriscou hesitante. 
     -MacKay, milord -corrigiu o homem sem ressentimento visvel. A cabea desapareceu. 
     Grey suspirou. Aquela noite j no poderia fazer nada. Voltou  escrivaninha e aproximou a carta para assin-la de pressa: Com todo afeto, teu obediente filho, 
John Wm. Grey. Depois espalhou areia sobre a assinatura, selou-a com seu anel e a deixou a um lado para que a despachassem pela manh. 
     Apagou a vela e se foi  cama guiado pelo resplendor difuso do lar.
     Devido aos efeitos do esgotamento e o whisky, deveria ter dormido de imediato; no entanto, o sonho se mantinha a distncia, rondando sua cama como um morcego 
mas sem chegar a posar-se. Cada vez que estava a ponto de sumir-se no descanso aparecia ante seus olhos uma viso do bosque de Carryarrick; ento se descobria, uma 
vez mais, espevitado e sudoroso, com o corao retombando-lhe nos ouvidos. 
     Naquela poca ele tinha dezesseis anos e estava muito excitado por sua primeira campanha. Ainda que ainda no era oficial, seu irmo Harold o tinha levado com 
o regimento a fim de que conhecesse a vida militar.
     Enquanto marchavam para reunir-se com o general Cope em Prestonpans, acamparam cerca de um escuro bosque escocs. John se sentia muito nervoso para dormir. 
Como seria a batalha? No se decidia a mencionar seu medo nem sequer a Hctor. Hctor o queria, mas era j um homem de vinte anos, alto, musculoso e temerrio, com 
um cargo de tenente e deslumbrantes episdios das batalhas livradas em Frana. 
     Ainda agora ignorava se tinha feito isso para amular a Hctor ou s para impression-lo. O caso  que, ao ver o montanhes no bosque e ao reconhec-lo como o 
famoso Jamie Fraser dos cartazes, decidiu mat-lo ou captur-lo.
     Lhe tinha ocorrido, sim, a idia de voltar ao acampamento em procura de ajuda; mas o homem estava s (ao menos, isso pensou John) e obviamente desprevenido; 
calmamente sentado num tronco, comia um bocado de po. 
     Ele desembainhou seu punhal e se escorreu entre o bosque para a ruiva cabea, com a empunhadura da faca na mo e a mente cheia de vises de glria, imaginando 
os elogios de Hctor. 
     Mas, em seu lugar, quando descarregava seu punhal, rodeando com um brao o pescoo do escocs... 
     Lorde John Grey se esticou na cama, acalorado pelas recordaes. Tinham cado para trs, embolando juntos na crepitante escurido coberta de folhas secas, procurando 
s apalpadelas da faca, debatendo-se e lutando..., por defender a vida, pensava ele.
     Ao princpio o escocs estava embaixo dele; depois, de algum modo, retorceu-se e ficou acima. John tinha trazido numa ocasio uma grande apito feito na ndia; 
e isso parecia o tato de Fraser: ligeiro, suave e horrivelmente poderoso; movia-se com aqueles aros musculosos, nunca por onde se esperava. 
     Viu-se ignominiosamente atirado de bruos entre as folhas, com os braos dolorosamente retorcidos nas costas. Num acesso de terror, seguro de que ia ser assassinado, 
tirou com todas suas foras do brao aprisionado; o osso se rompeu com um estalido de dor que o deixou sem sentido. 
     Ao voltar em si estava apoiado numa rvore frente a um crculo de ferozes montanheses, todos com saias. No meio de todos eles estava o Ruivo Fraser... e a mulher. 
     Grey apertou os dentes. Maldita mulher! Se no tivesse sido por ela... Bom, s Deus sabe o que poderia ter sucedido. O que sucedeu foi que ela disse algo. Era 
inglesa e, por sua maneira de falar, uma dama. John, idiota!, chegou  concluso de que a mulher era refm dos cruis escoceses, que sem dvida a teriam raptado 
com o propsito de viol-la. Todo mundo dizia que os montanheses violavam  menor oportunidade que se lhes apresentava e de que se deleitavam desonrando s inglesas. 
Que podia pensar ele!
E lorde John William Grey, de dezesseis anos, extravasando idias militares de galantera e nobreza, ferido, estremecido e lutando contra a dor de seu brao fraturado, 
tratou de negociar para resgat-la de seu destino. Fraser, alto e zombador, jogou com ele como o pescador com um peixe; despiu uma parte  mulher ante seus olhos 
para obrig-lo a dar informao sobre a posio e o nmero do regimento de seu irmo. E quando ele lhe teve dito quanto sabia, o ruivo lhe revelou, rindo, que a 
mulher era sua esposa. Todos riram; ainda podia ouvir as obscenas e alegres vozes dos escoceses. 
Grey deu a volta na cama, irritado no colcho estranho. Para piorar as coisas, Fraser no tinha tido sequer a decncia de mat-lo e o amarrou a uma rvore, onde 
seus camaradas o encontrariam pela manh, quando os homens do ruivo tivessem visitado o acampamento e, com a informao proporcionada por ele, teriam inutilizado 
o canho que levavam a Cope. 
Todo mundo se informou, por suposto. Ainda que o escusaram por sua curta idade e o fato de que ainda no fora oficial, John se converteu num pria, em alvo de desprezo. 
Ningum lhe dirigia a palavra, salvo seu irmo... e Hctor. Hctor, sempre leal.
Com um suspiro, esfregou a bochecha contra o travesseiro. Ainda podia ver a Hctor em sua mente: um moreno de olhos azuis e boca terna sempre sorridente. Tinha morrido 
dez anos atrs, em Culloden, feito em pedaos por uma espada escocesa, mas John ainda acordava as vezes ao amanhecer, com o corpo arqueado por espasmos, sentindo 
seu contato. 
E agora, isto. Essa nomeao o tinha horrorizado: estar rodeado de escoceses, com suas vozes chiadoras, abrumado pela recordao do que lhe tinham feito a Hctor. 
Mas nunca, nem no mais horrvel de seus pesadelos, tinha pensado voltar a encontrar-se com James Fraser.
Grey se levantou pela manh sem ter descansado, mas com uma deciso tomada. Estava ali. Fraser tambm estava ali. E nenhum podia mudar de lugar num futuro previsvel. 
Bem. Teria que o ver de vez em quando (dentro de uma hora falaria ante os prisioneiros reunidos e, em frente, deveria vistori-los com regularidade), mas no o receberia 
em privado. Se o mantinha a distncia, talvez pudesse manter tambm a risca as recordaes que lhe acordava. E os sentimentos. 
Pois, por enquanto era a recordao da ira e a humilhao passada o que no lhe tinha permitido conciliar o sonho, foi a outra cara da situao atual o que o manteve 
desperto at o amanhecer: o compreender, pouco a pouco, que Fraser j no era seu torturador seno um prisioneiro, seu prisioneiro, to a sua graa como os outros.
Depois de chamar a seu servente com a campainha, foi descalo  janela para ver como estava o tempo; o frio da pedra sob os ps lhe arrancou uma exclamao. 
Chovia, o qual no era estranho. Abaixo, no ptio, os prisioneiros j estavam formando as quadrilhas de trabalho. Grey tinha imaginado a Fraser preso numa diminuta 
cela de pedra gelada, nu nas noites de inverno, alimentado com gua suja, flagelado no ptio da priso. Tinha-o imaginado com todos os detalhes, desfrutando-os. 
Ouvia Fraser implorar misericrdia e se concebia a si mesmo desdenhoso e altaneiro. 
Imaginou-o e sentiu um surto de asco contra si mesmo.
Fraser era agora um inimigo derrotado, um prisioneiro de guerra, responsabilidade da Coroa. Responsabilidade de Grey. E seu bem-estar, obrigao de honra. Ter encontrado 
a Fraser na batalha, t-lo mutilado ou matado teria sido um selvagem prazer. Mas o fato inevitvel era que, enquanto aquele homem fora seu prisioneiro, a honra lhe 
impedia fazer-lhe danos. 
Quando esteve barbeado e vestido, j se tinha reposto o suficiente para encontrar-lhe certo humor lgubre  situao. Sua estpida conduta em Carryarrick tinha salvado 
a vida de Fraser em Culloden. Agora, j saldada aquela dvida e com Fraser em seu poder, sua mesma impotncia de prisioneiro lhe livrava de todo perigo. Pois os 
Grey, estpidos ou sbios, ingnuos ou experimentados, eram antes de mais nada homens de honra.
Sentindo-se algo melhor, se olhou ao espelho para enderear-se a peruca e desceu para tomar caf da manh, antes de pronunciar seu primeiro discurso ante os prisioneiros. 
-Quer que vos sirva o jantar na sala, senhor, ou aqui? -A cabea de MacKay, despenteada como sempre, apareceu no escritrio. 
-Hum? -murmurou Grey absorto nos papis espalhados ante ele. Depois levantou a os olhos - Ah. Aqui, por favor. 
Apontou vagamente uma canto da enorme escrivaninha e voltou ao seu trabalho; quase nem alou a vista ao chegar a bandeja com a comida, pouco depois.
O da burocracia no era uma brincadeira de Quarry. John tinha passado o dia sem fazer outra coisa que redigir e assinar requisitorias. Tinha que conseguir cedo um 
escrivente, se no queria morrer de pura chatisse. 
Deixou a pluma com um suspiro e fechou os olhos, massageando a dor surda que sentia entre as sobrancelhas. O sol no tinha incomodado em aparecer uma s vez desde 
sua chegada e trabalhar todo o dia numa habitao cheia de fumaa,  luz das velas, fazia que lhe ardessem os olhos como brasas. O dia anterior tinham chegado seus 
livros mas ainda estavam sem desempacotar. 
Um surrado leve e discreto fez que se incorporasse bruscamente, abrindo os olhos. Tinha um grande rato parda sentado no canto de sua escrivaninha, com um bocado 
de pudim de ameixa entre as patas dianteiras. No se moveu; limitou-se a olh-lo retorcendo os bigodes.
-Mas malditos sejam meus olhos! -exclamou Grey assombrado- Ouve, asqueroso! Isso  meu jantar! 
O rato mordiscou pensativamente o pudim, com os olhos brilhantes fixos no comandante. 
-Saia daqui! -Enfurecido, Grey pegou o objeto mais prximo e o atirou. A garrafa de tinta estourou contra o solo e o sobressaltado animal saltou da escrivaninha 
fugindo precipitadamente entre as pernas de MacKay que, ainda mais sobressaltado, tinha aparecido na porta para ver a que se devia aquele barulho. 
-H algum gato na priso? -inquiriu Grey jogando o contedo da bandeja ao cesto dos papis.
-Sim, senhor, nos depsitos h gatos -respondeu MacKay, arrastando-se sobre as mos e joelhos para limpar as pequenas impresses de tinta deixadas pelo rato. 
-Bom, traz um, MacKay, por favor -ordenou Grey- De imediato.
Foi-se  janela, tratando de despejar-se com o ar fresco enquanto MacKay conclua a limpeza. De repente lhe ocorreu algo. 
-H muitas ratos nas celas? -perguntou. 
-Sim, muitos, senhor -respondeu o prisioneiro- Direi ao cozinheiro que prepare outra bandeja. No, senhor? 
-Sim, por favor. E depois, senhor MacKay, ocupa-se em por em cada uma das celas um gato. 
MacKay pareceu vacilar. Grey, que estava recolhendo seus papis dispersos, deteve-se. 
-Algum problema, MacKay?
-No, senhor -replicou o interno- S que eles mantm a risca os escaravelhos. E com todo respeito, senhor, no creio que aos homens lhe agradem que um gato coma 
todos seus ratos. 
Grey o olhou com um pouco de asco. 
-Os prisioneiros comem ratos? -perguntou, com a recordao daqueles dentes amarelos mordiscando seu pudim de ameixas. 
-S se tm a sorte de pegar um, senhor. Pode ser que os gatos ajudem um pouco, depois de tudo. Precisa de algo mais, senhor?

     
     
     
     




















                                              CAPTULO 9


O VAGABUNDO


A deciso de Grey com respeito a James Fraser durou duas semanas: at que chegou o mensageiro, da aldeia de Ardsmuir, com notcias que mudou tudo. 
-Ainda vive? -perguntou speramente ao homem. 
O mensageiro, um dos aldeanos que trabalhavam para a priso, assentiu com a cabea. 
-Eu mesmo o vi, senhor, quando o trouxeram. Agora est no Tilo, bem atendido... mas no creio que baste atend-lo bem, senhor. No sei se me compreendes. - Levantou 
significativamente uma sobrancelha. 
-Compreendo -respondeu Grey-Obrigado. Seu nome...? 
-Allison, senhor. Rufus Allison, para servi-lo. 
O homem aceitou o cheln que lhe oferecia e, fazendo uma reverncia com o chapu sob o brao, retirou-se.
Grey permaneceu sentado em sua escrivaninha, contemplando o cu cinzento. Ante a palavra ouro muitos ouvidos se aguavam, especialmente os seus. 
Aquela manh tinham encontrado um homem vagando na neblina do pramo, ao redor da aldeia. Trazia as roupas empapadas de gua de mar e delirava pela febre. No deixava 
de balbuciar, mas quem o tinha resgatado no encontrava muito sentido a suas divagaes. O homem parecia ser escocs, mas falava numa mistura incoerente de francs 
e galico, dizendo aqui e l alguma palavra inglesa. E uma dessas palavras tinha sido "ouro".
A combinao de escoceses, ouro e francs naquela zona do pas s podia trazer uma idia  mente de algum que tivesse combatido durante os ltimos dias do alamento 
jacobita: o ouro do Francs, a fortuna em barras de ouro que, segundo rumores, Luis de Frana tinha enviado em segredo para auxiliar a seu primo, Carlos Stuart. 
E que chegou muito tarde.A verdade  que esse ouro, at ento, no tinha aparecido.
Francs e galico. Grey falava um pouco de francs, resultado de ter combatido vrios anos no estrangeiro, mas nem ele nem seus oficiais dominavam o brbaro galico, 
descontando algumas palavras que o sargento Grissom tinha aprendido, sendo menino, de uma bab escocesa. No podia confiar num homem da aldeia, se a histria tinha 
um pouco de verdade.O ouro do Francs! Parte de seu valor como tesouro (que, em todo caso, pertenceria  Coroa), para John William Grey tinha um considervel valor 
pessoal. O achado daquela reserva quase mtica seria seu passaporte para sair de Ardsmuir e regressar a Londres,  civilizao.
No, no podia confiar num aldeano. Tambm em nenhum de seus oficiais. E num prisioneiro? Sim, no tinha perigo em empregar um prisioneiro, pois nenhum dos internos 
poderia utilizar a informao em proveito prprio. Por desgraa, todos os prisioneiros falavam galico e alguns tambm um pouco de ingls, mas s um dominava tambm 
o francs. " um homem instrudo", repetiu a voz de Quarry em sua memria. 
-Maldita seja! -murmurou Grey. No tinha outro remdio. Allison tinha dito que o vagabundo estava muito enfermo e no tinha tempo para procurar alternativas. Cuspiu 
um fragmento de pluma. 
-Brame! -gritou.
O sobressaltado cabo debruou a cabea. 
-Sim, senhor? 
-Traga o prisioneiro James Fraser. De imediato. 
O alcaide, em p depois de sua escrivaninha, apoiou-se nele como se o enorme mvel de carvalho fora realmente o baluarte que parecia. Sentiu as mos midas; o pescoo 
branco do uniforme parecia apertar-lhe. 
O corao lhe deu um pulo violento ao abrir a porta. O escocs entrou com um leve tinido de correntes e se deteve em frente a escrivaninha.
Muitas vezes, Grey tinha visto Fraser no ptio, com os outros prisioneiros, mas nunca a uma distncia que lhe permitisse ver-lhe a cara com clareza. Tinha mudado; 
isso o impressionou, mas tambm foi um alvio. Levava muito tempo vendo em sua memria uma cara limpamente barbeada, cenhosa e ameaante ou alegre pelo riso zombador. 
Aquele homem tinha uma barba curta e o rosto sereno e cauteloso; seus olhos azuis eram os mesmos, mas no davam sinais de reconhec-lo. Permanecia em silncio ante 
a escrivaninha, esperando. 
Grey pigarreou. O corao ainda lhe palpitava muito depressa mas ao menos pde falar com calma. 
-Senhor Fraser -disse-, agradeo-o que tenhas vindo.
O escocs inclinou cortesmente a cabea, sem mencionar que no tinha alternativa; s seus olhos o disseram. 
-Sem dvida deve se perguntar por que eu mandei cham-lo -continuou Grey. A seus prprios ouvidos, as frases soavam insofrivelmente pomposas, mas no tinha remdio-. 
Temo que surgiu uma situao na qual preciso de sua ajuda. 
-Do que se trata, alcaide? -A voz era a mesma: grave e precisa, caracterizada por um suave acento montanhs. 
-Na colina, cerca da costa, encontraram um vagabundo -disse com cautela- Parece estar gravemente enfermo e diz coisas sem sentido. No entanto, verdadeiros... assuntos 
aos que se refere parecem ser de... grande interesse para a Coroa. Preciso falar com ele e averiguar tudo o possvel sobre sua identidade e os assuntos que menciona.
Fez uma pausa mas Fraser se limitou a esperar. 
-Por desgraa -continuou Grey tomando alento-, o homem em questo se expressa numa mistura de galico, francs e com alguma palavra solta em ingls. 
O escocs moveu uma de suas avermelhadas sobrancelhas. Seu rosto no se alterou de modo aprecivel, mas era bvio que tinha captado a situao. 
-Compreendo, comandante. -Sua voz suave estava cheia de ironia- Vos agradaria contar com minha ajuda para interpretar o que esse homem possa dizer. 
Grey, que no se atrevia a falar, assentiu secamente com a cabea.
-Temo que devo recusar, alcaide. -Fraser falava respeitosamente, mas com um brilho nos olhos no que no tinha nada de respeitoso. 
A mo de Grey se curvou, tensa, segurando o abrecartas de bronze. 
-Recusas? -Apertou mais o abrecartas para afirmar a voz- Posso perguntar por que, senhor Fraser? 
-No sou intrprete, comandante -disse o escocs amvel- s um prisioneiro. 
-Vossa assistncia seria..., apreciada. -Grey tratou de infundir inteno  palavra sem oferecer diretamente um suborno- Ao contrrio -disse endurecendo o tom-, 
o fato de no prestar uma legtima ajuda... 
-No  legtimo que me obrigue a prestar servio nem que me ameaces, alcaide -a voz de Fraser soou bem mais dura do que a do ingls.
-No vou ameaar! -O filo do abrecartas lhe estava cortando a mo; se viu obrigado a afrouxar os dedos. 
-No? Bom, alegra-me saber. -Fraser girou para a porta- Nesse caso, lhe dou as boas noites. 
Grey teria preferido mil vezes deix-lo ir. Por desgraa, o dever chamava. 
-Senhor Fraser! 
O escocs se deteve a um metro da porta, sem voltar-se. Grey respirou fundo, reunindo foras. 
-Se fazer o que eu peo eu posso retirar as correntes -disse. 
Fraser permaneceu imvel. Grey, ainda que jovem e pouco experiente, era observador. E no era lerdo para avaliar um homem. Ao ver que o prisioneiro alava a cabea 
e consertava a tenso de seus ombros, cedeu um pouco o nervosismo que o dominava desde que soubes do vagabundo. 
-Senhor Fraser?
Muito lentamente, o escocs se voltou, inexpressivo. 
-Trato feito, alcaide -disse com suavidade. 
Quando chegaram  aldeia de Ardsmuir j passava da meia-noite. No tinha luz nas cabanas ante as que passaram; Grey se perguntava o que pensariam os habitantes do 
rudo de capacetes e do tinido de armas a uma hora to avanada da noite, como o leve eco das tropas inglesas que tinham varrido as Terras Altas dez anos atrs. 
Ante a porta da pousada, Grey se deteve para olhar a Fraser. 
-Lembra das condies de nosso acordo?
-Sim -respondeu o prisioneiro, brevemente. E passou roando-o. 
A troca de fazer-lhe retirar os grilhos, Grey lhe tinha exigido trs coisas: primeiro, que no tentasse escapar durante a viagem  aldeia no regresso; segundo, que 
lhe fizesse um relato completo e veraz de tudo o que o vagabundo dissesse e em terceiro lugar lhe pediu sua palavra de cavaleiro de repetir o que tivesse escutado 
somente a Grey. 
L dentro teve um murmrio de vozes galicas; depois, uma exclamao de surpresa quando o pousadeiro viu a Fraser, e uma atitude de deferncia ante os soldados que 
o acompanhavam. Sua esposa estava na escada com um esfregador na mo, fazendo danar as sombras ao seu arredor. 
Grey, sobressaltado, apoiou uma mo no brao do pousadeiro.
-Quem  esse? -Na escada tinha outra silhueta, uma apario totalmente vestida de negro. 
-O padre -explicou Fraser baixinho- Isso significa que o homem est agonizando. 
O comandante respirou fundo, tratando de preparar-se para o que vinha. 
-Ento tem pouco tempo a perder -manifestou, pondo uma bota na escada- Procedamos. 
O homem morreu justo antes do amanhecer. Fraser lhe sustentava uma mo e o sacerdote a outra. Enquanto este ltimo murmurava frases em galico e em latim, fazendo 
sinais papistas sobre o cadver, o prisioneiro se reclinou em seu assento com os olhos fechados, sem soltar aquela mo pequena e frgil. 
O corpulento escocs tinha passado toda a noite junto ao moribundo, dando-lhe alento e consolo enquanto Grey permanecia junto  porta para no assustar ao homem 
com seu uniforme, assombrado e comovido a um tempo pela suavidade de Fraser.
Por fim o viu colocar a magra mo curtida no peito imvel e fazer o mesmo sinal que o padre: tocou-lhe a testa, o corao e os dois ombros, como traando uma cruz. 
Depois abriu os olhos. Quando se ps em p, sua cabea esteve a ponto de tocar as vigas. Fazendo um breve gesto a Grey, precedeu-o pela estreita escada. 
-Aqui. -O ingls disse a porta do bar, j deserto. 
Uma criada de olhos sonolentos acendeu o fogo e lhes levou po e cerveja; depois os deixou ss. Quando Fraser havia terminado de comer, perguntou: 
-E a, cavaleiro? 
O escocs deixou seu jarro de peltre e limpou a boca com o dorso da mo. 
-Bem -disse-. No tem muito sentido mas isto  o que disse.
Falou com cautela, fazendo alguma pausa para recordar uma palavra exata, para explicar alguma referncia galica. Grey escutava, cada vez mais decepcionado. Fraser 
tinha razo: aquilo no tinha muito sentido. 
-A bruxa branca? -interrompeu-. Falou de uma bruxa branca? E de focas? -No parecia mais desgrenhado do que o resto, mas ainda assim lhe produzia incredulidade. 
-Efetivamente. 
-Repeti -ordenou Grey- Tal como o recordas, por favor. 
Sentia-se estranhamente a vontade com aquele homem; notou-o com surpresa. Em parte era pela fadiga, por suposto; suas reaes e sentimentos habituais estavam intumecidos 
pela prolongada vela e a tenso de ver morrer a um homem pouco  pouco.
Fraser, obedecendo, falou devagar. Descontando algumas palavras aqui e l, a verso foi idntica  anterior. E as partes que Grey tinha podido entender por si s 
estavam fielmente traduzidas. 
Mexeu a cabea, desalentado. Divagaes. Os delrios do homem tinham sido justamente isso: delrios. 
-Estas seguro de que no disse nada mais? -insistiu, com  dbil esperana de que Fraser tivesse omitido alguma frase, algum fragmento que brindasse um ponto para 
achar o ouro perdido. 
-Sempre cumpro com minha palavra, senhor -assegurou o outro com fria formalidade, pondo-se em p- Regressamos j?
Durante um momento cavalgaram em silncio. Fraser estava perdido em seus prprios pensamentos; Grey, afundado na fadiga e a desiluso. Quando viu o sol depois das 
pequenas colinas do norte, detiveram-se junto a uma pequena vertente para refrescar-se. Grey bebeu gua fria e molhou a cara para reanimar-se. Levava mais de vinte 
e quatro horas sem dormir; sentia-se lento e estpido. 
Fraser tambm no tinha descansado durante esse tempo, mas no dava sinais de estar cansado. Arrastou-se a quatro patas, ao redor da fonte, cortando algumas ervas. 
-Que fazes, senhor Fraser? -perguntou Grey desconcertado. 
Fraser levantou os olhos com certa surpresa, mas sem envergonhar-se em absoluto. 
-Recolho agries, senhor. 
-Isso estou vendo -replicou o ingls mal humorado- Para que? 
-Para comer, comandante. -Fraser tirou do cinto o sujo saco de pano e meteu a verde massa chorreante.
-Por que? No do comida suficiente? Nunca soube que os seres humanos comiam agries. 
-So folhas verdes, comandante. 
-E de que outra cor pode ser uma folha, demnios? -Inerveio Grey. 
Fraser contraiu a boca. 
-Quis dizer, comandante, que comer folhas verdes evita o escorbuto e a fraqueza de dentes. Meus homens comem as verduras que eu lhes levo. E o agrio sabe melhor 
do que tudo o que posso recolher na colina. 
Grey levantou as sobrancelhas. 
-Que as plantas verdes evitam o escorbuto? -balbuciou- De onde tirastes essa idia? 
-De minha esposa! -lhe espetou Fraser. E se voltou bruscamente. 
Grey no pde evitar a pergunta. 
-Sua esposa, senhor, onde est? 
A resposta foi um relmpago azul escuro que lhe provocou um arrepio.
"Talvez no tenhas visto de muito perto o dio e o desespero", soou a voz de Quarry em sua memria. No era verdade: tinha o reconhecido de imediato no fundo dos 
olhos de seu prisioneiro. Mas s por um instante, depois voltou o vu normal de serena cortesia. 
-Minha esposa se foi -disse Fraser dando as costas. 
Grey se sentiu comovido por uma sensao inesperada. Em parte era de alvio: a mulher que tinha sido a causa de sua humilhao j no existia. Em parte era de pena. 
Nenhum dos dois voltou a falar durante o regresso a Ardsmuir.
Trs dias depois Jamie Fraser escapou. Nunca tinha sido difcil escapar de Ardsmuir; se ningum o fazia era, simplesmente, porque no tinha onde ir. A cinco quilmetros 
da priso, a costa de Esccia caa para o oceano num ingreme de granito. Pelos outros trs lados s tinha quilmetros de pramo deserto. Escapar no valia a pena..., 
salvo para Jamie Fraser, que obviamente tinha um motivo. 
O dever de John Grey era perseguir ao prisioneiro e tentar captur-lo. Foi algo mais do que o dever o que lhe induziu a desguarnecer a priso para formar o grupo 
de busca. Instou-os a marchar, permitindo s brevssimas paragens para descansar e comer. O dever, sim, e um urgente desejo de achar o ouro do Francs e ganhar a 
aprovao de seus superiores..., para que acabasse seu exlio naquela desolada zona de Esccia. Mas tambm a ira e uma estranha sensao de ter sido pessoalmente 
trado.
Chegaram  costa j avanando a noite seguinte, depois de passar uma jornada laboriosa revisando o pramo. O nevoeiro tinha atenuado nas rochas, varrida pelo vento 
da costa; ante eles se estendia o mar, semeado de diminutos ilhus ermos. 
John Grey, de p junto a seu cavalo, contemplou o mar negro e selvagem desde o alto dos alcantilados. Era o lugar mais desolado do que tivesse visto nunca; no entanto, 
tinha nele uma beleza terrvel que lhe esfriava o sangue nas veias. No tinha sinais de James Fraser. No tinha sinal alguma vida. 
De repente, um dos homens soltou uma exclamao de surpresa e empunhou a pistola.
-Ali! -exclamou- Nas rochas! 
-No dspare, tonto -disse outro dos soldados, segurando o brao sem dissimular seu desprezo- Nunca viu uma foca? 
Grey tambm no conhecia as focas. Observou-as com fascinao. Desde ali pareciam babosas negras. 
-Os escoceses as chamam "silkies" -comentou o soldado que as tinha reconhecido. 
-Silkies? -Grey, interessado, olhou ao homem com ateno. -Que mais sabe delas, Sykes? 
O homem se encolheu de ombros, desfrutando de sua momentnea importncia. 
-Pouca coisa, senhor. Aqui h algumas lendas sobre elas. Dizem que as vezes, uma delas vem  costa, desprende-se da pele e dentro aparece uma mulher formosa. Se 
um homem encontra a pele e a esconde para que a mulher no possa voltar ao mar, ela est obrigada a ser sua esposa. E dizem que so boas esposas, senhor.
-Ao menos, sempre estaro molhadas -murmurou o primeiro. 
Os homens estouraram em gargalhadas que ressoaram entre os alcantilados. 
-Basta! -Grey teve que alar a voz para fazer-se ouvir acima dos risos e os comentrios obscenos- Revisem os alcantilados em ambas direes. 
Os homens, intimidados, obedeceram sem hesitar. Ao regressar, uma hora depois, vinham desalinhados e molhados, mas sem ter visto sinais de Jamie Fraser... nem do 
ouro do Francs. 
Ao amanhecer voltaram a sair. Grey, em p junto a uma fogueira acendida no alcantilado, supervisionava a busca envolto num casaco para proteger-se do vento penetrante 
e fortificando-se periodicamente com o caf quente que lhe trazia seu servidor.
-Se veio por aqui, comandante, creio que no voltaremos a v-lo. -Era o sargento Grissom quem estava ao seu lado, contemplando os redemoinhos do gua que rompia 
contra as rochas- Este lugar se chama Caldeiro do Diabo porque ferve constantemente. Os pescadores que se afogam frente a esta costa rara vez aparecem; a culpa  
das terrveis correntes iamgino, mas a gente diz que o diabo os leva para baixo. 
-Mesmo? -Sussurrou Grey contemplando tristemente a espuma que batia mais doze metros abaixo- Eu no duvidaria, sargento. 
E se voltou para a fogueira. 
-D ordens de procurar at que caia o sol, sargento. Se no encontrarmos nada, voltaremos a tentar pela manh. 
Grey afastou os olhos do pescoo de seu cavalgadura, entornando os olhos contra a luz ainda escassa. Tinha-os inchados pela fumaa de multido e a falta de sonho 
e lhe doam os ossos depois de passar vrias noites no solo mido.
-Espera aqui -disse a seus homens. 
A uns quantos metros de distncia tinha um pequeno montculo que lhe brindaria a intimidade necessria; seus intestinos, que no estavam habituados ao porridge e 
as omeletes de aveia dos escoceses, rebelavam-se ante as exigncias da dieta de acampamento. 

Ao endireitar-se, abandonando uma postura que se lhe antojava muito indigna, Grey levantou a cabea e se encontrou frente a frente com James Fraser. 
Ambos ficaram imveis, olhando-se. O vento trazia um vadio cheiro do mar. Por um momento no se ouviu seno a brisa marinha e o canto das cotovias. Depois Grey enguliu 
saliva, com a sensao de ter o corao na garganta.
-Temo que me surpreendes em desvantagem, senhor Fraser -disse serenamente, abotoando-se as calas com todo o aprumo que pde reunir. 
O escocs moveu somente os olhos, que desceram ao longo do ingls e voltaram a subir lentamente. Depois olharam acima de seu ombro, para os seis homens armados que 
lhe apontavam com seus mosquetes. As pupilas de cor azul escuro se fixaram depois nas suas. Por fim torceu a boca e disse: 
-Creio que a mim tambm, comandante.





















CAPTULO 10

A maldio da bruxa branca


Jamie Fraser tremia, sentado no solo de pedra do depsito vazio, abraado em seus joelhos numa tentativa por entrar em calor. Tinha a sensao de que jamais o conseguiria. 
Sentia saudades a presena dos outros prisioneiros (Morrison, Hayes, Sinclair, Sutherland), no s por sua companhia, seno pelo calor de seus corpos. 
Mas estava s. E provavelmente no o devolveriam  cela grande at ter-lhe aplicado o castigo por sua fuga. Tinha muito medo que o aoitassem e, no obstante, teria 
preferido que esse fora seu castigo. Era horrvel, mas ao menos terminaria cedo... E era infinitamente mais suportvel do que voltar s correntes.
Seus dedos procuraram o rosrio que levava ao pescoo. Sua irm o tinha dado quando saiu de Lallybroch; os ingleses lhe permitiam conserv-lo, pois afinal de contas 
no tinha valor algum. 
-Deus te salve, Mara, cheia de graa -murmurou. No tinha muitas esperanas. Aquele pequeno comandante de cabelo amarelo tinha visto o efeito dos grilhos e sabia, 
maldita seja sua alma, o quanto terrveis eram. O pequeno comandante lhe tinha oferecido um trato e ele o tinha cumprido, ainda que parecesse o contrrio. Respeitando 
seu juramento, transmitiu as palavras que lhe tinha dito o vagabundo, uma a uma. O acordo no lhe obrigava a dizer que conhecia quele homem... nem as concluses 
que tinha extrado de seus murmrios. 
Reconheceu de imediato a Duncan Kerr, apesar de que o tempo e a doena o tinham mudado.
-Passa quieto, <<a charaid;bi smhach>> -lhe disse suavemente em galico, ajoelhando-se junto  cama onde jazia o enfermo. Num princpio pensou que Duncan estava 
muito desorientado para reconhec-lo, mas sua mo sem carne estreitou a sua com assombrosa energia e o homem repetiu,ofegante: 
-Mo charaid. -"Parente meu." 
O pousadeiro os observava desde a porta, acima do ombro do comandante Grey. Jamie inclinou a cabea para sussurrar ao ouvido de Duncan: 
-Tudo o que digas ser repetido em ingls. Fala com cautela. 
O  pousadeiro entornou os olhos, mas estava demais longe para ouvir. O comandante se voltou e, ao v-lo, ordenou-lhe sair.
-Est maldito -sussurrou- O ouro est maldito. Se d por advertido, moo. Foi entregado pela bruxa branca para o filho do rei. Mas a causa est perdida e o filho 
do rei fugiu. Ela no permitir que o ouro seja entregado a um covarde. 
-Quem  ela? -perguntou Jamie. 
-Procura a um homem valente. A um MacKenzie,  para ele. MacKenzie.  deles, diz a bruxa branca, pelo bem dele, que morreu. 
-Quem  a bruxa? -perguntou Jamie outra vez. A palavra utilizada por Duncan era bandruidh: uma feiticeira, uma mulher sbia, uma Dama Branca. Assim tinham chamado 
a sua esposa em outros tempos. A Claire, sua Dama Branca.
-A bruxa -murmurou Duncan fechando os olhos- Ela.  uma come almas.  a morte. Morreu, o MacKenzie, morreu. 
-Quem morreu? Colum Mackenzie?
-Todos, todos. Morreram todos, morreram! -exclamou o enfermo, estreitando-lhe a mo-. Colum, Dougal e tambm Ellen. -De repente abriu os olhos fincando-os nos de 
Jamie e disse com assombrosa clareza-: A gente diz que Ellen MacKenzie abandonou aos seus irmos e seu lar para casar-se com uma silkie do mar. Ela as ouviu, verdade? 
-Duncan sorriu, sonhador, com longnquas vises boiando em seus olhos negros-. Ela ouviu cantar s silkies nas rochas. Uma, duas, trs delas. E as viu desde sua 
torre, uma, duas, trs delas. E por isso baixou e foi ao mar, embaixo dele, para viver com as silkies. Verdade? No foi assim?
-Isso  o que as pessoas dizem -respondeu Jamie com a boca seca. Ellen tinha sido o nome de sua me. E isso era o que dizia a gente quando ela fugiu com Brian Dubh 
Fraser, que tinha o cabelo negro e brilhante das focas. O homem por quem ele mesmo recebia agora o apelido de Mac Dubh: filho de Brian, o Negro. 
O comandante Grey se mantinha perto, ao outro lado da cama, observando a Duncan com uma enruga na testa. O ingls no entendia o galico, mas Jamie estava disposto 
a apostar que conhecia o equivalente "ouro". Depois de cruzar um olhar com o comandante, inclinou-se outra vez para falar com o enfermo.
-O ouro, homem -disse em francs para que Grey ouvisse- Onde est o ouro? 
E estreitou a mo de Duncan com toda a fora possvel, tratando de transmitir-lhe uma advertncia. O moribundo fechou os olhos e murmurou algo, mas suas palavras 
resultaram inaudivel. 
-O que disse? -inquiriu o comandante com aspereza- Que? 
-No sei. -Jamie deu umas palmadas na mo de Duncan, para acord-lo- Fala, homem. Me diz outra vez. 
No teve mais resposta do que outro murmrio. O comandante, impaciente, inclinou-se para sacudir-lhe um ombro. 
-Acorda! -ordenou-.Fala! 
De imediato Duncan Kerr abriu os olhos.
-Ela vos dir -disse em galico-. Ela vir por voce. -Durante uma frao de segundo sua ateno pareceu voltar ao quarto em que jazia. Seus olhos se centraram em 
seus dois acompanhantes- Para ambos -disse claramente. 
Depois fechou os olhos e no voltou a falar. A custdia do ouro tinha passado a outras mos. 
Assim foi como Jamie Fraser respeitou a palavra dada ao ingls... e sua obrigao para com seus compatriotas. Repetiu ao comandante tudo o que Duncan tinha dito. 
E de muito lhe serviu! Depois, quando se lhe apresentou a oportunidade de fugir, escapou aos urzais e procurou o mar para fazer o que estava ao seu alcance com o 
legado de Duncan Kerr. Agora devia pagar o preo de seus atos.
Umas pisadas se aproximaram pelo corredor. A porta se abriu bruscamente, deixando entrar um raio de luz que o fez piscar. O corredor estava escuro, mas o guarda 
trazia uma tocha. 
-Levantasse. -O homem alongou uma mo para ajud-lo, pois tinha as articulaes rgidas. Depois o empurrou para a porta- Te requer no andar superior. 
-No andar superior? Onde? 
Aquilo lhe surpreendeu; o forjamento estava abaixo, junto ao ptio. E tambm no o aoitariam a essas horas da noite. 
O homem enrugou a cara, feroz e rubicunda  luz da tocha. 
-Nas habitaes do comandante -disse muito sorridente-. E que Deus tenha piedade de tua alma, Mac Dubh.
-No, senhor; no direi onde estive. 
Repetiu-o com firmeza, tratando de no lhe ranger os dentes. No o tinham levado ao escritrio, seno  sala privada de Grey. O fogo estava acendido mas Grey, em 
p frente a ele, absorvia a maior parte do calor. 
-Tambm no por que decidiu escapar? -A voz de Grey soava serena e formal. 
Jamie tensionou a cara. 
-Isso  um assunto privado -disse. 
-Um assunto privado? -repetiu Grey com incredulidade-. Um assunto privado, disse? 
-Sim. 
O alcaide inalou com fora pelo nariz.
-No creio ter ouvido nada mais ridculo em toda minha vida. 
-Sua vida foi mais bem breve, comandante -disse Fraser-, se permite que vos diga. -De nada serviria adiar as coisas nem tratar de apaziguar quele homem. Era melhor 
provocar uma deciso imediata para acabar com aquilo. 
-Tens idia do que poderia te acontecer por isso? -inquiriu Grey baixinho. 
-Tenho, comandante. -Mais do que uma idia. Sabia, por experincia, o que podiam fazer-lhe e no era uma perspectiva agradvel. 
Grey respirou pesadamente e levantou a cabea. 
-Vem aqui, senhor Fraser -ordenou. 
Jamie o olhou fixamente, desconcertado.
-Aqui! -repetiu o outro, peremptrio, sinalizando um ponto diante de si, no tapete-. Aqui, senhor! 
-No sou um cachorro, comandante -lhe espetou Jamie-. Podes fazer comigo sua vontade, mas no irei aos seus ps quando me chama. 
Isso pegou por surpresa a Grey, que emitiu um riso breve e involuntrio. 
-Mil desculpas, senhor Fraser -disse secamente- No era minha inteno ofende-lo. S quero que voce se aproxime, se entendes bem.
E lhe fez uma complicada reverncia, mostrnado a chamin.Jamie vacilou, mas depois se aproximou cautelosamente. Grey se aproximou com o nariz dilatado. Assim, to 
perto, seus ossos finos e a pele clara da cara lhe davam aspecto de moo. Ao apoiar-lhe uma mo na manga, seus olhos, de longas pestanas, dilataram-se de assombro. 
-Est molhado! 
-Estou molhado, sim -disse Jamie com pacincia. 
-Por que? 
-Por que? -repetiu Jamie atnito-. No ordenou aos guardas que me arrojassem gua antes de abandonar-me numa cela gelada?
-No ordenei isso, no. -Era bvio que o comandante dizia a verdade- Peo desculpas, senhor Fraser. 
-Esto aceitas, comandante. 
-Sua fuga, teve algo haver com o que voce averigou na pousada do Tilo? 
Jamie ficou em silncio. 
-Me juras que sua fuga no teve nada que ver com esse assunto? 
O escocs seguia calado. No fazia sentido dizer nada. 
O pequeno comandante passeava frente  chamin com as mos cruzadas s costas. Por fim se deteve frente a ele. 
-Senhor Fraser -disse- Vou perguntar mais uma vez: por que escapou da priso? 
Jamie suspirou. No passaria muito tempo mais junto ao fogo. 
-No posso dizer, comandante. 
-No podes ou no quer? -inquiriu Grey com aspereza.
-No parece uma diferena importante, comandante, j que, de um modo ou outro, no vou dizer nada. 
Fechou os olhos e aguardou, tratando de absorver todo o calor possvel antes de que o levassem. 
Grey se viu sem saber que dizer nem o que fazer. Respirou profundamente. Envergonhava-lhe a mesquinha crueldade dos guardas, bem mais quando tinha pensado nesse 
tipo de vingana ao saber que Fraser estava entre seus prisioneiros. Estava em seu direito se o fazia flagelar e voltava a arrojar-lhe. Podia conden-lo a um confinamento 
solitrio ou reduzir-lhe as raes. Podia, de fato, infligir-lhe dez castigos diferentes. E se o fazia, suas possibilidades de achar alguma vez o ouro do Francs 
se reduziriam at desaparecer.
O ouro existia, sim. Ou, ao menos, era muito provvel que existisse. S essa convico podia ter movido a Fraser atuar como o tinha feito. Observou-o. Mantinha os 
olhos fechados e os lbios tensos. 
Grey fez uma pausa tratando de criar um modo de atravessar essa muralha de brando desafio. Obviamente, nem a fora nem as ameaas serviriam para saber a verdade. 
De m vontade, compreendeu que s tinha um caminho aberto para conseguir o ouro: devia deixar a um lado os sentimentos que aquele homem lhe inspirava e aceitar a 
sugesto de Quarry. Devia intimar com ele; talvez no curso dessas relaes pudesse extrair-lhe alguma pista que o conduzisse ao tesouro escondido. 
"Se existe", obrigou-se a recordar, voltando-se para o prisioneiro.
-Senhor Fraser -disse formalmente-, me far a honra de jantar amanh em minhas habitaes? 
Teve a momentnea satisfao de pegar por surpresa quele cretino escocs. Os olhos azuis se abriram como pratos. Em um momento, Fraser recobrou o domnio de suas 
emoes. Depois de uma pausa momentnea, inclinou-se garbosamente, como se ainda usasse saia e cobertor em vez de empapados farrapos carcerrios. 
-Ser um grande prazer, comandante -disse.

7 de maro de 1755

O guarda deixou Fraser na sala, onde tinha uma mesa servida. Pouco depois, ao sair do dormitrio, Grey encontrou a seu hspede absorto na observao de um exemplar 
de A Nova Elosa. 
-Te interessa as novelas francesas? -balbuciou. 
Fraser levantou os olhos, sobressaltado, e fechou bruscamente o livro. 
-Sei ler, comandante -especificou. Tinha-se barbeado e tinha a maa do rosto ligeiramente colorido. 
-Eu... sim, por suposto. No quis dizer..., simplesmente... -Grey estava mais ruborizado ainda. Tinha imaginado que seu prisioneiro no sabia ler. 
Por mais esfarrapado que estivessem suas roupas, Fraser tinha bons modos. Sem prestar ateno  confusa desculpa de Grey, voltou-se para a estante.
-Tenho contado esta novela aos homens, mas faz tempo que a li. Me ocorreu refrescar a memria quanto  seqncia final. 
-Compreendo. -Grey se conteve a tempo para no perguntar: "E eles entendem?" 
Fraser lhe leu o pensamento, pois disse com secura: 
-Todos os meninos escoceses aprendem a ler e escrever, comandante. Ainda assim, nas Terras Altas temos uma grande tradio de narraes orais. 
-Ah. Sim, compreendo. 
A entrada do servente com o jantar o salvou de novos rubores. O jantar decorreu sem inconvenientes, ainda que a conversa foi escassa e se limitou aos assuntos da 
priso.
Na seguinte ocasio fez instalar o tabuleiro de xadrez ante o fogo e convidou Fraser a uma partida antes de que servissem o jantar. Mais tarde decidiu do que isso 
tinha sido um toque genial. Eliminada a necessidade de conversar e as cortesias sociais, acostumaram-se lentamente um ao outro, avaliando-se em silncio pelos movimentos 
das peas no tabuleiro de bano e marfim. 
Quando por fim se sentaram a jantar, j no eram dois desconhecidos; a conversa, ainda que ainda cautelosa e formal, era ao menos uma autntica conversa, no uma 
incmoda srie de comeos e interrupes. Analisaram temas da priso, conversaram um pouco sobre livros e se despediram formalmente mas com bons termos. Grey no 
mencionou o assunto do ouro.
Assim se iniciou um costume semanal. Grey queria que seu hspede se sentisse cmodo, com a esperana de que deixasse escapar alguma pista quanto ao destino do ouro. 
Pesando suas cuidadosas sondagens, no tinha chegado to longe.  menor pergunta referida ao que tinha sucedido em seus trs dias de ausncia, Fraser respondia com 
o silncio. 
Enquanto comiam cordeiro com batatas fervidas, Grey fez o possvel por induzir a seu estranho hspede a uma discusso sobre Frana e sua poltica, a fim de descobrir 
se existia alguma relao entre Fraser e um possvel provedor de ouro da corte francesa. Com grande surpresa, inteirou-se de que o prisioneiro tinha vivido dois 
anos em Frana dedicado ao negcio do vinho, antes da rebelio dos Stuarts.
Certo humor sereno, nos olhos de Fraser, indicou-lhe que o homem tinha perfeita conscincia do que se escondia atrs daquelas perguntas. Ao mesmo tempo se mostrava 
disposto  conversa, ainda que punha cuidado em mant-la afastada de sua vida pessoal, encaminhando-a para temas mais gerais, para a arte e a sociedade. 
Grey tambm tinha passado um tempo em Paris; pesando a suas tentativas de sondar as vinculaes de Fraser com Frana, descobriu que a conversa lhe interessava por 
si mesma. 
-Diz, senhor Fraser: enquanto viveu em Paris, teve oportunidade de conhecer as obras dramticas de Monsieur Voltaire? 
Fraser sorriu.
-Oh, sim, comandante. Mais ainda: tive o privilgio de compartilhar minha mesa com Monsieur Arouet, j que Voltaire  seu pseudnimo literrio, no? 
- mesmo? -Grey levantou uma sobrancelha interessado- E  to engenhoso em pessoa como uma pluma? 
-No saberia dizer -confessou Fraser, espetando destramente um bocado de cordeiro- Rara vez dizia nada, engenhoso ou no; limitava-se a observar aos demais. -Fechou 
os olhos numa rpida concentrao, mastigando o cordeiro. 
-A carne  de seu agrado, senhor Fraser? -inquiriu Grey corts. A ele lhe parecia cartilaginosa, dura e mal comestvel.
-Est bom, comandante. obrigado. -Fraser recolheu um pouco de molho de vinho e levou o ltimo bocado aos lbios. Quando Grey indicou a MacKay que aproximasse a bandeja, 
no esteve com melindres para servir outra poro de cordeiro- Isso sim, temo que Monsieur Arouet no apreciaria esta excelente comida. 
-Suponho que um homem to festejado pela sociedade francesa tem de ter gostos mais exigentes -disse Grey secamente. A metade de sua comida seguia intacta no prato, 
destinada ao jantar de Augustus, o gato. 
Fraser, rindo, assegurou-lhe:
-Pelo contrrio, comandante. Nunca vi a Monsieur Arouet consumir outra coisa que um copo de gua e uma bolacha, ainda na mais rica dos jantares.  um homenzinho 
mido e seco, mrtir da indigesto. 
- mesmo? -Grey estava fascinado- Talvez isso explique o cinismo de suas obras. No cres que o carter do autor se translude em seus escritos? 
-Uma dama novelista me disse, certa vez, que escrever novelas era arte de canibais, pois une mistura com freqncia pequenas pores de seus amigos e seus inimigos, 
temperando com imaginao e permite que tudo isso se cozinhe num saboroso guisado. 
A descrio fez Grey rir, que fez sinal para retirar os pratos e trazer o vinho e o xerez.
-Deliciosa descrio, certamente! Mas falando em canibais, teve oportunidade de ler Robinson Crusoe, do senhor Defoe?  um de meus favoritos desde que era menino. 
A conversa girou ento para as novelas romnticas e o excitante dos trpicos. J era muito tarde quando Fraser voltou a sua cela, deixando ao comandante Grey entretido, 
mas sem ter averiguado nada sobre a origem e o paradeiro do ouro do Francs. 

2 de abril de 1755

John Grey abriu o pacote de plumas que sua me lhe tinha enviado de Londres. Eram plumas de cisne, mais finas e mais fortes do que as de ganso. Ao v-las sorriu 
vagamente; eram um pequeno e subtil lembrana de que se estava atrasando em sua correspondncia. 
Mas sua me teria que esperar ao dia seguinte. Quando molhou a pluma na tinta tinha j as palavras claras na mente. Escreveu com celeridade, quase sem deter-se.

2 de abril de 1755 A Harold, lorde Melton, conde de Moray 
Meu querido Hal: 
Escrevo-te para informar-te de um fato recente que me chamou muito a ateno. Pode ser que no saia nada disto, mas o tema pode resultar de grande importncia. 
Adicionou detalhes sobre a apario do vagabundo e suas divagaes, mas sua escritura se fez mais lenta ao descrever a fuga de Fraser e sua nova captura. 
O fato de que Fraser desaparecesse da priso pouco depois destes acontecimentos me sugere que, em realidade, tinha algo importante nas palavras do vagabundo.
No entanto, se esse fora o caso, no posso explicar os atos seguintes de Fraser. Foi capturado trs dias depois de sua fuga, em um quilmetro e meio da costa. Em 
vrios quilmetros ao redor, em torno de Ardsmuir, a campina est deserta;  muito pouco provvel que tenha podido reunir-se com um confederado a quem lhe transmitisse 
informao sobre o tesouro. Revistaram todas as casas da aldeia e tambm o mesmo Fraser, sem descobrir rastos do ouro. Trata-se de um distrito remoto e tenho a razovel 
segurana de que no se comunicou com ningum alheio  priso antes de sua fugida. Tambm estou seguro de que no o fez com posterioridade, pois vigiam estreitamente.
No tinha a menor dvida do que Fraser teria podido iludir aos drages com facilidade, se assim o tivesse desejado, mas no o tinha feito. E deliberadamente se tinha 
deixado capturar. Por que? Retomou a escritura com maior lentido. 
Ao fim lhe tinha ocorrido formular, no a pergunta de sempre, seno a mais importante. Fez ao terminar uma partida de xadrez que ganhou Fraser. O guarda esperava 
ante a porta, pronto para escolt-lo de novo at sua cela. Quando o prisioneiro abandonou seu assento, Grey tambm se levantou. 
-No vou perguntar outra vez por que fugiu da priso -disse com serenidade, coloquialmente- Mas me agradaria saber por que voltastes?
Fraser ficou petrificado. Depois se voltou para olh-lo nos olhos e curvou a boca num sorriso. 
-Suponho que devo apreciar a sua companhia, comandante. Posso assegurar que no foi pela comida. 
Grey lanou um breve sopro ao recordar. Incapaz de criar uma resposta adequada, tinha deixado sair a Fraser. S, mais tarde da noite, depois de ter tido finalmente 
o bom tino de formular-se as perguntas a si mesmo em vez de interrogar ao prisioneiro, tinha chegado a uma resposta. Que teria feito ele, Grey, se Fraser no tivesse 
regressado? 
Naturalmente, seu prximo passo teria sido pesquisar os seus familiares, talvez tivesse procurado refgio ou ajuda entre eles. E essa era a soluo, sem dvida. 
Entre os escoceses das Terras Altas, a lealdade  um valor lendrio.
Grey se incorporou para recolher a pluma e voltou a molh-la no tinteiro.

Creio que conheces o temperamento dos escoceses;  pouco provvel que o emprego da fora ou as ameaas induzam a Fraser a revelar o paradeiro do ouro, se talvez 
existe. Por isso recorro a ti, querido irmo, para que me ajudes a averiguar tudo o possvel com respeito  famlia de James Fraser. Te rogo: no alarme a ningum 
com estas investigaes; se existem esses vnculos familiares, prefiro que, momentaneamente, desconheam meu interesse. Agradeo-te profundamente os esforos que 
possas realizar em meu favor. Teu humilde servidor e afetuosssimo irmo.

Molhou a pluma uma vez mais e assinou com um pequeno floreo.

15 de maio de 1755 

-Como esto os homens enfermos de gripe? -perguntou Grey. 
O jantar tinha terminado e, junto com ela, a conversa literria. Tinha chegado a hora dos negcios. 
-No muito bem. Tenho mais de sessenta homens enfermos, dos quais quinze esto muito mau. -Vacilou-. Poderia solicitar-nos...? 
-No prometo nada, senhor Fraser, mas podes pedir -respondeu Grey formalmente. 
Jamie fez uma pausa para calcular suas possibilidades. No o obteria tudo; convinha apontar ao mais importante, mas deixando espao para que Grey recusasse alguma 
de suas peties. 
-Precisamos mais cobertores, comandante, mais fogo e mais comida. E medicamentos. 
Grey fez girar o xerez em seu copo, observando os reflexos do fogo no vrtice. "Primeiro os assuntos comuns", recordou-se. "J ter tempo para o outro."
-Temos s vinte cobertores de reserva nos armazns -respondeu-, mas podes utiliz-las para os que estejam mais graves. Temo que no posso aumentar as raes de comida; 
os ratos estragaram uma boa parte e com o afundamento do depsito, faz dois meses, perdemos outra grande quantidade. Nossos recursos so limitados e... 
-No se trata de quantidade -interveio rapidamente Fraser-, seno do tipo de alimentos. Os que esto muito enfermos no podem digerir com facilidade o po e o porridge. 
No se poderia procurar algum substituto?
Grey levantou uma sobrancelha. 
-Que sugere, senhor Fraser? 
-No conta a priso com uma soma para comprar carne de bovino salgada, nabos e cebolas para o refogado do domingo? 
-Sim, mas com essa atribuio devemos comprar as provises do prximo trimestre. 
-O que sugiro, comandante,  que utilize esse dinheiro agora para proporcionar caldo e refogado aos enfermos. Os que esto sos renunciam de boa vontade a nossa 
poro de carne durante os trs prximos meses. 
Grey franziu o cenho. 
-Mas no se debilitaro os prisioneiros pela falta total de carne? No ficaro incapacitados para trabalhar?
-Os que morrerem de gripe no trabalharo, sem dvida -disse Fraser. 
Grey emitiu um breve sopro. 
- verdade. Mas os que ainda esto sos no estaria muito tempo se prescindir de suas raes. -Mexeu a cabea-. No, senhor Fraser, creio que no.  prefervel que 
os enfermos corram risco que expor que caiam muito mais enfermos. 
Fraser era um homem teimoso. Baixou a cabea. Depois a levantou para outra tentativa. 
-Nesse caso, comandante, peo que, j que a Coroa no pode fornecer os alimentos adequados, permita a gente caar. 
-Caar? -As sobrancelhas claras de Grey se elevaram com estupefao- Dar armas e permitir que vague pelos pramos? Pelas barbas de Cristo, senhor Fraser!
-No creio que Cristo sofra de escorbuto, comandante -replicou Jamie, secamente- Seus dentes no correm nenhum perigo. 
Ao ver que Grey torcia a boca, relaxou-se um pouco. O alcaide sempre fazia o possvel por reprimir seu sentido de humor; sem dvida pensava que isso o punha em desvantagem. 
Em seus tratos com Jamie Fraser, assim era. Atrevido por aquele gesto revelador, Jamie insistiu: 
-Nada de armas, comandante. Nem de vagabundagens. Nos daro licena para instalar armadilhas no pramo, ali onde cortamos turbas? E para ficar com que pegarmos? 
De vez em quando, algum prisioneiro armava para colocar uma armadilha, mas quase sempre eram os guardas os que ficavam com a presa. Grey respirou fundo e soltou 
o alento com lentido, pensativo. 
-Armadilhas? No precisa de materiais, senhor Fraser?
-S um pouco de barbante, comandante -lhe assegurou Jamie- Dez ou doze novelos de qualquer tipo de Barbante. O resto fica por nossa conta. 
O ingls esfregou a bochecha, refletindo. Por fim assentiu. 
-Muito bem. -Afundou a pluma no tinteiro e escreveu algo- Amanh darei as ordens oportunas. Quanto ao resto de suas peties... 
Meia hora depois tudo estava arrumado. Jamie se apoiou no respaldo, suspirando, e tomou por fim um sorvo de seu xerez. Que o tinha ganhado. 
Grey, que o contemplava com os olhos entornados, viu que seus largos ombros se encurvaram um pouco ao afrouxar a tenso, agora que tudo estava arrumado. Isso pensava 
Fraser. "Muito bem", disse a s mesmo, "bebe teu xerez e relaxa-te. Quero peg-lo completamente desprevenido."
-Um pouco mais, senhor Fraser? E diz, como est sua irm ultimamente? 
Viu que Fraser abria bruscamente os olhos, plido pela impresso. 
-Como andam as coisas em... Lallybroch? Assim se chama, verdade? -Grey afastou o copo, sem afastar os olhos de seu hspede. 
-No saberia dizer-lhe, comandante. -A voz de Fraser soava serena, mas seus olhos tinham reduzido a pequenas ranhuras. 
-No? Me atreveria a dizer que por agora no tm problemas... Graas ao ouro que lhes proporcionastes. 
Os largos ombros se tensionaram subitamente, avolumando-se sob o maltrapilho casaco.
-Suponho que Ian..., assim se chama seu cunhado, segundo creio... Ian saber dar bom uso. 
Fraser tinha voltado a dominar-se. Os olhos azuis o olharam diretamente. 
-J que est to bem informado sobre meus vnculos familiares, comandante -disse sem alterar-se-, sabe tambm que meu lar est a mais de cento sessenta quilmetros 
de Ardsmuir. Poderia explicar como pude cobrir duas vezes essa distncia em s trs dias? 
Grey fixou os olhos na pea de xadrez, fazendo-a rodar preguiosamente de uma mo a outra. 
-Pudeste encontrar-se no pramo com algum que levasse a vossa famlia o ouro ou indicaes sobre ele. 
Fraser soltou um bufo.
-Em Ardsmuir? Que probabilidades h, comandante, de que me encontrasse por acaso com uma pessoa nesse pramo? E de que, fora algum a quem eu pudesse confiar uma 
mensagem como o que sugere? -Deixou seu copo com deciso- No me encontrei com ningum, comandante. 
-Por que devo aceitar sua palavra a respeito, senhor Fraser? -Grey deixou que em sua voz se filtrasse um considervel ceticismo. Levantou os olhos, com as sobrancelhas 
levantadas. Fraser ruborizou levemente. 
-Ningum teve nunca motivos para duvidar de minha palavra, comandante -disse muito teso.
-Como no? -O enfado do ingls no era de tudo fingido- No me destes talvez sua palavra quando ordenei que lhe tirassem as correntes? 
-E cumpri! 
-Cumpriu? -Os dois se tinham incorporado nas cadeiras e se olhavam com fria acima da mesa. 
-Pediu-me trs coisas, comandante. E respeitei esse trato em todos seus detalhes! 
Grey bufou com desdm. 
-Sim, senhor Fraser? Diz-me, pois: o que foi que induziu a desprezar subitamente a companhia de vossos camaradas e procurar a dos coelhos do pramo? J que me asseguras 
que ali no encontraste ningum... At me d sua palavra de que assim foi.
-Sim, comandante -disse Jamie apertando um punho- Dou a minha palavra de que assim foi. 
-E sua fuga? 
-Quanto a minha fuga, comandante, disse no revelarei nada. 
-Permita-me falar com clareza, senhor Fraser. Fao a honra de supor que no faz sentido. 
-O que tenho  um profundo sentido da honra, comandante. Eu asseguro. 
Grey percebeu a ironia, mas no reagiu. 
-O fato , senhor Fraser, que pouco importa se tivestes ou no contato com vossa famlia em relao com o ouro. Poderia t-lo fato. E essa possibilidade justificaria 
que eu enviasse a um grupo de drages para fazer uma inspeo a fundo em Lallybroch e prender e interrogar a vossos familiares. 
Do bolso da peitilho tirou uma folha de papel que continha uma lista de nomes.
-Ian Murray... seu cunhado, tenho entendido; Jenny, sua esposa, que seria sua irm, por suposto; os filhos de ambos: James, assim chamado em honra de seu tio, suponho... 
Margaret, Katherine, Janet, Michael e Ian. Que prole! -comentou num tom depreciativo que punha os seis pequenos Murray  altura de uma carnada de leites- Os trs 
meninos maiores tm idade suficiente para ser presos e interrogados junto com os pais. Como sabes, esses interrogatrios no costumam ser suaves, senhor Fraser. 
Isso dizia a verdade e Jamie o sabia. Fechou os olhos brevemente e voltou a abr-los. 
Grey recordou por um instante a Quarry, dizendo: "Se jantar a ss com esse homem, no lhe d as costas." Se arrepiou o cabelo da nuca mas conseguiu dominar-se e 
sustentar a olhada azul de Fraser.
- o que desejas de mim? -A voz soava grave e rouca de fria, mas o escocs permanecia imvel como uma figura talhada. 
Grey respirou fundo. 
-Quero a verdade -disse. E aguardou em silncio. Podia permitir a espera. Por fim Fraser voltou a olh-lo. 
-A verdade. De acordo. -Tomou alento- Respeitei minha palavra, comandante. Repeti fielmente tudo o que o homem me disse aquela noite. O que no vos disse foi que 
uma parte do que disse fazia sentido para mim.
-Bem. -Grey permanecia muito quieto, sem atrever-se a fazer um gesto- E qual era esse sentido? 
-Eu... te mencionei sobre minha esposa -O prisioneiro parecia pronunciar as palavras pela fora, como se doessem. 
-Sim. Disse-me que tinha morrido. 
-Disse que se tinha ido, comandante -corrigiu Fraser, suavemente, sem afastar os olhos do peo-  provvel que tenha morrido, mas... -Deteve-se e enguliu saliva 
antes de prosseguir, com mais firmeza- Minha esposa era curandeira. Uma encantadora, como dizemos nas Terras Altas, mas mais do que isso. Era uma Dama Branca, uma 
mulher sbia. -Levantou brevemente os olhos- A palavra galica  ban-druidh; tambm significa bruxa. 
-A bruxa branca. -O alcaide tambm falava com suavidade- Como as palavras desse homem se referiam a sua esposa? 
-Me ocorreu que podia assim ser. E nesse caso... -Os largos ombros se encolheram levemente- Tinha que ir. Para ver.
-Como soubestes onde ir? Isso tambm se deduziu das palavras do vagabundo? -Grey se inclinou para frente, curioso. 
-No muito longe daqui h um altar em honra a Santa Bride. A Santa Bride tambm se chamava "a Dama Branca" -explicou levantando os olhos- Ainda que o altar estava 
ali muito antes do que a santa viesse a Esccia. 
-Compreendo. E por isso supos que as palavras do homem no se referiam s a vossa esposa, seno tambm a esse lugar? 
-No sabia -repetiu Fraser- No podia saber se tinham algo haver com minha esposa, se "a bruxa branca" s se referia a Santa Bride... ou nenhuma das duas coisas. 
Mas tinha que ir.
A pedido de Grey, descreveu o lugar em questo e a maneira de chegar a ele. 
-O altar em si  uma pedra pequena, com a forma de uma cruz antiga, to desgastada pelo cu aberto que as marcas mal se notavam. Levanta-se sobre um pequeno estanque, 
meio enterrado no urzal. No estanque se vem pedrinhas brancas, enredadas s razes dos urzais que crescem na ribeira. Cr-se nessas pedras ter grandes poderes, 
comandante -explicou vendo a expresso desconcertada do ingls-. Mas s se usa uma Dama Branca. 
-Compreendo. E sua esposa...? -Grey fez uma pausa delicada. 
Fraser mexeu a cabea. 
-Isso no tinha nada haver com ela. Foi-se, sim. -Ainda que falava baixinho e controlada, Grey percebeu o deixe de desolao.
-E o ouro, senhor Fraser? -perguntou serenamente- Que h dele? 
-Estava ali -foi a seca resposta. 
-O que? -Grey se incorporou na cadeira, fincando-lhe a vista- O encontrou? 
O escocs torceu ironicamente a boca. 
-Encontrei. 
-Era realmente o ouro francs que Luis enviou luzes de ouro a seus superiores de Londres. 
-Luis nunca enviou ouro aos Stuarts -assegurou Fraser- No, comandante: o que encontrei no estanque da santa era ouro, mas no de cunho francs.
Tinha achado uma caixa pequena, que continha umas poucas moedas de ouro e prata, e um saquinho de pele cheio de jias. 
-Jias? De onde diabos saram? 
Fraser lhe jogou uma olhada de leve exasperao. 
-No tenho a menor idia, comandante -disse- Como posso saber? 
-Por suposto que no. -Grey tossiu para dissimular seu abalo- Evidentemente. Mas esse tesouro... onde est agora? 
-Atirei-o ao mar. 
Grey ficou estupefato.
-O atirei ao mar -repetiu Fraser, paciente. Seus olhos oblquos sustentaram a olhada do alcaide- Ouvistes falar de um lugar chamado Caldeiro do Diabo, comandante? 
Est a oitocentos metros do estanque da santa. 
-Por que? Por que fizestes isso? -acusou Grey- No faz sentido, homem! 
-Ento o sentido no me interessava muito, comandante -explicou Fraser suavemente- Fui com uma esperana... e desaparecida esta, o tesouro no era para mim seno 
uma caixa de pedras e uns bocados de metal mofados. No me servia de nada. - Arqueou levemente uma sobrancelha irnica- Mas tambm no encontrava sentido em por 
em mos do rei Jorge, assim o atirei ao mar. 
Grey se deixou cair contra o respaldo, servindo-se mecanicamente outra copo de xerez.
Fraser contemplava o fogo, com o queixo apoiado no punho; seu rosto tinha voltado  impassibilidade habitual. 
Grey enguliu uma boa quantidade de vinho e recuperou a serenidade. 
- um relato comovedor, senhor Fraser -disse- Muito dramtico. No entanto, no h provas de que seja verdade. 
-Mas , comandante -assegurou o prisioneiro.
Afundou a mo sob a cintura de suas calas e, depois de remexer um momento, alongou o punho acima da mesa, esperando. Grey estendeu a mo num ato reflito. Em seu 
roupa aberta caiu um objeto pequeno. 
Era uma safira, de um azul to escuro como os olhos do prprio Fraser e de bom tamanho. Grey abriu a boca, mas no disse nada. Estava sufocado pela assombro. 
-Eis a evidncia de que o tesouro existiu, comandante. -Fraser apontou a pedra com um gesto de cabea- Quanto ao resto..., lamento dizer, comandante, que deves aceitar 
minha palavra. 
-Mas... mas... dissestes...
-Efetivamente. -Fraser estava to sossegado como se tivesse estado conversando sobre a chuva-. Conservei essa nica pedra, pensando que poderia ser-me til se alguma 
vez recuperasse a liberdade... ou se achava a ocasio de envi-la a minha famlia. Pois compreendi, comandante -nos olhos de Jamie iluminou uma luz depreciativa-, 
que minha famlia no poderia aproveitar um tesouro dessa espcie sem chamar a ateno de uma maneira nada conveniente. Uma pedra sim, talvez, mas no muitas. 
O alcaide mal podia pensar. O que Fraser dizia era verdade. Ainda assim... 
-Como fez para conservar isto? -inquiriu bruscamente- Quando capturamos fostes vistoriado at a pele. 
A larga boca se curvou no primeiro sorriso autntico que Grey lhe tinha visto. 
-Eu a enguli.
A mo de Grey se fechou convulsivamente sobre a safira. Depois o depositou, quase timidamente, junto  pea de xadrez. 
-Compreendo. 
-No o duvido, comandante -disse Fraser com uma gravidade que s serviu para destacar o brilho divertido de seus olhos- De vez em quando, uma dieta de tosco porridge 
tem suas vantagens. 
Grey sufocou um sbito impulso de rir, esfregando-se o lbio com um dedo. 
-Sem dvida, senhor Fraser. -Ficou contemplando a pedra azul. Depois perguntou, bruscamente-: s catlico, senhor Fraser? 
J conhecia a resposta; quase todos os apoiantes dos Stuarts eram catlicos. Sem aguardar a rplica, levantou-se para aproximar  livraria do rinco. Procurou a 
Bblia encadernada em pele de bezerro e a ps na mesa, junto  pedra.
-Me inclino a aceitar vossa palavra de cavaleiro, senhor Fraser -disse- Mas compreenda que devo ter em conta meu dever. 
O prisioneiro fincou uma longa olhada no livro. Depois levantou para Grey. 
-Sei, comandante. -Sem vacilar, ps a larga mo na Bblia 
- Juro por Deus Todo-poderoso e por seu Sacro Verbo que 
o tesouro  o que vos disse. -Seus olhos brilharam  luz do fogo, escuros e insondvel
- E juro por minha esperana de chegar ao Cu que agora descansa no fundo do mar.
















CAPTULO 11

O gambito de Torremolinos

Assim resolvida a questo do ouro francs, retomaram a rotina: um breve perodo de negociao formal sobre os assuntos dos prisioneiros, seguido por uma conversa 
informal e, as vezes, uma partida de xadrez. Aquela noite abandonaram a mesa ainda analisando Pamela, a extensa novela de Samuel Richardson. 
-Cres que a longitude do livro est justificada pela complexidade do relato? -perguntou Grey, inclinando-se para acender um cigarro com a vela do aparador- Afinal 
de contas, alm de representar um grande gasto para o editor, requer do leitor um esforo considervel.
-Admito que, nesse aspecto, tenho certos preconceitos, comandante. Dadas as circunstncias em que li Pamela, me teria encantado que o livro fosse o dobro de longo. 
-E quais foram essas circunstncias? -perguntou Grey, sumindo os lbios para despedir um anel de fumaa. 
-Passei vrios anos vivendo numa gruta das Terras Altas, comandante -disse Fraser com ironia- Nunca tinha mais de dois ou trs livros, que deviam durar vrios meses. 
Sim, sou partidrio dos volumes grandes, mas devo admitir que no  uma preferncia universal. 
-Isso  muito verdadeiro -disse Grey. Com os olhos entornados, seguiu a trajetria do primeiro anel de fumaa e soltou outro. Depois apagou rapidamente o cigarro 
e se levantou do assento- Vamos. Temos tempo para uma partida rpida.
Como adversrios no estavam em p de igualdade; Fraser jogava muito melhor, mas Grey se compunha para ganhar uma partida de vez em quando a fora de pura bravura. 
Aquela noite provou o Gambito de Torremolinos. Era uma abertura arriscada, com o cavalo da dama. Obrigou-se a respirar normalmente enquanto efetuava o penltimo 
movimento da combinao. Sentiu que os olhos de Fraser se posavam nele, mas no o olhou por medo a delatar seu nervosismo. Se seu adversrio movia o cavalo, j no 
poderia retroceder. Se movia o peo, tudo estava perdido. 
A mo de Fraser sobrevoou o tabuleiro; depois, subitamente decidido, baixou para tocar a pea. O cavalo. 
Deve ter expelido o ar com muito rudo, pois Fraser levantou bruscamente os olhos. Mas j era muito tarde. Com cuidado para evitar que sua cara refletisse a expresso 
de triunfo, Grey enrocou.
O escocs olhou o tabuleiro com a sombrancelha franzida, avaliando as peas. Depois deu um sobressalto e o olhou com olhos dilatados. 
-Que astuto, pequeno cretino! -disse com respeito- Onde diabos aprendeste essa jogada? 
-Meu irmo mario me ensinou -respondeu Grey perdendo sua vezeira cautela por culpa do sucesso. Normalmente, Fraser lhe ganhava sete vezes em cada dez. A vitria 
era doce. 
Seu hspede emitiu um riso breve e alongou o ndice para tombar delicadamente seu rei. 
-Cabia esperar algo assim de um homem como lorde Melton -observou com desaire. 
Grey se ps rgido no assento. Fraser, ao not-lo, levantou uma sobrancelha zombadora. 
-Refere-se a lorde Melton, certo? -disse- Ou tens outro irmo?
-No -confirmou Grey. Sentia os lbios dormentes, mas o atribuiu ao cigarro- No, s tenho um irmo. -O corao voltava a palpitar-lhe, mas agora com um ritmo pesado 
e forte. Esse maldito escocs teria sabido desde um princpio quem era ele? 
-Nosso encontro foi breve, por necessidade -recordou Fraser seco- Mas memorvel. -Tomou um trago de seu copo, observando a Grey acima da borda- Ignors que eu tinha 
conhecido a lorde Melton no campo de Culloden? 
-Sabia. Eu combati em Culloden. -Todo o prazer da vitria se tinha evaporado. Grey se sentiu um pouco enjoado pela fumaa- Mas no esperava que  lembrsses de Hal... 
nem que soubsses de nosso parentesco.
-Como devo minha vida a esse encontro,  difcil que possa esquec-lo. 
Grey levantou os olhos. 
-Tenho entendido que no estvas to agradecido quando conheceste a Hal, em Culloden. 
Fraser apertou a boca. Depois a relaxou. 
-No -reconheceu suavemente, sorrindo sem humor- Vosso irmo, muito teimosamente, negou-se a fuzilar-me. Ento eu no tinha motivos para agradecer-lhe o favor. 
-Desejva que o fuzilassem? -Grey alou as sobrancelhas. 
-Acreditava ter motivos -disse suavemente- Naquele momento. 
-Que motivos? -Grey captou uma olhada rpida e se apressou a adicionar-: No quero ser impertinente, mas... naqueles dias eu pensava algo similar. Pelo que me dissestes 
dos Stuarts, no creio que a derrota de sua causa vos tenha provocado tanto desespero. 
Teve um leve movimento junto  boca de Fraser, muito vago para merecer o nome de sorriso. O escocs inclinou brevemente a cabea.
-Tinha quem combatiam por amor a Carlos Stuart... ou por lealdade ao direito ao trono de seu pai. Mas tens razo: eu no era desses. 
No explicou mais. Grey respirou fundo, sem afastar os olhos do tabuleiro. 
-Como eu dizia, por aquele ento eu sentia de modo parecido. Em Culloden..., perdi a um amigo muito ntimo -disse. A metade de sua mente se perguntava por que devia 
mencionar a Hector precisamente ante aquele homem- Obrigou-me a ver o cadver... Hal, meu irmo -balbuciou. 
E olhou a mo, onde o azul intenso da safira de Hctor ardia sobre sua pele, uma verso menor da safira que Fraser lhe tinha dado com tanta inapetncia. 
-Disse que era necessrio, que se no o visse morto nunca acabaria de crer que Hector, meu amigo, tinha-se ido para valer. Assim o choraria eternamente, disse. Se 
o via, mudado, choraria, mas tarde ou cedo poderia sanar... e esquecer. -Levantou os olhos fazendo um penoso esforo para sorrir- Pelo geral Hal tem razo, mas no 
sempre.
Pode ser que tivesse curado, mas nunca esqueceria. Nunca esquecerei a ltima imagem de Hector, imvel, com a cara cerlea  primeira luz da manh e as longas pestanas 
escuras repousando delicadamente nas bochechas como quando dormia. Nem a ferida aberta que quase lhe tinha separado a cabea do corpo, deixando  vista a traquia 
e os grandes condutos do pescoo, como num aougue. Guardaram silncio. Fraser no disse nada, mas levantou seu copo e apurou quantas vezes. Sem dizer nada, Grey 
encheu ambas copos pela terceira vez e se recostou na cadeira, olhando a seu hspede com curiosidade. 
-Considera sua vida como uma carga muito pesada, senhor Fraser? 
O escocs o olhou aos olhos. 
-Talvez no tanto -respondeu com lentido - Creio que o pior peso , talvez, preocupar-nos por quem no podemos ajudar.
-Pior do que no ter por quem preocupar-se? 
Fraser fez uma pausa antes de responder. 
-Isso  vazio -disse ao-fim . Mas no constitui uma carga muito pesada. 
Era tarde; no se ouvia rudo algum na fortaleza que os rodeava, salvo alguma pisada do soldado que montava guarda abaixo, no ptio. 
-Sua esposa, disse-me que era curandeira? 
-Sim. Ela... chamava-se Claire. -Fraser enguliu saliva; depois levantou o copo para beber como se tentasse aclarar a garganta. 
-Suponho que a querias muito -apontou Grey suavemente. 
Reconhecia no escocs a mesma compulso que ele tinha sentido momentos antes: a necessidade de pronunciar um nome oculto, de recuperar, por um momento, o fantasma 
de um amor. 
-Tinha inteno de dizer obrigado alguma vez, comandante -disse o prisioneiro. 
Grey se sobressaltou. 
-Dar-me obrigado? Por que? 
O escocs levantou os olhos escuros. 
-Por aquela noite em que nos conhecemos, em Carryarrick. Pelo que fizestes em favor de minha esposa. 
-Eu lembro -murmurou Grey rouco.
-No o tinha esquecido. 
Grey reuniu coragem para olh-lo acima da mesa. No tinha rastos de riso nos oblquos olhos azuis. Fraser assentiu com grave formalidade. 
-Foste um digno inimigo, comandante; no poderia esquece-lo. 
John Grey riu com amargura. Estranhamente, sentia-se menos inquieto do que esperava ante a referncia explcita quela vergonhosa recordao. 
-Se um menino de dezesseis anos, cagado de medo, pareceu um inimigo digno, senhor Fraser, no me estranha que o exrcito das Terras Altas tenha sido derrotado. 
O escocs sorriu vagamente.
-O homem que no se caga de medo quando lhe apontam com uma pistola  cabea, comandante, no tem intestinos ou no tem crebro. 
Grey riu contra sua vontade. 
-No quiseste falar para salvar vossa prpria vida, mas o fizeste pela honra de uma dama. 
"A honra de minha prpria dama -observou seu convidado com suavidade- A meu modo de ver, isso no  covardia. 
Em sua voz era muito evidente o som da verdade para confund-lo. 
-No fiz nada por vossa esposa -objetou o alcaide com bastante amargura- Ela no corria nenhum perigo, depois de tudo.
-Mas voce no sabia, verdade? -disse Fraser- Acreditou estar salvando a vida e a virtude a risco das vossas. Com essa idia a honrastes. As vezes o penso, desde 
que... desde que a perdi. -Em sua voz tinha uma leve vacilao; s a rigidez muscular de sua garganta delatava sua emoo. 
-Compreendo. -Grey respirou fundo e deixou escapar lentamente o ar- Lamento vossa perda -adicionou formalmente. 
Ambos guardaram silncio por um momento, ss com seus fantasmas. Por fim Fraser levantou os olhos. 
-Vosso irmo tinha razo, comandante -disse- Dou-vos a graa e o desejo de boa noite. 
Levantou-se, deixando o copo, e abandonou o quarto.
Se parecia, em certos aspectos, aos anos passados na gruta, com as visitas  casa, esses osis de vida e calidez no deserto da solido. Aqui sucedia ao contrrio: 
ia da obstinada e fria lobreguez das celas s luminosas habitaes do comandante, onde podia exercitar tanto a mente como o corpo, relaxar-se na indiferena, a conversa 
e a abundncia de comida. 
Em p no ventoso corredor, enquanto esperava que o carcereiro abrisse a porta da cela, percebeu os rudos zumbantes dos homens dormidos; ao abrir-se a porta o assaltou 
o cheiro daqueles homens.
-Voltas tarde, Mac Dubh -disse Murdo Lindsay com a voz cascata pelo sonho-. Amanh estars esgotado. 
-J me arrumarei, Murdo -sussurrou, passando entre os corpos. Tirou a jaqueta para deposit-la com cuidado no banco, pegou o spero cobertor e procurou seu espao 
no solo; sua longa sombra piscou sob a lua, entre as barras da janela. 
-O Rubito te deu de comer decentemente, Mac Dubh? 
-Sim, Ronnie. Obrigado. 
-Amanh vai nos contar? -Para os prisioneiros era um estranho prazer inteirar-se do que lhe tinham servido para jantar; tomavam como uma honra o fato de que seu 
chefe recebesse uma boa comida.
-Sim, Ronnie -prometeu Mac Dubh- Mas agora devo dormir, de acordo? 
-Que durmas bem, Mac Dubh -disse num sussurro. 
-Doces sonhos, Gavin -sussurrou Mac Dubh por sua vez. 
Aquela noite sonhou com Claire. Tinha-a entre seus braos. Estava grvida, com o ventre redondo e suave como um melo, ricos e cheios os peitos, com os mamilos escuros 
como o vinho, instando-lhe a prov-los. Pegou um com ansiedade, estreitando-a contra si enquanto succionava. Seu leite era quente e doce, com um leve gosto a prata, 
como sangue de veado. 
-Com mais fora -sussurrou ela. E lhe apoiou uma mo na nuca- Com mais fora.
Acordou subitamente, sudoroso e ofegando, meio encolhido sobre um custado, sob um dos bancos da cela. Ainda no tinha aclarado de tudo mas j podia ver as silhuetas 
dos homens tombados junto a ele. Esperava no ter gritado. Fechou os olhos de imediato, mas o sonho tinha desaparecido. Permaneceu muito quieto enquanto o corao 
se lhe tranqilizava, esperando o amanhecer.

18 de junho de 1755 

Aquela noite John Grey tinha vestido com esmero; camisa limpa e mdias de seda. Luza sua prpria cabeleira, singelamente tranada e umedecida com um tnico de limo 
e verbena. Depois de uma momentnea vacilao, tinha-se posto tambm o anel de Hector. O jantar foi bom: um faiso que ele mesmo tinha caado e uma salada em deferncia 
aos estranhos gostos de Fraser. J sentados frente ao tabuleiro de xadrez, descartaram os temas de conversa mais levianos para concentrar-se no jogo.
-Tomas xerez? 
Fraser assentiu com a cabea, absorto na nova posio. 
-Sim, obrigado. 
Grey se levantou para cruzar o quarto, deixando Fraser junto ao fogo. Ao tirar a garrafa do armrio sentiu que um fio de suor lhe baixava pelas costelas. No era 
pelo fogo que ardia ao outro lado da habitao, seno por puro nervosismo.
Ao regressar  mesa moveu o bispo da rainha sabendo que era s um movimento giratorio. Ainda assim ps em perigo  rainha de Fraser; talvez o obrigasse a sacrificar 
uma torre. 
Fraser tinha atado o cabelo para atrs com um fino cordo negro, formando um lao. Bastaria um leve puxo para desat-lo. John Grey se imaginou deslizando a mo 
sob aquela mata densa e lustrosa para tocar a nuca suave e morna. Tocar... 
Fechou bruscamente a mo, imaginando a sensao. 
-Sua vez, comandante.
A suave voz escocesa lhe devolveu  realidade. Tomou assento observando o tabuleiro com olhos cegos. Tinha intensa conscincia dos movimentos do outro, de sua presena. 
Ao redor de Fraser o ar se agitava; era impossvel no o olhar. Para dissimular levantou o copo de xerez e tomou um trago, quase sem degustar o lquido dourado. 
Fraser permanecia quieto como uma esttua, estudando o tabuleiro; o azul escuro de seus olhos parecia vivo em sua cara. O fogo se tinha consumido e as linhas de 
seu corpo se recortavam nas sombras. A mo dourada e negra, alumiada pelas brasas, descansava na mesa, imvel e extraordinria como o peo capturado junto a ela. 
Quando John Grey alongou a mo para o bispo de sua rainha, a pedra azul de seu anel lanou um reflexo. "Fao mal, Hector?", perguntou-se. " mal amar o homem que 
bem pde ter-te matado?" Talvez era um modo de cicatrizar para ambos as feridas de Culloden. 
Depositou o bispo com um golpezinho seco e preciso. Sua mo, sem deter-se, pareceu mover-se por vontade prpria e cruzou em pouca distncia, como se soubesse exatamente 
o que desejava, para posar-se na de Fraser, com a palma vibrante e os dedos curvados numa suave implorao. 
A mo que tocou estava quente, muito quente..., mas dura e imvel como o mrmore. Nada se moveu na mesa, a no ser o reflexo da chama no corao do xerez. Levantou 
os olhos para procurar os de Fraser.
-Retira essa mo -disse o escocs com muitssima suavidade- se no quer que eu o mate. 
Seus dedos no se moveram; tambm no seu rosto, mas Grey percebeu o arrepio de repugnncia, um espasmo de dio e desgosto que surgia do centro mesmo daquele homem. 
De sbito ouviu, uma vez mais, a advertncia de Quarry, to clara como se seu predecessor lhe estivesse falando ao ouvido. "Se jantar a ss com ele... no lhe d 
as costas." 
No tinha nenhuma possibilidade de faz-lo; no podia mover-se. No podia sequer afastar a cara, piscar para romper o contato com os olhos azuuis que o mantinha 
petrificado. Com muita lentido, retirou a mo. 
Teve um momentneo silncio durante o qual nenhum dos dois pareceu respirar. Por fim Fraser se levantou sem fazer rudo e saiu do quarto.

CAPTULO 12

SACRIFCIO

A chuva de outono repiqueava nas pedras do ptio e nas fileiras de homens encurvados sob o dilvio. Os soldados que os vigiavam no pareciam bem mais felizes do 
que os prisioneiros empapados. 
O comandante Grey esperava sob o saliente do telhado. No era o melhor dia para realizar a inspeo e limpeza das celas dos reclusos, mas a essa altura do ano era 
intil esperar que fizesse bom tempo. E com mais de duzentos prisioneiros em Ardsmuir era necessrio limpar as celas ao menos uma vez ao ms, a fim de evitar que 
se propagassem as doenas.
As portas da cela principal giraram para trs dando dando um passo o pequeno desfile de reclusos: eram os escolhidos para fazer a limpeza sob a estreita vigilncia 
dos guardas. O cabo Dunstable saiu detrs, com as mos carregadas dos pequenos objetos proibidos que habitualmente apareciam nesse tipo de inspees. 
-Os lixos de sempre, senhor -informou deixando cair as patticas relquias sobre um tonel- S isto pode interessar. 
Referia-se a um pequeno pedao de tecido, de uns quinze centmetros de comprimento, com um desenho escocs de cor verde. Grey, suspirando, enquadrou os ombros.
-Sim, suponho que sim. -A posse de tartn escocs estava estritamente vetada pela Lei contra as Saias, que desarmava os escoceses e lhes impedia utilizar a vestimenta 
tradicional. Ficou em frente aos homens, enquanto o cabo Dunstable dava um spero grito para chamar-lhes a ateno. 
-A quem pertence isto? -O cabo levantou o pedao de tartn ao mesmo tempo que a voz.
Grey seguiu as fileiras com os olhos, comparando as caras com seu imperfeito conhecimento dos desenhos: MacAlester, Hayes, Innes, Graham, MacMurtry, MacKenzie, MacDonald... 
Um momento: MacKenzie, esse. Sua segurana se baseava mais no conhecimento oficial tem de seus homens que da relao desse tartn com um cl em especial. MacKenzie 
era um prisioneiro jovem; mantinha a cara muito inexpressiva, muito controlada.
- seu, MacKenzie, verdade? -inquiriu Grey fitando o jovem numa olhada triunfal. 
O jovem escocs compartilhava com todos os demais um dio implacvel, mas no tinha conseguido levantar a muralha de estica indiferena que o continha. Grey percebeu 
o medo que se ia acumulando no moo.
- meu. -A voz soou acalmada, quase aborrecedora, dotada de uma indiferena tal que nem MacKenzie nem Grey a registraram de imediato. Ambos seguiram olhando-se aos 
olhos at que uma sombra se alongou acima do ombro do jovem, para pegar suavemente o pedao de tecido que o oficial sustentava. 
John Grey deu um passo para trs; essas palavras foram como um golpe na boca do estmago. Esquecendo por completo a MacKenzie, elevou os olhos em muitos centmetros 
necessrios para olhar frente a frente a James Fraser.
-No  o tartn dos Fraser -disse com lbios apertados. 
A boca de Fraser se alargou levemente. Grey manteve a vista fixa nela, temeroso de enfrentar queles escuros olhos azuis. 
-No, efetivamente -disse Fraser-  dos MacKenzie. O cl de minha me. 
Em algum canto de sua mente, Grey armazenou outra pequena informao na combinao que rotulava "Jamie": sua me era uma MacKenzie. Sabia que era verdade, tal como 
sabia que aquele tartn no pertencia a Fraser. Ouviu sua voz, serena e firme, dizendo: 
-A posse de tartanes  ilegal. Conhece o castigo, no ?
A larga boca se curvou num sorriso torto. 
-Conheo. 
Teve um murmrio entre as filas de prisioneiros. Com um esforo de vontade, Grey afastou os olhos desses lbios suaves, algo irritados pela exposio ao sol e ao 
vento. A expresso dos olhos era a que ele temia: nem medo nem ira; s indiferena. 

Fez um sinal a um dos guardas. -Aprisione.
O comandante John William Grey inclinou a cabea, assinando as requisies sem l-las. Rara vez trabalhava at to tarde da noite, mas durante o dia no tinha tido 
tempo e os papis estavam amontoando. Requisitadas deviam partir para Londres essa mesma semana. 
Ainda sentia o frio que lhe tinha metido nos ossos aquela manh, no ptio. O lar estava acendido mas o fogo no parecia servir de nada. No tratou de aproximar-se; 
j o tinha tentado uma vez e tinha ficado hipnotizado vendo as chamas as imagens da tarde; s pde reagir quando o calor comeou a chamuscar as calas. 
Recolhendo a pluma, tratou novamente de afastar a mente do ptio.
Era melhor no atrasar a execuo dessas sentenas; os prisioneiros ficavam nervosos com a expectativa e era difcil control-los. Geralmente, as medidas disciplinarias 
executadas de imediato costumavam ter um efeito saudvel. 
Ainda se sentia gelado por dentro, tinha dado as ordens com seriedade e compostura. Foi obedecido com igual concorrncia.
Se formou os prisioneiros em fileiras aos quatro lados do ptio e os guardas frente a eles, com as baionetas preparadas para evitar qualquer reao indesejada. 
Mas no teve nenhuma reao. Com as mos cruzadas s costas, sentindo a chuva que lhe empapava o casaco e corria desde o pescoo da camisa, Grey observou impassvel 
a Jamie Fraser, que permanecia em p a um metro de distncia, nu at a cintura. Movia-se sem pressa nem vacilao, como se aquilo fosse algo que j tivesse feito 
mais de uma vez, uma tarefa habitual sem maior importncia.
Fez um sinal com a cabea aos dois soldados, que seguraram os braos do prisioneiro ao poste de castigo sem que tivesse resistncia. Outro gesto ao sargento encarregado 
de ler os atributos e um pequeno incomodo, pois o movimento fez cair em cascata a chuva acumulada em seu chapu. Se endereou, ajustando-se a peruca empapada, e 
recuperou sua postura de autoridade para escutar a leitura. 
-... na contramo da Lei contra as Saias, ditada pelo Parlamento de Sua Majestade, delito pelo qual se aplicar a sentena de setenta chicotadas.
Grey olhou objetivo ao sargento designado para aplicar o castigo; para nenhum deles era a primeira vez. Nesta oportunidade no fez nenhum sinal com a cabea, porque 
ainda chovia. Em mudana, com os olhos entrecerrados, pronunciou as palavras de costume: 
-Recebe vosso castigo, senhor Fraser. 
E permaneceu de p, com o olhar fixo, vendo e escutando o golpe dos relhos e os rosnados do prisioneiro atravs da mordaa.
O homem tensionava os msculos para resistir a dor. Uma e outra vez, at que cada fibra se revelou separado sob a pele. Grey sentia depois dele a presena dos homens, 
soldados e prisioneiros, todos com o olhar fixo na plataforma e sua figura central. At as tosses se tinham calado.
O sargento mal fazia uma pausa entre um golpe e outro. Estava acelerando a tarefa; todo mundo queria terminar de uma vez e refugiar-se da chuva. Grissom contava 
a cada chicotada em voz alta ao mesmo tempo em que o anotava em seu registo. O sargento interrompeu a flagelao fazendo correr entre os dedos as filas do chicote, 
com seus nodos encerados, para liber-las de sangue e fragmentos de carne. Depois o alou uma vez mais, fazendo-o girar ao redor da cabea, e voltou a descarreg-lo. 
-Trinta! -disse o sargento.
O comandante Grey fechou a ltima gaveta da escrivaninha e vomitou sobre um monto de requisitos. 
Ainda que fincasse os dedos nas mos, o tremor no cessava. Tinha-o dentro dos ossos, como o frio do inverno. 
-Cubra-o com um cobertor. O atenderei em seguida.
A voz do cirurgio ingls parecia vir desde muito longe; no relacionava a voz com as mos que lhe aferrava com firmeza em ambos braos. Quando o moveram gritou, 
porque a toro abriu as feridas das costas, mal fechadas. O gotejo do sangue quente pelas costelas piorou os tremores, apesar do spero cobertor que lhe puseram 
sobre os ombros. 
-Hum. Deixou-te um desastre, no, rapaz?
No respondeu; de qualquer modo, ningum parecia aguardar resposta. O cirurgio se afastou um momento; depois sentiu uma mo sob a bochecha, levantando-lhe a cabea. 
Uma toalha se deslizou sob sua cara, acolchoando a tosca madeira. 
-Agora vou limpar as feridas -disse a voz. Era impessoal mas no falta de cordialidade. 
Ofegou ao sentir o contato nas costas. Teve um estranho gemido. Envergonhou-se ao compreender que era seu. 
-Que idade tens, rapaz?
-Dezenove. -Mal pde pronunciar a palavra antes de agentar com fora o gemido. 
O cirurgio lhe tocou as costas com suavidade. Depois se incorporou. 
-Ningum vai entrar -disse bondadosamente- Ande, chora. 
-Ei! -estava dizendo a voz- Desperta, homem! 
Voltou lentamente  conscincia; a tosca madeira sob a bochecha uniu por um momento o sonho e o acordar; no pde recordar onde estava. Uma mo surgiu da escurido 
e lhe tocou a bochecha, vacilante.
-Estava chorando em seus sonhos, homem -sussurrou a voz- Te di muito? 
-Um pouco. -Ao tratar de incorporar-se, a dor estourou sobre suas costas como um relmpago. 
Tinha tido sorte de que quem lhe tocou foi Dawes, um soldado maduro e rijo, em realidade no lhe agradava flagelar aos prisioneiros; fazia-o s por cumprir com seu 
trabalho. Ainda assim, setenta chicotadas faziam dano. 
-No, caramba, est muito quente. Quer queim-lo?
Era a voz de Morrison, resmungo. Tinha que ser Morrison, por suposto. Era curioso, pensou vagamente. Quando se rene um grupo de homens, cada um parece achar o 
trabalho que lhe corresponde, tenha-o feito antes ou no. Morrison tinha sido fazendeiro, como a maioria deles. Era provvel que tivesse boa mo para os cavalos, 
ainda que no lhe desse maior importncia. Agora era o curandeiro ao que recorriam os homens quando lhes doa as costas ou se rompiam um dedo. 
Puseram nas costas um pano quente, que o fez rosnar pela ardncia; apertou os lbios com fora para no gritar. Depois percebeu a mo pequena de Morrison no centro 
de suas costas.
-Agenta, homem, at que passe o calor. Sentia mais ou menos a mesma indiferena desde o momento que tinha alongado a mo acima do ombro do jovem Angus para pegar 
o pedao de tartn. Como se dependesse dessa deciso, entre seus homens e ele tinha corrido uma espcie de pano de fundo, como se estivesse s num lugar longquo. 
Tinha seguido aos guardas que o levavam e se desvestiu quando o ordenaram sem sentir-se realmente desperto. Ouviu da plataforma as palavras do delito e a sentena 
sem prestar-lhes muita ateno. Nem sequer o reanimaram a spera mordida da corda nas mos ou a chuva fria nas costas nuas. Pareciam coisas que j tinham sucedido 
antes; nada que ele pudesse dizer ou fazer mudaria; tudo estava decretado.
-Quieto agora, quieto. -Morrison lhe ps uma mo no pescoo para evitar que se movesse enquanto lhe tiravam os trapos empapados para aplicar-lhe outra cataplasma 
quente, que acordou momentaneamente todos os nervos adormecidos. 
Uma conseqncia daquele estranho estado mental era que todas as sensaes pareciam ter a mesma intensidade. 
-Toma, Mac Dubh -disse a voz de Morrison junto ao seu ouvido- Levanta a cabea e bebe isto. 
Golpeou o cheiro penetrante do whisky; tratou de afastar a cara. 
-No preciso -disse.
-Claro que sim - afirmou Morrison com a firmeza que parecem ter todos os curandeiros, como se soubessem melhor do que voce o que sentes e o que precisas. A falta 
de foras e de vontade para discutir, abriu a boca e sorveu o whisky, sentindo que lhe estremeciam os msculos do pescoo com o esforo de manter a cabea levantada. 
-Um pouco mais, assim,isso a -o instava Morrison- Bom moo. Sim, assim est melhor, no? -Morrison moveu seu corpo- E agora, como esto essas costas? Amanh estars 
mais teso do que um poste, mas creio que no ests to mau. Vamos, homem, bebe um pouco mais.
A borda da xcara pressionava sua boca, insistente. Morrison seguia tagarelando em voz bastante alta, sem dizer nada em especial. Tinha algo raro nisso. Morrison 
no era tagarela. Estava sucedendo algo mas ele no o via. Quando levantou a cabea para averiguar, seu colega lhe obrigou a baix-la. 
-No se incomode, Mac Dubh -lhe disse com suavidade- De qualquer modo, no podes imped-lo. 
Do canto mais afastado da cela lhe chegavam sons discretos, os mesmos que Morrison tinha tratado de impedir-lhe ouvir. Algo que se arrastava, murmrios breves, um 
golpe seco.
Estavam golpeando ao jovem Angus MacKenzie. Apoiou as mos sob o peito, mas o esforo fez que lhe ardesse as costas e a cabea lhe deu voltas. A mo de Morrison 
lhe obrigou a encostar. 
-Deixa pra l, Mac Dubh. -Seu tom era uma mistura de autoridade e resignao. 
Uma onda de vertigem se abateu sobre ele e suas mos se deslizaram fora do banco. De qualquer modo, Morrison tinha razo: no podia imped-lo.
Os sons tinham cessado, exceptuando um ofego apagado e choroso. Relaxou os ombros e no se moveu quando Morrison lhe tirou a ltima cataplasma; a corrente de ar 
lhe provocou um sbito arrepio. Apertou os lbios com fora para no fazer nenhum rudo. Aquela manh o tinham amordaado, do qual se alegrava: a primeira vez que 
o aoitaram, anos atrs, tinha-se mordido o lbio inferior quase at part-lo em dois.
A xcara de whisky pressionou outra vez sua boca, mas afastou a cara; a bebida desapareceu sem comentrios, para algum lugar onde achasse uma recepo mais cordial. 
Provavelmente a mos de Milligan, o irlands. 
Um homem com debilidade pela bebida; outro que a detestava. Um homem amante das mulheres; outro... De onde vinham esses dons que davam forma  natureza humana? De 
Deus? Era como a descida do Esprito Santo, como as lnguas de fogo que se posaram nos apstolos? Recordou a ilustrao da Bblia que sua me tinha na sala e fechou 
os olhos, sorrindo ante a recordao.
Claire, sua Claire... Como saber quem a tinha enviado, arrojando a uma vida para a qual no tinha nascido? No entanto, ela tinha sabido o que fazer e qual era seu 
destino, apesar de tudo. Nem todos tinham a sorte de conhecer seus dons. 
Ao seu lado teve um cauteloso arrasto de ps. Ao abrir os olhos s viu uma silhueta, mas adivinhou quem era. 
-Como ests, Angus? -perguntou suavemente em galico.
O jovenzinho se ajoelhou torpemente ao seu lado pegando-lhe a mo. 
-Estou... bem. Mas voc, senhor... Quero dizer... sento-o. 
Foi por experincia ou instinto que estreitou essa mo num gesto reconfortante? 
-Eu tambm estou bem -disse- Precisa descansar, pequeno Angus. 
A silhueta inclinou a cabea num gesto estranhamente formal e lhe deu um beijo no dorso da mo.
-Posso... posso ficar-me junto a voc, senhor? 
A mo lhe pesava uma tonelada, mas ainda assim a levantou para pos-la na cabea do jovem. Se lhe deslizou de imediato, mas sentiu que Angus se relaxava ante o consolo 
que flua do contato. 
Tinha nascido para ser lder; depois foi mudado e refeito para ajustar-se ainda mais a esse destino. Mas que passava com o homem que se via obrigado a desempenhar 
um papel sem ter nascido para ele? John Grey, por exemplo. Ou Carlos Stuart.
Pela primeira vez em dez anos, pde perdoar quele homem dbil que, em outros tempos, tinha sido seu amigo. Depois de ter pago com tanta freqncia o preo exigido 
por seu prprio dom, por fim podia compreender a terrvel condenao de ter nascido rei sem dotes para reinar. 
Ento se sentiu livre de muitos pesos. O da responsabilidade imediata, a da necessidade de decidir. Desapareceu a ira; talvez tivesse ido para sempre. 
Entre a bruma que se espessava, pensou que John Grey lhe tinha devolvido seu destino. 
Quase lhe estava agradecido.

CAPTULO 13

No meio do jogo

Inverness 
2 de junho de 1968 

Foi Roger quem a encontrou pela manh, encolhida no sof do estudio sob o tapete da chamin; o solo estava coberto de papis que tinham cado de uma pasta. 
O tapete lhe deixava os ombros descoberto. Um brao descansava no peito sujeitando uma folha de papel enrugado. Roger o levantou com cuidado para retirar a folha 
sem acord-la. Estava relaxada, com a pele assombrosamente quente e suave. 
Seus olhos encontraram de imediato o nome.
-James Mackenzie Fraser -murmurou afastando os olhos do papel para a mulher que dormia no sof- No sei quem foi, amigo, mas deves de ser muito especial para merec-la. 
Com muita suavidade voltou a subir-lhe o tapete at os ombros e baixou a persiana. Depois se ps em corcas para recolher os papis dispersos de Ardsmuir. Ardsmuir. 
isso era tudo o que precisava no momento. Ainda que o destino final de Jamie Fraser no estivesse registrado naquelas pginas, devia mostrar a histria da priso. 
Talvez fizesse outra incurso nos arquivos das Terras Altas e at uma viagem a Londres. Mas o prximo elo da corrente estava forjado; o caminho se via com clareza.
. . . 
Quando fechou a porta do estudio, movendo-se com exagerada cautela, Brianna descia a escada. Olhou-o levantando uma sobrancelha numa maneira de pergunta e ele mostrou 
a pasta com um sorriso. 
-Achamos -sussurrou. 
Ela no disse nada, mas seu rosto se iluminou com um sorriso.

































QUARTA PARTE
O Distrito dos Lagos







CAPTULO 14

GENEVA

Helwater 
Setembro de 1756


-Creio -disse Grey cauteloso- que deverias pensar em mudar de nome. 
No esperava resposta; Fraser no tinha dito uma palavra depois de quatro dias de viagem, apesar de que se viam obrigados a compartilhar a habitao. Grey, encolhendo-se 
de ombros, ocupava a cama, enquanto Fraser, sem um gesto nem olhares, envolvia-se numa surrada capa e estava frente  chamin.
-Nosso novo anfitrio no est bem disposto para Carlos Stuart e seus apoiantes, j que em Prestonpans perdeu o seu nico filho varo -continuou Grey, dirigindo-se 
ao perfil de ferro que o acompanhava. Ao morrer, Gordon Dunsany era um jovem capito do regimento de Bolton, tinha poucos anos mais do que ele-. No tens muitas 
esperanas de dissimular o fato de ser escocs e, por acrscimo, das Terras Altas. Se queres fazer caso de um conselho bem intencionado, seria judicioso no utilizar 
um sobrenome to facilmente reconhecvel como o vosso.
A dura expresso de Fraser no se alterou em absoluto. 
J estava tarde quando cruzaram a ponte de Ashness para descer a costa para Watendlath Tarn. Aquela parte da Inglaterra, o Distrito dos Lagos, no se parecia a Esccia, 
mas ao menos tinha montanhas. 
A lagoa de Watendlath estava escura e agitada pelo vento outonal; em seus bordes cresciam densos juncos e ervas pantanosas. As chuvas tinham sido mais abundantes 
do que de costume e as pontas dos matagais inundados assomavam aqui e l.
No cume da colina seguinte, o caminho se dividia em dois. Fraser, que se tinha adiantado um pouco, parou o seu cavalo  espera de indicaes, com o vento revolvendo-lhe 
o cabelo. Aquela manh no se tinha tranado e as flamferas mechas voavam ao redor da cabea. 
Subindo ladeira acima, John William Grey observou ao homem parado, imvel como uma esttua de bronze em sua sela salvo pela cabeleira agitada. O alento morreu em 
sua garganta e passou a lngua pelos lbios, murmurando para si: 
-Oh, Lucifer, filho da manh.
Mas se conteve para no acrescentar o resto da citao. 
Para Jamie, aqueles quatro dias de cavalgada para Helwater tinham sido uma tortura. A sbita iluso de liberdade, combinada com a certeza de sua imediata perda, 
faziam-lhe imaginar com horror um destino desconhecido. As palavras de Grey lhe ressoavam nos ouvidos, meio apagadas pelo palpitar de seu sangue colrico.
-Como a restaurao da fortaleza est quase finda, graas a vossa hbil ajuda e a de vossos homens -Grey tinha dado a sua voz um colorido irnico-, os prisioneiros 
sero transportados a outros alojamentos e a fortaleza de Ardsmuir servir de quartel ao Dcimo de Drages de Sua Majestade. Os prisioneiros de guerra escoceses 
sero transportados s Colnias americanas, onde sero vendidos sob contrato de servido pelo prazo de sete anos. 
Jamie se tinha mantido cuidadosamente inexpressivo, mas ante essa notcia sentiu que a cara e as mos se adormeciam de espanto.
-Servido? Isso no  melhor do que a escravatura -disse, ainda que sem prestar muito ateno a suas prprias palavras. Amrica! Terra de selvagens  que se chegava 
cruzando cinco mil quilmetros de mares desertos e agitados! 
-Um contrato de servido no  escravatura -lhe tinha assegurado Grey. Mas o comandante sabia to bem como ele que a diferena era uma mera questo legal, vlida 
s quando os servos contratados, que sobreviviam, recobravam sua liberdade em alguma data predeterminada. Um servo contratado era, a todas luzes, escravo de seu 
amo.
-No vou enviar voce com os outros. -Grey no o olhou ao diz-lo- No s um simples prisioneiro de guerra, sim um traidor preso. Como tal, deves permanecer prisioneiro 
e a disposio de Sua Majestade; no  possvel mudar a sentena transportando sem a aprovao real. E Sua Majestade no se dignou aprov-lo. 
Jamie teve conscincia de uma notvel variedade de emoes; embaixo de sua ira imediata tinha medo e pesar pelo destino de seus homens, misturada com uma pequena 
fasca de humilhante alvio porque, qualquer que fosse seu destino, no o confiariam ao mar. Envergonhado de si mesmo, voltou para Grey dando uma olhada fria. 
-O ouro -disse secamente-  por isso, no? -Enquanto tivesse a menor possibilidade que ele revelasse o que sabia daquele tesouro quase mtico, a Coroa Inglesa no 
correria o risco de perd-lo a mos dos demnios martimos ou os selvagens das Colnias. 
O comandante ainda recusava olh-lo, mas se encolheu de ombros, o qual equivalia a um consentimento. 
-E ento, onde irei?
-A um lugar chamado Helwater, no Distrito dos Lagos de Inglaterra. Ficar na casa de lorde Dunsany, a quem prestar servios domsticos que ele requer. -S ento 
Grey levantou os olhos com uma expresso ilegvel nos olhos claros- Eu te visitarei cada trs meses para assegurar-me de seu bem-estar.
Agora observava as costas do comandante, coberta pela jaqueta vermelha, enquanto cavalgavam um por trs do outro pelos estreitos caminhos, aliviando-se de suas angstias 
imaginando os grandes olhos azuis injetados em sangue, saltando de assombro, enquanto lhe apertava o pescoo com as mos, afundando os dedos na carne enrrojecida 
pelo sol at que o corpo mido e musculoso ficava lasso como um coelho morto. 
Como a disposio de Sua Majestade? No se enganava. Tudo aquilo tinha sido tramado por Grey; o ouro era s uma desculpa. Iam vend-lo como servente; o manteriam 
num lugar onde Grey pudesse v-lo e deleitando-se. Essa era a vingana do comandante.
Grey se deteve e girou na sela, esperando-o. Tinham chegado. A terra descia em pique para um vale onde se via a casa familiar meio oculta entre rvores brilhantes 
do outono. 
Ante ele se estendia Helwater e, com ele, a perspectiva de passar sua existncia em vergonhosa servido. Erguendo as costas, atiou o seu cavalo com mais dureza 
da que teria querido. 
Grey foi recebido no salo principal sem que o cordial lorde Dunsany se preocupasse por suas roupas desalinhadas e suas botas sebosas; Lady Dunsany, uma mulher mida 
e rechonchuda, de cabelo loiro descolorido, mostrou-se plenamente hospitalar.
-Uma taa, Johnny! Tens que tomar uma taa. Louisa, querida minha, creio que deves trazer s meninas para que sadem a nosso hspede. 
Enquanto lady Dunsany dava ordens a um lacaio, Sua Senhora se inclinou sobre a taa para murmurar-lhe: 
-O prisioneiro escocs... Trouxe contigo? 
-Sim-confirmou Grey. No tinha muitas possibilidades de que a senhora o escutasse, pois mantinha uma animada conversa com o mordomo sobre as novas disposies para 
o jantar; ainda assim lhe pareceu melhor falar baixinho- Deixei-o no vestbulo dianteiro. No estava seguro do que desejaria fazer com ele.
-Dizes que tem habilidade com os cavalos, no? Ento o melhor ser fazer isso, como sugeriu. -Lorde Dunsany deu uma olhada a sua esposa e voltou para ela em suas 
magras costas para fazer ainda mais seu reservado dilogo- No disse a Louisa quem  ele -murmurou o baro- Com tanto medo como causaram as gentes das Terras Altas 
durante a guerra..., o pas estava paralisado de terror, sabe? E ela no superou a morte de Gordon. 
-Compreendo. -Grey deu umas palmadas tranqilizadoras ao velho. 
-Lhe direi s que  um servente recomendado por ti. Eh... no  perigoso, suponho. Porque... bom, as meninas... -Lorde Dunsany dirigiu uma olhada intranqila a sua 
esposa.
-No h nenhum perigo -assegurou Grey a seu anfitrio-  um homem de honra e deu sua palavra. No entrar na casa nem cruzar os limites de vossa propriedade, salvo 
com sua permisso expressa. 
Um rudo na porta fez que Dunsany girasse em volta, recuperando uma sorridente jovialidade ante a apario de suas duas filhas. 
-Se lembras de Geneva, Johnny? -perguntou impulsionando o seu hspede para frente- A ltima vez que vieste Isabel era ainda uma criana. Como passa o tempo, no? 
-E sacudiu a cabea com leve horror.
Isabel tinha quatorze anos; era mida, rechonchuda e loira, como sua me. Quanto a Geneva, Grey no a recordava... ou talvez sim, mas a magrela colegial dos anos 
anteriores tinha escasso parecido com aquela elegante jovem de dezessete anos que agora lhe oferecia a mo. 
As moas saudaram ao visitante com amabilidade, mas era bvio que estavam mais interessadas em outra coisa.
-Papai -disse Isabel pegando-o na manga- no vestbulo h um homem gigantesco. Enquanto desciamos a escada no deixava de olhar-nos!D medo v-lo! 
-Quem , papai? -perguntou Geneva com interesse. 
-Eh... caramba, deve ser onovo rapaz dos estbulos que nos trouxe John -explicou lorde Dunsany, ligeiramente- Vou ordenar que algum dos lacaios o levem a... 
Interrompeu-o a sbita apario de um servente, visivelmente espantado pela notcia que trazia.
-Senhor, no vestbulo h um escocs! -E por sua escandalosa informao ainda no fora criada, girou para apontar com um gesto amplo a silhueta alta e silenciosa, 
envolvida em seu manto. 
Ante um sinal, o desconhecido deu um passo a frente e inclinou cortesmente a cabea para lorde Dunsany. 
-Chamo-me Alex MacKenzie -disse com suave acento montanhs. Em sua reverncia no tinha insinuao alguma de zombaria- Para servir-vos, milord.
Para algum acostumado  esgotante vida de agricultor das Terras Altas ou dos trabalhos forados de uma priso, no presumia um grande esforo ser o rapaz dos estbulos 
num stud ingls. Mas era um inferno para Jamie Fraser, que tinha passado os dois ltimos meses preso numa cela. Durante a primeira semana, enquanto seus msculos 
se acostumavam s exigncias do movimento constante, caa pela noite em seu colco de palha  to fatigado que nem sequer sonhava.
Tinha chegado a Helwater em tal estado de esgotamento e confuso mental que, num princpio, aquilo lhe pareceu uma priso a mais... e uma priso no estrangeiro, 
longe das montanhas escocesas. Uma vez estabelecido ali, to preso de sua palavra como se estivesse depois das grades, seu corpo e sua alma se foram acalmando pouco 
a pouco, at que lhe era possvel repensar com racionalidade. 
No era livre mas ao menos tinha ar, luz, e espao para esticar os membros, uma paisagem montanhosa e os formosos cavalos que criava Dunsany. Os outros criados o 
olhavam com desconfiana, mas o deixavam em paz por respeito ao seu corpo e ao seu austero semblante. Era uma vida solitria, mas j estava resignado  que sempre 
seria assim.
Em Helwater chegaram as suaves nevascas. At a visita oficial do comandante Grey, por Natais (uma ocasio tensa e incmoda) passou sem aturdir sua crescente sensao 
de alegria. 
Muito discretamente, se arrumou para comunicar-se com Jenny e Ian, que seguiam nas Terras Altas. Parte das raras cartas que lhe chegavam por meios indiretos (que 
ele destrua depois de ler, em caso da segurana) sua nica recordao do lar era o rosrio que pendia em seu pescoo, dissimulado sob a camisa.
Desapareceu a neve e o ano se tornou luminoso com a primavera. No correr de seu trabalho dirio s havia uma presena pentelha: a de lady Geneva Dunsany.*Lady Geneva, 
bonita, malcriada e autoritria, estava habituada a obter o que desejava e quando o desejava, dando ao fracasso com as convenincias de quem se lhe interpusesse. 
Montava bem, mas era to caprichosa que os moos do ptio costumavam jogar a sorte para quem tinha a desgraa de acompanh-la em seu passeio dirio. 
No entanto, nos ltimos tempos lady Geneva elegia por si mesma o seu acompanhante: Alex MacKenzie. Ele apelou primeiro  discrio e depois a passageiras indisposies, 
para livrar-se de acompanh-la s colinas.
-Tolices -replicou ela- No seja estpido. Ningum nos ver. Vamos! 
E partia, espoleando brutalmente a sua gua antes de que pudesse det-la, rindo dele acima do ombro. Seu entusiasmo era to bvio que os outros lacaios sorriam de 
soslaio e faziam comentrios baixinho. Jamie confiava em que, mais cedo ou tarde, ela se cansaria de sua taciturna atitude e transportaria seus cansativos atendimentos 
a outro dos serventes. Quisesse Deus que se casasse cedo e se fosse bem longe de Helwater e dele.
O dia era ensolarado, coisa rara no Distrito dos Lagos, onde a diferena entre as nuvens e o solo costuma ser imperceptvel quanto  umidade. A tarde de maio era 
to morna que Jamie no viu inconveniencia em tirar a camisa. No tinha mais companhia do que a de Bess e Blossom, os dois estlidos cavalos.
Logo cedo viriam os ciganos; nas cozinhas e nos ptios no se falava de outra coisa. Talvez tivesse tempo para escrever mais pginas  carta que estava escrevendo 
e que enviava cada vez que um grupo de cganos chegava  fazenda. A entrega podia demorar um ms, trs ou seis, mas cedo ou tarde o pacote chegava s Terras Altas, 
passando de mo em mos at Lallybroch, onde sua irm pagaria uma generosa soma por sua recepo. As respostas da famlia chegavam pela mesma rota annima, pois 
Jamie era prisioneiro da Coroa; portanto, quanto enviasse ou recebesse por correio devia ser vistoriado por lorde Dunsany.
O cilindro compressor iniciou um sulco novo. Com o sol na cara, Jamie fechou os olhos, desfrutando do calor no peito e os ombros. Meia hora depois, o agudo relincho 
de um cavalo o arrancou de sua sonolncia. Ao abrir os olhos viu o cavalgador que se aproximava ao ptio inferior, emoldurado entre as orelhas de Blossom. Incorporou-se 
de imediato para pr a camisa. 
-No quer que eu te cubra, MacKenzie. -A voz de Geneva Dunsany soava estridente e um pouco sufocada; vestia seu melhor traje de montar- O que ests fazendo? -perguntou 
pondo sua gua junto ao cilindro. 
-Espalho esterco, milady -respondeu ele sem olh-la.
-Ah... -Ela o acompanhou - Sabe que vo me casar? 
Todos os criados sabiam h um ms por Richards, o mordomo, que estava servindo na biblioteca quando o advogado foi redigir o contrato matrimonial. Lady Geneva tinha 
sido informada mal dois dias antes. Segundo Betty, sua donzela, no recebeu de bom grau a notcia. 
Jamie respondeu com um rosnado, sem comprometer-se.
-Com Ellesmere -disse. Tinha as bochechas acendidas e os lbios apertados. 
-Te desejo a maior felicidade, milady. -Jamie a tirou brevemente das rdeas, pois tinham chegado ao final do plantio. 
-Felicidade! -exclamou ela, dando-se uma palmada na coxa com fasco de seus grandes olhos cinzas- Felicidade! Com um velho que poderia ser meu av? 
Jamie suspeitava que, quanto a ser feliz, as perspectivas do conde eram ainda mais limitadas do que as dela. Mas se limitou a murmurar: 
-Me perdoa, milady. -E se afastou para desenganchar o cilindro. 
Ela desmontou.
- um sujo negcio entre meu pai e Ellesmere! Meu pai me vendeu, simplesmente. Se ele se interessasse um pouquinho por mim no teria aceitado esta aliana. No parece 
terrvel que me utilizem assim? 
Pelo contrrio, Jamie pensava que lorde Dunsany, pai muito afetuoso, tinha feito a melhor aliana possvel para a malcriada de sua filha maior. O conde de Ellesmere 
era um ancio, sim. Era muito possvel que, em poucos anos, Geneva se convertesse numa viva jovem, sumamente rica e com um ttulo de condessa, por acrscimo.
-Estou seguro de que vosso pai tem sempre em conta o que mais vos convm, milady -respondeu inexpressivo. Por que no se ia de uma vez aquele pequeno demnio? 
Ela lhe cercou com sua expresso mais conquistadora, atrapalhando sua tarefa. 
-Mas me casar com esse velho seco! -observou- Meu pai no tem corao. -Ps-se nas pontas dos ps para olhar a Jamie- Quantos anos tens, MacKenzie? 
Por um instante ele se deteve o corao. 
-Muitssimos mais do que vos, milady -disse com firmeza- Com vossa permisso. -Passou ao seu lado como pde, sem toc-la, e subiu  carreta carregada de esterco, 
razoavelmente seguro de que ela no o seguiria at ali.
-Mas ainda no ests preparado para se aventurar, verdade, MacKenzie? -Agora tinha frente a si, tamapando os olhos com a mo para olhar para acima. Tinha levantado 
uma brisa que lhe agitava umas fibras de cabelo castanho- Teve esposa, Mackenzie? 
-Sim -respondeu ele num tom que no permitia mais indagaes. 
A lady Geneva no lhe interessava a sensibilidade alheia. 
-Bem -disse satisfeita- Ento sabe o que se faz. 
-O que se faz? -Ele deteve bruscamente a tarefa.
-Na cama -disse ela com acalma- Quero que te cases comigo. 
Num rpido momento, Jamie s teve uma ridicula viso da elegante lady Geneva, despatarrada no esterco da carreta com as saias cobrindo-lhe a cara. Deixou cair a 
p. 
-Aqui? -grasno. 
-Claro que no, tonto! Numa cama, como deve ser. Em meu dormitrio. 
-Perdeste a cabea -replicou Jamie friamente, pouco recuperado do golpe- Se  que alguma vez tivestes uma cabea a perder. 
Ela semicerrou os olhos. Ardiam-lhe as bochechas.
-Como se atreve a falar-me desse modo? 
-Como me atrevo a falar-me assim? -inquiriu Jamie acalorado- Uma jovenzinha de boa famlia fazendo propostas indecentes a um homem que tem o dobro de sua idade! 
A um cavalario de seu pai! -adicionou recordando sua posio. Depois fez um esforo por dominar a clera- Peo perdo, milady. O sol est muito forte e creio que 
te afetou o crebro. Deveria voltar imediatamente a casa e pedir a vossa donzela que vos ponha panos frios na cabea. 
Lady Geneva pulou ao solo com um p bem calado.
-Meu crebro funciona perfeitamente! -Fulminou com o olhar, levantando o queixo. Era pequena e abusada, se arreganhando com aquela expresso decidida lhe dava aspecto 
de uma meretriz sanguinria- Escuta-me: no posso impedir este horrvel casamento mas estou... -Depois de uma breve vacilao, continuou com firmeza-: Que me leve 
o demnio se entrego minha virgindade a um velho monstro depravado como Ellesmere! 
Jamie passou a mo pela boca. Contra sua vontade, sentia compaixo pela moa. 
-Compreendo bem a honra que me fazes, milady -disse por fim com ironia- mas na verdade no posso... 
-Sim que podes. -Ela posou abertamente os olhos em suas calas esfarrapadas- Betty assegura que sim.
-Betty no tem nenhuma base para tirar esse tipo de concluses. Nunca a toquei! 
Geneva riu, super feliz. 
-Assim que no a levou a tua cama? Ela disse que no quiseste, mas supus que a negava s por evitar uma surra. Alegro-me. No poderia compartilhar um homem com minha 
governanta. 
Jamie respirava com fora. Por desgraa, no podia estrangul-la nem despedaar-lhe a p na cabea. 
-Desejo bons dias, milady -disse com toda a cortesia possvel. E lhedeu as costas para continuar arrojando as remadas de esterco.
-Se no o fazes -disse ela com doura- direi ao meu pai que me fizeste propostas desonestas. Te far aoitar at te tirar a pele. 
Encolheu involuntariamente os ombros. No era possvel que a moa o soubesse. Voltou-se cautelosamente. Estava-o olhando com uma luz triunfal nos olhos. 
- possvel que vosso pai no me conhea bem -alegou-, mas ele te conhece desde que nascestes. Diz e que o diabo a leve! 
A jovem se ergueu como um galo de briga, vermelha de clera. 
- isso que  pensas? -exclamou- Pois bem, que o diabo te leve a ti!
Do peitilho de seu traje tirou uma gorda carta que agitou sob o nariz de Jamie. Ao momento, reconheceu a letra firme e negra de sua irm. 
- Me d isso! -Num segundo esteve no solo correndo atrs dela, mas a moa era muito veloz. Montou antes de que ele pudesse ating-la e voltou, com as rdeas numa 
mo e a carta na outra. 
-Queres? -Agitava-a zombadoramente. 
-A quero, sim! Me d! -Estava to furioso que teria podido atuar com violncia. 
-No, no creio. -Olhava-o com faceirice enquanto a clera desaparecia de sua expresso- Depois de tudo, minha obrigao  entregar isto a meu pai, verdade? Ele 
deveria inteirar-se de que seus criados mantm uma correspondncia clandestina. Essa Jenny  o seu amor?
-Lestes minha carta? Cachorra! 
- Que linguagem! -exclamou ela, mexendo a carta com ar de deboche- Minha obrigao  ajudar ao meus pais comunicando-lhes as coisas to horrveis que fazem seus 
serventes, no acha? Creio que a papai lhe interessar muito ler isto. Sobretudo o do ouro que  preciso enviar a Lochiel, a Frana. No se considera traidor a brindar 
consolo aos inimigos do rei? Quanta perversidade! -E estalou a lngua com ar malicioso. 
Jamie temeu descompor-se de terror ali mesmo. Sabia aquela moa quantas vidas pendiam de sua branca mo? Enguliu saliva uma, duas vezes, antes de poder falar. 
-Est bem -disse.
A cara da garota se iluminou com um sorriso mais natural, deixando ver a jovem que era. Claro que a mordida das vboras jovens era to venenosa como a das velhas. 
-Ningum saber -lhe assegurou ela com seriedade- Depois entregarei a carta e jamais direi o que continha. Te prometo. 
-Obrigado. -Jamie tratou de ordenar seus pensamentos para traar um plano sensato. Sensato? Entrar na casa de seu amo para desonrar a sua filha..., a pedido seu? 
Nunca tinha visto de uma perspectiva menos sensata. 
-Est bem -repetiu- Devemos ser cuidadosos. -Com uma surda sensao de horror, descobriu-se arrastado ao papel de conspirador.
-Sim. No te preocupes. Posso fazer que minha criada se ausente. E o lacaio bebe; dorme sempre antes das dez. 
-Bem, pensou em tudo -disse ele com um ndulo no estmago- Mas cuida de escolher um dia seguro. 
-Um dia seguro? -a moa o olhou sem compreender. 
-durante a semana seguinte ao seu perodo -disse ele sem rodeios- Ento ser menos provvel que fiques grvida. 
-Oh... -Tinha-se ruborizado, mas o olhava com renovado interesse- Te mandarei uma mensagem -disse por fim.
Voltou na sela e partiu aos galopes atravs do semeado. Os ps de sua gua iam levantando torres de esterco recm espalhado. 
Deslizou-se sob a fileira de alerces, amaldioando-se para dentro. No tinha lua, o qual era uma bno. Levantou os olhos para a casa, cuja bloco se erguia ante 
ele, escura e austero. Sim, ali estava a vela na janela, tal como ela tinha dito. Ainda assim contou as aberturas com cuidado, para verific-lo. Que o cu o protegesse 
se errasse de quarto. E que o cu o protegesse tambm se desse com o quarto correto, pensou lgubremente enquanto procurava apoio no tronco da enorme enredadera 
que cobria aquele lado da casa.
Chegou a pequena sacada ofegando, com o corao acelerado e coberto de suor, devido ao frio da noite. Ela tinha ouvido com clareza sua subida pela hera. Abandonando 
a cadeira na qual estava sentada, se aproximou com o queixo erguido e a cabeleira castanha solta sobre os ombros. Vestia uma camisola branca, de tela muito fina, 
atado no pescoo com um lao de seda. 
-Voc veio. 
Ele percebeu seu tom triunfal, mas tambm um leve estremecimento.Siginifica que no estava muito segura? 
-No tinha muitas alternativas -respondeu brevemente enquanto se voltava para fechar a janela.
-Quer um pouco de vinho? -Esforando-se por mostrar-se gentil, a moa se aproximou  mesa, onde tinha uma garrafa com duas taas. Ele se perguntou como teria conseguido. 
De qualquer modo, nessas circunstncias no lhe seria mal tomar uma taa. 
Enquanto tragava o vinho a observou dissimuladamente. Era delgada e de peitos pequenos, mas era uma mulher, sem dvida. Terminada a bebida, deixou a taa. No fazia 
sentido perder tempo. 
-A carta? -perguntou bruscamente. 
-Depois -disse ela, endurecendo a boca. 
-Agora. Se no, vou. -Jamie girou para a janela como se fora cumprir sua ameaa. 
-Espera!
Se voltou a olh-la com impacincia. 
-No confias em mim? -perguntou ela com fingido encanto. 
-No -foi a seca resposta. 
A moa o olhou zangada, projetando um lbio petulante, mas ele se limitou a observ-la acima do ombro, sem afastar-se da janela. 
-Oh, bom -disse ela por fim encolhendo-se de ombros. E tirou a carta de seu costureiro.
Ele a recolheu de imediato. Sentiu uma onda de fria misturada com alvio ao ver o selo violado e a letra familiar de Jenny, delicada e enrgica. 
-Ento? -a voz de Geneva, impaciente, interrompeu sua leitura- Deixa isso e vem aqui, Jamie. Estou esperando -anunciou sentando-se na cama. 
Ele lhe fincou uma olhada fria. 
-No me chames por esse nome -disse. 
-Por que?  o teu. Assim te chama tua irm. 
Jamie vacilou um momento; depois deixou deliberadamente a carta e baixou a cabea para a atadura de suas calas.
-Vos servirei devidamente -disse-, por minha honra de homem e pelo seu de mulher. Mas... -Levantou a cabea para fitar os olhos entornados- J que me trouxestes 
a sua cama mediante ameaas contra minha famlia, no permitirei que me chames com o nome que eles me do. 
Permanecia imvel, com os olhos fixos nela. Por fim a moa baixou os olhos  cama. 
-Como devo chamar-te, ento? -perguntou ao fim com voz dbil- No posso chamar-lo de MacKenzie! 
Ele suspirou. 
-Me Chame Alex.  meu segundo nome. 
Ela assentiu com a cabea. O cabelo lhe caiu para frente, cobrindo-lhe a cara, mas Jamie detectou o breve fulgor de seus olhos espionando por trs do cabelo.
-Est bem -grunhiu- Podes observar-me. 
Baixou as calas, tirando ao mesmo tempo as meias, e deixou dobrados sobre uma cadeira antes de comear a desabotuar a camisa, consciente de que a garota o olhava 
com certa timidez, mas sem se cubrir. Por pura considerao se voltou para ela antes de tirar a camisa, a fim de poupar-lhe o espetculo de suas costas. 
-Oh! -A exclamao foi suave mas bastou para det-lo. 
-O que aconteceu? 
-Oh, no... Isto ... No imaginava que... 
-Nunca viu um homem nu? -adivinhou ele. A cabeleira lustrosa se agitou afirmativamente.
-Sim -sussurou Geneva insegura-, s que... isso no estava... 
-Bom, geralmente no est assim -explicou ele calmamente sentando-se na cama- Mas para fazer amor tem que estar assim, compreende? 
-Compreendo. 
Mas ainda parecia duvidar. Ele tratou de sorrir. 
-No vou te preocupar. No crescer mais. E tambm no far nada estranho se quiser toc-lo.
Ao menos isso esperava ele. O fato de estar nu e to prximo de uma moa quase nua estava acabando com seu autodomnio. A sua traidora anatomia faminta lhe interessava 
no dando a mnima que ela fora uma meretriz egosta. Por sorte, talvez, ela recusou o oferecimento e se retirou um pouco para a parede, ainda que sem deixar de 
observ-lo. 
-Quando...? Isto , tens alguma idia como se faz? 
Ela ruborizou, ainda que seus olhos se mantinham claros e sem malcia. 
-Bom, como os cavalos, suponho.
Ele fez um gesto afirmativo, mas sentiu uma apunhalada de dor ao recordar que, em sua noite de casamento, ele tambm tinha suposto que seria como os cavalos. 
-Algo assim -confirmou pigarrreando- Mas mais lento. E mais suave -disse ao ver seu gesto apreensivo. 
-Ah, alegro-me. A ama e as criadas costumavam contar coisas de... os homens, casar-se e tudo isso. Dava um pouco de medo. -Enguliu saliva com dificuldade- Do... 
di muito? No importa, mas quero saber antes.
Jamie sentiu uma pequena e inesperada simpatia. O valor, para ele, era uma virtude. 
-Creio que no -disse-, se tomo o tempo necessrio para prepara-la. -Se  que podia tmoar esse tempo- Assim no ser muito pior do que um belisco. 
Apressou entre os dedos uma dobra do brao. Ela deu levou um susto e esfregou o lugar, mas sorria. 
-Isso posso suportar. 
-S di a primeira vez -ele lhe assegurou- A prxima ser melhor.
Ela assentiu. Depois de uma momentnea vacilao, se aproximou alongando um dedo. 
-Posso tocar-te? 
Jamie ameaou a rir, se apressou a sufocar a voz. 
-Creio que deves faz-lo, milady, para que eu possa fazer o que me pedes. 
Geneva lhe deslizou a mo pelo brao, lentamente e com tanta suavidade que lhe fez ccegas; j mais confiada, rodeou-lhe o antebrao com os dedos. 
-s muito... grande. 
Jamie sorriu, mas se manteve imvel, permitindo-lhe explorar seu corpo tanto como desejasse. Os dedos se detiveram junto  cicatriz que lhe sulcava a coxa esquerda.
-Tudo bem -lhe assegurou - J no me di. 
A jovem, sem responder, deslizou dois dedos ao longo da cicatriz sem exercer presso. As mos investigadoras se detiveram nas costas. Jamie, com os olhos fechados, 
esperava. Teve um suspiro trmulo e os dedos voltaram a tocar com suavidade suas costas destroadas. 
-E no tives medo quando disse que te faria aoitar? 
A voz soava estranhamente rouca. 
-No. J no me assusta quase nada. 
Em realidade, assustava-o pensar que, quando chegasse o momento, no poderia conter-se para trat-la com a devida delicadeza.
-Posso te tocar, milady? -As palavras soavam zombadoras, mas o contato no. Ela assentiu, sem alento, e se deixou abraar. 
Beijou-a suave, brevemente; depois, durante mais tempo. Sentiu-a tremer contra seu corpo enquanto lhe desatava o lao da camisola para desliz-lo desde os ombros. 
Depois a levantou para p-la na cama e se jogou ao seu lado, rodeando-a com um brao enquanto lhe acariciava os peitos. 
-O homem deveria pagar tributo ao vosso corpo -disse suavemente, excitando os mamilos com pequenos movimentos circulares- Porque  bela e esse  seu direito.
Geneva deixou escapar o alento num pequeno ofego e se relaxou sob suas mos. Ele se obrigou a atuar com lentido, acariciando, beijando-a, mal tocando-a. No lhe 
agradava aquela moa, no queria estar ali, no queria fazer isso, mas... fazia mais de trs anos que no tocava em uma mulher. 
Tratou de calcular quando estaria disposta, mas como podia sab-lo, se ela se limitava a ficar como uma pea de porcelana em exibio? No podia dar-lhe algum sinal, 
a maldita?
No, por suposto que no podia. Nunca at ento tinha tocado em um homem. Depois de t-lo obrigado, deixava todo o assunto em suas mos com uma abusiva e indesejada 
confiana. 
-Bom -lhe murmurou- estas quieta, mo chridhe. 
Entre susurros que pudessem soar-lhe reconfortantes, cobriu-a com seu corpo e usou o joelho para abrir-lhe as pernas. Sentiu um leve sobressalto ante o contato do 
pnis. Para seren-la envolveu as mos em sua cabeleira, sempre murmurando suavemente em galico. J no prestava nenhuma ateno ao que dizia. Os peitos pequenos 
e duros se lhe fincaram no torso.
-Mo nighean -sussurrou. 
-Espera-disse Geneva- Creio que... 
O esforo para domina-la deixou aturdido, mas se moveu com lentido, penetrando-a um pouquinho. 
-Ooh! -exclamou ela abrindo muito os olhos. 
-Ufa. -Jamie pressionou um pouco mais. 
-Basta! muito grande! Tire-o! 
Apavorada, Geneva se debateu sob ele. Se debatendo conseguindo pela fora o que ele tinha tratado de fazer com suavidade. Meio aturdido, fez o possvel para mant-la 
quieta enquanto procurava s cegas uma maneira de acalm-la. 
-Mas... 
-Basta!
-Eu... 
-Tire! -gritou ela. 
Tampou-lhe uma mo na boca e disse o nico coerente que lhe ocorreu: 
-No. -E empurrou. 
O que poderia ter sido um alarido emergiu entre seus dedos como um estrangulado "Ayayay!". Os olhos de Geneva se tornaram enormes e redondos, mas estavam secos. 
Naquele momento ele s era capaz de fazer uma coisa. E a fez; s fizeram falta uns poucos embates para que a onda se abatesse sobre ele, agitando-lhe a coluna de 
acima abaixo para acabar varrendo os ltimos restos de racionalidade.
Jamie recuperou a conscincia pouco depois, com o som de seu prprio corao nos ouvidos. Entreaberto numa s plpebra, vislumbrou a pele rosada  luz do lustre. 
Devia averiguar se a tinha feito sofrer muito, mas ainda no, por Deus. Fechou o olho outra vez e se limitou a respirar. 
Muito nervoso para consertar o absurdo da pergunta, Jamie respondeu com a verdade. 
-Perguntava-me por que demnios os homens querem deitar-se com mulheres virgens. 
Teve um longo silncio. 
-Eu sinto muito - sussurou ela- No sabia que a ti tambm doeria.
Ele abriu subitamente os olhos, atnito, e se incorporou sobre um cotovelo. Geneva o estava olhando como uma gazela assustada. 
-A mim? -repetiu estupefato- A mim no me doeu. 
Com o cenho franzido, ela lhe percorreu o corpo com uma olhada. 
-Pareceu que sim. Fez uma cara horrvel, como se sofresse muitssimo, e... gemeu como um... 
-Bom, sim -a interrompeu apressadamente para no escutar mais observaes pouco encantadoras sobre sua conduta- Mas isso no significa... Isto ... Assim fazem os 
homens quando... quando fazemos isso -concluiu sem muita convico.
O espanto da moa se estava dissolvendo em curiosidade. 
-Todos os homens fazem assim quando... quando fazem isso? 
-Como posso saber se...? -comeou ele, irritado. Mas se interrompeu ao compreender que, na verdade, conhecia a resposta- Sim, assim  -disse, sentando-se sobre a 
cama- Os homens so bestas horrveis e asquerosas, tal como vos dizia sua ama. Te machuquei muito? 
-No creio -duvidou ela- Doeu um momento, tal como voce disse, mas j passou. 
Lanou um suspiro de alvio ao ver que, o quanto a moa tinha sangrado, a mancha era pequena e no parecia dolorida. Ela se tocou entre as coxas e fez uma careta 
de asco.
-Ooh! -protestou- Isto  desagradavel e pegajoso! 
A Jamie lhe subiu o sangue  cara, numa mistura de indignao e rubor. 
-Toma -murmurou pegando um pano. 
A garota, em vez de peg-lo, abriu as pernas, arqueando um pouco as costas. Obviamente esperava que ele se ocupasse de limp-la. O escocs sentiu o forte impulso 
de fazer-la engulir mas se conteve ao dar uma olhada  carta. Tinham um acordo, depois de tudo, e ela tinha cumprido sua parte. 
Estava irritado quando comeou a lav-la, mas a confiana com que ela se lhe oferecia lhe resultou estranhamente comovedora. 
Levou a cabo o servio com bastante suavidade e, ao terminar, descobriu-se dando-lhe um beijo leve na curva do ventre.
-Pronto. 
-Obrigada. -A moa moveu os quadris, e alongou uma mo para toc-lo. Ele, sem mover-se, deixou-a brincar com seu umbigo. O leve toque desceu, vacilante- Disse... 
que a prxima vez seria melhor. 
Jamie fechou os olhos, respirando profundamente. Faltava muito para o amanhecer. 
-Creio que sim -disse. E uma vez mais se esticou ao seu lado. 
-Ja... eh... Alex?
Se sentia como se o tivessem drogado. Responder foi um esforo. 
-Milady? 
Ela lhe rodeou o pescoo com os braos e refugiou a cabea na curva de seu ombro, clido o alento contra seu peito. 
-Eu te quero, Alex. 
Jamie se espevitou o suficiente para afast-la. 
-No -disse mexendo a cabea- Essa  a terceira regra. No ter mais do que esta noite. No podes chamar-me por meu primeiro nome. E no podes me amar. 
Os olhos cinzas se umedeceram um pouco.
-E se no posso evit-lo? 
-No  amor o que sentes. -Oxal estivesse certo, tanto por seu prprio bem como pelo dela-  s a sensao que despertat em seu corpo.  forte e agradvel, mas 
no  amor. 
-Qual  a diferena? 
-O amor  para uma s pessoa. Isto, o que sentes por mim... podes sent-lo com qualquer homem; no  especial.
Uma s pessoa. Afastando com firmeza a recordao de Claire, voltou cansadamente ao seu trabalho. 
Aterrizou pesadamente na terra do canteiro, sem que lhe importasse achatar vrias plantas ternas. Estremeceu. A hora prvia do amanhecer no era s a mais escura, 
seno tambm a mais fria. Ainda sentia as formas da moa e a curva morna e rosada da bochecha que tinha beijado antes de partir.












CAPTULO 15
                             POR ACIDENTE
Helwater 
Janeiro de 1758
Quando a notcia chegou a Helwater o tempo era escuro e tormentoso. Tinha-se cancelado o treino da tarde por causa do denso aguaceiro, e os cavalos estavam comodamente 
abrigados em suas quadras. Jamie Fraser descansava num cmodo ninho de feno com um livro aberto apoiado no peito. 
Era um dos varios que tinha emprestado o senhor Grieves, capataz da propriedade, e lhe era apaixonante apesar  dificuldade de ler  escassa luz das janelinhas abertas 
sob o beiral. 
To absorto estava na leitura que, ao princpio, no ouviu as vozes afogadas pelo denso golpeear da chuva a pouca distncia de sua cabea.
-MacKenzie! 
O uivo repetido penetrou finalmente em sua conscincia. Levantou-se precipitadamente para dar uma olhada no palheiro. 
-Sim? 
Hughes estava abrindo a boca para dar outro grito, mas a fechou. 
-Ah, estavas a. -Fez-lhe sinal com uma mo reumtica. Quanto os ps de Jamie tocaram as lascas do solo, anunciou-: Deves ajudar a preparar o carro para lorde Dunsany 
e lady Isabel. Vo ir a Ellesmere.
O ancio se balanava de um modo alarmante, tratando de sufocar o soluo. 
-Agora? Ests louco, homem, ou s bbado? -Jamie deu uma olhada  porta, onde se via uma slida cortina de gua. Um sbito raio se ps no relevo da montanha. Sacudiu 
a cabea para aclarar a retina. Jeffries, o cocheiro, estava cruzando o ptio com a cabea inclinada pela fora do vento e da gua, coberto com a capa. Assim no 
era uma desvaneio de bbado. 
-Jeffries precisa ajuda com os cavalos! -Hughes teve que se aproximar e gritar para fazer-se ouvir acima da tormenta. A to curta distncia, o cheiro do lcool barato 
era repugnante.
-Sim, mas por que? Que motivos h para o lorde Dunsany...? Oh, que diabos... -desagradado Jamie subiu a escadinha de duas em duas. Envolveu-se em sua capa surrada 
e escondeu o livro sob o feno (os rapazes do ptio no sabiam respeitar a propriedade alheia). Por fim saiu no rugir da tormenta.
A viagem foi infernal. O vento uivava, sacudindo o enorme carro e ameaando com derrub-lo em qualquer momento. O capote era pouca proteo contra aquela chuva torrencial; 
tambm no servia de nada quando era preciso descer para liberar uma roda do barro. 
Apesar de tudo, Jamie mal reparava no incomodo fsico da viagem, preocupado como estava por suas possveis razes. No tinha muitos assuntos to urgentes como para 
obrigar ao ancio lorde Dunsany a sair num dia assim, muito menos pelo caminho cheio de abaixamentos que levava a Ellesmere. Sem dvida tinha recebido alguma notcia, 
que s podia referir-se a lady Geneva ou  criana.
Soube, pelas fofocas dos criados, que lady Geneva daria a luz em janeiro, Jamie tinha feito um rpido clculo. Depois de amaldioar  moa uma vez mais, rezou por 
um parto sem perigo. Desde ento fazia o possvel para no pensar no assunto. Tinha estado com ela nem mal trs dias antes do casamento; no podia estar seguro. 
Lady Dunsany estava em Ellesmere com sua filha fazia uma semana. Todos os dias enviava algum mensageiro para que lhe levassem as milhares de coisas que tinha esquecido 
e precisava de imediato. Cada um deles informava, a sua chegada: "Ainda no h novidades." 
Agora tinha novidades e, obviamente, eram ms.
Ao passar junto ao carro, depois do ltimo rebate com o lodo, viu a lady Isabel aparecendo  janela. 
-Oh, MacKenzie! -disse com a cara contrada pelo medo e a aflio- Falta muito, por favor? 
-Jeffrey diz que ainda faltam seis quilmetros, milady! Duas horas, talvez. -Sempre que aquele maldito carro no rebatesse, lanando seus indefesos passageiros s 
guas de Watendlath Tarn, disse silenciosamente para si mesmo. 
Isabel lhe agradeceu com uma inclinao de cabea e baixou a janela, mas ele teve tempo de ver que suas bochechas estavam to midas pela chuva como pelas lgrimas.
Passaram cerca de trs horas antes de que a carruagem entrasse, por fim, ao ptio de Ellesmere. Lorde Dunsany desceu de um salto, sem vacilar, e mal se deteve para 
oferecer o brao a sua filha menor antes de entrar apressadamente. 
Demoraram quase uma hora mais para livrar-se da junta, escovar os cavalos, lavar o barro aderido s rodas do carro e met-lo tudo nos estbulos de Ellesmere. Dormentes 
de frio, fadiga e fome, Jamie e Jeffries procuraram refgio e sustento nas cozinhas da casa. 
-Pobres homens, esto azuis de frio -observou a cozinheira- Sentam aqui, que logo terei pronto um prato quente.
Sua figura magra no fazia honra a sua destreza, pois em poucos minutos ps ante eles uma enorme e saborosa omelete, guarnecida com grande quantidade de po, banha 
e um pequeno frasco de gelia. 
-Gostoso, muito gostoso -opinou Jeffries, dando uma olhada apreciando. Depois piscou um olho  cozinheira-: Claro que desceria com mais facilidade se tivesse uma 
taa para suavizar o caminho, certo? Voce parece capaz de ser misericordiosa com um par de amostras congelados, no  assim, querida?
Fora por este exemplo de persuaso irlandesa ou pelo aspecto de suas roupas esfarrapadas, o argumento sortiu efeito: uma garrafa de conhaque para cozinhar fez sua 
apario junto ao pimenteiro. Jeffries se serviu em um bom trago e o bebeu sem vacilar, lambendo os lbios. 
- Ah, assim est melhor! Toma, homem. -Depois de passar a garrafa a Jamie, instalou-se comodamente para desfrutar a comida e do mexerico com as criadas- Bom, que 
novidades h? J nasceu o beb? 
- Oh, sim, ontem  noite! -disse ansiosa- Passamos toda a noite acordados, com o mdico pedindo lenis e toalhas, e a casa de pernas para o ar.Mas o beb  o de 
menos!
-Bom, bom -interveio a cozinheira franzindo o cenho- H muito a fazer para estar fofocando, Mary Ann. V  ao escritrio e averigua se Seu Senhor quer que sirvamos 
algo. 
Uma vez tendo a ateno completa de seu pblico, a cozinheira se recobrou antes de revelar as notcias. 
-Tudo comeou faz alguns meses, quando lady Geneva comeou a engordar, pobrezinha. Seu Senhor era meloso e amvel com ela; desde o casamento lhe dava todos os gostos. 
Mas quando se soube de que ia ter um filho...!
A cozinheira fez uma pausa para fazer um gesto portentoso. Jamie estava desesperado por perguntar como estava a criana e de que sexo era, mas no tinha modo de 
meter pressa quela mulher, de maneira que fingiu estar interessado. 
-Aos gritos e brigas! -continuou, alando as mos com horror- Ele gritava, ela chorava e os dois golpeavam as portas. Seu Senhor lhe dizia palavras que no se usam 
nem num estbulo. Por isso eu disse a Mary Ann... 
-Mas, Seu Senhor no se alegrou pelo filho? -interrompeu Jamie. A omelete lhe estava engasgando. Bebeu outro pouco de conhaque com a esperana de faz-la baixar.
A cozinheira voltou para ele com um olho de pssaro, levantando uma sobrancelha. 
-Qualquer um se alegraria, certo? Pois no! Muito ao invs! 
-Por que? -inquiriu Jeffries, no muito interessado. 
A cozinheira baixou a voz, abrumada pelo escandaloso de sua informao. 
-Disse que a criana no era sua. 
Jeffries, que j ia pela segunda taa, ofegou com desdm: 
-Um velho com uma potrilho? Parece-me muito provvel, mas como Sua Senhoria soube de quem era o feto? Tanto podia ser dele como de qualquer um, no?
A cozinheira fez um sorriso brilhante e malicioso. 
-Oh, no sei se ele sabia de quem era, mas... h s uma maneira de saber que no era seu, verdade? 
Jeffries a olhou fixamente, jogando-se para trs. 
-Que? -exclamou- Ests me dizendo que Seu Senhor  impotente? 
-Bom, a mim no me consta, claro. -Os lbios da mulher assumiram uma linha puritana, mas de imediato se esticaram para adicionar-: Ainda que a criada diz que os 
lenis que tirou do leito nupcial estavam to brancas como quando as ps. 
Aquilo era demais. Interrompendo as gargalhadas de Jeffries, Jamie deixou sua taa com um golpe seco.
A criana nasceu bem? -perguntou sem rodeios. 
-Oh, sim.  um menino so e formoso, segundo dizem. Pensei que j sabias.  a me a que morreu. 
To brusca revelao deixou a cozinha em silncio. At Jeffries ficou mudo por um momento, intimidado pela morte. Depois se se benzeu de pressa, murmurando: 
-Que Deus a tenha em Sua Glria. -E enguliu o resto do conhaque. 
A Jamie lhe ardia a garganta, tanto pelo lcool ou pelas lgrimas. A surpresa e a dor o sufocavam com uma bola de estopa na garganta. 
-Quando? -perguntou.
-Esta manh -disse a cozinheira mexendo positivamente a cabea- Antes do meio dia, pobrezinha. Durante um momento pareceu estar muito bem, depois de nascer o beb. 
Diz Mary Ann que estava sentada com o pequeno em braos e que ria. -Suspirou longamente- Perto do amanhecer comeou a sangrar. Chamaram de novo ao mdico, mas... 
Interroupeu-a o rudo da porta ao abrir-se. Era Mary Ann com os olhos dilatados, ofegante pelos nervos e as pressas. 
-Vosso amo vos chama! -balbuciou olhando a Jamie e ao cocheiro-. Aos dois, de imediato! E... oh, senhor... -Enguliu saliva, dirigindo-se a Jeffries-: Diz que leve 
suas pistolas, pelo amor de Deus.
O cocheiro trocou com Jamie uma olhada de consternao. Depois se levantou de um pulo e saiu disparado para os estbulos. 
Demoraria uns poucos minutos em procurar as armas e comprovar que o mau tempo no havia estado. Jamie se ps de p, pegando por um brao  balbuceante criada. 
-Indica-me onde est o escritrio -ordenou- Rpido! 
Uma vez no andar superior poderia ter-se guiado pelas vozes. Deteve-se frente  porta, duvidando entre entrar ou esperar a Jeffries.
-Como tens o descaro de fazer semelhantes acusaes! -estava dizendo Dunsany, estremecida a voz de velho pela ira e a aflio- Quando minha pobre menina ainda no 
se esfriou no leito! Covarde! Canalha! No vou permitir que essa criana passe uma s noite sob vosso teto! 
-Esse pequeno bastardo fica aqui! -clamou a voz rouca de Ellesmere. Qualquer teria podido ver que Seu Senhor estava muito afetado pela bebida- Por bastardo que seja, 
 meu herdeiro e fica comigo. Comprei-o e pago. E se sua me era uma rameira, ao menos me deu um varo.
-Maldito seja! -a voz de Dunsany tinha atingido um tom to agudo que era quase um grito- Que o comprastes? Vos... vos... atreves a sugerir...? 
-No sugiro nada. -Ellesmere seguia rouco mas se dominava melhor- Vendestes a vossa filha... Paguei trinta mil libras por uma virgem de boa famlia. A primeira condio 
no foi satisfeita e me permito duvidar da segunda. 
Ouviu-se um gorgoteio. 
-Parece-me que seu nvel de licor est excessivo, senhor -observou Dunsany. Sua voz tremia pelo esforo de dominar as emoes- S a vossa evidente intoxicao posso 
atribuir as repugnantes calnias que arrojaste sobre a pureza de minha filha. Sendo assim, me irei com meu neto.
-Ah, vosso neto, eh? -balbuciou Ellesmere- Parece muito seguro da "pureza" de vossa filha. Estas seguro de que o menino no  vosso? Porque ela disse... 
Interrompeu-se com um grito estupefato, seguido de um estrondo. Jamie no se atreveu a esperar mais. Ao irromper na habitao encontrou  Ellesmere e a lorde Dunsany 
enredados no tapete, rodando de um lado a outro. 
Depois de avaliar a situao, meteu-se na briga para ajudar o seu padro. 
-Fique quieto, milord -murmurou ao ouvido de Dunsany, afastando-o da silhueta ofegante de Ellesmere-. Quieto, velho tonto! -disse, vendo que Dunsany forava para 
lanar-se contra seu adversrio.
O conde tinha quase a mesma idade que Dunsany, mas era mais forte e, obviamente, gozava de melhor sade, apesar de sua embriaguez. Ps-se em p cambaleando, com 
o escasso cabelo revolto e os olhos injetados em sangue. 
-Lixo -disse quase em tom coloquial- Como me... levantas a mo. 
E se lanou para a campainha, ainda ofegando. 
No estava muito claro que lorde Dunsany pudesse manter-se em p, mas no tinha tempo para preocupar-se por isso. Jamie soltou o seu chefe para segurar a mo de 
Ellesmere.
-No, milord -disse com todo o respeito possvel. Segurou num abrao de urso, obrigando-o a retroceder- Creio que seria... muito imprudente... envolver o vossos 
servos. 
Com um rosnado, empurrou ao conde para um cadeiro. 
-Ser melhor que no movas daqui, milord. -Jeffries, com uma pistola em cada mo avanou cautelosamente, dividindo sua ateno entre Ellesmere, que se esforava 
para levantar-se da poltrona, e lorde Dunsany, apoiado numa mesa, branco como o papel. 
Olhou ao seu chefe para pedir instrues e, como no lhe deram nenhuma, voltou-se instintivamente para Jamie. O escocs deu um passo adiante e pegou a Dunsany pelo 
brao. 
-Vamos, milord -disse.
Se aproximou ao ancio e tratou de ajudar-lhe a chegar  porta. Mas a sada estava bloqueada. 
-William? -Lady Dunsany, com a expresso inchada pela dor que sentia, ficou desconcertada ante a cena. Em seus braos trazia algo parecido a um vulto de roupa lavada. 
Levantou-o com um gesto de vazia interrogao- Mandaste  criada me dizer que trouxesse ao beb. Que...? 
Interroupeu-a um rugido de Ellesmere: 
- meu! -Empurrando  senhora contra a parede, arrebatou-lhe o vulto nos braos e, apertando-o contra seu peito, recuou at a janela. Ofegava como um animal incurralado- 
Meu, me ouviu?
O vulto soltou um grito de protesto. Dunsany, arrancado de seu estupor, avanou com as feies contradas pela fria. 
- Entrega-me! 
-V para o inferno, imbecil! 
Com imprevisvel agilidade, Ellesmere esquivou a Dunsany e abriu a janela com uma s mo, enquanto sujeitava ao menino com a outra.
-Sa... de... minha... casa! -ofegou o conde- Saiam agora mesmo se no quer que eu atire este pequeno bastardo! Juro que atirarei! -Para confirmar sua ameaa, aproximou 
o vulto  janela. Mais nove metros abaixo esperavam o pavimento do ptio.
Jamie Fraser, movido pelo instinto que lhe tinha feito sobreviver a dez ou doze batalhas, pegou uma pistola do petrificado Jeffries, girou sobre seus calcanhares 
e disparou. 
O rugido do disparo deixou mudo a todos; inclusive o menino deixou de uivar. Ellesmere ficou inexpressivo, com as sobrancelhas arregaladas num gesto interrogante. 
Depois cambaleou. Jamie deu um pulo e ficou parado no meio do tapete, sem prestar ateno ao fogo que lhe chamuscava as calas, nem ao corpo de Ellesmere estendido 
ao seus ps, nem aos histricos gritos de lady Dunsany. Tremia como uma folha, sem poder mover-se nem pensar, estreitando entre os braos o vulto que tinha seu filho. 
-Quero falar com Mackenzie. A ss.
Lady Dunsany parecia estar fora de lugar no estbulo. Mida, rechonchuda e de um luto impecvel, parecia um enfeite. Hughes lhe deu uma olhada de assombro. Depois 
lhe fez uma reverncia e se retirou a sua guarita, deixando-a frente a frente com o escocs. 
Jamie se sentiu na obrigao de convid-la a sentar-se, mas ali no tinha assento algum exceto um fardo de feno.

-Esta manh reuniu-se o tribunal, MacKenzie -disse ela.
-Sim, milady. -Todos sabiam. Jeffries tinha presenciado o ocorrido no salo de Ellesmere; portanto, a servido inteira estava inteirada. Mas ningum falava do assunto. 
-O veredito do tribunal foi que o conde de Ellesmere morreu por acidente. Segundo o juiz, Sua Senhoria estava... alterado pelo falecimento de minha filha. -Fez um 
leve som de desgosto. Sua voz tremia, mas sem quebrar-se; a frgil lady Dunsany suportava a tragdia muito melhor do que seu marido.
-Sim, milady? 
Jeffries tinha sido chamado a prestar depoimento. MacKenzie no, como se nunca tivesse pisado a casa de Ellesmere. 
Lady Dunsany o olhou nos olhos. 
-Estamos agradecidos, MacKenzie -disse baixinho. 
-Obrigado, senhora. 
-Muito agradecidos -repetiu sem deixar de olh-lo com intensidade- Vosso verdadeiro nome no  MacKenzie, verdade? -disse de repente.  
-No, milady. -Percorreu-lhe um arrepio apesar do sol. Que teria revelado lady Geneva a sua me antes de morrer? 
Ela pareceu perceber sua rigidez, pois curvou a boca em algo que parecia ser um sorriso tranqilizador. 
-Creio que, pelo momento, no preciso perguntar qual  -disse-. Mas h uma pergunta que desejo fazer. Queres voltar a casa? 
-A casa? -repetiu. 
-A Esccia. -Observava-o com ateno- Sei quem s ainda que ignore vosso nome. s um dos prisioneiros jacobitas de John. Meu esposo me disse.
Jamie a observou com desconfiana, mas para ser uma mulher que acabava de perder uma filha e ganhar um neto, no parecia alterada. 
-Confio que perdoes o engano, milady -murmurou- Seu Senhor... 
-Queria poupar-me uma preocupao -concluiu a senhora- Sim, sei. William se preocupa demais. -Suspirou com devoo conjugal- Pelos comentrios de Ellesmere voce 
percebeu de que no somos ricos. Helwater est muito endividada. No entanto, meu neto  agora possuidor de uma das maiores fortunas do condado.
Para isso no parecia ter resposta alguma, exceto: "Sim, milady?" 
-Aqui levamos uma vida muito recuada -prosseguiu- Rara vez vamos a Londres e meu esposo tem pouca influncia nas altas esferas. Mas... 
-Sim, milady? 
-John, John Grey prove de uma famlia muito influente. Seu padrasto ... bom, isso no tem importncia. -Encolheu-se de ombros- O fato  que seria possvel falar 
em vosso favor para que o deixe em liberdade e possa voltar A Esccia. Por isso vim perguntar: quer voltar A Esccia, MacKenzie?  
Jamie ficou sem ar, como se tivessem golpeado no estmago. 
Voltar A Esccia. Deixar de ser um estrangeiro. Deixar atrs a hostilidade, voltar A Lallybroch, ver o rosto de sua irm iluminado de prazer ao v-lo. Sentir seus 
braos rodeando-lhe a cintura, os de Ian nos ombros e os meninos ao redor. 
Ir para longe e no saber nada mais de seu filho. 
O dia anterior tinha visto ao menino dormindo num cesto junto a uma janela do andar superior. Subiu ao ramo de uma grande rvore, Jamie tinha forado os olhos para 
poder distingu-lo. A cara do menino era visvel s de perfil; tinha uma bochecha apoiada no ombro. O gorro estava torto deixando ver a curva da cabea, coroada 
por uma pele muito clara.
"No  ruivo, graas a Deus", foi seu primeiro pensamento. E se benzeu. " um menino forte. Forte, robusto e bonito. Mas era pequeno, Deus meu!" 
Lady Dunsany esperava com pacincia. Ele inclinou respeitosamente a cabea. Talvez ia cometer um terrvel engano mas no podia atuar de outro modo. 
-Eu agradeo, milady, mas..., creio que no me irei... por agora. 
Lady Dunsany assentiu sem se alterar. 
-Como preferir, MacKenzie. No tens mais que pedir. 
Girou de volta, como um carrilho, e o deixou para voltar a seu mundo. 
Helwater era agora sua priso, mil vezes mais do que antes.



















CAPTULO 16
Willie

Para sua grande surpresa, os anos seguintes foram, em muitos aspectos, os mais felizes na vida de Jamie Fraser, excetuando o seu matrimnio. Tinha comida e roupa 
suficiente com que se manter quente e decente; alguma discreta carta ocasional, enviada das Terras Altas de Esccia, tranqilizava-o comunicando-lhe que ali viviam 
em condies similares. 
Um inesperado benefcio da sossegada vida de Helwater era que, de algum modo, tinha retomado sua estranha amizade com lorde John Grey. Tal como tinha prometido, 
o comandante se apresentava cada trs meses a visitar aos Dunsany mas no tinha feito tentativa alguma de aproveitar-se a seu favor, nem sequer de falar com Jamie, 
alm de um superficial interrogatrio formal.
Muito lentamente, Jamie foi compreendendo tudo o que lady Dunsany lhe tinha dado a entender com seu oferecimento de liberdade. "John, John Grey, prova de uma famlia 
muito influente. Seu padrasto ... bom, isso no tem importncia", tinha dito. Mas tinha importncia, sim. No era por desejo de Sua Majestade que o tinham levado 
quela casa em vez de conden-lo  perigosa viagem atravs do oceano e  vida de escravo na Amrica, seno por influncia de John Grey. E ele no tinha decidido 
por vingana nem por motivos indecentes, na verdade porque era o melhor que ele podia fazer; na impossibilidade de liber-lo, fez o que estava ao seu alcance para 
aliviar as condies de seu cativeiro, brindando-lhe ar, luz e cavalos.
Lhe custou algum esforo, mas o fez. Quando Grey apareceu novamente no ptio do estbulo para sua visita trimestral, Jamie esperou at encontr-lo a ss. Grey estava 
apoiado na cerca, admirando um grande alazo castrado. Ambos o observaram em silncio durante um momento. 
-Peo do rei a rei quatro -disse Jamie baixinho, sem olh-lo. 
Notou o sobressalto de Grey e sentiu seus olhos fitados nele, mas no voltou a cabea. Depois ouviu o rangido da madeira sob seu brao. 
-Cavalo da rainha a Bispo da rainha trs -respondeu o comandante com voz pouco mais rouca do que de costume.
Desde ento, em cada visita ia aos estbulos para passar a noite conversando com Jamie em seu tosco banco. No tinham tabuleiro de xadrez e rara vez jogavam verbalmente, 
mas as conversas noturnas continuavam; eram o nico vnculo de Jamie com o mundo exterior a Helwater e um pequeno prazer que ambos esperavam com ansiedade. 
Alm mais, tinha a Willie. Helwater estava dedicado aos cavalos; antes de que o menino pudesse manter-se em p com firmeza, o av o sentou em um ponei para passe-lo 
ao redor do pasto. AOS trs anos j montava sozinho... sob a vigilante olhada de MacKenzie, o homem do estbulo.
Willie era um menino forte, valente e formoso. Tinha um sorriso resplandecente e encanto de sobra. Tambm estava muito malcriado. Como o conde de Ellesmere  o nico 
herdeiro desse condado e de Helwater, sem pais que o mantivessem a risca, fazia sua vontade com os avs, a jovem tia e todos os serventes da casa... exceto a MacKenzie. 
E isso, ainda quando andava de gatas. Pelo momento, a Jamie lhe bastava com a ameaa de no lhe permitir ajuda no estbulo para sufocar seus caprichos mas no seria 
suficiente. MacKenzie, o cavalario, perguntava-se quando iria perder a calma e dar-lhe um cascudo, quele pequeno diabinho.
Ainda assim, Willie era sua alegria. O garoto o adorava e passava horas inteiras em sua companhia, montado nos enormes cavalos que atiravam do rolo ou nas carretas 
de feno. No entanto, tinha algo que ameaava aquela aprazvel existncia e crescia ms a ms. Ironicamente, o perigo provia do mesmo Willie e no tinha remdio. 
-Que formoso menino! E monta bem! -era lady Grozier quem falava, junto a lady Dunsany, enquanto admirava as peregrinaes de Willie pelo pasto a trotes em seu ponei.
A av riu, observando o pequeno com afeto. 
-Oh, sim, adora o seu ponei. Custa-nos horrores conseguir que ele entre a comer. E est ainda mais apegado com seu cavalario. 
As vezes comentamos que, a poder de passar tanto tempo com MacKenzie, at comea a parecer-se com ele. 
Lady Grozier, que no tinha prestado nenhuma ateno ao cavalario deu uma olhada a Mackenzie. 
-Caramba, tens razo! -exclamou muito divertida- Olha: os dois inclinando a cabea de igual modo e tm a mesma queda de ombros. Que curioso!
Jamie se inclinou respeitosamente ante as damas, mas sentiu um suor frio na cara. Ainda no havia acreditado que a semelhana fora visvel para os demais. 
Uma vez que as senhoras entraram na casa, seguro de que ningum o observava, Jamie passou uma mo furtiva pelas feies. O quanto era parecido? Willie tinha o cabelo 
de um suave tom castanho e as orelhas grandes e translcidas... as suas no sobressaam assim.
O problema era que Jamie Fraser levava vrios anos sem se ver com clareza. Os cavalarios no tinham espelhos e ele evitava o tratar com as criadas, que teriam podido 
proporcionar-lhe um. Aproximou-se ao bebedouro, como se fora vistoriar as aranhas aquticas, e enguliu saliva. O parecido no era completo, mas indubitavelmente 
existia. Na postura, na forma da cabea e nos ombros, tal como lady Grozier tinha observado, mas tambm nos olhos. Eram os olhos dos Fraser: os de Brian, os de seu 
pai e tambm os de sua irm Jenny. Se os ossos do menino seguiam pressionando a pele, se seu nariz crescia longo e reto e os pmulos continuavam alargando-se... 
qualquer o notaria.
Tinha chegado o momento de falar com lady Dunsany. 
Para o meio de setembro tudo estava pronto. John Grey tinha trazido o perdo. Jamie tinha uma pequena quantidade de dinheiro poupado, suficiente para cobrir os gastos 
da viagem, e lady Dunsany lhe tinha dado um cavalo decente. S faltava despedir-se dos habitantes de Helwater... e de Willie. 
-Amanh me irei -disse Jamie como de passagem, com a vista fincada na crina da gua. 
-Onde vais? A Derwentwater? Posso ir contigo? -William, visconde de Dunsany, nono conde de Ellesmere, se jogou da parede, aterrizando com um rudo que assustou  
gua.
-No faa isso -disse Jamie- J no disse que no podes fazer rudo na cerca de Milly?  muito assustada. 
-Porqu? 
-Voce tambm ficar assustado se eu espremer o seu joelho. -Disparou uma mo para beliscar a perna do menino. Willie lanou um grito e se jogou para trs, rindo. 
-Posso montar a Millyflower quando tiver terminado, Mac? 
-No -respondeu Jamie com pacincia pela dcima segunda vez- J disse mil vezes:  muito grande para voce. 
-Mas eu quero mont-la! 
Jamie suspirou sem responder. 
-Disse que quero montar a Milly!
-Eu j ouvi. 
-Bom, posso selar! Agora mesmo! 
O nono conde de Ellesmere tinha erguido o queixo com desafio em seus olhos se ofuscou ao observar o frio olhar de Jamie. O escocs baixou lentamente o capacete da 
gua, incorporou-se com a mesma lentido e, com seu metro e noventa de estatura, olhou ao conde, de s uns trinta e cinco. 
-No -repetiu com muita suavidade. 
-Sim! -Willie erperneou no feno- Tens que fazer o que eu mando! 
-No tenho que fazer. -Claro que sim! 
-No, eu... -Jamie apertou os lbios e se ps em crcoras- Escuta: eu no tenho que fazer o que mandas, porque j no sou um cavalario. Amanh me irei. 
Willie palideceu de horror.
-No! No podes ir. 
- preciso.
-No! -O pequeno conde apertou os dentes num gesto herdado de seu bisav paterno. Jamie agradeceu ao cu que ningum em Helwater tivesse conhecido a Simon Fraser- 
No te deixarei ir! 
-Por uma vez na vida, milord, no tens nenhuma autoridade sobre mim -replicou Jamie com firmeza. 
-Se for... -Willie procurou uma ameaa e encontrou uma muito a mo- Se for -repetiu com mais segurana-, gritarei para espantar todos os cavalos. 
-Solta um s grito, pequeno demnio, e te darei uma boa. -Livre j de sua reserva habitual e alarmado pela perspectiva de que aquele malcriado alvoroasse aos sensveis 
e valiosos animais, Jamie fulminou ao menino com uma olhada.
O conde dilatou os olhos de ira e se ps vermelho. Depois de respirar fundo, comeou a correr por todo o estbulo enquanto gritava e agitava os braos, soltando 
todas as palavras de seu variado repertrio. 
Millyflower se encabritou, relinchando com fora, seguida pelas patadas e os relinchos do resto dos cavalos. 
Jamie conseguiu segurar a Milly e, com bastante esforo, tirou-o sem danos para ele nem para a gua. Depois de amarr-la perto, voltou ao estbulo para ocupar-se 
de Willie. 
-Merda, merda, merda! -estava gritando o conde- Foda-se!
Sem dizer nada, Jamie o segurou pelo pescoo da camisa e o levou desiquilibrado, esperneando e debatendo-se, at o banco que tinha estado. Ali se sentou, com o conde 
sobre os joelhos, e lhe deu cinco ou seis surras no traseiro. Depois levantou bruscamente ao menino e o ps em p. 
-Te odeio! -O rosto manchado de lgrimas estava muito vermelho; seus punhos tremiam de ira. 
-Bom, eu tambm no te quero muito, pequeno bastardo! -lhe espetou Jamie. 
Willie se ergueu em toda sua estatura apertando os punhos. 
-No sou nenhum bastardo! -gritou- Retira isso! Ningum pode me dizer isso!Retira-o, eu j disse!
Jamie o olhou com espanto. Isso significava que corriam rumores que Willie os conhecia. Tinha atrasado demais sua partida. 
-Retiro -disse suavemente- No devia usar essa palavra, milord. Queria ajoelhar-se para abraar ao menino e consol-lo mas esse no era gesto que um cavalario pudesse 
ter com um conde, por mais jovem que fosse. Ardia-lhe a palma da mo esquerda. 
Willie, que sabia como deve comportar-se um conde, estava fazendo um grande esforo por dominar as lgrimas, sorvendo ferozmente pelos narizes e limpando-se a cara 
com a manga. 
-Permita-me, milord. -Jamie se ajoelhou para enxugar a cara com seu leno. Willie o olhou com os olhos enrrojecidos e melanclicos. 
-Tens mesmo que te ir, Mac? -perguntou com voz muito dbil.
-Sim. -Olhou os olhos de cor azul escuro, to parecidos aos seus. De repente deixou de importar-lhe que fora correto ou no, ou quem pudesse v-los, e espremeu o 
menino contra o seu corao, apertando-lhe a cara contra o ombro para que no visse as lgrimas que derramava sobre o cabelo espesso e suave. 
Willie lhe rodeou o pescoo com os braos e apertou com fora, sacudido pelos soluos. Jamie lhe deu umas palmadinhas nas costas e lhe alisou o cabelo, murmurando 
palavras galicas que, com um pouco de sorte, o menino no compreenderia. 
-Acompanha-me a meu quarto, Willie; quero dar-te algo.
Parte da cama, o banquinho e a bacia, tinha uma mesinha com seus poucos livros, uma vela grande e uma menor, gorda e curta, posta ante uma pequena esttua da Virgem. 
-Para que  a vela pequena? -perguntou Willie- A av diz que s esses repugnantes catlicos acendem velas frente a imagens pags. 
-Bom, eu sou um repugnante catlico -disse Jamie com um gesto irnico- Mas esta no  uma imagem pag, era uma esttua da Santa Me. 
- mesmo? -Pelo visto, a revelao no fazia seno aumentar a fascinao do menino- E por que os catlicos acendem velas ante as esttuas? 
Jamie passou uma mo pelo cabelo.
-Bom, ... uma maneira de orar... e de recordar. Acender uma vela e dizer uma orao pensando em teus seres queridos. E a chama, enquanto arde, recorda-os por ti. 
-Em quem pensas? 
-Oh, em muitas pessoas. Em minha famlia das Terras Altas: minha irm. Em amigos. Em minha esposa. -As vezes a vela ardia em memria de uma jovem atrevida chamada 
Geneva, mas no disse. 
Willie franziu o cenho. 
-Mas no tens esposa! 
-No, agora no. Mas sempre a recordo. 
O menino alongou o ndicador para tocar a estatueta com cautela.
-Eu tambm quero ser um repugnante catlico -disse com firmeza. 
-No pode! -exclamou Jamie satisfeito e comovido pela idia- Tua av e tua tia ficariam furiosas. 
-Mas eu quero ser! -As feies pequenas e ntidas expressavam deciso- No direi nada  av nem a tia Isabel. No direi a ningum. Por favor, Mac, deixa-me! Quero 
ser como voce! 
Jamie vacilou. De repente desejava deixar ao seu filho algo mais do que o cavalo que tinha coberto em madeira como presente de despedida. Tratou de recordar o que 
o pai McMurtry lhe tinha ensinado na escola sobre o batismo; os laicos podiam administr-lo em caso de emergncia, a falta de um sacerdote.
Os olhos, parecidos aos seus, observavam-no grandes e solenes. Afundou trs dedos na gua da jarra e traou uma cruz na testa do menino. 
-Eu te batizo William James -disse suavemente-, no nome do Pai, do Filho e do Esprito Santo. Amm. 
Willie piscou, piscando ante a gota de gua que lhe rodava pelo nariz. Jamie riu a seu pesar ao ver que tirava a lngua para apres-la. 
-Por que me chamou William James? -perguntou com curiosidade- Meus outros nomes so Clarence Henry George. -Fez uma careta; Clarence no lhe agradava. 
Jamie dissimulou um sorriso.
-Quando te batizam recebes um nome novo. James  teu nome catlico especial. Eu tambm me chamo assim. 
- mesmo? -Willie estava super feliz- Agora sou um repugnante catlico, como voce? 
-Sim. -Obedecendo a outro impulso, o escocs afundou a mo sob o pescoo da camisa- Toma. Conserva isto tambm como recordao minha. -E pendurou suavemente o rosrio 
que tinha no pescoo a Willie- Mas no mostre a ningum. E por Deus, no lhe diga a ningum que s catlico. 
-A ningum no mundo -prometeu Willie. Escondeu o rosrio sob sua camisa e lhe deu umas palmadinhas para assegurar-se de que estava bem escondido.
-Bem. -Jamie lhe bagunou o cabelo- J  quase a hora do ch. Ser melhor que voltes a casa. 
Willie comeou a andar para a porta mas se deteve no meio caminho, subitamente preocupado. 
-Disse-me que conservasse isto como recordao tua. Mas eu no posso dar nada para que me recorde! 
Jamie esboou um sorriso. Tinha o corao to oprimido que no acreditou poder falar, mas se obrigou a faz-lo: 
-No te aflijas -disse-. No te esquecerei.




















CAPITULO 17

SURGEM OS MOSNTROS

Loch Ness 
Agosto de 1968

Brianna piscou, afastando uma mecha do cabelo bagunado pelo vento. 
-Quase tinha esquecido como era o sol -disse olhando com os olhos entornados o astro em questo, que brilhava com desacostumado fulgor nas guas escuras do lago 
Ness. 
Sua me se espreguiou com prazer, desfrutando a brisa. 
-Por falar em ar fresco. Sinto-me como um fungo que tivesse estado crescendo durante semanas na escurido, plido e fofo. 
-Bonitas intelectuais sera as duas! -observou Roger. Mas sorria.
Os trs estavam muito animados. Depois da rdua busca nos registos das prises, tinham tido um golpe de sorte: os registos de Ardsmuir estavam completos, reunidos 
num s lugar e, em comparao com a maioria, eram notavelmente claros. Ardsmuir tinha funcionado como crcere s durante quinze anos; depois de sua remodelao, 
utilizando o trabalho dos jacobitas presos, foi convertida em quartel do exrcito e quase todos os prisioneiros transportados s Colnias da Amrica.
-Ainda no  explicou por que no enviaram a Fraser a Amrica, junto com os demais. -Roger temia ter que informar s Randall que Jamie Fraser tinha morrido em priso, 
at que, ao voltar uma pgina, encontrou o transportado Fraser a um lugar chamado Helwater, em liberdade sob palavra. 
-No sei -disse Claire-, mas me alegro muito. ... era -se corrigiu de imediato- terrivelmente propenso ao mar. 
Roger olhou a Brianna com interesse. 
-Voce tem enjos no mar?
Ela sacudiu a cabea. 
-No. -Deu umas palmadinhas na cintura nua- Isto  de ferro. 
Roger se jogou a rir. 
-Quer sair para navegar? Depois de tudo hoje  festa. 
- mesmo? Voce pode pescar? 
-Claro. Em Loch Ness pesquei salmes e enguias -lhe assegurou- Vamos alugar um bote no bero de Drumnadrochit.
O passeio at Drumnadrochit foi um prazer. Com um dos abundantes cafs da manh de Fiona, o almoo num cesto e Brianna Randall sentada ao seu lado com a cabeleira 
ao vento, Roger se sentia disposto a pensar que o mundo era perfeito. 
Depois de descobrir o registo da liberdade vigiada de James Fraser, tinha precisado outras duas semanas de investigao e duas breves viagens ao Distrito dos Lagos 
e a Londres. Foi na sacrosanta Sala de Leitura do Museu Britnico onde Brianna soltou um grito de jbilo que os obrigou a retirar-se apressadamente, no meio de uma 
glacial reprovao: tinha visto o Ato do Perdo Real, estampada com o selo de Jorge III, datada em 1764, a nome de "James Alexander McKenzie Fraser".
-Ns estamos aproximando -tinha dito Roger-.Estamos muito perto! 
-Perto? -repetiu Brianna. Mas a distraiu a apario do nibus e no fez questo continuar. No entanto, Roger tinha surpreendido o olhar de Claire: ela entendia muito 
bem do que se tratava e estava pensando o mesmo. 
Claire tinha desaparecido no crculo de pedras de Craigh na Dun em 1945, para reaparecer em 1743. Depois de viver quase trs anos com Jamie Fraser, retornou atravs 
das pedras e se encontrou em abril de 1948. Isso podia significar que, se ela estava disposta a tentar o passo uma vez mais, era provvel que chegasse vinte anos 
depois de sua partida, em 1766. E acabavam de localizar a Jamie Fraser, so e salvo, em 1764. Se ele tinha sobrevivido mais dois anos e se Roger conseguiu ach-lo... 
-Ali! -exclamou Brianna subitamente-. "Aluguel de botes."
Assinalava um letreiro que tinha na janela do bar porturio. Roger estacionou e no pensou em Jamie Fraser. 
O lago estava calmo e a pesca era escassa, mas era agradvel estar no gua, com o sol nas costas e o aroma das canas e dos pinheiros quentes que chegavam desde a 
costa. Atolhados pelo almoo, todos sentiram sono. Em pouco momento, Brianna dormia acurrucada na proa, com a jaqueta de Roger como travesseiro. Claire piscava, 
sentada na popa, mas se mantinha desperta. Contemplava as guas escuras do lago. Talvez estava alerta para encontrar lontras ou troncos flutuantes, mas Roger teve 
a sensao de que sua olhada ia bem mais longe dos alcantilados da costa oposta.
-Te agradam os homens, no? -comentou- Os homens altos. 
Ela sorriu brevemente, sem olh-lo. -S um -disse com suavidade. 
-Voce ir..., se eu consiguir ach-lo? -Deixou os remos em descanso para observ-la. 
Ela respirou fundo antes de responder. O vento lhe tinha acendido as bochechas e cingia sua camisa branca, moldando o busto alto e a cintura estreita. "Muito jovem 
para ser viva", pensou; "Muito formosa para desperdiar."
-No sei -respondeu Claire um pouco trmula- S a idia... Por um lado, reencontrar-me com Jamie. Pelo outro, voltar a... passar por aquilo. -E fechou os olhos, 
estremecida, como se visse o crculo de pedras de Craigh na Dun-.  indescritvel, sabe? Horrvel, mas de um modo diferente a outras coisas horrveis, de maneira 
que no se pode descrever. 
Abriu os olhos para sorrir-lhe com ironia. 
-Seria como tratar de explicar a um homem que se sente ao ter um filho; ele pode captar, mais ou menos, a idia de que  doloroso, mas no est preparado para entender 
qo que se sente na verdade. 
Roger grunhiu divertido.
-Sim? Bom, h certa diferena, sabe? A verdade  que eu ouvi essas condenadas pedras. -Estremeceu-se involuntariamente ao recordar a noite em que Gillian Edgars 
tinha cruzado aquelas pedras, trs meses atrs. Tinha revivido vrias vezes em seus pesadelos, ento atirou com fora aos remos, tratando de apag-la-.  como se 
te rasgassem, no? -sugeriu olhando-a com ateno- H algo que atira de ti, rompendo, arrastando, e no s por fora, seno tambm por dentro, como se o crnio fora 
a voar em pedaos em qualquer momento. E esse rudo horrvel...
Se estremeceu outra vez. Claire tinha palidecido. 
-No sabia que a tinha escutado -disse- No me disseste. 
-No me pareceu importante. -Estudou-a um momento enquanto remava. Depois disse baixinho-: Bree tambm  ouviu. 
De repente ela disse, apontando com a cabea as guas negras do lago: 
-Est a, sabia?
 Ele abriu a boca para perguntar ao que se referia, mas de imediato o compreendeu. Como tinha passado a maior parte de sua vida prximo do lago Ness, pescando enguias 
e salmes, conhecia todos os relatos do "temvel monstro" que se contavam nas tabernas. Talvez porque a situao era incrvel (estar sentado ali, discutindo calmamente 
se ela devia ou no aceitar o inconcebvel risco de catapultar-se para um passado desconhecido), de repente no lhe pareceu s possvel, seno tambm seguro que 
as escuras guas do lago ocultassem um mistrio de carne e osso?
-O que , em tua opinio? -perguntou, tanto por curiosidade como para dar a seus sentimentos o tempo necessrio para assentar-se. 
-O que eu vi parecia um plesiossauro -disse Claire com um olhar perdid para popa- Ainda que naquele momento no me ocorreu tomar nota. -Torceu a boca num gesto que 
no era de todo sorriso- Quantos crculos de pedra h? Em Gr-Bretanha, em Europa. Voce sabe? 
-Com exatido, no. Mas so vrias centenas -respondeu ele com cautela- Crs que todos...?
-Como quer que eu saiba? -interrompeu-o Claire- O fato  que poderia ser. Foram postos para marcar algo, o quanto significa que poderia ter muitos lugares onde sucedeu 
isso. Te ds conta de que essa seria a explicao? 
-A explicao de que? -Roger se sentia desorientado pelas rpidas mudanas de conversa. 
-Do monstro. E se tivesse outro lugar desses embaixo do lago? 
-Um passo... ou tnel... do tempo? -Roger contemplou deixando rastro um redemoinho, pasmado ante a idia.
-Isso explicaria muitas coisas. -Tinha um sorriso escondido na comissura de sua boca; no tinha modo de saber se falava a srio ou no- Os melhores candidatos a 
monstros se extinguiram faz milhares de anos. Se existe um tnel do tempo sob o lago, ficaria claro esse pequeno problema. 
-Tambm se explicaria por que as descries costumam diferir -disse Roger, intrigado pela idia-. Pode tratar-se de diferentes animais que cruzam. 
-E se explicaria por que os animais no foram capturados. E por que no se as v com freqncia. Talvez regressam ao outro lado, de maneira que no esto constantemente 
no lago.
-Que animal to estupendo! -exclamou Roger. Sorriram-se. 
-Sabe uma coisa? -disse ela- No creio que aparea na lista das teorias populares. 
Roger, rindo, pegou um caranguejo, salpicando a Brianna. Ela se sentou bruscamente, ofegando; depois se encostou outra vez e em poucos segundos respirava profundamente. 
-Ontem  noite ficou levantada at tarde -a defendeu Roger- Esteve ajudando-me a empacotar os ltimos registos para devolv-los  Universidade de Leeds. 
Claire assentiu com ar abstrado, observando a sua filha.
-Jamie fazia o mesmo -comentou suavemente- Era capaz de encostar e dormir em qualquer parte. -Guardou silncio- O fato  que cada vez se torna mais difcil. Passar 
a primeira vez foi o mais horrvel que me aconteceu em minha vida. Mas voltar foi mil vezes pior. -Tinha os olhos fincados no castelo- Talvez porque no regressei 
no dia certo. Fui na Festa Maia; quando voltei faltavam duas semanas. 
-Gillian tambm se foi na Festa Maia. 
Apesar do calor, Roger sentiu um pouco de frio; via novamente quela mulher, que era a um tempo sua antepassada e sua contempornea, de p  luz de uma fogueira 
antes de desaparecer para sempre na greta das pedras.
-Isso  o que diziam suas anotaes: que a porta estar aberta durante os festivais do Sol e do Fogo. Talvez nos dias prximos s estar meio abertas. Ou talvez 
ela estava equivocada por completo. Afinal de contas, acreditava que era necessrio um sacrifcio humano para que funcionasse. 
Claire enguliu saliva com dificuldade. Os restos de Greg Edgars, o esposo de Gillian, tinham sido recobrados aquele primeiro dia de maio empapados em petrleo. O 
relatrio policial s dizia de sua esposa: "Fugiu sem que se conhea seu paradeiro." 
-Serias capaz de descer, Roger? -perguntou suavemente- Poderia saltar pela borda, descer at que te estourassem os pulmes, sem saber se ao outro lado te esperam 
coisas com dentes e corpos enormes?
Roger sentiu que lhe arrepiava o plo dos braos. 
-Mas a pergunta no acaba a -disse sem deixar de contemplar as guas misteriosas- Descerias se Brianna estivesse l embaixo? 
E se voltou a olh-lo. 
Ele passou a lngua pelos lbios, sensveis pelo vento, e deu uma olhada  moa. Depois se voltou para a me. 
-Sim, creio que sim. 
Ela o observou um bom momento. Depois assentiu sem sorrir: 
-Eu tambm.







   QUINTA PARTE
   No pode voltar a casa
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   CAPTULO 18
   RAZES
   
    Setembro de 1968
    
A mulher sentada ao meu lado devia pesar uns cento e cinquenta quilos. O quadril, a coxa e o brao gordos, quentes e midos, apertavam-se desagradavelmente contra 
mim. No tinha maneira de escapar: ao outro lado me apertava a fuselagem do avio. Levantei um brao para acender a luz de leitura, a fim de conferir meu relgio. 
Eram dez e meia, hora de Londres; faltavam ao menos mais seis horas para aterrizar em Nova York. 
Com um suspiro de resignao, remexi no bolso do assento, procurando a novela romntica para ler, mas minha ateno escapava do livro, tanto para voltar a Roger 
e a Brianna, a quem tinha deixado em Edimburgo dedicados  busca, ou como para ir para frente, ao que me esperava em Boston.
Parte do problema era no saber com certeza o que me esperava ali. Tinha sido obrigada a voltar; minhas frias tinham terminado fazia tempo e tambm as diversas 
prorrogaes. Tinha assuntos para atender no hospital, contas para pagar, a manuteno da casa, amigos para telefonar... 
Um em especial: Joseph Abernathy tinha sido meu amigo mais ntimo desde nossos tempos de estudantes. Antes de tomar uma deciso final, provavelmente irrevogvel, 
queria discut-la com ele. Fechei o livro em meu colo para seguir com um dedo as extravagantes curvas do ttulo. Entre outras coisas, devia a Joe meu gosto pelas 
novelas romnticas. 
Conhecia a Joe desde o comeo de minha prtica profissional. Ambos nos destacvamos entre os outros internos do Boston Geral. Eu era a nica mulher entre os mdicos 
em amadurecimento; Joe, o nico negro.
Aquele dia tinha praticado minha primeira apendicte sem ajuda. Ainda que tudo tinha sado bem e no tinha motivos para esperar complicaes pos-operatrias, sentia 
uma espcie de estranha possessividade com respeito ao paciente e no queria voltar para casa enquanto ele no tivesse acordado. Ao terminar meu turno, mudei de 
roupa e fui  sala de descanso para mdicos. 
A sala no estava deserta. Joseph Abernathy, sentado num cadeiro, parecia absorto numa revista. Procurando alguma distrao, dei uma olhada a vrias publicaes 
mdicas atrasadas e a uns folhetos das Testemunhas de Jehov. Por fim escolhi um romance. No tinha capa mas na primeira pgina se lia: "O pirata impetuoso. Uma 
sensual e apaixonante histria de amor, to abundante como a Costa Caribenha." Como a Costa Caribenha, ? Se o que desejava era me distrair, no acharia nada melhor. 
O livro se abriu automaticamente na pgina 42.
Com ar de autoridade, Valdez rodeou com um brao a cintura de Tessa. 
-Esqueceu, senhorita -murmurou junto ao sensvel lbulo de sua orelha-, que sou botim de guerra. E o capito de um barco pirata tem prioridade para escolher sua 
parte do botim. 
Seus lbios lhe roaram o peito. Seu alento ardoroso, murmurando frases tranqilizadoras, deixou-a sem resistncia. Relaxou-se, separando as coxas. Movendo-se com 
infinita lentido, a vara  ereta do pirata tirando a fina membrana de sua inocncia.
Lancei uma exclamao. O livro se deslizou ao cho, caindo aos ps do doutor Abernathy. 
-Desculpe -murmurei. E me inclinei para recuper-lo com a cara em chamas. No entanto, ao incorporar-me com O pirata impetuoso em minhas mos suadas, vi que ele, 
longe de conservar seu austero semblante habitual, sorria de orelha a orelha. 
-Deixe-me adivinhar -pediu- Valdez acaba de tirar uma membrana fina de inocncia? 
-Sim. -Sem poder evit-lo, estourei numa risada estpida- Como sabe? 
-Bom, estava no princpio. Tinha que ser isso ou o da pgina 73, onde ele lambe com lngua faminta seus seios rosados.
-O que? 
-Veja com seus prprios olhos. -Ps o livro em minhas mos, apontando uma pgina. 
-No me diga que voc leu isto! -acusei, arrancando os olhos de Tessa e Valdez. 
-Claro que sim -disse mais sorridente que nunca. Tinha um dente de ouro- Duas ou trs vezes. No  das melhores, mas no  to mau. 
-Dos melhores? H mais como este? 
-Claro.As melhores so as que no tm capa. 
-E eu achava que voc s lia revistas de medicina!
-Caramba, passo trinta e seis horas metido at os cotovelos nas barrigas das pessoas. E quer que fique a ler "Avanos na extirpao do peritoneo"? No, por favor. 
Prefiro navegar com Valdez pela Costa Caribenha. -Olhou-me com interesse- Eu tambm no a via capaz de ler algo que no fora o Semanrio de medicina. As aparncias 
enganam, verdade, lady Jane? 
-Parece que sim -repliquei secamente- O que  isso de "lady Jane"? 
-Uma ocorrncia de Hoechstein -respondeu jogando-se para atrs, com os dedos entrelaados ao redor de um joelho- Com essa voz e esse acento, diria que acaba de tomar 
o ch com a rainha. Por seu modo de falar. Onde aprendeu isso?
-Na guerra -eu disse sorrindo ante sua descrio. 
Levantou as sobrancelhas. -A da Coria? 
-No. Fui enfermeira de combate na Frana durante a Segunda Guerra Mundial. Ali tinha muitas enfermeiras muito capazes de converter em geleia aos mdicos com uma 
s olhada.
Mais adiante tinha tido ocasio de praticar; esse ar de au 
toridade inviolvel, por mais fingido que fora, serviu-me de muito como 
tratar pessoas bem mais poderosas do que o pessoal de enfermaria e os 
internos daquele hospital. 
Ele assentiu, atencioso a minha explicao. 
-Sim, entendo. Eu usava o de Walter Cronkite. 
-Walter Cronkite? -Olhei-o com os olhos muito arregalados. 
Voltou a sorrir, mostrando seu dente de ouro.
-Lhe ocorre algum melhor? Via-o pela televiso todas as noites. Minha me queria que eu fosse orador. 
Joe Abernathy me agradava cada vez mais. 
-Espero que no a tenha desiludido ao dizer que voc ia estudar medicina. 
-Para dizer verdade, no sei -confessou sem deixar de sorrir- Quando eu disse, olhou-me durante um minuto; depois soltou um grande suspiro e disse: "Bom, ao menos 
os remdios para o reumatismo me sairo mais baratos." 
Ri com ironia.
-Meu esposo se mostrou ainda menos entusiasmado quando lhe disse do que ia estudar medicina. Olhou-me fixamente e por fim me sugeriu que, se eu estava tediosa, podia 
oferecer-me como voluntria para escrever as cartas dos internos do asilo. 
-Sim, assim  as pessoas. "O Que faz voc aqui, jovenzinha, em vez de estar em sua casa, ocupando-se de seu marido e de sua filha?" -imitou com um sorriso irnico. 
Depois me deu uma palmanha na mo- No se preocupe. Mias cedo ou mais tarde renunciam. Para mim j quase ningum me pergunta na cara por que no estou limpando os 
banheiros, se foi para isso que Deus me criou.
Naquele momento entrou a enfermeira para anunciar que meu apndice tinha acordado. Mas a amizade iniciada na pgina 42 floresceu a tal ponto que Joe Abernathy acabou 
sendo um de meus melhores amigos; possivelmente, a nica pessoa prxima a mim que entendia para valer o que eu fazia e por que. 
Fechei os olhos. Atrs, na Esccia, Roger e Bree seguiam procurando a Jamie. Frente, em Boston, esperava meu trabalho e Joe. E Jamie? Tratei de afastar a idia, 
decidida a no pensar nele at que tivesse tomado a deciso.
Algo me agitou o cabelo e uma mecha me roou a bochecha, ligeiro como os dedos de um amante. Mas devia de ser s o ar condicionado. E era minha imaginao que misturava 
subitamente, aos cheiros ranosos de perfume e cigarros, num aroma de l e urzais.

CAPTULO 19
PARA ROGAR A UM FANTASMA

Estava por fim em casa, na casa da rua Furey, onde tinha vivido com Frank e Brianna quase vinte anos. As azaleias da porta no estavam totalmente secas mas suas 
folhas pendiam em maos polvorentos; uma grossa capa de folhas secas jazia na terra fendida. 
No me agradavam muito as azaleias. Teria j tirado elas faz tempo, mas depois da morte de Frank me resisti a mudar algum detalhe da casa, pensando em Brianna. Muito 
j era ingressar na universidade e se lhe tivesse morrido o pai, tudo num mesmo ano. Eu levaria muito tempo para prestar ateno  casa; podia continuar fazendo.
-Est bem! -disse com incomodo s azaleias, enquanto fechava a torneira da mangueira- Espero que esteja contente porque isso ser tudo. Eu tambm preciso de uma 
taa. E um banho -disse ao ver as folhas manchadas de barro. 
Sentei-me na borda da banheira, com roupo, agitando as bolhas. A gua estava muito quente. 
Sabia perfeitamente bem o que estava fazendoquando subi ao avio em Inverness. Estava me testando.
Tinha tomado nota de todas as mquinas e artefatos da vida moderna e (isso era o mais importante) de minha reao ante elas. O trem a Edimburgo, o avio a Boston, 
o txi desde o aeroporto e tantos outros luxos mecnicos: as mquinas modernas, o aflorado pblico, os lavabos. Os restaurantes, onde um certificado do Departamento 
de Sade te garantia a possibilidade de livrar-te de um botulismo se comias ali. E dentro de minha prpria casa, as onipresentes botes que proviam de luz, calor, 
gua e comida cozinhada.
A questo era: Me importava com tudo isso? Podia viver sem todas as "comodidades", grandes e pequenas, s que estava habituada? Isso era o que me perguntava com 
cada toque de boto, cada rugir de motores, e estava segura de que a resposta era afirmativa. Nunca me tinha importado muito tudo isso. Desde a morte de meus pais, 
quando eu tinha cinco anos, vivi com meu tio Lamb, arquelogo no qual acompanhava em suas expedies. Portanto, tinha-me criado em condies que se poderiam chamar 
de "primitivas".
A gua j estava o suficientemente morna para ser tolervel. Deixei cair o roupo no cho e me submergi com um agradvel estremecimento. Mas as comodidades eram 
s isso: nada essencial, nada do que no pudesse prescindir. Claro que no s as comodidades estavam em questo. O passado era um pas perigoso. Mas nem sequer os 
avanos da suposta civilizao bastavam para garantir a segurana. Eu tinha sobrevivido a duas grandes guerras "modernas" (e na segunda, servindo nos campos de batalha) 
e todas as noites podia ver pela televiso como se ia formando a seguinte.
Retirei a tampa do desage com os dedos, suspirando. De nada servia pensar em coisas to impessoais como banheiras, bombas e violadores. A gua corrente era s uma 
distrao sem importncia. O verdadeiro problema estava nas pessoas envolvidas: Brianna, Jamie e eu. 
Um pouco mais reconfortada, pus a camisola e me dediquei a preparar a casa para dormir. No tinha gato nem cachorro que alimentar; Bozo, o ltimo de nossos cachorros, 
tinha morrido de velhice no ano anterior.
Medir os graus do termostato, verificar as fechaduras das portas e janelas, comprovar que a cozinha estivesse apagada. Isso era tudo. Durante quinze anos, minha 
rotina noturna tinha includo uma paragem no quarto de Brianna, mas isso terminou quando entrou na universidade. 
Movida pelo costume, abri a porta de seu quarto e acendi a luz. H quem tm debilidade pelos objetos e quem no a tm. Bree a tinha; praticamente no tinha um centmetro 
de parede visvel entre os cartazes, as fotografias, as flores secas, os bocados de tela tingida, os diplomas emoldurados e outros obstculos.
Eu no tinha paixo pelos objetos. No sentia necessidade de adquirir nem de decorar; antes de que Brianna tivesse idade suficiente para colaborar, Frank costumava 
queixar-se de que nosso mobilirio era espartano. Jamie era igual. Tinha alguns objetos que levava sempre em sua bolsa no Kilt, como talisms ou porque lhe eram 
teis; mas, nunca tinha possudo nada nem se interessava pelas coisas. 
Ainda assim era estranho que Brianna se parecesse tanto ao seus dois pais, to diferentes entre si. Dei silenciosamente  boa noite ao fantasma de minha filha ausente 
e apaguei a luz.
A imagem de Frank me acompanhou ao dormitrio. A grande cama de duas vagas, intacta sob o edredon de cetim azul escuro, que eu trouxe  mente com sbita nitidez, 
como no o recordava fazia muitos meses. 
Talvez fora a possibilidade da partida iminente o que me fazia pensar agora nele. Esse quarto, essa cama, onde eu lhe tinha dito adeus pela ltima vez. 
-No podes vir para cama, Claire?  mais de meia-noite.
Frank me olhava acima de seu livro. J estava encostado e lia com o volume sobre os joelhos. No suave toque de luz da vela, parecia boiar numa clida borbulha, serenamente 
isolado da fria escurido que enchia o resto da habitao. Corriam os primeiros dias de janeiro e, devido aos grandes esforos da caldeira, pela noite o nico lugar 
realmente quente era a cama, sob cobertores pesados. 
Levantei-me da cadeira, sorrindo-lhe, e deixei cair o roupo de l. 
-No te deixo dormir? Desculpa. Estava revivendo a operao desta manh.
-Sim, eu j sei -afirmou secamente- Me satisfaz olhar-te. Os olhos ficam vidrados e ficas boquiabierta. 
-Desculpa -repeti imitando seu tom- No tenho culpa da cara que eu fao enquanto eu penso. 
-E de que te serve pensar? -perguntou- voce j fez o que podia; afligir-se agora no muda nada... Oh, bom. -Encolheu-se de ombros, irritado, e fechou o livro- No 
 a primeira vez que te digo. 
-No -confirmei brevemente.
Me meti na cama, tremendo um pouco, e envolvi bem as pernas na camisola. Frank se aproximou automaticamente. Nos acolchegamos juntos, somando o calor contra o frio. 
-Estava pensando... -a voz de Frank surgiu da escurido com excessiva indiferena. 
-Hum? -Eu seguia absorta no repasso da operao mas me esforcei para voltar ao presente- Em que?
-Em minha licena sabtica. -A permisso da universidade se iniciaria dentro de um ms. Ele tinha planejado fazer uma srie de viagens breves pelo nordeste dos Estados 
Unidos. Reunindo material; depois passaria seis meses na Inglaterra e voltaria a Boston para dedicar-se a escrever durante os trs ltimos meses de licena- Me agradaria 
ir a Inglaterra -disse cauteloso. 
-Bom, por que no? O clima ser horrvel, mas se vai passar a maior parte do tempo em bibliotecas... 
-Quero levar a Brianna.
Fiquei gelada. 
-Mas ela no pode viajar; falta-lhe um semestre para a graduao. No pode esperar no vero para irmos todos juntos? Solicitei umas longas frias para essas datas 
e... 
-Vou-me agora. Para sempre. Sem voce. 
Incorporei-me e acendi a luz. 
-Por que agora, to de repente? A nova est te pressionando, no? 
A expresso de alarme que lhe lampejou nos olhos era to pronunciada que resultou cmica. Joguei-me a rir com uma perceptvel falta de humor.
-Achava que eu no sabia nada? Por Deus, Frank! Quanta ignorncia! 
Ele se sentou na cama com a mandbula tensa. 
-Achei ter sido muito discreto. 
-Pode ser -reconheci com ironia- Contei seis dos dez ltimos anos. Se foram dez ou doze, voce foi realmente um modelo de discrio. 
Era raro que sua cara expressasse muita emoo, mas certa palidez me indicou que estava furioso.
-Esta deve ser um pouco especial -comentei com fingida desenvoltura, apoiando-me na cabeceira da cama com os braos cruzados- Ainda assim, a que tanta pressa para 
ir a Inglaterra? E por que queres levar a Bree? 
-Pode cursar o ltimo semestre num internado. Para ela ser uma nova experincia. 
-No creio que lhe interesse -observei- No vai querer se separar de seus amigos justo agora, antes da graduao. E muito menos para ir a um internado ingls!
-Um pouco de disciplina no lhe seria mal a ningum -disse Frank. Tinha recobrado seu humor habitual mas as linhas de sua cara seguiam tensas- Para voce teria vindo 
bem. -Moveu uma mo como para descartar o assunto- Deixe assim. De qualquer modo, decidi voltar definitivamente a Inglaterra. Ofereceram-me um bom posto em Cambridge 
e vou aceit-lo. Voce no vai querer abandonar o hospital, claro. Mas no penso ir sem minha filha. 
-Tua filha ? -Momentaneamente me senti incapaz de falar. Como ele tinha um novo posto preparado e uma nova amante que o acompanhasse. Devia ter planejado tudo. Uma 
vida nova... mas no com Brianna.
-Minha filha -repetiu calmamente- Podes vir visit-la quando quiser, claro. 
-Grande... cretino! -pronunciei. 
-Sou razovel, Claire. -Olhou-me com o nariz levantado- Quase nunca ests em casa. Se eu vou embora no ter ningum que cuide de Bree como  devido. 
-Falas como se tivesse oito anos. E vai cumprir dezoito. J  quase uma mulher, por Deus! 
-Por isso mesmo precisa que a cuidem e a vigiem espetou- Se tivesses visto o que eu vejo na universidade... como bebem, como se drogam...
-Eu vejo -eu disse entre dentes- Muito de perto, na sala de Urgncias. Mas Bree no corre perigo de... 
-Mas claro que sim! As garotas dessa idade no tm cabea. Vo com o primeiro tipo que... 
-No sejas idiota! Bree  muito sensata. Alm disse, jovens querem experimentar; assim  que se aprende. No podes t-la entre algodes por toda a vida. 
-Melhor entre algodes que relaes com um negro -atacou. Nos pmulos lhe apareceu uma leve mancha vermelha- Mas as coisas no sero assim, maldita seja, enquanto 
eu poder!
Saltei da cama dando uma olhada furiosa. Tremia de ira; tive que apertar os punhos para no lhe socar. 
-Asqueroso! Tens o tremendo descaro de vir dizer-me que vai viver com a ltima de toda uma srie de amantes! E depois se atreves a insinuar que durmo com Joe Abernathy? 
 isso o que queres dizer?
Teve a decncia de abaixar os olhos. 
- o que pensa todo mundo -murmurou- Ests sempre com esse homem. Pelo que a Bree diz,  o mesmo. Arrast-la a... situaes perigosas e... e com esse tipo de gente... 
-Suponho que te referes as pessoas negras, no? 
-Mas claro que sim -replicou olhando-me com uma fasca nos olhos- Bastante ruim  ter que ver os Abernathy nas festas. Mas essa pessoa obesa que me apresentaram 
em sua casa, cheia de tatuagens tribais e barro no cabelo! E essa repulsiva lagartixa de salo, de voz to untuosa! E ao garoto dos Abernathy que ronda com a Bree 
noite e dia; levando-a a manifestaes, a orgias em esconderijos -No creio que tenha esconderijos miserveis...  -comentei reprimindo um indecoroso impulso de rir 
ante a descrio cruel, mas correta, que Frank fazia dos amigos mais excntricos de Leonard Abernathy- Sabia que Lenny se fazia chamar por Muhammad Ishmael Shabazz 
? 
-Sim, me disse -confirmou secamente- E no vou correr o risco de que minha filha se converta na senhora Shabazz. 
-No creio que Bree tenha esse tipo de interesse por Lenny -assegurei lutando por conter minha irritao. 
-Tambm no se vou permitir. Mas vou lev-la a Inglaterra. 
-No leva, a no ser que ela queira ir -disse com grande segurana. 
Provavelmente porque se sentia em desvantagem, Frank saiu da cama e procurou s suas pantuflas. 
-No preciso de tua permisso para levar a minha filha a Inglaterra -observou- E Bree ainda  menor de idade; ir onde eu disser. Te agradeceria que procurasse sua 
histria clnica. Na nova escola a precisaro. 
-Tua filha? -repeti. Percebia vagamente o frio do quarto, mas estava to irritada que me sentia acalorada- Bree  minha filha e no vai levar a nenhuma parte! 
-No pode impedir -disse com enfurecedora serenidade, recolhendo seu roupo.
- Por que no ? Quer divorciar de mim? Perfeito. Alega as causas que quiser... exceto a de adultrio, que no poder provar porque no existe. Mas se tentar levar 
a Bree serei eu a que vou dizer uma ou duas coisas sobre o adultrio. Quer saber quantas de tuas amantes eliminadas vieram pedir-me para eu desistir de voce? 
A surpresa o deixou boquiabierto. 
-Eu disse a todas que renunciaria voce no momento que voce me pedisse -continuei- Realmente estranhava que nunca o tivesses feito. Mas imaginei que era por Brianna. 
-Bom -replicou, plido, numa triste tentativa de recobrar seu aprumo habitual-, no sei por que pensei que te machucaria. Afinal de contas, nunca fizeste nada para 
me impedir.
Impedir? O que pretendias que eu fizesse? Abrir tua correspondncia ao vapor e colocar as cartas no nariz? Armar um escndalo na festa de Natal dos professores? 
Queixar-me ao reitor? 
Ele apertou os lbios. 
-Poderia ter-se comportado como se te importasse -sugeriu baixinho. 
-Importava-me -minha voz soou afogada. 
Sacudiu a cabea sem deixar de olhar-me, escuros os olhos  luz do lustre. 
-Mas no o suficiente. As vezes me perguntava se tinha direito a te criticar -disse pensativo- Bree se parece com ele, no?
Sim. 
Soltou o ar com fora, quase sem flego. 
-Eu via no seu rosto quando a olhavas. Me dava conta de que estavas pensando nele. Maldita sejas, Claire Beauchamp -murmurou- Maldita seja teu rosto, que no sabe 
dissimular nada do que pensas ou sentes. 
Guardamos silncio. 
-Eu te amava -disse por fim suavemente- Em outros tempos. 
-Em outros tempos. Tenho que te agradecer?
-Eu te disse -recordei- Mas como no quiseste me deixar... Eu tentei, Frank. 
O que percebeu em minha voz, fora o que fosse, deteve-o por um momento. 
-Tentei-repeti com muita suavidade. 
-Ao princpio no podia deixar-te... grvida, sozinha. Tinha que ser muito canalha para fazer isso. E depois... Bree. - Olhou s cegas o lpis que tinha numa mo; 
depois o colocou no vidro da mesa- No podia renunci-la. -Voltou a me olhar; seus olhos pareciam buracos no rosto ensombrado- Sabia que no posso ter filhos? Faz 
alguns anos me... fiz-me uns testes. Sou estril. Sabia?
Sacudi a cabea sem atrever-me a falar. 
-Bree  minha,  minha filha -afirmou-  a nica filha que jamais terei. No podia renunci-la. -Soltou um riso breve- No podia renunciar a ela mas tu no podias 
olh-la sem pensar nele, no ? Sem essa lembrana constante... o teria esquecido com o tempo? 
-No. -Meu sussurro pareceu percorr-lo como uma descarga eltrica. Por um momento permaneceu petrificado. Depois, girando bruscamente para o roupeiro, comeou a 
pr a roupa em cima do pijama. 
Um momento depois ouvi que fechava a porta da rua (teve a suficiente presena de nimo para no a bater) e depois o rudo de um motor frio que arrancava de m vontade.
Frank no voltou. Tratei de dormir mas estava rgida na cama fria revivendo mentalmente a discusso, alerta ao rangido das rodas no caminho. Por fim me vesti para 
eu sair tambm, deixando uma nota para Bree. 
Ainda que o hospital no me tinha chamado, decidi dar uma olhada em meu paciente; isso era melhor do que dar voltas e voltas toda a noite. Francamente, no teria 
me incomodado que Frank, ao seu regresso, no me encontrasse em casa. 
As ruas estavam muito escorregadias; o gelo cintilava  luz dos postes. O nico consolo era estar completamente s na rua, s quatro da manh.
Dentro do hospital me envolveu um cheiro clido e viciado como um certo ar de familiaridade, chegando l fora da noite negra. 
-Est bem -me disse baixinho a enfermeira- Todos os sinais vitais se mantm estveis e no h hemorragia. 
Deixei escapar o ar que estava segurando sem dar-me conta. 
-Alegro-me -disse- Alegro-me muito.
De repente, o ambiente do hospital parecia meu nico refgio. No fazia sentido voltar para casa. Visitei rapidamente os meus outros pacientes e desci  cafeteria. 
Foi talvez meia hora depois: uma das enfermeiras de Urgncias cruzou as portas de vaivm e se deteve em seco ao ver-me. Depois se aproximou muito lentamente. 
Soube de imediato; tinha visto tantas vezes mdicos e enfermeiras dar a notcia de uma morte, que no podia confundir os sinais. Com muita calma, tratando de no 
sentir absolutamente nada, deixei a xcara quase cheia. 
-... Disse que voc estava aqui. Identificao em sua carteira... a polcia... neve sobre gelo, um patinamento... J estava morto quando chegou.
A enfermeira continuava falando,*balbuceante, enquanto eu percorria a grandes passos os corredores iluminados sem olh-la. Via as caras das enfermeiras que giravam 
para mim a cmara lenta, sem saber nada, mas adivinhando  primeira vista que tinha acontecido algo definitivo. 
Tinham-no numa maca da sala de Urgncias: num espao frio e desconhecido. Vi uma ambulncia, fora talvez a mesma que o tinha trazido. As portas duplas do corredor 
estavam abertas a um amanhecer glacial. A luz vermelha da ambulncia palpitava como uma artria, banhando de sangue o corredor.
O toquei. Sua carne estava inerte ao tato, em contraste com seu aspecto de vida, como ocorre com os que acabam de morrer. Fechei os olhos para apagar a pertubadora 
imagem daquele perfil imvel, que passava do vermelho ao alvo, do alvo ao vermelho,  luz que entrava pelas portas abertas. 
-Frank -eu disse suavemente ao ar inquieto-, se ainda ests perto e podes ouvir-me...  verdade que te amei. Em outros tempos. Amei-te.
Um momento depois entrou Joe, ansioso, abrindo passos pelo corredor obstinado. Vinha diretamente da sala de operaes; tinha uma gota de sangue no cristal dos culos 
e uma mancha no torso. 
-Claire -disse-.Meu Deus, Claire! 
Ento comecei a tremer. Naqueles dez anos ele sempre me tinha chamado "Jane" ou "Lady". Aquilo tinha que ser verdade para que ele usasse meu verdadeiro nome. Vi 
a minha mo, assombrosamente branca no punho escuro de Joe; depois, vermelha  luz palpitante. Por fim girei para ele, que era slido como um tronco de rvore. Apoiei 
a cabea em seu ombro e, pela primeira vez, chorei por Frank.
Apoiei o rosto na janela do dormitrio, na casa da rua Furey. Com os olhos embaados, recordava o desconhecida multido do corredor e os reflexos vermelhos da ambulncia, 
que varriam o silencioso cubculo enquanto eu chorava por Frank. 
Voltei a chorar por ele, pela ltima vez, ainda reconhecendo que nos tnhamos separado mais de vinte anos atrs, na cume de uma verde colina escocesa. 
Terminadas as lgrimas, apoiei uma mo no suave edredon azul, coberto sobre o travesseiro da esquerda: o lado de Frank. 
-Adeus, meu querido -sussurrei.
E fui dormir, longe dos fantasmas. 
Pela manh, me acordou a campanhia da porta em meu improvisado leito do sof. 
-Telegrama, senhora -disse o mensageiro tratando de no olhar minha camisola. 
Aqueles pequenos envelopes amarelos deviam de ter causado mais ataques cardacos do que qualquer outra coisa, parte do toucinho no caf da manh. Meu prprio corao 
se encolheu como um punho; depois continuou batendo de um modo pesado e incmodo. Tremeram-me os dedos ao abr-lo. 
Era uma breve mensagem. "Claro", pensei absurdamente: "os escoceses so avarentos com as palavras".

O ENCONTRAMOS. STOP. VOLTA QUANDO PODERES. STOP. ROGER.

Dobrei cuidadosamente o telegrama e voltei a guard-lo em seu envelope. Passei longo momento sentada, contemplando-o. Por fim me levantei para vestir-me.





CAPTULO 20
DIAGNSTICO

Joe Abernathy, sentado ante sua escrivaninha, olhava com o semblante franzido perante o pequeno retngulo de cartolina que tinha nas mos. 
-O que  isso? -perguntei sentando-me sem cerimnias na borda da escrivaninha. 
-Um carto de visita. -Me entregou, divertido e irritado a mesmo tempo. 
Era cinza, de material caro, impressa com carateres elegantes. Muhammad Ishmael Shabazz III, dizia a linha central; abaixo, direo e nmero de telefone. 
-Lenny? -perguntei rindo- Muhammad Ishmael Shabazz... Terceiro?
-Desgraa. -A diverso parecia estar impondo-se. O dente de ouro cintilou- Diz que no vai aceitar um nome de escravo. Quer reclamar sua herana africana. "De acordo 
-lhe digo-, e depois do que? Pensa andar por a com um osso atravessado no nariz?" No lhe basta em ter o cabelo at aqui, no. Mas com um garoto dessa idade no 
se pode falar. 
-Certo. Mas de onde saiu isso de "terceiro"?
-Bom, esteve falando de sua tradio perdida, da histria que lhe falta e tudo isso. "Como vou manter a cabea tranquila em Yale? -diz-me-, entre todos esses tipos 
que se chamam Cadwallader IV e Sewell Lodge Filho, sem conhecer sequer o nome de meu av, sem saber de onde venho?" -Joe bufou- "Se queres saber de onde vens, moo 
-lhe digo-, olha-te no espelho. Do Mayflower no foi, verdade?" Assim que decidiu recuperar sua herana at o fim. Se seu av no lhe deu um sobrenome, ser ele 
quem d um sobrenome a seu av. 
Olhou-me com uma sobrancelha levantada e disse:
-O problema  que isso me deixa em dvida. Agora tenho que ser Muhammad Ishmael Shabazz Filho, para que Lenny possa estar orgulhoso de sua descendencia afroamericana. 
Voce sim que tens sorte, lady Jane. Ao menos, Bree no atormenta a tua a vida perguntando quem foi seu av. Tua nica preocupao  que se interesse  droga ou se 
deixe engravidar por qualquer irresponsvel que depois foge para o Canad. 
Joguei-me a rir com ironia. 
-Isso  o que voc pensa.
-Bom, e como estava Esccia? -perguntou- A Bree gostou? 
-Ainda est l. Procurando sua prpria histria. 
Joe estava abrindo a boca para dizer mas algo o interrompeu com um toque vacilante na porta. 
-Doutor Abernathy? -Um jovem apareceu com a cabea acima de uma grande caixa de papelo. 
-Ishmael, para os amigos -disse Joe.
-O que? -O jovem ficou boquiabierto. Depois me olhou com desconcerto e um pouco de esperana- Voc  o doutor... a doutora Abernathy? 
-No -repliquei-; o doutor  ele, quando se prope. -Levantei-me da escrivaninha, alisando a saia-. Deixo atender teus compromissos, Joe, mas se tens tempo mais 
tarde... 
-Fica um minuto, lady Jane -interrompeu levantando-se. Fez-se cargo da caixa que trazia o jovem e lhe estreitou formalmente a mo- Voc deve de ser o senhor Thompson. 
Encantado de conhec-lo. 
-Horace Thompson, sim -confirmou o jovem piscando- Trouxe-lhe um... eh... uma mostra. -Assinalou vagamente a caixa.
-Sim, est bem. Ser um prazer dar uma olhada mas creio que a doutora Randall, aqui presente, tambm poderia colaborar. -Me deu uma olhada com um reflexo travesso 
nos olhos- S quero ver se pode faz-lo com uma pessoa morta, lady Jane. 
-Fazer o que com um morto? -inquiri. 
Ele meteu a mo na caixa e tirou cuidadosamente um crnio. 
-Oh, que bonito -eu disse super feliz, fazendo-o girar de um lado a outro- Uma bonita senhora -disse dirigindo-se tanto ao crnio como a mim ou a Horace Thompson- 
Bem desenvolvida, madura. Tinha entre cinquenta e cinquenta e cinco anos. Trouxe as pernas? -perguntou, girando bruscamente para o jovem.
-Sim, aqui esto. Em realidade, temos todo o esqueleto. -Provavelmente trabalhava para o mdico forense, que as vezes pedia assessoramento a Joe. 
-A ver, doutora Randall. -Joe me ps o crnio nas mos- Me diz se esta dama gozava de boa sade enquanto eu reviso as pernas. 
-Eu? No sou especialista. 
De qualquer modo, fiz girar lentamente o crnio nas mos, observando os ossos. Depois o apoiei no ventre, fechei os olhos e experimentei uma tristeza fugaz e uma 
vazia sensao de... surpresa? 
-Mataram-na -disse- No queria morrer.
Ao abrir os olhos vi que Horace Thompson me olhava com os olhos muito abertos com a cara plida. Devolvi-lhe o crnio com muita timidez, perguntando: 
-Onde a encontraram? 
O senhor Thompson trocou uma olhada com Joe; depois se voltou para mim com as sobrancelhas ainda levantadas. 
-Numa gruta do Caribe -disse- Estava rodeada de artefatos. Acreditamos que pode ter entre cento cinquenta e duzentos anos.
-Como? 
Joe sorria de orelha a orelha, desfrutando da brincadeira. 
-Nosso amigo, o senhor Thompson,  do Departamento de Antropologia de Harvard -revelou- Seu amigo Wicklow, que me conhece, pediu-me que desse uma olhada neste esqueleto 
para dizer o que pudesse sobre ele. 
-Que descaro o teu! -indignei-me. Imaginei que seria algum cadver no identificado que o legista te enviou. 
-Bom, no est identificada -disse Joe- E o mais provvel  que continue assim. -Removeu e dentro da caixa, a etiqueta dizia: Cultivo Verde PICT- Vamso ver o que 
temos aqui.
E tirou cuidadosamente uma bolsa de plstico cheia de vrtebras, que comeou a alinhar habilmente, cantarolando.Por fim exclamou, triunfal: 
-E agora! Escuta a palavra do Senhor! Por Deus, lady Jane,  um gnio. Olha isto. 
Horace Thompson e eu nos inclinamos, obedientes, sobre a fileira de vrtebras. O largo corpo do axis tinha um profundo canal; a apfisis posterior se tinha desprendido 
e a fratura atravessava completamente o centro do osso. 
- Se rompeu no pescoo? -perguntou Thompson com interesse.
-Sim, mas creio que h mais. -Joe moveu o dedo pela linha da fratura- Olhe isto. O osso no est simplesmente rompido: aqui desapareceu por completo. Algum degolou 
esta dama. Com uma faca -concluiu com deleite. 
Horace Thompson me olhava com cara estranha. 
-Como soube que a tinham matado, doutora Randall? -perguntou. 
Senti que o sangue me subia  cara. 
-No o sei -disse-. Eu..., senti. 
- mesmo? -Piscou umas vezes- Que estranho.
-O faz a cada momento -informou Joe enquanto media o fmur-, mas geralmente com os vivos. Tem o melhor diagnstico que tenho visto em minha vida. Como estava numa 
gruta? 
-Pensamos que se tratava de... uma escrava sepultada em segredo -explicou o senhor Thompson. 
-No, no era escrava. 
Horace piscou. 
-Tem que o ter sido -assegurou- Os objetos que encontramos com ela... eram de clara influncia africana. 
-No -repetiu Joe. Deu um golpezinho ao longo fmur- No era negra.
-Como sabe? Pelos ossos? -A agitao de Horace Thompson era visvel- Mas eu achava que... esse estudo de Jensen... as teorias sobre as diferenas fsicas entre raas 
foram descartadas. 
Ficou como um tomate. 
-Mas as diferenas existem -corrigiu Joe- Se voc quer pensar que brancos e negros so iguais sob a pele, d-se o gosto, mas cientificamente no  assim. Os negros 
tm ossos de propores completamente diferentes. Essa dama era branca. Caucsica. No tenho dvida. 
-Oh -murmurou Thompson- Bom, terei que pensar... isto ... Obrigado por estud-la. 
Joe deixou escapar o riso quanto a porta se fechou depois dele.
-Queres apostar que a levaram a Rutgers para pedir outra opinio? 
-Os acadmicos no renunciam com facilidade a suas teorias -disse encolhendo-me de ombros- Eu sei porque vivi muito tempo com um deles. 
Joe voltou com um grunhido. 
-Bom, agora que terminamos com o senhor Thompson e com seu defunto dama branca, o que posso fazer por ti, lady Jane? 
Respirei fundo. 
-Preciso uma opinio sincera, de algum em cuja objetividade possa confiar. No, retiro isso -corrigi- Preciso uma opinio e depois, segundo seja essa opinio, um 
favor, talvez.
No h problema -me assegurou Joe- Opinar, sobretudo,  minha especialidade. Me diz. 
-Sou sexualmente atraente? -inquiri. 
Seus olhos, que pareciam caramelos de caf, tornaram-se completamente redondos. Depois se semicerraram, mas Joe demorou em contestar. Observou-me dos ps a cabea, 
com muito ateno. 
- uma pergunta capciosa, no? -sugeriu- Quando eu responder, alguma feminista saltar da porta, gritando: "Porco machista!" 
-No -lhe assegurei- O que preciso, justamente,  uma resposta machista. 
-Ah, bom. De acordo. -Retomou sua inspeo enquanto eu me mantinha bem erguida- Uma branca flacura, com muito cabelo, mas com um traseiro estupendo -disse por fim- 
E boas tetas. Era isso o que queria saber?
Sim. -Abandonei a rigidez de minha postura- Era isso, exatamente. No  algo que eu possa perguntar a qualquer um. 
Ele ampliou os lbios num som silencioso. 
- Lady Jane! Ento tens um homem  vista! 
O sangue me subiu s bochechas mas tratei de conservar a dignidade. 
-No sei. Pode ser. Pode ser. 
-Pode ser, uma ova! Por Cristo, lady Jane, j era hora!
-Deixa de tagarelar -disse-. No  o que convm a um homem de tua idade e de tua profisso. 
-De minha idade? Maltrata! -olhou-me astutamente- Ele  mais jovem do que voce.  isso que te preocupa? 
-No muito. -O rubor comeava a ceder- Mas faz vinte anos que no o vejo. Voce  o nico que me conhece a mais tempo. Acha que mudei muito desde que nos conhecemos? 
Olhava-o de frente, exigindo franqueza. Ele tirou os culos para me observar. Depois voltou a p-los. 
-No -disse- Mas ningum muda, a no ser que engorde. 
-Como que no?
-Nunca foste s reunies de antigos alunos? Quando v algum depois de vinte anos, em uma frao de segundo pensas: "Por Deus, como mudado est!" Mas nos dois minutos, 
passada a impresso, ds-te conta de que  o de sempre, com alguns cabelos brancos e algumas rugas. 
Depois perguntou suavemente: 
- o pai de Bree? 
Levantei bruscamente a cabea. 
-Como diabo se deu conta? 
Ele sorriu.
-Quanto tempo faz que conheo a Bree? Dez anos pelo menos. -Mexeu a cabea- Parece muito com voce, lady Jane, mas nunca encontrei nada de Frank. Seu pai  ruivo, 
no? E um bom pedao de homem, ou tudo o que me ensinaram em gentica era mentira. 
-Sim -confirmei, sentindo entusiasmo ante aquela simples admisso. No tinha falado de Jamie com ningum durante vinte anos. O prazer de poder mencion-lo livremente 
era embriagante- Sim,  grande e ruivo. Escocs. 
Joe voltou a dilatar os olhos. 
-E Bree est agora na Esccia? 
Assenti. 
- por Bree que devo pedir-te esse favor.
Duas horas depois abandonei o hospital pela ltima vez, depois de deixar uma carta de renncia dirigida  direo, e todos os documentos necessrios para a administrao 
de meus bens at que Brianna fosse maior de idade. No ltimo documento, que entraria em vigncia nessa data, deixava-lhe tudo a ela. 
Ao sair do estacionamento experimentava uma mistura de pnico, pena e regozijo. Estava  caminho.










CAPTULO 21
Q.E.D

Inverness
5 de outubro de 1968

- Eu encontrei a escritura. Roger falou excitado. Na estao de Inverness tinha contido com grande dificuldade quando Brianna me abraava e  quando guardamos a bagagem. 
- o testamento de Lallybroch? - Eu inclinei no assento traseiro para poder ouv-lo apesar do rudo do motor. - sim, a escrita que Jamie, seu Jamie, doa a propriedade 
a seu sobrinho, Jamie o menor. - Est no casaro - Brianna examinou - ns no ousamos traz-la; Roger teve que assinar com sangue para que emprestassem a ele da 
coleo do SPA.
 Estava com a pele corada pela excitao e pelo frio; havia umas gotas da chuva em seu cabelo avermelhado. Eu sorri com uma mistura de afeio e de pnico a isso. 
Era possvel que estava pensando sobre a nossa separao? - Voc no vai advinhar o que ns encontramos! - voc encontrou - Roger apertou o joelho dela corrigindo. 
Ela correspondeu com um olhar intimo onde meus alarmes maternais se ligaram em um instante. Como j est isso!
-Do que se trata?-perguntei. Sorriso de orelha a orelha
-J vai ver, mame-disse Bree com uma irritante presuno
-V-disse vinte minutos depois ante o escritrio do casaro.
Na maltratada superfcie havia um monte de papis amarelos com as bordas manchadas e escurecidas
- um texto de um artigo- me disse Roger, folheando um monte de volumes que tinham no sof- Foi publicado em um periodo chamado Forrester's, impresso em 1765 por 
um tal Alexander Malcolm en Edimburgo.
Engoli a saliva; a primeira vista o vestido me pareceu um pouco apertado:no momento em que eu separara de Jamie at 1765 haviam se passado 20 anos.
-Olha, aqui est a verso publicada. Voce ve a data? 1765. E coincide exatamente com este manuscrito, somente no inclui algumas notas.
- Sim.  a escritura da propriedade-eu disse.
-Aqui est.-Brianna fuou apressadamente a primeira gaveta para tirar um papel muito enrugado e protegido num fundo plstico.
De meu punho e letra, dizia a escritura, executada com tanto esmero que somente o exagerado vnculo mostrava seu parentesco com seu descuidado manuscrito, James 
Alexander Malcolm MacKenzie Fraser. E embaixo das linhas onde estavam as assinaturas das testemunhas. Em letra fina e pequena, <<Murtagh FitzGibbons Fraser"; embaixo 
com minha letra grande e redonda, "Claire Beauchamp Fraser".
- isto no ?-indicou Roger em voz baixa. Um leve tremor em suas mos desmentia sua serenidade exterior-Tem tua assinatura. uma prova indescutvel...se caso precisrmos-acrescent
ou dando uma olhada em Bree.
Ela sacudiu a cabea desejando que os cabelos ocultem o rosto. Nenhum deles duvidava.O desaparecimento de Gillian Duncan atravs das pedras, cinco meses antes, era 
prova suficiente da verdade de meu relato.
- voce mesmo, mame?-Bree se inclinou, ansiosa perante as pginas- O artigo no estava assinado.Quer dizer tinha assinatura, mas era um pseudnimo.- Sorriu- O autor 
assinou com as iniciais "Q.E.D." A letra parece a mesma, mas no somos graflogos. E no preciso levar, basta voce me dizer.
-Me parece que sim - Eu me sentia sufocada mas tambm muito segura, incrdula de alegria.-Sim, acho que foi Jamie que escreveu.
Q.E.D, precisamente! Senti um absurdo impulso de arrancar as pginas manuscritas do fundo para apert-las entre as mos e tocar a tinta e o papel que eu havia tocado. 
Era a prova segura de que havia sobrevivido.
-H mais. -Na voz de Roger transludia o orgulho- V isto? um artigo contra a Lei de Comrcio Interior de 1764, condenando as restries de exportao de licor das 
Terras Altas escocesas a Inglaterra.Aqui est.-Seu dedo se deteve subitamente em uma frase <<pois como se sabe ha muitos sculos,a liberdade e whisky andam juntos>> 
Essa frase est em dialeto escocs e entre aspas. A copiou de outra parte.
    -A copiou de mm -expliquei suavemente- Eu lhe  disse isso quando se preparava para roubar o vinho do prncipe Carlos.
    -Sim, eu recordo -confirmou Roger com los olhos brilhantes de entusiasmo.
    -Porm  uma citao de Burns -sinalizei , franzindo a testa - O escritor pode tom-la de... Burns j exista naquela poca ?
    -Sim -respondeu Bree muito rpida adiantando-se a Roger- Porm em 1765 Robert Burns tinha seis anos.
    -E Jamie, quarenta e quatro.
    De repente tudo pareca real. Ele estava vivo... hava estado vivo, me corrig, tratando de dominar minhas emoes. Apoiei os dedos trmulos nas pginas manuscritas.
    -E se... -tive que interromper-me para tragar a saliva.
    -E se o tempo corre paralelo, como cremos... -Roger tambm se interrompeu, olhando-me.
    Logo desviou os olhos para Brianna. Ela estava muito plida porm mantinha os lbios e os olhos firmes. Quando me tocou a mo, seus dedos estavam quentes.
    -Ento podes voltar, mame -disse suavemente- Podes ach-lo.
    -Posso atend-la, senhora?
    A vendedora me olhava como um pequins desejoso de ajudar.
    -Tens mais vestidos antigos como estes? -Apontei o cabide que tnha diante de mm  cheio de saias largas e corpetes de encaixar, algodo e veludo.
    -Oh, sim. Hoje mesmo recebemos vrios destes modelos de Jessica Gutenburg. No so preciosos? Por aqu, senhora. Onde est esse letreiro?
    O letreiro diza: CAPTURE O ENCANTO DO SCULO XVIII, em grandes letras brancas. Escolhi um de veludo de  cor creme.
    -Esse lhe ficara perfeito -assegurou a pequinesa.
    -Pode ser, porm no   muito prtico. Pode sujar muito.
    -Oh, olhe esses vermelhos!
    -Muito vistosos. No  necessario  passar por uma prostituta, certo?
    A pequinesa me olhou com sobressalto; logo decidiu que era uma piada e a festejou com um risinho.
    -Este sm -disse com deciso-  perfeito para voc.
    Na realidade, era quase perfeito: largo at o cho, com mangas trs quartos terminadas em encaixe, de uma cor dourado intenso com reflexos pardos e ambarinos.
    -Quer prov-lo? Por aqu.
    -No sei -disse vacilante-  encantador, porm...
    -Oh, no v pensar que  muito juvenil para voc -me assegurou a pequinesa, muito sria-. Porm  sem  nada lhe daria mais de vinte e cinco anos! Bom, trinta, 
talvez -corrigiu sen convicco depois de lanar-me  uma olhada.
    -Obrigada -disse secamente-, porm no estava pensando nisso. Suponho que no h vestidos como este sem zper, ou tem?
    -Sem zper? Eh... no, no creio.
    -Bom, no se preocupe. -Com o vestido pendurado no brao, me dirigi at o provador-Se eu levar, os zperes  sero o menor dos meus  problemas...














Captulo 22
Vspera de Todos os Santos

-Dois guins de ouro, seis soberanos,vinte e trs chilings, dezoito florins, nove peniques, dez e meio peniques, e ....doze cobres.
Roger deixou cair a ltima moeda no monte tilinteante, depois procurou no bolso da camisa.
- Ah,  isto. - Retirou uma pequena bolsa de plstico com pequenas moedas de cobre - Doits - explicou -, a moeda escocesa de menor valor na poca. As maiores somente 
te serviriam para comprar um cavalo ou algo assim.
-  curioso - comentei - estas moedas valem agora muito mais do que valiam ento, mas o que se pode comprar com elas  mais ou menos o mesmo. Isto equivale a seis 
meses de rendimentos de um pequeno agricultor.
- Esqueo que voc conhece tudo isto - disse Roger -: quanto valiam as coisas e como se vendiam.
-  fcil  esquecer - disse contemplando o dinheiro.
No limite do meu campo de viso vi que Bri se aproximava subitamente de Roger, e ele segurou automaticamente sua mo. Respirei fundo, desviando os olhos dos pequenos 
montes de ouro e prata.
- Bom, pronto. Samos para comer alguma coisa?
Jantaram numa das cantinas da Rua River sem falar muito. Clarie e Brianna dividiram um dos bancos e Roger se sentou  frente. Apenas se olhavam, mas ele as via se 
tocando com freqncia.
Perguntou-se como ele se comportaria na mesma situao. A todas as famlias chega o momento da separao, mas com mais freqncia  a morte que intervm para cortar 
os laos entre pais e filhos. Quando se levantaram para sair apoiou uma mo no brao de Claire.
- S para me satisfazer - disse - quer tentar algo?
- Suponho que sim - disse ela sorridente - Do que se trata?
- Passe pela porta com os olhos fechados. Quando estiver l fora os abra. Depois vem me dizer o que foi que viu primeiro.
Ela contraiu a boca, divertida.
- Bem. Esperemos que o primeiro no seja um policial, ou ter que ir me tirar da priso por distrbios na rua.
- Desde que no seja um pato....
Claire o olhou com estranheza, mas foi at a porta da cantina, obediente, e fechou os olhos... Brianna a viu desaparecer.
- Qual  a idia, Roger? - perguntou levantando as sobrancelhas acobreadas - Patos!
-  somente um costume antigo - explicou ele sem retirar os olhos da entrada - Samhain, o dia de Todos os Santos,  uma das festas em que se costumava adivinhar 
o futuro. E uma maneira de adivinh-lo era caminhar at o fundo da casa e sair com os olhos fechados. O que primeiro via ao abri-los era um pressgio para o futuro 
prximo.
- Os patos so maus pressgios?

- Depende do que esto fazendo - disse ele com ar distrado -. Se tm a cabea embaixo da asa significa a morte. Por que est demorando tanto?
 - Seria melhor que fossemos ver - sugeriu Brianna nervosa.
Mas no momento em que estavam chegando na porta, o vitral escureceu e viram aparecer Claire um pouco agitada.
- No imaginam o que vi primeiro! - exclamou rindo.
- No seria um pato com a cabea embaixo da asa? - perguntou Brianna preocupada.
- No. Um policial. Virei  direita e me choquei nele.
- Vinha em sua direo? - Roger se sentia inexplicavelmente aliviado.
- Sim, quase o empurrei de frente.
- Indica boa sorte - assegurou Roger sorrindo - Se no Samhain voc v um homem vindo em sua direo significa que encontrar o que busca.
- Verdade? - ela o olhou com ar intrigado. Logo seu rosto se iluminou com um sorriso sbito -. Estupendo! Vamos celebrar em casa, querem?
- A reserva nervosa que haviam mantido durante todo o jantar parecia ter-se desvanecido subitamente, substituda por uma espcie de entusiasmo.
- J tem o dinheiro - comentou Roger pela dcima vez.
- E a capa - acrescentou Brianna.
- Sim, sim, sim - confirmou Claire impaciente -. Tudo o que necessito, ao menos, tudo o que posso levar - corrigiu. Depois de uma pausa, apertou impulsivamente as 
mos de Bri e de Roger.
- Obrigada, obrigada aos dois - disse com os olhos midos e a voz rouca -. No posso expressar o que sinto. Mas vou sentir muitas saudades de vocs, queridos!

Bri e ela se abraaram. Quando se separaram, entre soluos, Claire apoiou uma mo na bochecha de sua filha.
- Seria melhor se eu subisse - murmurou - Ainda tenho coisas a fazer. At amanh, pequena. - Se colocou na ponta dos ps para dar um beijo no nariz de sua filha 
e saiu apressadamente.
Brianna voltou a sentar-se, dando um suspiro profundo. E ficou contemplando o fogo enquanto girava lentamente um copo de coca-cola entre as mos. Roger foi fechar 
as janelas e colocar ordem no quarto. Quando se virou para Brianna a viu ainda imvel, com o olhar fixo no mesmo lugar. Sentou-se junto a ela e pegou sua mo.
- Talvez possa regressar - lhe disse suavemente - No o sabemos.
- No creio - replicou ela - J te contei como era. Talvez nem se possa cruzar.
Roger lanou um olhar para a porta para se assegurar que Claire j estava no andar de cima.
- Seu lugar  junto dele, Bri - disse - No percebe? Quando diz seu nome....
 - Percebo. Sei que necessita dele. - O lbio inferior lhe tremia um pouco - . Mas....eu tambm preciso dela!
Roger acariciou seu cabelo, maravilhado com a suavidade dos fios que deslizavam entre seus dedos. Queria abra-la, mas ela estava rgida e insensvel.
- Voc j  maior, Bri - objetou - J vive sozinha, no ? Pode a querer, mas no a necessita como quando era pequena. No te parece que ela tenha o direito de ser 
feliz?

- Sim, mas....no compreendes, Roger! - explodiu. E se virou para ele com os lbios apertados, engolindo a saliva com dificuldade -. Ela  a nica coisa que me resta. 
Ela e papai...Frank - se corrigiu - eram os que me conheciam desde sempre, os que me viram dar os primeiros passos, os que se orgulharam quanto me destacava na escola.
As lgrimas a interromperam, deixando rastros brilhantes  luz do fogo.
-  como se  ... existissem tantas coisas que no sei...Oh Roger, se ela vai no restar ningum no mundo que me considere especial s por ser eu mesma. Ela  a 
nica pessoa a quem importa que eu tenha nascido....Se se vai....
Colocou-se de p, com as mos apertadas na boca contrada pelo esforo de dominar-se. Logo relaxou os ombros e sua alta silhueta perdeu a tenso.
- O que estou dizendo  bobo e egosta - murmurou em tom razovel - No me entendes e acreditas que sou muito m.
- No - assegurou Roger em voz baixa. Aproximou-se para abraar sua cintura com os braos, recostando-se contra ela - Nunca o pensaria. Lembra-se daquelas caixas 
na garagem?
- Quais? - perguntou ela, tratando de rir - Existem centenas.
- As que dizem 'ROGER'. Esto cheias de trastes guardados por meus pais. Fotos, cartas, roupas de beb, livros e coisas velhas. Quando o reverendo me trouxe para 
viver com ele, as guardou com se fossem documentos histricos preciosos: em caixas duplas e protegidos contra as traas.
Se moveu lentamente, levando-a consigo enquanto contemplava o fogo por cima do ombro de Brianna.

- Uma vez o perguntei para que as conserva se eu no queria nada daquilo. Mas ele me disse que era melhor guard-las porque era a minha histria. Disse que todos 
precisamos ter nossa histria.
- Alguma vez abriu essas caixas?
Roger sacudiu a cabea.
- No importa o que contenham - sussurrou - S importa que estejam l.
Logo retornou para vir-la para ele.
- Voc se engana, sabe? - disse segurando suas mos - Sua me no  a nica que se importa.
Brianna estava deitada havia pouco tempo, mas Roger se dirigiu ao estdio, contemplando as chamas que morriam na lareira. O rudo dos passos na escada o arrancou 
de seu pensamentos. Era Claire.
- Pensei que voc estaria acordado - disse. Estava de camisola.
Estendeu a mo e com um sorriso a convidou para entrar.
- Nunca pude dormir no dia de Todos os Santos. Depois dos contos que meu pai me contava ....sempre me parecia ouvir os fantasmas a falar em minha janela.
Riram juntos; logo se fez entre eles um daqueles silncios incmodos que haviam marcado a noite. Claire se sentou junto a ele, contemplando o fogo, suas mos se 
moviam inquietas entre as pregas da camisola. A luz cintilava nos seus dois anis de casamento, ouro e prata, em fascas de fogo.
- Eu cuidarei dela, j sabes - disse Roger por fim em voz baixa - Ou no sabes?
- Sim - disse ela com suavidade.

Ele viu tremer as lgrimas em seus clios. Claire procurou no bolso de sua bata e tirou um grande envelope branco.
- Voc dir que sou uma covarde miservel, e est certo. Mas...francamente...no acredito poder faz-lo. Despedir-me de Bri, quero dizer - Fez uma pausa para dominar 
a voz.  Depois lhe deu o envelope. - Coloquei tudo por escrito...tudo o que pude...Faz??
Roger pegou o envelope, quente pelo contato com seu corpo.
- Sim - disse com voz rouca - Isso significa que voc ir....
- Cedo - confirmou ela respirando fundo -. Antes do amanhecer. Combinei com um carro para que viesse me buscar - retorceu as mos no colo - Se me... - Mordeu o lbio, 
e olhou suplicante para Roger - No sei, compreende? No sei se poderei faz-lo. Tenho muito medo. Medo de ir. Medo de no ir. Medo, simplesmente.
- Eu tambm o teria.
Estendeu a mo e Claire a aceitou. Depois de um momento, a estreitou e soltou.
- Obrigada, Roger - disse - Obrigada por tudo.
Se inclinou para um beijo ligeiro em seus lbios. Depois se foi como um fantasma branco na escurido do vestbulo levado pelo vento do Halloween.








CAPTULO 23
Craigh na Dun

O ar do amanhecer era frio e brumoso, me alegrei em levar a capa.
-Aqui? - perguntou o taxista dando uma olhada hesitante na paisagem deserta - Est segura?
-Sim - disse meio sufocada pelo terror -  aqui.
-Sim? - Ainda duvidava, apesar do dinheiro que acabava por em suas mos - Quer que eu a espere, senhora? Ou voltars mais tarde?
Senti uma forte tetao de aceitar. E se me faltar coragem?
-No - respondi engolindo saliva - No, no  necessrio.
Sim no podia faze-lo teria que voltar a Inverness caminhando, isso era tudo. Talvez Roger e Brianna viriam me buscar; isso me parecia pior. Ou seria um alvio?
L estava eu andando.
No podia. Pensei em Bree, tal como a v na noite anterior, aparetemente dormindo em sua cama. Entrei em pnico enquanto comecei a perceber a proximidade das pedras. 
Alaridos, caos, a sensao de desgarramento. No podia.
No podia mas continuava escalando, com as mos suadas; meus pes se moviam como se j no estivessem mais o controle.
Quando cheguei l em cima j havia amanhecido. A neblina ficara pra trs. As pedras se faziam ntidas e escuras embaixo do cu cristalino.
Estavam sentadas em sua grama, frente a pedra fendida, frente a frente. Ao ouvir meus passos, Brianna girou at a mim.
Eu a olhei fixamente, muda de estupefao. Usava um modelo de Jessica Gutenburg muito parecido com o que eu vestia, mas de uma cor verde lima.
-Essa cor em voce fica horrvel - observei.
-No tinha nenhum com o tamanho trinta e oito - respondeu com serenidade.
-Em ome de Deus, quer me dizer o que ests fazendo aqui? - perguntei
 - Viemos para se despedir - disse Bree com um semisorriso nos lbios.
Olhei a Roger, que se encolheu um pouco nos olbros.
- Ah Sim. Bom.
A pedra se alava por detrs de Brianna; sua altura duplicava a de um homem.
- Se voce no for - disse ela com firmeza - eu irei.
- Voce? Voc est louca?
- No. -Enguliu saliva dando uma olhada na pedra fendida. Talvez era esse tom verde lima que dava em seu rosto uma certa palidez. - Estou certa de poder cruzar. 
Quando Gillian Duncan passou atravs das pedras, eu ouvi. Roger tambm. - Lhe deu uma olhada, buscando consolo; logo voltou a fitar os olhos em mim - No sei se 
poderia encontrar Jamie Fraser, talvez somente tu possas faze-lo. Mas se no ests disposta a tetar, eu farei.
Abri a boca mas no encontrei nada que dizer.
-No se da conta, mame? Ele deve saber. Deve saber que voce conseguiu, o que fez por ns o que desejava. Ns o devemos, mame. Algum tem que ach-lo para dizer. 
Me tocou as mos. - Dizer que eu nasci.
-Oh, Bree - exclamei com a voz to sufocada que apenas pude falar - Oh, Bree!
Ele se entregou a mim - continuou ela em um tom quase inaudvel. - Agora tenho que devolver a ele, mame.
Aqueles olhos, to parecidos com os de Jamie, me olhavam inundados pelas lgrimas.
- Se encontr-lo... - sussurrou - Quando encontrares meu pai...d isto a ele. - Se inclinou para me dar um beijo; logo ergueu as costas e me fez girar para a pedra 
- Olha, mame - disse sem alento - Eu te amo. 
Pelo canto do olho eu vi Roger se aproximando dela. Dei um passo; logo, outro. Ouvi um ruido, um vago rugir. Dei o ltimo passo e o mundo desapareceu.

























   SEXTA PARTE
   Edimburgo
















CAPTULO 24
A. Malcolm, tipgrafo

Meu primeiro pensamento coerente foi: <<Est chovendo. Isto deve ser Esccia>> Abri um olho com certa dificuldade. Tinha a plpebra grudada; sentia o rosto frio 
e inchado, como de um cadver submerso.
Estava chovendo, evidentemente: era uma suave e incessante barulho de chuva que levantava a tenua bruma de gotas na colina verde. Me levantei e de imediato cai para 
trs.
Oscilando, fechei os olhos para protege-los do aguaceiro. Comeava a ter uma pequena noo de quem era e onde estava. Bree. Seu rosto surgiu rpido em minha memria 
com uma sacudida que me arrancou uma exclamao, como se me tivessem dado um golpe no estmago.
Jamie. Aqui estava:  o ponto fixo que me havia apegado, meu nico apoio racional.
Respirei lenta e profundamente com as mos cruzadas sobre meu corao palpitante, buscando a imagem de Jamie.
Mais uma vez me forcei erguer. Desta vez mantive erguida apoiando-me com as mos. Estava na Esccia, claro. Dificilmente poderia estar em outro lugar mas tambm 
era na Escocia do passado. Ao menos eu esperava ser. Ao menos no era a Esccia que eu havia deixado.
No tinha idia alguma de quanto tempo havia passado desde que havia cruzado o crculo de pedras. Bastante tempo eu imaginava, a julgar pelo estado de minha roupa; 
estava empapada at a pele.
Debaixo de mim havia umas baias, roxas e negras entre a erva.<<Muito apropriado>>, pensei vagamente divertida. Havia cado debaixo de uma sorveira, a proteo dos 
escoceses contra a bruxaria e os encantamentos.
Me segurei em seu tronco liso para me por em p. Sempre apoiada a rvore olhei para o nordeste. Por ali estava Inverness. Em automvel e por estradas modernas, no 
demoraria mais de uma hora de viagem.
O caminho existia; divisa do contorno de uma tosca senda que rodeava a base da montanha; era uma linha escura e prateada entre a verde umidade das vegetaes. Sem 
emoo, fazer sessenta e tantos kilmetros a p se parecia em nada a viajar de carruagem.
De qualquer modo, estava viva. E eu estava aqui. Agora sabia. Ao comprender que provavelmente ficaria aqui para sempre, uma estranha calma se imps aos meus medos 
e vacilaes.No podia voltar. No havia mais remdio a no ser avanar...em sua busca.
Comeando a andar fiquei com calor. Me bastou uma rpida palmada para comprovar que meu estmago vazio havia feito a viagem comigo. Exceto talvez: a ideia de andar 
sessenta kilometros com estmago vazio no tinha nada de atrativo.
Com um pouco de sorte, no seria necessrio. Talvez haveria por aqui alguma aldeia com uma casa onde pudesse comprar um cavalo. De qualquer modo estava preparada. 
Meu plano consistia em chegar a Inverness e ali pegar um deligncia at Edimburgo.
Pensei em uma pequena livraria que eu passava todas as manhs por l, entre o estacionamento e o hospital . Um de seus cartazes dizia:<<Hoje s o primeiro dia do 
resto de tuas vida>> E outro:<<Uma viagem de mil kilometros se inicia somente com um passo>>
O mais irritante das frases feitas, me diz,que todas elas tinham razo.Me soltei do serbal e comecei a andar a colina abaixo, fazia meu futuro.
A viagem entre Inverness e Edimburgo foi longa e incomoda; ia em uma carruagem grande com outras duas senhoras,um insuportvel menino de uma das senhoras e quatro 
cavaleiros de diversos tamanhos e humores.
Junto a mim se sentava o senhor Graham, homem vivaz, j avanando nos anos, com uma bolsa de cnfora pendurado na cintura como soluo para dispersar os malignos 
humores da gripe.
Normalmente, o pudor das damas requer que a deligencia se disperse a cada hora para que os passageiros se dispersem pela vegetao, atravs do caminho.   
Atrs um deles mudou, o senhor Graham descobriu que seu assento havia sido invadido pelo senhor Wallace, um jovem advogado rechonchudo. Os detalhes de seu trabalho 
de letrado no me eram to fascinantes como so, mas, nessas circunstncias ,me tranquilizou um pouco notar sua obvia atrao por mim.Passei vrias horas jogando 
xadrez com ele em um pequeno tabuleiro de bolso.
A expectativa de poder encontr-lo em Edimburgo acabava que distrada devido as incomodidades da viagem e das complexidades do xadrez. A Malcolm: o nome me rondava 
a mente como um hino de esperana. A. Malcolm. Teria que ser Jamie, sem dvida. James Alexander Malcolm Mackenzie Fraser.
- Considerando o modo em que aconceteceu os rebeldes das Terras Altas depois de Culloden, seria muito razovel que, em um lugar como Edimburgo, utilizara um nome 
suposto - me havia explicado Roger Wakefield- Depois de tudo, era um traidor convicto. Ao que parece, isso se converteu em um costume para ele - falou com um ar 
crtico, observando o manuscrito da stira contra os impostos - Para aquela poca, isto se parece muito com a rebelio.
- Sim assim era Jamie - disse secamente. Mas o meu corao saltitava ao ver aqueles garranchos. Meu Jamie.
O tempo estava bom, apesar da estao, somente alguma chuva ocasional nos perturbava na viagem.
O completamos em menos de 2 dias, com quatro paradas para mudar os cavalos e tomar um ar.
Em Edimburgo, a carruagem se deteve detrs de uma taberna de Boyd, prximo ao Royal Mile. Eu tinha as pernas entumecidas depois de estar tanto tempo sentada; ainda 
assim eu tinha pressa, com a esperana de escapar do ptio enquanto meus dignos companheiros estavam ocupados com seus petences.No tive sorte: O senhor Wallace 
me alcanou prximo da rua.
-Senhora Fraser - disse- Me concederias o prazer de te acompanhar at ao seu destino? Sem dvidas necessitara de ajuda para transportar sua bagagem.
-Eh...Obrigada, mas... vou deixar minha bagagem a cargo do proprietrio. Meu...Meu... - Busquei freneticamente uma explicao - O servente de meu esposo vir depois 
busc-lo.
A cara redonda se alargou um pouco ao ouvir a palavra <,esposo>> mas se recuperou com gentileza, fazendo uma reverncia.
- Compreendo. Permita-me expressar meu profundo agradecimento pelo prazer de ter vossa companhia durante a viagem, senhora Fraser. Talvez voltamos a nos encontrar. 
- Se ergueu para estudar o tumulto que passava junto conosco - Vosso esposo vir busc-lo? Me encantaria conhece-lo.
- No. Me encontrarei com ele mais tarde - Eu disse- Foi um prazer encontr-lo, senhor Wallace, eu espero voltar a ve-lo.
Lhe estendi a mo com entusiasmo, com o qual eu acabei aturdindo-o com tempo suficiente para escapulir dentre a multidode passageiros, transportadores e vendedores 
de ruas.
Me detive no meio da ladeira, ofegando como uma batedora de carteiras fugitiva. Aqui havia uma fonte pblica em cuja beira me sentei para recobrar o folego.
Estava aqui, realmente. Edimburgo se alava atrs de mim,das cintilantes alturas do Castillo at ao Palcio Holyrood, ao p da cidade.
Tinha muita fome; no havia comido nada desde o apressado caf da manh de pur e cordeiro fervido, pouco depois da alvorada. Ainda que levava um sanduiche em meu 
bolso mas no havia tido coragem de comelo, devido aos curiosos olahres de meus companheiros de viagem.
Eu tirei para devolve-lo novamente cuidadosamente. Manteiga de cacau e gelia com rabanadas no po branco; estava bastante maltratado, achatado e com manchas purpuras 
da gelia no po molahdo. Mas estava delicioso.
Depois de comer o ltimo pedao, rico e doce, de minha vida anterior, dpbrei a minha capa.
Olhei para vistar ao redor, mas ningum me olhava. Abrindo a mo, deixei que um pequena capa plstica cair no cho. Mer perguntei se essa anacrnica presena lhe 
causaria danos com aquele objeto.
-Voce est se distraindo,Beauchamp - disse pra mim mesma -  hora de continuar.
Eu me levantei, respirando profundamente. Logo segurei pela manga um entregador da padaria.
- Desculpa. Busco um tipgrafo, o senhor Malcolm. Alexander Malcolm  - disse com uma mescla de medo e entusiasmo. Deve haver alguma imprensa aqui em Edimburgo em 
nome de Alexander Malcolm?
-Oh sim, senhora. Rua abaixo, a sua esquerda. Carfax Close.
Carfax Close. Dei um passo entre a multido, prxima aos edifcios para evitar as ocasionais chuvas que se lanavam pela ventania.
Bem adiante inspirava a escura e baixa entrada de Carfax Close, do outro lado da Royal Mile.
Me detive ao v-la, o corao me palpitava de tal modo que podia ter tido um ataque em um metro de distncia.
No chovia mas faltava muito pouco; a umidade do ar me enrolava o cabelo. Mas eu ajeitei na frente, sujeitando-o como pude na falta de espelho.Ao ver uma grande 
vitrine cilindrado, avancei s pressas.
Dentro do local havia uma mulher apoiada no balco. Lhe acompanhvam 3 meninos pequenos que vi de relance. O lugar era uma farmacia; com nome de Haugh, pintado sobre 
a porta, me provocou um calafrio de reconhecimento. Em minha breve temporada anterior em Edimburgo havia comprado algumas ervas ali.
-Que o diabo te leve pequeno rato! - dizia uma mulher a um menino pequeno - No te disse mil vezes para manter suas mos em seus bolsos?
- Desculpe - eu interrompi, empurrada por uma curiosidade irresistvel.
- Sim - Arrancada de suas chamadas maternais, a mulher me olhou inexpressivamente.
- Estava admirando o seus filhos - eu disse, fingindo-me calma como pude - Que meninos to bonitos! Que idade eles tem?
   Ficou boquiaberta. O gesto confirmou a ausencia de vrios dentes. Logo exclamou tagarelando.
- Oh, bom, que amavel  a senhora. ...esta, Maisri, tem dez anos. Acenou com a cabea a maior, que estava limpando o nariz na manga - Joey, oito e tira o dedo do 
nariz asqueroso! - Logo se voltou para dar uma palmadinha orgulhosa a mais pequena - A pequena Polly cumpriu seis em maio.
Nossa! - a olhei com assombro - No posso crer que tenhas filhos com essa idade. Deve ter casado muito jovem.
- Oh, no!Nada disso. Eu j tinha dezenove anos quando Maisri nasceu!
- Assombroso - disse. Busquei em meu bolso para oferecer um pequenique a cada um dos meninos, que aceitaram com tmidas reverencias de gratitude - Eu os desejo um 
bom dia...e minhas felicitaes pela to encantadora famlia - disse a mulher.
Me afastei com um sorriso. Dezenove anos ao nascer a maior, que agora tem 10 anos. A mulher tem vintenove anos. Eu sou benzida por ter uma boa alimentao, higiene 
e odontologia, sem o desgaste das numerosas doenas e das duras tarefas fsicas, eu parecia muito mais jovem que ela. Respirei fundo, enchi o peito para tras e desmoronei 
nas sobras de Carfaz Close.
Era um beco largo e serpenteante; a imprensa estava no comeo. Nos lados havia edificios de locaes e construes prsperas, mas somente no cho prestei ateno 
ao delicado letreiro branco que pendia junto a porta.

A. MALCOLM
IMPRESSOR E LIVREIRO
Livros, cartes de visita, panfletos, cartas
Alonguei a mo para tocar as negras letras do nome. Malcolm. Alexander Malcolm. James Alexander Malcolm MacKenzie Fraser. Talvez.
Se demorasse um pouco mais perderia a coragem. Empurrei a porta e entrei.
Um largo balco cruzava o quarto frente com a porta, com um tampo aberto e uma estante ao lado com vrias bandeijas de caracteres. A porta aberta da porta de trs 
deixava a mostra um bloco de uma imprensa. Inclinado sobre ela, de costas para mim, estava Jamie.
- voce, Geordie? - Perguntou sem se virar. Vestia camisa e cala de montar, nas mos tinha uma pequena ferramenta com que estava fazendo algo dentro da imprensa 
- Voce demorou bastante. Conseguiu esse...?
 - Aqui no  nenhum Geordie - disse. Minha voz saiu mais aguda que de costume - Sou eu. Claire.
Se ergueu com muita lentido. Havia deixado crescer os cabelos: um grosso rabo de intenso ruivo dourado, com reflexos de cobre. Me olhou sem falar. Um tremor lhe 
recorreu em seu pescoo musculoso, como se para engulir a saliva, mas acabou no dizendo nada.
Era a mesma cara larga e cheia de bom humor, os mesmos olhos da cor azul escuro, enviesados sobre os altos pmulos de viking, a boca larga, com uma borda de sorriso. 
As linhas que rodeavam os olhos e a boca eram mais profundas, claro. O nariz havia mudado um pouco: a ponta estava mais afiada, se engrossava mais acima por uma 
antiga fratura.
Cruzei pela porta do balco sem ver mais que seus olhos. Pigarrei.
- Quando voce fraturou o nariz?
A comissura de sua boca larga se elevaram um pouco.
- Uns tres minutos depois de ver-te pela ltima vez...Sassenach.
Havia uma vacilao no nome, quase que uma pergunta. Apenas nos separavam trinta centmetros. Alonguei a mo para tocar na pequena linha da fratura.
- s real - sussurou.
Se eu havia parecido ver-lo plido, em um momento seu rosto perdeu todo vestigio de cor.
Seus olhos se puseram em branco. Caiu contra a porta, fazendo chover papeis e objetos diversos que estava sobre a imprensa. Pensei, distrada, que caia com bastante 
graa para um ser to corpulento.
Era s um desmaio; quando me rodeei ao seu lado para afrouxar sua camisa, seus olhos j comeavam a piscar. Estava recobrando sua saudavel cor normal. Me sentei 
no cho com as pernas cruzadas para apoiar sua cabea em meu colo e acariciei seu cabelo denso e suave. Abriu os olhos.
- To grave ? - eu perguntei sorrindo. Eram as mesmas palavras que eu havia dito no dia de nosso casamento, sustentando a cabea em meu colo, mais de vinte anos 
atrs.
 -Tanto e mais, Sassenach - respondeu desenhando algo parecido com um sorriso. Se sentou bruscamente para me olhar fixamente - Meu Deus do Cu, s real, sim!
- Voce tambm. - Levantei o queixo para olh-lo- Pensava...pensava que estava morto. - Queria falar com rapidez, mas minha voz me traiu.
No sei quanto tempo passamos assim, sentados no cho empoeirado, abraados e chorando a saudade de vinte anos.
Ele envolveu os dedos em meu cabelo e tirou at solt-los. Os grampos cairam, ressonando no cho como granizo. Eu tinha os dedos afundados em seu brao, como se 
pudesse desaparecer se ele no me prender fisicamente.
Eu mesma presa desse mesmo tremor, me segurei bruscamente pelos seus ombros para no perder. Me olhou desesperadamente, levantando uma mo para seguir a linha de 
meus ossos, uma e outra vez, sem prestar ateno nas lgrimas que me chorreava o nariz.
-Me d isso - Lhe tirei o pano para soar com firmeza - Agora voce. - Houve um grasnido de ganso estrangulado. R como uma menina, desfeita pela emoo. Ele sorrio 
tambm sem deixar de me olhar.
De perto eu no pude me conter para no toc-lo. Me joguei contra ele, que levantou os braos no mesmo tempo para me receber. Eu apertei at que rangesse as costas 
enquanto me acariciava as costas, repetindo meu nome muitas vezes.
Por fim pude solt-lo e me incorporei um pouco. Ele deu uma espiada pelo cho, entre suas pernas, com o cenho franzido.
- Perdeu algo?  -perguntei  surpreendida
Levantou os olhos com um sorriso um pouco tmido.
-Temia ter-me descontrolado a ponto de urinar-me, mas no. Eu havia sentado em um jarro de cerveja.
Um aromtico charco de liquido pardo estava se estendendo pouco a pouco embaixo dele. Com um grito de alarme, me coloquei  em p e o ajudei a fazer o outro tanto. 
Depois de um vo esforo para avaliar os danos na parte de trs, Jamie se encolheu de ombros e optou em desabotoar as calas. Se deteve ao sentir sentir descer pelas 
pernas, ficou ruborizado.
-No tem problema -eu disse sentindo um intenso rubor cubrindo as bochechas - Estamos casados. - Mas abaixei os olhos um pouco sufocada. - Eu acho, pelo menos.
Ele me olhou fixamente; logo um sorriso se curvou em sua boca larga e suave.
- Estamos casados,sim. - J livre das calas manchadas, avanou para mim.
Alonguei a mo, tanto para dete-lo como para dar boas vindas. Se deteve a um palmo para pegar minha mo. Seus dedos se detiverram em meu anel de prata.
- Eu nunca tirei ele - balbuciei. Me parecia importante que ele soubesse.
Me estreitou levemente a mo, sem soltar o anel.
- Quero...- Engoliu saliva e buscou o anel de prata com os dedos, mais uma vez - Tenho muito desejo de beijar-te - disse docemente - Posso?
-Sim - sussurrei.
Me puxou lentamente para s, retendo a minha mo contra seu peito.
- Faz muito tempo que no fao isto - eu disse. A sombra e o medo escureceu no azul de seus olhos.
- Eu tampouco.
Me segurou o rosto entre as mos, com muita suavidade, e apoiou a boca contra a minha.
No sabia dizer o que eu esperava. Uma repetio da fria desatada que havia acompanhado nossa separao final? Mas agora ramos desconhecidos, nos tocamos lentamente, 
pedindo e aceitando uma muda permisso com os lbios calados. Ns dois mantivemos os olhos fechados. Simplesmente, tinhamos medo de olhar-nos.
Afastou os lbios dos meus, cruzando-os pelas minhas bochechas, os olhos.
-Eu te v tantas vezes... - me sussurou ao ouvido - Vinhas a mim com tanta frequencia...As vezes quando sonhava. Quando tinha febre. Quando me sentia to assustado 
e solitrio que pedia para morrer.
Quando me fazias falta te via sempre,sorrindo, com o cabelo cacheado ao redor do rosto. Mas nunca dizias nada. E nunca me tocavas.
- Agora posso tocar-te.
- No tenhas medo - disse suavemente - Agora estamos juntos.
Podiamos ter ficado indefinidamente assim, de p e olhando-nos, se no houvesse sonado a campanhia da porta. Soltei a Jamie para girar bruscamente. Um homenzinho 
fibroso, com rebelde cabelo negro, nos olhava boquiaberto da estrada com um pequeno pacote nas mos.
- Ah, voce chegou, Geordie! Por que demorou tanto? - Perguntou Jamie.
Geordie no disse nada mas seus olhos no perdiam a direo em seu patro: com as pernas desnudas, com camisa, cala e calado espalhados pelo cho e eu em seus 
braos, com o vestido enrugado e meu cabelo solto. Seu rosto se enrugou com um cenho de censura.
- Me demito - disse com a rica entonao de um oeste da Esccia - Meu trabalho de imprensa  uma coisa, mas isso de trabalhar para um catlico imoral  outra bem 
distinta. Fazia porque gostava de sua alma, homem, mas se tem orgias em seu negcio isto j  demais. Me demito!
Depositou o pacote no centro do balco e girando sobre seus calcanhares, marchou at a porta.
-E ainda no  nem meio-dia - acrescentou.
A porta se fechou estrondosamente atrs dele. Jamie ficou olhando-a por um momento;logo se deixou cair lentamente ao cho, rindo tanto que seus olhos se encheram 
de lgrimas.
- E ainda no so nem meio-dia! - repetiu secando as lgrimas - Oh, Geordie, por Deus!
No pude deixar de rir tambm,embora estivesse preocupada.
- No queria causar-te problemas - disse - Acredita que ele voltar?
Sorveu pelo nariz, limpando o rosto com a manga da camisa.
- Oh, sim. Vive cruzando a rua, em Wickham Wynd. Dentro de pouco tempo irei ve-lo para...para explicar-lhe - disse. Me olhou como se estivesse comeando a compreender 
- Sabe Deus como!
- Tens outro par de calas? - perguntei recolhendo a outra para por a secar em seu balco.
- Sim em cima. Espera um pouco. Meteu seu largo brao no armrio e tirou uma placa letreira que dizia: VOLTO LOGO. Depois de coloc-lo na porta, fechou com trinco 
e se voltou para mim.
- Quer subir comigo? - perguntou com os olhos faiscando, jogando o brao como um convite. - Se no te parecer imoral...
- Por que no? - Tinha a risada a flor da pele - Por acaso no estamos casados?
O andar superior se dividia em duas habitaes, uma a cada lado do patamar, e um pequeno banheiro em frente. O quarto de trs estava obviamente dedicado a armazenar 
aos objetos  da imprensa. E o outro era sobrio como uma cela monocal. Havia uma comoda com uma mo de ceramica,uma pia de lavar as mos, uma banqueta e uma cama 
estreita. Ao ve-lo deixei escapar um sopro; somente agora percebi que ele estava sozinho. Jamie dormia sozinho.
Um rpido visto ao redor me confirmou que no havia sinais de presena feminina. Meu corao voltou a bater em seu ritmo normal. Jamie, de costas pra mim, estava 
abotoando as calas limpas mas notei um certo pudor tenso em seus ombros. Eu sentia uma tenso similar em seu pescoo.Um ave recobrados da impresso do reencontro, 
ambos tinhamos um ataque de timidez. Eu vi ajustando os ombros e voltando-se para mim.
- Me alegro muito ver-te, Claire - disse suavemente - Temia que jamais...bom.
Se encolheu levemente os ombros e olhou em meus olhos.
- E a criana? - perguntou.Quando sentia visivelmente eu seu rosto: esperana, medo e o esforo em dominar ambas coisas.
Alonguei a mo com um sorriso.
- Vem aqui.
Havia pensado muito em o que eu levaria se minha viagem atravs das pedras tivesse exito.
Depois das acusaes de bruxaria que haviam recado sobre mim, devia ter muito cuidado. Mas havia pouca coisa obrigada a levar, fossem quais fossem as consequencias 
se algum olha-se.
Fiz ele se sentar ao meu lado em sua cama e tirei de meu bolso um pequeno pacote retangular que tinha preparado em Boston com todo cuidado. Depois de retirar a proteo 
impermevel, eu coloquei o contedo em suas mos.
-Olha.
As segurou com cuidado, como quem maneja um substancia desconhecida, possivelmente perigosa.
Suas mos seguraram por um momento as fotografias. A cara redonda de Brianna recm nascida estava em seus dedos, com os punhos pequenos curvados sobre a manta, com 
os olhos fechados e a boquinha apenas entreaberta com sono.
Jamie estava absolutamente pasmado pela fotografia. Apoiou as fotos contra o peito imvel, com os olhos dilatados e fixos.
- Ela  a sua filha - disse. Voltei seu rosto atnito em minha direo para beij-lo suavemente em seus lbios.
Com um pestanejo voltou a vida.
- Minha...ela...- Estava rouco pela impressionado pela fotografia - Filha. Minha filha. Ela...sabe?
- Sim. Olha o resto.
Deslizou a primeira foto entre seus dedos: Brianna, Banhada de aucar em seu primeiro bolo de aniversrio, quatro dentes em um sorriso de travessura. Jamie emitiu 
um som inarticulado e afroxou os dedos.
Brianna com dois anos, com seu traje de frio, redondas e com suas bochechas rosadas.
Bree com quatro anos,com o tornozelo cruzado sobre o joelho oposto, com o cabelo brilhando, pousando para o fotgrafo com sua roupa branca.
Aos cinco, com sua primeira lancheira, pronta para pegar o nibus que a levaria para o jardim de infncia.
- No permitiu que a acompanhasse; queria ir sozinha.  muito valente. No tem medo de nada.
-Oh, Deus! - exclamou ao ver a foto de Bree com dez anos, sentada no cho da cozinha, abraada ao Smoky, nosso grande Terranova. Essa era colorida, seus cabelos 
brilhavam com fora contra a negra pelagem do cachorro.
Lhe tremiam tanto as mos que j no podia segurar as fotos. Tive que mostrar as ltimas: Bree, j maior, rindo ante o que havia pescado; de p ante uma janela; 
ruborizada e com os cabelos remexidos depois de ter cortado a lenha, apoiada no cabo do machado. Essas mostravam seu rosto com todas as expresses que eu tinha captado: 
o nariz largo e a boca larga, os altos pmulos de viking e os olhos rasgados; era uma verso mais delicada de seu pai, do homem que sentado em sua cama junto de 
mim, movia a boca sem dizer nada, deixando correr caladamente as lgrimas.
Eu o puxei contra meu peito, sentindo com fora os ombros trmulos. Minhas prprias lgrimas cairam em seu cabelo.
- Como se chama? - Por fim levantou o rosto, secando o nariz com o dorso da mo.
Pegou as fotos com suavidade, como se pudessem desintegrar-se. - Que nome colocas-tes?
- Brianna - disse orgulhosa.
- Brianna? Que nome to horrvel para uma menininha!
Dei um respingo, ante o golpe.
- No  horrvel! - espetei -  um nome formoso. Alm do mais, voce mesmo me disse que a chamaria assim. Como que  horrvel?
- Eu te disse? - parpadeou.
- Claro que sim! Quando...quando... na ltima vez que te vi. - Apertei os lbios para no chorar.
Depois de um minuto, j dominados pelos sentimentos, acrescentei-: Me disse que daria ao beb o nome de seu pai. Se chamava Brian, no ?
- Sim est certo. - Era como se o sorriso lutasse em seu rosto para impor as outras emoes. - Sim tens razo. Est certo. S que...bom, imaginei que seria um menino.
- E lamentas que no foi? - perguntei com uma olhada fulminante.
Ele me deteve segurando pelos braos.
- No, no lamento. Claro que no! - Torceu levemente a boca - Mas no vou te negar que isto  um verdadeiro golpe, Sassenach. E tu tambm.   
O olhei por um momento, imvel. Eu sabia que tinha tido meses inteiros para me preparar e ainda sim me tremiam os joelhos.
- Suponho que sim. No gostou que eu tenha vindo? - Engoli saliva - Quer...Quer que eu v embora?
Me apertou com tanta firmeza que deixei  escapar um pequeno chiado. Ao se dar conta de que estava me machucando, afroxou os dedos mas sem deixar de me segurar com 
firmeza. Estava plido.
- No - disse com alguma calma - No quero.Eu...- Repentinamente apertou os dentes. Logo concluiu, com muita deciso - No.
Deslizou uma mo para baixo para tomar a minha enquanto alongava a outra para as fotografias.
As apoiou em seu joelho para olh-las com a cabea inclinada, a fim de que eu no visse seu rosto.
- Brianna - murmurou - Mas voce pronuncia errado, Sassenach. Se chama...
Ele disse com uma estranha cadencia montanhosa, acentuando a primeira slaba e sussurrando apenas a segunda: Briina,
- Briina? - repeti divertida.
Ele assentiu com os olhos cravados nas fotografias.
- Brianna.  um belo nome.
- Me alegra saber que gostas.
- Fala-me dela. - Seguia olhando com suas feies largas a menina coberta em seu traje de neve. - Como ela era pequenininha? Qual foi a primeira palavra que disse 
quando aprendeu a falar?
- <<Cachorro>> Essa foi a sua primeira palavra. A segunda foi:<<No>>!
O sorriso se alargou em seu rosto.
-Sim, essa  a que todas aprendem em seguida. Parece que ela gosta de cachorros? Formou as fotos como leque, como se fossem cartas, buscando a foto com Smoky - Que 
cachorro bonito! De que raa ?
- 'Terranova ' - Me inclinei para ach-la. - Aqui h outra em que ela est com um cachorro que um amigo meu deu de presente.
A luz do dia cinzento estava desvanecendo.De pronto, um feroz grunhido intenrrompeu nosso dilogo; saiu de meu corpete do meu modelo Jessica Gutenburg. Tinha se 
passado muito tempo desde o ltimo lanche.
- Tens fome, Sassenach - perguntou Jamie, com o qual me pareceu desnecessrio.
- Bom sim, agora que mencionas. Por acaso guardas comida em sua gaveta?
Nos primeiros dias de nosso matrimonio, eu tinha adquirido o costume de guardar pequenos lanches para calmar a constante apetite de Jamie. Ele se deitou a rir.
- Por acaso sim.Mas agora no tem grande coisa aqui. Somente um par de omeletes ranosos. Ser melhor que te leve a uma taberna e...- Rpido se pos com cara de alarme 
- A taberna, por Deus! Me esqueci do senhor Willoughby!
Antes de que pudesse se decidir, eu estava em p, buscando meias limpas em sua cmoda.
Me atirou uma omelete no colo.
- Quem  o senhor Willoughby? - perguntei  espalhando as migalhas.
- Por todos os diabos - murmurou - Eu disse que iria buscr-lo ao meio-dia, mas  me esqueci por completo. J devem ser quatro horas!
- Em efeito. A campanhia foi tocada.
- Por todos os diabos! - repitiu.
Meteu os ps em um par de sapatos com fivelas de peltre, pegou o casaco pendurado no cabide e logo se deteve ante a porta.
- Me acompanhas? - perguntou ansioso
Me levantei, chupando os dedos para vestir a minha capa.
- No me poderia impedir nem com cavalos selvagens - lhe assegurei.

























CAPTULO  25
CASA DO PRAZER

- Quem  o senhor Willoughby? - perguntei quando estavamos embaixo da arcada de Carfax Close para olhar pela rua empedrada.
- ...um scio meu - replicou Jamie me dando uma olhada cautelosa - Ser melhor que voce ponha um capuz. Est chovendo.
Lhe apertei a mo e ele devolveu em gesto, sorrindo.
- Onde vamos?
- Ao 'fim do mundo'.
O rugido da gua dificultava a conversa. Afortunadamente, a taberna chamada 'Fim de Mundo' estava apenas a dez metros; apesar da intensa chuva, minha capa apenas 
molhou quando agachamos a cabea para passar debaixo do dintel.
O salo principal estava abarrotado, quente e cheio de fumo, era um abrigo de refugio contra uma tempestade l fora. Havia muitas mulheres sentadas em seus bancos, 
mas a maioria dos clientes eram homens.Com a nossa apario se levantaram algumas cabeas, alguns cumprimentos a gritos e um movimento geral para fazer-nos sentar 
em uma das mesas largas. Obviamente, Jamie era bem conhecido em o 'Fim do Mundo'.
- No, senhora, ns no ficaremos - ele disse a jovem camareira - Eu vim somente para busc-lo.
A garota ps os olhos em branco.
- Ah, sim j era hora! Mither levou ele pra baixo.
- Sim, eu me atrasei - se desculpou Jamie - Me atrasei por...um assunto.
A garota o olhou com curiosidade mas logo se encolheu de ombros, dando a Jamie um sorriso cheio de covinhas.
- No  nada, senhor.Harry o levou uma jarra de conhaque e desde ento ele no tem mais ouvido.
 - Conhaque, ? -  disse Jamie em tom de resignao - E por acaso est acordado?
Do bolso de seu casaco tirou uma bolsinha de couro, de l extraiu varias moedas e deixou cair nas mos estendidas da garota.
- Acho que sim - respondeu ela embolsando alegremente o dinheiro - Faz pouco tempo ouvi ele cantando. Obrigado, senhor!
Com um gesto de assentimento, Jamie se dirigiu para a parte do fundo do salo, indicando-me que o seguisse para a cozinha. Em um canto havia uma pequena porta de 
madeira. Correu o trinco e abriu, deixando em descoberto uma escada escura que descia para o fundo da terra.
Os ombros de Jamie encheram por completo o estreito vo da escada, obstruindo a viso do que havia abaixo. Quando saiu ao espao aberto divisei pesadas vigas de 
carvalho e uma fileira de enormes barris sobre uma larga tbua posta sobre o cavalete.
Ao p da escada ardia uma tocha. O sto estava com sombras e no seu  interior parecia deserto. Agucei o ouvido mas somente percebi o silencio da taberna. Nada se 
cantava certamente.
 - Tem certeza que est aqui?
- Oh, sim. - Jamie parecia preocupado mais resignado - O pequeno verme tinha o escondido, suponho. Sabe que no gosto que beba em lugares pblicos.
Levantei um sobrancelha, mas ele se limitou a avanar grandes passos entre as sombras, murmurando bem baixo. No sto ocupava bastante espao; eu caminhava arrastando 
os ps na escurido, muito tempo depois o perdendo de vista. Enquanto isso, sozinha em um crculo de luz que arrojava pela tocha,olhei com interesse ao meu redor.
Junto a fileira de tonel tinha vrias caixotes de madeira empilhadas no centro do salo contra um estranho fragmento de muro que tinha estava suspenso em um metro 
e meio do solo e continuava ao fundo. Devia de ser uns restos de um antigo muro levantado em 1513  pelos fundadores de Edimburgo para definir o limite da civilizada 
Escocia. Isso explicava o nome da taberna.
- Maldito verme. - Jamie surgiu entre as sombras com uma teia de aranha presa no cabelo e uma expresso cenhosa - Deve estar detras da parede.
Com as mos num modo de vaia, gritou algo em uma giria incompreensvel; no se parecia sequer em galico. Um sbito movimento me fez desviar os olhos a tempo para 
ver uma bola azul brilhante que voava do antigo fragmento da parede, at golpear a Jamie entre os omoplatos.
Ao ve-lo cair, corri at seu corpo.
- Jamie! Voc est bem?
A figura prostada lanou alguns comentrios grosseiros em galico e se ergueu com lentitude, frontando a cabea, que havia sido golpeada contra o cho de pedra. 
Enquanto isso, a bola azul se havia convertido em uma silhueta de um chins muito pequeno, que ria com muito prazer, sua cara redonda e azeitonada brilhava de alegria 
e conhaque.
   -  o senhor Willoughby, suponho? - eu disse ao aparecer.
Deve ter reconhecido seu nome, pois sorrio de orelha a orelha assentindo com a cabea; seus olhos se reduziram a uma abertura cintilante. Disse algo em chins, logo 
saltou pelo ar dando varias voltas para trs em rpidas sucesses, para terminar fazendo graa com um sorriso triunfante.
- Maldito piolho! Jamie se levantou limpando as mos feridas em seu casaco. Com um rpido tapa, segurou o chins pelo pescoo desiquilibrando-o at a direo da 
escada.
- Temos que ir. Rpido - Em resposta ao seu empurro, a pequena silhueta vestida de azul se afroxou de imediato.
- Quando est sobrio se comporta bem - me explicou Jamie, pedindo desculpas carregando o chines pelos ombros - Mas no deve tomar conhaque.  pinguo.
-Estou vendo. De onde diabos o achas-te? Fascinada, segui a Jamie para cima. O rabinho do senhor Willoughby se balanava como um metrnomo contra o casaco cinza 
de Jamie.
- Foi no cais
Mas antes de seguir, a porta de cima se abriu e nos encontramos de novo na cozinha da taberna. A robusta proprietaria inflamou as bochechas com ar de reprovao.
- Eu disse, senhor Malcolm - comentou - como bem sabes, eu no sou mulher de andar com esse tipo de homem.No  uma atitude conveniente para quem dirige uma taberna. 
Mas j te disse que esse homenzinho amarelo no ...
- Sim, senhora Patterson. J havia me falado - interrompeu Jamie. Pegou uma moeda do bolso e com uma reverncia, entregou a corpulenta tarbeneira. - Agradeo muito 
vossa tolerncia. No vai voltar a acontecer...espero - disse baixo.
Nosso regresso causou outra comoo, mas desta vez foi negativa. As pessoas caladas murmuravam maldies. Pelo visto, o senhor Willoughby no era um fregues muito 
querido por ali.
Proximo a porta ns encontramos  um problema, havia uma opulenta jovem com vestido bastante decotado. No me custou muito adivinhar sua ocupao principal.
-  ele - gritou apontando a Jamie com um dedo vacilante - Esse diabo asqueroso!
Parecia ter dificuldade para centrar a vista. Seus companheiros olharam a Jamie com um interesse que se acentuou quando a jovem avanou movendo o dedo ao ar como 
se dirigisse um coro.
- Ele! O ano de que eu falei, ele que me fez essa porqueira.
Como o resto da mutido, eu tambm olhava a Jamie com interesse, mas todos compreendemos logo que a mulher no se referia a ele, sim ao seu acompanhante.
- Desgraado! - gritou a mulher dirigindo seus comentrios ao senhor Willoughby- Verme! Vbora!
Aquele espetculo aflito estava excitando aos seus companheiros; um deles, um moo alto e corpulento, se levantou com os punhos apertados e com os olhos cintilantes 
do alcool.
-  este? Quer que lhe d uma boa, Maggie?
- Nem tente, filho - o aconselhou Jamie mudando seu acompanhante de posio para equilibr-lo melhor - Volta para a cozinha, que j vamos embora.
- Ah, sim? E voce  o rufio do pequenino a, no? - O rapaz fez uma careta horrvel voltando o rosto enrrojecido para mim - Ao menos, tua outra rameira no  amarela. 
Lanou-me um olhar.E puxou a minha capa, deixando o corpete descoberto e decotado com modelo de Jessica Gutenburg amostra.
- Parece bastante rosada - disse seu amigo com obvia aprovao.
- Solta, filho da puta! Jamie girou , lanando fogo pelos olhos, com o punho livre apertado em sinal de ameaa.
- A quem ests insultando, chulo barato? - O primeiro dos jovens, que no podia sair de seu assento atrs da mesa, se jogou por cima e se lanou ao Jamie.
Ele se esquivou rpido, deixando que se espatifa-se de bruos contra a parede. Logo deu um passo at a mesa e descarregou com fora o punho contra a cabea de outro. 
Finalmente me pegou pela mo para arrastar-me a rua.
- Vamos - grunhou enquanto mudava de posio o chins para segur-lo melhor - Em um segundo deixamo- os para trs.
Correndo viramos numa esquina e nos encontramos em um pequeno patio.
- Que...diabos...voce fez?- ofeguei. No conseguia imaginar o que podia ter feito aquele chines pequeno a uma vigorosa moa como a tal Maggie.
A julgar pela aparencia, ela podia te-lo esmagado como uma mosca.
- Bom,  por causa dos ps, sabe? - explicou Jamie dando ao senhor Willoughby uma olhada de irritada resignao.
- Dos ps? - Involutariamente meus olhos se desviaram para os ps do chines, vendo pequenos calados de cetim preto com solas de feltro.
- No os dele - corrigiu - O das mulheres.
- Que mulheres?
- Bom,at agora se meteu com as rameiras. - Espiou pela arcada tratando de ver nossos perseguidores. - Mas no sei o que poderia querer. No o critico,  pago.
- Compreendo - disse antes que no era certo - O que?
- A esto! Um grito ao extremo do beco interrompeu minha pergunta.
- Caramba, pensei que haviam desistido. Vem por aqui!
Ns fomos mais uma vez para um beco. Jamie me empurrou para um ptio cheio de tonel e caixotes, onde meteu o corpo do senhor Willoughby em um barril cheio de lixo. 
Eu ofegava pelo desacostumado esforo, com o corao ao galope devido ao medo. Jamie, ruborizado pelo frio e exerccio, tinha o cabelo remexido em distintas direes 
mas sua respirao era quase normal.
- Faz este tipo de coisa com muita frequencia? - perguntei.
- No muita.
Nos chegou um eco de pes que corriam, mas desapareceu e tudo ficou em silencio, tirando o barulho da chuva nas calhas.
- Se foram. Vamos ficar um pouco aqui, para estarmos seguros - Baixou um caixote para eu me sentar e, depois de achar outro, se deixou cair com um suspiro, afastando 
o cabelo solto do rosto. - Eu sinto muito, Sassenach. No imaginei que isto seria to...
- Agitado? - Lhe devolvi com sorriso enquanto me secava uma gota de chuva na ponta do nariz. - No importa. Disse...Como sabe a respeito dos ps?
 - Ele me disse, ele gosta de beber, sabe. - Jamie deu uma olhada no barril onde havia escondido o seu colega - E quando bebe demais comea a falar dos ps das mulheres 
e das coisas nojentas que ele gostaria de fazer com eles.
- Que coisas to nojentas se podem fazer com um p? - perguntei fascinada. - Eu acho que as possibilidades so limitadas.
- No em absoluto - replicou rpido. - Mas no  algo que possamos discutir em plena rua.
A nossas costas, do fundo do barril, surgiu um vago sonido. Me parece que o senhor Willoughby estava fazendo uma pergunta.
- Cala a boca, verme - disse Jamie grosseiro. Uma palavra a mais e ser eu que te pisarei na cara.
Veremos se voce gosta.
- Quer que algum lhe pise na cara? - perguntei.
- Sim voce. - Se encolheu de ombros como pedindo desculpas. Estava vermelho. - No teve tempo de explica-lhe quem era.
- Ele fala nosso idioma?
- Oh, sim, em certo modo, mas no sei se entende muito. Eu mal falo  chines.
- De onde vem o nome Willoughby? - perguntei,mas estava mais interessada em saber o que fazia um chines com um respeitvel impresor de Edimburgo.
- Seu verdadeiro nome era Yi Tien Cho. Segundo dizem, siginifica <<o que se apoia no cu>>.
- Muito difcil de pronunciar para os escoceses desta zona? - Conhecendo a natureza insular dos escoceses no me surpreendeu que no quiseram aventurar-se em linguisticas 
estranhas. Jamie, com sua facilidade para os idiomas, era uma anomalia gentica.
- Bom, nem tanto. Mas se pronuncia mal como uma palavra galica. Me pareceu prefervel cham-lo de Willoughby.
 - Compreendo.
Dei uma olhada por cim do ombro. Ao que parece,no tinha moradia pela costa. Jamie, vendo meu gesto, se levantou.
- Sim, j podemos ir. Eles devem ter voltado para a taberna.
- No tinhamos que passar pelo 'Fim do Mundo' para voltar a imprensa? - perguntei - H outro caminho?
- ... no, no iremos para a imprensa.  
Eu no podia ver o rosto dele, mas notei uma certa reserva em sua atitude. Teria alguma residncia em outro ponto da cidade?
Se inclinou para o barril, dizendo algo em chines com acento escoces.Era um dos sons mais estranhos que eu tinha ouvido,algo como chiado de gaita quando se afinam. 
O senhor Willoughby respondeu com loquacidade, interrompendo-se com risinhos. Por fim saiu do barril, mostrando  sua pequena silhueta embaixo da luz de uma lampada 
distante. Desceu com bastante agilidade e no tardou para se reclinar no cho, ante mim.
Tendo em conta que Jamie me havia dito sobre os ps, me apressei a dar uma passo pra trs.
- No, no tem problema, Sassenach - me assegurou Jamie apoiando uma mo tranquilizadora em meu brao. - Ele est pedindo desculpas pela falta de respeito.
 - Ah, tudo bem. Olhei dubitivamente o senhor Willoughby,que tagarelava algo dirigindo-se ao cho.
Por fim saimos da Royal Mile. O edificio que Jamie nos levou estava discretamente oculto em um pequeno beco. A porta se abriu a sua chamada. A mulher que apareceu, 
com um vela na mo, era pequena e elegante, de cabelo escuro; Ao ver Jamie lanou um exclamao de algria e lhe deu um beijo na bochecha. Minhas entranhas ficaram 
espremidas como um punho, mas me tranquilizei ao ouvir ele chamando-a de <<Madame Jeanne>>. No era apelativo que pudesse dar a uma esposa...nem to pouco a uma 
amante, com um pouco de sorte.
Ainda assim, algo naquela mulher me inquietava. Era francesa obviamente, mesmo falando um bom ingls, e me olhava franzindo o cenho e um ar de desgosto.
- Monsieur Fraser - disse tocando em Jamie no ombro com uma possessividade que eu no gostei nem um pouco. - Me permita umas palavras sozinhos?
Jamie entregou seu casaco a criada que vinha buscar e, dando-me uma olhada, avaliou imediatamente a situao.
- Claro, Madame Jeanne - disse cortesmente alongando uma mo para me conduzir a frente. - Mas antes...permit-me apresentar a minha esposa. Madame Fraser.
 - Vossa....esposa? - Eu no tive tempo de decidir se o rosto da mulher predominava com um pasmo ou horror. - Mas Monsieur Fraser... Tu trazes ela aqui? Eu diria...uma 
mulher...vai e passa, talvez no seja bom insultar as nossas jeunes filies... Mas uma esposa! Ficou boquiaberta,exibindo varios molares cariados. Logo se sacudiu 
bruscamente, recuperando sua atitude serena e me saudou tentando se mostrar gentil. - Bonsoir...Madame.
- Igualmente - disse corts.
- Meu quarto est preparado, Madame? - perguntou Jamie. Sem aguardar resposta, girou at a escada me levando consigo. - Vamos passar a noite aqui.
Se voltou para olhar o senhor Willoughby,que havia entrado conosco, e lhe acenou com um gesto interrogante, olhando a Madame Jeanne com as sombrancelhas arquiadas. 
Ela observou um momento ao chines; por fim deu uma energtica palmada para chamar a criada.

- Averigua se Mademoiselle Josie est livre, Pauline, por favor - ordenou. - Depois leva gua quente e toalhas limpas a Monsieur Fraser e sua...esposa. - disse a 
ltima palavra com assombro.
- Ah, outra coisa, Madame, j que est sendo to amvel. - Jamie se inclinou do corrimo sorridente. - Minha esposa necessita de um vestido novo; seu guarda-roupa 
sofreu um delicado acidente. Poderia proporcionar algo adequado pela manh? Obrigado, Madame Jeanne. Bonsoir!
O segui em silencio pelos quatro degraus da escada.Minha mente estava um turbilho. <<Rufio>>, o havia chamado o cara da taberna.Sem dvida era somente um insulto, 
algo assim me parecia absolutamente impossivel.
No sabia o que esperar, mas o quarto era bastante normal, pequeno e limpo. Ele tirou o casaco molhado e, depois de coloc-lo despreocupadamente na cadeira, se sentou 
na cama para tirar os sapatos molhados.
- Meu Deus, estou morto de fome - disse - Espero que a cozinheira no tenha se deitado ainda.
- Jamie...
- Tire a capa, Sassenach - indicou o cabide ao p da porta - Ests empapada.
- Sim. Bom...sim. - Traguei a saliva. -  que......Jamie. Porque ests morando permanente num bordel?
Esfregou o queixo um pouco assustado.
- Eu sinto muito, Sassenach - disse - No deveria ter te trazido aqui mas no me ocorreu outro lugar onde pudesse arranjar um vestido em pouco tempo e servir-nos 
de um jantar quente. Alm disso,tinha que por o senhor Willoughby onde no poderia meter-se em problemas. Ento de qualquer modo devamos vir... - Olhou para a cama. 
-  muito mais comoda que minha cama da imprensa. Mas talvez foi uma m ideia. Podemos ir se te parece...
-Isso no me incomoda - interrompi. - O que quero saber  por que tens um quarto num bordel? Tambm s um cliente?
- Cliente? - me olhou com as sombracelhas arqueadas. - Aqui? Por Deus Sassenach, quem voce acha que eu sou?
- Maldito seja se voce for. Por isso pergunto. Vai me responder ou no?
- Suponho que sim. No sou cliente de Jeanne, mas ela  minha cliente...e das boas. Me reserva um quarto porque meu trabalho me faz ficar na rua at tarde e eu gosto 
de ter a cama e comida quente a qualquer hora. E intimidade. Este quarto  parte do meu acordo com ela.
- Ento nesse caso, eu pergunto: Que negcio pode ter um impressor com uma dona de bordel?
- No. - Sussurou lentamente. Acho que a pergunta no  essa.
- No?
- No. Com um movimento leve, se levantou da cama para se aproximar de mim tanto que me vi obrigada a levantar a cabea para olh-lo. - A pergunta, Sassenach, : 
Por que voce voltou?
- Bonita pergunta me fazes! - Apertei as mos contra a madeira spera da porta. - Por que diabos achas que voltei?
 - No sei. - Sua voz escocesa sonava tranquila. - Voce voltou para ser novamente a minha esposa? Ou somente para dar notcias de minha filha? Tu s a me de minha 
filha. S por isso eu te devo minha alma, pela certeza de que no vivi em vo, de que minha filha est bem e salva. Mas passou muito tempo, Sassenach, desde que 
voce e eu ramos uma s pessoa. Voce viveu tua vida...l. E eu a minha aqui. No sabes nada do que eu tenho feito nem do que tem sido. Voltou por que me desejas...ou 
porque se sentiu obrigada?
Senti um n em minha garganta mas olhei em seus olhos.
- Voltei porque...Achava que estava morto. Pensava que tinhas morrido em Culloden.
- Compreendo - disse com suavidade. Bom, minha inteo era morrer. - Sorriu sem humor. - Me esforcei bastante. - Levantou os olhos at mim. - Como descobriu que 
eu no havia morrido? E mais, onde eu estava?
- Me ajudaram. Um jovem historiador, chamado Roger Wakefield, encontrou os registros e seguiu os seu rastro at Edimburgo. Ento quando li "A. Malcolm" tive a certeza..., 
me pareceu que podia ser voce. - conclui, desolada.
- Sim compreendo. E ento voce veio. Mas ainda sim. Por que?
Por um momento eu o olhei sem falar.
- Queres me dizer que no me quer aqui? - disse por fim. - Nesse caso...Sei que tens tua vida feita. Talvez...outros laos...
Ele se aproximou  da janela para contemplarme.
- Faz vinte anos que ardo por ti, Sassenach - murmurou. - Voce no sabe? Por Deus!Mas no sou o mesmo que conheceste h vinte anos, no ? - Me deu as costas com 
um gesto de frustrao. - Agora nos conhecemos menos quando nos casamos. - Quer que eu v embora? - meu sangue me palpitava os ouvidos.
- No! - Me segurou pelos ombros com tanta fora que me joguei involutariamente para trs. - No - repetiu com mais serenidade. - No quero que voce v embora. Eu 
j te disse. Mas...necessito saber.
Inclinou a cabea at mim com uma pergunta estampada em seu rosto.
- Voce me ama? - sussurou - Voce vai me aceitar, Sassenach, arriscando com o homem que sou ao do homem que voce conheceu?
Senti uma grande onda de alvio mesclando com temor.
- J  muito tarde para perguntar isso. - eu disse tocando a bochecha onde a barba comeava a aparecer. - Porque eu arrisquei tudo que eu tinha. No importa quem 
s agora, Jamie Fraser. Sim. Eu te amo, te quero, sim.
A luz da vela cintilava eu seus olhos. Me pegou nas mos e avancei, sem dizer nada, estava em seu abrao.
- Tens uma coragem do diabo, no? Como sempre.
- E tu? Sabe acaso como eu sou? Voce to pouco sabe o que eu estava fazendo nestes vinte anos. Poderia ter me convertido em uma pessoa horrvel.
- Acho que  possivel. Mas ti digo algo, Sassenach: No creio que me importe.
- To pouco a mim.
Parecia absurdo sentir-me tmida com ele, mas assim era. As aventuras da noite, suas palavras, tudo estava aberto ao abismo da realidade: os vinte anos no compartidos, 
o futuro desconhecido que se estendia mais a frente.
Uma batida na porta rompeu nossa tenso. A criada trazia o jantar em uma bandeja. Depois de uma tmida reverencia dirigida e mim e um sorriso para Jamie, nos serviu 
o jantar (carne fria, caldo e po de aveia quante com manteiga) e acendeu o fogo com uma mo prtica e veloz. Logo se retirou murmurando.
- Boa noite.
Comiamos lentamente, tomando cuidado somente em conversar sobre coisas neutras; eu lhe contei como havia viajado desde Craigh na Dun a Inverness.Ele, por sua vez, 
me falou do senhor Willoughby,a quem havia encontrado bebado perdido e meio morto de fome, cado atrs de uma fileira de tonels no cais de Burntisland.
Falamos pouco das coisas pessoais mas enquanto comiamos me senti cada vez mais pendente de seu corpo. Ao terminar o jantar, em sua mente tambm predominava a mesma 
idia. Ele esvaziou a taa de vinho e me olhou diretamente nos olhos.
- Voce quer...? - Se interrompeu com um rubor acentuado em suas feies mas tragou a saliva e continuou. - Quer vir a cama comigo? Quer dizer- acrescentou de pressa- 
, faz frio, ns estavamos molhados e...
- E no h nenhuma cadeira- terminei por ele - De acordo.
Me virei at a cama, sentindo uma estranha mescla de entusiasmo e vacilao. Ele tirou com rapidez a cala e as meias.
- Me desculpe, Sassenach. No me havia ocorrido ajudar-te em seus laos.
<< Assim parece que no est habituado a desvestir mulheres>>, pensei sem poder contetar-me, sorrindo ante a ideia.
- No so laos - murmurei, -mas se queres tirar uma mo com a parte de trs...
Deixei no lado a minha capa e me voltei para ele, levantando o cabelo para deixar a gola do vestido a vista. Houve um silencio desconcertado. Logo senti que deslizava 
lentamente um dedo em minha coluna vertebral.
- O que  isso? - perguntou.
- Se chama zper - expliquei. - V essa pequena lingueta que tem em cima? Basta escorregar e tirar at abaixo.
Os dentes do ziper se separaram com um rasguido; se afrouxaram as costas do vestido.
Mer ergui ante ele, sem outra roupa que no os sapatos e as meias de seda rosada seguras com ligas.
Senti a urgente necessidade de puxar o vestido para cima outra vez, mas resisti com as costas erguidas e o queixo alto.
Ele no disse nada.
- Queres dizer algo, por favor? - Exigi com voz tremula.
Abriu a boca mas continuou mudo, movendo lentamente a cabea de um lado ao outro.
- Cus - sussurou por fim. - Claire...s a mulher mais linda que eu j v.
- Ests perdendo a viso - assegurei- Deve de ser glaucoma porque no tens idade para ter cataratas.
O comentrio fez ele rir. Ento vi que na verdade estava cego: os seus olhos brilhavam com lgrimas, devido ao riso.
-Tenho os olhos de falco - respondeu igualmente convencido, -como sempre. Vem aqui.
Me levou com gentileza at a cama e se sentou, comigo em p entre os joelhos. Me deu um beijo suave em cada peito e apoiou a cabea entre eles.
-Por Deus, poderia repousar a cabea aqui para sempre. Mas tocar-te, minha Sassenach...com a pele branca como alabrasto, as linhas largas de teu corpo...
Senti o movimento de sua garganta ao tragar a saliva, a mo que descia pouco a pouco pela curva da cintura e do meu traseiro.
- Bom Deus - murmurou. - No poderia olh-la e manter as mos quietas, ter to prxima de mim  sem te desejar.
Logo me deitou na cama e se inclinou para me beijar. Me tirou os sapatos e lhe busquei pelo pescoo.
- Quero ver-te
- Bom, no h muito que ver, Sassenach - disse com um sorriso inseguro. - De qualquer modo, o que est aqui  teu... se quiseres.
Tirou a camisa e, depois de atir-la ao cho, se apoiou com as palmas das mos para exibir seu corpo.
No sei o que eu esperava, mas ao ver o seu corpo desnudo me tirou o folego. Havia mudado,mas eram sutis mudanas, como se o haviam posto em um forno para dar-lhe 
um bom acabamento. Sua pele havia escurecido um pouco, palidecendo at o branco puro da virilha com as veias azuis se destacando em seu avermelhado pelo pbico. 
Era obvio que no mentia ao dizer que me desejava.
Quando o olhei nos olhos torci subitamente a boca.
 - Uma vez eu disse que seria sincero contigo, Sassenach
Me deitei a rir, com as lgrimas escorrendo em meus olhos
- Eu tambm.
Alonguei a mo, vacilante, ele me segurou. Ns ficamos imveis. Cada um tinha uma intensa consciencia do outro; havia sido impossvel no t-la. O quarto era pequeno 
e a atmosfera estava to carregada que era visivel.
- Tens tanto medo como eu? - perguntei enfim, rouca.
Ele me observou com ateno. Logo levantou uma sobrancelha.
- No acho que seja possvel. Ests com a pele arrepiada. Tens medo, Sassenach, ou  s o frio?
- As duas coisas - eu disse.
- Cubra-te - ele rio.E me soltou a mo para pegar a colcha.
No deixei de tremer nem quando se deitou ao meu lado, mesmo ao calor de seu corpo me causou uma forte impresso fsica.
- Nossa, voce sim  que no tem frio! - disse voltando para ele.
- No. Suponho que o meu  medo, no?
Me envolveu suavemente com os braos; ao tocar-lhe o peito senti sua pele eriada.
- Em nossa noite de casamento tambm tinhamos medo. Voce segurava em minhas mos. Disse que se nos tocssemos seria mais fcil.
Emitiu um leve sonido; meus dedos acabaram de encontrar uma teta.
-  verdade - disse sufocado. - Por Deus tca-me outra vez assim. Esticou subitamente as mos para me puxar contra ele. - Toca-me e deixa que eu te toque, minha 
Sassenach. Quando nos casamos - sussurou, - quando te vi ali, to linda com o vestido branco, somente pude pensar no momento em que estivessemos sozinhos para tirar 
os laos e ver-te nua na cama, ao meu lado.
- E agora, me quer? - sussurei beijando a pele bronzeada da clavcula. Tinha um sabor levemente salgado. Sua pele cheirava ao fumo da lareira.
Em vez de responder se moveu bruscamente para me fazer sentir sua rgida virilidade em meu ventre.
Foi tanto terror como o desejo me levou a apertar-me contra ele. Eu desejava, sim; me doiam os peitos e sentia no ventre tenso e entre as perna eu mida pela excitao 
sexual. Mas to forte como a luxuria era o simples desejo de ser sua, de que me dominava, de que me possuia com vigor para me fazer esquecer tudo.
Senti sua necessidade e o tremor de suas mos que me rodeavam as ndegas, e sua involuntaria sacudida em seu quadril, que me conteve em imediato. "Faa", pensei."Faa 
agora mesmo, por Deus. e sem nenhuma suavidade!"
No podia dizer-lhe. Eu via a urgencia em seu rosto, mas eu to pouco podia dize-lo; era muito cedo e muito tarde para trocar essas palavras. Mas ns dois haviamos 
compartilhado outra linguagem que meu corpo ainda recordava. Pressionei com violencia o seu quadril contra mim. Estvamos a um segundo da deciso final.
- Me d a sua boca, Sassenach - pediu suavmente inclinando-se para mim.Sua cabea bloqueou a luz da vela, deixando somente um vago resplendor e a escurido de sua 
pele. Me abri a ele com um leve suspiro.Sua lingua buscou a minha.
Lhe mordi o lbio e ele retrocedeu um pouquinho, sobressaltado.
- Jamie -disse -Jamie!
Era tudo o que eu podia pronunciar, mas impulsionei o quadril contra ele, motivando a violencia. Depois cravei os dentes em seu ombro. Ele me penetrou com fora.
- No para, por Deus - exclamei.
Seu corpo, ao ouvir-me, respondeu no mesmo idioma. Suas mos que me seguravam os pulsos se esticaram. A fora de seus embates me chegaram at ao ventre.
Depois me soltou os pulsos e caiu um pouco sobre mim, imobilizando o meu quadril com as mos.
Quando me retorci contra o seu corpo ele me mordeu o pescoo.
Eu ficava quieta somente porque no podia me mover. Senti um palpitar nas costelas, mas no sabia se era meu corao ou o dele.
Depois ele se moveu dentro de mim. Bastou para provocar-me uma convulso ao modo de resposta.
Indefesa embaixo de seu corpo, senti que meus espasmos o acariciavam, incentivando a acompanhar-me.
Arqueou as costas para trs, levantando-se sobre as mos. Depois, lentamente abriu os olhos para me olhar com infinita ternura.
-Oh, Clarei - sussurou - Oh Clarei, por Deus.
E se deixou levar, muito dentro de mim, sem mover-se. Por fim deixou cair a cabea com um soluo e o cabelo lhe ocultou o rosto. Cada sacudida entre minhas pernas 
despertava um gemido em mim.
Quando tudo havia terminado, muito suavemente, desceu para apoiar a cabea sobre a minha e ficou como morto.
Por fim sa de meu extase; apoiei a mo na base do esterno, onde o pulso batia lento e forte.
-  como andar de bicicleta, suponho - disse - Antes no tinha tanto plo em seu peito, voce sabia?
- No - respondeu sonolento. - No me ocorreu em cont-los. As bicicletas tem muito plo?
Me pegou de surpresa e comecei a rir.
- No - eu disse, -quis dizer que recordamos bem como se fazia.
Jamie abriu um olho para me dar uma olhada reflexiva.
- Tinha que ser muito tonto para esquecer, Sassenach - comentou - Pode ser que perdi a prtica mas nunca haverei de perder todas minhas faculdades.
Passamos depois bem quietos, sentindo a respirao do outro.
O edifcio era slido e o ruido da tempestade afogava quase todos os ruidos interiores mas de vez em quando se ouviam pisadas, uma risada masculina e a voz aguda 
de uma mulher.
Jamie se agitou um pouco incmodo.
- Tinha sido melhor levar-te a uma taberna - disse- S que...
- No importa - lhe assegurei - Francamente, havia imaginado deitar contigo em muitos lugares, mas nunca pensei em um bordel. -No quero parecer intrometida mas 
tenho curiosidade. - Voce...... o proprietrio desta casa, Jamie?
- Eu? Meu Deus, Sassenach, quem voce acha que sou?
- Bom, o que sou eu - disse com certa aspereza. - Quando te encontro, o primeiro que fazes  desmaiar. Quando conseguiu se colocar em p, nos atacam em uma taberna 
e nos perseguem por todo Edimburgo em companhia de um chines degenerado. E terminamos em um bordel...cuja Madame parece manter uma relao sumamente familiar contigo, 
por certo. Depois te tirar a roupa, anuncia que s uma pessoa horrvel, com um passado de depravao, e me levas para cama. O que posso pensar?
O riso ganhou o combate.
- Bom, no sou nenhum santo, Sassenach - reconheceu - Mas to pouco sou um rufio.
- Me alegro em saber. - Houve uma pausa momentanea. - Tens inteno de me dizer o que fazes? Ou devo ir enumerando as vergonhosas possibilidades at acertar por 
deduo?
- ? - murmurou divertido pela sugesto. - O que voce supe?
O observei com ateno.
- Bom, apostaria minhas enguas que no s um impressor? - disse.
Jamie alargou um sorriso.
- Por que?
Lhe cravei um dedo em suas costelas.
- Seu estado fsico est muito bom. Depois dos quarenta anos, quase todos os homens comeam a ganhar barriga. Voce no tem uma grama a mais.
- Isso  porque no tenho quem me cozinhe - disse com melancolia. - Voce to pouco estaria gorda se comesse sempre em uma taberna. - Me deu uma palmada familiar 
em meu traseiro.
- No trate de me distrair - protestei recobrando minha dignidade. - To pouco tens os msculos de quem trabalha como um escravo em uma imprensa.
- Alguma vez j trabalhei em uma Sassenach? - Levantou uma sombrancelha depreciativo.
- No - reconheci- No s um salteador?
- No - respondeu sorridente - Tenta outra vez.  
- Caloteiro?
- No.
- Sequestros por resgate, no, no creio - disse, contando as possibilidades nos dedos. - Ladro? No. Pirata?No, impossivel ao menos que se tenha curado o mareado. 
Impostor? Difcil.
O olhei fixamente, deixando cair a mo.
- A ltima vez que te vi eras um traidor mas isso no me parece um bom modo de ganhar a vida.
- Oh, sigo sendo um traidor - me assegurou - s que ultimamente no me tm condenado.
- Ultimamente?
- Passei vrios anos encarcerado por traidor, Sassenach - recordou. - Pela Rebelio.Mas isso faz tempo.
- Sim, eu sabia.
Dilatou os olhos.
- Voce sabia?
- Isso e algo mais. Te direi depois. Mais relaxado por um momento e voltamos a questo. Como ganhas a vida na atualidade?
- Sou impressor - disse sorrindo de orelha a orelha.
- E tambm traidor?
- E tambm traidor. E nos ltimo anos me prenderam duas vezes por rebelio.Mas no puderam provar nada.
- E o que vai acontecer se algum dia eles puderem provar?
Agitou ao ar a mo livre.
- Oh, me picotam, flagelam, prendem, deportam...Esse tipo de coisas. No  provavel que me enforquem.
- Que alvio- eu disse.
- Eu te adverti - recordou. J no brincava. Seus olhos azuis estavam srios e vigilantes.
-  verdade - reconheci respirando profundamente.
- Quer me deixar? - Falava com indiferena mas eu o v segurando a colcha.
- No. - E sorri como pude.- No voltei para fazer amor contigo uma s nica vez. Vim para ficarmos juntos...se me aceitar. - conclui.
- Se te aceito? - deixou escapar em alento e se sentou na cama cruzando as pernas. - No...nem sequer posso dizer o que  senti ao tocar-te, Sassenach, quando me 
dei conta de que realmente eras voce - Me recorreu com os olhos - Encontrar-te outra vez...e voltar a perder-te...- Se interrompeu.
Segui com um dedo a linha ntida do pmulo e da mandbula.
- No me perder - disse - Nunca mais. Mesmo que me digas que tens cometido bigamia e que te arrastaram bbado.
Se afastou com brusquido. Deixei cair a mo, sobressaltada.
- O que foi?
- Bem... - Se interrompeu franzindo os lbios -  que...
-O que? H alguma coisa que no me tenha dito?
- Bom, imprimir panfletos sediciosos no  muito rentvel - explicou.
- Suponho que no. - Me estava acelerando outra vez o corao ante a perspectiva de novas revelaes. - Que outra coisa tem estado fazendo?
- S um pouco de contrabando - respondeu em tom de desculpa - Como atividade secundria, sabe?
- s um contrabandista? - O olhei fixamente - De que?
- Principalmente, de whisky. E tambm um pouco de rum, bastante vinho francs.
- Era  isso! - As peas do quebra -cabeas se encaixaram: o senhor Willoughby,o cais de Edimburgo e nosso alojamento atual. - Da voce vinculou com este lugar. E 
tem feito que Madame Jeanne seja cliente sua.
- Claro - assentiu. - D muito resultado: quando o licor chega da Frana, o armazenamos em um dos stos desta casa. Jeanne nos compra diretamente uma parte e nos 
guarda o resto at que podemos despach-lo.
- Hum...e como parte do acerto - disse delicadamente - tens......
Os olhos azuis se entrefecharam.
- A resposta ao que ests pensando, Sassenach,  No - disse com firmeza.
- No? - Me sentia sumamente plida. - Assim que voce l o meu pensamento? E diga-me, o que estou pensando?
- Ests se perguntando se as vezes cobro em espcie humana, verdade?
- Bem, sim - admiti. - Mas isso no  assunto meu.
- No  assunto seu? - Arqueou as sombrancelhas ruivas e me segurou pelos ombros para me aproximar dele.
Parecia um pouco sufocado. - No?
- Sim - corregi igualmente sufocada. - E voce no fez?
- No. Vem aqui.
Me envolveu entre seus braos. A memria do corpo no  como o da mente. Meu corpo o conhecia e se correspondia de imediato, como se suas mos tivessem separado 
de mim no anos atrs mas sim segundos antes.
- Tive mais medo desta vez do que em nossa noite de npcias. - murmurei.
-  mesmo? - Alongou os braos ao meu redor - Te assusto, Sassenach?
- No. S que... a primeira vez... no achava que fosse para sempre. As vezes queria ir embora.
Soltou um leve suspiro.
- E se foi, mas voltou. Ests aqui.  o que importa.
Me erguei para olh-lo. Tinha os olhos fechados.
- O que pensou na primeira vez que fizemos amor? - perguntei.
Abriu lentamente os olhos azuis para pos-los em mim.
- Para mim sempre foi definitivo, Sassenach - disse sensivelmente.
Pouco depois ns dormimos abraados, com o ruido da chuva nas persianas.
Foi uma noite sem sossego. Me sentia muito exausta para permanecer desperta um momento mais, mas tambm muito feliz para dormir profundamente. Talvez temia que Jamie 
desapareceria se eu ficasse dormindo. Talvez ele pensava o mesmo.
Em alguma hora profunda e silenciosa da madrugada, se voltou para mim sem dizer nada e eu para ele, e fizemos amor com ternura, sem falar.
Suave como um vo de uma mariposa na escurido, minha mo roou a sua perna e descobriu uma fina cicatriz. A seguir com os dedos eu me detive no final, perguntando 
sem palavras: "Como?"
Sua respirao mudou com um suspirto. Me cubriu a mo com a sua.
- Culloden - disse.
Essa palavra sussurada era uma evocao da tragdia e morte...e de nossa separao.
- Jamais te deixarei - murmurei. - Nunca mais.
Pouco depois senti que voltava a mudar de posio.
- Me descreve ela - sussurou - O que tem de voce e de mim. As mos, so como as tuas ou como as minhas? Me descreva para que eu a veja.
Coloquei a mo junto com a minha. Era uma mo sana: dedos retos, unhas cortadas, quadradas e limpas.
- Como as minhas. - Minha voz sonava rouca por falta de sono. E na casa reinava o silencio. Levantei os dedos uns dois centmetros. - Tens as mos largas e finas, 
como eu, mas so grandes: de dorso larog e com uma profunda curva prximo ao pulso...como a tua.E lhe palpita o pulso justo aqui, como voce. - Toquei uma veia onde 
o pulso se une com a mo. - As unhas so quadradas, como as tuas. Mas tem o mindinho direito torcido, igual o seu. - peguei mostrando. - Tio Lamb me disse que minha 
me tambm tinha assim.
Minha me havia morrido quando eu tinha cinco anos. No a recordava com nitidez mas pensava nela cada vez que via inesperadamente a minha prpria mo.
- Tem esta linha. - continuei suavemente, contornando a curva entre a tempora e a bochecha. - Os olhos so como os seus, com as mesmas pestanas e as mesmas sombrancelhas. 
O nariz dos Fraser. A boca  mais parecida com a minha, com o lbio inferior grosso mas largo como o teu. O queixo  pontiagudo como o meu, mas muito mais forte. 
 alta; mede quase um e oitenta.
Ao sentir a sua estupefao lhe toquei o joelho com o meu.
- As pernas so to largas como as tuas, mas muito mais femininas.
- E tem esta veia azul, justo aqui? - Me colocou ternamente o polegar no espao da tempora. -E as orelhas tem as abas pequenas, Sassenach?
- Sempre se queixou de suas orelhas; diz que sobressaem -eu  disse. As lgrimas me escorriam enquanto Brianna vinha receber a vida por ns dois. - Ela as tem furadas. 
No se incomoda, no ?
Disse rpido para segurar as lgrimas. - Frank dizia que era vulgar e que no devia faze-lo, mas ela insistia, quando cumpriu dezesseis anos eu permiti. Me pareceu 
ruim proibi-la se eu tinha as minhas furadas e todas as suas amigas tambm. No queria...no queria...
- Fizes-te bem - disse interrompendo a enxurrada de frases meio histricas.Me estreitou com suave firmeza. - Fizes-te bem. Tem sido uma me maravilhosa, eu sei.
Eu chorava outra vez , fazendo ruidos tremendo contra ele.
- Me deu uma filha, Mo Duinne - murmurou ele. - Estamos juntos para sempre. Ela est bem. Viveremos para sempre, tu e eu.
Me beijou levemente e apoiou a cabea na almofada.
- Brianna - sussurou com aquela estranha entonao montanhesa que fazia do nome algo muito seu.Suspirou profundamente. Um instante depois dormia. Em seguida eu tambm 
dormi.





 
 

CAPTULO 26

O caf da manh tardio das prostituta

Depois de vrios anos respondendo aos telefonemas da maternidade e da profisso mdica, tinha desenvolvido a habilidade de acordar completamente do sonho mais profundo. 
Jamie no estava na cama; sem alongar a mo nem abrir os olhos, soube que seu lugar estava vazio. No entanto, ele devia de estar por perto. Girei a cabea sobre 
o travesseiro, abrindo os olhos. O quarto estava coberto por uma luz cinza que apagava todas as cores, mas marcava claramente na penumbra as linhas de seu corpo. 
Estava em p junto  tina de gua. Admirei as curvas redondas de suas ndegas, o pequeno oco musculoso que as fazia iguais e sua plida vulnerabilidade.
Ele se voltou, sereno e um pouco distrado. Ao ver que o estava observando pareceu ligeiramente sobressaltado. Sorri em silncio; no me ocorria nada para dizer. 
Ele veio sentar-se na cama. -Dormis-te bem? -perguntei ao fim, estupidamente. Um amplo sorriso lhe alargou a cara. -No-disse- E voce? -Tambm no. -Senti seu calor, 
apesar da distncia e do frio do quarto- No tens frio? -No. Ficamos em silncio, mas no podamos deixar de olhar-nos. O observei com ateno, comparando minhas 
recordaes com a realidade. -s mais corpulento do que recordava -aventurei. Ele torceu a cabea para olhar-me com ar divertido. -E voce parece um pouco menor.
Minha mo se perdeu na sua; sentia a boca seca. Engoli a saliva. -H muito tempo atrs voc me perguntou se eu sabia o que existia entre ns dois -disse. -Me lembro 
-confirmou com suavidade, pressionando brevemente os dedos sobre meu pulso- Como ... te tocar; deitar contigo. -Eu te respondi que no sabia. -Ento eu tambm no. 
-O sorriso quase se tinha esfumado, mas seguia ali, espreitando na comissura da boca. -E ainda no sei -prossegui- Mas... -interrompi com um pigarro. -Mas ainda 
existe -completou ele. O sorriso passou de seus lbios para seus olhos - No?
Era verdade. Sentia-me to consciente de sua presena como se tivesse tido um cartucho de dinamite aceso, mas a sensao tinha mudado entre os dois. Ao dormir junto 
ramos um s corpo, unidos pelo amor da filha gerada pelos dois; mas ao acordar ramos duas pessoas... ligadas por algp diferente. -Sim. Isto ... Acha que  s 
por Brianna? Aumentou a presso em meus dedos. -Se te quero por ser a me de minha filha? -Ergueu uma sobrancelha avermelhada, com ar de incredulidade-. No. E no 
porque no te agradea -disse apressadamente- Mas no  por isso. Creio que poderia observar-te durante horas inteiras, Sassenach, para ver em que voc mudou e em 
que continua sendo a mesma. S para ver pequenos detalhes, como a curva de teu queixo ou as orelhas, com essas pequenas perfuraes. Tudo isso est igual que antes. 
O cabelo... eu te chamava mo nighean donn, te lembras?
Sua voz era pouco mais do que um sussurro; acariciou meus cachos com seus dedos. -Suponho que isso mudou um pouco -disse. -Como carvalho sob a chuva -sorriu ele, 
alisando uma mecha- Com gotas de gua caindo das folhas, ao longo da crosta. Acariciei-lhe a coxa, tocando a longa cicatriz. -Quisera eu tivesse estado ali para 
atender-te -sussurrei- Foi o mais horrvel que fiz em minha vida: abandonar-te, sabendo que... que ias morrer. -Mal pude pronunciar a palavra. -Bom, esforcei-me 
bastante. -Sua careta irnica me fez rir, apesar da emoo- No foi culpa minha se no tive sucesso. -Jogou uma olhada indiferente  cicatriz- Tambm no foi culpa 
do Sassenach nem de sua baioneta. Incorporei-me sobre um cotovelo, entornando os olhos para estudar a ferida. -Isso te fizeram com uma baioneta? -Bem, sim.  que 
infeccionou. 
-Eu sei; encontramos o dirio de lorde Melton, o que te enviou a tua casa do campo de batalha. Ele no acreditava que pudesses chegar. Ofegou. -E quase acertou. 
Quando retiraram-me da carroa, em Lallybroch, estava quase morto. -Sua cara se anuviou pelas recordaes- Deus meu, as vezes desperto no meio da noite sonhando 
com essa carroa. Foram dois dias de viagem, com frio e febre. -Deve ter sido horrvel -reconheci, ainda que a palavra parecesse insuficiente. -- S resisti porque 
imaginava o que faria com Melton para me vingar por ele no ter me fuzilado. Ri outra vez. Jamie me olhou com um sorriso torto. -No tem nada de divertido -reconheci 
engolindo saliva- Rio para no chorar. -Sim, eu sei. Estreitou-me a mo. Eu respirei fundo. 
-No... no quis olhar para trs. No me sentia capaz de averiguar... o que tinha acontecido. -Mordi meu lbio; reconhecendo que parecia uma traio - No  que 
tentara...que quisera...te esquecer -disse procurando torpemente as palavras- No podia. Jamais. Mas... -No se aflija, Sassenach -me interrompeu dando-me uma palmadinha 
na mo- Te compreendo. Eu tambm tentara no lembrar. -Mas se o tivesse feito -confessei baixando os olhos ao lenol- talvez tivesse te encontrado antes. -E ento 
o qu? Terias deixado a nossa filha l, sem a me? Teria voltado para mim aps Culloden, quando somente poderia te ver sofrer com os demais, sem poder cuidar de 
voc, me sentindo culpado por te levar a este destino?- Ergueu uma sobrancelha interrogante; depois sacudiu a cabea- No: eu te disse que te fosses e que me esquecesses. 
Como poderia criticar-te por fazer o que te disse, Sassenach? -Mas teramos tido mais tempo! Poderamos...  
Ele me interrompeu apoiando a boca na minha. Aps um momento me soltou. -Sim,  verdade. Mas no podemos pensar nisso. -Olhou-me com firmeza, analisando- No posso 
olhar pra trs e seguir vivendo, Sassenach. Se no tivssemos mais do que a noite passada e este momento, me bastaria. - Para mim no! - protestei. Ele comeou a 
rir. - Voc  uma pequena ambiciosa. -Sim. A tenso se tinha quebrado. Voltei a concentrar-me em sua cicatriz. -Estavas-me contando como te fizeram isso. -Bem, foi 
Jenny... minha irm, se lembra? Recordava-a, sim: to morena como ruivo ele e bem menor, mas podia medir-se com seu irmo, e ainda super-lo, em matria de teimosia. 
-Disse que no ia deixar-me morrer -continuou ele com um sorriso melanclico- E o cumpriu. Ao que parece, eu no tinha direito a opinar sobre o assunto, porque no 
se incomodou em conferir-me.
-Muito prprio de Jenny. -Senti um leve fulgor de consolo ao pensar em minha cunhada: Jamie no tinha estado to s como eu acreditava. -Deu-me poes para a febre 
e me ps cataplasmas na perna para retirar o veneno. Mas no deram resultado e minha perna piorava. Estava inchada e fedorenta; depois comeou a pr-se negra. Ento 
pensaram que teriam que cortar-me para salvar-me a vida. Relatava-o com bastante despreocupao, mas eu me senti um pouco mal disposta. - bvio que no o fizeram 
-observei- Por que? -Bem, foi por Ian. Ele no o permitiu. Disse a Jenny que sabia muito bem o que era viver com uma s perna e, enquanto a ele no lhe molestava 
muito, estava seguro de que a mim no me agradaria, por muitas razes. O gesto da mo as abarcou todas: a perda do combate, da guerra, de mim, de seu lar e seu meio 
de vida, tudo o que compunha sua vida normal.
-Ento Jenny fez com que trs dos arrendatrios se sentassem em cima de mim para manter-me imvel. Depois me abriu a perna at o osso com uma faca de cozinha e lavou 
a ferida com gua fervendo -disse calmamente. -Santo cu! -balbuciei horrorizada. Ele sorriu vagamente. -Bem, deu resultado. Engoli a saliva com dificuldade; tinha 
gosto de blis. -Por Deus, poderias ter ficado invlido por toda a vida! -Bem, ela limpou a ferida o melhor do que pde e depois a costurou. Disse que no me permitiria 
morrer, nem ficar invlido, nem passar o dia estendido na cama sentindo lstima de mim mesmo, nem... -Encolheu-se de ombros resignado- Quando acabou de enumerar 
tudo o que no ia permitir-me, a nica opo que restava era repor-me. Imitei seu riso. Ele alargou o sorriso ante a recordao. -Quando pude levantar-me, fez que 
Ian me levasse para fora depois de escurecer, para que caminhasse. 
Um belo espetculo! Ele, com sua perna de pau; eu, com minha bengala; os dois mancando daqui para l, como um par de cegonhas coxas. -- Voc passou anos vivendo 
numa caverna, no ? Existe uma lenda sobre isso. Elevou as sobrancelhas, surpreso. -Uma lenda? -Parecia envaidecido e envergonhado- Parece-me um tema bobo para 
uma lenda. -H algo mais dramtico: que te fizeste entregar aos ingleses para cobrar a recompensa que tinham posto a tua cabea -comentei mais seca ainda- No foi 
um risco bastante grande? - Imaginei que a priso no seria to horrvel -confessou incmodo-, e tendo em conta tudo... Tratei de falar com calma, ainda que sentia 
desejos de sacudi-lo com sbita e ridcula fria retrospectiva. -Que priso nem priso! Sabias perfeitamente que podiam enforcar-te, no? E mesmo assim o fizeste!
-Tinha que fazer algo. -Encolheu-se de ombros- Se os ingleses eram to tontos para pagar um bom preo por um triste despojo... Bem, no h nenhuma lei que proba 
aproveitar-se dos tontos, no ? -No sei quem era o tonto -manifestei sem olh-lo- De qualquer modo, deves saber que tua filha est muito orgulhosa de ti. - srio? 
-Parecia estupefato. -Claro.  um heri, no? Jamie enrijeceu. -Eu? No! -Passou uma mo pelo cabelo, como costumava fazer quando estava pensativo ou confuso - No 
teve nada de herico nisso. Eu... no agentava mais. Ver que todos passavam fome e no poder cuid-los... Jenny, Ian e os meninos, todos os arrendatrios e suas 
famlias... -Olhou-me com ar indefeso- No me importava que os ingleses me enforcassem ou no. Imaginei que no o fariam, pelo que voce me tinha dito, mas ainda 
pensando o contrrio o teria feito. Mas isso no foi coragem, Sassenach, em absoluto.
-Compreendo -disse suavemente depois de uma pausa- Compreendo. - De verdade? - Estava srio. -Conheo  voc, Jamie Fraser. -De verdade? -repetiu. Mas um leve sorriso 
lhe sombreava a boca. -Creio que sim. O sorriso se alargou, mas antes que pudesse falar bateram  porta. Dei um pulo, como se tivesse tocado num ferro quente. Jamie, 
rindo, deu-me uma palmada no quadril e foi abrir. -No creio que seja a polcia, Sassenach, seno a criada com o caf da manh. E estamos casados, no? -Ergueu uma 
sobrancelha interrogante. -De qualquer modo, no deverias vestir alguma coisa? -perguntei no momento em que tocava na maaneta da porta. Olhou-se. -- No acredito 
que as pessoas desta casa se horrorizem com algo assim, Sassenach. Mas devo respeitar tua sensibilidade. -Dirigindo-me um largo sorriso, pegou uma toalha do lavatrio 
para envolver o quadril com algum desleixo.
Divisei no corredor uma alta silhueta de homem e de imediato me cobri com os lenis at a cabea. Ao ouvir a voz do visitante me alegrei de estar momentaneamente 
fora de seus olhos. -Jamie? -Parecia bastante sobressaltado. Reconheci-o de imediato, apesar de no o ter ouvido em vinte anos. Espionei por embaixo dos cobertores. 
-Claro que sou eu -disse Jamie bastante irritado- Para que tens os olhos, homem? Fez seu cunhado entrar no quarto e fechou a porta. -J vejo que  voc -replicou 
Ian com um pouco de aspereza-, Mas no podia acreditar em meus olhos! Vi fibras cinzas no cabelo castanho e na cara e as rugas de muitos anos de trabalhos pesados.
-O moo da tipografia me disse que no tinhas passado a noite l. E esta era a direo  que Jenny te enviava as cartas -disse-. Mas nunca pensei que te encontraria 
num prostbulo, Jamie! No estava seguro, quando essa... essa senhora me abriu a porta. Mas depois... -No  o que imaginas, Ian -advertiu Jamie. -Ah, no? E Jenny 
temendo que casses enfermo por viver tanto tempo sem mulher! Lhe direi que no tem por que preocupar-se. E onde est meu filho, diga-me? Em outro quarto, com alguma 
outra mulherzinha? -Teu filho? -A surpresa de Jamie era evidente- Qual? Ian olhou a Jamie. Em sua cara longa e singela, o enfado se tinha convertido em alarme. -No 
est contigo? O pequeno Ian no est aqui? -O pequeno Ian? Por Deus, homem, como podes crer-me capaz de trazer a um bordel  um garoto de quatorze anos! Ian abriu 
a boca. Depois voltou a fech-la e se sentou no banquinho.
-Se queres que te diga a verdade, Jamie, j no sei do que s capaz. -Olhou ao seu cunhado com os dentes apertados-Em outros tempos eu sabia, mas agora j no. -Que 
diabos queres dizer com isso? -Vi enfurecer-se a expresso de Jamie. Ian deu uma olhada  cama. Jamie seguia corado, mas vi que lhe tremia a comissura da boca. Inclinou-se 
numa complicada reverncia. -Peo-te perdo, Ian. Estou faltando com  boa educao. Permita-me apresentar a minha esposa. Aproximou-se  cama e retirou os cobertores. 
-No! -exclamou Ian, levantando-se de um pulo e olhando para qualquer coisa menos a cama. -- O que? No vai saudar minha esposa?-Tua esposa? -Ian o olhou com horror- 
Voc se casou com uma rameira? -Eu no diria isso exatamente -intervim. Ao ouvir minha voz, Ian voltou bruscamente a cabea para mim.
-Oi -saudei, agitando alegremente a mo do meu ninho de lenois-Quanto tempo sem ver-nos. Sempre tinha pensado que os livros exageravam ao descrever a reao de 
quem via um fantasma, mas ante o visto desde meu retomo ao passado teria que revisar minhas opinies: Jamie  tinha desmaiado. Ian no tinha, literalmente, os cabelos 
de p, mas sim, parecia louco de susto. - Isso te ensinar a no pensar to mal de mim - disse Jamie com evidente satisfao. Depois, compadecido de seu trmulo 
cunhado, o serviu de um pouco de conhaque - Julgueis e sereis julgados, no? -Que...? -exalou Ian soluando ao olhar-me- Como...? - uma longa histria -eu disse. 
Jamie assentiu com a cabea- No acredito conhecer o jovem Ian. Desapareceu? -perguntei cortesmente.
Ele assentiu mecanicamente, sem tirar os olhos de mim. -A sexta-feira passada fugiu de casa -disse aturdido- Deixou um bilhete dizendo que viria encontrar-se com 
seu tio. Bebeu um gole de conhaque que lhe fez tossir at quase chorar. -No  a primeira vez, sabes? -disse-me. Parecia estar recobrando o domnio de si. Jamie 
se sentou na cama e me pegou a mo. -No vi o teu filho desde que lhe mandei a casa com Fergus, faz seis meses -disse. Comeava a estar to preocupado como Ian- 
Ests seguro de que vinha para c? -Bem, s seu nico tio, que eu saiba -replicou o outro bastante azedo. Deixou o copo, depois de beber de um s trago o resto do 
conhaque. -Fergus? -interrompi- Fergus est bem? -Sentia uma onda de jbilo ao pensar no rfo francs que Jamie tinha trazido a Esccia como servo. Ele me olhou.
-Oh, sim. Fergus j  um homem. Mudou um pouco, claro. -Uma sombra lhe cruzou a cara, mas a despejou um sorriso- Se alegrar muitssimo de voltar a ver-te, Sassenach. 
Ian tinha se levantado para andar. -- No saiu a cavalo - murmurou -. No tem nada que algum possa quere roubar. - Virou para seu cunhado - Por onde o trouxe da 
ltima vez? Por terra, rodeando o Firth, ou navegando? -- No fui busc-lo em Lallybroch. Ele cruzou com Fergus at Carryarrick e se reuniu comigo junto ao lago 
Laggan. Depois baixamos por Struan, Weem e... sim, j lembrei. Para no cruzar pelas terras dos Campbell nos desviamos para o Este e cruzamos o Forth  altura de 
Donibristle. -Acha que fez o mesmo trajeto? - possvel. -Jamie mexeu a cabea em dvida.
O pai voltou a andar, com as mos cruzadas s costas. -A ltima vez que fugiu lhe dei uma surra que no pde sentar-se por vrios dias. -Tinha os lbios apertados. 
Adivinhei que o jovem Ian era uma verdadeira prova para ele- Acreditava que no ia cometer outra vez a mesma estupidez. Jamie ofegou, no sem simpatia. -Alguma vez 
uma surra te impediu fazer o que tinhas decidido? Ian deixou de andar para cair de novo no banquinho. -No -suspirou-, mas suponho que foi um alvio para meu pai. 
Sua cara se partiu num sorriso contrariado. Jamie ria. -Deve de estar bem -declarou Jamie, confiado, enquanto deixava cair a toalha para pr as calas-Vou divulgar 
que o estamos procurando. Se est em Edimburgo, o saberemos antes de que caia a noite. Ian deu uma olhada  cama e se levantou precipitadamente. -Vou contigo.
-De acordo. - A cabea de Jamie apareceu pela gola da camisa com o cenho franzido - Ter que ficar aqui, Sassenach - disse. -Suponho que sim -reconheci com secura- 
Como no tenho roupa... A criada tinha levado meu vestido depois de servir-nos o jantar. Ian levantou as sobrancelhas at a linha dos cabelos, mas Jamie se limitou 
a assentir. -Antes de sair falarei com Jeanne -prometeu pensativo- Talvez me atrase um pouco, Sassenach. Tenho... alguns assuntos que resolver. -Estreitou-me a mo- 
Me agradaria ficar mas... Me esperar aqui? -No te preocupes -lhe assegurei, assinalando a toalha que ele tinha descartado- No penso sair vestida com isso.
Quando o rudo de suas pisadas desapareceu pelo corredor, recostei-me sobre os travesseiros, sonolenta e satisfeita. Sentia agradveis dores em vrios lugares desacostumados 
e, enquanto resistia a separar-me de Jamie, tambm era gratificante passar algum tempo a ss, recordando. Sentia-me como quem recebeu um cofre fechado com um tesouro, 
perdido muito tempo atrs. Apalpava sua forma e seu agradvel peso, encantada por possu-lo, mas ainda no sabia com exatido o que tinha dentro.
Morria de curiosidades por saber o que tinha feito Jamie, o que tinha dito e pensado durante todos os dias de nossa separao. Indubitavelmente, depois de ter sobrevivido 
a Culloden devia de ter refeito sua vida... e conhecendo a Jamie Fraser, no podia pensar que tivesse sido simples. Mas uma coisa era saber isso e outra diferente 
era encarar a realidade. Eram muitas as perguntas que no tinha tido tempo de formular. Que tinha sido da famlia, l em Lallybroch, de sua irm e seus sobrinhos? 
Obviamente, Ian estava so e salvo, apesar da perna de pau. Mas e o resto da famlia, os arrendatrios da fazenda, teriam sobrevivido  destruio das Terras Altas? 
E, em sendo assim, que fazia Jamie em Edimburgo? E o qu diriam eles quando se inteirassem de minha sbita reapario?
Bom, nos ocuparamos no tema quando chegasse o momento. Com mais curiosidade me perguntava quanto as atividades ilegais de Jamie, sua extenso e seu perigo. Ento 
era contrabando e motim, no? Sabia que, nas Terras Altas de Esccia, o contrabando era uma profisso to honorvel como roubar gado vinte anos atrs, que possua 
riscos relativamente escassos. J o motim era outra coisa; parecia uma ocupao bastante perigosa para um ex jacobita preso. Provavelmente, essa era a razo pela 
qual usava um nome falso... ao menos uma das razes. Apesar da confuso que estava quando chegamos ao bordel, tinha notado que Madame Jeanne o chamava por seu verdadeiro 
nome. Portanto, era de supor que como contrabandista conservava sua prpria identidade, reservando o pseudnimo de Alex Malcolm para as atividades da tipografia, 
legais ou ilegais. Nas breves horas da noite tinha visto, ouvido e sentido o suficiente para saber que o Jamie Fraser com quem tinha me casado ainda existia. Restava 
saber quantas outras pessoas tambm existiam.
Algum chamou timidamente  porta, interrompendo meus pensamentos. "O caf da manh", pensei. E muito oportuno. Estava morta de fome. -Entre, por favor -anunciei 
levantando-me. A porta se abriu com muita lentido; depois de uma grande pausa, uma cabea apareceu pela abertura como um caracol que emergia de sua concha aps 
uma chuva de granizo. A coroava uma mata mal cortada de cabelos castanhos escuros, to densa que as pontas sobressaiam como espetos sobre as grandes orelhas. O rosto 
era largo e ossudo, seria feio a no ser pelos olhos pardos, muito bonitos, suaves e to grandes como os de um cervo. Pousaram em mim com uma expresso confusa e 
interessada.
A cabea e eu nos observamos mutuamente por um momento.
- Voc  a ....mulher do Sr. Malcolm? - perguntou.
- Poderia-se dizer que sim - respondi com cautela.
- Poderia-se dizer que sim - respondi com cautela. Era-me vagamente familiar, ainda que estivesse segura de no o ter visto antes. Subi um pouco mais o lenol - 
E voc, quem ?
Ele refletiu um pouco antes de responder, com a mesma prudncia:
- Ian Murray.
- Ian Murray - Me levantei bruscamente, resgatando o lenol no ltimo momento - Entre - ordenei peremptoriamente - Se  quem estou pensando, por que no est onde 
deveria estar? E o que faz aqui?
Parecia bastante alarmado e deu mostras de querer retirar-se.
- Espera! - exclamei, tirando uma perna da cama para persegu-lo. Os grandes olhos pardos se alargaram ante a apario do membro nu. Ficou petrificado - Entre.
Era alto e deselegante como um filhote de cegonha, deveria pesar uns 57 quilos, espalhados numa estrutura de 1,80m. Sabendo quem era, a aparncia com seu pai era 
notria.
- Eu.......procurava meu.... ao senhor Malcolm, digo - murmurou olhando fixamente para as tbuas do piso.
- Se te referes ao seu tio Jaime, no est aqui.
- No, no, suponho que no. - Parecia que no lhe ocorria nada a acrescentar. Depois levantou o rosto dizendo -: Sabe onde ...?
Ao me ver, voltou a baixar a cabea de imediato, outra vez ruborizado e mudo.
- Saiu para te procurar. Com seu pai - acrescentei - Foram h pelo menos meia hora.
Ele levantou a bruscamente a cabea, com os olhos fora de rbita.
- Com meu pai? Meu pai esteve aqui? Voc o conhece?
- Claro que sim - disse sem pensar - Conheo Ian h muito tempo.
No era to inescrutvel como seu tio Jamie. Tudo o que pensava aparecia em seu rosto. E foi fcil rastrear a sucesso de pensamentos: do horror inicial passava 
a dvida do comportamento paterno.
- E....- balbuciei alarmada - ...No penses mal. Quero dizer, seu pai e eu ...na realidade,  com seu tio que eu...
Tentava buscar um modo de explicar lhe a situao sem me colocar em guas mais profundas, mas ele virou sobre suas pernas e comeou a andar para a porta.
- Espera um momento - insisti. Se deteve, mas sem me olhar - Qual a sua idade?
Se virou para mim com dolorosa dignidade.
- Vou fazer 15 dentro de 3 semanas. -  O rubor estava voltando a suas bochechas - No se preocupe. Tenho idade suficiente para saber...que tipo de lugar  esse. 
Sem inteno de vos ofender, senhora. Se tio Jamie ... quero dizer, eu... - Na falta de palavras adequadas, acabou por balbuciar -: Encantado em conhec-la, senhora! 
- E fugiu para o corredor, batendo a porta com tanta fora que ela se sacudiu no batente.
Cai nas almofadas meio divertida, meio alarmada. Perguntava-me por que o jovem Ian tinha ido at l em busca de seu tio. Seria Geordie que lhe dera a informao 
na imprensa? No parecia provvel. Portanto, devia conhecer por outras fontes a vinculao de seu tio com o estabelecimento. E a fonte mais provvel era o prprio 
Jamie.
Mas isso significava que Jamie sabia da presena de seu sobrinho em Edimburgo. Por que fingia no ter visto o menino? Ian era seu melhor amigo, tinham sido criados 
juntos. Para que Jamie enganasse seu cunhado devia ter algo muito importante em mente.
Antes que meus pensamentos fossem para longe ouvi outra batida em minha porta.
- Pode entrar - disse preparando a colcha para por a bandeja.
Tive que baixar os olhos. Era a pequena silhueta do senhor Willoughby que entrava, gateando sobre as mas e os joelhos.
- Que diabos est fazendo aqui?  - interpelei, escondendo apressadamente os ps e subindo a colcha at os ombros.
Como resposta, o chines se deteve a trinta centmetros da cama e deixou cair a cabea ao cho com um forte ruido, uma vez e outra vez.
- Para! - exclamei, vendo que estava querendo fazer a terceira.
- Mil perdes - explicou sentando-se sobre os calcanhares. Estava obviamente maltrapilho com uma ressaca endiabrada.
- No h nenhum problema - lhe assegurei retrocendendo cautelosamente at a parede. - No tens porque pedir desculpas.
- Sim, desculpa-me - insistiu - Tsei- mi dito esposa. Senhora muito honrvel Primeira Esposa, no rameira barata.
- Muito obrigada - disse- Tsei-mi? Jamie, quieres dizer? Jamie Fraser?
O homenzinho assentiu, com obvio detrimento de sua cabea. Lhe segurou com ambas as mos e fechou os olhos, onde desapareceu imediatamente as rugas do pescoo.
- Tsei-mi - afirmou sem abrir os olhos - Tsei-mi disse desculpas muito honradas a primeira Esposa. Yi Tien Cho - disse, dando-se um golpe em seu peito para indicar 
que era o seu nome, para no confundir com algum outro humildssimo servidor presente nas proximidades.
- Bem, muito bem - balbuciei - E... encantada de conhecer-te.
Obviamente restabelecido, se deixou cair de bruos ante mim como se no tivesse ossos.
- Yi Tien Cho servir senhora - disse - Primeira Esposa favor pisar humilde servidor, se gostar.
- AH! - exclamei friamente - J haviam me falado de ti. Quer que eu te pisoteie,  isso? Nem pensar!
Assomou uma ranhura do olho negro e resplandecente. O chines soltou uma risada to irrepremvel que eu mesma no pude deixar de rir.
- Lavarei ps de Primeira Esposa? ofereceu com um amplo sorriso.
- Nada disso. Se quieres fazer algo til, v ordenar que me tragam o caf da manh. No, espera um momento - disse mudando de ideia - Primeiro me diz onde te encontras-te 
com Jamie. Se no te incomodar - disse por cortesia.
Ele voltou para sentar-se sobre os calcanhares, bamboleando um pouco a cabea.
- Cais - disse - Dois anos atrs. Venho China, longe, no comida. Esconder em barril - explicou, formando um crculo com os braos para indicar seu meio de transporte.
- Como clandestino?
- Barco mercante - assentiu - Cais aqui, roubar comida. Um noite roubar conhaque, bebado perdido. Muito frio para dormir, quase morri, mas Tsei-mi encontrou. - Se 
mostrou novamente ao bater em seu peito - Humilde servidor Tsei-mi, humilde servidor Primeira Esposa.
E me fez uma reverencia, mesmo cambaleando de um modo alarmante, voltou a se indireitar sem haver sofrido incidentes.
- O conhaque parece ser tua perdio - observei - Lamento no ter nada que dar-te para a dor de cabea. Neste momento no tenho nenhum remdio aqui.
- Oh, no importa - me assegurou - Tenho bolas saudveis.
- Que bom - murmurei, me perguntando se ele preparava outra inteno contra meus ps ou se estava apenas um embriagado que confundia as partes bsicas da anatomia.
O que fez foi colocar as mos nas profundidades de sua ampla manga azul e com ar de  conspirador, extraiu um saquinho de seda branca onde deixou cair duas bolas 
esverdeadas.
- Bolas saudveis- explicou o senhor Willoughby, fazendo-as rodar pela palma de sua mo com um agradvel repiqueto. - Jade. Muito boas bolas saudveis.
-  mesmo? - perguntei fascinada - E so medicinais? Quer dizer, te fazem bem?
Assentiu vigorosamente, mas deteve o gesto com um leve gemido. Depois de uma pausa abriu a mo para fazer rodar as esferas com um hbil movimento circular nos dedos.
- Na mo todas as partes do corpo - explicou. Tocou delicadamente com o dedo vrias partes da palma aberta, entre as bolas vedes - Aqui cabea. Aqui estomago, aqui 
fgado. Bolas fazem todo bem.
- Bom suponho que so to portteis como o Alka-Seltzer - comentei
Possivelmente foi essa referencia ao estomago que induziu o meu a emitir um rugido audvel.
- Primeira Esposa quer comida - observou o senhor Willoughby com muita destreza.
- Muito astuto de tua parte. Quero comida, sim. Podes descer e dizer a algum?
- Humilde servidor j vai.
E saiu, no sem lanar-se com bastante violencia contra o batente da porta.
Aquilo estava sendo ridculo. Em vez de continuar sentada ali, desnuda e recebendo delegaes caprichosas do mundo exterior, considerei que havia chegado o momento 
de tomar atitudes. Depois de envolver-me cuidadosamente com a colcha, dei alguns passos pelo corredor.
O piso parecia deserto. Afastando de meu quarto, havia somente mais duas portas. E o teto tinha vigas de adornos; isso significava que estvamos num sto; o mais 
provvel era que os outros quartos estivessem ocupados por serventes que, em qualquer momento, deviam de estar trabalhando embaixo.
Depois de segurar as pontas da colcha sobre o peito, como se fosse um sri, recorri ao corrimo que se arrastava e descia pela escada, seguindo o aroma da comida.
o odor ( mais os barulhos de mastigao de vrias pessoas sentadas na mesa) vinham de uma porta fechada no primeiro piso. Ao abri-la me encontrei de frente a um 
grande quarto, mobiliado como cozinha.
A mesa estava rodeada por mais de vinte mulheres; algumas estavam j vestidas, mas a maioria apresentava tal estado de nudez que, em comparao, minha colcha era 
de um puritanismo exagerado. Uma mulher, sentada prximo a cabeceira, me viu abrir a porta e me chamou acenando, correndo amistosamente um banco para eu sentar.
- Deves de ser a moa nova, no? - disse, observando-me com interesse - s um pouquinho mais velha para o gosto da Madame; ela prefere as menores de vinte e cinco 
anos. Mas no ests nada mal, no - me assegurou apressadamente - Ests muito bem, sem dvida.
- Boa pele e um rosto bonito - observou a morena sentada frente a mim, avaliando-me com ar objetivo de quem julga a um bom cavalo - E pelo que vejo, tem um bom traseiro.
- A Madame no gosta que tirem a roupa da cama - apontou meu primeiro contato com ar de reprovao - Se caso no tens nada bonito para por, deveria ter baixado at 
o traseiro.
- Como se chamas, querida? - Um mulher baixa e bastante rechonchuda, de rosto redondo e cordial, se inclinou junto a morena para sorrr-me. Em vez de me receber 
como se deve elas comearam a parlotear. Eu sou Dorcas. Est  Peggy. - Agitou o polegar onde estava a morena; logo acenou a ruiva sentada ao meu lado - E essa  
Mollie.
- Me chamo Claire - disse com um sorriso, ainda subia pudorosamente a colcha. No sabia como corrigir a equivocada impresso de que eu era uma rameira nova. De momento 
me parecia o menos importante que conseguir o pequeno almoo.
Como se advinharam minha necessidade, a amistosa Dorcas alongou o brao at o aparador que tinha atrs e depois de entrgar-me um prato de madeira, empurrou para 
mim uma grande fonte de salsichas.
A comida estava bem preparada, de qualquer modo, eu estava morrendo de fome.
Te comearam o trabalho com um bruto, no? -Millie, minha vizinha, acenava para o meu decote.
Me mortificou ver uma grande mancha roxa que parecia pela borda da colcha, seguramente tem tambm marcas de mordidas no pescoo.
- E tambm tens um nariz um pouco inchado - comentou Peggy olhando-me com olhar critico. Se esticou para tocar-me, sem se preocupar com o suicinto roupo que, com 
o movimento, se abriu at a cintura. - Te deram uma bofetada, no? Quando eles ficam muito brutos tens que chamar, sabe? Madame no permite que os clientes nos maltratem. 
D um bom berro, que Bruno estar aqui num segundo.
- Bruno? - repeti um pouco confusa.
-  o porteiro. Por isso o chamamos de Bruno. Qual o seu verdadeiro nome? - perguntou uma das rameiras - Horace?
- Theobald - corrigiu Millie. E se voltou para uma criada. - Quer trazer um pouco mais de cerveja, Janie?
Voltou de novo para mim:
- Sim, Peggy tem razo. -No  precisamente linda mas tem um boca bem formada e uma expresso simptica. - Aqui est a cerveja - disse recebendo da criada uma jarra 
de cermica  e que pos diante de mim.
- No lhe aconteceu nada - decidiu Dorcas,tratou completando um exame de minhas partes visveis. - Mas deve estar um pouco dolorida entre as pernas, no?
Me sorriu com sagacidade
- oh, olhem, ficou ruborizada - exclamou Mollie encantada - Oooh, s nova, no ?
Bebi um grande trago de cerveja. Era escura e espessa; me senti muito bem, tanto pelo seu sabor como pela amplitude da jarra, que me ocultava o rosto.
- No se preocupe - Mollie me deu umas palmadas bondosas no brao. - Depois do caf da manh te mostrarei onde esto os barris, para que umedea as partes com gua 
quente. Esta noite se sentir como nova.
- E no esquea de dizer onde se guardam os potes de ervas perfumadas - disse Dorcas - Ponhas na gua antes de sentar. A madame gosta quando cheiramos bem.
- Zi loz hombges quiziegan acostagze con un pezcado, iguan a los muellez; ez ms bagato - entonou Peggy, imitando a Madame Jeanne.
A mesa estourou em risadinhas, sufocadas rapidamente pela sbita apario de Madame em pessoa, que entrou por uma porta do fundo.
Franzia o cenho e parecia muito preocupada para reparar na hilaridade contida. Mollie, ao v-la, estalou a lingua.
- Um cliente a esta hora! No me deixam tomar um caf da manh tranquila.
- No se preocupe, Mollie - observou Peggy afastando a trana escura. - Claire quem ter que atend-lo. A mais nova lhe tocam o que nigum quer. - me informou.
- ...obrigada - sussurei.
Naquele momento, a olhada de Madame Jeanne caiu sobre mim e sua boca se abriu em uma forma horrorizada.
- O que ests fazendo aqui? - susurou, aproximando-se precipitadamente para segurar-me por um brao.
- Comendo - repliquei, mal disposta para me pegarem.
- Merde! Nadie no subiu o seu caf da manh?
- No. Nem a roupa - apontei com um gesto a colcha, em eminente perigo de cair.
- Nez de Clopatre! - exclamou ela com violencia enquanto olhava ao redor saindo fascas pelos olhos. - Darei uma sova nessa criada intil! Mil desculpas, Madame!
- No tem problema - assegurei graciosamente, captando as olhadas atnitas de minhas companheiras de mesa. - Tem sido um caf da manh maravilhoso. Encantada de 
te-las conhecido,senhoras -  sade, levantando-me para tentar uma elegante reverencia, sem soltar a colcha. - E agora, Madame... falemos de meu vestido.
Entre agitadas desculpas de Madame Jeanne e suas reiteradas esperanas de que Monsieur Fraser no se informara de minha indesejvel intimidade com as trabalhadoras 
do estabelecimento, sub torpemente outros dois vos de escadas, at um quarto pequeno cheio de prendas em diversas razes; e no canto se acumulava vrios retalhos.
- Um momento, por favor - pediu Madame Jeanne.
E se retirou com uma profunda reverencia, deixando-me em companhia de um manequim, cujo peito estava cheio de pequenos alfinetes. Despendurei uma angua de seu cabide 
e a pus. Era feita de um fino algodo, com um grande decote franzido e multiplas mos bordadas embaixo do peito e cintura, que pareciam acariciar-me com sensualidade.
Se ouviam vozes no quarto vizinho, onde Madame parecia estar repreendendo; ao menos isso pensei ao ouvir a grave voz masculina.
- No me interessa o que tenha feito a irm desta desgraada - dizia ela. -No entendes que deixei a esposa de Monsieur Jamie nua e com fome...?
- Est segura de que  a esposa? - perguntou a voz grave masculina - Me haviam dito...
- A mim tambm. Mas se ele disse que a mulher  sua esposa, eu no tenho nada que discutir, n'est-cepas? - Madame parecia impaciente - Bem, em quanto essa infeliz 
de Madeleine...
- No  culpa dela, Madame - interrompeu Bruno - No sabes a novidade desta manh? O do Demnio?
Madame fez uma pequena exclamao
- No! Outra?
- Sim, Madame - A voz de Bruno sonava lgubre. - A umas portas daqui, sobre a taberna de Buho Verde. A moa era a irm de Madeleine. O padre trouxe a notcia justo 
antes do caf da manh. J viu...
- Sim, sim, compreendo. - Madame pareceu ficar sem folego. - Sim, claro. claro. Foi...o de sempre? - Sua voz tremia de desgosto.
- Sim, Madame. Um machado ou algum tipo de lmina grande. - Baixou a voz, como parecia fazer as pessoas ao relatar coisas horrveis. - O padre me disse que lhe haviam 
cortado a cabea. O corpo estava proximo da porta e a cabea... - Reduziu a voz quase como sussuro. - A cabea, na prateleira, olhando sobre o quarto, o hospetaleiro 
desmaiou ao encontr-la.
Tinha que reconhecer que Jamie tinha razo ao dizer que havia sido mal ideia instalar-me em um bordel. Bem, ao menos agora estava mais ou menos vestida. Passei pro 
quarto vizinho, onde encontrei a Madame Jeanne reclinada no sof de uma pequena sala, com um homem corpulento e de expresso infeliz, sentado em seus ps numa almofada. 
Ela levou um susto.
- Madame Fraser! Oh,me desculpa! No era minha inteno deix-la esperando, mas eu recebi... - vacilou, buscando alguma expresso delicada - uma notcia inquietante.
- Eu j sei - reconheci - Quem  esse Demnio?
- Voce ouviu? - Se antes estava branca, sua pele palideceu varios tons a mais. Se retorceu as mos. - O que dir a ele? Vai ficar furioso!
- Quem? inquiri - Jamie ou o Demonio?
- Vosso esposo. - Passou a olhar distraida pela sala - Quando descobrir de que sua esposa tem sido to vergonhosamente desatendida, confundida com uma filie de joie 
e exposta a...a...
- Na realidade, no acho que lhe incomde - disse. Mas eu gostaria que me falasse desse Demonio.
- Por que queres saber? - Bruno elevou suas densas sombrancelhas.
Olhou vacilante a Madame Jeanne, como pedindo orientao, mas a proprietria deu uma olhada no pequeno relgio de sua penteadeira e se levantou de um salto, com 
uma exclamao espantada.
- Crottin! Tenho que ir!
- Oh... - murmurou recobrando a surpresa. -  certo, devia chegar as dez e ponto.
Segundo o relogio esmaltado, era dez e meia. O que devia chegar, fosse o que fosse, teria que esperar um pouco.
- O Demnio - insisti.
Como quase todo o mundo, Bruno se mostrou disposto a revelar todos os detalhes macabros, uma vez superado certo recato, deixando de lado a delicadeza social.
O demonio de Edimburgo era assassino, tal como eu havia deduzido pela conversa escutada. Como um Jack o Estripador de outrora, se especializava em mulheres fceis, 
as que matava a golpes com um instrumento de lmina pesada. Em alguns casos, os cadveres haviam aparecido esquartejados, segundo disse Bruno, baixando a voz.
Os assassinatos, oito no total, se produziam a intervalos de dois anos. Com uma s exceo, as mulheres foram assassinadas em suas prprias habitaoes; em sua maioria 
viviam sozinhas; duas morreram em bordeis. Provavelmente isso explicava a agitao de Madame.
- Qual foi a exceo? - perguntei
Bruno se benzeu.
- Uma monja - sussurou. Era bvio que ainda estava impressionado- Francesa. Uma irm da Merced.
A irm havia sido raptada no cais, ao desembarcar em Edimburgo com um grupo de monjas destinadas a Londres. Na confuso, nenhuma das companheiras reparou em sua 
ausencia. La encontraram ao anoitecer, em um dos becos, mas j era muito tarde.
- Violada? - perguntei com interesse clnico.
Bruno me olhou com desconfiana.
- No sei - respondeu formalmente. Depois se pos em p; seus ombros estavam encurvados pelo cansao - Se me d licena, Madame... - disse com remota formalidade.
E saiu.
Voltei a sentar-me, um pouco aturdida, no pequeno sof de veludo. Nunca havia imaginado que em um bordel podiam acontecer tantas coisas durante o dia.
Algum bateu a porta com fortes golpes. Quando me levantava, se abriu sem esperar e uma silhueta delgada e imperiosa entrou a grandes passos.Falava frances com um 
acento muito marcado e uma atitude to furiosa que no entendi nada.
- Procuras a Madame Jeanne? - perguntei, aproveitando a pequena pausa que fiz para tomar folego.
O visitante era um jovem de uns trinta anos, muito charmoso, de uma contextura leve e denso cabelo negro. Me fisgou com os olhos chamejavam baixo com sombrancelhas 
espessas. Ento o seu rosto sofreu uma mudana extraordinria. As sombrancelhas arquearam, os olhos negros ficaram enormes e o semblante palideceu.
- Milady! - exclamou deixando-se cair de joelhos para abraar-me, apertando a cara contra minha angua de algodo, na altura entre minhas pernas.
- Solta-me! - protestei empurrando pelos ombros - No trabalho aqui. J disse para me soltar!
- Milady! - repetia com extase - MIlady! Voce voltou! Um milagre! Deus a trouxe de volta!
Levantou os olhos para mim, sorrindo em lgrimas. Seus dentes eram brancos e perfeitos. Rpido vi sua cara de malandrinho embaixo do rosto do homem.
- Fergus!  voce?, Fergus! Levanta-se, por Deus! Deixa eu te ver.
Se ps em p, mas no tive tempo de inspecion-lo: me envolveu em um abrao capaz de triturar minhas costelas, que eu lhe devolvi com grandes palmadas em suas costas, 
entusiasmadas por voltar a v-lo.
- Acho que estou vendo um fantasma! - exclamou -  voce, mesmo?
- Sou eu, sim - lhe assegurei.
- J tens visto o Milord? - perguntou excitado - Sabe j que ests aqui?
- Sim.
- Oh! - Voltou meio passo, parpadeando, como se tivesse tido uma idia - Mas...mas o que passou com...? - Fez um pausa, claramente confuso.
- Com o que?
- Estavas aqui! Que demonios fazes aqui em cima, Fergus?
A alta silhueta de Jamie apareceu subitamente no vo da porta. Se alargaram os olhos para as minhas anguas.
- Onde est tua roupa? - perguntou.
Abri a boca para responder mas agitou uma mo impaciente.
- No importa. Agora no tenho tempo. Vamos, Fergus, que tenho dezoito caixas de conhaque no beco e a polcia pisando em meus calcanhares.
Desapareceram com um trotar de botas pela escada, deixando-me sozinha mais uma vez.
No sabia se descia a reunir-me ao grupo ou no, mas a curiosidade  mais capaz que a discrio.
Depois de uma rpida visita ao quarto de costura em busca de algo que me cubra um pouco mais, me envolvi em um grande xale bordado de malvas loucas.
Me detive ao p da escada, atenta ao rodar os barris para me sevir de guia. Enquanto estava ali senti uma rajada sbita em meus ps descalo; ao voltar vi um homem 
no vo da porta que conduzia a cozinha. Parecia to surpreendido como eu, mas se adiantou com um sorriso para segurar-me pelo cotovelo.
- Que tenhas um bom dia, querida. No esperava encontrar nenhuma senhorita acordada a esta hora da manh. Te enviaram para me distrair?
- No. Quem? - perguntei.
- A Madame. - Deu uma olhada ao seu redor - Onde ela est?
- No tenho ideia. Solta-me!
Em vez de obedecer, me cravou os dedos no brao. Depois se inclinou para sussurrar em meu ouvido, entre vapores de tabaco ranoso:
- H uma recompensa, sabes? Uma porcentagem sobre o valor do contrabando sequestrado. No tem porque inteirar nada, em exceto voce e eu. - Me passou um dedo embaixo 
do meu seio, que fez o bico se arrepiar embaixo do fino algodo. - O que te parece, jovem?
O olhei fixamente. <<Tenho a polcia pisando-me os calcanhares>>, havia dito Jamie. Aquele homem devia de ser um oficial da Coroa, encarregado de perseguir o contrabando. 
<<A picota, deportao, flagelao, priso>>, havia enumerado Jamie, agitando uma mo despreocupada, como se aqueles castigos fossem o equivalente a uma multa de 
transito.
- O que est falando? - inquiri tratando de fingir-me intrigada. - E por ltima vez, te digo que me soltes!
No podia ter vindo sozinho. Quantos mais estariam rodeando o edifcio?
- Sim, por favor solte - disse uma voz detrs de mim.
Vi que o policial dilatava os olhos, olhando por cima de meu ombro.
Em um segundo apareceu na escada o senhor Willoughby, vestido com um roupa de seda azul, segurando uma grande pistola com as duas mos. Saudou o policial com uma 
cortes inclinao de cabea.
- No rameira barata - explicou parpadeando como uma coruja - Honrada esposa.
O policial, novamente sobressaltado pela inesperada apario do chines, nos olhou surpreendido.
- Esposa? - repitiu incrdulo - Disse que  sua esposa?
Pelo visto, o senhor Willoughby captou somente uma palavra, assentindo.
- Esposa - repetiu - Por favor solta.
O policial me soltou, olhando ao senhor Willoughby com expresso cenhuda.
- Olha... - comeou.
No pode dizer nada mais pois meu gardio, dando por sensato que j havia feito a devida advertencia, levantou a pistola e apertou o gatilho.
O homem cambaleou para trs com expresso de intensa surpresa. Atuando por reflexo, me segurou por debaixo de meus braos e  caiu suavemente  nas tbuas do patamar.Em 
cima se fez um alvoroo; os habitantes da casa se embolaram no corredor principal, entre fuxicos e exclamaes, atrados pelo disparo.
Fergus invadiu por uma porta que devia de levar ao sto, com pistola na mo.
-Milady - ofegou ao me ver sentada no canto, com o corpo do policial escarranchado em meu colo - O que voce fez?
- Eu? - protestei indignada - Eu no fiz nada. Foi esse chines que Jamie tem por mascote.
Acenei com a cabea ao senhor Willoughby, que havia se sentado num degrau com a pistola caida nos ps. Fergus disse algo em frances to coloquial que no podia traduzir, 
mas soou pouco encantador para o senhor Willoughby.Depois cruzou o patamar em grandes passos e alargou uma mo para agarrar ao chines pelo ombro. Ao menos, isso 
creio eu...antes de ver que o brao estendido no terminava em uma mo, vi sim  um gancho de reluzente metal escuro.
- Fergus! - Estava to horrorizada que interrompi minha tentativa de deter a hemorragia com o xal - O que...que?
- O que? - Seguindo a direo de meus olhos, se deu de ombros - Ah, isto. Os ingleses. No se preocupe por isso, milady; no temos tempo. E voce, canaille, desce!
E arrancou o senhor Willoughby da escada para arrast-lo at a porta do sto, por onde o expulsou sem consideraes. Foi uma srie de golpes secos, como se o chines 
tivesse cando rodando pela escada, momentaneamente perdia suas habilidades acrobticas. No tive tempo de pensar nisso, porque Fergus se pos em crcoras ao meu 
lado e levantou a cabea do policial segurando pelo cabelo.
- Quantos te acompanham? - perguntou - Se no me dizer agora mesmo, porco, te corto a cabea!
Evidentemente, a ameaa era superflua.
- Nos veremos...no...inferno - sussurou o homem. E morreu em meu colo com uma ltima convulso.
Se ouviam pisadas na escadaria, subindo a toda velocidade. Jamie cruzou correndo a porta do sto e apenas pde deter-se antes de tropear com as pernas no policial. 
Depois de recorrer todo o corpo com os olhos, seus olhos se detiveram em meu rosto com espanto assombro.
- O que voce fez, Sassenach? - acusou.
- No foi ela, seno o anfbio amarelo - interveio Fergus, me poupando o trabalho. Depois meteu a pistola abaixo da cintura para oferecer-me a mo sana. - Vamos, 
Milady! Deves ir para baixo!
Jamie lhe deteve, apontando com a cabea o salo dianteiro.
- Eu me encargo disto - disse - Vigia a frente, Fergus. O sinal de costume. E no saque a pistola a menos que seja necessrio.
Fergus fez um gesto afirmativo e desapareceu de imediato do salo.
Jamie, que se havia ajustado para envolver desajeitosamente o cadver com meu xal, me liberou de seu peso. Foi um alvio, exceto o sangue e outras substancias repugnantes 
que me empapavam a angua.
- Oooh, creio que est morto! - exclamou uma voz aturdida em cima.
Dez ou doze prostituras olhavam do alto, como querubins no cu.
- Voltem as suas habitaes - ladrou Jamie.
Houve um coro de chiados e dispersaram-se como pombas.
Jamie deu uma olhada ao redor. Por sorte, no havia sinais do incidente: o xale e eu havamos recibido tudo.
- Vamos - ordenou
Os degrais e o solto estavam escuros. Me detive embaixo para esperar a Jamie. O policial no era leve.
- Ao outro lado - indicou ofegando - Um muro falso. Agarra-te em meu brao.
J fechada a porta de cima, no se via nada; por sorte, Jamie parecia guiar-se como por radar. Cheirava a pedra mida. Alargando a mo toquei uma parede spera ante 
mim.
Jamie subiu a voz para dizer algo em galico. Ao parecer, era o equivalente celta de <<Abra-te, Ssamo>>, por trs em um breve silencio se ouviu um ruido chirriante. 
Na escuridade, ante mim, apareceu uma vaga linha luminosa que se foi alargando; uma parte da parede girou para fora deixando ver uma porta com um marco de madeira 
sobre o que se haviam montado pedras cortadas simulando ser parte da parede.
A parte oculta do sto era uma habitao ampla, de nove a dez metros de lado. Por ali se moviam vrias silhuetas em um ambiente sufocante pelo odor a conhaque. 
Jamie deixou cair o cadver em um canto, sem nenhuma cerimonia, e se voltou para mim.
- Por Deus, Sassenach, voce est bem?
- Tenho um pouco de frio - disse, tratando de que no me rangessem os dentes - E a angua empapada de sangue. De resto estou bem...acho.
- Jeanne! - gritou Jamie.
Um das silhuetas vinha at ns; era a Madame, preocupadssima. Ele explicou a situao em poucas palavras, fazendo que sua expresso piorasse consideravelmente.
 -Horreur! -exclamou - Morto? Em meu local? Diante de testemunhas?
- Eu temo que sim - Jamie parecia sereno - Eu me encarrego disso. Mas por enquanto deves subir. Talvez no tenha vindo sozinho. J sabes como fazer.
Sua voz sonava tranquilizadora. Lhe apertou o brao.
- Ah, Jeanne - disse quando ela estava se retirando - Quando regressar, podes trazer alguma roupa para minha esposa? Se seu vestido ainda no estiver pronto, creio 
que Daphne  da mesma altura dela.
- Roupa?
Madame Jeanne esfregou os olhos ante as sombras onde eu me encontrava. Para ajud-la dei um passo onde tinha luz, exibindo os resultados de meu encontro com o policial. 
Ela gaguejou um par de vezes e , depois de fazer o sinal da cruz, saiu sem dizer nada. 
Eu tanto tremia, tanto pela situao como pelo frio. Aquilo era como uma mal noite de sbado na sala de Urgncias.
- Vem Sasseanch - indicou Jamie apoiando-me uma mo na cintura - Tens que lavar-te.
- Lavar-me? Com o que? Com conhaque?
Isso lhe fez rir.
- No, com gua. Posso oferecer-te uma tina, mas temo que estar fria.
Estava sumamente fria.
- O-n-de vem esta gua? - perguntei estremecida - De uma geleira?
- Do telhado - respondeu - H uma cisterna onde se armazena a gua da chuva, com uma canaleta e um tubo que baixa por um lado do edificio.
Parecia absurdamente orgulhoso de s mesmo. Comecei a rir.
- Todo um invento. Para que usas a gua?
- Para diminuir o licor - Sinalizou ao lado oposto do salo, onde as escuras silhuetas trabalhavam com notvel empenho entre uma grande quantidade de toneles e tinas. 
- Vem a cento e oitenta graus. Aqui ns mesclamos agua pura e voltamos a embal-los para vender nas tabernas.
Detrs de um biombo armado com toneles, dei uma olhada em minha improvisada banheira.Uma s vela acesa na superfcie da gua, dando um aspecto negro e insondvel. 
Fiquei nua, tremendo violentamente, me havia parecido muito fcil renunciar a gua quente e as torneiras modernas quando os tinha na mo.
Jamie tirou da manga um leno grande, ao qual olhei vacilante.
- Bom, est mais limpo que tua angua - encolhendo os ombros.
Ele deixou em minhas mos e se afastou para supervisionar as operaes.
A gua estava gelada e o sto tambm; as gotas geladas me corriam pelo ventre e nas coxas, provocando-me pequenos calafrios.
Pensar no que podia estar acontecendo em cima no ajudava a calmar minhas apreenses.
Presumidamente, estvamos a salvo enquanto a parede falsa enganasse os investigadores. Mas se o muro no nos ocultasse, nossa posio seria quase desesperada.
E o desaparecimento daquele homem no podia deixar de provocar uma procura intensa. Imaginei a policia rastreando o bordel, interrogando as mulheres ente ameaas 
at obter minha descrio completa, ao de Jamie e do senhor Willoughby e os demais de vrios testemunhos sobre o assassinato.
Dei um aolhada involuntaria ao outro canto, onde jazia morto ensaguentado sudrio, bordado com malvas loucas rosas e amarelas.
O chines no estava por ali; devia de ter desmaiado atrs das caixas de conhaque.
- Toma, Sassenach. Bebe isto. Me rangiam tanto os dentes que quase mordi a lingua.
- Jamie havia reaparecido ao meu lado, como um cachorro So Bernardo, trazendo uma taa de conhaque.
- O-b-rigada.
- Tive que usar as duas mos para sustentar a taa de madeira, mas o conhaque me ajudou. Me caiu na boca do estomago como uma brasa, disparando odor de calor at 
minhas extremidades frgidas.
- Oh, Deus, que bom. - Disse na pausa suficiente para tomar folego - Esta  a verso sem a diminuio?
- No. Essa te mataria. Esta  um pouco mais forte da qual ns vendemos. Anda, logo. Depois te darei um pouco mais.
Enquanto eu terminava apressadamente meu congelado banho, o observei pelo canto do olho.
Me olhava com a expresso franzida, obviamente abstraido em suas reflexes.
- O que est pensando, Jamie?
A expresso desapareceu momentaneamente e seus olhos se clarearam.
- Estava pensando como s bonita, Sassenach - disse com suavidade.
- Pode ser, se  aficionado em carne de galinha a grande escala - repliquei azeda. E alarguei a mo deixando a taa.
Ele me sorriu subitamente, com um branco lampejo de dentes na penumbra do sto.
- Oh, sim - disse - Somente ver um frango desplumado me provoca uma ereo extraordinria.
Me engasguei com o conhaque, meio histrica pela tenso e o horror. Jamie se fez rapidamente num abrigo e me envolveu com ele. Me abraou estremecida.
- Me desculpa - disse - Estou bem. Mas  culpa minha. O senhor Willoughby disparou contra o policial porque pensou que estava me fazendo propostas indecentes.
Jamie ofegou.
- No  culpa tua, Sassenach - disse secamente - E se interessa, no  a primeira vez que esse chines comete uma besteira. Quando bebe  capaz de qualquer loucura.
Logo mudou sua expresso. Acabava de captar o que eu havia dito. Me olhou com os olhos dilatados.
- Voce disse policial?
- Sim, por que?
Sem responder, me soltou pelos ombros e girou sobre seus calcanhares.
- Segura isto - ordenou me dando a vela na mo. E se aproximou junto a silhueta coberta para retirar a mancha que lhe cobria a cara.
Eu havia visto alguns cadveres; o espetculo no me impressionava, mas to pouco era agradvel. Jamie observou com a expresso franzida aquela cara morta, somente 
com a luz da vela, e murmurou um pouco baixo.
- O que aconteceu? - perguntei.
- Este homem no  policial. Conheo todos os agentes do distrito e tambm os oficiais. E este eu nunca tinha visto.
Com um pouco de asco, afastou a solapa ensaguentada do casaco para buscar embaixo da roupa do homem. Por fim tirou uma pequena navalha e um livro encadernado em 
papel roxo.
- Novo testamento - leu com assombro.
Jamie fez um gesto afirmativo.
- Policial no , isto no  algo que algum leve a um prostbulo. - Depois de limpar o pequeno volume com o xale, lhe cobriu de novo o rosto e se pos em p, sacudindo 
a cabea.
- Isto  a nica coisa que tem em seu bolso. Os policiais e inspetores de Aduanas devem levar sempre sua credencial, pois ao contrrio no tem autoridade para confiscar 
mercadorias nem registrar um local. - Levantou os olhos arqueando a sombrancelha. - Por que pensou que era um policial?
- Me perguntou se me haviam enviado como distrao e onde estava a Madame. Depois disse que havia uma recompensa, uma porcentagem sobre o contrabando sequestrado, 
e que ningum o conhecia, exceto ele e eu. E como me disses-te que a policia estava pisando os calcanhares, pensei que era um deles.
Foi ento quando apareceu o senhor Willoughby e tudo se foi ao inferno.
Jamie assentiu, mas estava desconcertado.
- Bom, no sei quem poderia ser, mas me alegro de que no era policial. Ao principio pensei que algo havia saido errado.
- Sado errado?
Sorrio brevemente.
- Tenho um acordo com o chefe de Aduanas, Sassenach.
- Um acordo? - repeti boquiaberta.
Se encolheu dos ombros
- Bom, um suborno, se prefere que eu diga com clareza.
-  um procedimento comercial comum? - perguntei, tratando de  fazer com tato.
Se contraiu um pouco a boca.
- Sim, de fato. Pode se dizer que exista um acordo entre sir Percival Turner e eu. Me preocuparia muito saber que deixei este local vigiado por polciais.
- Est bem - disse lentamente enquanto me embaralhava todos os acontecimento da manh, compreendidos em partes, tentando orden-los - Mas nesse caso, por que disses-te 
a Fergus que tinhas a policia pisando em seus calcanhares? E por que todo mundo anda correndo de um lado a outro, como frangos degolados?
- Ah, isso. - Sorrindo por um instante, me segurou no brao para afastar-me do cadver - Bom, temos um acordo, como te dizia. Como parte dele, Sir Percival deve 
satisfazer o seus chefes de Londres sequestrando, de vez em quando, uma quantidade de contrabando. Ns nos encarregamos de dar-lhe a oportunidade. Wally e os rapazes 
trazem da costa duas carretas carregadas: uma com o melhor conhaque; a outra com tonels furados e vinho barato. Esta manh me encontrei com eles fora da cidade, 
como estava planejado, para trazer as carretas at aqui; tivemos cuidado em chamar a ateno do oficial da cavalaria que passava, casualmetne, com alguns drages. 
Ns fizemos com que nos  perseguissem pelos becos at que chegou o momento que eu, com os barris bons,me separasse de Wally e sua carga de vinho barato. Ento ele 
abandonou sua carreta para fugir e eu vim a toda velocidade at aqui, seguido por dois ou tres drages para salvar as aparencias. Soa bem para quem informa, sabes? 
- Sorrindo de orelha a orelha, citou: << Os contrabandistas escaparam, apesar da perseguio, mas os corajosos soldados de sua Magestade conseguiram capturar uma 
carreta carregada de licores, cujo valor foi calculado em sessenta libras e dez chelines>>. J conhece essas coisas.
- Suponho que sim - disse - Assim  voce, com os licores bons, o que devia chegar as dez horas. Madame Jeanne disse...
- Sim - confirmou cenhudo. - Ela devia ter a porta do stao aberta e a rampa em seu lugar as dez em ponto. No tinhamos muito tempo para descarregar tudo. Esta manh 
abriu tardssimo; tive que dar voltas pelo quarteiro para no atrair os drages at sua porta.
- Algo a distraiu - expliquei - Bom, se este homem no era policial, no creio que haja nenhum outro em cima. Agora ns podemos sair daqui.
- Me alegro. - O casaco de Jamie me cubria at os joelhos, mas sentia olhares encobertos que eu recibia em minhas pernas desnudas do outro extremo da habitao. 
Voltaremos para a imprensa?
- Talvez. Tenho que pensar. Jamie falava em tom distrado, com a frente enrugada pela reflexo.
-E...O que fizes-te com o Ian?
Levantou os olhos, como se no compreendesse. Logo seu rosto se despertou
- Ah, Ian. Eu deixei ele fazendo averiguaes nas tabernas do mercado. Nos reuniremos mais tarde - murmurou como se dizendo para s prprio.
- A prposito: eu conheci o Ian filho - disse em tom coloquial.
Jamie pareceu sobressaltar-se.
- Veio aqui?
- A tua procura, sim. Mais ou menos uma meia hora depois que voce saiu.
- Menos mal! - Passou uma mo pelo cabelo, como divertido e preocupado - Me daria muito trabalho explicar a Ian que faz seu filho aqui.
- E voce sabe para que veio? - perguntei com curiosidade.
- No, no sei! Supostamente devia...Oh, deixemos assim. Neste momento no posso preocupar-me por isso. Voltou aos seus pensamentos, dos que surgiu momentaneamente 
para perguntar: - Te disse onde ia?
Sacudi a cabea e enquanto ele voltava a pensar, me sentei em uma tina invertida. Apesar do perigo e da incomodao, me sentia absurdamente feliz simplesmente por 
te-lo prximo.
Logo, como se me advinhava o pensamento, se deteve com um sorriso.
- Voce tem suficiente roupa, Sassenach?
- No, mas no importa. - Me uni para as suas aventuras, colocando-me em seu brao. - Tens adiantado um pouco de tuas reflexes?
Riu tristemente.
- No. Estou pensando cinco ou seis coisas ao mesmo tempo e no posso solucionar nem a metade. Por exemplo, no sei se o pequeno Ian est onde deveria estar.
- E onde deveria estar?
- Na imprensa - disse com certo enfase. - Mas est manh devia estar com Wally e no foi assim.
- Com Wally? Voce sabia que no estava em sua casa quando seu pai veio busc-lo?
Esfregou o nariz com um dedo, um tanto irritado e divertido.
- Oh, sim. Lhe havia prometido no dizer nada ao seu pai at que ele tivesse oportunidade de explicar-lhe. Mas dvido que a explicao pudesse proteger seu traseiro.
Tal como seu pai havia dito, o jovem Ian havia vindo a Edimburgo para reunir-se com seu tio, sem incomodar previamente em pedir autorizao a seus pais.Jamie descobriu 
muito rpido este descuido mas no quis obriga-lo a voltar sozinho a  Lallybroch. E ainda no havia tido tempo de ve-lo pessoalmente.
- Em realidade, sabe se cuidar sozinho - me explicou. Na luta de expresses ganhou a divertida -  um rapaz bastante capaz, mas... bem, j tenho visto que para algumas 
pessoas lhe acontecem coisas sem que elas tenham muito haver.
- Agora que mencionas, sim - confirmei ironicamente - Eu sou uma delas.
Isso lhe fez rir.
- Tens razo, Sassenach! Talvez por isso eu gosto tanto do pequeno Ian. Me lembra voce.
- Pois para mim me lembra um pouco voce.
Soltou um breve suspiro.
- Por Deus, Jenny me deixara invlido se souber de que seu filho esteve em uma casa de m reputao. Espero que ele saiba manter a boca fechada quando voltar para 
sua casa.
- Sempre volta a sua casa - observei, pensando no menino que havia visto pela manh a deriva em uma cidade cheia de prostitutas, policiais, contrabandistas e assassinos 
armados de machados. - Por sorte no  uma mulher - disse pensando nesta ltima possibilidade. - Ao que parece, o Demonio no gosta de meninos.
- Mas a muitos outros sim - sussurou Jamie azedo - Entre meu sobrinho e tu, Sassenach, saio deste sto  mal cheiroso ficando com os cabelos brancos.
 - Eu? -exclamei surpreendida - Por mim no precisa se preocupar.
- Ah no? - Me soltou o brao para girar at mim, lanando fogo pelos olhos - Acha que no preciso me preocupar contigo? Nossa, eu te deixo na cama, sana e salva, 
e uma hora depois te encontro ao p da escada, em anguas e abraada a um cadaver! E agora mesmo: ests aqui, desnuda como uma minhoca, com quinze homens ao redor 
se perguntando quem diabos s. Como eu vou explicar, Sassenach? Diga-me - Passou os dedos pelo cabelo, em um gesto de exaspero. - Bom, j est tudo resolvido.
Me coloquei na ponta dos ps para lhe por o cabelo detrs da orelha. Seguindo o principio que os polos opostos se atraem bruscamente quando esto a uma pequena distancia, 
inclinou a cabea para me beijar.
- Eu me havia esquecido - disse um momento depois.
- O que?
- Tudo. - Falava com muita suavidade, com a boca em meu cabelo - O prazer, o medo. Sobre tudo isso: o medo. Faz muito tempo que no tenho medo, Sassenach - sussurou 
- Mas agora sim.
Porque agora tenho algo que perder.
Voltei um pouco para olh-lo. Ento, mudando de expresso, me deu um rpido beijos.
Vamos - disse me segurando pelo brao - Vou dizer aos homens que s minha esposa. O resto ter que esperar.











CAPTULO 27
                                EM CHAMAS

O vestido era um pouco mais decotado que o necessrio e um pouco apertado na altura do busto, mas em geral me caiu bem.
- Como sabia que Daphne tinha a minha mesma altura? - perguntei enquanto tomava sopa.
- Eu disse que no me deitava com as moas - replicou Jamie. - Mas no disse que no olhava.
Me olhou oscilando como uma coruja (algum defeito congnito o fazia capaz de fechar num s olho) Comecei a rir.
- Mas te fica muito melhor que a Daphne - disse.
A taberna de Moubray estava muito concorrida, era um lugar amplo e elegante, com uma escada exterior que chegava ao primeiro piso, onde a cozinha satisfazia a apetite 
dos comerciantes prsperos e os funcionrios de Edimburgo.
- Quem s agora? - quis saber - Madame Jeanne te chama "Monsieur Fraser", usa o teu verdadeiro nome em pblico?
Mexeu a cabea enquanto esmigalhava um pozinho em sua sopa.
- No. Na atualidade sou Sawney Malcolm, impressor e editor.
- Sawney?  um apcope de Alexander, no? Como "Sandy".
- Nas Terras Altas se diz Sawney - me informei - "Sandy" se ouve mal nas Terras Baixas... o na boca dos Sassenachs ignorantes. - Me sorriu arqueando uma sombrancelha.
- De acordo. - disse. - Isto  o mais importante: quem eu sou?
Um de seus enormes ps buscou o meu e me sorriu.
- s minhas esposa, Sassenach.  Sempre. Me chame como eu me chamo, voce  minha esposa.
Me inundou em uma onda de prazer, em seu rosto refletado as lembranas da noite anterior. Tinha as orelhas um pouco ruborizadas.
- No parece que este refogado tem muita pimenta? - comentei - Ests seguro, Jamie?
- Sim - disse. E de imediato especificou: - Sim, estou seguro, e no, o refogado est bom.Eu gosto com um pouco de pimenta.
Seu p se moveu levemente contra o meu, acariciando-me o tornozelo.
- Assim sou a senhora Malcolm - sussurei saboreando o nome.
S o efeito de dizer senhora me provocava uma emoo absurda, como as recm casadas.
Involutariamente olhei o anel de prata que eu levava na mo direita. Ele advertindo meu gesto, levantou a taa.
- Sade a senhora Malcolm - disse suavemente.
Voltou a sentir-me sem alento. Me pegou na mo.
- Cuidar-te e proteger-te - disse sorrindo.
- Hoje e sempre - completei sem observar os olhares que atraimos.
Um clrigo, sentado ao outro lado do salo, se inclinou para dizer algo ao seu companheiro, que nos observou fixamente. Me surpreendeu descubrir que era o senhor 
Wallace, meu companheiro de viagem da deligencia de Inverness.
- Em cima h quartos privados - murmurou Jamie.
Perdi todo interesse no senhor Wallace.
- Bem. Mas ainda no terminou o seu refogado.
- Para o inferno com o refogado.
- Est vindo a criada com a cerveja.
- Ao inferno com ela tambm. - Seus brancos dentes se fecharam sobre meus dedos fazendo-me dar um susto.
- As pessoas esto nos olhando.
- Que nos olhem e disfrutem.
Meteu suavemente a lingua entre meus dedos.
- Um homem com casaco verde est vindo para c.
- Ao infer... - acabava Jamie. A sombra do visitante caiu sobre a mesa.
- Desejo-os bons dias senhor Malcolm - saudou o visitante com uma reverencia cortes. Suponho que no imcomodo.
- Ests errado - corrigiu Jamie. - Creio que no conheo o senhor.
O cavaleiro, um ingles discretamente vestido que aparentava uns trinta e cinco anos, se inclinou novamente sem deixar-se intimidar pela falta de hospitalidade.
- No tivemos o prazer de nos apresentar senhor - disse com deferencia. Sem embargo, meu chefe me manda saud-los e perguntar se voce...e sua....companheira...teria 
a bondade de beber uma taa com ele.
- Minha esposa e eu- disse fazendo exatamente a mesma pausa antes de <<esposa>> - temos outro compromisso. Se seu chefe deseja falar comigo...
-  o Sir Percival Turner quem solicita senhor - disse apressadamente o secretrio antes de ir.
- Bem - replicou Jamie - , com o respeito devido, diga a sir Percival que neste momento estou ocupado. Poderias transmitir minhas desculpas?
Deu as costas ao secretario, o qual se dirigiu at uma porta do lado oposto.
- Onde estvamos? - perguntou Jamie - Ah, sim. Ao inferno os cavaleiros de casaco verde. Agora, quanto aos quartos privados...
- Como vai explicar minha presena?
Arqueou uma sombrancelha.
- O que devo explicar? - Me olhou de cima para baixo - O que tem de mal em sua presena? No te falta nenhum membro, no s corcunda, tens todos os dentes, no ests 
gorda...
- Voce sabe a que me refiro - protestei dando um leve ponta p por debaixo da mesa.
- Claro - replicou muito sorridente - Mas entre uma coisa e outra no tenho muito tempo para pensar nisso. Poderia dizer, simplismente...
- Portanto voce est casado, meu querido amigo!Que grande notcia! Minhas mais sinceras felicitaes. E espero ser o primeiro em expressar os melhores desejos a 
sua dama.
Era um cavaleiro pequeno e de mais idade, apoiado num pomo de ouro de sua bengala. Nos sorriu cordialmente.
- Perdona-me a pequena descortesia de convid-los por meio de Johnson - pediu depreciativo -  que esta condenada enfermidade me impede de mover com agilidade.
Jamie, que havia levantado ante a apario do visitante, lhe estava aproximando uma cadeira.
- Nos acompanha, sir Percival?
- Oh, no, de nenhum modo! No quero atrapalhar vossa felicidade, meu querido senhor.
Sinceramente, no tenho idia...
Sem deixar de protestar, se deixou cair na cadeira oferecida, estendeu um p embaixo da mesa com uma careta de dor.
- Sou um mrtir acabado, querida - me confessou inclinando-se para mim. Percebi seu mal alento de ancio embaixo dos azeites que perfumavam sua roupa.
Jamie, tratando-se de ficar bem ali parado, pediu vinho e aceitou com certa elegancia as constantes cordialidades do senhor Percival.
-  uma verdadeira sorte que o tenha encontrado aqui, querido amigo - disse o cavaleiro, apoiando uma mo bem cuidada na manga de meu esposo - Tinha algo especial 
para dizer. De fato, eu enviei um bilhete a imprensa mas meu mensageiro no o encontrou l.
- ? - Jamie arqueou as sombrancelhas interrogando.
- Sim. Se no me engano, faz algumas semanas me comentou que tinhas inteno de fazer uma viagem de negocios ao norte. Em relao com uma imprensa nova ou algo assim?
- Sim  - concordou Jamie cortes - O senhor MacLeod me havia convidado a Perth para mostrar-me um novo modelo de imprensa que colocou recentemente em uso.
- Bem - Senhor Percival tirou do bolso uma caixa de rap esmaltada em verde e ouro, com querubins na cobertura - No os aconselho fazer uma viagem ao norte neste 
momento - sussurou concentrando-se ao contedo da caixa - Nesta poca o tempo tende a ser inclemente; no creio que a senhora Malcolm se sentir bem.
Jamie tomou um gole de vinho.
- Eu agradeo o conselho, sir Percival  - disse - Por acaso tens notcias, de nossos agentes, de que tem havido recentes tormentas no norte?
Sir Percival espirrou como um camundongo resfriado.
- Assim . - Guardou o leno com uma piscada benevolente. - Como sou seu amigo e tenho muito em conta o seu bem estar, o aconselho energicamente que permanea em 
Edimburgo. Ao fim e ao cabo - disse voltando -se para mim - agora tens um incentivo para querer comodar-se em casa, verdade? Bom, meus queridos jovens, temo que 
devo desculpas.No quero mais incomodar ao vosso desjejum de bodas.
Com ajuda de Johnson, sir Percival marchou com passo curto fazendo bater sua bengala ao cho.
- Parece um senhor amvel - comentei.
Jamie suspirou.
- Apodrecido como madeira bichada - disse antes de esvaziar a sua taa. Depois seguiu com ar pensativo a silhueta murcha, que manobrava cautelosamente ao corrimo 
da escada.- No esperaria outra coisa do sir Percival, estando to perto de seu juizo final. Deveria conter-se antes s do que por medo do diabo.
- Suponho que  como todo  mundo - disse cinicamente - A maioria acredita que viver eternamente.
Jamie riu subitamente uma vez recobrado seu animo.
- Sim,  verdade. - Me aproximou a taa de vinho. - Agora que ests aqui, Sassenach, estou convencido de que assim ser. Bebe, Mo Duinne, e vamos subir.
- Post coitum omne animalium triste est - comentei com os olhos fechados.
- Que idia to estranha, Sassenach - murmurou Jamie sonolento - Suponho que no  tua.
- No. - Lhe afastei o cabelo mido da frente. Escondeu o rosto na curva de meu ombro com um ronronar satisfeito.
As habitaes privadas de Moubray deixavam muito a desejar quanto as instalaes amorosas. De qualquer modo, o sof oferecia uma superfcie horizontal e acolchoada 
que, bem pensado, era o nico indispensvel.
- No sei quem disse; algum filsofo antigo.
- No recordo ter sentido nunca menos triste.
- Eu to pouco. - Segui com um dedo a direo do redemoinho que levantava o seu cabelo. - Por isso o recordei. O que havia levado o filsofo a esta concluso? 
- Suponho que depende do tipo de animal com quem havia estado fornicando. - observou ele - Talvez nenhum deles lhe tinham afeto. Mas deve haver provado com muitos 
para fazer uma afirmao to ampla.
Usou meu peito como encosto, sacudido pelo marear do meu riso.
- Os machos parecem bastante depravados - disse - lhes penduram a lingua, babam, pem os olhos em branco e fazem ruidos asquerosos. Em todas as espcies, no?
Senti a curva de seu sorriso em meu ombro.
- Nunca vi que a ti eu pendurasse a lingua.
- Porque tinhas os olhos fechados.
- To pouco ouvi ruidos asquerosos.
-  que, com a pressa do momento, no me ocorreu nada para dizer - admitiu - A prxima vez me comportarei melhor.
Rimos juntos. Depois de uma pausa lhe alisei o cabelo.
- No creio ter nunca sido to feliz, Jamie.
- Eu tambm, Sassenach - disse.
- No  somente pela cama, sabe? - disse retirando-se um pouco para me olhar. Seus olhos tinham um azul intenso, como o clido mar tropical - Estar contigo outra 
vez, saber que posso contar qualquer coisa sem tomar cuidado com as palavras nem dissimular os pensamentos... Por Deus, Sasseanch, Deus sabe que estou louco de desejo 
como um jovenzinho e que no posso deixar de tocar-te. Mas no me importaria perde-lo enquanto puder estar contigo e abrir-te meu corao.
- Me sentia to sozinha sem voce - sussurei - Muito s.
- Eu tambm. No te direi que vivi como os monjes. Quando era preciso, para no enlouquecer...
O interrompi apoiando um dedo sobre seus labios.
- Como eu. Frank...
Ele tambm me tampou a boca com a mo.
- No tem importancia - disse.
- No, no importa. Falar-me do que pensas. Teremos tempo.
Deu uma olhada na janela para avaliar a luz. Devemos nos reunir com Ian as cinco, na imprensa, para averiguar como anda a busca de seu filho. Depois se afastou cuidadosamente 
de mim.
- Temos duas horas pelo menos.Se veste que eu pedirei para trazerem vinho e biscoitos.
Me pareceu estupendo. Desde nosso reencontro vivia com fome.
- No estou triste mas me sinto um pouco envergonhado - reconheceu Jamie agitando os largos dedos do p para por suas meias - Ao menos assim deveria ser.
- Por que?
- Bem, estou como que no paraso, contigo, com vinho e biscoitos, enquanto Ian corre pelas ruas atrs de seu filho.
- E voce? Se preocupa com o jovem Ian? - perguntei concentrada em meus laos.
Franziu levemente a expresso.
- No tanto por ele como pela possibilidade de que no aparea antes de amanh.
- O que deve acontecer amanh? - perguntei. Ento recordei tardiamente a conversa com senhor Percival Turner. - Ah, tua viagem ao norte. Devias partir amanh?
Assentiu
- Sim. Devo encontrar-me com algum na enseada de Mullin, aproveitando a lua nova. Um lugar proveniente da Frana, carregado de vinho e batista.
- E sir Percival te estava advertindo para no aparecer neste encontro?
- Parece que sim. No sei o que pode ter acontecido, mas me informarei. Talvez h um funcionrio da Aduanas no distrito. Ou talvez tem sabido de alguma atividade 
na costa que poderia atrapalhar.
Depois colocou as mos sobre os joelhos com as palmas para cima, e as flexionou. Os dedos da mo direita no se esticavam bem.
- Voce se lembra da noite em que me curaste a mo?
- As vezes, em meus momentos mais horrveis. - Jamais esqueceria aquela noite. Contra todas as possibilidades, eu havia o resgatado da priso de Wentworth e de uma 
sentena de morte, mas no a tempo de impedir que Jack Randall, o Black Jack, o torturasse cruelmente. - Foi minha primeira cirurgia ortopdica.
- J fez muitas vezes? - perguntou com curiosidade.
- Algumas, sim. Sou cirurgi, quer dizer: um tipo de mdico que conhece todos os ramos da medicina, mas se especializa em algo.
- Voce sempre foi especial - sorriu - O que faz de especial os cirurgios?
- Bom, poderia se dizer que...o cirurgio trata de curar utilizando uma navalha.
Bonita contradio, sassenach, ainda mais contigo.
-  mesmo? - exclamei sobressaltada.
Ele assentiu sem afastar os olhos de meu rosto. Notei que me estudava com ateno. Me perguntei, um pouco envergonhada, que aspecto achava:corada depois de termos 
feito amor, com o cabelo desalinhado.
- Nunca te v to encantadora, Sasseanch - Alargou o sorriso ao ver que eu tentava arrumar o cabelo - Deixa teus cachos em paz. Agora o que eu penso, s como uma 
navalha. Com uma bainha muito bem trabalhada. E dentro, um ao fundido temperado, com um gume muito fino e perverso.
- Perverso? - estranhei.
 - No estou dizendo que te falta corao. Mas podes ser implacvel, Sasseanch, quando queres.
Sorri com certa ironia.
-  verdade.
- J tinha visto isso em voce, no ? - Sua voz se tornou muito mais suave, mas soltou meus dedos que estava segurando na mo. - Apesar de agora ser muito mais que 
quando eras jovem. Suponho que deves us-lo com muita frequencia.
Depois comprendi porque ele via com tanta claridade o que Frank nunca havia apreciado.
- Voce tambm o tem - eu disse - E o tens usado. Com frequencia.
Sem pensar, toquei a cicatriz que lhe cruzava o dedo medio. Ele assentiu com a cabea.
- Muitas vezes me perguntava - disse em voz to baixa que apenas pude ouvir - se podia por essa navalha ao meu servio e bainhado outra vez, sem perigo. Se era eu 
o dono de minha alma ou se me havia convertido em escravo de minha prpria espada. E pensado, uma e outra vez, que havia desembainhado muito pouco, tanto que j 
no era apto para ter uma relao humana.
Meus lbios se contrairam com o impulso de fazer um comentrio, mas mordi eles. Ao not-lo, ele sorriu com certa ironia.
- No acreditei ser capaz de voltar a rir no leito de uma mulher - disse - Nem de ir quando no fosse apenas pela cegueira da necessidade, como os cavalos. - Sua 
voz havia adquirido um tom de amargura.
- No te imagino como um cavalo - disse. Foi um comentrio rpido, mas seu rosto se abrandou ao olhar-me.
- Eu sei, Sassenach. Isso  o que me d esperanas. Porque eu sou...e eu sei...mas talvez... - Deixou morrer a voz observando-me com paixo. - Voce tem essa fora. 
E tambm a alma. Portanto  possvel que a minha tenha salvao.
No pude responder. Passei um momento sem dizer nada, acariciando os dedos torcidos e os dedos grandes e duros. Era uma mo de guerreiro mas j no guerreava mais.
A apoiei em meu joelho com a palma para cima e recorri com o dedo, lentamente, suas elevaes e suas linhas profundas, at a diminuta letra C gravada na base do 
polegar: a marca que o identificava como meu.
- Uma cigana que conheci nas Terras Altas dizia que as linhas da mo no predizem a vida: a refletem.
- mesmo? - contraiu levemente os dedos deixando a mo aberta.
- No sei. Ela dizia que trazemos essas linhas ao nascer, mas logo mudam com cada coisa que fazes segundo o que s. - No sabia nada de quiromancia, mas me fixei 
em uma linha profunda que partia desde muito acima birfucando-se vrias vezes - Esta deve ser a linha da vida. Consegue ver estas bifurcaes? Suponho que indicam 
muitas mudanas, muitas escolhas.
Soltou um bufido, mais alegre que desdenhoso.
- Ento, esta primeira diviso deve ser quando conheci o Jack Randall; a segunda quando me casei contigo. Olhas, esto prximas.
-  verdade - deslizei um dedo pela dobra. Ele contraiu os dedos como se tivesse ccegas. - E Culloden pode ser a outra?
- Talvez. -Mas no queria falar de Culloden. Adiantou o dedo. - Aqui, quando me encarceraram. E quando regressei. E quando vim a Edimburgo.
- Para ser impressor... - me interrompi para olh-lo, arqueando as sombrancelhas. - Como lhe ocorreu ser impressor?  a ltima coisa que havia imaginado.
- Ah, isso. - Alargou a boca em um sorriso - Bom, foi por casualidade.
No principio, estava  buscando um negcio que serviria para dissimular e facilitar o contrabando. Posto que possuia uma soma considervel, graas a um servio recente, 
decidi adquirir uma empresa cujas operaes normais requizessem uma carreta grande, com utilizao de cavalos, e algum local discreto que se pudesse utilizar para 
armazenar provisionalmente a mercadoria no transito.
- A imprensa me ocorreu quando fui encarregado de alguns cartazes - me explicou - Enquanto esperava que me atendessem vi chegar uma carreta, carregada com caixas 
de papel e barris de alcool para diluir a tinta no poeira. Ento pensei: Caramba, isso  interessante! A policia nunca suspeitaria de um lugar assim.
Somente depois de comprar a empresa de Carfax Close, contratar a Geordie e receber os primeiros encargos, lhe ocorreram as outras possibilidades do ofcio.
- Foi por um homem chamado Tom Gage - explicou - Me fazia pequenos encargos, todos inocentes, mas vinha com frequencia e ficava conversando comigo e com Georgie, 
depois deve ter notado que eu conhecia melhor o ofcio.
Obviamente, Gage estava explorando as simpatias de Alexander Malcolm:ao identificar seu acento montanhes, mencionou a alguns conhecidos que o tinham visto em dificuldades 
depois da Rebelio por suas ideias jacobitas e manipulou habilmente algumas reunies at que a divertida presa lhe disse, sem mais rodeios, que podia encarregar 
o que desejava; os homens do rei no se inteiraram.
Assim comeou a associao; no principio foi estritamente comercial, mas com o tempo se foi profundando at converter se em amizade.
- Uma vez o trabalho estava feito, descemos para a taberna para conversar. Tom me apresentou a vrios amigos e, por fim, disse que eu mesmo devia escrever um pequeno 
artigo. Comecei a rir, dizendo que morreriam todos de velhice antes que eu pudesse escrever algo intelegvel.
Esticou os braos mais pra frente, flexionando os dedos.
- Estou bastante bem - disse - Com um pouco de sorte, assim seguirei por muitos anos...mas no para sempre, Sassenach. Tenho combatido muitas vezes com a espada 
e com o punhal, mas todo guerreiro chega o dia que lhe faltam as foras.
Mexendo a cabea, tirou do bolso algumas coisas que colocou em minha mo. Eram frias e duras ao tato: retangulos de chumbo, pequenos e pesados. No me fez falta 
tocar as bordas para saber a que letras correspondiam esses tipos.
- Q.E.D - disse
- Os ingleses me tiraram a espada e o punhal - concluiu suavemente tocando os caracteres que eu tinha na minha palma - Mas Tom Gage voltou a me por uma arma na mo. 
E no penso devolver.


. . .

As quinze para cinco descemos de brao dado pela pendente empedrada Royal Mile. A cidade refulgia ao nosso redor como se compartilha-se nossa felicidade. Edimburgo 
jazia abaixo numa neblina que no tardaria em converter em chuva, mas as nuvens refletiam a luz do sol poente, vermelha e dourada.
Num estado extase, demorei vrios minutos para notar que acontecia algo estranho. Um homem, impaciente pelo nosso passo serpenteante, nos adiantou com passo enrgico 
detendo-se diante de mim e fazendo-me tropear nas pedras molhadas.
- O que passa? - perguntei agachando-me para recuperar o sapato que me havia sado.
Depois me dei conta que todos, ao nosso redor, se detinham mirando para cima e foram correndo a rua abaixo.
- O que acha que aconteceu...?
Mas quando me voltei para Jamie vi que ele tambm olhava fixamente para cima. Num momento notei que o resplendor vermelho das nuvens era muito mais intenso; parecia 
pestanejar de um modo muito pouco caracterstico para um acaso.
- Fogo - disse - Meu Deus, creio que  em Leith Wynd!
Nesse mesmo instante outra personagem gritou <<fogo>> e as pessoas se lanaram em tropel rua abaixo.
Jamie j estava em movimento e me arrastava detrs dele. Saltando incomodamente sobre um p s, em vez de deter-me, sem parar coloquei o outro sapato e segui correndo, 
escorregando e tropeando nos frios calados empedrados.
O incendio no estava em Leith Wynd, sim em Carfax Close,na rua vizinha. A entrada se amontoavam curiosos, esticando o pescoo no esforo para ver. Ao agachar-me 
para entrar, uma onde de calor me golpeou a cara.
Jamie se lanou entre a multido sem vacilar, abrindo caminho com a fora. Eu o seguia mais prxima antes de que as pessoas voltassem a fechar-se. Por fim nos encontrarmos 
de frente a multido. Pelas janelas da imprensa surgiam densas nuvens de fumaa negra. Por cima da gritaria das pessoas se ouvia um sussuro crepitante, como se o 
fogo estivesse falando consigo mesmo.  
- Minha imprensa! - Com um grito de angustia, Jamie subiu os degraus da entrada e abriu a porta com um ponta p. Uma nuvem de fumaa surgiu do interior, devorando-o 
como um cavalo faminto. Por um breve instante vi que se cambaleava pelo impacto da fumaa, logo caiu de joelhos e entrou de gatas.
Inspirados pelo exemplo, vrios homens subiram os degrais da oficina e desapareceram no interior cheio de fumaa.O calor era to intenso que me esquentava nas pernas. 
Me perguntei como podiam suportar l dentro.
Atrs de mim, uma nova serie de gritos annciou a chegada da Guarda Municipal armada de cntaros. Os guardas, obviamente acostumados nessa tarefa, jogaram as jaquetas 
do uniforme e comearam imediatamente a atacar o incendio; rompendo as janelas e passando os baldes de gua a toda pressa. Enquanto isso, a multido crescia: as 
famlias que ocupavam os pisos superiores dos edificios prximos tratavam de dirigir apressadamente em uma horda de meninos excitados para leva-los a um lugar seguro.
Por mais valentes que foram os esforos da brigada, no pareciam ter muito efeito sobre o incendio, que continuava avanando. Enquanto eu corria de um lado ao outro, 
tratando em vo de ver algum movimento no interior, o primeiro homem na linha dos cntaros deu um grito e deu um pulo pra trs, justo a tempo para evitar que uma 
bandeja com caracteres de chumbo o golpeasse, que saiu zumbindo pela janela e aterrizou no cho empedrado, espalhando estrondosamente os caracteres por toda a rua.
Dois ou tres malandrinhos escapuliram entre a multido e comearam a pega-los enquanto recebiam uns cascudos de alguns vizinhos indignados. Uma dama rolia,com leno 
na cabea e avental, arriscou sua integridade fisica para arrastar uma pesada bandeja at a calada, onde protegeu protetoramente sobre ela como uma galinha choca.
Despertado pela corrente de ar que penetrava pela porta e as janelas, a voz do fogo no era mais um sussuro, sim um rugido satisfeito. O chefe da Guarda Municipal, 
a quem lhe chovia objetos arrojados pela janela impedido de lanar a gua, gritou algo a seus homens e pegando um leno empapado no nariz, correu ao interior do 
edificio, seguido por cinco ou seis de seus homens.
A linha voltou a formar-se com rapidez; os cntaros ocupavam-se passando de mo em mo a bomba mais prxima, dando volta pela esquina. Os excitados meninos pegavam 
voando os baldes vazios que empurravam no degrau e corriam para enche-los outra vez. Edimburgo  uma cidade de pedra com tantos edifcios amontoados, equipados com 
lareiras e chamines, que os incendios deviam ser algo bastante comum.
Uma nova comoo, detrs de mim, anunciou a tarde chegada da autobomba. As pessoas se abriram como o Mar Vermelho para dar espao para a mquina, arrastada por homens 
j que os cavalos no podiam circular por aqueles escorregadios empedramentos. Era uma maravilha de bronze, reluzente como um brasa ante o reflexo das chamas. O 
calor ia cobrando intensidade, a cada sopro de ar quente me secavam os pulmes. Estava aterrorizada por Jamie. Quanto tempo mais poderia respirar naquele inferno 
de fumaa e calor?
- Jesus, Maria e Jos - Ian apareceu subitamente ao meu lado abrindo passo entre a multido a passo de pato de pau - Onde est Jamie? - me gritou no ouvido.
- L dentro! - gritei a minha vez acenando.
Houve uma sbita comoo na porta da imprensa; os gritos confusos se aplicavam ao ruido do fogo. Apareceram varios pares de pernas embaixo da fumaa que brotava 
na porta. Logo, apareceu sei homens, Jamie estava entre eles, cambaleando-se embaixo com o peso de uma mquina enorme: sua preciosa imprensa. Depois de empurr-la 
para o centro da multido, voltaram de novo para dentro do local.
J era muito tarde para tentar novas manobras de resgate: se ouviu um estrondo no interior e uma nova rajada de calor fez as pessoas retrocederem. Depois, as janelas 
do piso superior se encendiaram em chamas danarinas. Alguns homens sairam do edificio, tossindo e afogando-se; alguns vinham gateando, enegrecidos pela fuligem 
e empapados pelo suor de seus esforos. A equipe da mquina bombeava com desesperao, mas o grosso jorro de gua no fazia mais nenhum efeito sobre o incendio.
A mo de Ian  se fechou sobre meu brao como as mandbulas de uma armadilha.
- Ian! - gritou em voz to alta que se fez ouvir em cima do ruido da multido e do fogo.
Seguindo a direo de seu olhar, v uma silhueta assombrosa na janela do piso superior.
Pareceu se forar brevemente com o batente corredio, mas caiu para trs ficando envolto pela fumaa.
O corao me subiu pela boca. No havia um modo de saber se aquela figura era o pequeno Ian, mas sem dvida se tratava de uma forma humana. Ian mancando j estava 
indo para a porta da imprensa, com toda a velocidade que a perna de pau lhe permitia.
- Espera! - gritei correndo atrs dele.
Inclinando sobre a imprensa, Jamie ofegava, tratando de recobrar o folego enquanto agradecia aos seus colaboradores.
- Em cima! - gritei - O jovem Ian est l em cima!
Ele deu um passo pra trs, passando a manga pela cara enegrecida, e cravou os olhos desesperados pelas janelas superiores. Somente se via o fulgor do fogo. Ian se 
debatia entre as mos de vrios vizinhos que tentavam impedir que ele fosse.
- No, homem, no podes entrar! - gritou o capto da Guarda Municipal, lhe segurando as mos - J caiu a escada e o teto no tardar!
Ian era alto e vigoroso, apesar de sua contextura fraca e pela falta de uma perna. As fracas mos dos membros da Guarda (em sua maioria veteranos dos regimentos 
escoceses) no podiam contra a fora do montanhs, acentuada pelo desespero paterno. Lentamente, mas sem pausa, ia arrastando aqueles que o seguravam para as chamas.
Jamie respirou fundo, enchendo de ar em seus pulmes. Em um instante precisamente pegou Ian pela cintura arrastando-o para trs.
- Para trs, homem! - gritou rouco - No pode! No tem mais escada - Olhou ao seu redor e num segundo empurrou Ian aos meus braos - Segure-o! - gritou - vou pegar 
o menino!
Disse isso, girou e subiu os degraus do edifcio vizinho, abrindo passos entre os paroquianos da chocolateria do piso de baixo, que haviam saido a olhar o alvoroo 
com as taas de peltre na mo.
Seguindo o exemplo de Jamie, apertei com os braos a cintura de Ian disposta a no solt-lo.
- No se preocupa - lhe disse inutilmente - Ele vai salv-lo. Tenho certeza.
Ian no respondeu; talvez no me ouviu. Permanecia imvel e rgido como uma esttua, respirando com dificuldade, como se solua-se.
Apenas um minuto depois se abriu uma janela no piso superior da Chocolateria. Por ela apareceu a cabea e os ombros de Jamie; seu cabelo parecia uma labareda do 
incendio principal. Saiu para a beira e virou com cautela, em ccoras, at chegar de cara com o edificio.
Com um  resmungo que era audvel mesmo aos ruidos do fogo e da  multido, ficou de p na borda do telhado.
Um homem mais baixo no iria poder fazer. Muito menos Ian com sua perna de pau. Ele murmurava muito baixo; me parecia que rezava mas tinha os dentes apertados e 
o rosto tenso pelo medo.
- O que diabos Jamie est fazendo l em cima? - pensei.
No me dei conta de que havia falado em voz alta at que o barbeiro respondeu:
- No telhado da imprensa tem um alapo, senhora. Sem dvida o senhor Malcolm vai us-la para entrar no piso superior.  seu aprendiz que est ali?
- No! - lhe espetou Ian -  meu filho!
O barbeiro voltou ante sua olhada fulminante, murmurando:
- Ah sim, senhor, claro! - E se afastou.
Entre a multido houve um grito que se converteu em bramido: duas silhuetas apareceram no telhado da imprensa. Ian me soltou a mo lanando-se mais adiante.
Jamie trazia abraado o seu sobrinho, dobrado e cambaleando-se pela fumaa aspirada. Era bastante obvio que nenhum deles poderia fazer o trajeto at o edificio vizinho. 
E naquele momento Jamie viu Ian, embaixo, e fazendo com as mos um alto-falante gritou:
- Corda!
Tinha cordas; a guarda municipal estava bem equipada. Vi um lampejo de dentes quando Jamie sorriu para o seu cunhado, e a expresso de entendimento com o que ele 
respondeu. Quantas vezes haviam arranjado uma corda para lanar um fardo at o feno ou para amarrar um carga na carreta?
A multido voltou para que Ian pudesse girar o brao; o pesado rolo voou em cima at uma suave parbola, desenroscando-se no trajeto at se lanar no brao estendido 
de Jamie com a preciso de uma abelha ao descer sobre uma flor. Jamie correu no extremo e desapareceu um momento para amarrar a corda pela chamin.
Depois de uns segundos de precrio trabalho, as duas figuras enagrecidas pela fumaa aterrizaram na calada, sanas e salvas.
- Voce est bem? - Me fala! - Ian caiu de joelhos junto ao seu filho, tratando desesperadamente de desatar a corda que lhe rodeava o peito enquanto lhe segurava 
a cabea tonta.
Jamie se havia apoiado na grade da chocolataria, tinha o rosto negro e tossia como se fosse expulsar os seus pulmes; de resto parecia bem. Me sentei do outro lado 
do menino apoiando a cabea em meu colo.
Ao ve-lo no sabia se ria ou chorava. Em um lado da frente, o denso cabelo estava reduzido a umas mechas vermelhas descoloridas; as sombrancelhas haviam desaparecido 
por completo e a pele, devido a fuligem, parecia com um rosado intenso de um leito recem tirado do forno.
Busquei o pulso no fraco pescoo; era tranquilizadoramente forte. Respirava de um modo dificultoso e irregular, o qual no era de estranhar, esperava que no tivesse 
queimado o revestimento dos pulmes. Tossiu longo e espasmodicamente, seu corpo delgado se convulsionava sobre meu colo.
- Est bem? - instintivamente Ian segurou o seu filho por debaixo das axilas para ergue-lo.
- Acho que sim, mas no estou totalmente segura.
O menino continuava tossindo, mas no estava todo consciente.
- Est bem? - era Jamie em crcoras ao meu lado. Sua voz sonava to rouca que tinha sido impossvel reconhece-la.
- Creio que sim. E voce? Parece Malcolm X - comentei dando uma olhada por cima do ombro agitado do jovem Ian.
-  mesmo? - levantou uma mo ao rosto, sobressaltado, mas logo sorriu para tranquilizar-me. - No, ainda no sou ex Malcolm, s estou um pouco chamuscado pelas 
bordas.
- Para trs, atrs! - O capto da Guarda apareceu ao meu lado com a barba cinza eriada pelos nervos e me tirou pela manga - Volte, senhora, que o teto est a ponto 
de cair.
Tinha razo: enquanto gatevamos at um lugar mais seguro, o teto da imprensa caiu. Pouco depois, Ian e eu nos encontramos a ss com o menino, Jamie conseguiu alojamente 
para sua imprensa no depsito da barberia e tratou de repartir dinheiro entre os membros da Guarda e os outros assistentes, se aproximou de ns com passo cansado.
- Como est o menino? - perguntou limpando o rosto com a mo.
Ian levantou os olhos at ele. Pela primeira vez a clera, a preocupao e o medo desapareceram de seu semblante. Sorriu.
- No parece estar muito melhor que voce, homem, mas creio que sair desta. Estendeu uma mo, quer?
Entre carinhosos murmurios galicos, se inclinou at seu filho.
Quando chegamos ao estabelecimento de Madame Jeanne, o jovem Ian j podia caminhar, mesmo apoiado sobre seu pai e seu tio. Foi Bruno quem abriu a porta; depois de 
um gaguejo incrdulo, abriu de par em par, rindo tanto que apenas eu pude fechar a porta as nossas costas.
Devo admitir que no ramos um espetculo muito bonito, mas o jovem Ian concentrou toda a ateno as mltiplas cabeas que apareciam no salo; parecia um flamengo 
recem saido do ovo.
Uma vez instalados na pequena sala de cima e com a porta fechada, Ian se voltou at seu desventurado filho.
- Vai sobreviver, no, seu mal criado? - inquiriu.
- Sim, senhor - respondeu o menino com um horrendo grasnido, como se tivesse preferido dizer que no.
- Me alegro - disse o pai cenhudo - E agora, voce vai me explicar? Ou preferes que te faa falar a golpes para economizar o tempo?
- No podes aoitar algum que acaba de se queimar at as sombrancelhas, Ian - protestou Jamie enquanto enchia uma taa de vinho.- No seria humano.
Com um amplo sorriso, entregou a taa ao seu sobrinho, que aceitou imediatamente.
- Est certo - disse Ian inspecionando o seu filho. O menino tinha um aspecto lamentvel, mas ao mesmo tempo divertido - No por isso vou deixar de aoitar o traseiro, 
entendes? - lhe advertiu - Isso tirando o que tua me quer te fazer quando voltar a ve-la. Mas por agora fica tranquilo, menino.
O jovem Ian no respondeu. No muito reconfortado mas o tom magnanimo dessa ltima declarao, buscou refugiu no fundo de sua taa. Eu tambm aceitei a minha com 
gosto.
Enquanto me desgrudava do corpete molhado nos peitos, me surpreendi com o  olhar de interesse que me lanou o menino e decidi, com pena, que no podia tirar o vestido 
enquanto ele estivesse no quarto. 
Jamie queria falar se corrompia bastante.
- Te sentes em condies de falar um pouco, filho? - Jamie se sentou frente ao seu sobrinho junto a Ian.
- Sim, creio que sim - grasnou o jovem Ian com cautela. Depois de um pigarro que pareceu o coaxar de um sapo, repetiu com mais firmeza - - -   Posso sim.
- Bem. Em primeiro lugar: o que fazias na imprensa? E em seguida: Como comeou o incendio?
O jovem Ian refletiu. Depois de tomar outro gole de vinho para dar coragem, disse:
- Eu iniciei o fogo.
Jamie e Ian se ergueram imediatamente.
- Por que?
- Bom, havia um homem - comeou o menino inseguro. E se interrompeu.
- Um homem - o atiou Jamie com paciencia, ao ver que seu sobrinho parecia voltar novamente a ficar mudo - Que homem?
O jovem Ian apertou a taa entre as mos; parecia profundamente infeliz.
- Responde  ao teu tio, idiota - ordenou o pai spero - se no queres que te ponha sobre meus joelhos e te aoite agora mesmo.
Em base de ameaas similares, os dois homens conseguiram arrancar do menino um relato mais ou menos coerente.
Naquela manh o jovem Ian tinha acudido a taberna de Kerse onde devia encontrar-se com Wally, quem voltaria de seu trajeto trazendo o conhaque para encher os tonels 
que usariam como cevo.
- Quem te disse para ir l?- perguntou Ian speramente.
- Eu - interveio Jamie. Logo agitou uma mo ao seu cunhado, pedindo silencio. - Sim, eu sabia que ele estava aqui. Vamos deixar isso para mais tarde, Ian, por favor. 
 importante saber o que aconteceu.
Ian lhe deu uma olhada fulminante, mas manteve a boca fechada.
-  que eu tinha fome - disse o jovem Ian.
- Como sempre - comentaram o pai e o tio ao mesmo tempo.
Ambos se olharam, lanando uma breve gargalhada, a atmosfera tensa do quarto se aliviou um pouco.
- Assim ento voce entrou na taberna para comer algo - advinhou Jamie - Est bem, menino, no tem problema. O que aconteceu enquanto voce estava l?
Segundo era, foi ali onde havia visto o homem. Um tipo pequeno com rosto de rato que estava falando com o tarbeneiro, era torto e tianha um rabinho de marinheiro.
- Perguntou por voce, tio jamie - O jovem Ian tinha se tranquilizado graas ao vinho. - Pelo teu autentico nome.
Jamie deu um sobressalto.
- Por Jamie Fraser,queres dizer?
O menino assentiu com a cabea enquanto bebia outro gole.
- Sim e tambm conhecia o teu outro nome: Jamie Roy.
- Jamie Roy? - Ian deu uma olhada de desconcerto para seu cunhado, que se deu de ombros com impaciencia.
-  o nome que uso no cais. Por Deus, Ian, sabe perfeitamente ao que me dedico!
- Sim, mas ignorava que o pequeno estivesse te ajudando - Ian apertou os lbios e voltou sua ateno a seu filho. Continua, menino. No voltarei a interromper.
O marinheiro havia perguntado ao dono do estabelecimento que mais podia ser um velho lobo do mar, cado em desgraa e necessitado de emprego, para encontrar um tal 
de Jamie Fraser, que tinha fama de dar trabalho a homens capazes. Como o taberneiro fingia no conhecer esse nome, o homem se inclinou um pouco mais, aproximando 
uma moeda e perguntando-lhe em voz baixa se o nome de "Jamie Roy" lhe era mais familiar.
O proprietrio se manteve surdo como uma parede, por qual o marinheiro no tardou em abandonar a taberna, seguido prximo pelo jovem Ian.
- Me pareceu que convinha averiguar quem era e que intenes tinha - explicou o menino gaguejando.
O homem era um bom caminhante; havia corrido uns oito quilometros em menos de uma hora at chegar a taberna de Buho Verde, seguido de um Ian morto de sede devido 
a desgastante caminhada.
Ao ouvir esse nome deu um sobressalto, mas no disse nada.
- Estava atestado - informou o menino - Pela manh havia sucedido algo e todos estavam falando do feito... mas fechavam a boca quando me viam, Ali se repetiu a mesma 
cena - Fez uma pausa para tossir e pigarrear. - O marinheiro pediu conhaque e perguntou ao tarbeneiro se conhecia um fornecedor de licores chamado Jamie Roy ou Jamie 
Fraser.
O homem havia visitado metdicamente uma taberna atrs da outra, seguido fielmente pela sombra de Ian; em cada estabelecimento pediu conhaque e repetiu a pergunta.
- Deve ter uma cabea muito firme para beber conhaque - comentou o pai.
O menino sacudiu a cabea.
- Ele no bebia. Somente cheirava.
O pai estalou a lingua ante o escandaloso desperdcio mas as sombrancelhas ruivas de Jamie se levantaram ainda mais.
- No provava? - perguntou bruscamente.
- Somente na taberna Perros e Pistolas e do Cerdo Azul. Nos outros lugares no bebeu nada, e entramos em cinco antes de que... - deixou a frase sem terminar para 
tragar mais um pouco.
A cara de Jamie sofreu uma transformao assombrosa. Do desconcerto passou a uma total inexpressividade; logo pareceu ter uma revelao.
- Ento foi assim - disse suavemente para s prprio - Claro - Voltou a concentrar-se no sobrinho. - E o que aconteceu depois, filho?
O jovem Ian estava se deprimindo outra vez.
- Bom, entre Kerse e Edimburgo tinha muita distancia. E caminhar me dava muita sede...
Pai e tio trocaram um agrio olhar.
- Bebeu demais - concluiu Jamie resignado.
- Bom, como eu ia saber que ele entraria em tantas tabernas? - exclamou o menino tentando defender-se, com as orelhas ruborizadas.
- Claro, filho - Reconheceu Jamie para calar o comentrio de seu cunhado - Quando resistiu?
Segundo se descobriu, foi em meio da Royal Mile quando o jovem Ian, abrumado pela madrugada, a caminhada de oito quilometros e os efeitos do dois litros de cerveja, 
pouco mais ou menos, ele adormeceu em um canto. Ao despertar, uma hora depois, descobriu que sua presa havia desaparecido.
- Ento vim aqui - explicou - Pensei que tio Jamie devia interar-se, mas no o encontrei.
O menino me deu um olhar, com as orelhas mais coloridas que nunca.
- E por que te ocorreu busca-lo aqui? - Ian cravou em seu filho uma olhada, que logo desviou para o seu cunhado. - Que descaro, Jamie Fraser! Trazer meu filho a 
uma casa de rameiras!
- No s o mais indicado para falar, papai! - O menino se pos em p, cambalendo-se e apertando os punhos fechados.
- Eu? O que quer dizer com isso, pequeno estpido? - exclamou Ian indignado.
- Quero dizer que s um hipcrita de todos os demonios - gritou o filho - Muito aconselha teus filhos que devemos ser puros e fieis a uma s mulher! E mesmo assim 
voce escapuliu da cidade para correr atrs de rameiras!
- O que?
Ian estava vermelho. Olhou com certo alarme a Jamie, que parecia estar divirtindo-se com a situao.
- s um...um...hipcrita!
- Este menino ainda est embriagado - lhe disse Jamie.
- Certo.
Ian pai no estava embriagado, mas sua expresso se parecia muito a do filho.
- Que demonios voce quer dizer com isso? - gritou avanando ameaadoramente at o filho, que voltou involutariamente.
- Ela - disse acenando-me para explicar-se melhor. - Ela. Enganas a minha mame com esta rameira barata! Isso  o que quero dizer!
Ian lhe deu um golpe que o derrubou sobre o sof.
- Grandssimo idiota! Bramou escandalizado - Bonita maneira de se referir a sua tia Claire! Por no falar de mim e de tua me!
- Minha tia? - O jovem Ian me olhou da almofada boquiaberto,  se parecia tanto a um pombinho pedindo comida que, contra minha vontade, cai em uma gargalhada.
- Esta manh voce se foi antes de que eu pudesse apresentar-me - disse.
- Mas minha tia est morta! - protestou estupidamente.
- Ainda no. A menos que eu pega um pneumonia por ficar com este vestido molhado.
Me olhava com olhos dilatados.
- Algumas senhoras de Lallybroch contam que eras uma mulher sbia, uma Dama Branca...ou talvez uma fada. Quando tio Jamie voltou de Culloden sem voce, elas disseram 
que voce talvez havia voltado junto as fadas.  verdade?
Troquei olhares com Jamie, que elevou os olhos ao teto.
- No - respondi - Eu...
- Depois de Culloden escapou para Frana - interveio Ian com grande firmeza - Como acreditava que seu tio Jamie havia morrido em combate, voltou junto a sua famlia. 
Havia sido muito amiga do prncipe e , depois da guerra, no podia voltar a Escocia sem correr um grande perigo. Mas quando descobriu que seu esposo no havia morrido 
se embarcou de imediato e veio em busca dele.
O jovem Ian estava boquiaberto, igual a mim.
- E assim - disse reagindo - Isso foi o que aconteceu.
- Assim voce voltou - disse o menino com alegria - Por Deus que romantico!
Havia rompido a tenso do momento. Ian vacilava enquanto seus olhos se amoleciam ao passar de Jamie a mim.
- Sim - disse com um sorriso - Suponho que sim.
- No esperava ter que fazer isto at cerca de dois ou tres anos - comentou Jamie sustentando com a mo esperta o rosto de seu sobrinho, que vomitava penosamente 
na escupideira que ele oferecia.
- Sempre est adiantado! - recordou Ian com resignao - Aprendeu a caminhar antes de saber manter-se em p; caia continuamente no fogo, na tina da cola, no galinheiro... 
- disse dando uma palmada nas costas convulsionada - Anda filho, tire para fora.
Pouco depois deixamos o menino no sof para que se recuperasse dos efeitos causados pela fumaa, a emoo e o excesso de vinho, deixou caiu os olhos examinadores 
de seu pai e tio. 
- Onde diabos est o que eu pedi? - Jamie alargou a mo impaciente at a campanhia, mas eu o impedi.
- No se preocupe, irei buscar.
Encontrei a cozinha sem dificuldades e solicitei as provises necessrias. Enquanto rogava que Jamie e seu cunhado dessem ao menino alguns minutos de respiro, no 
sozinho pelo seu bem, mas sim tambm para no perder nada de seu relato.
Quando voltei ao quarto foi obvio que alguma coisa eu havia perdido; a frieza invadia a sala, o jovem Ian, se apressou a desviar os olhos. Jamie mantinha sua impertubalidade 
habitual mas seu cunhado parecia tanto atordoado e inquieto como o menino.
- Olhei a Jamie com uma sombrancelha alta. Se encolheu de ombros com um leve sorriso.
- Po e leite - disse entregando ao joven Ian, que de imediato se pois mais contente. - T quente. Ofereci a chaleira ao pai - Whisky - A Jamie - E este frio para 
as queimaduras.
Do p uma vasilha com vrias panos umedecidos.
- gua fria? - Jamie levantou as sombrancelhas ruivas - No tem manteiga?
- Para queimaduras no se trata com manteiga - expliquei - Se usa suco de aloe ou de llantn, mas na cozinha no tinha nada disso. O melhor que pude fazer foi isso.
Apliquei um cataplasmo nas partes queimadas do jovem Ian enquanto Jamie e Ian faziam as honras com o Whisky. J mais repostos, nos sentamos e escutamos o resto da 
histria.
- Bom - disse o jovenzinho - passei um momento caminhando pela cidade sem saber o que fazer.
Quando me aclarou um pouco a cabea, me ocorreu que, se o homem ia de taberna em taberna rua abaixo, o melhor era comear pelo outro extremo e ir rua acima. Assim 
talvez o encontrasse.
- Brilhante ideia - ponderou Jamie - E o encontras-te?
- Sim.
Quando estava comeando a me desesperar vi o homem sentado em um bar da Destilaria Holyrood. Ao que parecia no havia parado ali para pedir informao, sim para 
descansar, pois estava tranquilamente instalado bebendo cerveja. O jovem Ian permaneceu no ptio atrs de um tonel. At que o homem pagou sua conta e saiu sem pressa.
- No visitou mais tabernas - informou o menino limpando uma gota de leite no queixo. - Foi diretamente a Carfax Close, a imprensa.
Jamie disse baixo algumas palavras galicas,
- Sim? E depois?
- Bom, encontrou o negcio fechado, claro. Ao ver que a porta estava fechada com chaves olhou as janelas, como se pensasse entrar por ali. 

Logo deu uma vista nas pessoas que ia e vinha. Se deteve um momento no umbral, pensando, e finalmente voltou at a entrada da rua vizinha. Tive que me esconder na 
alfaiataria do canto para que no me visse.
O homem havia parado na entrada. Depois, j decidido, caminhou alguns passos para a direita e desapareceu por um pequeno beco.
- Eu sabia que esse beco desembocava no patio atrs da rua vizinha. - explicou Ian - Compreendi de imediato suas intenes.
- Na parte de trs da rua h um pequeno patio. - me explicou Jamie - onde acumulam coisas velhas, mercadorias e coisas assim. A imprensa tinha uma porta no fundo 
que dava a esse ptio.
O jovem Ian deixou seu prato vazio com um gesto de assentimento.
- Sim. Me pareceu que pensava entrar por ali. E me lembrei dos novos panfletos.
- Cus! - murmurou Jamie um pouco plido.
- Que panfletos? - perguntou seu cunhado.
- Os novos impresos para o senhor Gage - explicou o menino.
Ian estava to desconcertado como eu.
- Politica - explicou Jamie sem rodeios. - Um argumento para recusar a ltima Lei de Selos, exortando a oposio civil...Com violencia, se fosse necessrio. Cinco 
mil panfletos acabados de imprimir e empilhados na parte do fundo. Gage devia vir busc-los de manh na primeira hora.
- Meu Deus - murmurou Ian. Havia palidecido ainda mais que Jamie o olhava com uma mescla de horror e respeito religioso. -Voce perdeu a cabea? Ests junto com Tom 
Gage e seu grupo de sediciosos? E por cima envonvendo o meu filho? Como podes fazer algo assim, Jamie? Como! No temos sofrido j bastante por voce, Jenny e eu?
- No formo parte do grupo de Gage - corrigiu Jamie - Mas sou impressor, no? E ele pagou esses panfletos.
Ian levantou as mos em um gesto de grande irritao.
- Ah, sim! De muito servir isso quando a Coroa te mandar pra forca! Se descubrirem esses panfletos em teu local...
Atacado por uma idea sbita, se voltou at seu filho.
- Ah, ento foi por isso. Sabias o que diziam os panfletos. Por isso voce pegou fogo?
O jovem Ian assentiu, solene como uma coruja.
- No tinha tempo para tir-los - disse - Eram cinco mil. O homem...o marinheiro...havia entrado pela janela do fundo e estava a ponto de abrir a porta.
Ian girou para enfrentar a Jamie. 
- Maldito seja! - exclamou com violencia. - Maldito seja, Jamie Fraser!Tens o cerebro de um pssaro! Primeiro os jacobitas e agora isso!
Jamie ruborizou.
- Tenho que carregar a culpa de carlos Stuart? - Seus olhos lanavam lampejos de clera.Deixou bruscamente sua taa salpicando e o Whisky sobre a mesa - Por acaso 
no fiz tudo que pude para deter aquele estpido? No renunciei a tudo por essa luta? A tudo, Ian! As minhas terras, a minha liberdade e a minha esposa para tentar 
que todos saissem salvos!
Enquanto falava me deu uma breve olhada. Por um momento pude entender o que lhe havia custado aqueles  ltimos vinte anos.
- E enquanto ter prejudicado a tua famlia, no tens se beneficiado, Ian? Agora Lallybroch pertence ao pequeno Jamie, no?No  o meu filho, sim o teu!
Ian fez um gesto de dor.
- Eu nunca te pedi...
- No,  verdade. No estou te acusando, por Deus! Mas  a verdade. Lallybroch j no  meu. O recebi de meu pai e eu cuidei to bem como pude. E voce me ajudou, 
Ian. - Sua voz se moderou. - Nunca poderia ter recuperado sem voce, sem Jenny. No me doi ceder ao pequeno Jamie. Tinha que fazer. Mas ainda assim...
Se voltou de costas, com a cabea agachada e os ombros tensos embaixo da camisa. Eu tinha medo de mover-me, de falar, mas captei o olhar de Ian, cheia de aflio, 
e lhe apoiei uma mo no ombro em busca de um mtuo consolo. O pulso batia com firmeza na clavcula. Me estreitou a mo com fora.
Jamie se voltou para seu cunhado, lutando para dominar a voz e o genio.
- Eu te juro, Ian: nunca permeti que o menino corresse perigo. O mantive afastado como me era possvel. No deixei que lhe vissem nos cais nem que saisse com Fergus 
nos botes, por muito que me implorou. - Ao olhar ao seu sobrinho sua expresso adquirio uma rara mescla de afeto e irritao. - No pedi que viesse,Ian, eu disse 
que devia voltar a casa.
- Mas no o obrigou a voltar, no ? - A cor estava desaparecendo do rosto de Ian, mas seus olhos pardos continuavam entornados e brilhantes pela fria. - Muito 
menos mandou nenhum aviso. Por Deus, jamie, Jenny no est dormindo nenhuma noite nem se quer em todo o mes!
- Queria lev-lo eu mesmo.
- Tem idade suficiente para viajar sozinho - disse teu pai - veio at aqui sem que o trazesse, no?
- Sim. No era por isso. - Jamie, inquieto, brincou com a taa em p. - Queria leva-lo para pedir, a voce e a Jenny, que lhe permitisse viver um tempo comigo.
Ian deixou escapar uma risada breve e sarcstica.
- Ah, sim? Queria nossa permisso para que o enforquem ou lhe deportem contigo?
A clera voltou a cruzar as feies de Jamie.
- Sabes que no permitiria que corresse nenhum perigo - disse - Pelo amor de Deus, eu o quero como se fosse o meu filho!
A Ian havia se acelerado a respirao. Percebi em meu lugar, atrs do sof.
- Oh, eu sei muito bem - disse encarando Jamie nos olhos. - Mas no  teu filho, no ?  meu.
Jamie sustentou o encaro num instante.
- Sim - disse no fim com a voz baixa - Est certo.
O cunhado passou uma mo pela frente, afastando o cabelo escuro.
- Bom. - Respirou fundo uma ou duas vezes mais e se voltou para o menino. - Vamos, tenho um quarto na posada de Ha-lliday.
Os dedos ossudos do filho apertou os meus, tragou a saliva, mas no fez nenhum movimento de abandono no assento.
- No, papai - disse. Lhe tremia a voz e gaguejava com fora para no chorar - No irei contigo.
O pai palideceu.
- Ento  assim?
O jovem assentiu com a cabea.
- Ire...irei contigo pela manh, papai. mas agora no.
Ian olhou a seu filho sem dizer nada. Logo murmurou.
- Compreendo. Est bem. Est bem.
Sem uma palavra mais, girou e saiu fechando a porta com muito cuidado.
O ombro do menino tremia embaixo do meu. Me apertava os dedos mais que nunca, chorando sem ruido. Jamie se aproximou lentamente com a cara cheia de preocupao.
- Oh, Ian, pequeno - murmurou. - Fez muito mal, filho, por Deus.
- Era necessrio. - O sobrinho deixou escapar um bufo. Ento me dei conta de que havia estado segurando o folego. - No queria fazer papai sofrer. No queria fazer 
isso!
Jamie lhe deu uma palmada distrada no joelho.
- Eu sei, filho, mas dizer semelhante coisa...
-  que no podia contar nada. Mas voce tem que saber, tio Jamie!
Levantou os olhos, subitamente alarmado pelo tom de seu sobrinho.
- Saber o que?
- O homem. O homem do rabinho.
- O que tem ele?
O jovem Ian passou a lingua pelos lbios para se armar de coragem.
- Acho que eu o matei - sussurou.
Jamie me lanou um olhar sobressaltado.
- Como?
- Bom...menti um pouco - comeou Ian com voz tremula. Ainda tinha os olhos cheios de lgrimas, mas as secou com a mo. - Quando entrei na imprensa com a chave que 
havia me dado, o homem j estava ali. O encontrei guardando alguns panfletos embaixo do casaco. Eu gritei que os deixasse e se voltou para mim com uma pistola na 
mo.
A pistola se havia disparado, para grande susto do menino, mas a bala se desviou. Sem se intimidar, o marinheiro se arrojou contra ele levantando a pistola para 
us-la como cassetete.
- No tive tempo de fugir e nem de pensar - disse Ian - Busquei o que tinha mais a mo e o atirei.
O que tinha na mo era uma panela de cobre de cabo largo que se utiliza para verter o chumbo fundido nos moldes. A forja ainda estava acendida ainda com as brasas 
bem cobertas, o crisol continha umas gotas ardentes de chumbo que voaram em direo a cara do marinheiro.
- Por Deus, como gritou! - Um forte calafrio correu no jovem Ian. 
Rodeei ao extremos do sof para sentar-me ao seu lado e segurar suas mos.
O marinheiro se havia cambaleado para trs enquanto se dava tapas na cara e se batia com a pequena forja espalhando as brasas por todas as partes.
- Foi isso que iniciou o incendio - disse o menino - Tratei de apag-lo a golpes, mas alcanou o papel e o fogo me saltou para o rosto. Foi como se toda a habitao 
estivesse em chamas.
- Os barris de tinta, suponho - disse Jamie para s mesmo. - A poeira se dissolve no alcool.
No papel em chamas caiu entre Ian e a porta dos fundos. O marinheiro, cegado e uivando como alma penada, de joelhos no cho lhe fechava a passagem at ao quarto 
de frente e at a salvao.
- No...no suportava toc-lo, afastei de um empurro - disse novamente estremecido.
Perdida a cabea por completo, optei por fugir as escadas para cima, mas me encontrei entre as chamas que acendiam pelo vo da escada, enchendo rapidamente o quarto 
do piso superior com uma fumaa cegadora.
- No te ocorreu sair do telhado pelo alapo? - perguntou Jamie.
O jovem Ian balanou lentamente a cabea.
- No sabia que existia.
- O que fazia essa porta ali? - perguntei com curiosidade
Jamie me deu um sorriso fugaz.
- Para casos de necessidades. Tonta  a raposa que tem uma s saida em sua toca.
Ainda devo reconhecer que quando a fiz abrir, no pensava precisamente nos incendios. Ian, acha que o homem no escapou do fogo?
- No acho que pudesse - respondeu o menino soluando outra vez - E se t morto fui eu quem o matou. No podia dizer a papai que sou um assa...um assassi...
Chorava demais para poder pronunciar a palavra.
- No s nenhum assassino - disse seu tio com firmeza dando uma palmada em seu ombro. - Basta j.Est bem. No fez nada errado, filho.
O menino assentiu, mas no desejava chorar e tremer. Por fim o rodeei com os braos, segurando-o como um recem nascido. Me era estranho te-lo abraado; era quase 
to grande como um homem adulto, mas de ossos leves e com to pouca carne que me dava a sensao de sustentar um esqueleto.
Falava com o rosto afundado em meu seio, com a voz to distorida pela emoo e que me custou entender suas palavras.
- ...pecado mortal..., condenado ao inferno..., no pude dizer ao papai..., medo...,nunca voltarei para casa...
Jamie levantou as sombrancelhas. Me limitei a encolher os ombros, acariciando o cabelo revolto do menino. Por fim ele se inclinou para frente e o o segurei com firmeza 
pelos ombros para ergue-lo.
- Olha-me, Ian - ordenou - No, No! Me olha!
- Ian - Jamie lhe estreitou as mos - Em primeiro lugar, no  pecado matar a algum que est tentando te matar. A igreja permite matar, se  necessrio, em defesa 
prpria, de tua famlia ou de teu pas. Assim ento voce no cometeu nenhum pecado mortal e no est condenado.
- No? - O jovem Ian sorveu ruidadosamente pelo nariz, limpando o rosto com uma manga.
- No - assegurou Jamie com um sorriso nos olhos - pela manh iremos juntos falar com o padre Hayes. Pode se confessar com ele para que te absolva, mas te dir o 
mesmo que eu.
- Oh... - a slaba dava um profundo alivio.
Jamie lhe deu outra palmada no joelho.
- Outra coisa: no deves ter medo de dizer ao teu pai.
- No? - O menino havia aceitado sem vacilar sobre o estado de sua alma, mas este ltimo parecia inspirar profundas duvidas.
- No posso assegurar que ele no ficar nervoso - disse Jamie com sinceridade. Mas provavelmente  que lhe saem canas verdes no ato. Mas saiba compreender.
- Voce acredita? - Os olhos de Ian encheram de esperana e da dvida - No...no creio que...Meu pai j matou algum homem? - perguntou subitamente.
Jamie gaguejou, desconcertado pela pergunta.
- Bom, suponho...Ele esteve em combate, mas...se queres que te diga a verdade, Ian, no sei. O homens no falam esse tipo de coisas, sabe? Exceto os soldados as 
vezes quando esto muito embriagados.
Estava buscando um pano em sua manga, mas rpido levantou os olhos, assaltados por uma ideia.
- Por isso preferia contar a mim e no ao teu pai? Porque eu j tinha matado?
O sobrinho assentiu.
- Sim. Imaginei que...que tu sabias o que se deve fazer.
- Ah. -Jamie respirou fundo e trocou um olhar comigo - Bom...
Encolheu os ombros e voltou a inch-los. Compreendi que aceitava a carga posta pelo jovem Ian.
- O que deves fazer - disse suspirando -  se perguntar se podia ter feito alguma outra coisa. No tinhas alternativa, assim que voce pode ficar tranquilo. Logo 
vai se confessar, se puderes; se no,um bom ato de penitencia. Com isso basta se no tem pecado mortal. No cometeu nenhuma falta , claro, mas a penitencia s poque 
lamenta profundamente a necessidade que te obrigou.E finalmente reza uma orao pela alma da pessoa que voce matou. Para que possa descanar e no te persiga.
Conheces a orao para a paz da alma? Te sentirs melhor, se tens tempo para fazer. Em meio da batalha, quando no tens tempo, dizes esta: << Recebe esta alma em 
teus braos, oh Cristo, Rei dos Cus, Amen>>
- Recebe esta alma em Teus braos, oh Cristo, Rei dos ces, Amm - repitiu o jovem Ian . Logo assentiu lentamente: - Sim est bem, E depois?
Jamie alargou uma mo para tocar-lhe a bochecha com muita suavidade.
- Depois aprendes a viver com a recordao, filho - concluiu - Isso  tudo.






CAPTULO  28

O GUARDIO DA VIRTUDE

- O homem que seguiu Ian pode ter algo haver com a advertncia do Sr. Percival? - Destampei a bandeja que acabaram de trazer para oferecer-lhe; parecia que havia 
passado muito tempo desde a refeio de Moubray.
Jamie assentiu pegando uma espcie de pozinho recheado quente.
- No me surpreenderia - disse secamente-.  provvel que haja mais de um homem com a inteno de me prejudicar, mas no acredito, que haja bandos inteiros rondando 
por Edimburgo. - Mastigou meneando a cabea - No, isso  evidente, mas no h por que se preocupar.
- No? - Dei uma pequena mordida no meu pozinho; logo outro, maior. E dei uma pausa para engolir.
- No - disse com mais clareza - Ha de ser questo de um contrabandista rival. Ha um bando com o qual tenho tido algumas dificuldades. - Agitou a mo retirando as 
migalhas e pegou outro pozinho. - Pelo comportamento desse homem, que s farejou o conhaque, poderia ser um degustador: algum capaz de identificar a procedncia 
de um vinho pelo cheiro e pelo ano em que foi engarrafado somente com uma tragada. Um tipo muito valioso - acrescentou pensativo - e excelente para me seguir o rastro.
- Poderia te rastrear por meio do conhaque? - Perguntei com curiosidade - Mais ou menos. Recorda-se do meu primo Jared?
- Claro. Ainda est vivo?
- Para elimin-lo teriam que tranc-lo em um barril e atir-lo no Sena -replicou Jamie- No s est vivo como desfrutando de sua existncia. Como acha que consigo 
o conhaque Francs que trago para a Esccia?
- Por intermdio de Jared, suponho -disse.
Jamie assentiu com a boca cheia.
-Eh!- Arrebatou o prato dos dedos esquelticos do jovem Ian- Se tem o estmago to embrulhado, no deves comer algo to forte. - advertiu de cenho franzido enquanto 
mastigava- Vou pedir mais po e leite para voc.
-Espera tio! -protestou o menino olhando com nostalgia os saborosos pezinhos recheados.- Tenho uma fome terrvel!
Purificado por sua confisso, havia recobrado o bom animo e, pelo visto, tambm seu apetite. Jamie suspirou.
- Bom, est bem. Mas juras que no vai vomitar em cima de mim?
- No,tio - prometeu mansamente o jovem Ian.
-De acordo. -Depois de devolver-lhe o prato, Jamie continuou com sua explicao.- Jared me envia principalmente o produto de segunda qualidade de seus prprios vinhedos 
e reserva o de primeira qualidade para vender na Frana, aonde as pessoas percebem a diferena.
- Ento, o que voc trs para a Esccia  identificvel.
- Somente por meio de um degustador. O certo  que esse homem provou o vinho em alguma taberna que compra exclusivamente meu conhaque. De qualquer modo, no me preocupa 
muito que algum procure Jamie Roy nas tabernas. - Cheirou seu vinho antes de beber- O que me preocupa  que esse homem chegou  imprensa. Causa-me muito incmodo 
porque quem quer conhecer o Jamie Roy do cais so os mesmo que tratam com Alex Malcolm, o tipgrafo.
- Mas sir Percival te chamou de Malcolm. E sabe que voc  um contrabandista -protestei. - Jamie assentiu com a cabea.
- Nos portos prximos a Edimburgo, Sassenach, a metade dos homens so contrabandistas. Sir Percival sabe que me dedico a isso, sim, mas no me associa com Jamie 
Roy nem com James Fraser. Acredita que comercializo sedas e veludos da Holanda... Porque com isso o pago. -Esboou um sorriso- Troco o conhaque por tecidos com o 
alfaiate da esquina. Sir Percival  aficionado por tecidos finos e sua esposa ainda mais. Mas ignora que trafico licores em grande quantidade. Do contrario no se 
conformaria com apenas alguns cortes de tecidos, te asseguro. 
- possvel que este marinheiro tenha te localizado atravs de algum taberneiro? 
Passou as mos pelos cabelos, como sempre fazia quando estava pensando.
-S me conhece como cliente - disse com lentido-  Fergus quem se encarrega de negociar com as tabernas... e ele nunca se aproxima da imprensa. Sempre nos reunimos 
aqui em particular. -Me sorriu com ironia- E no h nada de estranho em um homem visitar um bordel, no  verdade?
De repente me ocorreu uma idia.
- E se for assim? Qualquer homem pode entrar aqui sem despertar suspeitas. E se esse marinheiro se habituou a te ver com Fergus? Ou se alguma das meninas te descobriu? 
Afinal voc no  um homem que possa passar desapercebido.
- Muito bem pensado, Sassenach -manifestou- Posso averiguar facilmente se em outros dias tem vindo por aqui um marinheiro. Vou falar com Jeanne. -Se levantou para 
se espreguiar. Suas mos quase tocavam as vigas do teto- E depois vamos nos deitar, no? -Me piscou um olho - Entre uma coisa e outra, tem sido um dia terrvel.
Jeanne chegou junto com Fergus, que lhe abriu a porta com a familiaridade de um irmo.
- Ia vender o conhaque -informou a Jamie- Sei que vendi a MacAlpine... com uma defasagem no preo, milord, por desgraa. Pareceu-me que era melhor fazer uma venda 
rpida.
-Sim,  prefervel no o ter na taberna -confirmou Jamie- Que fizestes com o cadver?
O francs emboou um leve sorriso; sua cara magra e suas madeixas escuras lhe davam um ar de pirata.
-Nosso intruso tambm foi parar na taberna de MacAlpine, milord..., devidamente disfarado.
-De que? -quis saber.
O sorriso de pirata se voltou para mim; Fergus, apesar do garfo, tinha se tornado um homem muito bonito.
-De creme de menta, milady.
-No acredito que ninguem em Edimburgo havia provado o creme de menta nos ltimos cem anos -comentou Madame Jeanne- Estes escoceses pagos no esto habituados com 
os licores civilizados. Nossos clientes nunca pedem outra coisa que no seja whisky, cerveja e o conhaque.
-Exatamente, Madame -assentiu Fergus- No convm que os homens de MacAlpine provem o contedo deste tonel, verdade?
-Mas alguem abrir esse tonel, mais cedo ou mais tarde -objetei- No quero ser grosseira, mas...
-Exatamente, milady. -Fergus me dedicou una respeitosa reverencia- Ainda que o creme de menta tenha um alto teor alcolico. O sto dessa taberna  somente uma pausa 
momentnea na viagem do nosso desconhecido, antes do seu descanso eterno. Amanh ir ao cais e, dali, a algum lugar muito mais distante.
Jeanne se dirigiu a porta, dando de ombros.
-Amanh, quando as rameiras estiverem desocupadas, lhes perguntarei se tem visto esse marinheiro, Monsieur. No momento...
-No momento, falando de estar desocupada... -interrompeu Fergus -  possvel que Mademoiselle Sophie esteja livre essa noite?
A Madame lhe dirigiu um olhar irnico.
-Assim que os vi entrar, mon petit saucisson, suponho que se tenha mantido livre. -Jogou os olhos sobre o jovem Ian, jogado entre as almofadas como um espantalho 
sem seu recheio de palha- E devo providenciar uma cama para este jovem cavalheiro?
-Oh, sim. -Jamie observou o seu entristecido sobrinho - Poderia por um colcho no meu quarto.
-Oh, no! -balbuciou o jovem Ian- Sem duvidas queres ficar a ss com a sua esposa, verdade tio?
-Qu? -Jamie o olhou sem compreender.
-Bom, quero dizer... -O menino me olhou indeciso- Suponho que necessitars... h... Hum? 
Como todo escocs das Terras Altas, conseguiu dar um toque de impudicia a ltima silaba.
-Caramba, tens muita considerao, Ian. -A voz de Jamie soou um pouco estremecida por seu esforo de no rir.- E me alegra que tenhas uma opinio to alta sobre 
a minha virilidade para acreditar que eu seria capaz de algo alm de dormir depois de um dia como este.
Mas creio que por esta noite posso deixar os meus desejos carnais sem satisfao... Apesar de gostar muito de sua tia.
- Bruno me disse que no h muito movimento no estabelecimento esta noite-interveio Fergus um pouco desconcertado- Que problema ha de o menino...?
- Ele tem apenas quatorze anos, por Deus! -protestou Jamie escandalizado.
- Quase quinze! -corrigiu o jovem Ian com expresso de interesse.
- Bom,  suficiente, sem duvidas -assegurou Fergus pedindo a confirmao de Madame Jeanne com o olhar-. Teus irmos no passavam dessa idade quando tiveram sua primeira 
vez. E cumpriu com todas as honras.
- O que est dizendo? -Jamie olhava o seu protegido com os olhos arregalados.
- Bom, algum tinha que se ocupar disso.- disse Fergus com impacincia - Normalmente  o pai, mas Monsieur no ... Sem inteno de faltar com respeito a seu estimado 
pai, mas -falou se dirigindo ao jovem Ian-, este assunto  para algum mais experiente, compreende?
Logo se voltou para Madame Jeanne como um gourmand que consulta seu camareiro. - Bem... Dorcas, o que te parece? Ou Penlope?
- No, no -disse ela sacudindo a cabea com deciso- Tem que ser a segunda a Mary, sem duvida. A pequena.
-Ah, a ruiva? Sim, creio que tem razo -aprovou Fergus- Traga-a ento.
Jeanne saiu sem que Jamie tivesse tempo para fazer outra coisa se no emitir um grunido de protesto.
- Mas... mas., o menino no pode...
- Sim eu posso -assegurou o jovem Ian- Ao menos eu acredito.
- E o que vou dizer a sua me? -perguntou.
A porta se abriu, ento vimos uma muito baixa, suave como uma perdiz, de cara radiante emoldurada por uma cabeleira ruiva. Ao v-la o jovem Ian ficou petrificado; 
apenas podia respirar.
Quando j no podia seguir contendo seu flego sem cair desmaiado, se voltou para Jamie sorrindo com arrebatadora doura. 
-Bem, tio Jamie, em teu lugar... - sua voz subiu subitamente com uma alarmante nota de soprano. Depois de pigarrear continuou, com respeitvel voz de bartono-: 
Em teu lugar no diria nada. Boa noite tia.
E saiu com ar decidido.
- No sei se devo matar Fergus ou lhe dizer obrigado.
Jamie, sentado na cama, desabotoava lentamente a camisa. 
- Suponho que deva fazer o que mais convenha ao jovem Ian.
- Sim, com essa maldita imoralidade dos franceses.
- Foi o arcanjo Miguel que expulsou Ado e Eva do den? - perguntei enquanto tirava as meias.
Jamie riu baixo.
- Pareo-me com isso? O guardio da virtude? E Fergus seria a serpente maligna? -Pegou-me pelos braos para me levantar- Vem aqui, Sassenach; no gosto de te ver 
de joelhos me servindo.
- Hoje tem sido um dia difcil -Decretei obrigando-o a se levantar comigo-, ainda que no tenha matado ningum.
Apoiou a bochecha nos meus cabelos.
- Na realidade, no tenho sido totalmente sincero com esse garoto -confessou.
- No? Na minha opinio, voc tem sido maravilhoso. Pelo menos conseguiu com que se sentisse melhor.
- Sim, assim espero. E se as oraes, ainda que no lhe sirvirem de nada, pelo menos no lhe fazem mal. Mas no disse tudo. Geralmente ns s conhecemos um homem 
quando nos fere a alma por ter matado ou quando ele procura uma mulher, Sassenach - explicou suavemente-. A prpria se puder ser. Se no, qualquer outra. Porque 
ela pode fazer o que ningum mais pode... cura-lo.
Soltou a braguilha de sua cala.
- Por isso que o deixou ir a segunda Mary?
Encolheu os ombros e se afastou para tirar a cala.
- No podia det-lo. E pensei que era melhor permitir, ainda que seja to jovem. -Me dedicou um sorriso torcido- Ao menos no passar a noite desesperado pensando 
nesse marinheiro.
- Suponho que no. E voc? -Lhe tirei a camisa.
- Eu? -Me olhou com as sobrancelhas arqueadas a camisa suja descendo pelos ombros.
- Sim. No mataste ningum, mas...no quer...?
O sorriso que se instalou em seu rosto, eliminou qualquer semelhana com Miguel, o severo guardio da virtude.
- Suponho que sim -disse-. Mas trata-me com suavidade, querido?























                                         CAPTULO 29
          A LTIMA VTIMA DE CULLODEN


Pela manh, quando Jamie e Ian partiram para cumprir com sua piedosa tarefa, sa atrs deles. Me detive a comprar um grande cesto de vime de um vendedor de rua; 
j era hora de comear a ter os utensilios mdicos que pudesse encontrar. Vistos os acontecimentos do dia anterior, temia que muitoem  breve me fizesse falta.
A farmacia de Haugh no havia mudado em nada. O homem que atendia o balco era um autentico Haugh muito mais jovem daquele que conheci a vinte anos atrs, quando 
ajudava o seu negcio buscando dados sobre os militares, e mais as ervas e outros remdios.
Esse jovem Haugh no me conhecia, claro, mas se dedicou amavelmente a buscar as ervas que eu desejava. No local havia outro cliente rondando o balco onde se preparavam 
as poes magistrais. Andava de um lado ao outro com obvia impaciencia e com as mos cruzadas nas costas. Por fim se aproximou ao balco.
- Quanto falta? - espetou.
- No sei dizer, reverendo - respondeu o farmaceutico em tom de desculpa - Louisa disse que era necessrio ferve-lo.
Aquele homem me era conhecido, mas no tive tempo de pensar onde havia visto antes. O senhor Haugh olhava com ar em dvida a lista que eu lhe havia dado.
- Acnito, acnito - murmurou - O que ?
- Bom, entre outras coisas um veneno - disse.
O farmaceutico ficou boquiaberto.
- E tambm um remdio - lhe assegurei -  preciso por com muito cuidado ao utiliz-lo. Em uso externo  bom para o reumatismo. Uma quantidade muito pequena ingerida 
por via oral abaixava o ritmo do pulso e  bom para certas enfermidades do corao.
- Caramba - se maravilhou o senhor Haugh gaguejando. Logo se voltou at as estantes com ar indefeso e mostrando interesse. - ...sabes que cheiro tem?
Interpretando isso como um convite, rodeei o balco para inspecionar os frascos.
- Temo que ainda no sou to hbil com os medicamentos como era o meu pai - disse o jovem. - Ele me ensinou muito mas morreu faz um ano e aqui tem coisas cujo uso 
desconheo.
- Bem, este serve para tosses - informei baixando um frasco de helenio enquanto dava uma olhada ao impaciente reverendo, que havia tirado um leno e respirava asmticamente 
- Sobretudo ainda com tosse provocada pelo catarro.
Observei as estantes cheias franzindo a testa. Tudo estava impecavelmente limpo mas obviamente no havia sido guardado por ordem alfabtica nenhum remdio. O senhor 
Haugh  havia se baseado na memria  algum tipo de sistema? Fechei os olhos, tratando de recordar minha ltima visita a farmcia.
- Ali. - Com bastante segurana minha mo se aproximou do frasco rotulado Dedaleira. No outro lado, Cola de Caballo, do outro, Raiz de Muguet. Repassei mentalmente 
os possveis usos dessas ervas, todas eram para doenas cardacas. O Acnito no devia de estar longe.
O encontrei muito rpido, em um frasco que entreguei cautelosamente ao senhor Haugh.
- Tenha cuidado.Basta um pouquinho disto para que se adormea a pele. Seria melhor se pusesse em um frasco de vidro.
- Parece saber muito mais de remdios que este jovem - disse detrs de mim uma voz grave e rouca.
- Bem, provavelmente tenho mais experiencia que ele. - O sacerdote estava apoiado ao balco e me observava; seus olhos eram de um azul muito plido embaixo das grossas 
sombrancelhas. Me sobressaltei ao recordar onde o havia visto: na taberna de Moubray, no dia anterior. No deu sinal algum de me reconhecer.
- Hum, o que faria com uma doena nervosa?
- Que tipo de doena nervosa?
Franziu os lbios e a expresso, duvidando se confia em mim.
- Bem,  um caso complicado. Mas em geral, o que receitarias para uma especie de ...ataque?
- Convulses epilpticas? O enfermo cai no cho e se retorce?
- No, outro tipo de ataques. Uiva e fica imvel.
- As duas coisas ao mesmo tempo?
- No - esclareceu precipitadamente - Primeiro uma coisa e depois a outra. Passa dias inteiros muda, com a vista fixa e de repente grita como para despertar os mortos.
- H de ser muito incomodo - Se sua esposa atua assim, isso explica as profunda rugas que rodeavam a boca e os olhos e as grandes orelhas azuis. Tamboriei com um 
dedo o balco reflexionando. - No sei.Teria que ver a enferma.
Ele passou a lingua pelo lbio inferior.
- Talvez...estaria disposta a visit-la? No estamos longe - disse com bastante rigidez.
- Neste momento no posso - expliquei - Devo me encontrar com meu esposo. Mas esta tarde, talvez...
- As duas. Na pousada de Henderson, em Carrubbers Close. Meu nome  Campbell. Reverendo Archibald Campbell.
Antes de que eu pudesse responder sim ou no, se abriu a cortina da dependencia e o senhor Haugh apareceu com seus frascos.
O reverendo olhou os seus com suspicacia enquanto buscava uma moeda no bolso.
- Bom, aqui est o preo - disse de m voltande deixando no balco. - Espero que me tenhas dado o que eu queria, no o veneno da senhora.
A cortina voltou a abrir; uma mulher apareceu com a cabea e seguiu com a vista ao sacerdote enquanto se retirava.
- Menos mal que se v - comentou - Meio penique por uma hora de trabalho, e ainda insulta! O senhor poderia ter escolhido melhor, ao menos, isso eu pensei.
- O conheces? - perguntei.
- No, no posso dizer que o conhea bem - Louisa me olhava com franca curiosidade -  um desses ministros da Igreja Livre; ele passa o dia berrando na esquina do 
mercado. O que me surpreende  que algum como ele venha em nossa farmcia, sabendo o que pensa os padres em geral. - Me cravou uma olhada. - Sem animo de ofende-los 
senhora, se voce tambm  da Igreja Livre.
- No, eu tambm sou catlica...e... papista - lhe assegurei - Pensei que poderias saber algo sobre a esposa do reverendo e sua enfermidade.
Louisa mexeu a cabea, voltando-se para outro cliente.
- No, nunca a v. Qualquer que seja sua enfermidade - disse, viver com esse homem no lhe aliviar muito.
Fazia frio mas estava limpo. No jardim da diretoria somente ficava um vago cheiro da fumaa como lembrana do incendio. Jamie e eu nos sentamos em um banco apoiado 
a parede absorvendo o plido sol de inverno enquanto espervamos que o jovem Ian terminasse sua confisso.
- Foi voce que contou a Ian esse monte de mentiras que disse ontem sobre mim?
- Ah,sim. Ian  muito inteligente para acreditar, mas era uma histria bastante aceitvel e ele  muito bom amigo para exigir a verdade.
- Suponho que, para o consumo geral, serve - disse - Mas no devia ter dito o mesmo ao senhor Percival, em vez de permitir pensar que estvamos recem casados?
Sacudiu decidamente a cabea.
- Oh, no. No quero que me associe com Culloden. Se lhe contar o mesmo que a Ian daria muito mais que falar.
Se pos em p e alargou o pescoo, tentando olhar por cima do muro at o jardim da diretoria.
- Este jovenzinho est demorando demais - comentou enquanto voltava a se sentar - Tantas coisa tem para confessar, quando ainda nem havia cumprido os quinze anos?
- Depois do dia e da noite que aconteceu ontem? Tudo depende dos detalhes que lhe pede o padre Hayes - comentei recordando meu caf da manh com as rameiras - Ficou 
aqui todo esse tempo?
- ...no.- Jamie ruborizou um pouco nas orelhas  luz matinal - Eu.....tive que entrar primeiro. Para dar exemplo, sabe?
- Agora isso explica porque demorou tanto - brinquei - Quanto tempo faz que voce no se confessava?
- Seis meses. Isso  o que disse o padre Hayes.
- E est certo?
- No, mas j que ia me castigar por roubo, violencia e blasfemia, bem podia castigar-me tambm por mentir.
- Como! Nada de fornicao nem de pensamentos impuros?
- No, em absoluto - replicou austero - Se podem pensar coisas horriveis sem que seja pecado, sem fazer referencia a esposa.  impuro somente quando pensas em outras 
damas.
- No tinha ideia de que meu regresso era para salvar-te a alma - disse recatada - mas me alegro de ter essa utilidade.
Se deitou a rir. Logo me deu um grande beijo.
- No ano passado conheci um judeu - comentou - Um filsofo nato que havia dado a volta ao mundo seis vezes. Segundo me disse, tanto a f mulumana como os ensinos 
judeus, diz que marido e mulher quando fazem amor  um ato de virtude.
Talvez tem algo haver com o fato de que os judeus e mulumanos praticam a circunciso - disse pensativo - No me ocorreu pergunt-lo...mesmo porque poderia parecer 
um pouco indelicado.
- No acho que um prepucio mais ou menos possa prejudicar a virtude. O que aconteceu com seu rosrio? - perguntei reconhecendo ele que havia caido na grama. - Parece 
comido pelos ratos.
- Ratos no. - disse - Crianas.
- Que crianas?
- Oh, qualquer uma que est prxima - disse encolhendo os ombros e guardando o rosrio no bolso. - O jovem Jamie j tem tres e Maggie e Kitty, dois cada uma. O pequeno 
Michael acaba de se casar e sua esposa j est esperando. Ignoravas que te haviam feito tia-av sete vezes, no ?
- Tia-av? - repeti  estupefatada.
- Bem, eu sou tio-av - apontou alegremente - e no me parece to terrivel, exceto por morderem meu rosrio quando estavam saindo os dentes. Isso  que me chamam 
"tito".
As vezes, esses vinte anos pareciam um s instante enquanto que outras vezes sentia um tempo muito grande.
- ...Espero que no haja um equivalente feminino de "tito".
- Oh, no - me assegurou - Para todos s a tia-av Claire. E falam de voce com muitssimo respeito.
- Mil vezes obrigada - murmurei pensando na ala geritrica do hospital.
Jamie se deitou a rir. Com uma rpida provocada, sem dvida, por sua recente liberao de todo pecado, me pegou pela cintura para sentar-me em seu colo.
- Nunca havia visto uma tia-av com um traseiro to bonito - disse fazendo-me saltar sobre seus joelhos.
E me mordeu suavemente a orelha. Soltei um grito.
- Est bem, tia? - ns olhamos a nossas costas, cheia de preocupao, a voz do jovem Ian.
Jamie deu um sobressalto que esteve a ponto de tirar-me de seu colo. Logo me segurou a cintura com mais fora.
- Claro que sim - disse -  que tua tia acaba de ver uma aranha.
- Onde?
- Ali em cima - Jamie me deixou para levantar-se e acenou a rama da tlia.


Realmente havia uma aranha estirada entre as ramas, cintilante pela umidade.
- Tio Jamie, podes me emprestar o rosrio? - perguntou o menino quando saimos dos empedrados da Royal Mile. - O padre me disse que devo rezar cinco decenrios como 
penitencia. E so demais para se contar nos dedos.
- Encantado  Jamie se deteve para tirar o rosrio do bolso. - Mas no esquece de me devolver.
O menino sorriu.
- Sim, j  sei que voce tambm vai precisar, tio Jamie. - Me piscou um olho sem pestanas. - O padre me disse que tem sido muito mal e me aconselhou a no imit-lo.
- Hum... - Jamie tinha um brilho rosado nas bochechas.
- Quantos decenrios deves rezar como penitencia? - perguntei por curiosidade.
- Oitenta e cinco - murmurou.
O sobrinho ficou boquiaberto.
- Quanto tempo faz que no se confessava, tio?
- Muito - respondeu Jamie secamente - Vamos!
Depois de comer, Jamie devia se reunir com um certo senhor Harding, representante da companhia com a que tinha assegurado o local da imprensa, a fim de inspecionar 
os restos para verificar as perdas.
- No te necessito, filho - disse em tom tranquilizador ao jovem Ian, que no parecia muito entusiasmado pela perpectiva de voltar ao cenrio de sua aventura. - 
V com tua tia visitar essa louca - se voltou para mim com uma sombrancelha alta - No sei como o fazes. Tens apenas dois dias na cidade e j tens enfermos em vrios 
quilometros ao redor pendentes as tuas atenes.
-  somente uma mulher. E nem sequer a tenho visto ainda.
- Bom, ao menos a loucura no  contagiosa...isso eu espero. - Me deu um beijo e uma palmada no ombro de seu sobrinho - Cuida bem da tua tia, Ian.
O menino seguiu com os olhos em sua alta silhueta.
- Quer ir com ele, Ian? - lhe perguntei - Posso me arranjar sozinha.
- Oh, no, tia! Parecia bastante encabulado. - No quero ir, nem pensar. Somente...me estava perguntando se...bom, se encontrariam algo. Nas cinzas
- Um cadver, quer dizer - disse sem rodeios.
O menino assentiu, inquieto.
- No sei  - disse - Se o fogo foi muito intenso, talvez no tenha nada. Mas no se preocupe. Teu tio saber o que fazer.
Se iluminou o rosto; tinha f na capacidade de Jamie para manejar qualquer tipo de situaes. Ento comeou a sonar os sinos da igreja.
- Vamos. J so duas horas.
Apesar de sua conversa com o padre Hayes, Ian tinha um certo ar sonhador. Conversamos muito pouco enquanto subamos a costa da Royal Mile at o albergue de Henderson.
Um menino nos conduziu ao terceiro piso, onde a porta foi aberta de imediato por uma robusta mulher com avental, que luzia uma expresso preocupada. Mas no aparetanva 
mais de vinte e cinco anos, j havia perdido vrios dentes.
- s a dama que o reverendo me anunciou? - Ante meu gesto afirmativo, sua expresso se animou um pouco. - O senhor Campbell teve que sair mas disse que estaria muito 
agradecido para ver o que poderia ser feito por sua irm, senhora.
Irm, no esposa.
- Bem, farei o que puder - prometi - Posso ver a senhorita Campbell?
Deixando Ian na sala com suas lembranas, passei no dormitrio do fundo com a mulher que disse chamar-se Nellie Cowden.
Tal como havia me anunciado, a senhorita Campbell tinha um olhar fixo, mas seus olhos azuis no pareciam ver nada. Nem sequer a mim. Estava sentada em uma cadeira 
larga e baixa, de costas ao fogo.
- Senhorita Campbell? - pronunciei com cautela.
- Quando est assim no responde - explicou Nellie Cowden . E mexeu a cabea limpando mas mos no avental. - Nem uma palavra.
- Quanto tempo faz que est assim? - Levantou uma de suas rgidas mos para buscar o pulso, ali estava, lento mas bastante firme.
- Oh, dois dias, de momento - A senhorita Cowden, interessada, se inclinou para observar o aspecto de sua pupila. - Pode estar assim uma semana ou mais; treze dias 
chegou a estar uma vez.
Enquanto examinava a enferma fiz algumas perguntas a mulher. A senhorita Margaret campbell tinha trinta e sete anos e era o nico membro familiar do reverendo, com 
quem vive a mais de vinte anos, desde a morte de seus pais.
- O que provoca isso? Voce sabe?
A senhorita Cowden mexeu a cabea.
- No senhora. Eu diria que no tem motivo. Parece estar bem, falando e rindo, e de repente !paf!
Estalou os dedos. Logo, para dar efeito a faze-los sonar deliberadamente embaixo do nariz da mulher.
 - Mas  pior quando se excita - me assegurou agachando-se ao meu lado enquanto eu descalava a senhorita Campbell para provar seus reflexos.
- O que acontece ento? Grita, como disse o reverendo? - Me levantei - Poderias trazer uma vela acendida, por favor?
- Grita, sim. -A senhorita Cowden se apressou a acender uma vela. - As vezes grita de um modo espantoso at ficar esgotada. Logo acaba dormindo. Dorme o dia inteiro 
e desperta como se no houvesse acontecido nada.
- E quando disperta, parece normal? - Movi a vela a poucos centmetros de seus olhos. As pupilas se contrairam como resposta automtica da luz, mas sem seguir os 
movimentos da chama.
- Bom, normal...no se pode dizer - disse lentamente a senhorita Cowden - A pobrezinha est mal da cabea desdo os vinte anos.
- Mas no leva todo este tempo ao seu cuidado, no ?
- Oh, no! Em Burntisland, onde viviam, o senhor Campbell tinha o cuidado de outra mulher. Mas a senhora j no era muito jovem e no quis abandonar a casa. Quando 
o reverendo decidiu aceitar o oferecimento da Sociedade Missionria para levar a sua irm as Antilhas, pediu um mulher forte, de bom carter, a quem no lhe molestasse 
viajar com uma enferma. E aqui estou - A mulher me dedicou um sorriso desdentado, como testemunho de suas virtudes.
- Para as Antilhas? Pensa embarcar com a senhorita Campbell?
- Disse que com a mudana de clima poderia se sentir melhor - explicou - Estar longe da Esccia, de tantas lembranas espantosas. Eu creio que deveria fazer isso 
a muito tempo.
- De que lembranas espantosas me falas? - perguntei.
A mulher se desviou at a mesa, onde havia uma garrafa e varias taas.
- Bom, eu somente sei o que me contou Tilly Lawson, quem a cuidou durante muito tempo.
Aceitaria uns tragos cordiais, senhora, para no depreciar a hospitalidade do reverendo?
Enquanto bebiamos  me contou a histria de Margaret Campbell.
Havia nascido em Burntisland, a uns oito quilometros de Edimburgo. Em 1745, quando Carlos Stuart marchou at a cidade para reclamar o trono de seu pai, tinha dezessete 
anos.
- Seu pai era monrquico, claro, e seu irmo estava em um regimento do governo que marchou at ao norte para acabar com a rebelio. Mas a senhorita Margaret no: 
ela estava com o Bonnie Prince e com os homens que o seguiam.
Com um deles, em especial, at a senhorita Cowden ignorava seu nome. Mas devia de haver sido muito bravo, pois a senhorita Margaret saia escondido de sua casa para 
se reunir com ele e dar-lhe todas as informaes que tinha escutado das conversas de seu pai ou lendo as cartas de seu irmo. Depois se iniciou a retirada para o 
norte. Margaret, desesperada pelos rumores, abandonou sua casa no meio da noite para se reunir com o homem que amava.
Ali o relato se tornava duvidoso: talvez encontrou o homem e ele a recusou; talvez no pode falar a tempo e se viu obrigada a regressar. De qualquer modo, iniciou 
a volta e , no dia depois de Culloden, caiu nas mos de uma legio de soldados ingleses.
- O que lhe fizeram foi horrvel - disse a senhorita Cowden baixando a voz. - Horrvel!
Os soldados ingleses, cegados pela luxria da perseguio e da matana, no pensaram em perguntar-lhe seu nome nem as ideias polticas de sua famlia: pelo seu acento 
lhe identificaram como escocesa e com isso para eles bastou.
A abandonara, pensando que estava morta, em uma valeta cheia de gua gelada, onde resgatou uma famlia de ciganos. Margaret sobreviveu, mas ficou assim. Viajou com 
os ciganos at o sul, para evitar o saque das Terras Altas. Um dia, estando no ptio de uma taberna recorrendo nas moedas enquanto os ciganos cantavam, encontrou 
seu irmo, que havia sido detido com seu regimento.
Todo aquele assunto havia deixado em Archibald Campbell um profundo rancor contra os escoceses das Terras Altas e do exrcito ingles, por isso que renunciou ao seu 
cargo. Depois da morte de seus pais se encontrou em uma  posio aceitavelmente boa, mas era o nico sustento de sua irm enferma.
- No pde se casar - explicou a senhorita Cowden - Que mulher haveria aceitado-o com sua irm?
Antes suas dificuldades buscou refugio em Deus e se fez pregador, ocupao na qual teve muito exito. Aquele mesmo ano, a Sociedade de Missioneiros Presbiterianos 
tinha oferecido uma misso nas Antilhas para organizar as igrejas de Barbados e Jamaica.
Dei uma ltima olhada na silhueta sentada junto ao fogo.
- Bem - suspirei - , lamentavelmente no  muito o que posso fazer por ela. Mas deixarei algumas receitas para que faa preparar na farmcia antes de partir.
Anotei algumas ervas sedantes e tisanas que corrigem sua leve deficiencia nutricional. O reverendo Campbell no havia regressado, mas no havia motivos para esper-lo. 
Depois de me despedir da senhorita Campbell, abri a porta do dormitrio. O jovem Ian me estava esperando do outro lado.
- Oh!  exclamou sobressaltado - Ia te buscar, tia. So quase tres e meia e o tio Jamie disse...
- Jamie? - A voz sonou detrs de mim proveniente da cadeira posta junto ao fogo;
A senhorita Cowden e eu giramos. Margaret Campbell estava muito erguida e seus olhos estavam agora bem centrados. Ao entrar o jovem Ian, a enferma rompeu em alaridos.
Bastante nervosos pela cena da senhorita Campbell, o menino e eu voltamos ao refugio do bordel, onde recebemos o despreocupado cumprimento de Bruno, que nos fez 
entrar a sala do fundo. Ali estavam Jamie e Fergus, muito concentrados em sua conversa.
-  certo que no pode confiar em Sir Percival - disse Fergus - ,mas neste caso, por que o advertiria sobre uma emboscada se esta no fosse ocorrer?
- No sei - respondeu Jamie numa cadeira - Somente podemos pensar que a polcia tem planejado uma emboscada. Dentro de dois dias, disseram. Isso significa que ser 
na enseada de Mullen.
Ao nos ver entrar se levantaram, oferecendo o assento.
- Faremos nas rochas de Balcarres, no ? - perguntou Fergus.
Jamie franziu o semblante, tamboreando sobre a mesa.
- No - resolveu - Que seja em Arbroath. Na pequena enseada, por debaixo da abadia. Somente para ver se estamos certos, de acordo?
- De acordo. - Fergus afastou o prato de tortas de aveia e se levantou - Farei correr a notcia, milord. Em Arbroath,dentro de quatro dias.
Depois de me saudar com uma inclinao de cabea, se envolveu numa capa e saiu.
-  o contrabando, tio? - perguntou o jovem Ian ansioso. - Vai vir uma embarcao francesa?
- Sim. E voce, joven Ian, no tens nada haver com o assunto.
- Mas eu posso ajudar! - protestou o menino - Necessitars de algum que lhe segure as mulas!
- Depois de tudo que nos disse seu pai? Por Deus, que pssima memria tens, filho!
Ian pareceu se ruborizar um pouco.
- Vais a Arbroath por uma carga de licor? - perguntei - No te parece perigoso depois da advertencia de sir Percival?
Jamie me olhou levantando uma sombrancelha e respondeu com paciencia.
- No. Sir Percival me advertiu que a polcia estar no nosso encontro combinado em cerca de dois dias. Isso vai ser na enseada de Mullen. mas tenho um acordo com 
Jared e seus capites: se por algum motivo no pudermos assistir a reunio, a embarcao se manter longe da costa e regressa na noite seguinte a um lugar diferente. 
E ainda temos um terceiro lugar combinado, se o segunda encontro no se concretizar.
- Mas se sir Percival sabe sobre o primeiro encontro, no estaram tanto nos outros tambm?
- insisti.
- No. Jared e eu combinamos os tres lugares por meio de uma carta selada, que veio dentro de um pacote no nome de Jeanne. Depois de ler a carta, a queimei. Os homens 
que vem conosco conhecem o primeiro ponto, claro; suponho que alguns deles poderia deixar escapar algo - disse cenhudo - Mas nada, nem sequer Fergus, conhece os 
outros  lugares, a menos que devemos ajudar um deles. E nesse caso todos sabem fechar bem a boca.
- Isso significa que no tem perigo, tio! - exclamou o jovem Ian - Deixame ir, por favor. No vou atrapalhar.
Jamie olhou seu sobrinho com certa irritao.
- Voce vai comigo a Arbroath,mas ficars com sua tia na pousada, perto da abadia, at que tenhamos terminado. - Se voltou at mim. - Deve levar o menino a sua casa, 
Claire, e arrumar as coisas com seus pais da melhor forma que puder.
Ian pai havia abandonado a pousada nessa manh, antes de que Jamie e seu filho chegassem, sem deixar mensagem alguma; era de presumir que estava a caminho de casa.
- Te incomoda fazer esta viagem? - me perguntou Jamie.
- Em absoluto - lhe assegurei - Ser um prazer ver outra vez Jenny e o resto de tua famlia.
- Mas tio! - balbuceou o menino. - Que me dizes de...?
- Cala-te - lhe espetou Jamie. - No quero ouviu uma palavra mais, estamos entendidos?
Depois, mais relaxado, me sorriu.
- Bom, como foi tua visita a louca?
- Muito interessante - assegurei - Conheces algum que se chama Campbell, Jamie?
- Existe uns trezentos ou quatrocentos - disse com um sorriso - Te referes a algum em particular?
Lhe repeti a histria de Archibald Campbell e sua irm Margaret. Me escutou mexendo a cabea. Depois suspirou.
- Me contaram coisas piores sobre o que aconteceu depois de Culloden - disse - Mas no acho que...Espera.  - Me olhou com os olhos entornados, pensativo. - Margaret 
Campbell. Margaret. uma menina bonita e pequena, mais ou menos como a Mary? De cabelo castanho suave como uma plumagem e rosto muito doce? - Acho que sim. - Desenhou 
uma linha entre as esmigalhas da mesa. - Se no me engano, era a noiva de Ewan Cameron. Lembra de Ewan?
- Claro. - Era um homem alto e arrogante, muito brincalho, que trabalhava com Jamie em Holyrood reunindo informaes que se filtravam da Inglaterra. - O que foi 
dele? Ou no devo perguntar?
- Os ingleses o fusilaram - respondeu em voz baixa - Dois dias depois de Culloden. Fechou os olhos. Depois voltou a abrir com um sorriso cansado.- Bem. Que Deus 
abenoe o reverendo Archie Campbell. Durante a rebelio ouvi mencioar seu nome um par de vezes. Diziam que era um soldado audaz e valente. Suponho que agora necessita 
ser assim, coitado.
- Bem, h muito que fazer antes da viagem. Ouve, Ian: em cima, da mesa, encontrars uma lista dos clientes da imprensa. Trata de marcar os que ainda tem pedidos 
pendentes.
Deve ir ve-los, um por um, e oferecer a devoluo do dinheiro. A menos que prefira esperar que eu consiga outro local e termine de instalar, mas adverte que pode 
demorar at dois meses.
Deu uma palmada em seu casaco, onde ele saiu rapidinho.
- Por sorte, o dinheiro do seguro servir para pagar as contas com os clientes. Ainda sobrar um pouco. A propsito... - Se voltou at mim com um sorriso - Teu trabalho, 
Sassenach, ser conseguir uma costureira que te arranje um vestido decente em dois dias. Suponho que Daphne vai querer o vestido de volta. E no posso levar-te nua 
a Lallybroch.


CAPTULO 30
                               O ENCONTRO

Durante a viagem ao norte, rumo a Arbroath, o principal entreternimento foi observar o conflito de vontades entre Jamie e o jovem Ian. Sabia por experiencia propria 
que a teimosia era um dos componentes fundamentais do carater dos Fraser; ao que parecia, os Murray tambm no ficavam atras, a menos que fossem os genes Fraser 
os que predominaram.
Esta luta entre eles se prolongou por bastante tempo, at chegarmos a Arbroath, no anoitecer do quarto dia; ali descobrimos que a pousada onde Jamie pensava em me 
deixar junto com Ian, no existia mais. S restara um muro semi destruido e uma das vigas chamuscadas; ainda mais, o caminho estava deserto em vrios quilometros 
pela redondeza.
Jamie ficou em silncio, contemplando as montanhas de pedra. Era obvio que no podia nos deixar num lugar lamacento e deserto. O garoto teve a prudencia de ficar 
em silncio, mesmo que sua raquitica estrutura vibrasse de ansiedade.
- Est bem -disse Jamie, por fim, resignado- Podem vir. Mas somente at a beira ingreme Ian, me entendeu? E cuida da sua tia.
- Entendi, tio Jamie -respondeu o jovem Ian com falsa bravura. Mas captei o olhar irnico de Jamie e compreendi que, se Ian devia cuidar de sua tia, a sua tia tambm 
deveria cuidar de Ian. Dissimulei um sorriso com um gesto de acanhamento. O resto dos homens chegaram a tempo ao lugar do Encontro. Justamente depois de escurecer. 
Entre eles se encontrava uma silhueta inconfundivel. Como condutor de uma grande carreta puxada por mulas, vinha Fergus junto a um pequeno elemento; s poda ser 
o senhor Willoughby, a quem eu no via desde que atirara  no homem misterioso, na escada do bordel.
- Espero que nesta noite no venha  armado - murmurei Jamie.
- Quem? -perguntou olhando na penumbra - Ah, o chins? No, ningum est armado.
Antes que eu pudesse perguntar por que, ele se adiantou para ajudar a colocar a carreta na posio correta, apontada para a fuga. O jovem Ian se adiantou com passos 
decididos. Eu o segui, atenta a minha misso de custodia.
O senhor Willoughby se ps na ponta dos ps para tirar, da parte traseira da carreta, uma lamparina de aspecto estranho; coberta por cima por uma pea de metal perfurado 
e com os lados tambm de metal.
-  uma lmpada para fazer sinais? -perguntei fascinada.
  -Exatamente -confirmou o menino com ar de importncia- Tem que manter os lados fechados para que se veja o sinal no mar. Deixa comigo. Eu me encarrego disso. Conheo 
o sinal.
   O senhor Willoughby se limitou a menear a cabea, pondo a lamparina fora de seu alcance.
    -Alto demais, jovem demais -declarou- Disse Tsei-mi.
    -O que? - O jovem Ian estava indignado- O que significa isso de alto demais e jovem demais, pedao de...?
    -Significa -Esclareceu uma voz serena a nossas costas - que quem sustenta oferecer um bom alvo se tivermos visitas. O senhor Willoughby tem a gentileza de assumir 
o risco por que  o mais baixo de todos. Voc  bastante alto para se destacar abaixo do cu, pequeno Ian, e bastante jovem para no ver nenhum mal nisso. Deixa 
de estorvar, quer?
    O senhor Willoughby abriu a lamparina. Se ouviu um estalido agudo, que se repitiu duas vezes e distingui o crepitar de uma pedra.
  Aquele lado da costa era pedregoso e rustico, como quase toda a costa Escocia. Me perguntei como e onde poderia ancorar o barco francs, j que no havia uma enseada 
natural.
  Outra silhueta negra se ergueu subitamente do meu lado.
   -Tudo preparado, senhor -disse em voz baixa- Em cima, nas rochas.
   -Bom, Joey. -Um sbito fulgor iluminou o perfil de Jamie, concentrado no pavio recm acendido. Contendo o folego, para que a chama crescesse e se estabilizasse. 
Logo fechou suavemente o lado metalico soltando um suspiro.
   -Bom -repitiu levantando-se. Deu uma espiada na costa sul, observando as estrelas- So quase nove. No tardaro. Lembre-se, Joey: que ninguem se mova at que 
eu d a ordem. Entendido?
    -Sim, senhor.
    -Tenha certeza -insistiu Jamie- Repita isso a todos: que ningum se mova at que eu ordene.
    -Sim, senhor -repetiu Joey, desta vez com mais respeito.
    E desapareceu na noite sem fazer rudos.
- Aconteceu alguma coisa? -perguntei com voz audivel apenas sobre o rumor das ondas.
    Jamie mexeu a cabea. O que havia dito a Ian era certo: sua propria silhueta se destacava nitidamente abaixo do cu plido.
    -No sei -vacilou por um momento- Oua, Sassenach, sente algo?
    Respirei fundo, surpresa.
    -Nada estranho, que eu saiba. E voc?
    Os ombros da silhueta se levantaram e voltaram a descer.
    -Agora no, mas por um  momento havia jurado que sentia cheiro de plvora.
    -Eu no sinto nada -disse o sobrinho com a voz alterada pela excitao. Apressou-se em pigarrear assustado - Willie MacLeod y Alec Hays revisaram as pedras. 
No encontraram sinais da polcia.
    -Melhor assim. - A voz de Jamie soava intranqila. Disse ao jovem Ian por um ombro - Agora se encarregue de sua tia, Ian. Vo os dois por essas matas de aliagas; 
se mantenham bem longe da carroa. Se acontecer alguma coisa, Ian, leva a sua tia diretamente para casa, para Lallybroch. Imediatamente.
 - Mas... -protestei.
 - Tio! - disse o jovem Ian.
 -Obedea -ordenou Jamie em tom severo.
    Nos voltou as costas, dando a discusso por encerrada.
    O jovem Ian permaneceu contrariado, mas fez o que lhe havia sido ordenado. Nos instalamos em uma pequena colina.
    -Daqui se v a agua -sussurrou desnecessariamente.
    Serrei os olhos, tratando de localizar o senhor Willoughby e a sua lmpada, mas no vi luz alguma. Supus que a estivesse ocultando com seu prprio corpo.
    De repente o jovem Ian ficou rgido. 
    - Vem vindo algum! -susurrou- Rpido, esconda-se atrs de mim.
    E se plantou intrpidamente a minha frente, colocando uma mo embaixo da camisa para sacar uma pistola. Apesar da escurido, vi um vago esplendor das estrelas 
no cano da arma.
    - No dispare, por Deus! - Lhe sussurrei sem atrever-me a segurar ou toc-lo por medo de que disparasse.
    - Agradeceria se voc obedecesse a sua tia, Ian - respondeu a suave e irnica voz de Jamie por debaixo da costa - No quero que me voe a cabea.
Ian abaixou a pistola, encolhendo os ombros com um suspiro que podia ser de alivio ou decepo. As aliagas estremeceram-se; em instantes Jamie estava conosco, arrancando 
ortigas da manga.
    - Ninguem lhe disse que no devia vir armado? - Jamie falava com calma-. Apontar uma arma para um funcionario da Alfandega Real  um delito que se castiga com 
a forca -me explicou- Nenhum dos homens est armado, nem sequer com uma faca de pescador, se defendem no brao.
    -Bem, Fergus me disse que no me enforcariam, pois ainda no tenho barba -explicou Ian incomodado- Disse que s me deportariam.
    Jamie ofegou com os dentes apertados, em um gesto de exasperao.
    -Oh, claro. suponho que para sua me seria um grande prazer saber que te deportaram para as colonias, no caso de Fergus ter razo! - Estendeu a mo - D-me isso, 
tonto.
    Rodou a pistola nas mos.
    -Onde adquiriu-a? Est carregada. E me parecia que havia sentido a polvora. Tem sorte de eu no ter percebido essa arma ou te arrancaria os ovos pelas calas.
    Antes de que o  jovem Ian pudesse responder, havia um sinal no mar:
    -Olhe!
O barco frances era pouco mais que uma mancha sobre a gua. jamie no prestava ateno; ele olhava para baixo. Seguindo a direo de seus olhos destingui um pequeno 
ponto luminoso: o senhor Willoughby com a lanterna.
Houve um breve lampejo de luz, que cintilou nas rochas molhadas antes de desaparecer. A mo de Ian estava tensa em meu brao. Esperamos trinta segundos, contendo 
o ar. Outro lampejo iluminou a espuma.
- O que  isso? - perguntei
- O que? - Jamie olhava agora at ao barco.
- Na costa; quando se acendeu a luz me pareceu ver algo semi enterrado na areia.
Parecia...
Se produziu um terceiro lampejo. Um momento depois, o veculo acendeu uma luz como resposta: uma lamparina azul, um vulto misterioso pendurado num mastro grande, 
que se duplicava sobre a gua escura.
- A mar est subindo - me sussurou Jamie ao ouvido - As ancaras flutuam; a corrente ir trazer at a costa em poucos minutos.
Isso resolvia o problema da ancoragem: no necessitava amarrar o barco. Mas como se efetuaria o pagamento? Antes de formular a pergunta ouvi um grito inesperado. 
Embaixo estalou um verdadeiro inferno.
De imediato, Jamie abriu o passo por entre as matas de aliagas, seguido prximo por Ian e por mim. Era pouco o que se podia ver com claridade, mas na praia reinava 
o caos. Havia silhuetas escuras rodando sobre a areia, acompanhadas de gritos. Destingui as palavras: <<Alto, em nome do rei>>, que me congelou o sangue.
- Policiais! - O jovem Ian tambm havia ouvido.
Jamie disse um palavro em galico. Logo deixou a cabea para trs e gritou algo. Sua voz soou com claridade na praia.
-irich 'illean! -aull- Suas am bearrach is teich! -Logo se voltou para ns - Saem daqu!
Da praia surgiu um grito agudo, tanto que impos os outros ruidos.
- Esse  Willoughby! -exclamou Ian - O pegaram!
Sem prestar ateno ao Jamie, que nos ordenava fugir, ns dois nos adiantamos para espiar entre as aliagas. Havia figuras negras bamboleando e lutando entre a pilha 
de algas. O brilho difuso da lanterna bastava para mostrar as silhuetas entrecruzadas; a mais pequena esperneava desesperadamente enquanto o sustentavam inquieto.
- Irei busc-lo! - Ian se lanou adiante, at que Jamie o segurou pela gola da camisa.
- Faa o que eu te disse! Leve a minha esposa onde no corra perigo!
O jovem Ian se voltou para mim, ofegante, mas eu no pensava ir a nenhuma parte; estagnei os ps na terra, resistindo aos seus puxes. Jamie, sem prestarnos mais 
ateno, correu para longe do escarpado e se deteve a varios metros. Vi claramente sua figura recortada abaixo do cu; logo cravou um joelho na terra para afirmar 
a pistola no antebrao, apontando para baixo.
O ruido do disparo se perdeu no meio do tumulto. No obstante, o resultado foi espetacular. A lanterna estalou  com uma chuva de azeite ardente, que escureceu subitamente 
a praia e calou os gritos.
Uns segundos depois,o silencio se quebrou com um uivo de dor e indignao. Meus olhos, momentaneamente cegados pelo lampejo da lanterna, se adaptaram rapidamente. 
Ento vi outro briho: a luz de varias chamas pequenas que pareciam subir e baixar erraticamente. Surgiam da manga de um homem, que saltava gritando e golpeando inutilmente 
o fogo iniciado em suas roupas pelo azeite inflamado.
As matas de aliagas se sacudiram violentamente Jamie se jogou ladeira abaixo, desaparecendo de meus olhos.
- Jamie!
Incentivado pelo meu grito, o jovem Ian se atirou em mim com mais fora e me afastou do escarpado quase a rastras.
- Vamos tia! Em um momento estaro aqui!
Era certo, j se ouviam as vozes que se aproximavam pela praia; Os homens comearam a se pendurar pelas rochas. Levantei a minha saia e comecei a correr, seguindo 
o menino to depressa como pude entre as duras ervas do escarpado.
Ignorava onde amos, mas o jovem Ian parecia saber.
- Onde estamos? - ofeguei quando diminuimos a marcha, na beira de um rio.
- Ali adiante est o caminho de Arbroath - explicou. Respirava com dificuldade e tinha uma mancha de lodo na camisa. - Em seguida a trilha ser mais fcil. Est 
bem, tia? Quer que te leve nos braos?
Recusei cortesmente seu galante oferecimento, sabendo que pesava tanto como ele. Depois de tirar os sapatos e as meias, cruzei o rio, afundada na gua at os joelhos; 
o lodo gelado me escorria entre os dedos dos ps. Ao sair, tremendo espasmodicamente, aceitei o casaco que Ian me ofereceu.
Excitado como estava no o necessitava. Saimos do caminho, ofegantes e com o vento frio surrando nosso rosto.
- Algum sinal no escarpado? - perguntou um grave voz masculina.
Ian se deteve to bruscamente que me choquei contra ele.
- Ainda no - foi a resposta - Eu acho que ouvi alguns gritos por aquele lado, mas logo mudou o vento.
- Bom, sobe outra vez a rvore idiota - disse a primeira voz com impaciencia- Se esses filhos da puta escaparem da praia ns pegaremos eles aqui.  melhor que a 
recompensa seja para ns e no para esses vermes da costa.
- Faz frio - disse a segunda voz - Aqui, o campo  aberto, o vento te roe os ossos. Oxal se tivessemos pego o planto na abadia. Ao menos ali estariamos abrigados.
O jovem Ian estava me apertando o brao com tanta fora que ia me deixar hematomas. Tentei tirar para me libertar, mas ele no prestou ateno.
- Sim, mas teriamos menos possibilidades de pegar o tubaro - replicou a primeira voz - Ah, o que eu no faria com cinquenta libras!
- Est bem - disse a segunda voz resignada - Mas no sei como vamos ver seu cabelo ruivo nesse escuro.
- Basta derrub-lo, Oakie; depois teremos tempo de mirar sua cabea.
Por fim meus puxes conseguiu tirar de seu transe o jovem Ian, que me seguiu at a beirada do caminho, entre o matagal.
- Ao que se referiam com esse planto na abadia? - perguntei quando me pareceu que os guardas no podiam nos ouvir - Sabes algo?
- Creio que sim, tia. Tem que ser a abadia de Arbroath. Esse  o ponto do encontro, no?
- Que ponto de encontro?
- S sei que algo saiu errado - explicou ele. Ento cada um teve que se virar como pde e encontrar com os demais na abadia enquanto espera passar o perigo.
- Bom, as coisas no haviam saido pior - observei - O que foi que gritou teu tio quando apareceu os policiais da Aduana?
- Disse: <<para cima, rapazes! Pelo escarpado e a correr!>>
- Bom conselho - reconheci secamente - Se o seguiram, a maioria deve ter escapado.
- Exceto tio Jamie e o senhor Willoughby. - O jovem Ian passou nervosamente a mo pelo cabelo, fazendo-me pensar em Jamie.
- Sim - respirei fundo - Bom, por agora no h nada que possamos fazer por eles. Os outros, mudaram...se vo at a abadia...
- Sim - me interrompeu - isso  o estou tentando decidir. Devo fazer o que disse tio Jamie e levar-te a Lallybroch? Ou tratar de chegar a abadia para avisar os demais?
- V a abadia - disse - to rpida como podia.
- Bom, mas...No gostou de deixarte aqui sozinha, tia. E tio Jamie disse...
- Ter tempo para obedecer as ordens, jovem Ian, e um tempo para pensar por s mesmo - disse com firmeza ignorando de que, na realidade, era eu quem estava pensando 
por ele - Este caminho leva abadia?
- Sim. Est apenas a dois quilometros - J estava brincando sobre a ponta dos ps, desejoso de partir.
- Bem. Vai para a abadia por um atalho. Eu irei por esse caminho e tratarei de distrais os policiais at que voce tenha passado. Nos entraremos ali! Ah, espera! 
 melhor que ponhas o casaco.
Me desprendi dele de m vontade e alarguei o brao para rete-lo um momento mais.
- Ian?
- Sim?
- Cuidado, est bem?
Seguindo um impulso, me empinei para dar-lhe um beijo na bochecha fria. Arqueou as sombracelhas surpreendido, mas sorriu. Por fim num segundo desapareceu. Uma rama 
de amieiro voltou ao seu lugar detrs dele.
Me perguntava se era melhor fazer ruido. Ao contrrio poderiam atacar-me sem previo aviso posto que os homens, ao ouvir meus passos poderiam tomar-me por uma contrabandista 
em fuga. Por outra parte, se caminha-se tranquilamente e catarolando, para demonstrar que era uma mulher inofensiva, poderiam permanecer ocultos para no denunciar 
a sua presena. E o que eu desejava era, justamente, que denunciassem sua presena. Me inclinei para pegar uma pedra do cho. Logo, sentindo mais frio que nunca, 
sai ao caminho e segui andando sem dizer nada.















CAPTULO 31
Lua de contrabandistas

O vento mantinha as rvores e as matas em constante agitao, dissimulando o rudo de minhas pisadas no caminho... e tambm as de qualquer que pudesse estar me espreitando. 
Essa noite, a quinze dias de Todos os Santos, era uma daquelas em que era fcil acreditar em espritos malignos. 
No foi um esprito o que me agarrou subitamente por trs, segurando uma mo em minha boca. Se no tivesse estado preparada para tal eventualidade teria desmaiado 
de susto. Ainda assim o corao disparou e me sacudi entre os braos de meu captor.
Tinha me agarrado pela esquerda, segurando-me pelo brao contra as costas. Mas tinha o brao direito livre. Finquei-lhe o salto de meu sapato na patela e de imediato, 
aproveitando seu momentneo cambaleio, lancei um golpe para trs, batendo-lhe na cabea com a pedra que levava na mo. 
Foi s um atrito, mas bastante forte para arrancar-lhe um rosnado de surpresa e obrig-lo a afrouxar sua presso. Esperneei e me debati. No momento em que retirava 
a mo de minha boca, finquei-lhe os dentes num dedo com tanta fora como pude.
No sei se meus msculos maxilares tinham tanta fora como dizem os textos de anatomia, mas sem dvida estavam causando efeito. Meu atacante se movia freneticamente 
tratando de liberar o dedo. Assim, foi forado a afrouxar a presso e a baixar-me. Quanto toquei o cho com os ps deixei de mord-lo e lhe apliquei uma boa joelhada 
nos testculos, com toda a potncia que me permitiam as saias. 
Esse tipo de golpe  supervalorizado como mtodo defensivo. Isto : d resultados (espetaculares, por verdadeiro), mas manobrar para olh-lo era mais difcil do 
que se poderia pensar, sobretudo quando se veste saias volumosas. Alm disso, os homens se protegem muito nesses apndices e esto alerta ante qualquer atentado 
que se tente contra eles.
No entanto, neste caso meu atacante estava com a guarda baixa e as pernas bem abertas para no perder o equilbrio; dei-lhe em cheio. Emitiu um horrvel rudo, como 
um coelho estrangulado, enquanto se dobrava em dois. - voce, Sassenach? As palavras foram um sussurro na escurido, a minha esquerda. Pulei como uma gazela assustada, 
lanando um involuntrio alarido. Pela segunda vez, uma mo me fechou a boca. -Por Deus, Sassenach! -murmurou Jamie ao meu ouvido-. Sou eu. - Eu sei -disse entre 
dentes quando me soltou- Mas quem  o que me agarrou? -Fergus, suponho.  voce, Fergus?
Depois de receber uma espcie de rudo estrangulado a modo de resposta, agachou-se para pr em p  segunda silhueta. -No fale! -sussurrei- Um pouco mais adiante 
h polcias. -Jura? -respondeu Jamie com voz normal- No parecem ter muita curiosidade pelo rudo que fizemos. Depois de uma pausa, me ps uma mo no brao e gritou 
para a noite: -MacLeod! Raeburn! -Sim, Roy -respondeu uma voz um pouco irritada entre o matagal- Aqui estamos. Innes tambm. E Meldrum, no?
-Sim, sou eu. Arrastando os ps, falando baixinho, saram outras figuras entre os arbustos. -Quatro, cinco, seis -contou Jamie- Onde esto Hays e os Gordon? -Vi 
que Hays se metia no gua -informou um deles-.Deve de ter dado uma volta. Suponho que os Gordon e Kennedy fizeram o mesmo. No ouvi que os capturassem. -Alegro-me 
-disse Jamie- Bem, Sassenach, o que era isso de uns policiais? J que Oakie e seu colega no apareciam, comeava a sentir-me idiota, mas relatei o que Ian e eu tnhamos 
escutado. -Sim? -Jamie parecia interessado- Pode manter-se em p, Fergus? Sim? Bom moo! Bem, convm ir dar uma olhada. Meldrum, tens slex?
Poucos segundos depois, levando uma pequena tocha que lutava por manter-se acesa, caminhou para baixo at perder-se depois da curva. Os contrabandistas e eu esperamos 
num silncio tenso, prontos para correr ou ir ao seu socorro, mas no tinha rudos de emboscada. Depois de um tempo que nos pareceu eterno, a voz de Jamie veio flutuando 
pelo caminho. 
-Venham -disse com serenidade. Estava no meio do caminho, prximo a um grande amieiro. Por trs de seu ombro esquerdo se via outra cara suspensa no ar, mal iluminada: 
uma cara horrvel, parada, negra  luz da tocha, com os olhos desorbitados e a lngua de fora. O cabelo, loiro como palha seca, agitava-se ao vento. Tive que abafar 
um grito.
-Tinha razo, Sassenach -disse Jamie- Tinha um policial. -Atirou ao solo algo que aterrizou com um rudo seco-Uma credencial. Chamava-se Thomas Oakie. Algum o conhece? 
-Tal como est agora, no -murmurou uma voz a minhas costas- Nem sua prpria me o reconheceria! Teve um murmrio geral de negativas e um nervoso arrastar de ps. 
Pelo visto, todos tinham tantas vontades como eu de abandonar aquele lugar. -Jess! -murmurou Fergus contemplando o enforcado-Quem ter feito isso? -Eu fiz... Ao 
menos, isso  o que se dir, no? -Jamie deu uma olhada para cima- No vamos perder mais tempo. -E Ian? -perguntei recordando subitamente do moo- Foi  abadia para 
nos pr sobre aviso. -Ah, sim? -A voz de Jamie se tornou mais spera- Venho de l e no me cruzei com ele. Por onde foi, Sassenach? -Por ali -apontei. Fergus emitiu 
um bufo que pde ter parecido uma risada.
-A abadia est em direo contrria -explicou Jamie divertido- Vamos. O atingiremos quando se der conta do erro e inicie o regresso. -Esperem a -pediu Fergus levantando 
uma mo. Entre o matagal se ouviu um cauteloso murmrio de folhas; depois, a voz do jovem Ian: -Tio Jamie? -Sim, Ian -disse o tio secamente- Sou eu. -Vi a luz e 
regressei para ver se tia Claire estava bem. No deves estar aqui com essa tocha, tio. H polcias na rea! Jamie lhe rodeou os ombros com um brao para dar-lhe 
a volta antes que pudesse ver o corpo do enforcado no cho. -No se preocupe, Ian -disse sem alterar-se- J se foram. E passou a tocha pela erva molhada, onde se 
extinguiu o fogo com um sussurro. -Vamos -disse serenamente na escurido- O senhor Willoughby est logo ali, com os cavalos. Ao amanhecer estaremos nas Terras Altas.















STIMA PARTE
De novo em casa

CAPTULO 32
O regresso do filho prdigo

 Foram quatro dias de viagem a cavalo, entre Arbroath e Lallybroch, nos quais as conversas foram escassas. Tanto o jovem Ian como Jamie estavam preocupados, provavelmente 
por diferentes motivos. Por minha parte, no deixava de preocupar-me, no s pelo passado recente, seno pelo futuro imediato. Jenny devia de estar informada por 
Ian de meu regresso. Como tomaria minha reapario? 
Jenny Murray era o mais parecido de uma irm do que eu tivesse tido e, sem dvida, a amiga mais ntima. Mas o mais importante era saber de que s Jenny amava a Jamie 
Fraser tanto ou mais do que eu. Estava desejosa de voltar a v-la outra vez, mas no podia deixar de perguntar-me como teria levado essa histria de minha suposta 
fuga a Frana, abandonando o seu irmo.
O caminho era to estreito que os cavalos deviam andar um por trs do outro. De repente Jamie deteve o seu e se desviou para um claro, meio escondido pelos ramos 
do amieiro. Na margem tinha um barranco de pedra cinza. O jovem Ian desmontou de seu pnei com um suspiro de alvio; montvamos desde o amanhecer. 
-Ufa! -disse esfregando o traseiro sem disfarce- Tenho todo o corpo dormente.
-Eu tambm -confessei imitando-o- Mas suponho que sero piores as chagas. 
-Como faz tio Jamie para agentar? Deve de ter o traseiro de couro. 
-Pelo que eu vi no -repliquei distrada- Onde ele foi? 
O cavalo de Jamie mordiscava a erva atado sob um carvalho, a um lado do claro, mas dele no tinha sinais.
Ian e eu nos olhamos sem compreender; encolhendo os ombros, aproximei-me do barranco, por onde corria um fio de gua. Fiz uma concha com as mos para beber com gratido 
o lquido frio, apesar do ar outonal que me enrijecia as bochechas. Quando voltei as costas ao barranco, com a sede j saciada, deparei-me com Jamie, que tinha aparecido 
ali como por arte de magia. Estava guardando uma caixa de fsforos no bolso do casaco e trazia na roupa um vago cheiro a fumaa. Deixou cair um palito queimado  
erva e o fez p com o p. 
-De onde veio? -perguntei piscando- Onde tinhas se metido? 
-Ali h uma pequena gruta -explicou assinalando para trs com o polegar-S queria ver se algum tinha estado ali. 
- E...?
- Sim, teve algum. -Tinha o cenho franzido mas no com ar de preocupao, seno como se estivesse matutando- Encontrei carvo misturado com a terra; algum tinha 
acendido fogo ali dentro. 
-Quem pode ter sido? -perguntei colocando a cabea pelo saliente que ocultava a boca da gruta. S vi uma estreita faixa de escurido, uma greta na face da montanha. 
Pareceu-me muito pouco acolhedora. Algum contrabandista conhecido seu podia t-lo seguido desde a costa? Estaria preocupado pela possibilidade de uma perseguio 
ou uma emboscada? Dei uma olhada acima do ombro mas no tinha outra coisa que as amieiras com as folhas secas sussurrando sob o vento outonal. 
-No sei -disse- Um caador, suponho. Encontrei tambm ossos de aves silvestres. -No parecia preocupar-se pela identidade do desconhecido. O jovem Ian, fascinado 
pela gruta invisvel, tinha desaparecido atravs da greta. Por fim saiu, tirando uma teia de aranha do cabelo. 
- como a "Gruta de Cluny", tio? -perguntou com os olhos reluzentes.
-No to grande, Ian -respondeu Jamie com um sorriso- O pobre Cluny no poderia passar por esta entrada. Era um homem muito grande e gordo; dobrava-me em largura.
-O que  a Gruta de Cluny? -perguntei. 
-Trata-se de Cluny MacPherson -explicou Jamie inclinando a cabea para salpicar-se a cara com gua gelada- Um homem muito engenhoso. Os ingleses queimaram sua casa 
e derrubaram os alicerces, mas ele escapou. Construiu um pequeno esconderijo numa caverna prxima e fechou a entrada com ramos de salgueiro entretecidas e enganchadas 
com barro. Dizem que a um metro de distncia no se tinha nem idia de que a gruta estivesse ali, a no ser pelo cheiro de seu cachimbo. 
-O prncipe Carlos tambm esteve um tempo ali, quando os ingleses o perseguiram -me informou o jovem Ian
- Cluny o escondeu vrios dias. -Vem se lavar, Ian -ordenou o tio com um jeito de aspereza- No podes apresentar-se ante seus pais coberto de sebo.
Ian obedeceu com um suspiro. No se podia dizer que estivesse coberto de sebo mas tinha na cara as impresses inegveis da viagem. Voltei-me para Jamie, que contemplava 
o banho de seu sobrinho com ar distrado. 
- O  que voce contou sobre ele a teus sobrinhos? -perguntei baixinho- Sobre Carlos. Jamie me lanou um olhar penetrante. -Nunca falei dele -disse. 
E se voltou para os cavalos. Trs horas depois deixamos para trs os ltimos desfiladeiros ventosos e nos encontramos na pendente final que descia para Lallybroch. 
Jamie, que ia  vanguarda, freou seu cavalo para esperar que Ian e eu o atingssemos. 
-A est -disse sorrindo- Muito mudada, no?
Mexi a cabea embelezada. Mesmo de longe a casa parecia no ter sofrido nenhuma mudana. No entanto, ao olhar melhor vi que as construes exteriores estavam um 
pouco alteradas. Jamie tinha me contado que, no ano seguinte a Culloden, os soldados ingleses tinham queimado o pombal e a capela; detectei os espaos vazios onde 
se tinham antes. Uma parte do muro se tinha derrubado e estava reconstrudo com pedra de diferente cor; tambm vi um beiral novo que, obviamente, cumpria funes 
de pombal. De uma chamin, para o oeste, elevava-se um caracol de fumaa, levado para o sul pelo vento do mar. Subitamente imaginei o fogo aceso no lar da sala, 
refletindo-se na cara de Jenny, que lia em voz alta uma novela ou um livro de poesia enquanto Jamie e Ian, absortos numa partida de xadrez, meio que a escutavam.
-Crs que voltaremos a viver aqui? -perguntei a Jamie cuidando de que minha voz no expressasse nostalgia. 
-No te posso dizer, Sassenach -respondeu ele- Seria grato, mas... no sei como estaro as coisas, compreende? -Contemplava a casa com uma pequena ruga na testa. 
-No importa. Se vivermos em Edimburgo... ou na Frana, ser para mim igual, Jamie. -toquei-lhe a mo para reconfort-lo - Enquanto estivermos juntos. 
Sua expresso vagamente preocupada desapareceu um momento. Tomou-me a mo para levar aos seus lbios.
 -A mim tambm no me importa muito, Sassenach, enquanto eu tenha voce comigo. Olhamo-nos aos olhos at que uma tosse forada nos anunciou a presena de Ian. Jamie, 
com um dilatado sorriso, soltou-me a mo para voltar-se para seu sobrinho. 
- Logo estaremos chegamos, Ian -disse enquanto o moo freava o pnei junto a ns
- Se no chover estaremos l muito antes do jantar.
 -Hum... -O jovenzinho no parecia alegrar-se muito pela perspectiva. Dirigi-lhe um olhar solidrio.
-O lar  o lugar onde, quando deves voltar, esto obrigados a te receber -citei. 
O jovem Ian me lanou uma olhada astuta. 
-Sim, isso  o que temo, tia. 
-No te aflijas, Ian. Lembras da parbola do filho prdigo? Tua me se alegrar ao ver-te so e salvo. O jovem Ian lhe direcionou um olhar de profunda desiluso. 
-Se crs que  um bezerro gordo o que vo matar, tio Jamie, no conheces a minha me. Mordiscou o lbio inferior e se ergueu na cadeira com um profundo suspiro. 
-Ser melhor terminar de uma vez, no? -disse.
Enquanto ele descia cautelosamente a encosta pedregosa, perguntei a Jamie: 
-Acha que seus pais sero muito duros com ele? 
Meu esposo se encolheu de ombros.
-Bem, estou seguro que o perdoaro, mas antes lhe aoitaram bem o traseiro. Posso dar-me por afortunado se no fizerem o mesmo comigo -adicionou com ironia. Fincou 
as esporas a seu arreio descendo encosta abaixo. 
-Vamos, Sassenach.  melhor acabar de uma vez, no? 
No sabia que classe de recepo me esperava em Lallybroch, mas era tranqilizadora. O jovem Ian deixou cair as rdeas e desmontou entre um mar de cachorros que 
saltavam ao seu arredor e lhe lambiam a cara. Depois se aproximou, trazendo-me nos braos um cachorro. 
- Este  Jocky -anunciou mostrando no alto o cachorro pardo e branco
-  meu. Papai me presenteou. 
-Bonito cozinho - eu disse coando suas orelhas cadas.
-Ests te enchendo de pelos, Ian -assinalou uma voz clara e aguda com marcado tom de reprovao. Era uma moa alta e delgada, de uns dezessete anos, sentada  margem 
do caminho. 
-Bem, e voce est se cobrindo de carrapichos -replicou o jovem Ian, voltando-se bruscamente para ela. A garota agitou um monto de cachos castanhos e sacudiu a saia, 
que realmente estava cheia. 
-Papai diz que no mereces ter um cachorro -comentou- Para que fugir e deix-lo assim! 
Ele se ps  defensiva. 
-Queria levar-te -disse com voz insegura-, mas me pareceu que na cidade no estaria seguro. 
-Venha nos saudar, pequena Janet, seja boazinha -disse Jamie com simpatia, mas tambm com uma observao cnica que a fez ruborizar. 
-Tio Jamie! Ah, e tambm... -Desviou os olhos para mim.
-Sim, ela  tua tia Claire. A pequena Janet ainda no tinha nascido na ltima vez que vieste, Sassenach. -Depois se dirigindo a Janet- Suponho que tua me est em 
casa. 
A moa assentiu sem afastar os olhos fascinados de meu rosto.
 -Encantada de conhecer-te -saudei. Olhou-me fixamente um momento mais e, recordando subitamente os bons modos, dobrou os joelhos numa reverncia e me estreitou 
a mo com cautela, como temerosa de que eu me transformasse em fumaa entre seus dedos. Pareceu tranqilizar-se ao descobrir que eu era de carne e osso.
 -... um prazer, senhora-murmurou. 
-Mame e papai esto muito aborrecidos, Jen? -O jovem Ian depositou suavemente o cachorro no cho. 
-E como quer que estejam, idiota? Mame temia que tivesse esbarrado no bosque com algum javali ou que os ciganos te tivessem seqestrado. No pde dormir at que 
averiguaram aonde tinhas ido.
Ian apertou os lbios, baixando os olhos ao cho. 
-Ests horroroso, Ian. Dormiste vestido? -Com certeza -replicou impaciente- Talvez pensas que fugir com uma camisa de dormir e que a vestia todos os dias para dormir 
a todo o tempo?
 Janet riu. 
A expresso incomodada do moo se aliviou um pouco. 
-Oh, bom, venham -disse ela compadecida- Acompanha-me ao tanque, para ver se podemos te escovar e te pentear antes de que papai e mame te vejam.
 -Por que a todos parece que estar limpo servir de algo? -disse Ian. 
Jamie desmontou, muito sorridente. 
-Ao menos no piorar as coisas, Ian. V com tua irm.  melhor que teus pais no tenham que enfrentar muitas coisas ao mesmo tempo. E antes de mais nada vo querer 
ver a tua tia. 
-Hum... -Com um gesto de consentimento, o garoto marchou de m vontade para a parte do fundo da casa, seguido por sua decidida irm.
- O que comeu? -ouvi-a perguntar- Tens uma grande mancha de sebo ao redor da boca. - No  sebo,  barba! -respondeu  furioso. 
- Barba? -exclamou ela incrdula- Voce? 
- Vamos! -Levando-a pelo cotovelo, o jovem Ian a levou para o ptio, com os ombros curvados pela timidez. Jamie apoiou a cabea em minha coxa, escondendo a cara 
em minhas saias, com os ombros estremecidos por uma gargalhada muda. 
-No h problema, j se foram -disse meio sufocada pelo esforo de conter o riso. 
Jamie levantou a cara avermelhada. 
-"Barba? Voce?" -grasnou imitando a sua sobrinha-. Igualzinha   sua me, Deus meu! Isso foi justamente o que me disse Jenny, com a mesma voz, quando me surpreendeu 
barbeando-me pela primeira vez. Estive a ponto de cortar o pescoo. 
- Queres ir barbear-te antes de saudar a Jenny e Ian? -perguntei. 
Ele meneou a cabea. -No -disse alisando-se o cabelo para trs - O jovem Ian tem razo: a limpeza no servir de nada.
Provavelmente tinham ouvido aos cachorros. Ao entrar encontramos a Ian e Jenny na sala: ela, no sof, tecendo meias de l; ele, em p ante o fogo, esquentando a 
perna. Tinha uma bandeja de bolos e uma garrafa de cerveja caseira, obviamente preparada para receber-nos. Era uma cena muito acolhedora, que me apagou o cansao 
da viagem. Ian se voltou de imediato para ns, sorrindo com timidez. Mas era Jenny a que me interessava. Ela tambm estava me olhando, imvel no sof, com os olhos 
dilatados. Minha primeira impresso foi que tinha mudado muito; a segunda, que no tinha mudado em nada.
Ian, ao ver-me pela primeira vez no bordel, tinha agido como se eu fosse um fantasma. Jenny fez mais ou menos o mesmo. Piscando com a boca entreaberta, viu-me aproximar-me 
sem mudar de expresso. Jamie me seguia segurando-me pelo cotovelo. 
-Chegamos, Jenny -disse apoiando uma mo reconfortante nas costas. Olhou ao seu irmo e depois se virou para observar-me.
 - mesmo voc, Claire? -Sua voz era suave e vacilante. Ainda que familiar, no parecia a voz forte da mulher que eu recordava.
 -Sou eu, sim. -Alonguei-lhe as mos com um sorriso- Alegro-me de voltar a ver-te, Jenny. 
Pegou-me as mos com dedos ligeiros. Depois me as estreitou. 
- Por Deus, claro que  voce! -sussurrou enquanto se levantava ligeiramente sufocada. De repente revi a Jenny que conhecia: com seus vivos olhos azul escuro, vistoriando 
minha cara com curiosidade.
-Claro que  ela -grunhiu Jamie- Ian j deve ter-te contado. Ou achou que ele tinha mentido? 
-Mal mudaste -comentou ela sem prestar ateno ao seu irmo- Tens o cabelo um pouco mais claro, mas ests igual. 
Meus olhos se encheram de lgrimas. Ela, ao not-lo, abraou-me com fora, apoiando seu cabelo suave em meu rosto. Depois de um momento me soltou para dar um passo 
atrs, quase rindo. 
- Por Deus, at seu cheiro  o mesmo! -exclamou. 
Eu tambm estourei em risos. Ian, que tinha se aproximado, inclinou-se para abraar-me com suavidade. 
- uma alegria voltar a ver-te, Claire. -Seus suaves olhos pardos me sorriam; a sensao de boas vindas se acentuou - Quer comer algo? -convidou assinalando a bandeja. 
Eu vacilei um momento mas Jamie avanou com celeridade.
-No me viria mal um trago, Ian. obrigado. - Quer que te sirva algo, Claire? 
Encheram os copos, passaram os bolos e nos sentamos ao redor do fogo, murmurando elogios com a boca cheia. Jamie, sentado junto a mim na poltrona de carvalho, mal 
provou sua cerveja e deixou o bolo de aveia inteira sobre o joelho. Pelo visto, no tinha aceitado o lanche por fome, seno para disfarar que nem sua irm nem seu 
cunhado o tinham recebido com um abrao cordial. Surpreendi um rpido cruzamento de olhos entre os esposos; depois Jenny olhou para Jamie dessa vez de forma demorada 
e insondvel. A conversa, o pouca que tinha, foi morrendo at deixar no quarto um silncio incmodo.
- Como esto teus filhos? -perguntei a Jenny para romper o silncio. 
Ao ver que dava um soluo compreendi que, inadvertidamente, tinha feito a pergunta menos adequada.
-Oh, bastante bem -replicou com ar vacilante- Todos muito bonitos. E os netos tambm -adicionou com um sbito sorriso ao pensar neles. 
-Quase todos esto na casa do jovem Jamie -interveio Ian como resposta a minha verdadeira pergunta- A semana passada sua esposa teve outro filho, assim as trs meninas 
foram ajudar um pouco. E Michael foi a Inverness procurar algumas coisas que vm da Frana. 
Teve outra troca de olhares, desta vez entre Ian e Jamie. Detectei uma leve inclinao de cabea por parte de meu esposo e algo em Ian que no chegou a ser um gesto 
afirmativo. "Que diabos passa aqui?", perguntei-me.
Jamie pigarreou, olhando diretamente ao seu cunhado, e abordou o ponto principal da agenda: 
-Trouxemos o garoto.
Ian respirou fundo; sua cara longa e singela se endureceu um pouco. 
-Ser? Senti que Jamie, ao meu lado, ficou um pouco tenso, preparando-se para defender o seu sobrinho como pudesse.
 - um bom moo Ian. 
-Ser? - Desta vez foi Jenny quem o disse enrugando suas finas sobrancelhas negras- Pelo modo em que age em casa, ningum o diria. Mas talvez contigo se comporte 
de outro modo, Jamie. Em suas palavras tinha uma forte nota de acusao. 
-Agradeo-te que defendas ao garoto, Jamie -interveio Ian-, mas seria melhor falar com ele. - Est em cima? 
Jamie respondeu sem comprometer-se:
-No tanque, suponho; queria lavar-se um pouco antes de v-los.
No corredor sem tapete ressoou o passo irregular da perna de pau: Ian ia para o tanque. Voltou carrancudo, precedido pelo moo. O filho prdigo estava to apresentvel 
como o permitia o uso de sabo, gua e navalha de barbear.
 -Mame -saudou inclinando torpemente a cabea para sua me.
 -Ian -respondeu ela com suavidade. 
O tom gentil fez que o moo levantasse os olhos, claramente surpreso. Olhou-o com um leve sorriso
- Alegro-me de ter-te em casa, so e salvo, mo chridhe. 
A expresso do garoto se despejou como se lhe tivessem lido o indulto frente ao peloto de fuzilamento. Depois deu uma olhada ao seu pai e se ps rgido, engolindo 
saliva com fora. - Hum! -pigarreou Ian com ar de escocs severo-Bem, quero escutar tuas explicaes, jovenzinho.
-Oh, bom... eu... -O jovem Ian emudeceu. Depois fez outra tentativa- Bem... no h nenhuma, pai. 
- Olha-me! -O filho levantou a cabea de m vontade, escapulindo do olhar- Sabes o que lhe fizeste a tua me? Desaparecer assim, sem dizer uma palavra, sem que tivssemos 
notcias suas durante trs dias, at que Joe Fraser nos trouxe tua carta! Imaginas sequer o que foram para ela esses trs dias, pensando que podias estar ferido 
ou morto? 
A expresso de Ian (ou suas palavras) pareceram causar um forte efeito em seu filho, que fincou o olhar ao cho. 
-Bem, no pensei que Joe demoraria tanto em trazer a carta -murmurou. 
- A carta, sim! -Ian enrijecia cada vez mais- "Fui para Edimburgo", assim, friamente. - Descarregou na mesa um golpe que fez saltar todos- Aqui est! Nada de "com 
vossa permisso" ou "vos enviarei notcias"... ! Nem to sequer "Querida me"!
O garoto levantou bruscamente a cabea, com os olhos brilhantes de irritao. 
- Isso no  verdade! Dizia: "No se preocupem  por mim" e "Abraos, Ian". -  a verdade! No  verdade, me? -Pela primeira vez olhou a Jenny com gesto implorante. 
Ela estava quieta como uma pedra, com a cara inexpressiva. Naquele momento seus olhos se amaciaram. 
-  verdade, Ian -reconheceu- Foi amvel... mas a verdade  que me preocupei.
- Sinto muito mame -disse o garoto em voz to baixa que mal se ouviu- No... no era minha inteno... -terminou a frase com um pequeno encolhimento de ombros. 
Jenny alongou a mo mas o esposo a olhou nos olhos e a voltou a deixar no regao. Ian pai falou com lentido e preciso. 
-A verdade  que esta no foi a primeira vez, verdade Ian? 
O moo, sem responder, fez um pequeno gesto que podia tomar-se como de consentimento.
-No podes dizer que no sabias o que estavas fazendo, que nunca te explicamos os perigos, que no te tivssemos proibido ir alm de Broch Mordha. Tambm no ignoravas 
que nos preocuparamos, verdade? Sabia tudo isso... e ainda assim foi. Estou falando contigo, filho! Olha-me! 
O garoto levantou lentamente a cabea. Agora estava carrancudo mas resignado; ao que parece j tinha passado por cenas parecidas e sabia como terminavam.
-Nem sequer vou perguntar ao seu tio que estiveste fazendo. S espero que em Edimburgo no se tenhas comportado do mesmo modo que aqui. De todas formas, desobedeceste-me 
e destroaste o corao de tua me. 
Jenny se moveu outra vez como se quisesse falar, mas Ian a calou com um gesto brusco. 
- E o que te disse da ltima vez? Que te disse depois dos castigos? Responde-me, Ian!
O garoto engoliu saliva com dificuldade. 
-Disseste... disseste que a prxima vez me esfolaria vivo. -Terminou a frase com um gemido. 
- Sim. Supus que terias o juizo de cuidar que no tivesse uma prxima vez, mas me equivoquei, no? Estou muito decepcionado contigo, Ian. Essa  a verdade. -Assinalou 
a porta com um menear da cabea-Para fora. Espera-me junto ao porto. 
Os passos arrastados do pecador se perderam pelo corredor, deixando na sala um tenso silncio. 
-Ian -disse Jamie suavemente-, me agradaria que no fizesses isso. 
-Que? -Ian voltou para seu cunhado com a testa enrugada pela ira- Que no o aoite?  isso o que vais dizer? 
Jamie apertou os dentes mas manteve a voz serena. 
-No tenho nada que dizer, Ian.  teu filho e podes fazer o que quiser. Mas no me permitirs explicar o que fez?
- O que fez? -exclamou Jenny voltando subitamente  vida. 
Podia deixar que seu esposo se ocupasse do jovem Ian mas tratando-se de seu irmo ningum falaria por ela
- Escapar no meio da noite como ladres? Tratar com delinqentes e arriscar a pele por um barril de conhaque? 
Ian a fez calar com um gesto rpido.
-Tratar com delinqentes como eu? -perguntou Jamie com voz ofendida- Sabes de onde sai o dinheiro para manter toda esta famlia Jenny? No  dos salmos que imprimo 
em Edimburgo! 
- Acha que no o sei? -lhe espetou ela- Alguma vez te perguntei o que fazias? 
-No, no perguntou. Acho que preferias no saber. Mas sabes, no? 
-E culpas a mim pelo que fazes?  culpa minha ter filhos que precisam comer? 
Jenny no enrijecia como Jamie: quando perdia os estribos se punha branca de fria. Vi que ele se esforava por dominar seu gnio.
-Culpar-te? No, evidente que no. Mas tens direito a culpar-me por Ian e eu no posso manter todos trabalhando nestas terras? 
Jenny tambm estava fazendo um esforo por dominar-se. 
-No -disse- Fazes o que podes, Jamie. Sabes muito bem que no me referia a ti ao falar de delinqentes mas... 
-Ento te referes aos homens que emprego. Eu fao o mesmo que eles, Jenny. Se eles so delinqentes, o que sou eu? 
-Meu irmo -respondeu ela rapidamente-, ainda que as vezes no me convenha muito diz-lo. Maldito sejas, Jamie Fraser! Sabes muito bem que no quero brigar contigo 
pelo que fazes! Se fosses assaltante de caminhos ou dono de prostbulos, seria porque no h outro remdio. Mas nem por isso quero que meu filho participe.
Ante a meno dos prostbulos, Jamie virou os olhos e direcionou  seu cunhado uma rpida olhada de acusao. O outro mexeu a cabea, estupefato pela ferocidade 
de sua esposa. 
-No lhe disse nada -explicou- J sabes como ela . 
Jamie tratou de mostrar-se razovel. 
-Sim, compreendo. Mas bem sabes que no colocaria o teu filho em perigo, Jenny. Por Deus, eu o quero como se fosse meu filho! 
- mesmo? -inquiriu com incredualidade- Por isso o incentivaste a fugir de casa e o guardou contigo sem fazer-nos chegar uma s palavra para tranqilizar-nos? 
Jamie teve a decncia de mostrar-se envergonhado. 
-Bem, sim, sinto muito. Minha inteno era... -Interrompeu-se com um gesto de impacincia- Bem, isso no importa mais. No avisei,  verdade. Mas quanto a incentiv-lo 
para que fugisse...
 -No, no creio que tenhas feito isso -interveio Ian-, ao menos diretamente. Mas esse garoto te adora, Jamie. Vejo como te escuta quando vens de visita. Tua maneira 
de viver lhe parece uma grande aventura, muito diferente a remover esterco para a horta de sua me. Sorriu brevemente contra sua vontade. Jamie imitou seu gesto, 
encolhendo os ombros. 
-Bem,  normal que os garotos dessa idade queiram um pouco de aventura. Ns tambm ramos assim. 
-No importa o que queira -interrompeu Jenny- O tipo de aventuras que pode correr contigo no lhe convm. O bom Deus sabe que a ti te protege algum feitio, Jamie. 
Caso contrrio terias morrido dez ou doze vezes. 
-Suponho que sim. Deus quis proteger-me por alguma razo. -Jamie me olhou com um breve sorriso e me procurou a mo. 
-No sei muito sobre tua forma de vida, mas te conheo e estou segura de que no  o mais conveniente para um menino. 
-Hum... -Jamie esfregou a barba crescida e fez outra tentativa- Bem, isso  o que queria dizer. O jovem Ian se portou como um verdadeiro homem esta semana. No me 
parece bem que o aoite como se fosse uma criana.
Jenny ergueu as sobrancelhas. 
-Assim agora  um homem! Caramba, Jamie,  uma criana de quatorze anos! 
-Aos quatorze eu era um homem, Jenny -corrigiu ele suavemente. 
-Isso era o que voc acreditava. -Levantou-se bruscamente com os olhos midos. - Eras um formoso moo, Jamie, quando partiste com Dougal para a primeira incurso, 
com o punhal na coxa. E tambm recordo como voltaste, imundo de lodo e com um arranho na cara enquanto Dougal se gabava ante papai da coragem que tinhas tido por 
afastar seis vacas sozinho e no proferir uma queixa quando te feriram. Isso  ser um homem? Jamie a encarou com um reflexo de humor. 
-Bem, sim, isso e algo mais, talvez.
- O que mais? -inquiriu ela ainda mais seca- Deitar-se com uma mulher? Matar um homem? 
Sempre pensei que Jenny Fraser tinha um pouco de videncia, sobretudo no que se referia ao seu irmo. E pelo visto, esse talento se estendia ao seu filho. Mexeu lentamente 
a cabea. -No, o pequeno Ian ainda no  um homem. Mas tu sim, Jamie, e conheces muito bem a diferena.
Ian estava contemplando a briga entre os irmos com tanta fascinao como eu. Nesse momento tossiu baixo. 
-Faz uns quinze minutos que o garoto est esperando seus castigos -observou. -Seja ou no conveniente aoit-lo,  um pouco cruel obrig-lo a esperar, no? 
-Tens que fazer, Ian? -Jamie fez o ltimo esforo. -Bem -respondeu o cunhado lentamente, - disse-lhe que vai receber uma surra e ele sabe perfeitamente porque a 
ganhou. No posso voltar atrs. Agora quanto eu fazer... no, no creio. -Abriu uma gaveta do aparador, sacou uma gorda correia de couro e a ps nas mos de Jamie 
- Voc vai fazer .
-Eu?-exclamou Jamie horrorizado.- No posso aoita-lo! 
-Eu creio que sim que podes. -Ian cruzou calmamente os braos.-Passas a vida dizendo que o queres como se fosse teu filho. Bem, Jamie: ser pai desse menino no  
nada fcil.  melhor que o descubras por si mesmo, no? 
Jamie o olhou um longo instante. Depois se voltou para sua irm. Ela ergueu uma sobrancelha sem afastar a vista. 
-Merece tanto como ele, Jamie. V. 
Meu esposo apertou os lbios. Depois girou ao redor e saiu sem falar. Jenny lanou uma rpida olhada a seu esposo; depois olhou a mim. Finalmente se juntou  janela. 
Ian e eu, que ramos bem mais altos, pusemo-nos por trs dela. L fora a luz ia se apagando rapidamente mas ainda dava para ver a figura seca do jovem Ian, recostado 
com tristeza no porto de madeira, a uns vinte metros da casa.
- Tio Jamie! -Seus olhos cairam sobre a correia-  voc quem vai me aoitar? 
- Suponho que sim. -disse ele com franqueza- Mas antes devo pedir-te perdo, Ian. 
- A mim? -O garoto parecia um pouco desconcertado. 
Pelo visto, no era habitual que seus maiores lhe pedissem desculpas, muito menos antes de aoit-lo.
- No tens por que, tio Jamie.          
- Claro que sim. Fiz mal ao permitir que ficasses comigo em Edimburgo. E provavelmente tambm ao contar-te contos e dar-te a idia de escapar. Levei-te a lugares 
onde no deverias ter estado e talvez te pus em perigo. Causei mais preocupaes a teus pais das que voce teria causado sozinho. Por isso te peo que me perdoe, 
Ian.
- Ah... Bem, sim. Claro, tio.
- Obrigado, Ian. 
Ficaram em silncio. Depois o garoto, suspirando, encolheu os ombros. 
-Ser melhor que o faas de uma vez.
-Suponho que sim. -Jamie parecia to arredio ou mais do que seu sobrinho. 
O jovem Ian, resignado, girou para o porto sem vacilar. Jamie o imitou com mais lentido. -Hum... e... teu pai...? 
-Geralmente so dez, tio. -O garoto tinha tirado o casaco e falava acima do ombro-. Doze se me comportei muito mau e quinze se foi algo horrvel. 
- O que me dizes? Se comportaste simplesmente mal ou muito mal? 
O jovenzinho soltou um riso aptico. 
- Para que meu pai te obrigue a fazer isto, tio Jamie, deve de ter sido horrvel, mas me conformo com muito mau. Ser melhor que me d doze. 
Ian pai, ao meu lado, soltou um resflego engraado. 
- O garoto  honrado -murmurou. 
-Bem. -Jamie respirou fundo e jogou o brao para trs mas seu sobrinho o interrompeu. -Espera, tio. Ainda no estou pronto. 
-Oh, no me faas isto! -protestou Jamie.
-Papai diz que s s meninas so aoitadas com as saias postas -explicou- Os homens devem receber o castigo com o traseiro descoberto. 
-E nisso tem muitssima razo -murmurou Jamie obviamente irritado ainda por sua briga com Jenny- Pronto? 
Feitos os necessrios ajustes, o tio deu um passo atrs e alou o brao. Ouviu-se um forte estalo e Jenny fez um gesto de dor e de solidariedade com seu filho. Por 
fim Jamie deixou cair o brao e enxugou a testa. 
-Ests bem, filho? O jovem Ian ergueu as costas com certa dificuldade e subiu as calas. -Sim, tio. Obrigado. -Sua voz soava ligeiramente rouca mas serena. 
Aceitou a mo que Jamie lhe oferecia mas seu tio, em vez de conduzi-lo para a casa, ps-lhe a correia na mo. 
- Agora  a sua vez. -anunciou apoiando-se no porto.
O garoto ficou to impressionado como os que estvamos em casa.
- Que? -exclamou estupefato.
- Agora  a sua vez! -repetiu Jamie com firmeza. - Eu te castiguei. Agora castiga-me. - No posso fazer isso, tio! 
- Claro que podes. -Jamie se incorporou para olh-lo aos olhos- No ouviste o que te disse quando te pedi perdo? Bem, me comportei to mal como voce e eu tambm 
devo pagar. No me agradou te aoitar tambm no te agradar, mas os dois devem cumprir. Entendido? 
-S-s-sim, tio -gaguejou o jovenzinho. 
-Ento vamos! -Jamie baixou as calas e voltou a inclinar-se sobre o porto.
A silhueta delgada se ergueu e a correia assobiou no ar. Ouvimos como Ian filho contava minuciosamente e descia os golpes. Depois do ltimo e ante um suspiro geral 
de alvio dentro da casa, Jamie meteu a camisa dentro das calas e saudou a seu sobrinho com uma formal inclinao de cabea. 
-Obrigado, Ian. -Depois abandonou a formalidade para esfregar o traseiro -Caramba, pequeno brao que tens! 
-Como o teu, tio -disse Ian imitando sua ironia. 
E as duas figuras, j mal visveis, esfregaram-se rindo. Depois Jamie rodeou com um brao os ombros de seu sobrinho e virou para a casa. 
-Se no te incomoda, Ian, preferiria no ter que voltar a passar por isto, ok? -disse em tom confidencial. 
-Trato feito, tio Jamie. 
Por um momento se abriu a porta do corredor. Depois de trocar olhares, Jenny e Ian se voltaram em unssono para saudar aos prdigos.




















CAPTULO 33
Tesouro enterrado


-Pareces um baduno -comentei.
-Sim? E o que  isso? 
Apesar do gelado ar outonal que entrava pela janela semi-aberta, Jamie atirou a camisa sobre o monto de roupa sem nenhuma mostra de incmodo. Depois se espreguiou 
com prazer, completamente nu. 
- Oh, Deus, que gosto no estar em cima do cavalo! 
- Hum... Melhor ainda dormir numa cama para valer, em vez de faz-lo entre brejos molhados. -Girei sobre mim mesma desfrutando os fartos cobertores. 
-  Quer dizer-me o que  um baduno? -perguntou Jamie- Ou o dizias s por gosto?
- Um baduno-expliquei desfrutando do espetculo que me brindava suas costas musculosas enquanto se lavava-  um macaco muito grande com o traseiro vermelho.
Ofegou, rindo.
- Bem, teu poder de observao  impecvel, Sassenach. -E passou cuidadosamente as mos pelo traseiro ainda aceso.- Fazia trinta anos que ningum me aoitava. J 
havia me esquecido 
- Pensar que o jovem Ian te atribua um traseiro to duro como o couro de arreio! -exclamei divertida. -Acha que valeu a pena? 
- Oh, sim -respondeu com despreocupao deslizando-se ao meu lado. 
Seu corpo estava frio e duro como o mrmore. Lancei um grito mas me deixei atrair contra seu peito sem protestar
- Caramba, como ests quentinha. Aproxime-se mais, quer? -Colocou as pernas entre as minhas.-Oh, sei que valeu a pena. Podes desmaiar a golpes a esse garoto, como 
fez seu pai mais de uma vez, e no conseguirs seno fortalecer sua deciso de fugir  primeira oportunidade. Mas por no repetir algo como isto ser capaz de caminhar 
pelas brasas.
Falava com segurana e me pareceu que tinha muita razo. O jovem Ian tinha recebido a absolvio de seus pais sob a forma de um beijo materno e um veloz abrao do 
pai. Depois se retirou  cama com um punhado de bolos, sem dvida para pensar sobre as curiosas conseqncias de desobedecer. Jamie tambm tinha sido absolvido com 
beijos. Suspeitei que isso lhe importava mais do que os efeitos de sua atuao sobre o sobrinho. 
- Ao menos, Jenny e Ian j no esto aborrecidos contigo -observei. 
- No. Em realidade, no creio que estivessem muito.  que no sabiam que fazer com o garoto -explicou. 
- Os Fraser so teimosos, no? -comentei sorrindo.
Riu entre dentes.
 -Isso . O jovem Ian pode parecer-se aos Murray mas  um Fraser feito e direito. E com a teimosia no servem os gritos nem as surras; isso ainda os deixa mais obstinados. 
-O terei em conta -disse.- Ouve, Dorcas me disse que muitos cavaleiros pagam muito bem pelo privilgio de receber uma surra no bordel. Diz que isso os... estimula. 
Jamie soltou um resmungo. 
-Verdade? Suponho que  verdade, se Dorcas o diz. Mas eu no o entendo. Se queres minha opinio, h maneiras bem mais agradveis de conseguir uma ereo. Por outra 
parte -disse para ser justo,- talvez no seja o mesmo receber surras de uma garota bela que de teu pai... ou de teu sobrinho. 
- Talvez. Quer que provemos um dia destes?
- No. -Sorriu-me com os olhos mais enviesados do que de costume, fechados como os de um gato sonolento. 
O calor de suas mos envolveu-me os peitos.
- Certamente me ocorrem coisas mais agradveis, e a voce? 
A vela tinha se consumido, o fogo quase tinha desaparecido da chamin e a plida luz das estrelas penetrava pela janela embaada. 
-Que bonito -murmurei deslizando um dedo pelas poderosas costelas que davam forma ao torso- Que bonito  ter um corpo de homem que se possa tocar. 
-Ainda te agrada? -perguntou entre tmido e satisfeito. 
Rodeou-me os ombros com um brao para acariciar-me o cabelo. 
- Sim! 
Era algo que no tinha sentido falta conscientemente mas agora voltava a recordar esse prazer: a intimidade em que o corpo do homem te  to acessvel como o prprio, 
como se essas estranhas formas fossem, de repente, um prolongamento de teus prprios membros.
Ficamos em silncio por alguns momentos, escutando o gotejar da chuva. O ar frio do outono corria pelo quarto misturando-se com o calor fumegante do fogo. Ele se 
deitou de lado, de costas para mim e subiu a colcha para abrigar-nos. Observei as leves linhas das cicatrizes que lhe entrecruzavam os ombros. Em outros tempos tinha 
conhecido aquelas marcas to bem que podia percorr-las s cegas com os dedos. Agora tinha ali uma fina curva em forma de meia lua que no me era familiar e um corte 
em diagonal que antes no existia: sinais de um passado violento que eu no tinha compartilhado. Percorri a meia lua em toda sua longitude.
- Voc foi perseguido, no? -perguntei. 
Moveu ligeiramente um ombro sem chegar a encolh-lo. 
-De vez em quando. 
-Faz pouco tempo? 
Respirou com lentido antes de responder.
 -Sim, creio que sim. 
Baixei os dedos pelo corte em diagonal. Tinha sido um corte profundo; ainda que estivesse bem cicatrizado, a linha seguia ntida sob as polpas de meus dedos. 
-Sabes por quem? 
-No. -Fechou a mo sobre a minha, que estava apoiada em meu ventre.
-Mas creio saber porque.
Na casa reinava um grande silncio. Faltavam a maioria dos filhos e netos, s ficavam os serventes em seus quartos longnquos, por trs da cozinha, Ian e Jenny na 
outra ponta do corredor e o jovem Ian, acima; todos dormiam. 
-Recordas que, depois da queda de Stirling, pouco antes de Culloden, falou-se muito de uma certa quantidade de ouro que vinha da Frana? 
-Enviado por Luis? Sim... mas ele no o enviou. Sempre teve rumores: ouro da Frana, navios da Espanha, armas da Holanda... mas quase tudo ficou em nada. 
-Oh, algo teve, ainda que no enviado por Luis. Mas ento ningum sabia. Falaram-me de seu encontro com o moribundo Duncan Kerr e sua mensagem sussurrada no sto 
da pousada sob a olhada vigilante do oficial ingls.
-Duncan tinha febre mas no delirava. Sabia que estava morrendo e quem era eu. Era sua nica possibilidade contar a algum de confiana. E me disse.
-Focas e bruxas brancas? -repeti- Francamente, parece uma charada. 
E voce entendeu? 
-No tudo -admitiu.-No tenho nem idia de quem era a bruxa branca. Ao princpio pensei que se referia a voce, Sassenach, e quase parou meu corao ao escut-lo. 
-Apertou-me a mo, sorrindo com melancolia.-De repente me ocorreu que algo podia ter sado mal, que talvez no estivesses com Frank em teu lugar de origem seno 
na Frana. Pela cabea me cruzou todo tipo de loucuras. 
-Oxal tivesse sido assim -sussurrei. 
-Comigo na priso? E Brianna, que idade teria? Dez anos, mais ou menos. No, no desperdices teu tempo lamentando-se, Sassenach. Agora ests aqui e no voltars 
a deixar-me.
Deu-me um beijo na testa. Depois retomou o relato. 
-Eu ignorava de onde provia o ouro mas compreendi que ele estava me dizendo onde estava e porque. Pertencia ao prncipe Tearlach; tinha sido enviado para ele. E 
isso das focas... Levantou um pouco a cabea para olhar para a janela, onde uma roseira fazia sombras sobre o vidro.
-Quando minha me fugiu de Leoch, o povo disse que tinha ido viver com as focas s porque a criada que tinha visto meu pai disse que parecia uma grande foca que 
tivesse abandonado a pele para caminhar pela terra como um homem. Era verdade. -Jamie, sorrindo, passou uma mo pela densa cabeleira.-Tinha o cabelo farto, como 
o meu, mas negro como o azeviche.  luz brilhava como se estivesse molhado. Movia-se com celeridade, deslizando-se como uma foca na gua. De repente encolheu os 
ombros. -Bem, continuo. Quando Duncan Kerr mencionou o nome de Ellen compreendi que se referia a minha me. Era um sinal de que sabia meu nome, sabia quem era eu. 
No estava delirando, por estranho que soasse tudo. E ao saber isso... -voltou a encolher-se de ombros-. Segundo o ingls, Duncan tinha aparecido prximo da costa. 
Ali h centenas de ilhus e rochas, mas as focas vivem num s ponto: no extremo das terras dos MacKenzie, frente a Coigach.
-E voc foi para l? 
-Sim. -Suspirou profundamente.-No teria escapado da priso se no tivesse pensado que podia estar relacionado contigo, Sassenach. Fugir no era difcil mas os homens 
rara vez o tentavam. Nenhum de ns era dessa zona... e em todo caso, nenhum de ns ficava muito tempo fora da priso. O duque de Cumberland e seus homens tinham 
feito um bom trabalho. Tal como disse um contemporneo ao avaliar seus lucros, pouco depois: "Criou um deserto e o chamou paz." Realmente, qualquer prisioneiro que 
escapasse de Ardsmuir se teria encontrado realmente s, sem cl nem amigos que o socorressem.
Jamie sabia que o comandante ingls no demoraria em adivinhar para onde ele ia e organizar uma partida de perseguio. Por outra parte, naquele remoto setor do 
reino no tinha bons caminhos; uma pessoa ciente da regio, que viajasse a p, levava vantagem a seus perseguidores forasteiros e a cavalo. Escapou a meia tarde 
e caminhou durante toda a noite orientando-se pelas estrelas e chegou  costa cerca do amanhecer do dia seguinte.
-O rinco das focas  muito conhecido entre os MacKenzie. Eu tinha estado ali uma vez, com Dougal. Segundo a interpretao que Jamie tinha feito do relato de Duncan, 
o tesouro estava na terceira ilha, a mais afastada da costa. -Ali a rocha estava puda; ao aproximar-me demais da borda entre meus ps se desprendiam bocados que 
caam pelo alcantilado. No me ocorria como chegar  gua e muito menos  ilha das focas. Mas ento recordei o que tinha dito Duncan sobre a torre de Ellen.
Ali estava "a torre": uma pequena salincia de pedra, menos de um metro e meio do ponto mais alto do promontrio. Mas sob a salincia tinha uma estreita greta oculta 
entre as rochas, uma pequena chamin que cruzava os vinte e cinco metros de alcantilado; era uma rota difcil pela que podia descer um homem a p. Desde a base da 
torre de Ellen at a terceira ilha ficavam ainda mais de quatrocentos metros de gua verde e agitada. Despiu-se e, depois de persignar-se, encomendou sua alma  
me. Depois se atirou nu s ondas. Cego pelo sal e ensurdecido pelo mar agitado, lutou contra as correntes durante um tempo que lhe pareceu extensssimo. Quando 
pde assomar a cabea e os ombros, ofegante, viu que o promontrio no estava atrs, como tinha acreditado, seno a sua direita.
-A mar estava baixando e me arrastava -disse irnico-, Pensei que estava acabado pois sabia que jamais poderia regressar. J estava a dois dias sem comer e no 
me restavam muitas foras. Ento deixei de nadar e me limitei a boiar de costas, entregando ao abrao do mar. Mareado pela fome e o esforo, fechei os olhos procurando 
na mente uma antiga prece que os celtas recitavam para no se afogar. quelas alturas do relato guardei silncio durante tanto tempo que me perguntei se teria algum 
problema. Mas no fim respirou fundo e disse com timidez. 
-Vai me dizer que estou louco, Sassenach. Jamais o contei a ningum, nem sequer a Jenny, mas... naquele momento ouvi a voz de minha me que me chamava, justo no 
meio da orao. -Encolheu-se de ombros, incmodo. -Quisera tenha sido s porque tinha estado pensando nela ao abandonar a costa. No entanto...
Ficou calado at que lhe toquei o rosto. 
- O que ela disse? -perguntei baixinho. 
- Disse-me: "Vem a mim, Jamie. Vem a mim, filho!" - Respirou fundo e deixei escapar lentamente o ar- Escutei-a com total clareza mas no vi nada. Ainda que estava 
to cansado que j no me importava morrer, ao ouvir sua voz dei a volta e tratei de avanar. Pensava dar dez braadas e deter-me novamente para descansar... ou 
afundar-me.  oitava braada me apressou a corrente. -Foi como se algum me tivesse carregado nos braos -disse como se ainda o surpreendesse a recordao.- Senti-a 
ao meu arredor; a gua era um pouco mais morna que antes e me levava consigo. Bastava-me bater os ps um pouco para manter a cabea fora da gua.
A corrente, forte e encrespada entre ilhas e promontrios, tinha-o levado at a margem do terceiro ilhu; com umas poucas braadas teve as rochas a seu alcance.
-Ento senti algo que se erguia acima de mim e um horrvel fedor de pescado morto -disse- Pus-me imediatamente de joelhos. Ali estava, em menos de um metro de distncia: 
uma grande foca macho, lustrosa e molhada, que me olhava fixamente. Ainda que Jamie no era pescador nem marinheiro, tinha escutado suficientes histrias para saber 
que os machos eram perigosos, sobretudo quando um intruso ameaava seu territrio. Vendo aquela boca aberta, com sua formosa dentadura arregaada e os rolos de gordura 
dura que cingiam seu enorme corpo, no se sentiu muito disposto a p-lo em dvida.
-Pesava mais de cento trinta quilos, Sassenach -disse. -Ainda que no quisesse exagerar teria podido lanar-me ao mar com um s movimento ou arrastar-me ao fundo 
para que me afogasse. 
- bvio que no o fez -disse- O que aconteceu? 
Jamie se jogou a rir. 
-Creio que eu no estava em condies de fazer nada sensato, aturdido como estava pelo cansao. Limitei-me a olh-lo durante um momento. Depois lhe disse: "No se 
preocupe. Sou eu." 
-E da, o que fez a foca? 
Jamie se encolheu ligeiramente de ombros. 
-Olhou-me fixamente. As focas no piscam muito, sabe? Altera os nervos se olham muito tempo. Depois emitiu uma espcie de rosnado e se deslizou  gua.
Depois de descansar um momento, Jamie iniciou uma metdica inspeo das gretas. No demorou em achar uma profunda fenda que conduzia a um oco, trinta centmetros 
por embaixo da superfcie rochosa. 
-Bem, no mantenha em suspense -protestei- O ouro do Francs estava ali? 
-Sim e no, Sassenach -respondeu afundando o estmago- Eu esperava encontrar lingotes de ouro. Trinta mil libras em lingotes de ouro avolumariam muito. Mas no oco 
s tinha uma caixa que no superava os trinta centmetros de longitude e um pequeno saco de couro. Na caixa tinha ouro, sim, e tambm prata. Ouro e prata, sim: a 
caixa de madeira continha duzentas e cinco moedas de ouro e prata; algumas, de formas to ntidas como se estivessem recm cunhadas; outras, com as marcas gastadas 
at ser quase invisveis.
-Moedas antigas, Sassenach. 
-Antigas? Muito velhas quer dizer. 
-Gregas e romanas. Muito antigas. 
- incrvel -suspirei.-Era um tesouro, sim, mas no... 
-No o que teria enviado Luis para alimentar um exrcito -concluiu ele.-No: quem ps esse tesouro ali no foi Luis nem um de seus ministros. 
-E o saco? -perguntei- O que tinha no saco? 
-Pedras, Sassenach. Pedras preciosas. Diamantes, esmeraldas, prolas, safiras. No muitas, mas sim grandes e bem talhadas. -Sorriu, franzindo o cenho.-Bem grandes. 
Tinha sentado numa rocha sob o cu cinza, girando as moedas e as jias entre os dedos. Por fim teve a sensao de que o estavam olhando. Ao levantar a cabea se 
descobriu rodeado por um crculo de focas curiosas. A mar estava baixa e as fmeas tinham voltado da pesca; vinte pares de redondos olhos negros o estudavam com 
cautela.
O enorme macho negro, mais valente pela presena de seu harm, acercou-se entre fortes rosnados. 
-Ento me pareceu melhor retirar-me. Depois de tudo, j tinha achado o que procurava. Assim que pus a caixa e o saco onde os tinha encontrado gatinhei para a gua, 
meio congelado. Em meia hora, a corrente o levou ao p do promontrio; depois de vestir-se, ficou dormido num ninho de ervas secas. 
-Acordei ao amanhecer -disse suavemente.- Vi muitos amanheceres, Sassenach, mas nenhum como aquele. Era como se o sol nascente estivesse dentro de mim. Quando finalmente 
consegui reter o calor e pude manter-me em p, andei terra adentro, para o caminho, para ir ao encontro dos ingleses. 
-Mas por que voltaste? -quis saber.-Se estavas livre, tinhas dinheiro e...!
-E onde podia gastar esse dinheiro, Sassenach? Podia entrar no lar de um fazendeiro e oferecer-lhe um denrio de ouro ou uma pequena esmeralda? -Sorriu ante minha 
indignao mexendo a cabea.- No, tinha que regressar. Poderia ter vivido um tempo no marasmo, nu e faminto, mas estavam me procurando, Sassenach, com afinco pois 
pensavam que eu sabia onde estava escondido o ouro. Enquanto eu estivesse em liberdade e pudesse pedir refgio, nenhuma choupana estaria a salvo dos ingleses. No 
quis expor as pessoas da zona a esse tipo de perigo. Alm disso, se no me capturavam retomariam a busca aqui, em Lallybroch; nem muito menos podia arriscar a minha 
prpria famlia. E de qualquer modo...
Se deteve, como se lhe custasse encontrar as palavras. 
-Tinha que regressar -disse com lentido- Ainda que s pelos homens. 
-Pelos homens da priso? -perguntei surpresa - Tinha prisioneiros de Lallybroch encarcerados contigo? 
Sacudiu a cabea. 
-No. Tinha homens de quase todos os cls. Mas precisavam de um chefe.
-E isso voc era para eles? -Falei com suavidade, dominando o impulso de alisar-lhe o cenho. -A falta de outro melhor -respondeu com um reflexo sorriso. Mas aqueles 
homens tinham desaparecido. Tinham-nos separado a todos para envi-los a uma terra estrangeira sem que ele pudesse salv-los. 
-Fizeste o possvel por eles. Mas j passou tudo -lhe consolei.
Passamos um longo momento em silncio, abraados e acalentados pelos pequenos rudos da casa. A diferena da baguna comercial do bordel, esses pequenos rangidos 
e suspiros davam a sensao de quietude, de lar e segurana. Pela primeira vez estvamos realmente juntos e ss, longe do perigo. Tinhamos tempo, agora. Tempo para 
escutar o resto da histria: saber que tinha feito com o ouro, que tinha sido dos homens de Ardsmuir; tempo para reflexionar sobre o incndio da tipografia, o marinheiro 
do jovem Ian, o encontro com os agentes da Alfndega na costa de Arbroath e decidir que faramos a seguir. Como tinha tempo, j no era necessrio falar dessas coisas.
O ltimo fragmento de carvo se rompeu na chamin. Me encolhi contra Jamie, escondendo a cara em seu pescoo. Cheirava vagamente a erva e a suor, com um feixe de 
conhaque. Ele mudou de posio para unir os nossos corpos nus em toda sua longitude.
- Outra vez? -murmurei divertida.- Supe-se que os homens de tua idade no voltam a comear to cedo. 
Me mordeu suavemente o lbulo da orelha. 
-Bem, voce tambm o fazes, Sassenach -assinalou-, e s mais velha do que eu. 
-Isso  diferente. -Afoguei uma pequena exclamao ao senti-lo sobre mim.-Sou mulher. 
-E se no fosses mulher -me segurou pondo-se mos  obra,- eu tambm no o faria. E agora cala-te.
Mal tinha amanhecido quando me despertou o arranhar da roseira na janela e o leve tilintar na cozinha, onde preparavam o caf da manh. O fogo tinha se apagado por 
completo. Abandonei a cama sem fazer rudo para no acordar a Jamie. As tbuas do piso estavam geladas. Estremecida, alonguei a mo para a primeira roupa disponvel. 
Envolvida na camisa de Jamie, ajoelhei-me junto  lareira para reavivar as brasas. Pela noite tinha deixado a janela entreaberta para evitar que a fumaa nos sufocasse; 
o fogo de carvo emite muito calor, mas tambm muita fumaa, como atestavam as vigas enegrecidas. Disse-me que, pelo momento, poderamos prescindir do ar fresco, 
ao menos at que o fogo estivesse bem aceso.
A paisagem exterior era perfeita em sua imvel clareza: muros de pedra e pinheiros escuros, como traos de pluma sob as nuvens cinzas da manh. Um movimento me fez 
desviar a vista para a crista da colina, onde uma tosca senda conduzia  aldeia de Broch Mordha, a dezesseis quilmetros de distncia. Um a um, trs pequenos pneis 
montanheses apareceram no alto da costa e iniciaram a descida para a fazenda. Estavam muito longe para distinguir-lhes os rostos, mas as saias inchadas me revelaram 
que os trs cavalheiros eram mulheres. Talvez fossem as moas (Maggie, Kitty e Janet) que voltavam de casa do jovem Jamie. Jamie o maior se alegraria de v-las.
Fechei a janela e tirei a camisa para esconder-me sob os cobertores. Ele sentiu o frio de meu regresso e rodou instintivamente para mim, curvando-se contra meu corpo 
como uma colher contra outra. Depois esfregou a cara no meu ombro, sonolento. 
-Dormiste bem, Sassenach? -murmurou. 
-Como nunca -lhe assegurei acomodando o traseiro frio no oco morno de suas coxas.
-E voce? 
-Hummmm -foi um rosnado bem aventurado. 
Envolveu-me com seus braos. 
-Sonhei como um demnio.
-Com que? 
-Com mulheres nuas -disse mordendo-me o ombro.
-E com comida. 
Seu estmago rosnou com suavidade. No ar tinha um inconfundvel cheiro de bolos e toucinho frito. 
-Enquanto no confundas uma coisa com a outra... 
-Sei distinguir um falco de um serrote quando o vento vem do noroeste -me assegurou-, e uma moa gorducha de um presunto bem curtido, apesar das semelhanas.
Me apertou as ndegas com ambas mos, fazendo-me soltar um grito. 
-Besta! -protestei chutando-lhe as canelas. 
-Ah, agora sou uma besta -riu-Bem, pois... Com um profundo bramido, submergiu-se sob a colcha para mordiscar a face interior das coxas, sem prestar nenhuma ateno 
aos meus gritos e  chuva de golpes que lhe destinei. -Creio que a diferena no  tanta como eu pensava -observou assomando a cabea entre minhas pernas com o cabelo 
vermelho arrepiado como um porco espinho.-Ao paladar s bastante salgada. Que...? Interrompeu-o um sbito estrondo. A porta se abriu de par em par batendo contra 
a parede. Voltamo-nos a olhar, sobressaltados.
No vo da porta se erguia uma jovenzinha desconhecida para mim. Teria quinze ou dezesseis anos, cabeleira muito loira e grandes olhos azuis. Seus olhos eram um pouco 
maiores do normal e estavam fixos em mim com expresso de espanto. Passaram lentamente de meu cabelo encaracolado aos meus peitos nus; depois desceram at encontrar-se 
com Jamie, que jazia com a boca aberta entre minhas coxas, mudo por um espanto to grande como o dela. 
- Papai! -exclamou a garota cheia de indignao- Quem  esta mulher?



















CAPTULO 34
Papai

-Papai? -repeti alterada.-Papai! 
Ao abrir a porta, Jamie tinha se convertido em pedra. Naquele momento se incorporou bruscamente para recolher a colcha cada. Depois retirou o cabelo da cara fincando 
na garota um olhar fulminante. 
-Que diabos ests fazendo aqui? -interpelou. 
Nu, com a barba vermelha e enrouquecido pela fria, apresentava um aspecto formidvel. A moa deu um passo atrs, insegura, mas firmou a mandbula e lhe sustentou 
o olhar. 
-Vim com mame!
Um disparo ao corao no teria causado tanto efeito em Jamie. Deu um violento sobressalto e de sua cara desapareceu a cor, que voltou rapidamente ao ouvir umas 
pisadas aceleradas na escada. Ento saltou da cama, lanando-me apressadamente o cobertor e pegando suas calas. Mal tinha se vestido quando outra silhueta feminina 
irrompeu no quarto e se deteve bruscamente, com os olhos fora de rbitas fixos na cama. 
- Ento era verdade! -Voltou-se para Jamie apertando os punhos-  verdade!  a bruxa Sassenach! Como pode fazer-me isso, Jamie Fraser? 
-Cala-te, Laoghaire -alfinetou ele- No te fiz nada!
S ao ouvir seu nome a reconheci. Mais de vinte anos atrs, Laoghaire MacKenzie era uma esbelta moa de dezesseis anos: pele como ptalas de rosa, cabelo como raios 
de luar e uma violenta paixo no correspondida por Jamie Fraser. Tinha engordado muito e as mechas que escapavam de sua coifa tinham a cor da cinza, mas os olhos 
que fixou em mim tinham a mesma expresso de dio daquele tempo.
 -  meu! -sussurrou golpeando o solo com um p. - Volte ao inferno de onde vieste! V e deixa-me, digo-te! Como eu no dava sinais de obedecer, olhou ao seu arredor 
procurando uma arma. Ao ver a jarra de gua, apoderou-se dela para atirar-me mas Jamie a tirou limpamente da mo e a segurou pelo brao com tanta fora que a fez 
gritar.
- Desa! -ordenou.-Depois falarei contigo, Laoghaire. 
- Como se fosse falar comigo! -gritou ela. 
E com a mo livre lhe arranhou a cara desde o olho at o queixo. Ele lhe segurou o outro punho para lev-la ao corredor. Depois fechou a porta com chave. Quando 
se voltou para mim, eu estava sentada na beira da cama tratando de vestir minhas meias com mos tremulas. 
- Posso explicar-te, Claire -disse.
- N-n-no creio. 
- Escuta-me! -Jamie bateu o punho na mesa com um estrondo que me fez saltar.
-  melhor dar explicaes a tua filha -observei passando a angua pela cabea. 
- No  minha filha! 
- No? -Tirei a cabea pelo decote da angua.- Tambm no ests casado com Laoghaire? 
- Estou casado contigo, maldita seja! -gritou golpeando a mesa outra vez.
- Me parece que no. -Sentia muito frio e meu vestido estava atrs de Jamie.- Preciso da minha roupa. 
- No irs a parte alguma, Sassenach. Antes tens que... 
- No me chame assim! -gritei para surpresa dos dois. 
Ele me olhou um instante. Depois assentiu com a cabea. 
- Est bem. -Respirou fundo.- Vou arrumar as coisas. Depois falaremos, eu e voce. - No te movas daqui, Sass... Claire. 
E recolheu a camisa para pr com um jeito violento. Me levantei para por o vestido. Depois me joguei na cama, tremendo dos ps a cabea, com a l verde feita um 
novelo nos joelhos. - Oh, Bree! -exclamei- Oh, Bree, meu Deus!
Me deixei a chorar: em parte pela desagradvel surpresa e em parte pela recordao de Brianna. Pensar em Laoghaire converteu instantaneamente a dor em ira. Maldito 
Jamie! Que tivesse voltado a se casar, acreditando-se vivo, era uma coisa. Mas que tivesse casado com aquela rancorosa mulher que tinha tratado de assassinar-me 
no Castelo de Leoch... Claro que ele devia ignorar isto. 
- Bem, deveria ter sabido! Ao inferno com ele! Como pde aceit-la? 
As lgrimas me corriam abundantemente pela cara e o nariz escorria.  falta de leno me assoei com uma ponta do lenol. Cheirava a Jamie. Pior ainda: cheirava aos 
dois, com o vago almscar de nosso prazer. 
-Mentiroso! -gritei. E despedacei contra a porta a jarra que Laoghaire tinha tratado de lanar-me.
Viveriam ali, em Lallybroch? Recordei que Jamie tinha encarregado a Fergus que se adiantasse, em teoria para anunciar nossa chegada a Ian e a Jenny, mas tambm, 
sem dvida, para afastar a Laoghaire antes de que eu chegasse. Que pensariam eles do assunto? Ainda que obviamente estavam inteirados, a noite anterior me tinham 
recebido sem dar sinais de sab-lo. Mas tinham retirado a Laoghaire da casa, que fazia de novo ali? Latejavam-me as tmporas. Precisava sair dali. Esse era o nico 
pensamento mais ou menos coerente dentro de minha cabea, de maneira que me segurei a ele: devia ir embora. No podia continuar ali, na mesma casa que Laoghaire 
e sua filha. Elas estavam em seu lar e eu no.
Estremeci. O fogo tinha voltado a apagar-se e pela janela entrava uma corrente glacial. Senti-me gelada at os ossos ainda que j vestida. Perdi algum tempo procurando 
a capa antes de recordar que a tinha deixado embaixo, na sala. Alisei-me o cabelo com os dedos, demais alterada para procurar um pente. Pronta, por fim. Pronta para 
tudo o que podia estar. Enquanto lanava uma ltima olhada a meu arredor ouvi passos na escada. No eram passos leves e rpidos, como os outros, seno pesados e 
lentos, decididos. Era Jamie quem subia... e no estava muito desejoso de ver-me.
Perfeito. Eu tambm no queria v-lo. Preferia ir-me de imediato, sem discutir. Que podamos dizer-nos? Ao abrir a porta retrocedi, sem dar-me conta do que fazia 
at que toquei a cama com as pernas. Ento, perdido o equilbrio, sentei-me. Jamie se deteve no vo da porta para olhar-me. Tinha se barbeado e escovado o cabelo 
antes de enfrentar o problema, como o jovem Ian no dia anterior. 
- Acha que isto ajudar? -perguntei com um esboo de sorriso. 
Engoliu a saliva sem contestar. 
Ele suspirou. 
- No, claro que no. -Fechou a porta depois de si  e avanou para a cama com uma mo estendida. - Claire...   
- No me toque! 
- No vai permitir que te explique, Claire? 
- Parece-me que j  um pouco tarde para isso. -Queria usar um tom frio e desdenhoso. Por desgraa me tremeu a voz.

- Sempre foi razovel -disse baixinho. 
- No me digas como fui sempre! -As lgrimas estavam muito prximas da superfcie. Mordi-me os lbios para cont-las. 
- Certo. -Estava muito plido; os arranhes de Laoghaire eram trs linhas vermelhas em sua bochecha.
- No vivo com ela -explicou- Ela e as garotas vivem em Balriggan, prximo de Broch Mordha. -Observava-me com ateno mas no disse nada- Foi um grande erro... casar-me 
com ela. 
- Com duas filhas? Demoraste bastante em dar-te conta disso, no? Ele apertou os lbios. - As garotas no so minhas. So de seu primeiro marido. 
- Ah. -Isso no mudava muito as coisas mas experimentei uma pequena onda de alvio por Brianna. 
- Faz tempo que no vivo com elas. Envio-lhes dinheiro desde Edimburgo mas... 
- No tens por que me dar explicaes -interrompi- Deixa-me passar, por favor. Vou-embora. 
- Onde? 
- Longe.  minha casa. No sei. - Deixa-me passar! 
- No irs a nenhuma parte -replicou decidido. 
- No podes me impedir! Alongou as mos para segurar-me pelos braos. 
- Claro que posso. 
- Solta-me agora mesmo! 
- No! -Fincou-me os olhos entrecerrados. 
De repente me dei conta de que, por mais sereno que pudesse parecer exteriormente, estava to alterado como eu
- No te deixarei ir sem explicar-te por que... 
- Que queres explicar-me? -acusei furiosa - Que voltou a se casar! Que mais queres dizer? 
- E voce, foi uma freira durante estes vinte anos? -inquiriu sacudindo-me um pouco.
- No! -lancei-lhe a palavra ao rosto.- No, que merda! E tambm no imaginei nunca que voce tivesse se comportado como um monge! 
- Nesse caso... 
Mas eu estava muito furiosa para escutar mais. 
- Voc mentiu pra mim, maldito! 
- No menti! 
- Claro que sim! Sabes perfeitamente! Solta-me, cretino! -Dei-lhe um pontap na canela que lhe arrancou uma exclamao de dor mas no me soltou.
Pelo contrrio: apertou-me com mais fora, fazendo-me gritar. 
- Nunca te disse uma mentira. 
- No, mas ainda assim mentiste! Voc me deu a entender que no estava casado, que no tinhas ningum, que... que... -Estava meio que soluando de ira
- Deverias ter-me dito quando cheguei! Por que diabos te calas-te? 
Afrouxou os dedos que me sujeitavam os braos e eu me recompus para liberar-me. 
- Por que? -insisti socando-lhe uma e outra vez no peito com os punhos.
- Por que, por que, por que? 
- Porque tinha medo. -Agarrou me os punhos para jogar-me na cama. Depois se ergueu ante mim com os punhos apertados e a respirao agitada
- Sou um covarde, maldita seja! No te disse por medo que me abandonasses. Pouco homem como sou, no teria podido suport-lo.
- Pouco homem? Com duas esposas? J me basta! 
- Sou homem talvez? Querendo-te tanto que o demais no me importa? Sabendo que sacrificaria minha honra, minha famlia, minha vida por deitar-me contigo, apesar 
de que me abandonaste? 
- E tens o descaro de dizer-me semelhante coisa? -Minha voz, de to aguda, surgiu como um sussurro agudo e cruel - Jogas a culpa a mim? 
- No, no posso culpar-te. -Girou para um lado, cego- Que culpa tem voce, se querias ficar ao meu lado para morrer comigo? 
- Como tonta que sou! -exclamei.-Tu me obrigaste a ir. E agora queres jogar-me a culpa por ter-te obedecido? 
Deu uma volta por mim com os olhos escurecidos pelo desespero.
- Tive que fazer! Pelo bem da criana! -Involuntariamente, desviou os olhos para o cabide onde pendia seu casaco com as fotos de Brianna no bolso. Depois baixou 
a voz- No, no posso arrepender-me disso, qualquer que tenha sido o preo. Teria dado a vida por ela e por voce. No posso te criticar por ter-te ido. 
- Mas me culpas por ter voltado. 
Sacudiu a cabea. 
- No, por Deus! Sabes o que significa viver vinte anos sem corao? No ser nem meia pessoa, acostumar-te a viver com o pouco que resta, enchendo o vazio com o 
que encontras a mo? 
- E a mim me contas! -Esforcei-me para liberar-me, sem muito sucesso.- Claro que eu sei, maldito cretino! Ou acha que voltei para viver feliz com Frank para todo 
o sempre? Dei-lhe um pontap com todas minhas foras. Ele fez uma careta mas sem soltar-me. 
- As vezes pedia que fosse assim. -respondeu apertando os dentes- Mas as vezes o via contigo, dia e noite, possuindo-te, criando o meu filho. E teria podido matar-te 
por fazer-me isso!
De repente soltou me as mos e, girando ao redor, despedaou o punho contra um armrio de carvalho. 
- Isso  o que sentes, no? -observei com frialdade-Eu no preciso imaginar-te com Laoghaire. Te vi com ela! 
- Estou me lixando para Laoghaire! Nunca me importou! 
- Cretino! -repeti.-s capaz de casar-te com uma mulher sem quer-la e a descartas quando... 
- Cala-te! -rugiu.- Cala a boca, maldita bruxa! -Descarregou o punho no lavatrio sem deixar de olhar-me.- De um modo ou outro, estou condenado, no? Se senti algo 
por ela, sou um mulherengo desleal; se no, sou uma besta sem corao. 
- Deverias ter-me dito!
- Para que? -Levantou-me com um puxo.- Terias girado sobre teus calcanhares para abandonar-me sem dizer nenhuma palavra. E depois de ter voltado a ver-te... teria 
feito coisas muito piores do que mentir para conservar-te. Apertou-me com fora contra seu corpo para beijar-me, longamente e com dureza. Meus joelhos se converteram 
em gua; lutei por manter-me fria, agarrada na recordao dos olhos furiosos de Laoghaire, de sua voz gritona: " meu!" 
- Isto no faz sentido -disse afastando-me- No posso pensar com clareza. Eu vou embora. Lancei-me para a porta, mas ele me segurou pelo punho e voltou a me beijar 
com tanta fora que me deixou sabor de sangue na boca. No tinha em seu gesto afeto nem desejo, s paixo cega e a vontade de possuir-me. J no falava mais.
Eu tambm no. Afastei a boca e lhe dei uma violenta bofetada, curvando os dedos para arranh-lo. Ele se jogou para trs com a bochecha novamente ferida. Depois 
enredou os dedos em meu cabelo e se inclinou para beijar-me outra vez com deliberada selvageria, ignorando os golpes que eu lanava contra ele. Lanou-me sobre a 
cama e ali me imobilizou com o peso de seu corpo. Estava excitado isso se notava. Eu tambm. "Minha", dizia ele, sem pronunciar uma s palavra. " Minha!" O recusei 
com ilimitada fria e bastante habilidade. "Tua", dizia meu corpo. "Tua, e maldito sejas por isso!" Estvamos fazendo o possvel por matar-nos mutuamente, impulsionados 
pela ira daqueles anos de separao: eu por sua deciso de enviar-me de volta, ele por minha partida; eu por Laoghaire, ele por Frank.
- Cachorra! -ofegou- Puta! 
- V para o inferno! -Puxei-lhe os cabelo para baixar-lhe a cara at mim. Camos da cama ao cho, feitos um emaranhado, e rodamos de um lado a outro, entre maldies 
balbuciadas e palavras sem terminar. No ouvi o rudo da porta ao abrir-se. No ouvi nada, ainda que ela devia de ter-nos chamado mais de uma vez. Surda e cega, 
no atendia mais do que a Jamie at que a chuva de gua fria caiu sobre ns. Jamie ficou petrificado e empalideceu; em sua cara s ficaram os ossos marcados sob 
a pele. Senti-me aturdida. Do cabelo de Jamie se desprendiam gotas de gua que caam sobre os meus peitos. Por trs dele vi a Jenny, to branca como seu irmo, com 
uma caarola vazia na mo. 
- Basta! -ordenou. Tinha os olhos enviesados pela clera e o horror- Como podes fazer isto, Jamie? Montar em tua mulher como uma besta em cela sem que te importe 
se te ouvem em toda a casa! 
Ele se separou lentamente de mim, lerdo como um urso.
Jenny pegou um cobertor da cama e me jogou sobre o corpo. Jamie se levantou com lentido e se acomodou com as calas rasgadas. 
- No tens vergonha? -exclamou ela escandalizada. 
Jamie a olhou como se nunca tivesse visto uma criatura parecida e estivesse tratando de adivinhar o que era. Das pontas do cabelo lhe caam gotas sobre o peito nu. 
- Sim -disse por fim suavemente.- Tenho vergonha. 
Parecia desconcertado. Fechou os olhos, recorrido por um profundo estremecimento, e saiu sem dizer uma palavra.














CAPTULO 35
Fuga do den
 
Jenny me ajudou a recostar-me. 
- Te trarei algo para que te vistas -murmurou ajeitando um travesseiro para que me apoiasse.- E algo para beber. Est bem?
- Onde est Jamie? Me deu uma rpida olhada de simpatia na que se misturava um reflexo de curiosidade. 
- No tenhas medo. No deixarei que volte a aproximar-se de ti. -Falava com firmeza; depois apertou os lbios, carrancuda, e me agasalhou com a colcha - Como pde 
fazer-te algo assim!
- No foi culpa sua... Isso no. -Passei uma mo pelo cabelo enredado - Fui eu. Fomos os dois. Ele... eu... 
- Compreendo. -Jenny me olhou por um longo tempo. Pareceu-me bastante possvel que o compreendesse. 
No andar de baixo se ouviu um golpe surdo: tinha-se fechado a grande porta principal. Jenny chegou  janela e abriu a cortina. 
-  Jamie -disse.-Vai subir  colina; sempre faz o mesmo quando est irritado. Isso ou embebedar-se com Ian. A colina  melhor. Soltei um pequeno suspiro. 
- Suponho que estar irritado, sim.
Apareceu a jovem Janet trazendo com equilbrio uma bandeja com bolos, whisky e gua. Estava plida e assustada. 
- Ests... bem, tia? -perguntou enquanto deixava a bandeja. 
- Estou bem -lhe assegurei incorporando-me para pegar a garrafa de whisky. 
Jenny lhe deu uma palmadinha no brao. 
- Fica com tua tia -ordenou- Eu irei procurar-lhe um vestido. 
Janet assentiu obediente e se instalou num banco junto  cama. 
- Sabes onde est Laoghaire? -perguntei enquanto comia e bebia. A garota tinha a cabea baixa, como se estivesse estudando as prprias mos, mas ante minha pergunta 
a levantou bruscamente. 
- Oh! -exclamou. -Oh, sim. Marsali, Joan e ela voltaram a Balriggan, onde vivem. 
Tio Jamie as obrigou.
- Ah, sim -disse secamente. 
Ela mordeu os lbios, retorcendo as mos no avental. De repente levantou os olhos. 
- Sinto muitssimo, tia! 
- No importa -lhe disse ainda sem ter idia do que queria dizer. 
-  que fui eu! -Parecia totalmente agoniada mas decidida a confessar-se. - Eu... eu... disse a Laoghaire que estavas aqui. Por isso veio. 
- Oh... -Bem, isso explicava tudo. 
- No me ocorreu..., isto ... No era minha inteno provocar um escndalo, de verdade. No sabia que tu... que ela... 
- No importa -repeti- Cedo ou tarde, alguma das duas tinha que se inteirar. -Ainda que isso no muda em nada, olhei-a com certa curiosidade - Mas por que  o disseste?
- Porque mame me ordenou -respondeu sussurrando. 
Levantou-se e saiu a toda pressa, roando  sua me no vo da porta. No perguntei nada. Jenny tinha conseguido um vestido e me ajudou a pr-me sem mais conversa 
do que era imprescindvel. Uma vez vestida e calada, com o cabelo penteado e recolhido, voltei-me para ela. 
- Quero ir embora -disse- Agora mesmo. 
Ela no discutiu. Limitou-se a olhar-me dos ps a cabea para assegurar-se de que estivesse bastante forte. Depois assentiu: 
- Creio que  o melhor -disse baixinho. J prximo ao meio dia, parti de Lallybroch sabendo que fora a ltima vez. Levava uma adaga na cintura como proteo, ainda 
que dificilmente me faria falta. Nos alforjes do arreio tinha comida e vrias garrafas de cerveja: suficiente para chegar ao crculo de pedras. Tinha pensado em 
pegar as fotos de Brianna que Jamie tinha em seu casaco mas as deixei ali. Ela lhe pertencia para sempre, ainda que comigo no sucedesse o mesmo.
No tinha ningum  vista quando Jenny tirou o cavalo do estbulo, sujeitando as bridas para que eu montasse. Vesti o capuz do manto e fiz um sinal com a cabea. 
Da ltima vez nos tnhamos separado como irms, com lgrimas e abraos. Ela soltou as rdeas e deu um passo atrs enquanto eu dirigia o cavalo para o caminho. 
- Que Deus te acompanhe! -ouvi-lhe dizer depois de mim. No respondi. Tambm no olhei para trs. Passei a maior parte do dia a cavalo, sem prestar muita ateno 
ao caminho; atenta s ao rumo, deixava que meu arreio escolhesse as sendas pelos passos da montanha. Detive-me quando a luz comeava a desaparecer; depois de atar 
o cavalo para que pastasse, me acostei envolvida na capa. De imediato adormeci para no recordar. O aturdimento era meu nico refgio.
No dia seguinte foi a fome que me devolveu, de m vontade,  vida. Durante toda a jornada anterior nem tinha parado para comer. Tambm no o fiz ao lembrar mais, 
para meio dia, meu estmago comeava a emitir fortes protestos. Assim desmontei num pequeno claro, junto a um riacho, e desembrulhei a comida que Jenny tinha posto 
nos alforjes. Comi um sanduche, bebi uma das garrafas de cerveja e montei novamente, dirigindo ao cavalo em direo ao nordeste. Por desgraa, se a comida tinha 
devolvido as foras ao meu corpo, tambm tinha dado nova vida aos meus sentimentos.  medida que ascendamos meu nimo ia decaindo cada vez mais.
O cavalo estava bem disposto, mas eu no. Ao meio da tarde, sem poder continuar, adentrei-me com o arreio num bosque para que no fosse visvel do caminho; depois 
de at-lo folgadamente, caminhei entre as rvores at encontrar o tronco de um lamo trmulo manchado de musgo. Sentei-me nele, encurvada, com os cotovelos nos joelhos 
e a cabea entre as mos. Doam-me todas as articulaes, mais de pena que pelo confronto do dia anterior ou pelos rigores da viagem. A reserva e a introverso sempre 
tinham tido muita importncia em minha vida. 
Tinha aprendido, com bastante trabalho, a arte de curar: a brindar com cuidado e interesse detendo-me antes do ponto perigoso em que doar-se muito  deixar de ser 
eficiente.
Sempre, sempre, tinha tido que equilibrar a compaixo com sabedoria, o amor com sentido, a humanidade com inflexibilidade. S com Jamie tinha me dado conta do quanto 
tinha, arriscando-o tudo, descartando a cautela, o sentido comum e a sabedoria junto com as comodidades e restries de uma posio ganhada a pulso. Tinha chegado 
a ele sem dar-lhe nada mais que minha pessoa, em corpo e alma, confiando em que soubesse ver-me inteira e cuidar de minhas debilidades como em outros tempos. No 
princpio temi que ele no pudesse. Ou no quisesse. E depois chegaram esses poucos dias de prazer perfeito que me fizeram pensar que tudo voltava a ser como antes. 
Pude am-lo em liberdade e ser amada com uma sinceridade que igualava a minha.
As lgrimas se deslizaram entre meus dedos. Chorava por Jamie e pelo que eu tinha sido com ele. Sua voz me sussurrava: "Sabes o que significa dizer outra vez "Te 
amo" e diz-lo para valer?" Eu sabia. E com a cabea entre as mos, sob os pinheiros, soube que nunca voltaria a diz-lo de verdade. Afundada como estava em minha 
angustiante contemplao, no ouvi os passos at que estivesse quase ante mim. Levantei-me da rvore cada e dei meia volta para o atacante com o corao na boca 
e adaga na mo. 
- Meu Deus! -Quem me espreitava retrocedeu ante a folha nua, to sobressaltado como eu.
- Que diabos ests fazendo aqui? -interpelei levando a mo livre ao peito. O corao me palpitava como um tambor. Devia estar to plida como ele. 
- Por Deus, tia Claire! Onde aprendes-te a desembainhar assim uma faca? Quase me matas do susto! -O jovem Ian passou uma mo pela testa. 
- O mesmo eu digo -lhe assegurei. 
Minha mo tremia tanto que no pude embainhar a adaga e meus joelhos afrouxavam-se. Deixei-me cair no tronco do lamo com a faca no colo. 
-Repito -disse tratando de controlar-me-: O que fazes aqui?
O garoto mordeu o lbio e, depois de olhar ao redor, sentou-se a meu lado. 
- Foi tio Jamie quem me enviou... -comeou. 
Levantei-me de imediato, embainhando a adaga no cinto. 
- Espera, tia! Por favor! -Segurou-me por um brao mas eu me desprendi com uma chacoalhada. 
- No me interessa -disse esperneando a um lado as folhas de samambaia-. Volta a tua casa, pequeno Ian. Tenho onde ir. -Isso esperava, ao menos. 
- Mas as coisas no so como voc acha! -J que no podia me deter me seguiu pelo claro discutindo enquanto se agachava ante os ramos baixos
- Ele precisa de voce, tia! De verdade. Deves regressar comigo! 
No respondi. Ali estava meu cavalo; agachei-me para desatar a corda. 
- Tia Claire! No vai me escutar? -Se ergueu ao lado do cavalo olhando-me acima da cela de montar. 
-No.
Montei com majestade, fazendo subir saias e anguas, mas minha digna partida se viu impedida pelo jovem Ian, que segurava as rdeas com mo de ferro. 
-Solta -ordenei.
- Primeiro escuta-me. -Fincou-me os olhos com os dentes apertados, acendendo seus suaves olhos pardos. "Est bem", decidi. No lhe serviria de nada, nem a ele nem 
a seu traioeiro tio, mas o escutaria. 
- Fala -disse reunindo a pouca pacincia que eu tinha. 
- Bem -comeou subitamente inseguro.- ... eu... ele... Lancei um rosnado de exasperao. 
- Comea pelo princpio. Mas no se estenda demais, sim? -Ele assentiu, fincando os dentes no lbio para concentrar-se. 
- Bem, tio Jamie armou um alvoroo em casa quando soube que tinhas ido.
- No o duvido. 
- Nunca o tinha visto to furioso -continuou, observando-me com ateno.- E mame tambm no. 
Gritaram de tudo. Papai tratou de acalm-los, mas nem sequer pareciam ouvi-lo. Tio Jamie disse que mame era uma abelhuda... e coisas muito piores. 
- No tinha por que chatear-se com Jenny -objetei.-Ela s tratou de ajudar... creio. -Repugnava-me saber que essa rixa tambm era por culpa minha. Jenny tinha sido 
o principal apoio de Jamie desde a morte da me, quando ambos eram meninos. Quantos males mais lhe teria causado com minha volta? Para surpresa minha, o garoto sorriu.
- Bem, ela tambm fez o seu. Antes de que terminasse a discusso, tio Jamie tinha mais algumas marcas de dentes. Mame o atacou com um caldeiro de ferro; ele se 
esquivou para arroj-lo pela janela da cozinha e assustou a todos os frangos que tinha no ptio.
 - Os frangos no me interessam, jovem Ian -disse friamente.- Continua. Quero seguir viagem. 
- Bem, depois tio Jamie derrubou as prateleiras dos livros da sala, porque estava muito aturdido para ver por onde ia enquanto saa. Papai se assomou pela janela 
para perguntar-lhe onde ia e ele respondeu que vai sar para procurar-te. 
- E por que ests aqui em seu lugar? - perguntei vigiando a mo que segurava as rdeas. Se os dedos dessem algum sinal de relaxar-se, eu trataria de arrancar. 
O jovem Ian suspirou.
-  que, enquanto tio Jamie estava montando em seu cavalo apareceu tia... eh... sua esp... - Enrijeceu miseravelmente. - Laoghaire. 
Naquele momento desisti de fingir indiferena. 
-E ento, o que aconteceu ? Ele franziu o cenho. -Teve uma discusso terrvel, mas no pude ouvir muito. Tia... Laoghaire, digo... ela no sabe brigar como se deve, 
como mame e tio Jamie. No faz mais do que chorar e gemer. Choramingos, como diz mame. 
- Hum. E ento? Laoghaire tinha desmontado para pegar a Jamie pela perna e pux-lo. Depois se deixou cair num charco do ptio, abraada aos joelhos de Jamie, soluando 
e gemendo como sempre. Ele no podia escapar; acabou por levant-la e a jogou sobre o ombro para lev-la em cima sem prestar ateno aos olhares da famlia e os 
serventes.
- Bem -disse. Notando que tinha os dentes apertados, afrouxei-os- Assim te enviou a procurar-me porque ele estava muito ocupado com sua esposa. Cretino! Que descaro! 
Manda algum a procurar-me como se eu fosse uma criada porque no lhe resulta cmodo vir em pessoa. Quer o po e o bolo, no? Grandssimo arrogante, egosta, autoritrio... 
escocs! Tinha os ns dos dedos brancos de tanto apertar o assento. Sem preocupar-me j pelas sutilezas, dei uma bofetada s rdeas. 
- Solta! 
- Mas no foi assim, tia Claire! 
- O que no foi assim? -Seu tom desesperado me fez levantar os olhos. 
- Tio Jamie no ficou para atender a Laoghaire! 
- E por que te enviou ? 
- Porque ela lhe disparou. Ele me enviou a procurar-te porque est morrendo.
- Se estiver mentindo, Ian Murray -disse pela dcima segunda vez-, o lamentars at o fim de tua vida... que ser muito curta! Tive que alar a voz para fazer-me 
ouvir. Tinha-se levantado um forte vento que me agitava o cabelo e me cingia as saias s pernas; grandes nuvens negras fechavam os passos de montanha. O jovem Ian, 
sem alento para contestar, limitou-se a sacudir a cabea, inclinada contra o vento. Ia a p, conduzindo ambos pneis pelo brido por um trecho pantanoso, junto  
beira de um pequeno lago. Calculei que era nem meio dia. Faltavam vrias horas para chegar a Lallybroch e no parecia provvel que chegssemos antes de escurecer. 
Tinham passado trs dias desde que eu partira. Trs dias desde que Jamie recebera o disparo.
O jovem Ian no me dava muitos detalhes; depois de ter cumprido com sua misso, s queria chegar a Lallybroch o antes possvel e no lhe parecia necessrio conversar. 
Disse-me que Jamie estava ferido no brao esquerdo; isso no era muito grave. Mas a bala lhe tinha penetrado tambm nas costas e isso sim era grave. Quando o garoto 
partiu, Jamie estava consciente; isso no era grave. Mas comeava a subir-lhe a febre; isso sim era bastante grave. Quanto aos possveis efeitos do tiro, o tipo 
ou gravidade da febre e o tratamento que lhe tivessem aplicado, Ian se limitou a encolher-se de ombros. Talvez Jamie estivesse morrendo, talvez no. Cabia a possibilidade 
de que ele mesmo se tivesse disparado para obrigar-me a regressar. Era capaz de traar um plano como esse e tinha coragem de sobra para lev-lo at o fim. Por outro 
lado, eu nunca o tinha visto atuar sem calcular o custo e sua disposio a pag-lo. No parecia lgico que corresse o risco de morrer para atrair-me de novo a Lallybroch. 
Jamie Fraser era um homem muito lgico.
Muito bem: dada a improbabilidade de que Jamie tivesse disparado contra si mesmo, existiria sequer esse disparo? Talvez tudo fosse uma inveno sua. Mas me parecia 
muito difcil que seu sobrinho fosse capaz de dar-me uma notcia falsa de um modo to convincente. Cada vez que abandonava Lallybroch tinha pensando que no regressaria 
jamais. E ali estava mais uma vez, regressando. Por duas vezes me tinha separado de Jamie com a certeza de no voltar a v-lo. E ali estava, voltando a ele como 
uma pomba mensageira a seu pombal. 
-Te direi uma coisa, Jamie Fraser -murmurei baixo- Se no estiver muito prximo da morte quando eu chegar, vivers para lament-lo.




















CAPTULO 36
Feitiaria prtica e aplicada


 Chegamos vrias horas depois do escurecer, empapados at os ossos. A casa estava silenciosa e escura com exceo de duas luzes tnues na sala. Ouviu-se um ladrido 
de advertncia mas o jovem Ian calou o animal; depois de farejar com curiosidade meu estribo, a silhueta branca e negra desapareceu na escurido do ptio. O ladrido 
tinha bastado para alertar a algum. 
Enquanto o jovem Ian me conduzia ao vestbulo, abriu-se a porta da sala e Jenny assomou a cabea, com olheiras de preocupao. Ao ver seu filho sua expresso se 
converteu em alvio, de imediato suprimido pela justiceira expresso de indignao da me ante o filho errante.
- Ian, pequeno bandido! Onde te enfiaste? Teu pai e eu ficamos loucos de angustia! -Deu-lhe uma olhada ansiosa.- Ests bem? 
Ante seu gesto afirmativo apertou novamente os lbios. 
-Bem, agora sim o que te espera  uma boa, moo! Queres dizer-me onde diabos estiveste? 
Em vez de responder ao xingamento, o garoto se encolheu torpemente de ombros e deu um passo a um lado, deixando-me  vista de sua me. Se minha ressurreio de entre 
os mortos a tinha desconcertado, esta segunda reapario a deixou atnita. Os olhos azuis, normalmente to enviesados como os de seu irmo, dilataram-se at o ponto 
de parecer redondos. Olhou-me durante longo momento sem dizer nada; depois voltou novamente os olhos para seu filho.
- Um cuco -disse em tom quase coloquial.- Isso  voce, moo: um grande cuco no ninho. Saber Deus de quem deves ser filho. Meu, no.
 - Eu... bom,  que... -balbuciou com os olhos fincados nas botas.- No podia deixar que... 
- Oh, isso agora no importa! -lhe alfinetou sua me. - Sobe e v deitar-se. 
Amanh teu pai se encarregar de ti. Ian jogou um olhar indefeso  porta da sala. Depois se voltou para mim com um encolhimento de ombros e se afastou pelo corredor 
arrastando os ps. 
Jenny permaneceu imvel, sem afastar os olhos de mim at que a porta se fechou com um golpe suave. 
- Ento voltou. 
Assenti com a cabea. 
- Agora isso no importa -disse baixinho para no perturbar o descanso da casa.
- Onde est Jamie?
Depois de uma breve vacilao, ela aceitou minha presena. 
- Aqui -disse assinalando a porta da sala. 
Comecei a andar mas me detive. Tinha algo por perguntar. 
- Onde est Laoghaire? 
- Se foi. -Os olhos de Jenny eram inescrutveis  luz da vela. 
Cruzei a porta e fechei com firmeza depois de mim. Jamie, muito grande para o sof, jazia num catre instalado junto ao fogo, dormindo ou inconsciente; seu perfil 
se recortava, escuro e afiado, contra a luz das brasas. Ao menos no tinha morrido: vi o lento subir e baixar do peito sob a colcha. No precisava ter pressa agora. 
Desatei os cordis de meu capote e estendi a roupa empapada sobre o encosto da cadeira, pegando o xale de Jenny para substitu-lo. Tinha as mos frias. As pus sob 
as axilas para que recuperassem a temperatura normal antes de toc-lo.
Quando por fim me aventurei a apoiar a mo em sua frente estive a ponto de retir-la bruscamente: queimava como uma pistola depois de ter sido disparada. Gemeu e 
se removeu ante o contato. Depois de observ-lo ocupei a cadeira de Jenny. Com uma temperatura como essa no dormiria muito tempo; no valia a pena acord-lo antes 
para examin-lo. Os pensamentos que se tinham iniciado no bosque, prolongados durante a pressurosa viagem de regresso, continuaram ento sem vontade consciente por 
minha parte. A honra tinha conduzido a Frank  deciso de reter-me como esposa e criar a Brianna como se fora sua. A honra e sua resistncia a recusar uma responsabilidade 
que acreditava ser sua. Agora tinha ante mim a outro homem honrvel.
Laoghaire e suas filhas, Jenny e sua famlia, os prisioneiros escoceses, os contrabandistas, o senhor Willoughby e Geordie, Fergus e os arrendatrios... Quantas 
outras responsabilidades teria carregado Jamie durante minha ausncia? Por minha parte, a morte de Frank me tinha absolvido de uma de minhas obrigaes; a mesma 
Brianna, de outra. O conselho do hospital, em sua eterna sabedoria, cortou minha ltima atadura daquela outra vida. A ajuda de Joe Abernathy me deu tempo para livrar-me 
das responsabilidades menores, para delegar e resolver. Jamie no tinha tido possibilidade de eleger quanto a minha reapario em sua vida, nem tempo para tomar 
decises e resolver conflitos. Ele no era dos que faltam as suas responsabilidades, nem sequer por amor.
Tinha mentido, sim, por no confiar que eu fosse capaz de reconhecer essas responsabilidades e permanecer ao seu lado. Tinha tido medo. Eu tambm: medo de que no 
se decidisse por mim no conflito entre um amor de vinte anos e sua famlia atual. Por isso fugi para Craigh na Dun com a pressa e a deciso de um condenado que se 
aproxima aos degraus do cadafalso. O orgulho ferido me incitava, mas bastou que o jovem Ian dissesse: "Ele est morrendo" para que visse a pouca importncia que 
tinha. S me dei conta de que tinha aberto os olhos quando falou: 
- Voc voltou. -disse com suavidade. Estava seguro.
Abri a boca para replicar mas continuou sem afastar suas dilatadas pupilas de minha cara: - Amor meu... que linda s, meu Deus, com esses grandes olhos dourados 
e o cabelo to suave ao redor do rosto. -Passou a lngua pelos lbios secos. -Estava seguro de que me perdoarias, Sassenach, quando o soubesses. 
- Quando o soubesse? -Ergui as sobrancelhas sem dizer nada. 
- Tinha muito medo de perder-te outra vez, mo duinne -murmurou. -Muito medo. Desde o dia em que te vi no amei nenhuma outra, minha Sassenach, mas no podia... no 
podia suportar... Sua voz se apagou num murmrio ininteligvel; voltou a fechar os olhos. Eu me mantinha imvel sem saber como agir. De repente os abriu outra vez, 
pesados pela febre. 
- J no falta muito, Sassenach -adicionou para tranqilizar-me, curvando a boca numa tentativa de sorriso.- J no falta muito. E ento voltarei a tocar-te. Tenho 
muito desejo de tocar-te.
- Oh, Jamie -murmurei. Levada pela ternura, alonguei uma mo para tocar sua bochecha ardente. Seus olhos se dilataram de espanto. Sentou-se na cama, lanando um 
alarido pavoroso pela dor que o movimento lhe provocou no brao ferido. 
- Oh, Deus! Oh, Cristo, Deus Todo-poderoso! -exclamou sem alento, agarrando o brao esquerdo- s de verdade! Por todos os demnios malditos! Oh, Deus! 
- Ests bem? -perguntei estupidamente. 
Jenny assomou a cabea pela porta. Jamie, ao v-la, encontrou alento suficiente para rugir: - Sai daqui! -Depois voltou a dobrar-se com um rosnado - Cris... to -se 
queixou entre dentes
- Em nome de Deus, o que fazes aqui, Sassenach?         
- Como que fao aqui? Mandou-me procurar. O que significa isso de que sou de verdade? Ele tornou a afrouxar a mo que apertava o brao esquerdo. De imediato voltou 
a apert-lo, entre vrias referncias em francs aos rgos reprodutores de certos animais.
- Faz o favor de deitar! -ordenei empurrando-o sobre os travesseiros. Notei com certo alarme que os ossos estavam muito prximos da pele. 
- Pensava que eras um delrio da febre..., at que me tocaste -explicou ofegando.- Que diabos pretendes aparecendo assim junto a minha cama? Queres matar-me de susto? 
-Fez uma careta de dor.- Por Deus,  como se este maldito brao desprendesse de meu ombro. Ah, merda! 
Desprendi-lhe com firmeza os dedos da mo. 
- No enviaste ao jovem Ian para que me dissesse que estavas morrendo? -perguntei enquanto lhe arregaava a camisa de dormir. Tinha uma gorda bandagem acima do cotovelo. 
Procurei s apalpadelas o extremo do leno. 
- Eu? No! Ai, di-me!
- Ainda vai doer bastante antes que termine contigo -adverti desembrulhando a ferida com cuidado. 
- Ento esse pequeno cretino veio a procurar-me por conta prpria? Tu no querias que eu voltasse? 
- No! Que voltasses a mim s por pena, como se fosse um cachorro numa vala? Ah, diabos! No. At proibi essa anta que fosse procurar-te. 
- Sou mdica, no veterinria -observei friamente.- E se no me querias aqui, o que foi que disseste quando acreditava estar sonhando, diga-me? Morde o cobertor 
ou qualquer outra coisa; a bandagem est colada e tenho que arranc-la. 
Mordeu-se o lbio e respirou bruscamente pelo nariz. Me afastei para remexer na gaveta da escrivaninha onde Jenny guardava as velas. Precisava de mais luz. 
- Imaginei que o jovem Ian me disse que estavas morrendo s para me obrigar a voltar. 
- Por mais que o queira, estou morrendo. -Sua voz soava seca e direta apesar da falta de alento.
Me voltei para ele, surpresa. Sua respirao era arrtmica e tinha os olhos brilhantes pela febre. Sem responder, acendi as velas que tinha encontrado e as pus no 
grande candelabro do aparador. Depois me inclinei para a cama. 
- Vamos dar uma olhada nisto. A ferida em si era um buraco com sangue seco nas bordas, de tintura levemente azul. Pressionei a carne dos lados; estava enrijecida 
e tinha uma supurao considervel. Jamie se removeu inquieto enquanto eu deslizava os dedos ao longo do msculo. 
- Aqui tens um inflamado para uma boa infeco, moo -informei.-O jovem Ian me disse que tinhas uma ferida nas costas. Teve um segundo disparo ou a bala atravessou 
o brao? 
- Atravessou-o. Jenny me tirou a bala das costas. Mas no est muito mau; s penetrou dois ou trs centmetros. 
- Diga-me onde foi.
Movendo-se com muita lentido, moveu o brao para fora. Notei que at esse pequeno movimento lhe produzia uma intensa dor. O buraco de sada estava sobre a articulao 
do cotovelo, na face interna do brao, mas no frente  entrada; o projtil tinha sido desviado em sua trajetria. 
- Tocou o osso -disse tratando de no imaginar o que devia de ter sentido.-Sabes se h fratura? No quero tocar-te mais do necessrio. 
- Ainda bem -disse tentando sorrir.- No, no creio que tenha fratura. Quando rompi a mandbula e a mo foi diferente. Mas di. 
- Suponho que sim. -Apalpei com cuidado a curva dos bceps- At onde chega a dor? Deu uma olhada quase indiferente ao brao ferido.
-  como se no tivesse osso, seno um atiador quente. Mas no  s o brao o que me di; e sim as costas inteiras; tenho-a rgida. -Engoliu saliva e voltou a passar 
a lngua pelos lbios.- Me darias um pouco de conhaque? -pediu.- Me faz mal sentir a batida do corao. 
Sem fazer nenhum comentrio, enchi um copo de gua e aproximei de seus lbios. Ele ergueu uma sobrancelha mas bebeu com vontade. 
- Duas vezes em minha vida tenho estado a ponto de morrer pela febre -disse.- Creio que desta vez  a definitiva. No queria mandar que fossem procurar-te, mas... 
alegro-me que tenhas vindo. -Engoliu saliva antes de continuar.- Queria... queria pedir-te perdo. E despedir-me como  devido. No vou pedir-te que fiques at o 
final mas... ficarias comigo..., s um momento? 
- Ficarei um momento -disse -Mas no vais morrer. 
Ele fitou-me com estranheza.
-Tu me curaste uma grande febre; ainda penso que foi por feitiaria. Jenny me curou a seguinte s com sua teimosia. Suponho que, tendo-vos as duas comigo, posso 
superar esta, mas no sei se quero passar outra vez por esse tormento. Creio que preferiria morrer, sem a ti no  igual. 
-Ingrato -lhe disse.-Covarde. -Indecisa entre a exasperao e a ternura, dei-lhe uma palmada na bochecha. Saquei de meu bolso o pequeno estojo que levava sempre 
comigo. -Desta vez tambm no vou permitir que morra, ainda que a tentao  grande. Retirei a flanela cinza, deixando  vista as reluzentes seringas, e retirei 
da caixa o frasquinho de penicilina em tabletes. 
- Em nome de Deus, o que  isso? -perguntou olhando-as com interesse. -Parecem malignas. 
No respondi, ocupada como estava em dissolver os tabletes de penicilina numa ampola de gua esterilizada. Depois preparei a injeo.
- Vire-se sobre o lado so -lhe ordenei- e levanta a camisa de dormir. Deu uma olhada desconfiada  agulha mas obedeceu de m vontade. Pesquisei o territrio com 
ar de aprovao. 
- Teu traseiro no mudou nada em vinte anos - comentei admirando as musculosas curvas. 
- Nem o teu -replicou ele corts,- mas no vou pedir-te que o descubras. Te atacou subitamente a luxria? 
- No, por agora. -Esfreguei um pouco a pele com um pano empapado em conhaque. -Essa marca de conhaque  muito boa -observou espionando acima do ombro-, mas me agrada 
mais quando se aplica pelo lado oposto. 
- Tambm  a melhor fonte de lcool disponvel. Agora fique quieto e relaxe. Depois de fincar habilmente a agulha, pressionei lentamente o embolo. 
- Ai! -Jamie esfregou o traseiro com dor.
- J j deixar de arder. -Servi-lhe dois centmetros de conhaque.- Agora podes beber um pouco... muito pouquinho. 
Esvaziou a xcara sem comentrios enquanto eu envolvia as seringas. 
- Achava que para fazer bruxarias se fincavam os alfinetes em bonecos, no na prpria pessoa. 
- No  um alfinete.  uma seringa hipodrmica. 
- Pouco importa como a chames; parecia um prego para ferradura. Te incomodaria explicar-me como podes curar-me o brao fincando alfinetes na bunda? 
Respirei fundo. 
- Recordas que certa vez te falei dos germes? Animaizinhos to pequenos que no se vem. Podem meter-se no corpo com gua e comida em mau estado ou pelas feridas 
abertas. E se entram te causam doenas. Olhou-se o brao com interesse. 
- Quer dizer que tenho germes no brao?
- Pode estar certo. -Golpeei o estojo com um dedo.-O remdio que te pus no traseiro mata os germes. Te aplicarei uma injeo a cada quatro horas, at amanh a esta 
hora, e ento veremos como ests. Compreendes? 
Assentiu lentamente. 
- Compreendo, sim. Devia ter deixado que te queimassem a vinte anos.






CAPTULO 37
O que h num nome


 Depois de aplicar-lhe a injeo, sentei-me ao seu lado e deixei segurar-me a mo at que adormecesse. Passei o resto da noite junto a sua cama, cochilando; acordava-me 
o relgio interno que temos todos os mdicos, ajustado s mudanas de guarda dos hospitais. Apliquei-lhe mais duas injees, a ltima ao romper a manh; ento a 
febre j tinha baixado de forma perceptvel. 
- Estes malditos germes do sculo XVIII no tm nada que fazer contra a penicilina -disse ao seu corpo adormecido.- No tm resistncia. At a sfilis desapareceria 
da noite para o dia.
E depois, o que? Perguntava-me enquanto ia  cozinha em procura de ch quente e algo para comer. Uma mulher desconhecida, provavelmente a cozinheira ou a criada, 
estava acendendo o forno de tijolos para cozinhar as fogaas do dia, que esperavam sobre a mesa. No se surpreendeu ao ver-me; depois de de dar um lugar para que 
me sentasse, serviu-me o ch e umas omeletes com um rpido: "Bom dia, senhora", antes de voltar ao seu trabalho. Pelo visto, Jenny tinha informado de minha presena 
as pessoas da casa. Isso significava que me aceitava? Tinha minhas dvidas. Obviamente queria que eu me fosse e no a alegrava ver-me ali outra vez. Se decidisse 
ficar, tanto ela como seu irmo teriam que me dar certas explicaes com respeito a Laoghaire.
- Obrigada -disse cortesmente  cozinheira. 
Voltei  sala com meu ch, a esperar o momento em que Jamie se decidisse a acordar. Por fim, justo antes do meio dia, deu sinais de reanimao: removeu-se com um 
suspiro, grunhiu por causa da dor do brao e voltou a ficar virado. Dei-lhe um tempo para que ele reparasse a minha presena, mas continuava com os olhos fechados. 
No entanto no dormia: as linhas de seu corpo estavam um pouco tensas.
- Muito bem -disse reclinando-me comodamente na cadeira, bem longe de seu alcance. - Escuto-te. Uma pequena ranhura azul apareceu entre suas longas pestanas douradas, 
fechando-se de novo. 
- Hum...? -murmurou fingindo acordar pouco a pouco. 
- No escondas o corpo. -ordenei- Sei perfeitamente que ests desperto. 
Abre os olhos e conta-me de Laoghaire.
Seus olhos azuis se abriram posando-se em mim com certo desagrado.
 - No tens medo de que eu sofra uma recada? -perguntou.- Sempre ouvi dizer que aos enfermos no se deve inquietar. Isso pode fazer com que recaiam. 
- Ests com um mdico -lhe assegurei- Se desmaiar pelo esforo saberei que fazer. 
-  disso que tenho medo. -Dirigiu os olhos para o pequeno estojo onde guardava as drogas e as seringas.- Sentou o traseiro como se me tivesse sentado sem calas 
numa mata de espinhos. 
-Bem -disse.-Dentro de uma hora te aplicarei outra. Mas agora vai falar. Apertou os lbios. 
- Est bem -suspirou por fim- Acontecei quando eu voltei da Inglaterra. Tinha chegado ao Distrito dos Lagos, cruzando a grande serra que separa Inglaterra de Esccia.
- Ali h uma pedra que marca a fronteira. Talvez a conheas. 
Assenti; tinha visto aquele menir enorme onde Jamie dizia ter-se detido a descansar.
- No sabes o que significa viver tanto tempo entre estrangeiros. 
- Acreditas mesmo nisso? -comentei com certa aspereza. Ele baixou os olhos com um leve sorriso. 
- Sim, talvez o saibas. H mudanas, no? Por mais que te esforces por conservar as recordaes da ptria e por seguir sendo como eras, isso te muda. No chegas 
a ser um deles, mas ao mesmo tempo deixas de ser o que eras. 
- Eu sei. Continua. Suspirou esfregando o nariz. 
- Voltei para casa. -Levantou os olhos com um semi sorriso.- Como era mesmo o que disseste ao jovem Ian? "O lar  o lugar onde, quando deves voltar, tm que te receber." 
Era assim?
- Quem o escreveu foi um poeta chamado Frost. Mas que queres dizer? No me digas que tua famlia no se alegrou de ver-te! 
- Claro que sim -reconheceu lentamente. -No quero dizer que me tenham recebido mal, em absoluto. Mas minha ausncia tinha durado demais; os menores j no me reconheciam. 
Sorriu com tristeza. -Quando vivia escondido na gruta tudo era diferente. Viam-me raras vezes, mas estava sempre ali e era parte da famlia. Depois fui ao crcere. 
 Inglaterra. Escrevamo-nos mas no  o mesmo: umas quantas palavras no papel, contando coisas que sucederam meses atrs. Encolheu-se de ombros; o movimento lhe 
arrancou uma careta de dor.
- E quando voltei tudo era diferente. Ian me perguntava se convinha ou no cercar tal ou qual pasto, mas eu sabia que o garoto j estava fazendo o trabalho. Quando 
caminhava pelos campos, as pessoas me olhavam de soslaio, desconfiadas, tomando-me por um forasteiro. Depois, ao reconhecer-me, punham cara de ter visto um fantasma. 
Interrompeu-se para olhar para a janela. 
- Creio que realmente era um fantasma. No sei se me entendes.        
- Sentes como se tivesses rompido o que te atava  terra -disse com suavidade- Flutua pela casa sem ouvir teus passos. Ouves o que te dizem e no faz sentido. Recordo-o; 
assim era antes do nascimento de Bree.
- Eu estava aqui -explicou ele.-Mas no em casa. E suponho que me sentia s.
- Suponho que sim. -Tomei cuidado para no denotar solidariedade nem condenao. Eu tambm sabia algo sobre a solido. Jenny tinha tratado de convenc-lo para que 
voltasse a casar-se,  fora de suavidade e persistncia. 
- Laoghaire estava casada com Hugh MacKenzie, um dos arrendatrios de Colum. Hugh morreu em Culloden. Dois anos mais tarde ela se casou com Simon MacKimmie, do cl 
Fraser. Dele so as duas garotas, Marsali e Joan. Poucos anos depois, os ingleses o encarceraram numa priso de Edimburgo. Tinha uma boa casa, uma propriedade cobivel; 
naqueles tempos, isso bastava para que se considerasse traidor um escocs das Terras Altas, fora ou no partidrio dos Stuart. Sua voz tinha ficado rouca. Interrompeu-se 
para pigarrear.
- Simon no teve tanta sorte como eu: morreu no crcere antes que pudessem lev-lo a juzo. Durante algum tempo, a Coroa tratou de confiscar sua propriedade, mas 
Ned Gowan viajou a Edimburgo para defender a Laoghaire; conseguiu salvar a casa e um pouco de dinheiro, alegando que lhe correspondiam por ser sua viva. 
- Ned Gowan? -exclamei com surpresa e prazer- No pode ser que ainda esteja vivo! -Era um cavaleiro mido, j de idade avanada, que assessorava ao cl MacKenzie 
sobre os assuntos legais. Vinte anos antes me tinha salvado de ir  fogueira por bruxa. Jamie sorriu ao ver minha alegria. 
- Oh, sim. Creio que, para acabar com ele, ter que lhe dar uma machadada na cabea.  o mesmo de sempre, ainda que j deva de ter mais de setenta anos.
- Ainda vive no Castelo de Leoch? 
Assentiu, alongando a mo para a jarra. Bebeu com dificuldade. 
- No que resta dele. Mas nestes anos teve que viajar muito, apelando condenaes por traio e pleiteando para recobrar propriedades. -O sorriso de Jamie encerrava 
certa amargura.-Como diz o provrbio: "Depois de uma guerra, primeiro chegam os corvos para comer a carne; depois os advogados para pelar os ossos." Elevou a mo 
direita ao ombro para massage-lo. 
- Mas Ned  um bom homem apesar de sua profisso. Vai e vem de Inverness a Edimburgo; as vezes vai a Londres ou a Paris. E de vez em quando se detm aqui para fazer 
uma parada no caminho.
Foi Ned Gowan quem mencionou Laoghaire quando regressava de Balriggan. Jenny, aguando o ouvido, pediu mais detalhes. Como se estes resultassem satisfatrios, enviou 
a Balriggan um convite para que a viva e suas duas filhas celebrassem o Ano Novo em Lallybroch. 
- Foi aqui -disse Jamie, abrangendo com um movimento da mo s o quarto onde estvamos. -Jenny tinha retirado os mveis. Junto quela janela estava o violinista, 
com a lua nova ao fundo. Assinalou com a cabea a janela onde tremia a roseira. Um pouco da luz daquela festa perdurava em seu rosto; ao v-la senti uma ferroada 
de dor.
-Dancei com Laoghaire quase toda a noite. E ao amanhecer, quando os que ainda estavam despertos foram  porta do fundo para ver os pressgios do Ano Novo, ns o 
seguimos. 
As solteiras, por turnos, davam algumas voltas e cruzavam a porta com os olhos fechados; depois de algumas voltas, abriam os olhos; o primeiro que viam lhes indicava 
com quem se casariam. Entre muitos risos, os convidados, excitados pelo whisky e o baile, foram cruzando a porta. Laoghaire resistia, ruborizada e sorridente, dizendo 
que era um jogo para garotas e no para matronas de trinta e quatro anos; ante a insistncia dos outros, provou. E quando abriu os olhos, seu olhar posou no rosto 
de Jamie. 
-Era uma viva com duas meninas. Precisava de um homem sem dvida alguma. E eu precisava... um pouco. -Contemplou o fogo.-Supus que poderamos ajudar-nos mutuamente. 
Casaram-se discretamente em Balriggan e Jamie mudou para l seus poucos pertences. No passou sequer um ano antes que voltasse a mudar-se, desta vez para Edimburgo.
-Mas o que aconteceu? -perguntei com curiosidade. 
Olhou-me com ar indefeso. 
-No sei o que saiu errado. S sei que nada saiu bem. -Esfregou-se os cenhos, cansado. 
-Creio que foi culpa minha. Sempre a desiludia. No meio do jantar abandonava a mesa, soluando e com os olhos cheios de lgrimas, sem que eu soubesse que tinha feito. 
Nunca soube o que fazer por ela nem o que dizer; s conseguia piorar as coisas. Ela passava dias, semanas inteiras sem falar comigo. Se me aproximava, voltava-me 
as costas. 
Olhou-me com ar astuto. - Voce nunca me fez isso, Sassenach. 
-No  meu estilo. -disse-Ao menos, quando me chateio contigo sabes perfeitamente o porque. 
Recostou-se nos travesseiros ofegante. Ficamos em silncio. Depois continuou, levantando os olhos ao teto: 
-Sempre pensei que preferiria no saber de como era tua vida com ele. Com Frank, quero dizer. Mas talvez tenha me equivocado.
-Te contarei tudo o que quiser saber. - prometi -Mas no agora. Agora cabe a ti. Fechou os olhos suspirando. 
-Tinha medo. Eu tentava trat-la com suavidade. Fiz o quanto pude para satisfaz-la mas no serviu de nada. Talvez tenha sido culpa de Hugh ou de Simon. Ambos eram 
bons, mas nunca se sabe o que se passa no leito conjugal. Ou talvez foi pelo nascimento das filhas; nem todas as mulheres suportam passar por isso. A verdade  que 
tinha uma ferida que eu no podia curar por mais do que me esforasse. Evitava meu contato; nos olhos se via o medo e o asco. Por isso me fui. No pude suport-lo 
mais. 
Sem dizer nada, tomei-lhe a mo procurando-lhe o pulso. Tranqilizou-me senti-lo lento e no compasso. 
-Di muito seu brao? -perguntei. 
-Um pouco.
Inclinei-me para tocar-lhe a testa. Estava quente mas no tinha febre. Alisei a ruga entre as espessas sobrancelhas avermelhadas. 
-E sua cabea, di? 
-Sim. 
-Vou preparar um ch de salgueiro. 
Quis levantar-me mas ele me deteve pelo brao. 
-No preciso de ch. -disse - Mas me aliviaria apoiar a cabea em teu colo e que me aplicasse uma massagem nas tmporas. 
-No me enganas nem por um momento, Jamie Fraser. -disse -No pense que vou esquecer-me da prxima injeo. 
Enquanto falava, afastei a cadeira para sentar-me na beira do catre. Apoiei-lhe a cabea na saia e comecei a acariciar-lhe as tmporas. Deixou escapar um pequeno 
rosnado de felicidade. 
-Oh, que agradvel - murmurou. 
Mesmo pesando a minha deciso de no o tocar mais do que o necessrio at que tivssemos resolvido as coisas, minhas mos seguiram as linhas do pescoo e os ombros. 
-Muito bem -disse ao fim, pegando a ampola de penicilina.
-Uma rpida fincada e... Ao roar a parte dianteira de sua camisola retirei a mo, sobressaltada. 
-Jamie! -exclamei divertida- No pode ser! 
-Suponho que no. -  disse sem alterar-se. Mas sempre se pode sonhar, no? 
Aquela noite tambm no subi para deitar. No conversamos muito; bastava-nos estar juntos naquele catre estreito, quase sem movermos para no piorar o brao ferido. 
O resto da casa estava em silncio. 
-Te imaginas? -murmurou em algum momento da madrugada.
- Sabes o quo difcil que  estar assim com algum e no contar jamais os seus segredos? 
-Sim -respondi pensando em Frank.- Eu sei. 
-Imagine. -Tocou-me o cabelo. - E de repente... recuperar a segurana. Dizer e fazer o que bem quiser, sabendo que  o correto. 
-Dizer "te amo" e diz-lo com todo o corao -disse suavemente.
Sem saber como, descobri-me enroscada contra ele, com a cabea na curva de seu ombro. 
-Durante tantos anos fui tantas coisas, tantos homens diferentes... -Engoliu saliva e mudou de posio. -Era tio para os filhos de Jenny, irmo para ela e seu marido, 
"milord" para Fergus, "senhor" para meus arrendatrios. "Mac Dubh" para os homens de Ardsmuir e "MacKenzie" para os outros serventes de Helwater. Depois, Malcolm 
na tipografia e Jamie Roy nas docas. Acariciou-me lentamente a cabeleira. -Mas aqui -concluiu em voz to baixa que mal pude ouvir-te-, aqui, contigo na escurido... 
no tenho nome. 
-Te amo- lhe disse.














CAPTULO 38
Encontro com um advogado


Tal como tinha previsto, os germes do sculo XVIII no eram preo para os antibiticos modernos. Em vinte e quatro horas a febre tinha desaparecido e durante os 
dois dias seguintes comeou a ceder a inflamao do brao, deixando s um endurecimento ao redor da ferida que supurava levemente quando a apertava. Ao quarto dia, 
segura de que Jamie estava se recobrando, pus um curativo frouxo com ungento de centaura e subi para vestir-me. Ainda que no tivesse anunciado minha inteno de 
ir ao andar superior, quando abri a porta de meu dormitrio encontrei junto a tina uma grande jarra com gua quente e um tablete de sabo. Peguei-o para cheirar: 
fino sabo francs, perfumado com lrios do vale. Era um delicado comentrio sobre minha posio dentro da casa: hspede de honra, sem dvida, mas alheia  famlia, 
que se as arrumava com a habitual mistura de sebo e lixvia.
-Muito bem, j veremos -murmurei enquanto ensaboava o pano para lavar-me. Meia hora depois, enquanto arrumava meu cabelo frente ao espelho, ouvi chegar algum. A 
julgar pelo rudo eram vrias pessoas. Quando desci me encontrei com uma pequena multido de meninos que corriam entre a cozinha e a sala e com algum adulto que 
me olhou com curiosidade. Na sala tinham desmontado o catre; Jamie, j barbeado e com uma camisa de dormir limpa, estava sentado no sof, coberto com uma colcha 
e com o brao esquerdo em tipia. Rodeavam-no quatro ou cinco meninos. -A est! -exclamou com prazer ante minha apario. E todos os presentes se voltaram para 
olhar-me. Suas expresses iam da simptica saudao  surpresa.
-Te lembras do jovem Jamie? -O xar maior assinalou com a cabea a um jovem alto, de ombros largos e negro cabelo encaracolado, que sustentava em braos um vulto 
inquieto. 
- Me recordo desses cachos - respondi sorrindo. - O resto mudou um pouco. 
O jovem Jamie me dedicou um amplo sorriso. 
-Eu me lembro bem, tia - disse com voz profunda. - Sentavas-me em teus joelhos para jogar aos Cinco Porquinhos com os dedos de meu p. 
-No  possvel! -exclamei fitando-o espantada. 
-Podes fazer a prova com nosso pequeno Benjamin - sugeriu o jovem com um sorriso. E se inclinou para depositar cuidadosamente o vulto em meus braos. Uma cara muito 
redonda se ergueu para mim, com esse ar de aturdimento to comum entre os recm nascidos. Benjamin parecia um pouco confuso ante a brusca mudana de braos, mas 
no se ops. Um menininho loiro se reclinava no joelho de Jamie olhando-me com estranheza.
-Quem  essa, tio? -perguntou com um sussurro bem audvel. 
- tua tia av Claire -respondeu Jamie com gravidade. - Suponho que j te falaram dela. 
-Ah, sim -confirmou o menino com grandes acenos de cabea. -  to velha como a vov? 
- Mais velha ainda - informou Jamie, assentindo com igual solenidade. 
O garoto me olhou boquiaberto. Depois se voltou para Jamie com a cara franzida por um gesto zombador. 
-No caoes, tio! No pode ser to velha como a vov! Nem tem cabelos brancos! -Obrigada, filho - lhe disse com um radiante sorriso. 
-Ests seguro de que  ela? -insistiu o menino, olhando-me com ar dubitativo. -Mame diz que a tia av Claire era uma bruxa. E esta senhora no parece. No tem nenhuma 
verruga no nariz!
-Obrigado - repeti pouco mais seca. - E tu, como se chama? 
Escondeu a cara na manga de Jamie, negando-se a falar. 
- Angus Walter Edwin Murray Carmichael - apresentou seu tio av, revolvendo-lhe o sedoso cabelo loiro. -O filho mais velho de Maggie, e vulgarmente conhecido pelo 
apelido de Wally. 
-Ns o chamamos de Empapado. - esclareceu uma pequena ruiva, junto a meu joelho,- porque sempre tem o nariz cheio de melecas. 
Angus Walter fulminou a sua prima com os olhos, vermelho como uma espinha. 
-No  verdade! -gritou. -Retire isso! 
E sem dar-lhe tempo de faz-lo, jogou-se contra ela com os punhos apertados. 
-s meninas no se pega -lhe disse Jamie, pegando-o pela gola da camisa. 
-No  prprio de homens. 
-Mas disse que sou um melequento! -gemeu Angus Walter. - Tenho que lhe pegar!
-E no  de boa educao fazer comentrios sobre o aspecto pessoal dos demais, senhorita Abigail -adicionou Jamie, dirigindo-se  menina. -Deves desculpar-te com 
teu primo. 
-Mas se  verdade! -protestou Abigail. 
Ao ver o olhar severo de seu tio av, baixou os olhos e se ps vermelha. 
- Perdo, Wally. 
Ao princpio o menino no pareceu disposto a dar-se por satisfeito, mas Jamie o persuadiu prometendo contar-lhe um conto. 
-O do duende e o ginete! - pediu a ruiva. 
-No! O do diabo que jogava ao xadrez! -interveio outro. 
- O conto  para Wally - apontou Jamie com firmeza- Que escolha ele. 
Puxou um leno limpo e o ps no nariz de Wally, bastante indecoroso, por verdadeiro, e ordenou baixinho: 
-Sopre. -Depois, em voz mais alta: - Diga-me que conto preferes, Wally.
Depois de assoar o nariz, o menino disse: 
-O de Santa Bride e os gansos, por favor, tio. 
Jamie me procurou com um olhar pensativo. 
-Muito bem. -comeou. 
-Faz muito tempo, centenas de anos, mais dos que possam imaginar, Bride pisou na rocha das Terras Altas junto com Miguel, o Bendito... 
Naquele momento Benjamin comeou a farejar o peitilho do vestido, de maneira que sa a procura de sua me. Encontrei  senhora em questo na cozinha, misturada com 
um grupo de mulheres e jovenzinhas; depois de entregar-lhe o menino se iniciaram as apresentaes, as saudaes e esse tipo de ritos que ns mulheres utilizamos 
para avaliar-nos mutuamente, com ou sem discrio.Todas se mostraram muito cordiais; era evidente que sabiam quem era eu, pois no denotavam surpresa ante a volta 
da primeira esposa de Jamie, seja de entre os mortos ou da Frana, segundo o que se lhes tivessem dito.
No entanto, ainda que me tratassem com grande amabilidade e cortesia, tinha olhadas de soslaio e discretos comentrios em galico. Mas o mais estranho era a ausncia 
de Jenny, a alma de Lallybroch. Evitava-me desde meu regresso com o jovem Ian; provavelmente era natural, dadas as circunstncias. Eu tambm no tinha procurado 
um encontro com ela. Ambas sabamos que era preciso ajustar contas mas nenhuma procurava a oportunidade. A cozinha era acolhedora... talvez at demais. Quando algum 
mencionou que fazia falta uma jarra de creme para os bolos, aproveitei a oportunidade de escapar oferecendo-me para traz-la da ala onde se guardava o leite.
Depois de ter estado submersa no barulho da cozinha, o ar frio e mido me era to refrescante que passei um minuto arejando as anguas impregnadas de cheiro de comida 
antes de continuar meu caminho. A ala do leite estava a certa distncia da casa, prxima do estbulo onde se alojavam as ovelhas e as cabras. Nas Terras Altas, os 
bovinos se criavam por sua carne, pois o leite de vaca s se considerava adequado para os invlidos. Com surpresa, ao sair da ala vi Fergus reclinado no muro do 
ptio, contemplando com ar amuado as ovelhas. As valiosas ovelhas merinas, s que Jenny mimava mais do que a seus netos, me cercaram em massa, balindo freneticamente 
com a esperana de receber algum bocado extraordinrio. 
Fergus lanou um olhar malvolo.
-Bestas inteis, ruidosas e malemolientes - disse. 
Pareceu-me bastante ingrato, considerando que sua manta e suas meias deviam ser tecidos com sua l. 
-Alegro-me de voltar a ver-te, Fergus - comentei sem prestar ateno ao seu mau humor. -Sabe que Jamie est aqui? 
Se acabava de chegar, o que saberia dos ltimos acontecimentos? 
-No -reconheceu com desassossego. - Suponho que deveria diz-lo. 
Mas no fez jeitos de ir para a casa. Era bvio que algo lhe inquietava. Perguntei-me se sua misso teria fracassado. 
-Encontraste o senhor Gage? 
Por um momento pareceu no compreender; depois voltou a sua cara uma chispa de animao. 
-Ah, sim. Milord estava certo; fui com Gage para prevenir aos outros membros da Sociedade. Depois fomos  taberna onde deviam reunir-se. E tal como espervamos tinham 
vrios homens da Alfndega disfarados. Podem esperar tanto como seu colega, o do tonel!
O brilho de selvagem diverso se apagou em seus olhos com um suspiro. 
-No podemos pretender que nos paguem pelos panfletos, por suposto. E ainda que a imprensa tenha se salvado, s Deus sabe quanto demorar para milord restabelecer 
a tipografia. 
Surpreendeu-me seu ar de luto. 
-Mas voc no ajuda na tipografia? -perguntei. 
Encolheu um ombro. 
-No posso dizer que ajude, milady. Mas milord teve a gentileza de permitir-me investir ali uma parte de meus ganhos com o conhaque. Com o tempo devo chegar a ser 
um verdadeiro scio. 
-Compreendo -sussurrei solidria. 
-Precisas de dinheiro? Eu poderia... Jogou-me um olhar surpreso. 
-Obrigado, milady, mas no. Para meus gastos preciso muito pouco e tenho o suficiente. -Deu uma palmada no bolso de seu casaco, que emitiu um repique reconfortante. 
Depois disse com lentido. 
- que... bom, o negcio da tipografia  muito respeitvel, milady.
-Suponho que sim. 
Captou meu tom intrigado e esboou um sorriso lgubre. 
-Lhe direi qual  o problema, milady. Enquanto o contrabando rende rendimentos mais do que suficientes para manter a uma esposa, dificilmente parecer uma profisso 
atraente aos pais de uma dama respeitvel. 
-Aah! -exclamei. 
Agora via as coisas claras. 
- Queres se casar? Com uma dama respeitvel? Assentiu com certa timidez. 
-Sim. Mas sua me no me aceita. Bem pensado, no se podia criticar  me da jovenzinha. Fergus era dono de uma beleza morena e um porte deslumbrante que bem podiam 
conquistar a uma moa, mas carecia de certas coisas que os pais escoceses consideravam atraentes: propriedades, rendimentos estveis, mo esquerda e sobrenome.
-Se eu fosse scio de uma prspera tipografia, a sim a boa senhora poderia tomar em conta minhas pretenses. -explicou. - Mas tal como esto as coisas... -Mexeu 
a cabea, desconsolado. 
Dei-lhe uma palmada compreensiva no brao. 
-No te preocupes.Logo nos ocorrer algo. Sabe Jamie dessa moa? Sem dvida aceitaria falar com sua me em teu nome. 
Para surpresa minha, ps cara de alarme. 
-Oh, no, milady! No lhe diga nada, por favor. Nestes momentos tem coisas bem mais importantes para pensar. 
Provavelmente estava certo, mas sua veemncia me surpreendeu. Ainda assim concordei em no dizer nada a Jamie. 
-Talvez mais adiante, milady -disse. - Pelo momento, creio que no sou companhia adequada nem to sequer para as ovelhas. 
E se afastou para o pombal com um profundo suspiro.
Fiquei surpresa ao encontrar Jenny na sala, com Jamie. Tinha estado fora; tinha as bochechas e a ponta do nariz avermelhado pelo frio. 
-Mandei o jovem Ian que selasse Donas -disse a seu irmo com o cenho franzido. -Poders caminhar at o celeiro, Jamie, ou  melhor que traga o cavalo at aqui? Olhou-a 
com uma sobrancelha em alto. 
-Posso caminhar at onde faa falta, mas no penso ir a nenhuma parte. 
-No te disse que vem para c? -protestou Jenny, impaciente. 
-Ontem  noite veio Amyas Kettrick dizendo que chegava desde Kinwallis e que Hobart tinha inteno de vir hoje. -Deu uma olhada ao bonito relgio esmaltado da estante. 
- Se saiu depois do caf da manh, estar aqui dentro de uma hora. 
Jamie reclinou a cabea no sof. 
-J te disse, Jenny, que Hobart MacKenzie no me assusta. Que me crucifiquem se fujo dele! 
Olhou-o com frieza.
-Ah, sim? Laoghaire tambm no te assustava. E olhe s o que aconteceu! -Assinalou com a cabea o brao na tipia. 
A seu pesar, Jamie curvou a boca. 
-Bem, isso  verdade -reconheceu. -Por outro lado, Jenny, bem sabes que nas Terras Altas as armas de fogo escasseiam mais do que os dentes de galinha. Se Hobart 
quer matar-me, no creio que se atreva a pedir-me a pistola emprestada. 
- No creio que se incomode; no far mais do que entrar e atravessar-te a garganta como um ganso que s! - espetou ela. 
Jamie se lanou a rir e recebeu um olhar fulminante. Aproveitei aquele momento para intervir: 
-Quem  Hobart MacKenzie? E por que quer atravessar-te como a um ganso? 
Jamie girou a cabea para mim com expresso divertida. 
-Hobart  o irmo de Laoghaire, Sassenach -explicou. 
- Quanto a isso de atravessar-me... 
-Vive em Kinwallis. Laoghaire o mandou chamar -interrompeu Jenny-, e lhe contou... tudo isto.
-A idia  que Hobart deve vir limpar a honra de sua irm eliminando-me. 
A perspectiva parecia divertir a Jamie. Mas eu no estava to segura e Jenny tambm no. 
-Esse Hobart no te preocupa? -perguntei. 
-No, claro que no. -Parecia um pouco irritado. 
Voltou-se para sua irm. 
-Por Deus, Jenny, j conheces a Hobart MacKenzie! Esse homem no  capaz de matar nem um leito sem amputar seu prprio p. 
-Hum... -sussurrou ela. 
-Suponha que venha por ti e tu o matas. Que acontecer, ento? 
-Ele ser homem morto, suponho. 
-E te enforcaro por assassinato. Ou ters que fugir, perseguido por todos os parentes de Laoghaire. Queres iniciar uma guerra entre cls? 
-O que quero -contestou ele com pacincia-  tomar caf da manh. Vais dar-me de comer ou queres que eu desmaie de fome para poder esconder-me no "buraco do padre" 
at que Hobart se v?
-No  m idia -reps ela, encarando seus ouvintes num sorriso desenganado. -Se pudesse arrastar tua renitente pessoa at ali, te faria dormir com uma bofetada! 
-Mexeu a cabea com um suspiro. 
- Est bem, Jamie. Que seja como quer. Mas no faas nada que estrague meu bonito tapete turco, ok? 
-Prometido, Jenny. Derramar sangue na sala  de m educao. 
Ela soltou um bufado. 
-Idiota -disse sem rancor.-Farei que Janet te traga o porridge. 
E desapareceu num redemoinho de saias e anguas. 
-Dornas? -perguntei olhando-o com estranheza. -No pode ser o mesmo cavalo do que te apoderaste em Leoch! 
-Oh, no. -Jamie jogou a cabea atrs para sorrir-me. -Este  o neto de Dornas..., um deles. Os potros levam o mesmo nome em sua honra. 
Inclinei-me para revisar-lhe o brao e fez uma careta. 
-Di? 
-Tinha melhorado. 
No dia anterior, a zona dolorida era bem maior. 
-No muito. -Tirou a tipia e esticou o brao com um gesto de dor. 
-Creio que ainda no posso trabalhar de saltimbanco. 
Comecei a rir. 
-No, creio que no. -vacilei -Escuta... esse tal Hobart, ests seguro de que no...? -Estou seguro. E ainda que no o estivesse, primeiro preciso tomar caf da 
manh. No vou permitir que me matem com o estmago vazio. 
Ri outra vez, mais calma. 
-Te trarei - prometi. 
Ao sair para o vestbulo vi mover-se algo por trs de uma janela. Era Jenny, com manto e capuz, que subia a costa para o estbulo. Por um sbito impulso, peguei 
um capote do cabideiro e corri atrs dela.
Tinha um par de coisas que falar com Jenny Murray e essa podia ser minha melhor oportunidade de estar a ss com ela. Alcancei-a ante a porta do celeiro; ao ouvir 
meus passos girou ao redor, sobressaltada, e deu uma olhada a seu arredor. 
-Vou dizer ao jovem Ian para retirar as selas do cavalo -disse ao ver que estvamos a ss. 
- Tenho que voltar ao poro para procurar cebolas para uma torta. Me acompanha? -Vou contigo. -Fechando o manto para defender-me do vento, segui-a ao interior do 
estbulo. 
Ian filho estava esparramado sobre um monto de palha fresca. Em seu cubculo, um alazo de olhos ternos mascava seu feno, sem cadeira nem brida. 
-No te mandei preparar a Dornas? -perguntou ela com voz spera. 
O garoto coou a cabea, ligeiramente intimidado. 
-Sim, mame. Mas acreditei que no valia a pena. 
-No? E por que? 
Encolheu-se de ombros com um sorriso.
-Sabes perfeitamente que tio Jamie no foge de ningum, muito menos de tio Hobart, no sabe? -apontou com suavidade, Jenny suspirou .
-Sim, pequeno Ian, eu sei. -Sua mo acariciou a bochecha de seu filho.
-V em casa e tome um segundo caf da manh com teu tio. Tua tia e eu iremos ao poro. Mas se chegar o senhor Hobart, no esqueas vir avisar-me imediatamente, entendes? 
-Sim, mame. 
O garoto saiu disparado para a casa, movendo-se com a torpe graa de um filhote de cegonha. Jenny mexeu a cabea com o sorriso ainda nos lbios. 
-Doce criatura! -murmurou. 
Depois, recordando as circunstncias, voltou-se para mim com ar decidido. 
-Vamos, pois suponho que queiras falar comigo, no?
Nenhuma das duas disse nada at que chegamos ao calmo santurio do poro, onde se armazenavam as provises. 
-Recordas que me sugeriste plantar batatas? -comentou Jenny, passando uma mo pelos montes de tubrculos. 
-Foi um acerto; aquela colheita de batatas nos manteve com vida mais de um inverno, depois de Culloden. 
Ficou um silncio. 
Por fim perguntei, sem levantar a voz: 
-Por que? Por que o fizeste? Arranquei uma das cebolas tranadas. 
-Por que fiz o qu? funcionar de casamenteira entre meu irmo e Laoghaire? -Jogou-me um olhar interrogante mas de imediato voltou  trana de cebolas.
-Tens razo: ele no teria casado se no fosse por mim. 
-Voc o obrigou -disse. 
-Estava muito s -explicou com voz suave.-Muito s. No suportava v-lo assim. No sabes quanto tempo chorou por ti.
-Eu acreditava que tinha morrido - disse contestando  tcita acusao. 
-Pouco lhe faltou. -Suspirou apartando-se uma mecha de cabelo escuro. -Caram tantos em Culloden... Ele pensava o mesmo de ti. Mas estava ferido, e no falo da perna. 
Depois, quando voltou da Inglaterra... - Sacudiu a cabea e me jogou um olhar de soslaio-. Parecia estar muito bem, mas... no  o tipo de homem que possa dormir 
s, verdade? 
-Verdade -reconheci - Mas ns dois estvamos vivos. Por que avisaste a Laoghaire quando voltamos com teu filho? 
Jenny demorou em responder. Seguia arrancando cebolas. 
-Eu ia com a sua cara. - reconheceu em voz to baixa que mal a ouvi. -Antes, quando vivias aqui com Jamie, queria-te muito. 
-Eu tambm a ti -assegurei com a mesma suavidade. -Por que, ento? 
Ela me olhou apertando os punhos. 
-Fiquei aturdida quando Ian me disse que tinhas voltado. Ao princpio me entusiasmei; queria ver-te, saber onde tinhas estado...
Ergueu as sobrancelhas a modo de pergunta. Ante minha falta de resposta continuou: -Mas depois tive medo. Porque tinha te visto, sabes? Quando se casou com Laoghaire. 
Estavas entre os dois, frente ao altar,  esquerda de Jamie. Ento soube que voltarias para recuper-lo. 
Senti que se me arrepiava o cabelo da nuca. Ela mexeu lentamente a cabea; a recordao a tinha feito empalidecer. Sentou-se num barril, com o capote estendido ao 
redor como uma flor. 
-No nasci com o dom da vidncia; tambm no me sucede habitualmente. Aquela foi a primeira vez e espero que seja a ltima. Mas te vi ali com tanta clareza como 
te vejo agora, e levei tamanho susto que sa da igreja no meio dos votos. -Engoliu a saliva. -No sei quem s nem... nem o que s. No conhecemos a tua famlia. 
No sabemos de onde vens. Nunca to perguntei, verdade? Jamie te escolheu, isso foi suficiente. Mas te foste e, depois de tanto tempo..., supus que te teria esquecido 
o suficiente para voltar a casar-se e ser feliz.
-Mas no foi assim- apontei esperando confirmao. 
Ela sacudiu a cabea. 
-No. De qualquer modo, Jamie  um homem fiel. Apesar de seu, tinha prometido cuidar de Laoghaire e nunca a abandonaria de tudo. Ainda que vivesse em Edimburgo, 
eu estava segura de que sempre voltaria aqui, s Terras Altas. Ento regressaste. 
Tinha as mos quietas no colo. 
-Sabes que, em toda minha vida, nunca me afastei mais de quinze quilmetros de Lallybroch? 
-No sabia -reconheci sobressaltada. 
-Voc sim. Suponho que viajaste muito. -Avaliando o meu rosto, procurando pistas. 
- verdade. Assenti, pensativa.
-E irs outra vez -sussurrou. -Estava segura de que voltarias a ir embora. No ests atada a estes lugares, como Laoghaire, como eu. Ento ele seguiria contigo e 
eu jamais o reveria. Por isso o fiz. Imaginei que quando soubesses de seu casamento com Laoghaire, te fosse de imediato e Jamie ficaria. Mas voltaste. -Encolheu 
os ombros, indefesa.  -Agora compreendo que no serve de nada. Est preso a ti. s sua esposa, para bem ou para mau, e se te vais, ele ir contigo. 
Procurei inutilmente algumas palavras para reconfort-la. 
-No quero ir. S quero ficar com ele... para sempre. Apoiei uma mo em seu brao. Ela ficou tensa mas por fim acabou enlaou os dedos com os meus.
-Dizem muitas coisas diferentes sobre a vidncia, verdade? - comentou depois de uma pausa- Alguns dizem que est escrito: o que vs  o que vai suceder. Outros dizem 
que no, que  s uma advertncia. Se lhe prestar ateno podes mudar as coisas. O que voc acha ? 
Olhava-me de soslaio, com curiosidade.
-No sei -reconheci com voz trmula. -Sempre pensei que, sabendo as coisas com antecipao, era possvel mud-las. Mas agora... nosei -conclu com tristeza, pensando 
em Culloden. 
Jenny me observava; seus olhos azuis estavam to escuros que pareciam negros. Voltei a me perguntar o que saberia pela boca de Jamie... e o que a partir da teria 
adivinhado por sua conta. 
-Mas h de tent-lo- disse com segurana.-No podes permitir que simplesmente acontea, no ? 
Eu ignorava se era uma referencia pessoal mas sacudi a cabea. 
-Tens razo. H de se tentar. Sorrimo-nos com certa timidez. 
-Cuidars bem dele? - perguntou ela subitamente. -Ainda que partam? 
Estreitei-lhe os dedos frios. 
-Prometo -disse. 
-Nesse caso, tudo vai bem -assegurou devolvendo-me o gesto. 
Estivemos um momento assim, pegadas pelas mos, at que a porta do poro se abriu de par em par, deixando entrar uma rajada de ar carregada de chuva.
-Mame? -O jovem Ian assomou a cabea com os olhos brilhantes de excitao. - Chegou Hobart MacKenzie! Diz papai que vem em seguida! 
-Est armado? -perguntou ela levantando-se com nervosismo. -Traz pistola ou espada? 
Negou com a cabea, fazendo voar o cabelo escuro. 
-Oh, no, mame. A coisa  ainda pior: trouxe um advogado. 
Era difcil imaginar algum menos propenso  vingana que Hobart MacKenzie. Tinha uns trinta anos; era de ossos pequenos e plidos e olhos lacrimosos; suas feies 
indecisas se iniciavam numa calvcie incipiente e terminavam num queixo igualmente escasso que parecia tratar de esconder-se entre os vincos de sua papada. 
-Senhora Jenny -saudou com uma reverncia.
Os olhinhos de coelho se desviaram para mim e me abandonaram de imediato, como desejando que minha presena no fosse real. Com um profundo suspiro, Jenny pegou 
o touro pelos cornos. 
-Senhor MacKenzie -saudou com uma reverncia formal. - Permita-me apresentar-vos a Claire, minha cunhada. Claire, o senhor Hobart MacKenzie, de Kinwallis. 
Limitou-se me olhar, boquiaberto. 
- um prazer -improvisei com meu sorriso mais cordial. -Eh... -Tentou uma inclinao de cabea. 
-Hum... ao seu servio... senhora. 
Por sorte, naquele momento se abriu a porta da sala. Ante a pequena e pulcra silhueta emoldurada pelo vo, deixei escapar uma exclamao de prazer. 
-Ned! Ned Gowan!
Era ele: o ancio advogado de Edimburgo que, em outros tempos, tinha-me salvado da fogueira  que iam condenar-me por bruxa. Apesar das rugas, seus olhos eram os 
de sempre: negros e brilhantes; fixaram-se em mim com expresso de alegria.
 -Querida minha! -exclamou adiantando-se a passo rpido. 
Tomou-me a mo para levar-se aos lbios secos com fervorosa galanteria. -Tinham-me dito que vos... -Como  possvel que estejais...? -... um prazer to grande v-la! 
-... feliz por este reencontro, mas... 
Hobart MacKenzie tossiu para interromper este entusistico dilogo. O senhor Gowan levantou os olhos com sobressalto. 
-Ah, sim, por suposto. Os negcios primeiro, querida -disse. -Depois, se o permitir, terei o gosto de escutar o relato de vossas aventuras. 
-Eh... farei o possvel -disse perguntando-me o que queria saber. 
-Estupendo, estupendo.
O velhinho deu uma olhada para o corredor, onde Jenny tinha pendurado seu manto e estava arrumando o cabelo. 
- Os senhores Fraser e Murray j esto na sala. Senhor MacKenzie, se vos e as senhoras aceitam se reunir conosco quem sabe possamos resolver este assunto sem perda 
de tempo e passar  questes mais agradveiss. Me concedeis a honra, querida? -disse oferecendo-me seu brao ossudo. 
Jamie continuava no sof como o tinha deixado... isto : vivo. Os meninos tinham desaparecido, exceo feita de um pequeno gorducho que dormia encolhido em seu colo. 
Sentei-me numa almofada junto ao sof. No acreditava que Hobart MacKenzie tentasse nenhuma agresso mas preferia estar perto pelo talvez. Os outros participantes 
j se tinham instalado na sala: Jenny, junto a Ian, no outro sof; Hobart e o senhor Gowan, em seus cadeires de veludo.
-Estamos todos reunidos? -perguntou o advogado. -Todas as partes interessadas? Excelente. Bem, devo comear por estabelecer minha prpria posio. Vim como advogado 
do senhor Hobart MacKenzie, representando os interesses da senhora Fraser. -Ao ver que eu dava um respingo aclarou: 
-Da segunda senhora Fraser, de solteira Laoghaire MacKenzie. Ficou claro?- Deu uma olhada inquisitiva a Jamie, quem assentiu. 
-Claro. -Bem. -O senhor Gowan pegou um copo e bebeu um gole. -Meus clientes, os MacKenzie, aceitaram minha proposta de procurar uma soluo legal a esta confuso 
que, segundo tenho entendido,  resultado da apario sbita e inesperada... ainda que muito grata e afortunada, por verdadeiro... -adicionou enquanto me fazia uma 
reverncia- da primeira esposa de James Fraser.
Depois dedicou a Jamie um gesto de censura. 
-Lamento dizer, meu querido jovem, que voc se meteu em considerveis apertos legais. 
Olhou a sua irm com uma sobrancelha em alto. 
-Bem, tive alguma ajuda - disse secamente.-Quais so essas dificuldades?
-Para comear - especificou Ned Gowan alegremente,- a primeira senhora Fraser est em todo seu direito de iniciar aes legais contra voce, acusando-o de adultrio 
e fornicao, pelo qual poderia corresponder uma pena de... 
Jamie lanou um relmpago azul em minha direo. 
-Isso no me preocupa muito -disse ao advogado. -Que mais? 
- Com respeito  segunda senhora Fraser, Laoghaire MacKenzie, poderia acusa-lo  de bigamia, inteno de enganar e fraude, intencional ou no, traio e... J tinha 
levantado o quarto dedo e se estava preparando para mais. 
Jamie interrompeu a recontagem com uma pergunta: -Diga-me, Ned: que diabos quer essa maldita mulher? 
O advogado piscou.
-Bem, a vontade que expressa a senhora -disse circunspecto-  de te  castrar e de te estripar na praa de Broch Mordha, alm de ver sua cabea num poste junto ao 
seu porto. 
- Compreendo -disse torcendo a boca. Um sorriso uniu as rugas de Ned. 
-Vi-me obrigado a informar  senhora F... eh...  dama que a lei lhe outorga remdios um pouco mais limitados. 
-Sei -comentou Jamie.-Mas a idia geral, suponho,  que j no deseja recuperar-me como esposo. 
-No - interveio Hobart -Como carnia para corvos, poderia ser, mas como esposo, jamais. 
Ned lhe deu uma olhada fria. 
-Rogo-vos que no comprometas vosso caso fazendo concesses antes de ter chegado a um acordo -reprovou.- Caso contrrio, para que me pagas? 
E se voltou para Jamie, impoluto em sua dignidade profissional.
-Enquanto a senhorita MacKenzie no deseja retomar a relao conjugal com vos... coisa que, de qualquer modo, seria impossvel a no ser que voce se divorcisse 
da atual senhora Fraser para voltar a se casar... 
-Nada mais longe de minha inteno -assegurou precipitadamente Jamie. 
-Nesse caso -prosseguiu Ned,- devo informar aos meus clientes que o mais conveniente  evitar o custo e a publicidade de um pleito. Portanto... 
- Quanto? - interrompeu Jamie. 
-Senhor Fraser! -Agora Ned Gowan se mostrava escandalizado.- Ainda no mencionei nenhuma demanda pecuniria. 
-S porque ests muito ocupado em se divertir, velho vigarista -exclamou Jamie, irritado, mas sem perder o sentido do humor. -Vai direto ao ponto, por favor? 
Ned inclinou cerimoniosamente a cabea.
-Bem,  necessrio compreender que, se a senhorita MacKenzie e seu irmo obtivessem uma sentena favorvel num pleito como o descrito, poderiam fazer-vos pagar uma 
indenizao muito substanciosa. Depois de tudo, alm de ver-se submetida ao ridculo e  humilhao pblica, a senhorita MacKenzie corre tambm o risco de perder 
seu principal meio de subsistncia... 
-No corre tal risco -interrompeu Jamie acalorado.- Eu lhe disse que seguiria mantendo-as, a ela e s meninas! Por quem me tomas?
Ned trocou um rpido olhar com Hobart, que mexeu a cabea. 
- melhor que no o saiba -assegurou.    
      - Ignorava que minha irm conhecesse essas palavras. Mas estas disposto a pagar? 
-Estou. -S at que ela volte a casar-se. -Todas as cabeas se voltaram para Jenny, que fez um gesto firme a Ned Gowan. 
-Se Jamie estava casado com Claire, seu casamento com Laoghaire no tem nenhuma validade, verdade?
-Verdade, senhora Murray. -Nesse caso -esclareceu Jenny, - pode voltar a casar-se imediatamente. E quando casar, meu irmo no deve estar obrigado a manter sua casa. 
- Excelente observao, senhora Murray. - O advogado pegou sua pluma para rabiscar com afinco. - Bem, estamos progredindo - declarou radiante -O seguinte ponto a 
cobrir... 
Uma hora depois, o garrafo de whisky estava completamente vazio, a mesa carregada de papeladas legais e todo mundo exausto...  exceo de Ned, que se mantinha 
to vivaz e despejado como sempre. 
-Excelente, excelente - declarou outra vez recolhendo as folhas para p-las em ordem. - Portanto, os pontos principais do acordo so os seguintes: o senhor Fraser 
aceita pagar  senhorita MacKenzie a soma de cem libras como compensao pelos prejuzos e molstias ocasionados e pela perda de seus servios matrimoniais.
Ante isto Jamie soltou um leve bufido que o advogado fingiu no escutar. 
-E por acrscimo, aceita manter seu lar a razo de cem libras anuais, pagamento que cessar no momento em que a senhorita MacKenzie voltar a civilizar um matrimnio. 
O senhor Fraser aceita assim mesmo fixar, para cada uma das filhas da senhorita MacKenzie, uma dote adicional de trezentas libras. E finalmente, renuncia a apresentar 
demandas legais contra dita senhorita por tentativa de assassinato. Ela, a seu turno, libera o senhor Fraser de qualquer outra reclamao. Compreendes tudo isto 
e estas disposto a consentir, senhor Fraser? -inquiriu. 
- Consinto - disse Jamie. 
Fazia muito tempo que estava de p; tinha a cara plida e a testa coberta de suor, mas se mantinha erguido com o menino dormido no colo.
-Excelente -repetiu Ned. E se levantou para dedicar-nos uma sorridente reverncia. - Esse delicioso aroma, indica que h nas cercanias uma perna de cordeiro, senhora 
Jenny? 
Sentei-me  mesa, com Jamie de um lado e ao outro Hobart MacKenzie, j descontrado e com boa cor. 
-A soluo  cas-la quanto antes -declarou Jenny. 
Filhos e netos j estavam deitados; com a partida de Ned e Hobart para Kinwallis, ficvamos s ns quatro junto ao brandy e os bolos com creme. Jamie se voltou para 
sua irm. 
-Formar casais  tua especialidade, no? -disse. -Suponho que, se te propes, podes encontrar a um ou dois homens adequados para esse trabalho. 
-Suponho que sim -confirmou sem afastar os olhos de seu bordado. - O que me pergunto  de onde vais tirar mil duzentas libras, Jamie.
Era o mesmo que eu estava pensando. 
-Bem, s se pode retirar de um lugar, no? -Ian passou o olhar entre sua esposa e seu cunhado. Depois de um breve silncio, Jamie assentiu. 
-Suponho que sim -disse com desanimo. 
Olhou a janela, onde a chuva castigava os vidros. 
-Mas ainda no  boa poca para isso. 
Ian se encolheu de ombros. 
-Dentro de uma semana comear a mar de primavera. 
Jamie franziu o cenho. Parecia preocupado. 
-Sim,  verdade, mas... 
-No h quem tenha mais direito do que tu sobre isso, Jamie -observou o cunhado com um sorriso, estreitando-lhe o brao so. 
- Estava destinado aos seguidores do prncipe Carlos, no? E tu foste um deles, queira ou no. 
Respondeu-lhe com um sorriso melanclico.
 - verdade -suspirou. -De qualquer modo, no me ocorre outra sada.
Olhou a seus parentes como se duvidasse em adicionar algo. A irm, que o conhecia ainda melhor do que eu, afastou os olhos de seu labor para fincar-lhe um olhar 
agudo. - O que  ests pensando, Jamie? 
Respirou fundo. 
-Quero levar o jovem Ian comigo. - disse. 
-No -replicou Jenny instantaneamente. 
-J tem idade para isso, Jenny - observou Jamie baixinho. 
-No  verdade! Mal tem quinze anos. 
Michael e Jamie tinham dezesseis e estavam mais desenvolvidos. 
-Sim, mas o pequeno Ian nada melhor do que seus irmos - interveio Ian, judiciosamente, com a testa enrugada. - Depois de tudo, tem que ser um dos moos. Jamie no 
pode nadar nestas condies. E Claire tambm no. 
-Nadar? -exclamei completamente desconcertada -Nadar onde? 
Por um momento Ian pareceu surpreso; depois olhou para Jamie, erguendo as sobrancelhas. 
-No contou para ela? 
Sacudiu a cabea. 
-Sim, mas no tudo. -Voltou-se para mim - Falamos do tesouro, Sassenach; o ouro das focas.
Como Jamie no pode levar o tesouro consigo, tinha voltado a escond-lo em seu lugar antes de regressar a Ardsmuir. 
-No sabia que fazer com ele -explicou. - Duncan Kerr o deixou a meu cargo, mas eu ignorava a quem pertencia, quem o ps ali e no sabia o que fazer com ele. "A 
bruxa branca", foi o que disse Duncan. E a meu modo de ver isso se referia s a voce, Sassenach. 
Contrrio a utilizar o tesouro em proveito prprio mas com a idia de que algum devia estar inteirado de sua existncia, caso ele morresse na priso, Jamie tinha 
enviado a Lallybroch uma carta cuidadosamente codificada, indicando-lhes a localizao do tesouro e o uso ao que, provavelmente, estava destinado. Naquela poca 
os tempos eram duros para os jacobitas; ainda piores para quem tinham escapado para a Frana, deixando para trs terras e fortuna, que para quem permanecia nas Terras 
Altas, enfrentando a perseguio inglesa. Mais ou menos ao mesmo tempo, Lallybroch sofreu duas pssimas colheitas consecutivas. Da Frana chegavam cartas que solicitavam 
qualquer socorro possvel para os colegas que corriam perigo de morrer de fome.
-No tnhamos nada que enviar; na realidade, aqui tambm estavam todos prximo de passar fome - explicou Ian. -Me comuniquei com Jamie; ele disse que talvez no 
fosse mal utilizar uma pequena parte do tesouro para ajudar os seguidores do prncipe Tearlach. 
Ian tinha cruzado Esccia com Jamie, seu filho maior, para a enseada das focas. Por temor que se filtrasse alguma notcia sobre o tesouro, no pediram um bote aos 
pescadores: foi o moo quem nadou at a rocha das focas, tal como o tinha feito seu tio vrios anos atrs. Encontrou o tesouro em seu lugar; guardou duas moedas 
de ouro e trs das gemas menores num saco que levava atado ao pescoo, deixou o resto do tesouro e voltou contra corrente, chegando exausto  costa. Dali foram a 
Inverness para embarcar para Frana, onde o primo Jared Fraser, que prosperava em seu desterro como mercador de vinhos, ajudou-lhes a converter discretamente em 
dinheiro as moedas e as jias, assumindo a responsabilidade de distribu-lo entre os jacobitas precisados.
Desde ento, Ian tinha efetuado trs vezes a trabalhosa viagem at a costa com um de seus filhos. Em cada oportunidade tinha pego uma pequena parte da fortuna oculta, 
a fim de cobrir alguma necessidade. Em duas ocasies o dinheiro foi para a Frana para os amigos que passavam apertos; a outra parte foi usada para comprar sementes 
e o alimento necessrio para que os arrendatrios pudessem sobreviver ao longo inverno, depois do fracasso da colheita de batatas em Lallybroch. S Jenny, Ian e 
os dois filhos maiores, Jamie e Michael, conheciam a existncia do tesouro. Agora era a vez do jovem Ian. 
-No. - repetiu Jenny. 
Mas me deu a impresso de que j no estava muito convencida. Ian assentia com a cabea, pensativo. 
-Voc o levaria tambm  Frana, Jamie?
-Sim. Devo manter-me longe de Lallybroch durante algum tempo, pelo bem de Laoghaire. No posso viver aqui com Claire, ante seus mesmos narizes, ao menos at que 
ela esteja devidamente casada. -Dirigiu-se a seu cunhado. 
-No te contei tudo o que aconteceu em Edimburgo, Ian, mas creio que, pensando-o bem, convm-me afastar-me tambm dali por um tempo. 
Eu tratava de digerir estas notcias. At ento ignorava que Jamie tivesse intenes de abandonar Lallybroch e a Esccia. 
-Que est pensando em fazer, Jamie? -Jenny j no fingia que bordava e mantinha as mos quietas sobre seu colo. 
Ele esfregou o nariz com expresso de cansao. 
-Bem, Jared me ofereceu mais de uma vez fazer-me scio de sua empresa. Talvez me estabelea na Frana durante um ano. O jovem Ian poderia vir conosco e educar-se 
em Paris. 
Jenny e Ian trocaram uma longa olhada. Por fim ela inclinou a cabea. Ian, sorridente, tomou-lhe a mo. 
-No ter problemas, mo nighean dubh -lhe disse de modo baixo e terno. 
Depois se voltou para seu cunhado. 
- Leve-o contigo.  uma grande oportunidade para o garoto. 
-Esto seguros? -Jamie, vacilando, dirigia-se mais a sua irm que a Ian. 
Ela assentiu. 
-Suponho que  melhor dar-lhe a liberdade enquanto ele acredita que ainda est em nossas mos dar-lhe -disse. 
Olhou a Jamie e depois a mim. 
- Cuidaro dele, de verdade?













CAPTULO 39

Perdido e chorado pelo vento

Aquela parte de Esccia tinha to pouco a ver com os vales frondosos e os lagos prximos a Lallybroch como os estanques de Yorkshire. No tinha rvores, s longas 
extenses de urzais e rochas que se elevavam sobre penhascos at tocar o cu encapotado onde desapareceriam em cortinas de nevoeiro. A marcha era lenta, no qual 
s incomodava ao jovem Ian, que estava cheio de entusiasmo e impacincia por chegar. 
-Que distncia h entre a costa e a ilha das focas? -perguntou a Jamie pela dcima vez. 
-Uns seiscentos metros, calculo - replicou seu tio. 
-Posso nadar essa distncia -disse o jovem Ian pela dcima vez. 
-Sim, eu sei -assegurou seu tio com pacincia. Dirigiu-me uma olhada cmplice.  
- Mas no precisar; bastar que nades em linha reta para a ilha; a corrente te levar.
O garoto assentiu e voltou a fazer silncio. O promontrio que tinha junto  enseada estava deserto e envolto pela bruma. Jamie assinalou a seu sobrinho a chamin 
de rocha situada no que chamavam "a torre de Ellen" e, retirando um rolo de corda de sua cela, avanou com cautela entre as pedras at a entrada. 
-No tire a camisa at que estejas embaixo -indicou a gritos, para fazer-se ouvir. -Caso contrrio a rocha te destroar nas costas. 
Ian assentiu; depois, com a corda bem atada  cintura, despediu-se de mim com um sorriso nervoso e em dois saltos desapareceu sob a terra. Seu tio tinha o outro 
extremo da corda atado  cintura e a ia desenrolando cuidadosamente com a mo s enquanto o garoto descia. Engatinhei sobre seixos e ervas at a borda insegura do 
alcantilado, desde onde se via uma praia em forma de meia lua.
Parecia que tinha passado muito tempo quando finalmente vi Ian sair do fundo da chamin; era uma silhueta pequena como uma formiga. Depois de retirar a corda, deu 
uma olhada ao seu redor e, ao ver-nos no alto do alcantilado, saudou-nos com um gesto de entusiasmo. Eu respondi igual mas Jamie se limitou a murmurar: 
-Bom, anda, vai. 
A pequena silhueta lanou a cabea s ondas cinzas. 
-Brrrr! -exclamei- A gua deve de estar gelada! 
-Sim -disse Jamie. -Ian tem razo;  uma pssima poca para nadar. 
Estava plido e tenso. No parecia que fosse pelo brao ferido, ainda que o longo caminho a cavalo e o exerccio com a corda no podiam ter-lhe feito nenhum bem. 
Tinha mostrado uma alentadora confiana enquanto Ian efetuava a descida, mas agora no fazia nenhum esforo por dissimular sua preocupao. A verdade era que, se 
algo corresse mal, no teria como chegar at Ian.
-No voltar dentro de umas duas horas -comentou respondendo a minha tcita pergunta e abandonando de m vontade sua intil observao da enseada. 
-Droga, preferiria ter ido eu mesmo, com ferida ou sem ela. 
-J fizeram o jovem Jamie e Michael - lhe recordei. 
Sorriu com melancolia. 
- Oh, sim. Ian no ter problemas. Mas quando est consciente de que algo  perigoso,  mais fcil voce mesmo fazer do que esperar e se preocupar enquanto o outro 
faz. 
-Aha! -exclamei. -Agora j sabe como  estar casada contigo. 
Jogou-se a rir. 
-Suponho que sim. Alm do mais, seria uma pena privar a Ian de sua aventura. Vem, resguardemo-nos do vento. Sentamos a certa distncia da borda, usando os cavalos 
como parapeito. Como o vento dificultava a conversa, guardamos silncio, de costas  enseada tempestuosa. 
- Que foi isso? -Jamie levantou a cabea, alerta. 
- O que? -Pareceu-me ouvir um grito. 
-As focas, suponho - disse.
Mas antes que tivesse terminado a frase, j estava em p, andando a grandes passos para a beira do alcantilado. A enseada ainda estava invadida pela bruma mas o 
vento tinha descoberto a ilha das focas, deixando-a perfeitamente visvel pelo momento. Tinha um pequeno bote amarrado numa saliente rocha inclinada, de um lado 
da ilha. No era uma embarcao para pescar, seno algo maior e com um s jogo de remos. Ante nossa vista apareceu um homem, proveniente do centro da ilha trazendo 
algo sob o brao; o objeto tinha a forma e o tamanho da caixa que Jamie tinha descrito. No tive muito tempo para reflexes, pois de imediato apareceu um segundo 
homem do outro lado da ilha. Este ltimo trazia o jovem Ian, meio nu, carregado sobre um ombro. Pelo modo com que bamboleavam a cabea e os braos, era evidente 
que o garoto estava morto ou inconsciente.
-Ian! 
Jamie me fechou a boca com uma mo antes que pudesse voltar a gritar. 
-Quieta! 
Obrigou-me a me ajoelhar para que ningum me visse. Sem poder fazer nada, vimos que o segundo homem jogava Ian dentro do bote sem nenhum cuidado e o impulsionava 
para o gua. No tinha possibilidade de descer pela chamin e nadar at a ilha antes que escapassem. Mas para onde iriam? 
-De onde saram? -sussurrei. 
-De um barco.  o bote de um barco. Jamie disse com muito sentimento um palavro em galico. De repente desapareceu. Ao girar a cabea o vi montar a cavalo, cruzar 
o promontrio e afastar-se da enseada como se levado pelo diabo. Os cavalos estavam mais bem calados que eu para aquela superfcie rochosa. Apressei-me a montar 
para seguir a Jamie.
O terreno se partia num pendente pedregoso que descia para o oceano, no to abrupto quanto o alcantilado da enseada mas demasiado escarpado para as cavalgaduras. 
Quando acabei de frear a minha, Jamie tinha desmontado e descia para a gua. A chalupa se afastava da ilha, rodeando a curva do promontrio, para a esquerda. Algum 
devia de estar vigiando no barco, pois se ouviu um grito apagado e umas figuras apareceram em coberta. Provavelmente alguma delas nos viu, a julgar pela sbita agitao 
que se produziu a bordo: mais gritos e vrias cabeas assomaram acima da borda. O barco era azul, com uma larga banda negra pintada ao redor e uma linha de frestas. 
Uma delas se abriu ante meus olhos e apareceu o olho negro e redondo de um canho. 
-Jamie! -gritei a todo pulmo.
Levantou os olhos e, ao ver o que lhe apontava, jogou-se de bruos s pedras no momento em que se produzia o disparo. Ainda que o rudo no tenha sido muito potente, 
pude ouvir o apito junto a minha cabea. Ento compreendi que tanto os cavalos como eu, no alto do promontrio, ramos bem mais visveis do que Jamie. Atirei-me 
pela borda e, depois de escorregar um par de metros entre uma chuva de cascalho, refugiei-me numa greta do alcantilado. Produziu-se uma segunda exploso. Ao que 
parece os do barco ficaram satisfeitos pelo efeito deste ltimo disparo, pois de imediato se fez o silncio. A fresta se fechou sem rudo; a corrente da ncora se 
iou, espalhando gua, e o barco virou com lentido, procurando o vento. As velas se incharam e a nave dirigiu-se ao mar aberto. Quando Jamie chegou ao meu refgio, 
o barco tinha quase desaparecido no denso banco de nuvens que escurecia o horizonte.
-Meu Deus -foi tudo o que disse estreitando-me com fora. -Meu Deus. 
Depois se voltou para o mar. Nada se movia, salvo uns fiapos de nevoeiro. 
-Que vamos fazer? -perguntei. 
Sentia-me aturdida. Parecia impossvel que, em menos de uma hora, Ian tivesse desaparecido como se varrido da face da terra. Minha mente fazia questo de repassar 
as imagens: o nevoeiro que se levantava nos contornos da ilha, a sbita apario do bote, os homens caminhando pelas rochas e o corpo desengonado do adolescente 
bamboleando-se como um boneco desarticulado. Jamie tinha a cara rgida e profundas rugas entre o nariz e a boca. 
-No sei - disse - Maldita seja, no sei o que fazer!
Apertou os punhos e fechou os olhos. Respirava com dificuldade. Essa confisso me assustou ainda mais. Tinha-me habituado com um Jamie que sempre soube o que fazer 
ainda nas piores circunstncias. Ento vi um fio de sangue no punho de sua camisa; tinha cortado a mo ao descer por entre as rochas. Agradeci em ter algo o que 
fazer, ainda que fosse uma nimiedade. 
-Voc se feriu -disse tocando-lhe a mo. -Deixa-me ver. Vou fazer um curativo. 
-No. -Afastou o rosto tenso, tratando desesperadamente de atravessar o nevoeiro com os olhos. 
Quando tratei de pegar-lhe a mo se afastou com brusquido 
-Te disse que no! Deixa! 
Engoli a saliva com dificuldade, apertando os braos sob a capa. 
-Os cavalos escaparam - observou baixinho. -Vamos procur-los. Cruzamos o trecho coberto de pedras e mato em silncio. Divisei os cavalos de longe, em torno do companheiro 
atado. 
-No creio que esteja morto -comentei por fim de um momento que pareceu um ano.
-No -confirmou ele. -No estava morto. Caso contrrio no o teriam levado.
 -Viu quando o colocaram no barco? - insisti. Pareceu-me que lhe faria bem falar. Ele assentiu com a cabea. 
-Sim, subiram-no a bordo; vi com clareza. Suponho que  uma esperana -murmurou quase para si mesmo.-Se no o mataram ento, o mais provvel   que no o faam. 
-Como se recordasse de repente que eu estava ali, deu-se uma volta para olhar-me. 
-Ests bem, Sassenach? Eu tinha vrios machucados, estava coberta de suor e me tremiam os joelhos pelo susto, mas basicamente me encontrava bem. 
-Perfeitamente. -Voltei a apoiar-lhe uma mo no brao. Desta vez no se resistiu. -Ainda bem. -Apertou-me a mo e continuamos a andar.
-Tens alguma idia de quem so? -Tive que elevar um pouco a voz para fazer-me ouvir acima do rudo do mar agitado, mas queria faz-lo falar para distra-lo.
 Sacudiu a cabea, carrancudo. 
-Um dos marinheiros gritou algo em francs aos homens do bote. Mas isso no prova nada; uma tripulao se forma com marinheiros de todas partes. Ainda assim, esse 
barco no tinha aspecto de navio mercante... e tambm no parecia ingls -adicionou - ainda que no saberia dizer-te por que. Talvez pela disposio das velas. 
-Era azul, com uma linha negra pintada ao redor - observei - S tive tempo de ver isso antes que comeassem os tiros de canho. No viste o nome?
-Que nome? -A idia pareceu surpreender-lhe.- Num barco? 
-No  habitual que os barcos tenham o nome pintado no flanco? 
-No. Para que? -perguntou desconcertado.
-Para que os demais possam identific-lo, oras! -exclamei exasperada. 
Meu tom lhe fez sorrir. 
-Bem, suponho que eles no tm muito interesse em deixar-se identificar. 
-E como fazem os barcos honrados para identificar-se mutuamente se no tm o nome pintado? 
Ergueu uma sobrancelha. 
-Eu poderia te distinguir de qualquer outra mulher -assinalou. -E no tens o nome pintado no peito. 
-Isso significa que os barcos so to poucos e to diferentes que  possvel reconhec-los a uma simples vista? 
-Eu s reconheo alguns -esclareceu, -aqueles com os que tive trato. Mas os marinheiros sabem bem mais. 
-Ento seria possvel averiguar como se chama o barco que levou Ian, no? 
Assentiu, olhando-me com curiosidade.
-Creio que sim. Tenho tentado me lembrar de todos os detalhes que vi para descrev-lo a Jared. Ele conhece muitssimos barcos e  muitos capites. Talvez algum deles 
possa identificar um barco azul, bem largo, de trs paus, com doze canhes e uma esttua de proa carrancuda. 
Meu corao deu um pulo. 
-Ento j que tens um plano! 
-Eu no diria um plano, mas sim que me ocorre outra coisa. J temos reservadas as passagens desde Inverness. O melhor que podemos fazer  continuar viagem. Jared 
estar nos esperando em Lhe Havre. Talvez ele possa ajudar-nos a averiguar como se chama o barco e para onde se dirige. Sim -disse com secura, antecipando-se a minha 
pergunta,- os barcos tm portos de origem e, a no ser que pertenam  Marinha, rotas habituais e registros que se guardam no porto, onde consta para onde se dirigem. 
Comeava a sentir-me melhor.
-E desde que no sejam forasteiros e nem piratas - disse. 
-E se forem? 
-Ento Deus saber. Eu no. 
No disse uma palavra mais at que chegssemos aos cavalos. 
-Cha! -exclamou, olhando-os com reprovao. 
-Estpidos! 
Pegou a corda e lhe deu duas voltas ao redor de um saliente. Entregou-me um extremo com a ordem de sustent-lo e a deixou cair pela chamin. Depois de tirar o casaco 
e os sapatos, desapareceu pela abertura sem mais comentrio. Em pouco tempo voltou a sair, suando profusamente, com um vulto pequeno sob o brao: a camisa de Ian, 
sua jaqueta, os sapatos e as meias, sua navalha e o pequeno saco de couro onde o garoto guardava seus poucos pertences. 
-Quer levar tudo isso a Jenny? -perguntei, tratando de imaginar o que minha cunhada poderia pensar, dizer ou fazer ao receber a notcia.
Ainda que Jamie estivesse enrijecido pelo esforo da escalada, minhas palavras lhe fizeram empalidecer. 
-Oh, sim -disse com amargura. - Quer que eu volte a casa para informar a minha irm de que perdi seu filho caula? Ela no queria que me acompanhasse e eu insisti. 
Prometi cuidar dele. Agora est ferido, talvez morto, mas aqui esto suas roupas como recordao -apertou os dentes. -Preferiria me matar. 
Depois se ajoelhou no solo para dobrar cuidadosamente as roupas. Depois de envolv-las na jaqueta, guardou a trouxa no alforje. 
-Suponho que Ian precisar tudo isso quando o encontrarmos -disse tratando de soar convicta. 
Jamie demorou um momento em assentir.
-Assim espero. Era muito tarde para empreender a viagem para Inverness. Sem dizer nada, comeamos a montar o acampamento. Nos alforjes tnhamos comida fria, mas 
no tivemos vontade de comer. Preferimos enrolar-nos em cobertores e capotes e jogar-nos a dormir.
Cochilei com a mente atribulada. Ao acordar, tremendo de frio, tateei uma mo a procura de Jamie. No estava ali. Quando me incorporei descobri que me tinha coberto 
com seu cobertor, pobre substituto de seu calor humano. Estava sentado a certa distncia, de costas para mim. Ao pr-se o sol, o vento tinha virado para o mar levando-se 
parte do nevoeiro.  luz que brilhava  meia lua pude ver com clareza sua silhueta encurvada. Levantei-me para aproximar-me, envolvendo-me no cobertor para proteger-me 
do frio. Meus passos tiniam sobre os fragmentos de granito, rudo que se perdia no rumor do mar. Ainda assim deve ter me ouvido; no se voltou, mas tambm no deu 
sinais de surpresa quando me sentei a seu lado. Tinha o queixo apoiado nas mos e os cotovelos nos joelhos; seus olhos olhavam sem ver a gua escura da enseada.
-Ests bem? -perguntei baixinho. -Faz um frio tremendo. 
-Estou bem, sim -respondeu sem convico. S estava de casaco, mais do que insuficiente. 
-No foi culpa tua -disse.
-Deverias deitar e dormir, Sassenach. -Sua voz soava serena mas com verdadeira desesperana que me instou a aproximar-me mais, tratando de abra-lo. 
-Fico contigo. 
Com um profundo suspiro, sentou-me em seus joelhos para abraar-me com fora. O tremor cedeu pouco a pouco. 
-Que fazes aqui? -perguntei ao fim. 
-Rezo. Ou pelo menos tentava. 
-No devia interromper-te. -Fiz meno de retirar-me mas ele me segurou. 
-No, fique. 
-Que passa, Jamie? 
- pecado ter-te? -sussurrou. Estava muito plido; seus olhos pareciam fossas escuras sob a escassa luz. -No posso deixar de perguntar-me se  culpa minha. To 
grave pecado  desejar-te tanto, precisar de voce mais do que a minha vida?
- verdade isso? -Tomei-lhe o rosto entre as mos. -E se  verdade, que pode ter de mau? Sou tua esposa. 
A simples palavra "esposa" me aliviou o corao. 
-Isso  o que me digo. Deus te enviou a mim; como poderia no te amar? No entanto... penso, penso e no posso parar. O tesouro... Faria bem utiliz-lo quando tinha 
necessidade, para alimentar aos famintos ou resgatar a algum da priso. Mas para livrar-me da culpa... us-lo s para poder viver livremente em Lallybroch contigo, 
sem preocupar-me por Laoghaire... Creio que fui mau. 
-Quieto -disse - No digas isso. Alguma vez fizeste algo por ti, Jamie, sem pensar nos demais? 
-Oh, muitas vezes -sussurrou. - Quando te vi. Quando te tomei por esposa sem perguntar-me se me querias ou no, se tinhas outro lar, outro homem. 
-Idiota. -lhe sussurrei ao ouvido. - s um idiota, Jamie Fraser. Que me dizes de Brianna? Isso no foi mal, ou foi?
-No. -Engoliu a saliva. -Mas agora te separei dela tambm. Te amo... e amo a Ian como se fosse meu. E estou pensando que talvez no posso ter a ambos. 
-Jamie Fraser -repeti com tanta convico como pude-, s um perfeito estpido. Tu no me obrigaste a vir, nem me afastou de Brianna. Vim porque quis, porque te queria 
tanto como tu a mim. E o fato de que eu esteja aqui no tem nada haver com Ian. Estamos casados, maldito sejas: ante Deus, ante os homens, ante Netuno ou ante quem 
te ocorra. 
-Netuno? -repetiu desconcertado. 
-Cala-te. Estamos casados, digo, e no  pecado que me desejes nem que me tenhas. E nenhum Deus que merea esse nome seria capaz de tirar teu sobrinho s porque 
quer ser feliz. Pare j com isso!
Por fim me afastei para olh-lo. 
-Alm do mais, -disse - no penso voltar por nada deste mundo. O que  voc pode fazer, diga-me? 
Desta vez, a vibrao de seu peito no era de frio, seno de riso. 
-Ficar contigo e ao diabo com tudo -disse me beijando a testa. - Por amar-te conheci o inferno mais de uma vez, Sassenach; se  necessrio, voltarei a conhec-lo. 
-Bah! Crs que am-lo  um leito de rosas? 
Desta vez soltou uma gargalhada.
-No, mas quer insistir? 
-Pode ser. 
-s uma mulher muito teimosa. -Em sua voz se percebia o sorriso. 
-Deus nos criou e ns nos juntamos. 
Ficamos em silncio durante um longo tempo, esperando que amanhecesse. Abaixo se ouviu o gemido de uma foca. 
-Sente-se capaz de iniciar a viagem? -perguntou Jamie de sbito. -Sem esperar a luz do dia? 
Uma vez que deixemos para trs o alcantilado, o trajeto no ser to difcil; os cavalos podem arrumar-se na escurido. Doa-me todo o corpo pelo cansao e estava 
morta de fome, mas me levantei de imediato, retirando o cabelo do rosto. 
-Vamos -disse.












   OITAVA PARTE
   NA GUA
   
   
   
   
   
   
   
   
                                 CAPTULO 40
   INDO AT O MAR
-Ter que ser o Artemis. 
Depois de fechar sua escrivaninha porttil, o primo de Jamie esfregou o cenho. Tinha-o conhecido cinqento; agora Jared tinha bem mais de setenta anos mas sua cara 
afiada, seu corpo enxuto e sua incansvel capacidade de trabalho seguiam sendo os mesmos. S o cabelo denunciava sua idade: tinha passado do negro ao branco puro. 
- s uma caravela de tamanho mdio, com uma tripulao de quarenta pessoas mais ou menos -comentou- Mas a temporada j passou e no creio que consigamos nada melhor. 
Todos os barcos que vo para as Antilhas partiram faz mais de um ms. O Artemis devia ter sado com o comboio da Jamaica, mas precisava de uns reparos. 
-Prefiro que seja um de teus barcos... com um de teus capites -lhe assegurou Jamie-O tamanho no importa. 
Jared ergueu uma sobrancelha com ceticismo.
-Ah, no? Em alto mar poderia descobrir o tanto que importa. A esta altura do ano o vento sopra com fora; as caravelas so sacudidas como se fossem cortinas. Posso 
perguntar-te como passou por sua cabea cruzar o Canal num barco, primo? 
Ante esta pergunta, a cara de Jamie se tornou ainda mais lgubre, acentuando as olheiras. 
-Eu me arranjarei -disse arisco. 
Jared o olhou com ar duvidoso; sabia muito bem o que lhe sucedia em qualquer tipo de embarcao: mal pisava na embarcao, ainda que estivesse ancorado, ficava verde 
e prostrado. 
Isso me tinha preocupado. 
-Bem, suponho que no h remdio -suspirou o primo. -Ao menos ters um mdico a mo. Isto ... suponho que pensas acompanh-lo, querida. 
-Sim -lhe assegurei- Quanto tempo resta para que o barco esteja pronto? Me agradaria procurar uma boa farmcia para abastecer-me de medicamentos antes de partir. 
Jared franziu os lbios, concentrando-se.
-Uma semana, se Deus assim quiser. Neste momento o Artemis est em Bilbao; com bom vento, chegar depois de amanh com uma carga de couros curtidos da Espanha. Ainda 
no contratei um capito para a viagem; estou procurando o adequado; talvez deva ir at Paris para contrat-lo; sero quatro dias de viagem, ida e volta. Adicionemos 
um dia para completar o abastecimento, encher os tonis de gua e outros detalhes. Pode estar pronto para partir dentro de uma semana, ao amanhecer. 
-Quanto tempo demora para chegar s Antilhas? -perguntou Jamie. 
-Durante a temporada demora dois meses -respondeu Jared. -Mas a esta altura, com as tormentas de inverno, poderiam ser trs ou inclusive mais. Ou no chegar nunca. 
Claro que Jared, como todo ex marinheiro, era muito supersticioso e tinha muito tato para expressar essa possibilidade. Tambm no mencionaria a outra questo que 
me ocupava a mente: no tnhamos provas de que o barco azul se dirigisse s Antilhas. S contvamos com os registros que Jared tinha conseguido no porto de Lhe Havre, 
onde o "Bruxa" (nome muito adequado) figurava como originrio de Bridgetown, na ilha de Barbados.
-Descreva-me outra vez esse barco que levou o jovem Ian -pediu Jared-.Como navegava? Alto na gua ou bastante afundado, como se levasse uma carga pesada? 
Jamie fechou os olhos para concentrar-se. Depois disse: 
-Poderia jurar que ia muito carregado. As frestas dos canhes estavam menos um par de metros da gua. 
Seu primo assentiu, satisfeito. 
-Isso significa que no acabava de chegar, e sim que partia. Enviei mensageiros aos principais portos de Frana, Portugal e Espanha. Com um pouco de sorte, eles 
averiguaro de onde partiu e da que destino leva. -Os lbios finos se contraram.-A no ser que se tenha feito pirata e navegue com papis falsos, claro. Isso  
tudo o que se pode fazer pelo momento. Agora vamos a casa, que Mathilde nos espera com o jantar. Amanh te ensinarei a lista de mercadorias enquanto tua esposa sai 
a procurar suas ervas.
Eram quase cinco e j tinha escurecido por completo, mas Jared tinha uma escolta de dois homens equipados com porretes e tochas para que nos acompanhassem at em 
casa. Lhe Havre era uma prspera cidade porturia e no convinha caminhar pelas docas depois do escurecer, e muito menos se um era um rico mercador de vinhos. Apesar 
do esgotamento da viagem, a opressiva umidade, o penetrante cheiro de peixe e a fome que me corroia, sentia-me reanimada. Graas a Jared existia uma possibilidade 
de achar ao jovem Ian. O primo de Jamie tambm acreditava que, se os piratas do Bruxa no tinham matado o garoto de imediato, o mais provvel era que o mantivessem 
com vida. Um rapaz jovem e saudvel, qualquer que fosse sua raa, podia-se vender nas Antilhas como escravo ou criado por uma quantidade de duzentas libras, uma 
soma muito respeitvel nessa poca.
Uma forte rajada de vento e vrias gotas geladas sufocaram um pouco meu otimismo recordando-me que, por mais fcil que fosse localizar a Ian ao chegar s Antilhas, 
antes era preciso que tanto o Bruxa como o Artemis aportassem a elas. E j estavam comeando as tormentas de inverno. Mesmo diante do substancioso jantar de Jared 
e os excelentes vinhos que o acompanharam, aquela noite no pude dormir; minha mente evocava imagens de lonas empapadas e mares agitados. Pelo menos, essa excitante 
imaginao s me desvelava a mim: Jamie, em vez de subir comigo, tinha ficado discutindo com seu primo os detalhes da viagem. Jared estava disposto a arriscar um 
barco e um capito para colaborar na busca. Em troca, Jamie embarcaria como comissrio. 
-Como o que? -tinha exclamado eu, ao escutar a proposta. 
-O comissrio  o homem que se ocupa de supervisionar a carga, a descarga, a venda e a disposio da mercadoria -me explicou Jared com pacincia.
Esse foi o trato. Levaramos mercadorias at a Jamaica, onde as tocaramos por rum para a viagem de volta, que teria turno ao final de abril ou princpios de maio, 
quando chegasse o bom tempo. Se chegssemos  Jamaica em fevereiro, Jamie poderia dispor durante trs meses do Artemis e sua tripulao para viajar at Barbados 
(ou onde fosse necessrio) a procura do jovem Ian. Trs meses. Tomara que seja o suficiente. O vento parecia amainar. Como no conseguia conciliar o sonho, abandonei 
a cama com um cobertor sobre os ombros e me aproximei da janela. Ainda estava ali quando Jamie abriu a porta. 
-Ainda ests acordada? -perguntou. 
-A chuva no me deixa dormir. -Fui abra-lo. 
Ele me estreitou contra si, apoiando a bochecha em meu cabelo. 
-Tens estado escrevendo? -perguntei. 
Olhou-me com assombro. 
-Sim, mas como sabe? 
-Cheiras a tinta. 
Afastou-se um pouco para pentear-se com os dedos. 
-Tens o nariz como um porco trufeiro, Sassenach. 
-Caramba, muito obrigada pelo to elegante elogio. O que escreveste? Seu sorriso desapareceu. 
-Uma carta para Jenny - disse.
Tirou o casaco e comeou a afrouxar a gravata. - No quis escrever-lhe antes de ter falado com Jared, para poder contar-lhe quais eram nossos planos e as possibilidades 
que tnhamos de recuperar a Ian so e salvo. -Fez uma careta.-Sabe Deus como reagir quando a receber. Ento estarei em alto mar. A redao no teria sido nada fcil, 
mas supus que se sentiria mais calmo depois de t-lo feito. Enquanto tirava os sapatos e as meias, aproximei-me por detrs para desatar-lhe o cabelo. -Alegro-me 
de t-lo feito -comentou. -Atormentava-me ter que lhe dizer o que se passou. 
-Escreveu a verdade? 
Encolheu-se de ombros. 
-Como sempre. 
No entanto, no lhe tinha dito a verdade com respeito a mim. Comecei a dar-lhe uma massagem nos ombros.
-Que aconteceu com o senhor Willoughby?-perguntei. 
O chins tinha nos acompanhado, colando-se a Jamie como uma sombra. 
-Creio que esteja dormindo no estbulo. -Jamie bocejou- Mathilde disse que no estava habituada a ter pages na casa e que no tinha inteno de comear agora. Deixei-a 
aspergindo gua benta na cozinha onde tinha jantado. De repente me pegou a mo para acariciar-me a pequena cicatriz do polegar: o J que ele tinha traado com a ponta 
de sua faca quando nos separamos, antes de Culloden. 
-No te perguntei se queres me acompanhar. -disse-Poderias ficar; Jared te alojaria de bom grado, aqui ou em Paris. Ou talvez preferisse regressar a Lallybroch. 
-No, no me perguntou. Sabes muito bem qual  minha resposta. 
Olhamo-nos com um sorriso. De sua cara tinham desaparecido as rugas do cansao e o pesar.
O vento assobiava na chamin e a chuva corria pelo vidro como uma torrente de lgrimas, mas j no me importava. Agora poderia dormir. Pela manh o cu estava descoberto. 
No escritrio de Jared, uma brisa fria sacudia a janela sem poder penetrar no abrigo interior. Aproximando os ps do fogo, afundei a pena no tinteiro. Estava fazendo 
uma lista de todos os elementos medicinais que podia precisar nos dois meses de viagem. O lcool destilado era o mais importante e o mais fcil de conseguir; Jared 
tinha prometido trazer-me um barril de Paris. O trabalho era lento. J tinham passado os tempos em que conhecia os usos medicinais de todas as ervas comuns e outras 
bastante esquisitas. Era preciso record-los; no contava com muita coisa. Quando ia escrevendo os nomes das ervas, vinham-me  memria seu cheiro e seu aspecto.
Do outro lado da mesa, Jamie lutava com suas prprias listas, escrevendo trabalhosamente com sua maltratada mo direita. De vez em quando se detinha para esfregar 
a ferida do brao cicatrizando, amaldioando baixo. 
-Tens suco de lima em tua lista, Sassenach? -perguntou. 
-No. Devo anot-lo? 
Retirou uma mecha da testa. 
-Depende.  costume que o cirurgio de bordo leve suco de lima, mas nos barcos pequenos, como o Artemis, no costuma ter cirurgio; todos os alimentos correm por 
conta do tesoureiro. 
Como tambm no levaremos tesoureiro, porque no teve tempo de procurar a um nome de confiana, tambm  misso minha. 
-Bem, se vais atuar como tesoureiro e comissrio, suponho que eu serei o mais parecido a um cirurgio -disse sorrindo-J me encarrego do suco de lima. 
-Est bem.
Continuamos rabiscando em amistosa companhia at que nos interrompeu a entrada de Josephine, a criada. Vinha anunciar-nos uma visita. 
-Est esperando na porta. O mordomo tentou impedir-lhe, mas o homem faz questo de ter uma palavrinha com o senhor, Monsieur James. 
Jamie ergueu as sobrancelhas. 
-Que tipo de homem ? 
Josephine apertou os lbios sem atrever-se a diz-lo. Isso me despertou a curiosidade e me aventurei at a janela. 
-Parece um vendedor de rua; traz uma espcie de mochila s costas -informei esticando o pescoo. 
Jamie me pegou pela cintura para afastar-me e se assomou em meu lugar. 
-Ah,  o traficante de moedas que mencionou Jared -exclamou.-Faa-o entrar.
Josephine se retirou com uma expresso muito eloqente em sua estreita face; logo aps voltou junto a um jovem alto e desalinhado, de uns vinte anos; vestia um casaco 
fora de moda e calas muito grandes. Tirou o sujo chapu negro, descobrindo um rosto magro de expresso inteligente e enfeitado por uma barba escassa. Como em Lhe 
Havre s usavam barba uns poucos marinheiros, no fazia falta o gorro negro para revelar sua origem judia. O moo me fez uma torpe reverncia e outra a Jamie, lutando 
com as alas da mochila. 
-Madame, Monsieur, so muito bondosos em me receber. -Falava um francs estranho. 
-O agradecido sou eu -disse Jamie- No esperava que viesses to cedo. Disse-me meu primo que voce se chama Mayer. 
O traficante assentiu com a cabea, com um tmido sorriso entre as mechas de barba juvenil. 
-Mayer, sim. No foi nenhum incomodo. Estava na cidade.
-Mas vem de Frankfurt, verdade? Uma longa viagem -comentou meu esposo, corts. 
Olhou a vestimenta do visitante, que parecia ter sado de um lato de lixo. - E empoeirada, suponho. 
-Aceita um pouco de vinho? 
Mayer pareceu confuso ante o oferecimento. Depois de abrir e fechar a boca vrias vezes, contentou-se com um calado gesto de aceitao. No entanto, sua timidez desapareceu 
ao abrir a mochila. Depois de despregar um pano, foi abrindo saquinhos e depositando seu contedo sobre o veludo azul, pronunciando os nomes das moedas com ar reverente. 
Seus olhos refletiam o brilho do metal precioso. 
-Monsieur Fraser diz que desejas vistoriar tantas moedas raras de Grcia e Roma como seja possvel. No trouxe todas as que tenho, por suposto, mas posso mostrar 
algumas. Se assim o senhor desejar, poderei mandar trazer as outras de Frankfurt.
Jamie sacudiu a cabea com um sorriso. 
-Temo que no haja tempo, senhor Mayer. Temos que... 
-S Mayer, Monsieur Fraser -interrompeu o jovem com cortesia, ainda que com um leve tenso na voz. 
-Perdo. -Jamie lhe dedicou uma leve inclinao de cabea- Espero que meu primo no vos tenha induzido a confuso. Terei muito gosto em pagar o custo da viagem e 
adicionar algo mais pelo tempo que te fao perder mas no desejo comprar nenhuma de suas moedas, se... Mayer. 
O jovem elevou as sobrancelhas com ar inquisitivo. 
-O que desejo -explicou Jamie com lentido, inclinando-se para observar as moedas-  comparar vossas moedas com minhas recordaes de vrias moedas antigas. Se visse 
alguma similar, perguntaria se sabes de algum de sua famlia (j que s muito jovem) ou de outra pessoa que possa ter comprado essas moedas h vinte anos. 
Como o jovem judeu parecia estupefato, sorriu. 
-Compreendo que  muito para se pedir. Mas meu primo me disse que vossa famlia  uma das mais entendidas e uma das poucas casas que se ocupa destes assuntos. Alm 
disso estaria profundamente agradecido se pudsses informar-me de quem se dedica a este negcio nas Antilhas. 
Mayer o observou e inclinou a cabea. 
-Meu pai ou meu tio poderiam ter feito uma venda assim. Eu no, mas aqui tenho o catlogo e o registro de todas as moedas que passaram por nossas mos nos ltimos 
trinta anos. Informarei o que poder. O senhor v aqui alguma pea como as que recorda? 
Jamie estudou as moedas com muita ateno. Por fim afastou suavemente uma pea de prata. 
-Esta -disse-Tinha vrias assim, com estes golfinhos. -Depois separou um gastado disco de ouro com um perfil impreciso e outra de prata- Estas; catorze de ouro e 
dez das outras, as de duas cabeas.
-Dez! -Os olhos de Mayer se dilataram de estupefao. -Nunca teria imaginado que tivesse tantas na Europa. 
Jamie assentiu. 
-Estou certo. Tive-as na mo. 
-Estas so as caras gmeas de Alexandre -explicou Mayer tocando o ouro com reverncia-Moeda realmente muito rara.  um tetradracma, estampada para comemorar a batalha 
de Anfpolis e a fundao de uma cidade no mesmo lugar. 
Jamie escutava com ateno. Ainda que a numismtica no lhe interessasse muito, sabia apreciar a paixo de um homem por seu trabalho. Meia hora depois, depois de 
novas consultas no catlogo, o assunto estava concludo.
-Naturalmente, Monsieur, nossas transaes so confidenciais -disse Mayer- Por isso s posso dizer quais moedas vendemos e em que data, mas sem revelar o nome do 
comprador. -Fez uma pausa, pensativo. 
-No entanto, sei que o primeiro comprador destas moedas faleceu j h vrios anos, e nessas circunstncias... -Encolheu-se de ombros. 
-Esse comprador foi um cavaleiro ingls, Monsieur. Chamava-se Clarence Mary-lebone, duque de Sandringham. 
-Sandringham! -exclamei assombrada. 
Mayer me olhou com curiosidade. Depois se voltou para Jamie, que demonstrava um amvel interesse. 
-Sim, Madame. Sei que o duque morreu, pois possua uma extensa coleo de moedas antigas que meu tio comprou de seus herdeiros em 1746. Aqui figura a transao.
Eu estava inteirada da morte do duque por experincia mais direta. Murtagh, o padrinho de Jamie, tinha-o matado numa escura noite de maro, pouco antes que a batalha 
de Culloden pusesse fim  rebelio jacobita. Engoli saliva ao recordar a ltima vez que vi ao duque, com uma expresso de intensa surpresa nos olhos azuis. O duque 
de Sandringham tinha prometido a Carlos Stuart, o Bonnie Prince, cinqenta mil libras para que levantasse um exrcito, com a condio de que recuperasse o trono 
de Inglaterra. Mayer adicionou, vacilante. -Posso dizer algo mais: quando meu tio adquiriu a coleo do duque, depois de sua morte, no tinha nela nenhuma tetradracma.
-No -murmurou Jamie-, no podia t-los. Obrigado, Mayer. E agora bebamos  vossa sade e por vosso livro. 
Mayer guardou no bolso as libras de prata que Jamie acabava de dar-lhe como pagamento. Depois de despedir-se com profundas reverencias, ps-se seu deplorvel chapu. 
-Adeus, Madame. 
-Adeus, Mayer. -Depois perguntei, vacilando-: Mayer  vosso nico nome? 
Algo brilhou em seus grandes olhos azuis, mas respondeu com amabilidade. -Sim, Madame. Aos judeus de Frankfurt no se permite usar sobrenomes. -Sorriu.- Os vizinhos 
nos designam fazendo referncia a um velho escudo vermelho que estava pintado na fachada de nossa casa, faz muitos anos. Algo disso... no, Madame. No temos sobrenome. 
Josephine se apresentou para acompanhar a nosso visitante. Minutos depois ouvi o rudo da porta ao fechar-se, quase violentamente. Jamie, ao perceb-lo, girou para 
a janela.
-Que Deus te acompanhe, Mayer Escudo-Vermelho -disse sorrindo. 
De repente me ocorreu algo. 
-Jamie, Dunkan Kerr era jacobita? 
Jamie assentiu. 
-Por que apareceu na ilha das focas dez anos depois de Culloden? Foi recolher o tesouro ou deix-lo l? E, quem enviou o "Bruxa" agora? -perguntei. 
-Algum maldito isso eu sei. Talvez o duque tinha algum cmplice. -Jamie levantou e se assomou  janela.
- Bom, teremos tempo de especular quando estivermos em alto mar. 
-Falas alemo, Jamie? -disse, mudando de assunto.
-Que? Oh, sim -respondeu olhando pela janela. 
-Como se diz "escudo vermelho" em alemo? 
-Rothschild, Sassenach. Por que perguntas? 
-Era s uma idia -disse. O repique dos socos de madeira j se tinham perdido entre os rudos da rua.-Suponho que todo mundo deve comear de algum modo.
A farmcia da Rua de Varennes tinha desaparecido, substituda por uma prspera taberna, uma casa de penhores e uma pequena joialheria. 
-Mestre Raymond? -O dono da casa de empenhos ergueu as sobrancelhas grisalhas.-Ouvi falar dele, Madame. -Me deu uma olhada cautelosa, como sugerindo que no lhe 
tinham dito nada positivo.-Mas faz j vrios anos que se foi. Se precisa de um bom boticrio, poder ir a Krasner, da Place d'Aloes, ou talvez a Madame Verrue, prximo 
das Tulleras... 
Observando com interesse ao senhor Willoughby, que me acompanhava, disse em tom confidencial: 
-Vos interessaria vender o chins, Madame? Tenho um cliente com marcadas preferncias por tudo que  oriental. Poderia te conseguir um bom preo... sem cobrar mais 
do que a comisso habitual, eu asseguro. 
-Obrigado -contestei-, mas creio que no. Procurarei Krasner.
O senhor Willoughby tinha chamado muito pouca ateno em Le Havre. Nas ruas de Paris, em troca, com uma jaqueta sobre o pijama de seda azul e o rabicho enroscado 
 cabea, provocava considerveis comentrios. No obstante, demonstrou ser muito entendido em ervas e substncias medicinais. -Bai jei ai -me disse na botica de 
Krasner pegando umas sementes de mostarda de uma caixa aberta
- Bom para shen-iene... rins. 
- verdade -confirmei surpresa- Como o sabes? 
-Conheci curadores de outro tempo -foi quando respondeu. 
Depois apontou uma cesta que continha umas bolas com aparncia de barro seco
- Shan-e. Bom, muito bom; limpa sangue, fgado trabalha bem, no pele seca, ajuda ver. Pode comprar. 
As bolas em questo resultaram ser uma espcie de enguia seca e enrolada. Como o tempo era bom, exceto em estarmos prximo do inverno, voltamos caminhando a casa 
de Jared, na Rue Tremoulins.
Na esquina da Rue du Nord e a Alle ds Canards vi algo fora do comum: uma silhueta alta e encurvada, de casaco negro e chapu redondo. 
-Reverendo Campbell! -exclamei. 
Girou ao redor e, ao reconhecer-me, tirou-se o chapu com uma reverncia. 
-Senhora Malcolm!  um grandssimo prazer voltar a v-la! -Ao cair seus olhos sobre o senhor Willoughby endureceu as feies num gesto de censura. -Eh... o cavaleiro 
 o senhor Willoughby -o apresentei-, um... scio de meu esposo. Senhor Willoughby, o reverendo Archibald Campbell. 
-Ah, sim. 
-Imaginava o senhor j navegando para as Antilhas -comentei, com a esperana de afastar seus glidos olhos do chins. Deu resultado: seus olhos se voltaram para 
mim, um pouco mais doce. 
-Agradeo o interesse, Madame -disse- Ainda acalento essas intenes. Mas tinha que liquidar na Frana certos negcios urgentes. Partirei de Edimburgo na semana 
que vem, quinta-feira. 
-E como est vossa irm?
Lanou uma olhada de desgosto ao senhor Willoughby. Depois baixou a voz. -Melhorou um pouco, graas a senhora. As poes que prescrevestes foram muito teis. Est 
bem mais serena e dorme com mais regularidade. Devo agradecer novamente vosso amvel atendimento. 
-Alegro-me de saber. Espero que a viagem lhe caia bem. 
Separamo-nos com as habituais expresses de boa vontade. Depois de um breve silncio, o senhor Willoughby comentou: 
-Reverendo quer dizer homem muito santo, sim? 
Tinha a dificuldade comum entre os orientais de pronunciar o erre, com o qual a palavra "reverendo" resultava muito pitoresca. 
-Sim -confirmei olhando-o com curiosidade. 
-No muito santo, este reverendo. 
-Por que o dizes? Me deu uma olhada astuta.
-Eu ver uma vez, em Madame Jeanne. No fala forte. Muito calado ento, reverendo. 
- mesmo? 
-Putas baratas -ampliou o chins, fazendo um gesto muito grosseiro nas proximidades entre suas pernas a modo de ilustrao. 
-Sim, j entendi. Bem, suponho que a carne  dbil inclusive entre os ministros da Igreja Livre escocesa. 
Aquela noite, durante o jantar, mencionei que tinha encontrado o reverendo, ainda que me reservei dos comentrios do senhor Willoughby sobre suas outras atividades. 
-Deveria ter-lhe perguntado a que ponto das Antilhas se dirigia -me lamentei- No  uma companhia muito divertida mas talvez nos fosse til ter ali algum conhecido. 
Jared, que estava comendo almndegas de bezerra com ar muito decidido, engoliu e disse: 
-No se preocupes por isso, querida. Preparei uma lista de conhecidos e vrias cartas para certos amigos meus que podero ajudar-los.
Depois de observar a Jamie com expresso pensativa, adicionou em tom coloquial: 
-Nos encontramos no plano, primo. 
Isso me desconcertou, mas Jamie se reps num instante: 
-E nos separamos na praa. 
A cara estreita de Jared se partiu num amplo sorriso. 
- Ah, isso ajuda! No estava seguro, mas me parece que vale a pena tentar. Onde te iniciaram? 
-No crcere -respondeu Jamie, brevemente.-Devia de ser a loja de Inverness. 
Jared assentiu com satisfao. 
-Sim, seguro. H lojas na Jamaica e em Barbados; te darei cartas para que leves aos Gro-Mestres de l. Mas a loja maior  a de Trinidad; tem mais de dois mil membros. 
Se precisar de ajuda para procurar ao moo, deve pedir a eles. Nessa loja chegam, tarde ou cedo, todas as notcias do que passa nas ilhas.
-No se incomodariam em explicar-me do que esto falando? -interrompi. Jamie sorriu. 
-Da maonaria, Sassenach. 
-s maom? -balbuciei-No me tinhas dito! 
-No pode faz-lo -apontou Jared com certa aspereza. -Os ritos da maonaria so secretos, conhecidos s por seus membros. Se Jamie no for que nem um de ns, eu 
no poderia dar-lhe uma carta de apresentao para a loja de Trinidad. 
Meu esposo me tocou um p por embaixo da mesa, olhando-me com um sorriso oculto nos olhos. Depois elevou um pouco a taa num brinde silencioso e me senti reconfortada. 
O gesto me recordou nossa noite de casamento, quando nos sentamos com grandes taas de vinho; ramos dois estranhos que se temiam mutuamente, sem nada que nos unisse 
alm do contrato matrimonial... e a promessa de sermos francos.
"Talvez tenha coisas que no possas contar-me", tinha dito ele. "No te farei perguntas nem te obrigarei. Mas quando for me dizer algo, que seja a verdade. Por agora 
no h nada entre ns, salvo o respeito. No respeito h lugar para os segredos, creio... mas no para as mentiras." Bebi longamente de minha prpria taa, sentindo 
o calor que me subia s bochechas. Jamie seguia com os olhos fixos em mim, ignorando o monlogo de seu primo sobre a embarcao e as velas de bordo. Seu p procurou 
o meu; respondi-lhe de igual modo. 
-Sim, me ocuparei disso pela manh -respondeu a Jared- Mas agora, primo, creio que vou retirar-me. O dia foi longo. 
Depois de levantar-se, ofereceu-me o brao. 
-Me acompanhas, Claire?
Pus-me em p; o vinho que circulava por meu sangue me dava calor e me produzia um pouco de tontura. Nossos olhares se encontraram. Agora tinha entre ns bem mais 
do que respeito. E lugar para conhecer todos nossos segredos, em seu devido tempo. Pela manh, Jamie e o senhor Willoughby saram com Jared para completar seus recados. 
Eu tambm tinha algo que fazer... e preferia faz-lo s. Com o corao palpitando, subi  carruagem de Jared e pedi ao cocheiro que me levasse ao Hpital ds Anges. 
A tumba estava no pequeno cemitrio reservado para o convento, sob os pilares da catedral. Era uma lpide pequena de mrmore branco. Um par de asas de querubim protegiam 
a nica palavra: "Faith". Contemplei-a at que  minha vista nublou-se. Tinha levado uma tulipa cor de rosa; em pleno ms de dezembro e em Paris, no era fcil conseguir 
este tipo de flor mas Jared tinha uma estufa. Ajoelhei-me para deposit-la sobre a pedra, acariciando a ptala com um dedo como se fosse a bochecha de um recm nascido.
-No esperava chorar -disse. 
Naquele momento, senti a mo da madre Hildegarde sobre minha cabea.
-Le Bon Dieu ordena as coisas como melhor acredita -disse suavemente-, mas rara vez nos diz por que. 
Respirei fundo e sequei as bochechas com uma ponta do manto. 
-J faz muito tempo. -Levantei-me com lentido. 
A madre Hildegarde me observava com profunda simpatia e interesse. 
-Notei que, para as mes, o tempo no parece passar no que diz respeito aos filhos; ainda que sejam adultos elas podem v-los sempre como quando nasceram. 
-Sobretudo quando dormem - comentei-Ento sempre  possvel ver outra vez o recm nascido.
A madre assentiu satisfeita. 
-Ah, me parece que teves outros filhos. Teu aspecto o diz. 
-Uma. -Encarei-a- Como sabes tanto sobre mes e filhos?
-Os ancios dormem muito pouco -disse encolhendo-se de ombros-. Algumas noites percorro as salas e falo com os pacientes. 
A idade a tinha reduzido: seus largos ombros estavam encurvados e magros como um cabide sob o hbito de sarja negra. Ainda assim, era mais alta do que a maioria 
das freiras. Depois de soar o nariz, segui-a ao longo do caminho at o convento. Enquanto caminhvamos reparei outras lpides pequenas, espalhadas entre as demais. 
-Todas so de meninos? -perguntei surpresa. 
-Os filhos das freiras -respondeu sem dar-lhe importncia. Voltei-me para ela boquiaberta. Encolheu-se de ombros, elegante e irnica como sempre.
-As vezes acontece. -Uns passos alm adicionou: -No com muita freqncia, por suposto. -Assinalou com a bengala os confins do cemitrio-Este lugar est reservado 
para as irms, uns poucos benfeitores do Hospital... e seus amados. 
-Das irms ou dos benfeitores? 
-Das irms. 
Contra o muro mais afastado, mas ainda em terra consagrada, via-se uma fileira de pequenas lpides com um s nome cada uma: Bouton, sobre uma cifra romana, do I 
ao XV: os amados cachorros da me Hildegarde. Lancei uma olhada ao seu colega atual, o dcimo sexto com esse nome; era negro como carvo e de pelo encaracolado como 
um cordeiro persa. As irms e seus seres amados. 
-Alegra-me muito que tenhas voltado, ma chre -disse ela-Entre; te darei algumas coisas que podem ser-te teis durante a viagem.
Enquanto percorramos o caminho bordeado de telhas que conduzia  entrada do Hospital levantei os olhos para dizer, vacilante: 
-Espero no te ofender, madre, mas h uma pergunta que me agradaria fazer. -Oitenta e trs -respondeu com um largo sorriso que descobriu seus grandes dentes amarelos.
-Todo mundo quer saber. -Voltou-se a olhar o pequeno cemitrio, encolhendo-se de ombros num gesto muito francs.
-Ainda no. Le Bon Dieu sabe quanto trabalho me fica por fazer.




CAPTULO 41

NOS LEVAMOS AO MAR

Era um tpico dia escocs, cinza e frio, quando o Artemis tocou em terra no cabo Wrath, na costa noroeste. Olhei pela janela da taberna, para o slido nevoeiro que 
se atrapava aos alcantilados. Jamie passeava pelo cais apesar da chuva, bastante nervoso para permanecer junto ao fogo. A viagem de regresso  Esccia no lhe tinha 
resultado mais grato do que a primeira vez que cruzou o Canal; a perspectiva de passar dois ou trs meses a bordo do Artemis lhe espantava. Ainda mais, sua impacincia 
por perseguir aos seqestradores era to forte que qualquer demora lhe produzia frustrao. O irnico era que este ltimo atraso tinha sido ocasionado por ele. Tnhamos 
feito escala no Cabo Wrath para embarcar Fergus e ao pequeno grupo de contrabandistas que Jamie lhe tinha encarregado contratar antes de nossa partida para Le Havre.
-No h maneira de saber com quem nos encontraremos nas Antilhas, Sassenach - tinha explicado Jamie. -No quero enfrentar s um barco cheio de piratas, nem brigar 
junto com homens desconhecidos. 
Todos os contrabandistas eram homens do mar acostumados aos botes e ao oceano e, provavelmente, tambm aos barcos. Cabo Wrath era um porto pequeno com pouco trfico 
no inverno. No cais de madeira s tinha amarrados, a parte da Artemis, uns poucos barcos pesqueiros e um barquinho. Fergus estava atrasado. A ningum parecia incomodar 
a espera, exceto a Jamie e ao capito. Seu nome era Raines; era um homenzinho gorducho, j entrado nos anos, que passava a maior parte do tempo na cobertura do barco 
com um olho no cu carregado e o outro em seu barmetro.
Avanada a tarde do segundo dia apareceram seis homens serpenteando ao longo da costa pedregosa, montados em peludos pneis. 
-O que vem adiante  Raeburn -assinalou Jamie entornando os olhos para identific-los. -Segue-o Kennedy; depois, Innes, o que lhe falta o brao esquerdo, vs? Mais 
atrs, Meldrum, e o que o acompanha deve de ser MacLeod, pois sempre cavalgam juntos. E o ltimo,  Gordon ou Fergus? 
-Deve de ser Gordon -observei olhando acima de seu ombro. - bastante gordo para ser Fergus. 
Depois de receber aos contrabandistas, apresent-los a seus novos colegas e t-los todos sentados ante um jantar quente e uma taa, Jamie perguntou: 
-Onde diabos est Fergus? Raeburn inclinou a cabea.
-Bem, tinha certo assunto que resolver e me encarregou que alugasse os cavalos e procurasse a Meldrum e a MacLeod, que tinham sado em seu prprio barco e demorariam 
uns dois dias para voltar. 
-Que assunto era esse? -inquiriu Jamie com aspereza. 
A nica resposta foi um encolhimento de ombros. Meu esposo murmurou algo em galico e se dedicou ao seu jantar sem mais comentrios.  manh seguinte, com a tripulao 
j completa (a exceo de Fergus), iniciaram-se os preparativos para partir. Jamie se mantinha prximo do leme, sem perturbar e dando uma mo onde era mais necessria 
a fora do que a habilidade. Ainda assim passava a maior parte do tempo com os olhos fixos no caminho. 
-Se no partirmos at o meio da tarde perderemos a mar -apontou o capito Raines com firmeza. - Dentro de vinte e quatro horas o tempo ser pior: o contragiros 
est descendo e o sinto no pescoo. E no quero levantar ncoras no meio de uma tormenta, se posso evit-lo. E para chegar s Antilhas o antes possvel...
-Sim, capito, compreendo -o interrompeu Jamie-  claro. Faremos o que for melhor. 
Distanciou-se para dar espao a um apressado marinheiro e o capito desapareceu, dando ordens a cada passo. Com o correr das horas Jamie, aparentemente to sereno 
como sempre, no deixava de agitar seus dois dedos rgidos; era o nico sinal exterior de preocupao. Fergus tinha estado com ele vinte anos, desde o dia em que 
o retirou de um bordel parisiense para que roubasse as cartas de Carlos Stuart. Jamie era o mais parecido a um pai do que o moo tinha tido. No me ocorria que assunto 
to urgente podia impedir-lhe reunir-se conosco. A Jamie tambm no; por isso seus dedos marcavam um ritmo silencioso sobre o balastre.
Chegou a hora. Jamie, de m vontade, afastou os olhos da costa deserta. Apoiei-lhe uma mo no brao como calada mostra de solidariedade. 
-Ser melhor que desa -disse- Tenho um lustre de lcool. Vou te preparar um ch de gengibre,  o melhor de meu herbrio para as nuseas e... O rudo de um cavalo 
ao galope levantou ecos ao longo da costa; o barulho do cascalho ressoou muito antes que o cavaleiro aparecesse. 
-A est, o tonto -disse Jamie com alvio. 
Depois se voltou para o capito Raines com uma sobrancelha em alto.
-Ainda temos uma suficiente mar? Bem, pois vamos. 
-Soltar amarras! -bramou o capito. 
Os marinheiros se puseram imediatamente em ao. A ltima das cordas que nos segurava aos pilares foi gentilmente enrolada. Ao nosso arredor, o cordo se tencionou 
e as velas flamejaram, o capataz corria pela coberta, ladrando ordens com uma voz que parecia de metal mufado.
-Mova-se! -disse, super feliz ao sentir que a cobertura se estremecia sob meus ps. 
-Oh, Deus... -exclamou Jamie ao perceber o mesmo. E se segurou ao balastre com os olhos fechados, engolindo saliva. 
-O senhor Willoughby diz conhecer uma cura para a tontura -comentei.
-Ah! J sei a que se refere. Se pensa que vou permitir-lhe... Que demnios se passa aqui! 
Girei ao redor e vi o que tinha provocado aquele comentrio. Fergus estava na coberta ajudando a uma moa trepada sobre o balastre, com a cabeleira loira agitada 
pelo vento. Era a filha de Laoghaire: Marsali MacKimmie. Antes que pudesse falar, Jamie me deixou para trs para aproximar-se dos recm chegados. 
-Em nome de Deus, que significa isto, pequenos idiotas? 
-Estamos casados -anunciou Fergus pondo-se diante de Marsali, um pouco assustado e excitado, plido sob a mecha de cabelo negro. 
-Casados! -Jamie apertou os punhos e Fergus retrocedeu um passo.- Como que esto casados? Tens deitado-se com ela? 
-Heim?... no, milord -disse o francs, vrios tons mais plido.
Ao mesmo tempo Marsali avanou o queixo com os olhos acesos e ar desafiante: 
- Sim! 
Jamie os olhou e, depois de emitir um sonoro resflego, voltou-lhes as costas. -Senhor Warren! Regresse  costa, por favor! 
O piloto se deteve boquiaberto, olhou a Jamie e depois dirigiu uma significativa olhada para a costa que se afastava. Nos escassos momentos decorridos desde a apario 
dos supostos recm casados, o Artemis j tinha se afastado mais de um quilmetro da costa e as rochas dos alcantilados retrocediam a uma velocidade cada vez maior. 
-No creio que seja possvel -disse-Parece que j estamos no marulho. Jamie apontou a escada que conduzia aos camarotes. 
-Vocs dois, para baixo. 
Fergus e Marsali se sentaram juntos numa das liteiras, de mos dadas. Jamie me indicou a outra e se voltou para o casal com os braos na cintura. 
-Bem -disse-Que tolice  essa de que esto casados?
- verdade, milord -aclarou Fergus. 
Estava muito plido mas seus olhos escuros brilhavam de entusiasmo. 
-Sim? E quem vos casou? -inquiriu Jamie com cepticismo. 
Trocaram olhares. Fergus explicou: 
-Nos... demo-nos palavras e as mos. 
-Diante de testemunhas -adicionou Marsali. 
Em contraste com a palidez de Fergus suas bochechas pareciam arder. Levou a mo ao peito.
-Aqui tenho o contrato assinado. 
Jamie emitiu um rosnado. Segundo as leis de Esccia, duas pessoas podiam casar-se legalmente dando-se as mos ante testemunhas e declarando ser marido e mulher. 
-Bem, mas ainda no se deitaram -disse-E aos olhos da Igreja, s o contrato no basta. Devemos saltar em Lewes para carregar as ltimas provises. Ali desembarcaremos 
a Marsali; farei que dois marinheiros a levem a casa de sua me.
-No pode fazer isso! -exclamou a garota erguendo-se com um olhar fulminante.
 - Irei com Fergus! 
-Oh, no, nada disso, pequena! -alfinetou Jamie - No pensaste em tua me? Fugir assim, sem dizer nada... 
-Enviei-lhe uma carta desde Inverness -aclarou Marsali com o queixo erguido-, dizendo-lhe que tinha me casado com Fergus e que ia embarcar contigo. 
-Deus me ampare! Acreditar que eu estava sabendo de tudo! -Jamie parecia horrorizado. 
- que... eu... pedi  senhora Laoghaire que me concedesse a mo de sua filha, milord -interveio Fergus -Foi no ms passado, em Lallybroch. 
-No  necessrio que me repitas o que ela te disse -disse Jamie. -Negou. -Disse que era um bastardo -estourou Marsali, indignada-, um criminoso e... e... 
-E  -assinalou meu marido. -E tambm um aleijado sem bens, coisa que tua me no teria deixado de notar. 
-No me importa! -A garota agarrou a mo de Fergus, olhando-o com afeto. 
-Eu o amo. 
-De qualquer modo, s muito jovem para casar.
-Tenho quinze anos;  mais do que suficiente. 
-E ele trinta! -Jamie sacudiu a cabea.
-No, filha. Sinto muito mas no posso permitir. Alm do mais esta viagem  muito perigosa... 
-Mas ela sim pode ir! -Marsali me apontou desdenhosamente com o queixo. 
-No meta Claire nisto. No  assunto teu. 
-Ah, no? Abandonas a minha me por esta rameira inglesa, a converte no motivo de riso em todo o pas... e dizes que no  assunto meu? -A garota se levantou de 
um salto. -E tens o descaro de indicar-me o que devo fazer e o que no? 
-Assim  -afirmou ele contendo-se. -Meus assuntos privados no te interessam. 
-Tambm no a ti os meus! 
Fergus se levantou, alarmado, para tentar acalm-la. 
-Marsali, ma chre, no deves falar desse modo a milord.
-Eu falarei como me d vontade! 
-No, no podes! 
Surpreendida pela sbita aspereza de Fergus, piscou. Fergus moderou o tom: -No. Senta-te, ma petite. Milord foi mais do que um pai para mim. Salvou-me a vida mil 
vezes. Alm disso,  teu padrasto. Apesar da opinio que tua me possa ter dele, no podes negar que proporcionou s trs um bom sustento e proteo. Ao menos, deves-lhe 
respeito. 
Marsali mordeu os lbios, com os olhos brilhantes. 
-Perdoe-me -murmurou finalmente a Jamie. 
No camarote, a tenso baixou um pouco. 
-No tem importncia, pequena - respondeu resmungo. 
Depois suspirou.
-Ainda assim, Marsali, deves voltar para casa. 
-No irei. -Ainda que a moa estivesse mais serena, a firmeza de seu queixo era a mesma. 
Olhou aos dois.
-Ainda que ele diga que no tenhamos deitados juntos, ns fizemos. Ao menos,  o que eu direi. Se me obrigar a voltar para casa direi a todo mundo que fui sua. J 
vs: ou casada ou desonrada!
Seu tom era decidido. Jamie murmurou entre dentes: 
- Senhor me livre das mulheres -disse fincando nela um olhar fulminante: - De acordo! Esto casados. Mas vo fazer como  devido, ante um padre. Quando chegarmos 
s Antilhas procuraremos um. E enquanto no tenhas recebido a bno, Fergus no te tocar. Entendido? 
Olhou ferozmente a ambos. 
-Sim, milord - aceitou Fergus com alegria. -Merci beaucoup! 
Marsali olhou ao seu padrasto com olhos entornados, mas acabou inclinando a cabea e me dando um olhar de soslaio. 
-Sim, pai - disse. 
O casamento de Fergus tinha conseguido que Jamie esquecesse o movimento do navio, mas seu efeito no durou muito. Ainda que ficasse cada vez mais verde, negava-se 
a abandonar a coberta enquanto a costa de Esccia estivesse  vista.
-Talvez no volte a v-la nunca mais -disse com tristeza quando tratei de persuadi-lo de que descesse para deitar-se. 
-Claro que voltars a v-la -assegurei.-Regressars. 
No sei quando, mas tenho a certeza de que o fars. Olhou-me com desconcerto, esboando um sorriso. 
-Viste minha tumba, no  verdade? 
Como isso no parecia inquiet-lo, assenti com a cabea. Fechou os olhos. 
-Est bem. Mas no me contes nada se no se importa. 
-No posso dizer. No tinha datas. S teu nome... e o meu. 
-O teu? -Abriu subitamente os olhos. 
Se me fez um n na garganta ao recordar a placa de granito. Era das que denominam "lpide matrimonial": um quarto de crculo talhado de maneira que se forma com 
outro um arco completo. Naturalmente, s tinha visto uma das metades.
-Figuravam todos os teus nomes. Foi como soube que eras voce. E abaixo dizia: "Ao meu amado esposo, de Claire." 
Moveu afirmativamente a cabea, assimilando a notcia. 
-Isso significa que resgataremos ao jovem Ian so e salvo. Asseguro-te, Sassenach, que no voltarei a pisar Esccia sem traz-lo comigo. 
-O resgataremos -disse com uma segurana que no sentia. 
Quando caiu a noite, as rochas da Esccia tinham desaparecido entre a bruma do mar. Jamie, gelado at os ossos e branco como um lenol, deixou-se levar at a cama. 
Foi ento que surgiram as imprevistas conseqncias de seu ultimato a Fergus. S tinham dois pequenos camarotes privados, a parte do correspondente ao capito. Se 
o jovem casal no podia dormir na mesma cama at que sua unio tivesse recebido uma bno formal, era bvio que Jamie e Fergus teriam que ocupar um e ns o outro. 
A viagem parecia condenada a ser difcil em todos os sentidos.
Eu confiava que as tonturas de Jamie melhorariam quando ele no mais pudesse ver o bambolear do horizonte, mas no tivemos essa sorte. 
-Outra vez? -protestou Fergus, incorporando-se em seu beliche a meia-noite. 
-Como  possvel, se no comeu nada todo o dia? -Eu disse a ele -respondi enquanto me encaminhava para a porta com a vasilha nas mos. 
-V dormir, milady -disse Fergus fazendo-se carregar. -Eu me encarregarei dele. 
A idia de deitar era tentadora depois de um dia to longo. 
-V, Sassenach -interveio Jamie. 
Estava plido e molhado de suor. -Logo, logo passar. 
-Est bem -cedi-  possvel que pela manh te sintas melhor. 
Jamie abriu um olho e voltou a fech-lo com um gemido. 
-Ou que tenha morrido -sugeriu.
Com um sorriso, sa ao corredor escuro onde tropecei com a silhueta prostrada do senhor Willoughby, encolhido contra a porta do camarote. Lanou um rosnado de surpresa, 
mas ao ver que se tratava de mim, engatinhou lentamente para o interior do camarote. Sem prestar ateno  exclamao desagradada de Fergus, meteu-se sob a mesa 
e voltou a dormir de imediato com muita satisfao. Meu camarote estava do outro lado do corredor, mas me detive a respirar o ar fresco que entrava desde a coberta, 
escutando a variada gama de rudos. Marsali dormia profundamente numa das duas liteiras. Melhor assim. Ao menos no me veria obrigada a tratar de iniciar uma conversa. 
Apesar, que senti pena por ela; sem dvida a garota no teria imaginado assim sua noite de npcias.
O Artemis estava bastante limpo comparado com outros barcos, mas a higiene bsica deixa muito a desejar quando se amontoam num espao de cento setenta metros quadrados 
trinta e dois homens, duas mulheres, seis toneladas de couros curtidos, quarenta e dois barris de enxofre e uma grande quantidade de lminas de cobre e lato. No 
segundo dia, quando desci para procurar minha caixa de medicamentos que tinha sido posta no poro por erro, vi um rato. Pela noite, em meu camarote, percebi um rudo 
suave, como de ps arrastando-se; ao acender o lustre descobri que tinham vrias dzias de baratas que fugiam freneticamente para as sombras. As latrinas, duas pequenas 
galerias a cada lado da embarcao, na proa, consistiam num par de tbuas, separadas por uma estratgica ranhura e suspensas a dois metros e meio das ondas; ao us-las 
se podia receber um inesperado esguicho de gua fria no momento mais inoportuno. Eu suspeitava que isto, mais  dieta de porco salgado e bolachas marinhas, provocaria 
uma epidemia de priso de ventre entre a tripulao.
O senhor Warren, o capataz, informou-me com orgulho que todas as manhs esfregavam a coberta, se lustravam os bronzes e se efetuava uma limpeza geral. Ainda assim, 
era impossvel dissimular o fato de que tinha trinta e quatro pessoas ocupando um espao limitado, das quais s uma se banhava. Dadas as circunstncias, levei uma 
grande surpresa quando, na segunda manh, abri a porta da cozinha em procura de gua fervendo. Esperava encontrar o mesmo sebo que no resto do barco mas me deslumbrou 
o reflexo do sol numa fileira de caarolas de cobre, to esfregadas que refulgiam com um tom rosado. Pisquei para adaptar a vista. As paredes da cozinha estavam 
cobertas de prateleiras e armrios, construdos para resistir ao mar mais agitado. E no meio daquele imaculado esplendor se erguia o cozinheiro, estudando-me com 
expresso fnebre.
-Fora -ordenou. 
-Bom dia -saudei com toda a cordialidade possvel. - Me chamo Claire Fraser. 
-Fora - repetiu no mesmo tom. -Sou a senhora Fraser, esposa do comissrio e cirurgi de bordo. Preciso de seis gales de gua fervendo, quando for possvel, para 
limpar a latrina. Seus pequenos olhos azuis me apontaram com duas pistolas. 
-Sou Aloysius Ou'Shaughnessy Murphy -informou- Cozinheiro de bordo. E preciso que tire os ps de meu solo recm esfregado. No permito a presena de mulheres na 
minha cozinha. 
Era vrios centmetros mais baixo do que eu mas o compensava medindo quase um metro a mais de circunferncia; os ombros eram de lutador e tinha uma cabea enorme 
sobre eles, sem pescoo  vista. Completava o conjunto uma perna de pau. Dei um passo para trs com dignidade para falar com a segurana que me oferecia o corredor. 
-Nesse caso, poderias enviar-me a gua quente pelo marinheiro. 
-Talvez sim-disse- E talvez no.
Depois, voltando-me as costas, dedicou-se a sua pata de cordeiro. Fiquei no corredor, pensando. O ar estava impregnado pelo aroma empoeirado de slvia, esfumaado 
pela acritude de uma cebola. Era evidente que a tripulao do Artemis no subsistia s a base de porco salgado e bolachas marinhas. Comeava a compreender por que 
o capito Raines tinha um fsico com forma de pra. Voltei a assomar a cabea, com cuidado de no pisar no interior. 
-Cardamomo -disse com firmeza - Noz moscada, inteira, que foi seca este ano. Extrato de ans fresco. Raiz de gengibre, dois dos grandes e sem manchas. 
Fiz uma pausa. O senhor Murphy tinha deixado de picar e mantinha a faca imvel sobre a chapa. 
-E meia dzia de gros de baunilha. Do Ceilo. 
Girou lentamente, secando as mos no avental. Sua cara era larga e corada com tesos bigodes, muito loiros, que se estremeceram como as antenas de um inseto. 
-Aafro? -perguntou com voz rouca. 
-Meia poro -confirmei de imediato, dissimulando qualquer deixe de triunfo em minha atitude. 
Respirou fundo; em seus olhinhos azuis faiscavam a luxria. 
-L fora tem um pano de cho, senhora, se quiser limpar as botas para entrar. 
Esterilizada em uma das latrinas, tudo o que permitiu a gua fervendo e a tolerncia de Fergus, voltei a meu camarote para lavar-me para o almoo. No encontrei 
a Marsali que sem dvida estava com Fergus. Lavei as mos com lcool e, depois de escovar-me o cabelo, cruzei o corredor para ver se existia a remota possibilidade 
de que Jamie quisesse comer ou beber algo. Bastou-me um olhar rpido para eliminar a idia. Marsali e eu ocupvamos o camarote maior, o que significava que cada 
uma de ns contava com um espao de um metro oitenta de comprimento, descontando as liteiras presas  parede, que mediam em torno de um metro e sessenta. Minha colega 
cabia bem na sua, mas eu devia curvar-me como um camaro sobre uma torrada.
Jamie e Fergus ocupavam liteiras similares. Meu esposo jazia de costas, como um caracol em sua concha. 
-No te encontras muito bem, n? -observei compassiva. 
Abriu um olho como se dispusesse a dizer algo. 
-No. -E voltou a fech-lo. 
-Diz o capito Raines que amanh o mar estar mais sereno -o consolei, ainda que nesse dia no estivesse muito agitado. 
-No importa. Amanh terei morrido... com um pouco de sorte. 
-Temo que no. -Sacudi a cabea.-Disto no se morre ningum... ainda que vendo-te parea mentira. 
-No  por isso. -Fez um esforo para incorporar-se. -Claire. Cuida-te. No te disse antes... para no te preocupar.
Mudou de expresso. Familiarizada com os sintomas do mal-estar corporal, aproximei a vasilha justo a tempo. 
-Oh, Deus... -Esticou-se, plido como o lenol.
 -O que no me disseste? -perguntei enquanto deixava a vasilha no solo.
 -Pergunte a Fergus. Diga-lhe que  ordem minha. E que Innes no foi. 
-Do que ests falando? -perguntei ligeiramente alarmada. 
As tonturas do mar no costumavam causar delrios. 
-Innes -repetiu-No pode ser ele. O que quer matar-me. 
Percorreu-me um arrepio.
-Ests bem, Jamie? -Inclinei-me para secar-lhe a cara. No tinha febre. 
-Quem quer te matar? 
-No sei. Pergunta-lhe a Fergus. A ss. Ele te dir. 
No tinha nem idia do que aquilo significava mas se Jamie corria algum perigo no ia deix-lo s. 
-Ficarei contigo at que desa. 
-No me acontecer nada -disse
- V, Sassenach. No creio que tentem nada s claras. 
Aquilo no me tranqilizou em absoluto. 
-V -repetiu quase sem mover os lbios.
Algo se moveu no corredor, junto  porta do camarote. Distingui a silhueta do senhor Willoughby com o queixo fincado nos joelhos. 
-Calma, honorvel Primeira Esposa -me assegurou num sussurro. 
-Eu cuido. 
-Bem, obrigada. Sa a procura de Fergus bastante preocupada. 
Encontrei a Fergus com Marsali na coberta da popa. Mostrou-se pouco mais tranqilizador. 
-No estamos seguros de que algum pretenda matar a milord -explicou. -O daqueles tonis pode ter sido um acidente; ocorreu mais de uma vez; tambm o incndio do 
galpo. Ainda assim... 
-Um momento, jovem Fergus -disse puxando-lhe a manga- Que tonis? Que incndio? 
-Ah! -exclamou com cara de surpresa- Milord no contou nada? 
-Milord est feito um trapo e s pde me dizer que perguntasse a voce. Fergus sacudiu a cabea estalando a lngua.
-Sempre pensa que no marear -disse. -Cada vez que sobe a um barco assegura que  questo de vontade, que  sua mente quem manda e no se deixar dominar pelo estmago. 
Mas a trs metros do cais j est verde. 
-No tinha me contado - reconheci divertida pela descrio. -Tonto! 
-J o conheces, milady -sorriu Fergus. 
-Poderia estar agonizando e no dizer nada. 
-Oh, estes homens! 
-Milady? 
-No disse nada. Falavas-me de uns tonis e de um incndio. 
-Ah, sim, claro. -Fergus retirou uma grossa mecha de cabelo. 
-Foi na casa de Madame Jeanne, no dia anterior a voltar a v-los. 
O dia de minha volta a Edimburgo, poucas horas antes de encontrar a Jamie na tipografia, ele tinha estado nas docas de Burntisland com Fergus e outros seis homens, 
aproveitando a longa noite invernal para recuperar vrios tonis de vinho Madeira camuflado como inocente farinha.
-O Madeira no penetra na madeira to rpido como outros vinhos -me explicou Fergus. -O conhaque no  possvel pass-lo desse modo, sob os narizes dos aduaneiros, 
pois os cachorros o farejam de imediato. 
-Que cachorros? 
-Alguns inspetores de Alfndegas tm cachorros adestrados para detectar contrabando de fumo e conhaque. Tnhamos retirado sem problemas o Madeira e o levamos a um 
depsito, um dos que esto em nome de lorde Dundas mas que na realidade pertence a milord e a Madame Jeanne. 
- isso! -Voltei a sentir o mesmo n no estmago quando Jamie abriu a porta do bordel. 
-Assim que so scios? -Em certo modo. -O moo parecia apenado-. Milord s cobra cinco por cento, por conseguir o lugar e fazer os arranjos. Como impressor se ganha 
muito menos do que com uma casa de prazeres. 
-No o duvido. -Depois de tudo, Edimburgo e Madame Jeanne tinham ficado atrs. -Continua com o relato. Algum poderia degolar a Jamie antes que eu descubra por que. 
-Por suposto, milady. -Fergus se desculpou com uma inclinao de cabea.
Uma vez escondido o vinho, os contrabandistas tinham feito uma pausa para reanimar-se com um trago, antes de voltar a casa ao amanhecer. Dois dos homens tinham pedido 
sua parte dizendo que precisavam do dinheiro para pagar dvidas de jogo e comprar provises para a famlia. Jamie foi ento ao escritrio do depsito, onde guardava 
um pouco de ouro. Enquanto os homens se entretinham com brincadeiras e risos, uma sbita vibrao sacudiu o solo: um barril de duas toneladas se tinha desprendido 
da pilha. -Milord estava cruzando frente aos tonis -explicou Fergus mexendo a cabea. -Se no ficou achatado foi pela graa de Deus. Essas coisas ocorrem. Todos 
os anos, s nos depsitos de Edimburgo, morrem dez ou doze homens em acidentes parecidos. Mas os outros acidentes...
Na semana anterior, um pequeno beiral cheio de palha tinha estourado em chamas enquanto Jamie trabalhava dentro. Ao que parece, um lustre tinha cado entre ele e 
a porta, prendendo a palha, com o que Jamie ficou preso depois de um muro de fogo num local sem janelas. -Por sorte, o beiral era to dbil que milord pde abrir 
um buraco a pontaps e sair ileso. -Fergus suspirou cansado. 
Perguntei-me se teria montado guarda durante toda a noite- Esses incidentes puderam ter-se produzido por acaso, mas somando o de Arbroath... 
- possvel que tenha um traidor entre os contrabandistas -disse. 
-Pois , milady. -Fergus coou a cabea. -Mas milord est inquieto por aquele homem que o chins matou na casa de Madame Jeanne.
-Pode ser um agente de Alfndegas que lhes tivesse seguido desde as docas at ali? Jamie disse que no era possvel, j que no tinha licena. 
-Isso no prova nada. O pior era o livrinho que levava no bolso. 
-O Novo Testamento? No penso que tenha muita importncia. 
-Poderia ser que sim, milady. Esse livrinho foi um dos que imprimiu pessoalmente milord. 
-Creio que comeo a compreender -sussurrei. 
Fergus assentiu com gravidade. 
-Sempre se pode procurar outro esconderijo se os da Alfndega rastreiam o conhaque at o bordel. Mas se os agentes da Coroa vinculam ao notrio contrabandista Jamie 
Roy com o respeitvel senhor Malcolm... -Abriu as mos. 
-Compreendes? Teriam provas para enforc-lo dez ou doze vezes. 
-Quando Jamie disse que lhe convinha ausentar-se da Esccia durante um tempo, no s estava preocupado por Laoghaire e Hobart MacKenzie -reconheci. 
Paradoxalmente, as revelaes de Fergus me causavam alvio; no era a nica culpada do exlio de Jamie. Simplesmente tinha precipitado a crise.
-Assim , milady. Mas no estamos seguros de que um dos homens tenha nos denunciado. Nem de que algum queira matar a milord. Se h um traidor entre ns,  um dos 
seis que milord mandou trazer. Os seis estavam presentes quando caram os tonis e quando se incendiou o beiral; todos estiveram no bordel e tambm no caminho de 
Arbroath quando sofremos a emboscada e encontramos o policial enforcado.
 -Todos sabem da tipografia? 
-Oh, no, milady! Milord ps sempre muito cuidado em que no soubessem. Mas  possvel que um deles o visse pelas ruas de Edimburgo e o seguisse at a tipografia. 
-Sorriu com ironia. 
-Milord no  homem que passe despercebido, milady. 
-Verdade -confirmei- Mas agora todos conhecem o verdadeiro nome de Jamie. O capito Raines o chama de Fraser. 
-Sim -reconheceu com um sorriso. 
-Por isso devemos averiguar se realmente navegamos com um traidor... e quem .
Naquele momento ca em conta de que Fergus j era um homem feito e direito... e um tanto perigoso. Marsali tinha passado a maior parte do tempo contemplando o mar, 
como se no quisesse arriscar-se a conversar comigo. Ainda assim deve ter escutado tudo, pois vi que a percorria um arrepio. Provavelmente ao fugir com Fergus no 
tinha planejado embarcar com um assassino. 
-Ser melhor que a leves para baixo -disse- Est ficando azul. No te preocupes -disse dirigindo-me a Marsali- demorarei um pouco para descer ao camarote. 
-Aonde vai, milady? -Fergus me olhava com suspiccia. -Milord no ia querer que... 
- cozinha. 
- cozinha? 
-Quero ver se Aloysius Ou'Shaughnessy Murphy tem algum remdio contra a tontura - disse.-Se Jamie continuar assim como at agora, pouco lhe importar que algum 
o degole.
Murphy, amaciado por umas raspas secas de laranja e uma garrafa do melhor clarim, mostrou-se bem disposto. De fato, pareceu considerar como um desafio profissional 
manter um pouco de comida no estmago de Jamie. Dedicou horas inteiras  mstica contemplao de suas especiarias e sua despensa... mas no serviu de nada. Jamie 
no dava sinais de recuperao. Tinha a cor das natas ranosas e s abandonava sua liteira para arrastar-se at a latrina, custodiado dia e noite por Fergus e o 
senhor Willoughby. Felizmente nenhum dos seis contrabandistas dava um s passo que se pudesse considerar ameaador. Todos expressavam uma solidria preocupao pela 
sade de Jamie e, sob atenciosa vigilncia, tinham-lhe feito uma breve visita sem que surgissem circunstncias suspeitas.
De minha parte, passava os dias explorando a embarcao e atendendo aos labores mdicos habituais: dedos achatados, abscessos e gengivas ensangentadas. Murphy tinha 
tido a generosidade de permitir-me triturar minhas ervas e preparar meus remdios num canto da cozinha. Marsali abandonava nosso camarote antes que eu acordasse 
e ao deitar-me a encontrava j adormecida. Quando nos encontrvamos na coberta ou  hora das refeies, mostrava-se silenciosamente hostil. Supus que se devia, em 
parte, ao natural afeto por sua me, mas tambm a ter que passar as noites comigo no lugar de Fergus. Em realidade, se permanecia intacta (e assim eu acreditava, 
a julgar por sua atitude amuada) devia-se s ao respeito que Fergus dava s ordens de Jamie: como guardio de sua virtude, o padrasto era, naqueles momentos, uma 
fora descartvel. 
-O que, o caldo tambm no? -Estranhou-se Murphy. -Com esse caldo levantei a vrios do leito de morte! 
Pegou a sopeira que lhe devolvia Fergus e, depois de cheir-la com ar crtico, me ps embaixo do nariz. Em verdade, o dourado lquido tinha um cheiro to apetitoso 
que encheu minha boca de gua, ainda que pese ao excelente caf da manh consumido fazia uma hora. Com suas dimenses de barril e seu aspecto de pirata consumado, 
Murphy tinha fama de ser o melhor cozinheiro naval de Le Havre; ao menos, isso me disse sem a menor vaidade. As tonturas eram um desafio para sua capacidade; Jamie, 
prostrado j fazia quatro dias, representava um verdadeiro desafio.
- um caldo estupendo, sem dvida -o tranqilizei- Mas no pode reter absolutamente nada. 
Murphy grunhiu e comeou a revolver suas provises. Por fim me entregou uma bandeja. -... leite batido com whisky e um rico ovo... -ouvi enquanto me afastava pelo 
corredor. Esquivei cuidadosamente ao senhor Willoughby, que dormia junto  porta de Jamie como um cachorro fraldiqueiro. Mas ao entrar no camarote compreendi que, 
uma vez mais, as habilidades culinrias do senhor Murphy resultariam vs. Como qualquer homem enfermo, Jamie se tinha arrumado para que o ambiente fosse sumamente 
incmodo e deprimente. A pequena habitao estava mida e fedorenta; na liteira, rodeada por um pano que no deixava passar luz nem ar, amontoavam-se os cobertores 
pegajosos e a roupa suja.
-Levanta-te e ande -disse alegremente, deixando a bandeja para abrir a improvisada cortina, feita com uma camisa de Fergus. 
Jamie entreabriu um olho. 
-V embora -disse antes de voltar a fech-lo. 
-Trouxe algo para que tomes caf da manh. 
-No quero ouvir falar de caf da manh. 
-Digamos que  o almoo, ento. A estas horas, bem poderia ser.   -Aproximei um banco e pegando um pepino em conserva o aproximei do seu nariz. 
- Chupa isto. 
Abriu pouco a pouco o outro olho. Ainda que no dissesse nada, suas pupilas azuis se pousaram em mim com uma eloqncia to feroz que me apressei a retirar o pepino. 
-Essa liteira  muito pequena para voce -observei.
-Verdade. 
-No quere provar uma rede? Ao menos poderias esticar-te. 
-No quero. 
-Disse o capito que precisa de uma lista da carga... Quando puder faz-la. 
Sem molestar-se em abrir os olhos, emitiu uma breve e irrepetvel sugesto sobre o que podia fazer o capito Raines com sua lista. Peguei-lhe a mo, suspirando; 
estava fria e mida e o pulso acelerado. 
-Bem -disse ao fim -, poderamos provar algo que eu empregava com os meus pacientes. As vezes dava resultado. 
Deixou escapar um gemido, mas no se ops. Sentei-me no banco sem soltar-lhe a mo. Poucos minutos antes de operar costumava falar com os pacientes para tranqiliz-los; 
tinha descoberto que, se conseguia faz-los pensar em algo que no fosse a operao, obtinham-se melhores resultados: sangravam menos, as nuseas provocadas pela 
anestesia eram mais leves e cicatrizavam com mais celeridade.
-Vamos pensar em algo agradvel - propus com voz grave e sedativa. -Pense em Lallybroch, na colina que est junto  casa. Pensa nos pinheiros..., sentes seu cheiro? 
Pensa na fumaa que surge da chamin nos dias despejados. Imagina que tens uma ma na mo; sente-a, dura e redonda... 
-Sassenach? -Olhava-me com intensa concentrao. 
O suor fazia brilhar sua frente. 
-Sim? 
-V. 
-O que? 
-Quero que vs embora -repetiu com muita suavidade- se no queres que eu te quebre o pescoo. V de uma vez. 
Sa com toda dignidade. O senhor Willoughby, do corredor, jogou um olhar pensativo ao interior do camarote. 
-No terias aqui aquelas bolas de pedra? -perguntei. 
-Sim -respondeu com certa surpresa. 
-Quer bolas saudveis para Tsei-mi? 
Procurava-as dentro de sua manga, mas o detive com um gesto. 
-O que quero  despeda-las na cabea, mas Hipcrates no me permite.
O senhor Willoughby esboou um sorriso desconcertado. 
-Que homem to terrvel! -exclamei com uma mistura de exasperao, piedade... e medo. Uma coisa era cruzar o Canal da Mancha em dez horas. Mas que aconteceria depois 
de dois meses em alto mar? 
-Cabea de porco - disse o chins. - rato ou drago? 
- Cheira como um zoolgico inteiro. Mas por que drago? 
-Um nasce em Ano de Drago, Ano de Rato, Ano de Ovelha, Ano de Cavalo -explicou. -Sendo diferente, cada ano, diferente pessoa. Sabe se Tsei-mi rato ou drago? 
-Em que ano nasceu, queres saber? Foi em 1721, mas no sei a qual animal corresponde. 
-Parece-me rato. -O senhor Willoughby contemplou com ar pensativo o emaranhado de cobertores, que se agitavam com certa inquietude. -Rato muito inteligente, muita 
sorte. Mas drago tambm, poderia ser. Muito vigoroso em cama, Tsei-mi? Drages pessoas muito apaixonadas.
-No que eu saiba, ultimamente. 
O monto de roupa se moveu para cima e voltou a cair, como se seu contedo tivesse dado a volta. 
-Tenho remdio chins -apontou o senhor Willoughby observando o fenmeno. -Bom para vomito, estmago, cabea, tudo faz pacfico e sereno. Olhei-o com interesse. 
-De verdade? Me agradaria v-lo. O provaste com Jamie? O pequeno chins sacudiu tristemente a cabea. 
-No quer. Diz maldito, vomita se me aproximo. 
Olhamo-nos com perfeito entendimento. 
-Te direi uma coisa -disse, alando a voz em dois decibis: -as ansias secas, se se prolongarem muito, podem ser perigosas. 
-Oh, muito danosas, sim -assentiu energicamente. 
-Irritam os tecidos do estmago e o esfago. 
-De verdade?
-Sim. Elevam a presso arterial e tencionam demais os msculos abdominais, que podem chegar a rasgar-se e provocar uma hrnia. 
-Ah. 
-Alm disso -continuei, elevando a voz um pouquinho mais-, as vezes os testculos se enredam dentro do escroto e se corta a circulao da zona. 
-Oooh! -Os olhos do senhor Willoughby se fizeram redondos. 
-Nesse caso - conclu-, a nica coisa que se pode fazer  amputar antes de que se inicie a gangrena. 
O chins emitiu um som sibilante para expressar seu profundo horror. O monto de cobertores, que se tinha estado bamboleando de um lado a outro durante toda a conversa, 
ficou imvel. Olhei ao senhor Willoughby, que se encolheu de ombros. Cruzei os braos para esperar. Depois de um minuto, um elegante p descalo saiu entre os lenis; 
pouco depois, se uniu ao seu colega. 
-Malditos sejam os dois - disse com grave e malvola voz escocesa. -Venha aqui.
Fergus e Marsali estavam inclinados sobre o balastre da popa, ombro com ombro, abraados pela cintura. Ao ouvir nossos passos, o moo se voltou a olhar e afogou 
uma exclamao, persignando-se com olhos dilatados. 
-Nem... uma... palavra, por favor -pediu Jamie com os dentes apertados. Fergus abriu a boca mas no pde dizer nada. Marsali lanou um grito. 
-Papai! Que te passou? 
-No  nada -disse resmungo- Uma loucura do chins para curar os vmitos. 
A garota se aproximou, alongando timidamente um dedo para tocar as agulhas que tinha fincadas no pulso. Outras cintilavam na face interior da perna, acima do tornozelo. 
-E... d resultado? -perguntou.-Como se sente? 
Jamie torceu a boca; comeava a recuperar seu habitual sentido do humor.
-Sinto-me como um boneco vodu que algum tivesse enchido de alfinetes -respondeu. -Mas como estou meia hora sem vomitar, devo supor que d resultado.
Me de uma olhada. Depois, ao senhor Willoughby. 
-No poderiam pr-me a chupar um pepino mas creio que poderia tomar uma taa de cerveja se a conseguir, Fergus. 
-Oh... Oh, sim, milord. Me acompanhas? 
-Devo indicar a Murphy que comece a preparar-te o almoo? - perguntei a Jamie. 
Jogou-me uma longa olhada acima do ombro. As agulhas de ouro lhe brotavam do cabelo em dois grupos gmeos, reluzindo ao sol da manh como um par de diablicos cornos. 
-No abuses, Sassenach -advertiu. -No acredita que vou esquecer-me disto. Testculos enredados! Bah! 
O senhor Willoughby, sentado sobre seus calcanhares, contava algo com os dedos, obviamente absorto em algum tipo de clculo. Quando Jamie se fora, levantou os olhos. 
-Rato no -disse sacudindo a cabea.-Drago no, tambm no. Tsei-mi nasce Ano do Boi. 
- mesmo? -comentei observando os largos ombros e a cabea vermelha, teimosamente enfrentada ao vento 
-Bem apropriado!




















CAPTULO 42 

A CARA DA LUA

O trabalho de Jamie como comissrio no exigia muito esforo. Depois de comprovar o contedo do poro e aferi-lo com as cartas de embarque, no tinha nada mais que 
fazer at chegar a Jamaica. Enquanto assistia com entusiasmo s prticas de tiro que se realizavam dia sim e dia no; ajudava a vistoriar os quatro enormes canhes 
e passava horas inteiras discutindo apaixonadamente com Tom Sturgis, o artilheiro. Durante aqueles estrondosos exerccios, Marsali, o senhor Willoughby e eu nos 
colocvamos a resguardo sob o cuidado de Fergus, excludo das prticas por faltar-lhe uma mo. Para minha surpresa, a tripulao me aceitou como cirurgi de bordo 
sem maiores reparos. Fergus me explicou que nos pequenos navios mercantes, at os barbeiros podiam cumprir essa funo. Geralmente era a esposa do artilheiro, se 
este era casado, quem atendia as pequenas leses e doenas da tripulao.
ramos trinta e quatro pessoas a bordo e o trabalho mal me ocupava uma hora pelas manhs, de maneira que tanto Jamie como eu tnhamos bastante tempo livre.  medida 
que o Artemis descia para o sul, comeamos a passar juntos a maior parte do tempo. Pela primeira vez desde minha volta a Edimburgo podamos conversar e recordar 
as coisas meio esquecidas que sabamos um do outro, descobrir novas facetas que a experincia tinha polido e desfrutar da mtua presena sem as distraes do perigo 
e da vida cotidiana. A lua se elevou como um enorme disco dourado; saiu velozmente da gua para subir pelo cu como uma ave fnix em ascenso. Jamie e eu a admirvamos 
do balastre. Distinguiam-se sem dificuldade os pontos escuros e as sombras de sua superfcie. 
-Parece possvel conversar com ela -disse sorridente. 
-Quando parti, um grupo de homens estava preparando para ir  lua. Tero chegado j?
-Vossas mquinas voadoras, chegam to alto? -estranhou-se Jamie.- Ainda que parea estar perto, no h muita distncia? Um livro dizia que, talvez, tinha trezentas 
lguas entre a Terra e a lua. Estava equivocado? Ou talvez vossos... aeroplanos... podem chegar to longe? 
- necessrio um aparelho especial, chamado foguete - expliquei. -Em realidade, a distncia  muito maior; quanto mais te afastas da Terra, mais se reduz o ar para 
respirar pelo que  necessrio lev-lo, junto  gua e comida, numa espcie de tubos. 
-Verdade? -Levantou os olhos com expresso maravilhada. -Como sero as coisas l em cima? 
-Isso eu sei, porque vi fotografias.  rochosa e erma, sem vida mas muito formosa, com barrancos, montanhas e crateras; vem-se desde aqui: so aquelas manchas escuras. 
-Assinalei a cara sorridente e dediquei um sorriso a Jamie. -No se diferencia muito da Esccia... s no  verde.
Riu com a palavra "fotografias" e retirou do bolso o pequeno pacote de fotos que guardava com muita prudncia e que no retirava nunca se algum pudesse v-las, 
ainda que fosse Fergus. Mas estvamos a ss e no corramos perigo de que nos interrompessem.
-Crs que ela caminhar pela lua? -perguntou com suavidade, detendo-se na foto de Bree olhando pela janela com expresso sonhadora. 
-No sei. - disse sorrindo. 
Aproximei-me  dele, sentindo o calor de seu corpo atravs do casaco e apoiei a cabea em seu brao enquanto olhava pouco a pouco as fotos. 
- linda -murmurou. -E alm disso, dizes que  muito inteligente. 
-Como seu pai - reconheci. 
Riu entre dentes, mas senti que ficou tenso ao ver uma das fotos. Brianna tinha uns dezesseis anos e se banhava com seu amigo Rodney na praia. Pigarreou.
-Isso... Esse moo...? No que quisesse criticar, Claire, mas no te parece que isto  um pouco... indecente? 
Contive o riso para dizer, com muita compostura: 
-At pelo contrrio, o traje de banho  bastante recatado... para a poca. Escolhi a foto porque supus que te agradaria... ver a tua filha o mais natural que pudesse. 
A idia pareceu escandaliz-lo um pouco mas seu olhar voltou irresistivelmente  foto. 
-Sim, bom,  adorvel e me alegro de saber. Mas esse... esse moo... 
Pela primeira vez no me pareceu to mau que Jamie no tivesse podido vigiar pessoalmente a vida de Bree: ante ele, qualquer moo que tivesse a audcia de cortej-la 
teria morrido de susto. 
Jamie respirou fundo. Dei-me conta de que reunia coragem para fazer-me uma pergunta. 
-Crs que ... virgem? - a pausa foi mal perceptvel. 
-Claro - assegurei. 
Em realidade s achava possvel mas no estava disposta a admiti-lo.
-Ah... -exclamou aliviado. 
Mordi os lbios para no rir 
-Bem, estava seguro, mas... isto ... -Engoliu saliva. 
-Bree  muito boa garota -lhe disse estreitando-lhe o brao. -Ainda que Frank e eu no nos dssemos muito bem, fomos bons pais. 
-Sim, eu sei. -Teve a delicadeza de mostrar-se envergonhado; guardou as fotos no bolso e disse, sem olhar-me: 
-Est segura de ter feito bem em vir agora, Claire? No  que eu no te queira comigo -disse precipitadamente ao sentir que me colocava rgida. -Claro que te quero, 
por Deus! Quero-te tanto que as vezes sinto como se o corao me arrebentasse de alegria ao ver-te ao meu lado. S que... agora Brianna est s: Frank morreu e voc 
se foi; no tem um esposo que a proteja; no h um homem em sua famlia que se ocupe de cas-la bem. No deverias ter ficado um pouco mais com ela?
Fiz uma pausa tratando de dominar meus prprios sentimentos. 
-No sei -reconheci ao fim. 
Tremia-me a voz ainda que me esforasse por control-la. 
-Olhe, em meus tempos as coisas no so como agora. -Isso j sei! 
-No, no sabes. -Arranquei minha mo da sua com um olhar fulminante. -No sabes, Jamie, e no h forma de explicar-te, porque no acreditaria. Bree j  uma mulher 
adulta; se casar quando e como queira, no quando algum o decidir por ela. Em realidade, nem sequer est obrigada a casar-se. Tem uma boa educao e pode ganhar 
a vida; h muitas mulheres que o fazem. No tem necessidade de um homem que a proteja. 
-Se as mulheres no precisam um homem que as proteja e as ame, deve ser uma poca muito triste. -Sustentou-me o olhar com idntica fria. 
Respirei fundo, tratando de manter a calma.
-No disse que no o precisemos. -Apoiei-lhe uma mo no ombro. -Disse que ela pode escolher. No est obrigada a aceitar um homem por necessidade; pode faz-lo por 
amor. 
Jamie comeou a relaxar-se. 
-Voce me aceitou por necessidade. 
-E voltei por amor -assinalei. -Acreditas que te precisava menos porque podia manter-me s? 
-No -reconheceu baixinho.-No acredito. 
-A verdade  que me preocupava a perspectiva de abandon-la -sussurrei. -Ela mesma me obrigou. Temamos que, se esperssemos mais tempo, j no seria possvel localizar-te. 
Mas me preocupava. 
-Eu sei. No deveria ter dito isso. 
-Deixei-lhe uma carta. Foi o nico que me ocorreu... sabendo que talvez no voltaria a v-la. 
-Sim? Isso foi bom, Sassenach. Que lhe dizias? 
Soltei um riso tremulo.
-Tudo o que me ocorreu. Conselhos de me, com a pouca sabedoria que tenho. E coisas prticas: onde estava a escritura da casa e os documentos da famlia. E recomendaes 
sobre como viver. Suponho que ela no as levar em conta e ser muito feliz, mas ao menos saber que pensava nela. 
Minha querida Bree... 
Ali me detive. No podia. 
-Controla-te, Beauchamp - murmurei. -V se acaba de uma vez com esta maldita carta. Ainda que no lhe faa falta, tambm no lhe far nenhum dano. Mas se precisa, 
assim ser. 
Peguei a esferogrfica e comecei. No sei se chegars a ler isto, mas  importante p-lo por escrito. Deixo aqui o que sei de teus avs (os verdadeiros), teus bisavs 
e tua histria clnica...
Escrevi durante muito tempo, cobrindo pginas atrs pginas. Minha mente ia serenando pelo esforo e a necessidade de registrar a informao com clareza.

s minha menina e o sers sempre. S compreenders o que isso significa quando tiver um filho, mas quero dizer-te: sempre sers to parte de mim como quando compartilhavas 
meu corpo e te sentia mover-te. Sempre. Quando te vejo dormir penso nas noites em que te aninhava, nas vezes que me aproximava para escutar-te respirar. Passe o 
que passar, tudo est bem no mundo, porque estou com voce. E como te chamava naqueles anos! Gatinha, abbora, pomba, querida, doce, maritaca... Agora sei porque 
os judeus e os muulmanos tm novecentos nomes para denominar a Deus; ao amor no lhe basta com uma palavra.

Pisquei para descansar os olhos e continuei escrevendo com urgencia. No me atrevia a tomar-me o tempo necessrio para escolher as palavras.

Me  recordo tudo de ti: desde a pelugem dourada que, de recm nascida, cobria-te a testa, at a unha do dedo que rompeste no ano passado, quando brigou com Jeremy 
e fechaste com um pontap a porta de sua caminhonete. Me parte o corao pensar que isso se acaba; j no poderei observar-te e detectar as pequenas mudanas; no 
saberei se deixars de roer as unhas nem verei a forma definitiva de teu rosto. No te esquecerei nunca, Bree, nunca. 
Provavelmente no h outra pessoa na Terra que saiba como era o dorso de tuas orelhas aos trs anos. Quando me sentava ao teu lado para ler "Os cinco patinhos foram 
nadar..." ou o conto dos trs porquinhos, aquelas orelhas se punham rosas de felicidade. Tinhas a pele to limpa e frgil que teria bastado um mau pensamento para 
deixar-lhe impresso. J te disse como te pareces com Jamie. Mas tambm tens um pouco de mim; procure o retrato de minha me, o que est na caixa, e a pequena fotografia 
em branco e preto de tua av com sua me. Vers que tua testa  larga e clara, como a delas e como a minha. Tambm conheo a muitos dos Fraser; creio que vas envelhecer 
bem se cuidar de sua pele. Encarrega-te de tudo, Bree. Quanto me agradaria poder cuidar-te e proteger-te durante toda a vida! Mas no posso, ficando ou indo. De 
qualquer modo, cuida-te; faa-o por mim.

As lgrimas comeavam a molhar o papel; tive que me deter para sec-las antes que borrassem a tinta e deixassem ilegvel a escritura. Sequei o rosto e segui escrevendo 
com mais lentido. 

Deves saber, Bree, que no me arrependo. Apesar de tudo, no me arrependo. Agora poder imaginar o quo s me senti sem Jamie. s minha alegria, Bree. s perfeita 
e maravilhosa. J te ouo dizer, nesse tom exasperado: << lgico que pensas assim: s minha me!" Sim, por isso o sei. Por ti tudo valeu a pena, Bree... ainda que 
tivesse sido pior. Fiz muitas coisas em minha vida, mas a mais importante foi amar ao teu pai e a voce. Elege um homem que se parea a teu pai. A qualquer dos dois.

Ante isso mexi a cabea; podiam existir dois homens mais diferentes? Mas ao pensar em Roger Wakefield resolvi deix-lo assim. 

Uma vez que tenhas escolhido a um homem, no tente mud-lo. No se pode. Mas o mais importante  no permitir que tente mudar a ti. Tambm no se pode, mas os homens 
sempre o tentam. 
Caminha sempre com as costas erguidas e trata de no engordar. 
Com todo meu amor, 
Mame.

Jamie, inclinado sobre o balastre, tremia os ombros; no pude saber se era de riso ou de emoo. 
-Creio que se cuidar muito bem - sussurrou. -No importa quem a tenha gerado: nunca nenhuma garota teve uma me melhor. D-me um beijo, Sassenach. E acredite: no 
te mudaria por nada do mundo.










CAPTULO 43

MEMBROS FANTASMAS

Desde a partida, Fergus, o senhor Willoughby, Jamie e eu vigivamos com ateno os seis contrabandistas escoceses. Como nenhum deles fazia o menor gesto suspeito 
acabei relaxando ainda que, a exceo de Innes, no deixei de mostrar-me reservada para eles. Innes era um homem calado. Por isso no me surpreendeu descobri-lo 
uma manh com a cara contrada numa careta silenciosa e dobrado em dois atrs de uma escotilha, como se travasse algum silencioso combate interior. 
-Sente dores, Innes? -perguntei. 
-Ai! -Ergueu as costas sobressaltado, para voltar a agachar-se com um brao sobre o ventre. -Hummmm. 
-Acompanha-me.
O peguei pelo cotovelo para lev-lo ao meu camarote e tirei sua camisa para examin-lo. Apalpei seu abdome magro e peludo. As dores eram intermitentes, faziam-lhe 
retorcer-se como um verme e depois desapareciam; dava a sensao de que era uma simples flatulncia, mas era melhor conferir. -Respira fundo -lhe pedi apoiando as 
mos sobre seu peito. -Agora solta o ar. -Seu rosto adquiriu de novo a cor habitual. 
Peguei uma das gordas folhas de pergaminho que usava como estetoscpio. 
-Quando foi a ltima vez que esvaziaste o ventre? -perguntei enquanto fazia um rolo com o pergaminho. 
A cara magra do escocs se tornou da cor de fgado fresco. Murmurou algo incoerente e reconheci a palavra "quatro". 
-Quatro dias? -inquiri prendendo-o sobre a mesa para impedir que escapasse. -Espere um momento. Preciso escutar algo para assegurar-me. 
Tal como eu pensava, na curva superior do intestino grosso se ouvia claramente o rumor dos gases presos. O clon estava bloqueado; dali no surgia som algum.
-Est com gases na barriga -expliquei.-E priso de ventre 
-Sim, j o sei - murmurou Innes procurando freneticamente a camisa que lhe retinha enquanto lhe passava um sermo sobre sua dieta. 
No me surpreendeu saber que consistia quase por completo em carne salgada e bolachas 
-E as ervilhas secas? E a aveia? -perguntei surpresa. 
Innes no abriu a boca mas a pergunta desatou uma torrente de revelaes e queixas dos espectadores que se tinham amontoado no corredor.
Como Jamie, Fergus, Marsali e eu comamos com o capito Raines, desfrutando dos banquetes de Murphy, ignorvamos o quo deficiente que era a comida para a tripulao. 
Ao que parece, o problema era que Murphy reservava seus sabores culinrios para a mesa do capito, enquanto alimentar a tripulao lhe parecia mais uma tediosa obrigao 
do que um desafio. Negava-se terminantemente a molestar-se em atos como embeber alfarroba ou ferver aveia. A teimosa insistncia dos escoceses, que reclamavam por 
sua aveia, despertava sua intransigncia irlandesa. A questo, que num princpio parecia um pequeno desacordo, podia converter-se num problema mais grave. 
-Falarei com o senhor Murphy - prometi aos escoceses. 
E entreguei a Innes algumas ervas envoltas numa gaze. 
-Por enquanto, prepara uma infuso com isto e bebe uma xcara a cada mudana de turno. Se amanh no tiver obtido resultados tomaremos medidas mais potentes. 
Innes pegou o envoltrio e, depois de inclinar a cabea agradecido, fugiu a toda pressa. 
Depois de um inflamado debate com Murphy, que foi concludo sem derramamento de sangue, lembramos que eu me encarregaria todas as manhs de preparar o pur para 
os escoceses com a condio de que usasse s uma caarola e uma colher, no cantasse enquanto o fazia e cuidasse de no sujar sua sagrada cozinha.
Na manh seguinte, Jamie no se apresentou  mesa do capito. Tinha sado na chalupa com dois dos marinheiros com inteno de pescar algo. Regressou ao meio dia, 
alegre, queimado pelo sol e coberto de escamas. 
-Que fizeste com Innes, Sassenach? -exclamou sorridente. -Escondeu-se na latrina de estibordo. Diz que lhe ordenaste no sair de l at que tenha cagado. 
-No lhe disse exatamente isso -expliquei -; disse-lhe que se at esta noite no tiver esvaziado o ventre, lhe faria uma lavagem. 
Jamie deu uma olhada para a latrina. 
-Bem, esperemos que seus intestinos cooperem. Caso contrrio, com uma ameaa como essa, no sair durante o resto da viagem. 
-No te preocupes. Agora que todos esto comendo pur, seu ventre voltar a funcionar. 
Jamie me lanou uma olhada de surpresa.
-Que esto comendo pur? Que significa isso, Sassenach? 
Expliquei-lhe como tinha originado a Guerra da Aveia e seu resultado final. -Deveriam ter recorrido a mim -comentou enquanto lavava os braos. 
-Suponho que o teriam feito cedo ou tarde. Eu o descobri por acaso, porque encontrei a Innes gruindo por trs de uma escotilla. 
-Hum... -disse enquanto tirava o sangue do pescado com pedra pmes. 
-Estes homens no so como teus arrendatrios de Lallybroch, verdade? -comentei. 
-No. -Submergiu os dedos na bacia de gua, deixando pequenos crculos nos quais boiavam escamas. -Eu no sou seu senhor. S o que lhes pagam. -Mas te apreciam -protestei. 
Corrigi ao recordar o relato de Fergus:
-Ao menos, cinco deles. 
-Sim. MacLeod e os outros me tm afeto... cinco deles. E me apoiariam se fosse necessrio... cinco ao menos. Mas no me conhecem bem, nem eu a eles, exceto a Innes. 
-Arrojou a gua suja pela borda e me ofereceu o brao. -Em Culloden morreu algo mais do que a causa dos Stuart, Sassenach. Bem, vamos comer? 
Na semana seguinte descobri o que diferenciava Innes do resto. Talvez arrebatado pelo sucesso de meu purgante se apresentou voluntariamente em meu camarote.
-Me agradaria saber, senhora -disse cortesmente-, se existe algum remdio para algo que no tem. 
-Como? -Devo ter feito cara de surpresa ante tal descrio, pois me mostrou sua manga vazia a modo de exemplo. 
-O brao -explicou. - No o tenho, como podeis ver. No entanto, as vezes me di de um modo horrvel. Durante anos pensei que estava louco - confessou um pouco rubro 
e baixando a voz. 
-Mas estive falando com o senhor Murphy e me disse que lhe sucede o mesmo com a perna que perdeu. E Fergus costuma acordar com a sensao de que est metendo a mo 
amputada num bolso alheio. -Sorriu e seus dentes cintilaram sob o bigode cado. 
-Se  to comum sentir um membro que j no existe, talvez se possa fazer algo para solucion-lo.
-Compreendo. -Esfreguei o queixo reflexionando. 
- comum experimentar sensaes numa parte do corpo que se perdeu. Chama-se "membro fantasma". Quanto  soluo... Tratei de recordar se existia alguma terapia. 
Enquanto pensava, para ganhar tempo perguntei: 
-Como perdeu o brao? 
-Oh, por envenenamento do sangue -explicou indiferente. 
-Um dia fiz um pequeno corte na mo com um prego e se ps purulento. Foi uma sorte, porque isso evitou que me transportasse para os demais. 
-Os demais? 
Olhou-me com surpresa. 
-Os outros prisioneiros de Ardsmuir. No vos disse nada Mac Dubh? Quando a fortaleza deixou de ser priso, todos os escoceses foram enviados s Colnias com contrato 
de servido... exceto Mac Dubh, por ser um homem importante que no queriam perder de vista, e eu, que tinha perdido o brao e no servia para trabalhos pesados. 
A ele o levaram a outro lugar; a mim me perdoaram e me deixaram em liberdade.
-Como v, se no fosse pela dor que me ataca algumas noites, teria sido um acidente afortunado. 
Com uma careta, fez gestos de esfregar o brao inexistente; de imediato se deteve, encolhendo-se de ombros como que para explicar o problema. 
-Compreendo. Ento estiveste na priso com Jamie. Ignorava-o. -Eu comeei a revirar procurando o contedo de minha caixa de primeiros socorros, perguntando-me se 
algum calmante serviria para este tipo de dor.
 -Ah, sim. -Innes ia perdendo sua timidez e comeava a falar com mais liberdade. -Teria morrido de fome se Mac Dubh no tivesse vindo procurar-me quando o soltaram. 
-Foi procurar-te? -Pelo canto do olho vi um reflexo azul. Era o senhor Willoughby que passava. Chamei-o por senhas.
-Sim. Quando o libertaram foi pesquisar se tinha voltado algum dos homens que enviaram a Amrica. -Encolheu-se de ombros; a falta do brao exagerava o efeito. 
-Na Esccia no restava nenhum, exceto eu. 
-Compreendo. Senhor Willoughby, que se pode fazer com isto? Expliquei o problema ao chins, o qual tinha uma soluo. Despojamos novamente a Innes de sua camisa. 
Enquanto eu tomava notas, ele pressionou firmemente com os dedos certos pontos do pescoo e o torso. 
-Brao est num mundo fantasma -explicou. 
-Corpo no; aqui, no mundo de cima. Brao quer voltar, no quer estar longe corpo. Isto... An-mo... aperta-aperta... acalma dor. Mas tambm dizemos brao no voltar. 
-E como se faz isso? -Innes comeava a interessar-se pelo procedimento. 
O chins revolveu minha caixa de primeiros socorros, sacou um frasco de chille picantes secos e ps uma pequena quantidade num prato para esquent-los. 
-Envia fumaa de mensageiro fan jiao a mundo fantasma, falar brao. Depois, sem pausa, cuspiu copiosamente sobre o coto de Innes. 
-Ei, maldito pago! -gritou o escocs com os olhos dilatados pela fria.-Como te atreves a cuspir-me? 
-Cuspo fantasma - corrigiu o senhor Willoughby retrocedendo precipitadamente para a porta. -Fantasma medo saliva. J no volta. 
Apoiei uma mo no brao so de Innes. 
-Di agora o brao? -perguntei. 
Sua ira comeou a ceder. 
-Bem... no -admitiu dirigindo um olhar carrancudo ao chins. 
-Mas nem por isso vou permitir que me cuspas quando te d a vontade, verme! 
-Oh, no- replicou o senhor Willoughby muito sereno. -Eu no cuspo. Agora tu cospe. Assusta teu fantasma. 
Innes coou a cabea num gesto entre a ira e o riso. 
-Bem, que me crucifiquem -disse ao fim sacudindo a cabea. 
E recolheu a camisa para pr-se. 
-De qualquer modo, creio que da prxima vez tentarei com um ch, senhora Fraser.














CAPTULO 44

FORAS NATURAIS

-Sou um tonto - disse Jamie. 
Falava com ar triste enquanto observava a Fergus e a Marsali conversando junto ao balastre. 
-Por que o dizes? -perguntei ainda que tivesse uma idia bastante aproximada. 
-Passei vinte anos desejando ter-te na minha cama - disse, confirmando minhas suposies. -E no entanto de tua volta disponho as coisas de tal forma que no posso 
beijar-te sem ter que me esconder por trs de uma escotilha. Alm disso, cada vez que me viro me surpreendo com esse cretino do Fergus olhando-me com rancor. No 
posso culpar a ningum, salvo a minha prpria estupidez. Em que estava pensando quando tomei esta deciso? -inquiriu fincando um olhar fulminante no casal que se 
namorava com carinho.
-Bem, a verdade  que Marsali s tem quinze anos -disse. 
-Suponho que tratou de se comportar como um pai... ou a um padrasto. 
-Pois . -Olhou-me com um sorriso de reprovao.-E minha recompensa por to abnegada atitude  que no posso tocar a minha prpria esposa. 
-Oh, claro que podes tocar-me. -Peguei-lhe uma mo para acariciar-me suavemente. 
-O que no podemos  dar rdeas soltas a nossa paixo. 
-Em minha defesa tenho que dizer que minhas intenes eram boas -sussurrou melancolicamente enquanto sorria. 
-Bem, j sabes o que se diz das boas intenes.
-O que? 
-Que delas est cheio o inferno. -Estreitei-lhe a mo e tratei de retirar a minha, mas ele no me permitiu.
-Muito certo -disse. -Eu queria que a moa pudesse pensar no que ia fazer antes que fosse tarde demais. E o resultado final de minha interveno foi que passo acordado 
metade da noite, ouvindo Fergus gemer do outro lado do camarote. Alm de suportar os sorrisos da tripulao quando me vem passar. -Como soam os gemidos? - perguntei 
fascinada. 
Jamie pareceu um pouco aturdido.
-Oh, bom...  s... -Fez uma breve pausa. 
- Tens idia do que fazem os homens no crcere, Sassenach, por estar tanto tempo sem mulheres? 
-Posso imaginar. 
-Suponho que sim - reconheceu. -E seguramente acertas. H trs possibilidades: utilizar-se mutuamente, enlouquecer ou arrumar-se s, compreendes? Voltou-se para 
o mar com um sorriso mal visvel.
-Acredita que estou louco, Sassenach? 
-No geral, no -respondi sinceramente.
-No, no fui capaz. Ainda que de vez em quando pensasse que teria me agradado enlouquecer -confessou pensativo. -Tambm no recorri  homosexualidade -adicionou 
com uma careta irnica. 
-J o imagino. 
O desespero e a necessidade podiam levar a alguns homens que, em condies normais, se teriam horrorizado ante a idia de utilizar a outro. A Jamie, nunca. Conhecendo 
suas experincias nas mos de Jack Randall, era mais provvel que enlouquecesse antes de recorrer a tais atos. 
-No crcere no h nenhuma intimidade -disse. -Creio que isso me incomodava mais do que os grilhes. Dia e noite, sempre  vista de algum, sem outra maneira de 
proteger teus pensamentos que te fingir dormindo. Quanto ao outro... -Com um breve resfolegar passou o cabelo para trs da orelha. -Bem, um espera que se apague 
a luz, pois a nica intimidade est na escurido. Passei mais de um ano com grilhes, Sassenach.
Levantou os braos, separou-os meio metro e cortou bruscamente o movimento, como se tivesse chegado a algum topo invisvel. 
-S podia fazer isto. Era impossvel mover as mos sem que as correntes fizessem rudo. Se h algo que conheo muito bem, Sassenach - concluiu baixinho lanando 
um olhar a Fergus,- o rudo do homem que faz amor com uma mulher ausente. 
Encolheu-se de ombros e me olhou com um semi-sorriso; sob seu humor zombador vi espreitar as escuras recordaes no fundo de seus olhos. Tambm vi uma terrvel necessidade, 
um desejo to forte que no tinha sucumbido  solido, a degradao e a distncia. Seu apetite saa da medula dos ossos. E os meus pareceram dissolver-se. Sua mo 
estava a dois centmetros da minha, longa e potente. "Se o toco -pensei-, me possuir aqui mesmo, sobre a coberta."
Como se me tivesse ouvido, pegou-me subitamente a mo apertando-me a coxa. 
-As vezes, Sassenach, seria capaz de possuir-te sob o mastro, com as saias erguidas at a cintura, e ao diabo com essa maldita tripulao! Apertamo-nos a mo enquanto 
contestava com uma amvel inclinao de cabea  saudao do artilheiro. Sob meus ps soou a campainha que nos chamava  mesa do capito. Fergus e Marsali abandonaram 
seus jogos de amor para descer e a tripulao iniciou os preparativos para a mudana de turno. Ns seguamos de p junto ao balastre, olhando-nos aos olhos.
-O capito vos envia suas saudaes, senhor Fraser, e pergunta se pensas em comer com ele. 
-Era Maitland, o marinheiro, que cumpria seu recado mantendo uma prudente distncia. Jamie respirou fundo e afastou os olhos de mim. 
-Desceremos imediatamente -disse e, depois de acomodar o casaco sobre os ombros, ofereceu-me o brao. 
-Vamos, Sassenach? 
-Um momento. 
Encontrei em meu bolso o que levava tanto tempo procurando. Tirei-o e o pus na sua mo. Ficou olhando a imagem do rei Jorge m. 
-Este  o preo. -expliquei- Vamos descer para comer. 
No dia seguinte voltamos a pass-lo na coberta; o ar continuava gelado mas era prefervel o frio ao ambiente viciado dos camarotes. Demos nosso passeio habitual 
em torno da coberta. A pouca distncia estava o senhor Willoughby, com as pernas cruzadas sob a proteo do mastro; tinha um pequeno recipiente de tinta negra junto 
 ponta da sapatilha e uma grande folha de papel branco ante si. A ponta do pincel tocava a pgina com a leveza de uma borboleta, deixando depois de si rasgos assombrosamente 
fortes. Ante meus olhos fascinados voltou a comear no alto da pgina descendo rapidamente. Ver a segurana com que realizava os traos era como contemplar a um 
bailarino ou a um maestro de esgrima. Um marinheiro passou perigosamente perto e esteve a ponto de plantar seu enorme p na nivea brancura do papel. Pouco depois, 
outro homem fez o mesmo, mesmo sobrando espao para passar. O primeiro, ao regressar, ps to pouco cuidado que deu um pontap no pequeno tinteiro. O segundo marinheiro 
se deteve com interesse.
-E essa mancha na nossa limpa coberta? Ao capito Raines no lhe agradar -anunciou, saudando zombadoramente ao senhor Willoughby. 
-Fars bem em limpar isso com a lngua, pequeno, antes que eu o vingue. 
-Isso. Limpe com a lngua. Imediatamente! 
O primeiro homem se aproximou um passo  silhueta sentada; sua sombra caiu sobre a pgina como um borro. O senhor Willoughby apertou os lbios mas no levantou 
os olhos. 
-Disse que... -comeou o primeiro marinheiro em voz alta. Mas interrompeu, surpreso, ao ver que um grande leno branco caa sobre a mancha de tinta. 
-Perdoai, cavaleiros -disse Jamie. -Ao que parece, me caiu algo.
Com uma cordial inclinao de cabea dedicada  tripulao, inclinou-se para recolher o leno, deixando um leve borro na coberta. Os marinheiros trocaram um olhar 
de dvida. Ao ver o brilho dos olhos azuis sobre o branco sorriso empalideceram visivelmente. 
-No  nada, senhor - murmurou.-Vamos, Joe, que somos necessrios na popa. 
Sem olhar para os homens que se afastavam nem ao senhor Willoughby, Jamie veio para mim, guardando o leno na manga. 
-Um dia muito agradvel, concorda, Sassenach? -Jogou a cabea para trs para respirar profundamente. 
-Fizeste bem - disse enquanto apoiava no balastre. -Posso oferecer meu camarote ao senhor Willoughby para que escreva? 
Jamie ofegou.
-No; j lhe ofereci o meu ou a mesa do refeitrio, quando est desocupada, mas prefere estar aqui;  muito teimoso. 
-Suponho que h mais luz . -comentei dubitativa. -Mas no parece muito cmodo. 
-Efetivamente. -Jamie se penteou com os dedos, exasperado. -Ele o faz de propsito, para molestar  tripulao. 
-Bem, se  o que procura, sem dvida o consegue -comentei. -Mas para que? 
- complicado. Suponho que  o primeiro chins que conheces. 
-No, mas suspeito que os de minha poca so diferentes. No costumam usar rabicho nem pijama de seda, nem se preocupam com os ps das mulheres. Jamie se aproximou 
at que sua mo roou a minha no balastre. 
-Bem, tem a ver com os ps. Ao menos assim comeou. Josie, uma das garotas de Madame Jeanne contou a Gordon e, claro, ele contou a todo mundo. 
-Que diabos acontece com os ps? -inquiri com curiosidade. -Que tanto se importa com eles? 
Jamie tossiu, um pouco ruborizado.
-Bem,  um pouco... 
-No podes dizer-me nada que me espante -lhe assegurei. -Vi muitas coisas nesta vida, como sabes, e muitas delas contigo. 
-Suponho que sim -sorriu. -Bem, o caso  que, na China, s damas de alto bero lhes cobriam os ps. 
-Ouvi falar disso - disse sem compreender a que vinha. -Supe-se que desse modo os ps permanecem pequenos e um tanto elegantes. 
Jamie voltou a ofegar. 
-Elegantes? Sabes como se faz? 
E procedeu a descrever-me. 
-Que repugnante! -protestei. -Mas que relao tem isso com...? 
Lancei uma olhada ao senhor Willoughby, que no parecia escutar-nos.
-Digamos que este  o p da menina, Sassenach -explicou esticando a mo direita para frente. -Curvam-se os dedos para abaixo, at chegar a tocar no calcanhar. O 
que fica no meio? 
-O que? -perguntei surpresa. 
Jamie estendeu o dedo mdio da mo esquerda e o afundou no centro do punho, num inconfundvel gesto. 
-Um buraco -disse sucintamente. 
-No pode ser! Se faz por isso? 
Ele enrugou a testa. 
-No  brincadeira, Sassenach. -Assinalou delicadamente ao senhor Willoughby com a cabea. 
-Ele assegura que para o homem  uma sensao extraordinria. 
-Mas... pequena besta pervertida! 
Jamie se lanou a rir ante minha indignao.
-Bem, essa  a opinio geral da tripulao. Claro que com as mulheres europias, o efeito no pode ser o mesmo mas suponho que... tenta-o de vez em quando. Comeava 
a compreender a hostilidade geral que cercava o pequeno chins. Meu breve trato com a tripulao do Artemis tinha me demonstrado que os marinheiros, em geral, tendiam 
a ser pessoas galantes, com um forte aspecto romntico no que diz respeito s mulheres; sem dvida porque passavam boa parte do ano sem companhia feminina. 
-Hum - sussurrei lanando uma olhada suspicaz ao chins. -Bem, isso explica a hostilidade dos homens, mas... e a sua? 
-Isso  mais complexo. -Jamie esboou um sorriso irnico. -Para o senhor Yi Tien Cho, do Imprio Celeste, os brbaros somos ns.
-Verdade? Tu tambm? 
-Oh, sim. Sou um sujo e fedorento gwao-fe, isto , um demnio estrangeiro. Cheiro como uma doninha... creio que isso significa huang-shu-lang, e tenho cara de grgula 
- concluiu com alegria. 
-Ele te disse tudo isso? 
-No notaste que os homens midos so capazes de dizer qualquer coisa quando o lcool os domina? Creio que o conhaque lhes faz esquecer seu tamanho; ento se crem 
grandes e se comportam como gigantes. 
Olhou ao senhor Willoughby, que seguia escrevendo. 
-Quando est sbrio  um pouco mais circunspecto mas isso no muda sua maneira de pensar. Falta-lhe saber que, se no fosse por mim, algum o mataria de uma vez 
ou o jogaria ao mar qualquer noite.
-Mesmo lhe salvando a vida, dando-lhe trabalho e proteo ele te xinga e te tem por um brbaro ignorante -comentei.-Que encanto! 
-Que diga o que quiser. Na realidade, sou o nico que o compreende. 
-Jura? -Pus uma mo sobre a de Jamie. 
-Bem, talvez no deixe de compreend-lo -admitiu baixando os olhos. -Mas recordo-me o que significa ter somente teu orgulho... e um amigo. 
Ao lembrar o que tinha me dito Innes, perguntei-me se o manco teria sido seu amigo em outros tempos. Joe Abernathy tinha sido da mesma importncia para mim. 
-Sim, no hospital... - comecei. Mas me interromperam uns gritos provenientes da cozinha. 
-Inteis! -gritou o irlands. - Que esto olhando? Que dois de vocs joguem esta porcaria fora!
Pouco depois, um cheiro horrvel me invadiu o nariz. Maitland e Grosman subiam com um grande tonel para a coberta. 
-Por Deus, que  isso! -exclamei cobrindo a cara com um leno. 
-Pelo cheiro, um cavalo morto faz bastante tempo -disse Jamie. 
Maitland e Grosman atiraram o tonel ao mar. Estava cheio de carne podre, coberta de vermes. A tripulao se reuniu na coberta, atrada pelos gritos de Murphy. Naquele 
momento apareceu Manzetti, um pequeno marinho italiano, carregando seu mosquete. 
-Tubares! -explicou com uma cintilao nos dentes. -So muito gostosos. 
A gua turva tinha uma cor cinza mas divisei algo que se movia sob a superfcie e o tonel se agitou. A meu lado, o mosquete disparou com um pequeno rugido deixando 
uma nuvem de plvora e um grito geral. Quando meus olhos deixaram de lacrimejar distingui uma mancha parda que se espalhava em torno do tonel.
-No serve - disse Manzetti baixando o mosquete. -Muito longe. 
-Me agradaria comer um bom bocado de tubaro - disse a pouca distncia a voz do capito. 
- Poderamos baixar um bote, senhor Picard. O capataz deu uma ordem a gritos e se lanou um bote onde  iam o italiano com seu mosquete e mais trs homens, equipados 
com ganchos e cordas. Quando chegaram, o tonel tinha se convertido nuns bocados de madeira ao redor dos quais se debatiam os tubares e, por cima, uma ruidosa nuvem 
de aves marinhas. De repente, um focinho afiado emergiu apoderando-se de um pssaro e desaparecendo sob a gua. 
-Voc viu? -perguntei assombrada. 
-Por minha av, que dentes! -confirmou Jamie impressionado.
-De pouco lhe serviro - disse Murphy sorrindo com selvagem gozo - quando lhe meterem uma bala nesse maldito cabeo. Traz-me um desses bastardos, Manzetti, e ters 
uma garrafa de conhaque! 
-Trata-se de uma questo pessoal, senhor Murphy? -perguntou Jamie em tom corts. -Ou  puro interesse profissional? 
-Ambas coisas, senhor Fraser, ambas coisas. -O cozinheiro golpeou a borda com a perna de madeira- Eles j me provaram -disse-, mas eu tambm j comi uns quantos. 
O bote mal se divisava entre os adejos; os gritos das aves impediam ouvir qualquer coisa que no fossem os gritos do senhor Murphy. 
-Bisteca de tubaro com mostarda! -uivava. -Fgado em iscas! Farei sopa com as nadadeiras e gelatina com os olhos embebidos em xerez, malditos bastardos! 
Manzetti, ajoelhado na proa, apontou com seu mosquete deixando escapar uma nuvem de fumaa negra. Foi ento que vi o senhor Willoughby.
Ningum o tinha visto saltar do balastre, pois todos tnhamos os olhos postos na caada. Mas ali estava, a pouca distncia do bote, com a cabea barbeada reluzindo 
no gua e brigando com uma ave enorme que agitava a gua com as asas como se fosse uma batedeira. Alertado por meu grito, Jamie o olhou com os olhos fora de rbitas. 
Antes que eu pudesse mover-me, subiu ao balastre. Meu grito de espanto coincidiu com um rugido de surpresa de Murphy: Jamie tinha cado justamente junto ao chins. 
Teve gritos e exclamaes na coberta e um grito agudo de Marsali. A cabea vermelha de Jamie emergiu junto  do senhor Willoughby; um segundo depois, seu brao cingia 
o pescoo do chins. O senhor Willoughby no soltava a ave. No sabia se Jamie queria resgat-lo ou estrangul-lo at que o vi impulsionar-se com enrgicos pontaps, 
arrastando para o barco a massa forcejante de ave e homem.
Gritos de triunfo no bote e um crculo vermelho intenso que se estendia no gua; depois de tremendas convulses, um tubaro foi enganchado e erguido  pequena embarcao. 
Foi um caos: os homens do bote tinham visto o que passava a pouca distncia. Jogaram-se cordas por ambos lados; os tripulantes corriam de popa a proa, nervosos, 
sem decidir-se entre ajudar no resgate ou na captura do tubaro. Por fim, Jamie e sua carga foram iados por estibordo e suspensos  coberta enquanto o tubaro capturado 
subia por bombordo, dando dbeis rabadas. 
-Deus ben... dito -ofegou Jamie baqueando como um pescado. 
-Est bem? -Ajoelhei-me ao seu lado para secar-lhe o rosto com a saia. 
-Deus -repetiu incorporando-se. Espirrou. -Temia que me devorassem. Esses idiotas do bote remavam para ns com todos os tubares atrs. -Massageou suavemente as 
panturrilhas. -Talvez seja muito sensvel, Sassenach, mas sempre me aterrorizou a idia de perder uma perna. Parece-me inclusive pior do que perder a vida.
-Preferiria que conservasses as duas coisas -disse.  
Jamie comeava a tremer. Tirei-me o xale para pr em seus ombros e procurei ao senhor Willoughby com a vista. O pequeno chins seguia aferrado a sua presa, um jovem 
pelicano quase to grande como ele. No prestou a menor ateno a Jamie nem aos insultos que lhe dirigia. Deu-se meia volta e se foi, gotejando gua e protegido 
do castigo fsico pelo bico de seu cativo, que afugentava a todo mundo. 
-Que pretendia? -estranhei-me. -O senhor Willoughby me refiro. 
Jamie sacudiu a cabea, soando-se o nariz com as mangas da camisa. 
-E eu que sei. Suponho que sua inteno era prender esse pssaro mas ignoro por que. Ser para comer? Murphy, ao escut-lo, voltou-se da escadinha.
-Os pelicanos no so comestveis -assegurou mexendo a cabea. -Tem gosto de maresia, no importa como o cozinhe. No sei que estavam fazendo por aqui: so aves 
costeiras. Provavelmente foi arrastado por algum vendaval. So bastante torpes, os condenados. 
Jamie se levantou rindo. 
-Bem, talvez s queira as plumas para escrever. Acompanha-me, Sassenach. Podes secar-me as costas. Trinta segundos depois estvamos em seu camarote. As frias gotas 
que caam de seu cabelo molhado me correram desde os ombros at o peito. Sua boca ardia de paixo. As duras curvas de suas costas despediam calor sob a tela da camisa 
empapada. 
-Atchim! -disse sem alento, soltando-me para arrancar as calas-. Por Deus, tenho-os colados! No posso tirar!
Puxou os cordes, gargalhando, mas a gua lhe impedia desatar o n. 
-Uma faca! -pedi. -Onde h uma faca? 
O mais parecido era um abridor de cartas de marfim. Voltou-se com um grito. 
-Por Deus, Sassenach, tenha cuidado! De nada te servir tirar-me as calas se me castrares! 
Aqui est! -Revirando no caos de sua liteira, tirou o punhal brandindo com um gesto triunfal. Pouco depois, as calas empapadas jaziam no solo. Levantou-me em desequilbrio 
para tombar-me entre papis enrugados e plumas espalhadas, levantou-me as saias e me separou as pernas. 
-Espera! -sussurrei-Vem algum! 
-Muito tarde -disse sem alento. -Se no o fizer, eu morro.
Me possuiu com um rpido e implacvel impulso. Mordi-lhe o ombro com fora; tinha gosto de sal e pano molhado. No emitiu nem uma queixa. Dois embates, trs. Rodeei-lhe 
as ndegas com as pernas, afogando os gritos em sua camisa sem que me importasse quem pudesse entrar. Foi rpido e fundo. Jamie penetrou uma e outra vez e terminou 
com um profundo gemido triunfal. Dois minutos depois se abriu a porta do camarote. Innes passou lentamente os olhos: da escrivaninha revolta at mim, decorosamente 
sentada na liteira, ainda que mida e desalinhada, e de mim a Jamie, que se tinha sentado num banquinho, com a camisa molhada colada ao corpo e o rubor que ia apagando 
pouco a pouco. No disse nada, saudou-me com a cabea e se inclinou para retirar uma garrafa de conhaque escondida sob a liteira de Fergus.
- para o chins -me explicou. -Para que no se resfrie. 
Deteve-se na porta e fincou em Jamie uma olhada pensativa. 
-Poderia dizer ao senhor Murphy que te prepare um pouco de caldo, Mac Dubh. Dizem que  perigoso esfriar-se depois de um grande esforo, no? No  questo de que 
pegues um catarro. 
-Se assim fosse, Innes, ao menos morreria feliz.
No dia seguinte descobrimos para que o senhor Willoughby queria o pelicano. Encontramos ele na coberta de popa, com o ave pousada num ba; tinha-lhe atado as asas 
ao corpo com uma tira de pano. O pssaro me fincou seus olhos amarelos e redondos, chasqueando o bico como advertncia. Willoughby estava retirando um fio em cujo 
extremo se debatia um pequeno camaro. Desprendeu-o para mostr-lo ao pelicano, dizendo-lhe algo em chins. A ave o observou com audcia, sem mover-se. Abriu-lhe 
o bico e lhe jogou o camaro ao bucho. O pelicano, surpreso, engoliu convulsivamente. 
-Hao-liao -aprovou o chins acariciando-lhe a cabea. Ao ver que estava sendo observado, chamou-me por senhas sem afastar os olhos do perigoso bico.
-Ping An -disse assinalando ao pelicano. -Aprazvel. 
A ave ergueu uma crista de plumas brancas, como se erguesse as orelhas ao ouvir seu nome. 
Comecei a rir. 
-Verdade? Que vai fazer com ele? 
-Vou ensin-lo a caar para mim - explicou o chins como se tal coisa fosse possvel. -Olhe. 
Olhei. Depois de pescar e fornecer ao pelicano vrios camares a mais e um par de peixes pequenos, o senhor Willoughby tirou outra tira de pano suave de algum canto 
de sua vestimenta e cingiu um extremo ao pescoo do ave. 
-No quero enforcar - disse -Mas no engole peixes. 
Atou ao colar um fio e, depois de indicar-me por senhas que me distanciasse, soltou bruscamente a atadura que sujeitava as asas do animal. Surpreendido pela inesperada 
liberdade, o pelicano se cambaleou pelo ba, debatendo-se uma ou duas vezes. Por fim se levantou para o cu com uma exploso de plumas.
Ping An, o aprazvel, levantou vo at onde lhe permitia o fio e se esforou para elevar-se mais ainda. Resignado comeou a voar em crculos. O senhor Willoughby, 
vesgo pelo sol, girava lentamente na coberta, remontando-o como se fosse um cometa. Todos os tripulantes interromperam suas tarefas para observar a cena. De repente, 
como disparado por uma besta, o pelicano pregueou as asas e mergulhou, submergindo-se na gua quase sem chapinhar. Ao emergir  superfcie com ar de leve surpresa, 
o senhor Willoughby comeou a reboc-lo. Quando o teve novamente a bordo conseguiu convenc-lo, com certa dificuldade, para que entregasse sua pesca. Por fim permitiu 
que seu captor metesse cautelosamente a mo no bucho e extrasse um formoso atum. O senhor Willoughby dedicou um sorriso cordial a Picard, que o olhava boquiaberto 
e tirou uma pequena faca para abrir o peixe. Com a ave presa sob um brao, afrouxou o colar com a outra mo e lhe ofereceu um bocado ainda palpitante, que Ping An 
pegou de boa vontade. 
-Seu - explicou o chins, limpando calmamente o sangue e as escamas na perna das calas. 
-Meu. -Assinalou com a cabea a metade do peixe que tinha deixado sobre o ba. 
Uma semana depois o pelicano estava completamente domesticado; se lhe permitia voar livremente, com o colar posto mas sem fio que o segurasse. Ao voltar junto ao 
seu amo deixava a seus ps os pescados reluzentes que trazia na pana. A tripulao, impressionada pela pesca e desconfiando do grande bico de Ping An, mantinha-se 
longe do senhor Willoughby. Quando o tempo o permitia, o chins seguia enchendo pginas junto ao mastro, sob os benignos olhos amarelos de seu novo amigo. Um dia 
me detive a observ-lo, fora de sua vista. Contemplava com expresso satisfeita a pgina finda. Eu no podia ler aqueles caracteres mas o aspecto resultava muito 
agradvel aos olhos. Por fim, com um suspiro, sacudiu a cabea. Suave, delicadamente, pregueou a folha uma, duas, trs vezes e se ps em p para aproximar-se do 
balastre. Com as mos estendidas para a gua a deixou cair. O vento a iou num redemoinho. O senhor Willoughby no parou a contempl-lo e, voltando as costas ao 
balastre, desceu para os camarotes.







CAPTULO 45

A HISTRIA DO SENHOR WILLOUGHBY

Conforme avanvamos para o sul, os dias se tornavam mais clidos; a tripulao se reunia depois do jantar no castelo de proa, onde cantavam e danavam ao compasso 
de um violino ou se dedicavam a narrar episdios. Quando a maioria das histrias j eram conhecidas pela tripulao, Maitland, o marinheiro, voltou-se para o senhor 
Willoughby. 
-Por que foste embora da China, Willoughby? -perguntou-lhe com curiosidade. 
Ainda que ao princpio se fez rogar, o chines pareceu lisonjeado pelo interesse que levantava a questo. Ante a insistncia, concordou em narrar como tinha abandonado 
sua ptria, com a nica condio de que Jamie atuasse como tradutor pois seu domnio de nosso idioma no era adequado para a ocasio. Meu esposo, atendendo de boa 
vontade, sentou-se junto a ele com a cabea inclinada para escutar.
-Eu era mandarn -comeou a traduzir Jamie-, mandarn de letras, dotado para a redao. Vestia uma tnica de seda bordada com muitas cores e, sobre esta, a toga 
de seda azul dos eruditos com a insgnia de meu cargo no peito e nas costas um feng-huang, uma ave de fogo. 
-Creio que se refere a uma fnix - explicou Jamie. 
-Nasci em Pequim, Cidade Imperial do Filho do Cu... 
-Assim chamam ao seu imperador - me sussurrou Fergus. 
-Cristo! -sussurraram muitos com indignao. 
-Desde muito jovem demonstrei certa habilidade para a redao. Foi bem como meu nome chegou a ouvidos de Wu-Xien, mandarn da Casa Imperial, o qual me instalou em 
sua casa e supervisionou minha educao. Cresci rapidamente, de tal modo que, antes de cumprir os vinte e seis anos, me tinha outorgado uma esfera de coral vermelho 
para usar no chapu. Ento chegaram maus ventos que semearam em meu jardim as sementes da desgraa. Pode ser que tenha recebido a maldio de um inimigo ou que, 
em minha arrogncia, tivesse deixado de fazer os devidos sacrifcios... ainda que no esquecia a reverncia a meus antepassados; nunca deixava de visitar sua tumba 
uma vez ao ano... 
-Se suas redaes eram sempre to longas, o mais provvel  que o Filho do Cu o fizesse lanar ao rio quando lhe esgotasse a pacincia -murmurou Fergus, cnico. 
- Qualquer fosse a causa, minha poesia chegou aos olhos de Wan-Mei, a Segunda Esposa do Imperador. Era uma mulher muito poderosa, pois tinha tido nada menos que 
quatro filhos; quando pediu que fizesse parte de sua casa, a solicitao foi aprovada imediatamente.
-E o que tinha de mau nisso? -perguntou Gordon inclinando-se para frente com muito interesse. -Era uma oportunidade de progredir, no? 
O senhor Willoughby compreendeu a pergunta, pois dedicou a Gordon um gesto afirmativo e continuou. A voz de Jamie retomou ao relato. 
-Oh, a honra era inestimvel; eu teria uma grande casa prpria dentro das muralhas do palcio e uma guarda de soldados para que escoltassem meu palanquim. Meu nome 
seria escrito em letras de ouro no Livro do Mrito. "No entanto, para servir dentro da Casa Imperial h um requisito: todos os servidores das esposas reais devem 
ser eunucos. 
-Malditos pages! Bastardos amarelos! -exclamou a tripulao horrorizada. -O que  um eunuco? -perguntou Marsali, desconcertada.
-Nada que deva preocupar-te, chrie -lhe assegurou Fergus rodeando-lhe os ombros com um brao. 
E dirigindo-se ao senhor Willoughby com a maior simpatia: 
- Ento fugiste, mon ami? Eu teria feito o mesmo, sem duvida. 
-Era uma desonra de minha parte recusar o pedido do Imperador. No entanto, ainda que seja uma triste debilidade... estava apaixonado por uma mulher. 
O comentrio provocou um suspiro de entendimento, pois quase todos os marinheiros so uns loucos romnticos. Mas o chins se interrompeu puxando a Jamie pela manga. 
-Oh, equivoquei-me -corrigiu meu marido. -No diz que estava apaixonado de uma mulher, seno por Mulher, de todas as mulheres em geral.  assim? -perguntou olhando 
ao seu amigo. 
O chins assentiu, satisfeito.
-Sim -continuou atravs de Jamie-, pensava muito nas mulheres, em sua graa e sua beleza, como ltus boiando ao vento. Todos meus poemas foram escritos para a Mulher: 
as vezes dedicados a alguma em especial, mas com mais freqncia para a Mulher em si. Falavam do sabor de damasco de seus peitos e o perfume clido de seu umbigo 
ao acordar no inverno; do calor desse montculo que te enche a mo como um pssego partido. 
Fergus, escandalizado, tampou com as mos os ouvidos de sua noiva mas o resto da audincia se mostrava muito receptiva. 
-Fugi na Noite das Lanternas -continuou o chins. - um grande festival, durante o qual a gente sai  rua. No tinha perigo de que os guardas reparassem em mim. 
Justo depois do escurecer, quando as procisses percorrem toda a cidade, pus-me as roupas de um viajante... um peregrino... e abandonei a casa. Abri-me passo entre 
a multido sem dificuldade, levando uma lanterna de papel annima onde no figurava minha casa ou meu nome.
Mas no dia seguinte estive a ponto de ser pego. -Tinha-me esquecido das unhas -disse. 
Alongou uma mo, pequena e de dedos curtos com as unhas rodas at a carne. -Os mandarins deixam as unhas longas;  um smbolo que lhes distingue por no estarem 
obrigados a trabalhar com as mos. As minhas tinham a longitude de uma falange. Na casa onde entrei para tomar um refresco, no dia seguinte, um servente as viu e 
correu a dizer ao guarda. Yi Tien Cho fugiu; para iludir aos seus perseguidores se escondeu numa vala mida e permaneceu oculto entre o matagal. -Enquanto estava 
tombado ali cortei as unhas -disse sacudindo o mindinho direito. -Esta tive que arrancar, pois tinha um "da zi" de ouro incrustado e no pude tir-lo.
Depois de roubar as roupas de um campons postas a secar numa mata e deixar em troca uma unha arrancada com seu caractere de ouro, continuou cruzando lentamente 
o pas para a costa. Ao princpio pagava por sua comida com a pequena quantidade de dinheiro que levava consigo, mas nas ruas de Lulong tropeou com um bando de 
ladres que, ainda que lhe tenham poupado a vida, tiraram-lhe o dinheiro. -A partir de ento -disse-, comia o que podia roubar ou passava fome. Por fim os ventos 
da fortuna mudaram; encontrei-me com um grupo de boticrios que ia  feira dos mdicos, prxima da costa. Em troca de que lhes desenhasse estandartes para o posto 
e lhes redigisse etiquetas para exaltar as virtudes de suas poes, aceitaram levar-me com eles.
Uma vez na costa, escolheu o barco cujos marinheiros lhe pareceram mais brbaros com a idia de que com eles poderia chegar mais longe e escondeu-se no poro do 
Serafina, que ia para Edimburgo. 
-Tinha inteno de abandonar por completo o pas? -perguntou Fergus interessado. -Parece uma deciso desesperada. 
- O Imperador mos muito longas -respondeu o senhor Willoughby suavemente, sem esperar a traduo. -Eu exlio ou morto. 
Continuou com um ar reflexivo que Jamie imitou com exatido: 
- estranho, mas foi meu amor pelas mulheres o que a Segunda Esposa viu e amou em minhas palavras. No entanto, possuir a mim e meus poemas destruiria para sempre 
o que admirava. Emitiu um riso sufocado, de inconfundvel ironia.
-Tambm no  essa a ltima contradio de minha vida. Por no renunciar a minha virilidade, perdi todo o resto: minha honra, meu meio de vida e meu pas. No me 
refiro s  terra: s ladeiras de nobres pinheiros, nem  Tartaria, onde passava meus veres, nem s grandes plancies do sul, com seus rios cheios de peixes, seno 
tambm  perda de minha prpria identidade. Meus pais esto desonrados, as tumbas de meus antepassados destrudas e j no h tocheiros que ardam ante suas imagens. 
Perdi tudo. Aqui as douradas palavras de meus poemas no so seno cacarejos de galinhas e os traos de meu pincel, as impresses de suas patas no p. Vejo-me num 
pas de mulheres toscas e fedorentas como ursos. Por amor  Mulher, vim a um lugar onde no h uma s mulher digna de amor!
Neste momento, vendo as expresses carrancudas dos marinheiros, Jamie interrompeu a traduo para acalmar ao chins, posando sua enorme mo no ombro coberto de seda 
azul. 
-Sim, compreendo. E estou seguro de que todos os homens aqui presentes teriam feito o mesmo nessa situao.Verdade, moos? - perguntou olhando acima do ombro, com 
as sobrancelhas expressivamente arqueadas. 
Sua fora moral bastou para arrancar-lhes um aptico murmrio de aprovao. O senhor Willoughby, sem prestar ateno aos murmrios nem aos olhares ameaadores, seguia 
com a vista perdida no horizonte. Seus olhos negros brilhavam pelas recordaes e o lcool. Jamie se levantou, oferecendo-me a mo para ajudar-me a fazer o mesmo.
Ento o chins introduziu a mo entre as pernas. Num gesto desprovido de toda obcenidade, rodeou os testculos e os sustentou contemplando o vulto com ar de profunda 
reflexo. 
-As vezes -sussurrou para si mesmo- creio que no valeu a pena.


CAPTULO 46
ENCONTRO COM O MASORPA

Fazia um tempo que tinha a sensao de que Marsali estava reunindo coragem para falar comigo. Estava segura de que assim o faria, cedo ou tarde: apesar do que sentisse 
por mim, eu era a nica mulher a bordo. Fiz o possvel para colaborar. Dava-lhe bom dia e lhe sorria com amabilidade. Mas teria que ser ela a dar o primeiro passo. 
Enquanto escrevia algumas notas em nosso camarote, uma sombra escureceu a entrada. Ao levantar os olhos vi Marsali. -Preciso saber algo -disse com firmeza. -No 
gosto de ti e creio que sabes, mas diz papai que voc  uma mulher sbia. E acredito capaz de responder-me com sinceridade, inclusive sendo uma rameira. 
Deixei a pluma. 
-Que precisas saber? 
Ao ver que no me aborreci, entrou no camarote e se sentou no nico banquinho disponvel. 
-Bem, est relacionado a bebs e a forma de t-los. 
Ergui uma sobrancelha.
-Tua me no te explicou? 
Respirou fundo com impacincia, enlaando as sobrancelhas loiras com um gesto feroz. 
-Isso qualquer idiota sabe! Se deixas que um homem te ponha o membro entre as pernas, nove meses depois o pagas muito caro. O que quero saber  como evit-los. 
-Compreendo. -Observei-a com interesse. 
-No quer ter filhos? Quando estiver devidamente casada, claro. Quase todas as jovens querem filhos. 
-Bem -sussurrou lentamente, retorcendo um pedao de seu vestido-, talvez queira mais adiante. Se tivesse o cabelo escuro, como Fergus... -Pela cara lhe cruzou uma 
expresso fugaz, depois sua expresso voltou a endurecer-se. 
-Mas no posso. 
-Por que? 
Franziu os lbios com ar pensativo. 
-Por Fergus. Ainda no dormimos juntos. A nica coisa que podemos fazer  beijar-nos de vez em quando por trs das escotilhas... graas a papai e a suas malditas 
idias.
-E da, o que tem isso com o fato de no querer um beb? 
-Quero que ele goste de mim - disse sem rodeios. -O membro. 
Mordi a parte interior do lbio. 
-Ah... isso pode ter algo a ver com Fergus mas continuo sem entender. Marsali me olhou com desconfiana, ainda que j sem hostilidade. 
-Fergus vos tem carinho. 
-Eu tambm a ele -respondi com cautela, perguntando-me onde nos levaria esta conversa.-Conheo-o h muito tempo, desde que era um menino. 
Ela relaxou subitamente. 
-Ah, ento estas sabendo. Sabe onde nasceu. 
De repente compreendi sua cautela. 
- O prostbulo de Paris? Eu sei, sim. Ele te contou? 
Assentiu com a cabea. 
-Faz muito tempo, na festa de Ano Novo.
Bem, aos quinze, um ano pode parecer muito tempo. -Foi quando lhe disse que o amava. E ele respondeu que tambm me amava mas que minha me no permitiria jamais 
essa aliana. Eu lhe perguntei por que, se ser francs no era to mau. Nem todos podemos ser escoceses, verdade? E no acreditava que o fato de sua mo importasse 
muito. Depois de tudo, o senhor Murray tem uma perna de pau e mame lhe tem muito carinho. Mas me contestou que no era por isso e me contou tudo sobre Paris. Disse-me 
que tinha nascido num bordel e que foi batedor de carteiras at que conheceu a papai. Tinha uma expresso incrdula no azul de seus olhos.
-Talvez tenha pensado que me incomodaria  -disse de modo estranho. -Tratou de afastar-se de mim e disse que no voltaria a ver-me. -Encolheu-se de ombros. 
-Fiz-lhe mudar de opinio. Mas no  Fergus o que me preocupa. Ele diz que sabe como atuar e que me agradar, exceto na primeira vez. Mas minha me me disse outra 
coisa. 
- O que ela te disse? -perguntei fascinada. 
Entre as sobrancelhas apareceu uma pequena ruga. 
-Bem... no  o que disse... ainda que quando soube de Fergus disse que me faria coisas horrveis por ter vivido com rameiras e por ser o filho de uma. Foi sua atitude. 
Estava corada e com os olhos baixos.
-Quando sangrei pela primeira vez, ela me indicou o que devia fazer e me disse que era parte da maldio de Eva. Eu lhe perguntei que maldio era essa e ela leu 
um trecho da Bblia. Segundo So Paulo, as mulheres eram sujas pecadoras por culpa de Eva, mas ainda podem salvar-se mediante o sofrimento e a maternidade. 
-Nunca tive muito boa opinio de So Paulo - comentei. 
-Mas est na Bblia! -exclamou horrorizada. 
-Como muitas outras coisas -assinalei. -No importa. Continua. 
-Bem, mame disse que eu j tinha idade para casar. Que a obrigao de toda mulher era fazer a vontade de seu marido, agradando ou no. Me disse com cara de tristeza. 
Tive a sensao de que essa obrigao, fora a que fosse, era horrvel e somando a do sofrimento e a maternidade...
Interrompeu-se com um suspiro. Esperei sem dizer nada. 
-J no lembro meu pai. Quando os ingleses o levaram eu tinha s trs anos. Mas recordo sua relao com... com Jamie. Mordeu novamente os lbios. No estava habituada 
a cham-lo por seu nome. 
-Pap... Jamie, digo... parece bom. A Joan e a mim sempre nos tratou bem. Mas quando tratava de abraar a mame... ela o evitava como se tivesse medo dele; no lhe 
agradava que a tocasse. No entanto, nunca vi lhe fazendo nada mau. Talvez era algo que lhe fazia na cama, quando estavam ss. 
Marsali passou a lngua pelos lbios, secos pelo ar marinho. Aproximei-lhe a jarra de gua, me agradeceu com a cabea e encheu uma xcara. Com a vista fixa no jarro 
de gua, continuou:
-Imaginei que era porque mame tinha tido filhos e sabendo que era horrvel, no queria deitar-se com... com Jamie por medo a que lhe sucedesse outra vez. Bebeu 
um gole e me olhou de frente. 
-Vi voc com papai -disse. -S por um momento, antes de que me descobrisse. E... e parecia que a agradava o que estavam fazendo na cama. 
-Bem... sim-balbuciei. -Agradava-me. 
Soltou um rosnado satisfeito. -Hum! E voce gosta que a toque. Eu vi. Claro: voc no teve filhos. E me disseram que  possvel no os ter, ainda que ningum sabe 
muito bem como. Mas voc deve saber, j que  uma mulher sbia.
Inclinou a cabea para um lado estudando-me. 
-Me agradaria ter um filho -admitiu-, mas se  preciso escolher entre o beb ou que me agrade a ficar com Fergus, fico com Fergus. Assim no terei bebs... se me 
explicar o que devo fazer. 
Respirei fundo, perguntando-me por onde comear. 
-Bem, na realidade tive filhos. 
-Verdade? E pap... Jamie o sabe? 
-Claro -respondi com dureza. -Eram seus. 
-Papai nunca me disse que tinha filhos. 
-Provavelmente porque no acreditou que fosse assunto seu. E no  -adicionei, talvez com mais aspereza necessria. -A primeira morreu. Est sepultada na Frana. 
Nossa segunda filha j  uma mulher; nasceu depois de Culloden. 
-E ele a conhece? -perguntou Marsali. 
Neguei com a cabea, sem poder falar. 
-Que triste - sussurrou ela levantando os olhos. -Mesmo tendo filhos, bem, isso no mudou as coisas? Hum! Claro que passou muito tempo. No esteve com outros homens 
enquanto viveu na Frana?
-Isso no te diz respeito -repliquei com firmeza. -Quanto ao parto, algumas mulheres podem ficar diferentes sim, mas nem todas. De qualquer modo, h bons motivos 
para que no tenhas filhos de imediato. 
-H algum modo...? 
-Variados. Infelizmente, a maioria nem sempre funciona - reconheci sentindo falta de meu bloco de receitas e a confiabilidade da plula. -Pegue para mim por favor 
uma caixinha que h nesse armrio. -Assinalei. 
-Essa, sim. As parteiras francesas costumam preparar um ch de bagas e valeriana, mas  perigoso e no muito confivel. 
-Sente sua falta? -perguntou Marsali bruscamente. Levantei os olhos de minha caixa de primeiros socorros, surpresa. -Da vossa filha. 
Pela falta de expresso em sua face, suspeitei que a pergunta estava mais relacionada com Laoghaire que comigo. 
-Sim - respondi singelamente-, mas j  adulta e tem uma vida prpria.
Retirei da caixa um grande bocado de esponja esterilizada e, com um dos bisturis, cortei com cuidado vrios pedaos de uns sete centmetros de lado e voltei a revolver 
o contedo da caixa at encontrar o frasquinho de azeite de atanasia. Ante os olhos fascinados de Marsali, embebi gentilmente um dos pedaos. -Esta  a quantidade 
de azeite que deves usar. Se no tiver azeite, submerge a esponja em vinagre; em caso de necessidade pode usar at o vinho. Antes de ir-te para cama com um homem, 
enfie o pedao de esponja bem l dentro. Faa isso inclusive na primeira vez. Com uma s vez pode ficar grvida. Marsali assentiu com os olhos dilatados, roando 
a esponja com o indicador. 
-Sim? E... depois? Retiro ou...? 
Um grito urgente, acompanhado por uma sbita chacoalhada do Artemis, ps fim a nossa conversa. Algo estava sucedendo. 
-Te explicarei depois - disse entregando-lhe a esponja e o frasco.
Sa para o corredor. Jamie estava com o capito na coberta de popa, observando um grande barco que se aproximava. Era trs vezes maior que o Artemis, com trs mastros 
e toda uma selva de cordames e velas, entre as quais umas pequenas figuras negras saltavam como pulgas. Depois de seu rastro boiava uma nuvem de fumaa branca, indcio 
de que acabavam de disparar um tiro de canho. 
-Disparam contra ns? -perguntei assombrada. 
-No -respondeu Jamie carrancudo. -S fizeram um disparo de advertncia. Querem abordar-nos. 
-E podem faz-lo? -Minha pergunta estava dirigida ao capito Raines. 
-Podem -disse ele. -Com este vento e em mar aberto no poderamos escapar. 
-Que barco ? 
-Uma canhoneira britnica, Sassenach. Setenta e quatro canhes. Deve descer.
Era uma m notcia. Ainda que a Gr-Bretanha j no estivesse em guerra com a Frana, as relaes entre ambos pases no eram nada cordiais. 
-Que podem querer de ns? -perguntou Jamie ao capito. 
Raines mexeu a cabea. Em sua cara gorducha tinha uma expresso triste. 
-Esto escassos de tripulao; isso  evidente por suas velas -assinalou sem tirar os olhos da canhoneira que se aproximava. -Podem alistar a todos nossos tripulantes 
de origem britnica... mais ou menos a metade de nossos homens, inclusive voce, senhor Fraser, a no ser que prefiras se fazer passar por francs. 
-Maldita seja... - conjurou Jamie baixo e me olhou com o cenho franzido. -No te disse para descer? 
-Sim, disse - confirmei sem mover-me. 
Aproximei-me mais a ele, com os olhos fixos na canhoneira. Estavam baixando um bote. Um oficial com jaqueta dourada e chapu desceu por um lado.
-Se alistarem aos marinheiros britnicos - perguntei ao capito-, o que ser deles? 
-Tero que servir no Marsopa. Assim se chama - explicou assinalando o mascaro de proa, que representava um boto. 
-Talvez os deixem em liberdade quando cheguem ao porto... e talvez no. 
-Como? Podem seqestrar os homens e obrig-los a servir-lhes durante o tempo que se lhes convenha? 
-Sim -confirmou o capito. 
-E se o fizerem seremos ns quem teremos muita dificuldade para chegar a Jamaica, com a tripulao reduzida  metade. Jamie me segurou pelo cotovelo. -No levaro 
nem Innes nem Fergus -me disse. -Eles te ajudaro a procurar ao jovem Ian. Caso se apoderem de ns, v  casa que Jared tem em Sugar Bay e inicie a busca. -Dedicou-me 
um breve sorriso.-Nos encontraremos ali. 
-Mas poderias passar por francs! -protestei. 
-No. No posso permitir que levem meus homens e ficar aqui, escondendo-me sob um sobrenome francs. -Mas...
Ia alegar que os contrabandistas escoceses no eram "seus homens" nem tinham direito a tanta lealdade mas calei, sabendo que era intil. 
-No importa, Sassenach -assegurou com suavidade. -escaparei, de um modo ou outro. Mas creio que, por agora, nosso sobrenome deve ser Malcolm. Quando o bote se deteve 
ao nosso lado, vi que o capito Raines arcava as sobrancelhas num gesto de estupefao. 
-Deus nos ampare! Que significa isto? -murmurou baixo. 
Nela tinha um jovem de uns vinte e poucos anos, abatido e com os ombros curvados pela fadiga. O uniforme lhe ia muito grande. 
-s o capito deste barco? -O ingls tinha os olhos vermelhos pelo esgotamento mas distinguiu a primeira vista a Raines entre a cara fechada.
 -Sou Thomas Leonard, capito suplente do Marsopa, barco de Sua Majestade. Pelo amor de Deus -suplicou com a voz rouca-, tens um cirurgio a bordo?
Em baixo, frente a um copo de vinho do Porto oferecido com desconfiana, o capito Leonard explicou que o Marsopa padecia uma epidemia j fazia quatro semanas. 
-A metade da tripulao est enferma -disse limpando-se uma gota de carmim do queixo sem barbear. 
-J perdemos trinta homens e corremos perigo de perder muitos mais. 
-Vosso capito morreu? -perguntou Raines. 
Leonard avermelhou-se um pouco. 
-O capito e os dois oficiais principais morreram a semana passada. Tambm o cirurgio e seu ajudante. Eu sou o terceiro oficial. Isso explicava sua assombrosa juventude 
e seu nervosismo. -Se tens a bordo algum com experincia em questes mdicas... -Olhou com cara esperanosa ao capito e a Jamie, que se mantinha em p junto  
escrivaninha.

-Eu sou a cirurgi do Artemis, capito Leonard -disse da porta. -Que sintomas apresentam vossos homens? 
-Voc? - jovem capito voltou, boquiaberto, a cabea para mim. 
-Minha esposa tem a rara arte de curar, capito - confirmou Jamie com suavidade. -Se  ajuda o que procura, aconselho responder a suas perguntas e obedecer suas 
indicaes. 
Leonard piscou e assentiu com a cabea. 
-Bem, a doena comea com fortes dores de barriga, vmitos e diarrias horrveis. Os enfermos se queixam de dores de cabea e lhes sobe muito a febre. Alm disso... 
-Alguns tm urticarias no ventre? - interrompi. 
Sacudiu afirmativamente a cabea. 
-Efetivamente. E h os que botam sangue pela bunda. Oh, perdo, senhora! -Desculpou-se subitamente acalorado. -No tive inteno de ofender-vos, mas...
-Creio saber do que se trata - o cortei. 
Em mim comeava a crescer uma sensao excitante: a de ter um diagnstico confivel e os conhecimentos necessrios para atuar. 
- Para estar segura deveria examin-los, mas... 
-Minha esposa ter grande prazer em assessorar, capito -disse Jamie com firmeza-, mas temo que no possa ir a vossa embarcao. 
-Ests certo? -O jovem nos olhou a ambos desesperado. -Se pudesse ver meus homens... 
-No -repetiu Jamie. Ao mesmo tempo eu respondia: 
-Sim, evidentemente! Fez-se um silncio incmodo. Por fim Jamie se ps em p. 
-Nos d licena, capito Leonard? -E me retirou  fora do camarote.-Ests louca? -sussurrou sem soltar-me o brao.-Como te ocorre pisar num barco onde h peste? 
Arriscar tua vida, a da tripulao e a do jovem Ian, tudo por um punhado de ingleses!
-No  a peste -disse esforando-me.-E no arriscaria a vida. Solta o meu brao, maldito escocs! -Tratei de mostrar-me paciente. -Escuta. No se trata da peste; 
pelas urticrias, estou quase segura de que  febre tifide. No vou cair enferma porque estou vacinada. 
-Ah, sim? -exclamou ctico. 
-Olhe, sou mdica -insisti procurando as palavras adequadas. -Esto doentes e posso ajud-los. Eu...  que... tenho que fazer, isso  tudo! 
A julgar pelo efeito, a minha oratria parecia faltar-lhe eloqncia. Jamie ergueu uma sobrancelha, convidando-me a continuar. 
-Quando me licenciei como mdica fiz um juramento -expliquei. Elevou-se a outra sobrancelha. 
-Um juramento? Que classe de juramento? Fechei os olhos e repeti o que recordava do juramento hipocrtico.
-Assim se faz na irmandade dos mdicos? -perguntou. -Te comprometes a ajudar a quem o solicite, ainda que seja um inimigo? 
-No h diferena se est ferido ou enfermo. -Estudei-lhe a cara para ver se me compreendia. 
-Est bem - reconheceu lentamente.
-Eu tambm fiz algum juramento uma vez ou outra. E nunca os tomei s pressas. -Pegou-me a mo direita, procurando o anel de prata- Alguns pesam mais do que outros, 
claro -comentou observando-me. 
-Eu sei -disse respondendo ao que pensava. 
Apoiei-lhe a outra mo no peito; no anel de ouro se refletiu um raio de sol. 
-Mas enquanto se possa cumprir com um juramento sem causar dano a outro... Suspirando, inclinou-se para dar-me um beijo.
-No quero que faltes a ele. -Se ergueu com uma careta irnica. -Ests segura de que essa sua vacina funciona? 
-Funciona - lhe assegurei. 
-Talvez fosse conveniente que te acompanhasse. 
-No podes. No ests vacinado e o tifo  muito contagioso. 
-S crs que  tifo pelo que diz Leonard -objetou. -No est segura de que se trate disso. 
-No -admiti.- Mas s h uma maneira de comprov-lo. 
Ajudaram-me a subir at a coberta do Marsopa por meio de um balano suspenso na baixa da mar. Aterrissei de forma brusca e escarrapachada e quanto me levantei me 
assombrou descobrir o to slida que era a coberta da canhoneira comparada com o bamboleante Artemis. 
-Mostra-me onde esto, por favor -pedi.
A ponte do navio era um espao fechado, iluminado por lustres de azeite que balanavam com o bambolear da embarcao; as fileiras de redes ficavam sumidas na sombra 
e manchadas por remendos de luz. Pareciam bainhas balanando-se pelo movimento do mar. O fedor era insuportvel. 
-Preciso de mais luz -disse ao apreensivo guarda encarregado de acompanhar-me. 
O moo, com a cara coberta por um leno, parecia assustado mas levantou seu lustre para que pudesse olhar dentro da rede mais prxima. Seu ocupante afastou a cara 
com um rosnado ao ver a luz. Estava aceso pela febre e sua pele queimava. Quando lhe apalpei o ventre se retorceu como uma minhoca no anzol.
-Fique tranqilo. - o acalmei.-Vou te ajudar; logo se sentir melhor. Deixa que te examine os olhos. Sim, isso. 
Ao retirar a plpebra, a pupila se encolheu ante a luz. 
-Por Deus, afasta essa luz! -ofegou. 
Febre, vmitos, choques abdominais, dor de cabea. 
-Sente arrepios? -perguntei afastando a lanterna do guarda. A resposta no foi uma palavra, seno mais um gemido afirmativo. 
Tratava-se de algo muito contagioso que no era malria, j que o barco tinha zarpado da Europa e no do Caribe. Tifo, quase com toda segurana; como o transmitiam 
os piolhos, tendia a estender-se rapidamente naquele tipo de alojamento fechado. Os sintomas eram muito similares aos que via ao meu redor.
- febre tifide - informei ao capito. 
-Sim? -Sua cara com olheiras estava cheia de apreenso.-Sabe como solucion-la, senhora Malcolm? 
-Sim, mas no ser fcil.  preciso levar aos enfermos para cima, lav-los bem e deit-los onde tenham ar fresco. Por mais,  questo de ateno; precisam de muita 
gua. gua fervida: isso  importantssimo. Aplicar-lhes panos molhados para baixar a febre. Mas o principal  evitar que se contagiem outras pessoas. Ter que fazer 
vrias coisas... 
-Faa-as-me interrompeu. -Colocarei a vosso servio todos os homens sos de que possa prescindir. Dai-lhes as ordens necessrias. 
-Bem -disse dando um olhar dubitativo ao meu redor. 
-Posso organizar o trabalho e explicar-vos como continuar mas a tarefa ser rdua. O capito Raines e meu marido esto desejosos de seguir viagem.
-Senhora Malcolm -manifestou seriamente o capito: -vos estarei eternamente agradecido por qualquer ajuda que possa prestar-nos. Temos muita pressa em chegar a Jamaica 
e, a no ser que possa salvar ao resto da tripulao desta maldita doena, nunca chegaremos. 
Senti uma apunhalada de compaixo. 
-De acordo -suspirei.-Para comear, envia-me dez ou doze marinheiros sos. Aproximei-me do balastre para agitar a mo para Jamie. 
-Voltas j? -gritou-me, fazendo buzina com as mos. 
-Ainda no! -respondi- Preciso de duas horas! Levantei dois dedos por se no me tivesse ouvido, mas vi de imediato que lhe apagava o sorriso: tinha-me entendido. 
Fiz pr aos enfermos na coberta de popa e ordenei a minha equipe que lhes tirassem a roupa ensebada e os lavassem com gua do mar. Enquanto desci  cozinha para 
indicar ao pessoal as precaues necessrias com o manejo da comida. De repente percebi o movimento do barco. Sa precipitadamente e descobri uma nuvem de velas 
despregadas ao alto; o Artemis ia ficando rapidamente para trs. O capito Leonard o olhava em p, junto ao timoneiro.
-Que est fazendo? -gritei-Maldito cretino! Que est acontecendo aqui? O capito me olhou atordoado mas apertou os dentes com teimosia. 
-Devemos chegar a Jamaica imediatamente -disse. Se no tivesse tido as bochechas irritadas pelo forte vento, lhe teria notado o rubor-Sinto muito, senhora Malcolm. 
Asseguro-vos que lamento atuar assim, mas... 
-Mas nada! -exclamei furiosa- Vire! Lance a ncora, diabos! No pode seqestrar-me deste modo! 
-Lamento profundamente -repetiu-, mas creio que precisamos de vossos servios constantes, senhora Malcolm. Ainda que me esforasse por demonstrar segurana, no 
o conseguiria. -No vos aflijais, senhora -disse.-Prometi a vosso esposo que a Marinha vos proporcionar alojamento na Jamaica at a chegada do Artemis.
Ao ver minha expresso retrocedeu um passo, temendo que o atacasse... 
-Como que prometestes a meu esposo? -interpelei. -Isto significa que J... que o senhor Malcolm vos permitiu seqestrar-me? 
-Em... no, no foi assim. -O dilogo parecia resultar-lhe muito penoso. Tirou do bolso um leno nojento para secar a testa e o pescoo. 
-Temo que se mostrou muito intransigente. 
-Ah, pois sim intransigente! Bem, eu sou como ele! -Dei um pontap no solo. -Se acredita que vou ajudar, condenado seqestrador, estais muito equivocado! 
-Obriga-me a dizer o mesmo que a vosso esposo, senhora Malcolm. O Artemis navega sob bandeira francesa e com documentos franceses e mais da metade da tripulao 
est composta por britnicos. Poderia ter obrigado a esses homens a prestar servio aqui... e me fazem muita falta. Permiti que ficassem em troca de vossos conhecimentos 
mdicos.
-Portanto decidiste obrigar a mim a prestar servio. E meu esposo aceitou esse... esse acordo? 
-No, no aceitou - replicou o jovem num tom bastante seco. -Foi o capito do Artemis quem percebeu a fora de meu argumento. Devo suplicar vosso perdo por esta 
conduta to pouco cavalheiresca, senhora, mas a verdade  que estou desesperado -confessou singelamente. -Talvez seja esta nossa nica oportunidade. Devo aproveit-la. 
Abri a boca para contestar mas voltei a fech-la. Apesar da minha fria, sua situao me inspirava certa simpatia. 
-Est bem -disse entre dentes. -Est... bem! No creio ter muitas opes. Me d todos os homens de que possas prescindir para esfregar o entrepiso. Ah, tens um pouco 
de lcool a bordo? Mostrou-se surpreso.
-lcool? H rum para os homens e vinho. Bastar isso? 
-Se no h outra coisa, ter que bastar. -Tratei de afastar minhas prprias emoes e fazer-me cargo da situao. -Terei que falar com o comissrio, suponho. 
-Sim, claro acompanha-me. 
Leonard fez manejos de descer as escadas mas se deteve abalado para ceder-me o passo... isso porque na descida poderia expor indecorosamente meus membros inferiores. 
Antes de ter posto um p ao final da escadinha, acima se ouviu uma confuso de vozes. 
-No! No pode incomodar ao capito! O que tenhas que lhe dizer... 
-Solta-me! Se no falo com ele agora mesmo e ser muito tarde! 
-Stevens! Que significa isto? Que passa aqui? - disse Leonard com aspereza. 
-No sucede nada, senhor -disse a primeira voz. 
- que Tompkins, aqui presente, est seguro de conhecer algum que ia naquele barco. Ao gigante ruivo. Diz que...
-Agora no tenho tempo - espetou o capito. -Diga isso ao primeiro oficial, Tompkins. Me ocuparei depois desse assunto. 
Tinha voltado a subir parte da escada para escutar melhor. O jovem me observou com ateno mas me mostrei inexpressiva. 
-Vos restam abastecimento suficientes, capito? Ter que alimentar aos enfermos com muito cuidado. Suponho que no ter leite a bordo, mas...
 -Oh, sim temos leite -informou animando-se.-Temos seis cabras das que se ocupa a senhora Johansen, a esposa do artilheiro. Depois de resolvermos com o comissrio, 
te levarei at ela. 
Depois de apresentar-me ao senhor Overholt, o capito Leonard se retirou, recomendando-lhe que me prestasse todos os servios possveis.
Quem seria esse Tompkins? A voz me era completamente desconhecida e seu nome tambm. O que saberia de Jamie? Que ia fazer o capito Leonard com essa informao? 
Agora s podia conter minha impacincia e, com a parte de minha mente que no estava ocupada por especulaes inteis, determinar quais alimentos se podiam proporcionar 
aos enfermos. Eram muito poucas.
-Durante os primeiros dias bastar alimentar-lhes com leite e gua fervida, mas  medida que os homens comecem a recuperar-se precisaro de algo leve e nutritivo. 
Sopa, por exemplo. Poderia preparar uma sopa de pescado? Ou tens alguma outra coisa? 
-Bem... -O senhor Overholt parecia intranqilo.-H uma pequena quantidade de figos secos, cinco quilos de acar, um pouco de caf, bolachas e um grande tonel de 
vinho Madeira mas no se pode utilizar. 
-Por que? -inquiri. Moveu os ps, atordoado. 
-Porque essas provises esto destinadas a nosso passageiro. 
-Quem  esse passageiro? -perguntei sem compreender.
O comissrio ps cara de surpresa. 
-O capito no lhe disse? Levamos o novo governador da Jamaica. 
-Se o governador no est doente, que coma carne salgada -disse com firmeza. -Lhe cair bem. Agora faa o favor de levar o vinho  cozinha. Tenho muito que fazer. 
Com a ajuda de um guarda marinho, um jovem baixo e robusto chamado Pound, fiz um rpido percurso pelo barco, confiscando implacavelmente provises e mo de obra. 
Pound, que trotava ao meu lado como um pequeno bulldog, advertia com firmeza  tripulao que, por ordem do capito, meus desejos deviam ser satisfeitos de imediato 
por mais sem razo que pudessem parecer.
O mais importante era estabelecer a quarentena. Quando acabassem de esfregar e ventilar o entrepiso, teria que instalar ali aos enfermos mas alterando a distribuio 
das redes com o fim de deixar um amplo espao entre uma e outra; a tripulao no afetada teria que dormir na coberta. Alm disso, precisavamos instalaes sanitrias 
adequadas. 
-Senhor Pound -chamei. Sua cara redonda se voltou para mim do p de uma escadinha. 
-Sim, senhora? -Qual  vosso nome de batismo, senhor Pound?
-Elias, senhora -respondeu um pouco desconcertado -Se incomodaria que te chama-se assim? Devolveu-me o sorriso com ar vacilante. 
-Ah... no, senhora. Talvez incomode ao capito -adicionou cauteloso. -No  costume na Marinha, sabes?
Elias Pound no podia ter mais de dezoito anos; quanto ao capito Leonard, dificilmente teria mais de vinte e quatro. Ainda assim, o protocolo era o protocolo. 
-Em pblico respeitarei estritamente os costumes da Marinha -lhe assegurei reprimindo meu sorriso- Mas se vamos trabalhar juntos, ser mais cmodo que use seu prenome. 
Eu sabia, ainda que ele o ignorasse, o que tnhamos por diante: horas, dias, talvez semanas de trabalho e esgotamento que nos desafiaria os sentidos; ento, s a 
fora fsica e o instinto cego, alm da liderana de um chefe incansvel, manteria em p a quem se ocupassem dos enfermos.
Eu distava muito de ser incansvel, mas seria necessrio manter a iluso. Para isso precisaria da ajuda de duas ou trs pessoas s que pudesse treinar; atuariam 
como substitutos de minhas mos e meus olhos; eles continuariam com a tarefa quando eu precisasse descansar. 
-Quanto tempo faz que navegas, Elias? -perguntei. 
-Desde os sete anos, senhora. -Caminhava para trs, arrastando um grande ba. Deteve-se para limpar a cara, sufocado pelo esforo. -Consegui um posto neste barco 
graas ao meu tio, que  comandante do Triton.  minha primeira viagem com o Marsopa.
Abriu o ba, deixando descoberto uma variedade de instrumentos cirrgicos manchados de xido (ao menos, era de esperar que se tratasse de ferrugem) e um monto de 
frascos e jarras. Um dos frascos tinha rompido deixando um fino p branco sobre o contedo do ba; parecia gesso. 
-Isto  o que trazia o senhor Hunter, o mdico, senhora. Vos servir de algo? -S Deus sabe -disse dando uma olhada. -J veremos. Pode levar ao entrepiso para outra 
pessoa, Elias. Preciso que me acompanhes para falar com o cozinheiro. Enquanto supervisionava a limpeza do entrepiso com gua do mar fervendo, minha mente tomava 
vrias rotas.
Em primeiro lugar, estava planejando os passos a dar para combater a epidemia. Dois dos homens, muito debilitados pela doena e a desidratao, tinham morrido durante 
o traslado para a coberta. Outros quatro no passariam da noite. Os quarenta e cinco restantes variavam entre um prognstico esperanoso e muito escassas possibilidades 
de sobreviver; com sorte e habilidade poderia salvar  maior parte.Mas quantos casos mais se estariam incubando entre o resto da tripulao? Por ordens minhas, na 
cozinha se estava fervendo uma enorme quantidade de gua: de mar para a limpeza e doce para beber. Fiz outra anotao em minha lista mental: devia ver  senhora 
Johansen, a das cabras, para que tambm se esterilizasse o leite.
No entrepiso tnhamos acumulado todo o lcool disponvel para profundo horror do senhor Overholt. Podia ser utilizado em sua forma atual, ainda que teria sido melhor 
contar com lcool refinado. Existiria um meio para destil-lo? Outra nota: conferir com o comissrio. Por baixo da lista mental, cada vez mais longa, pensava vagamente 
no misterioso Tompkins e sua informao. Qualquer que fosse, no tinha provocado um giro para reunir-nos com o Artemis. Ou bem o capito Leonard no o tinha tomado 
em srio ou estava muito desejoso de chegar a Jamaica para permitir que algo entorpecesse seu avano. Olhei pela borda com a v esperana de distinguir uma vela 
mas o Marsopa estava s. O Artemis (e Jamie), tinham ficado muito atrs.
Afastei de mim a sbita onda de solido e pnico. Devia falar sem perda de tempo com o capito Leonard. Ele tinha a resposta ao menos de dois dos problemas que me 
preocupavam: a possvel fonte do surto de tifo e o papel do desconhecido senhor Tompkins nos assuntos de Jamie. Mas tinha assuntos mais urgentes. 
-Elias! -chamei sabendo que estaria ao alcance de minha voz. -Vamos ver  senhora Johansen e s cabras.






CAPTULO 47
O BARCO DA EPIDEMIA

Dois dias depois ainda no tinha conseguido falar com o capito Leonard. Fui duas vezes ao seu camarote, mas ou no estava ali ou no podia atender-me. O senhor 
Overholt fazia o possvel por evitar-me e para livrar-se de minhas insaciveis demandas; encerrava-se em seu camarote com um saquinho de slvia e hisopo atado ao 
pescoo para afugentar a epidemia. Eu me sentia mais para cachorro pastor que para mdica: passava o dia grunhindo nos calcanhares de todo mundo; j estava rouca 
pelo esforo. Mas ia obtendo resultados; entre a tripulao tinha uma nova sensao de esperana, um objetivo comum. Aquele dia tinham morrido quatro homens e apareceram 
dez casos novos mas no entrepiso se ouviam menos gemidos de dor. Na cara dos que ainda estavam sos era aprecivel o alvio que proporciona fazer algo, o que quer 
que seja. At o momento no tinha conseguido descobrir a fonte do contgio. Se conseguisse encontr-la e impedir que surgissem novos casos, talvez pudesse deter 
a epidemia numa semana.
Entre a tripulao tinha dois homens condenados a alistar-se por destilar licores ilegais. Consegui t-los ao meu servio e os pus a construir um destilador no que, 
para horror da tripulao, converteramos o rum em lcool puro para desinfetar. Na senhora Johansen, a esposa do artilheiro, encontrei inesperadamente uma aliada. 
Era uma sueca inteligente, de trinta e tantos anos; s falava umas poucas palavras entrecortadas em nosso idioma e eu ignorava por completo o seu, mas tinha compreendido 
de imediato o que queria e se ocupava em faz-lo. Se Elias era minha mo direita, Annekje Johansen era a esquerda. Assumiu por si s a responsabilidade de moer pacientemente 
a bolacha dura e mistur-la com o leite de cabra fervida para alimentar com a mistura resultante aos enfermos que j estavam o bastante repostos para digeri-la. 
O artilheiro se encontrava entre os enfermos mas felizmente era um dos casos mais leves; eu tinha todas as esperanas de que se recobrasse, tanto pelo devotado atendimento 
de sua esposa como por sua robusta constituio.
-Senhora, Ruthven diz que algum est bebendo lcool puro novamente -Elias Pound apareceu junto a mim, com olheiras e plido; sua cara redonda tinha afinado notoriamente 
pelo trabalho. Era a quarta vez nos trs ltimos dias. Tanto o destilador como o lcool purificado estavam submetidos a uma estreita vigilncia mas os marinheiros, 
que tinham visto sua rao diria de rum reduzida  metade, estavam to desesperados pela bebida que, de um modo ou outro, se as engenhavam para apoderar-se do lcool 
destinado  esterilizao.
-Santo cu, senhora Malcolm - tinha sido a resposta do comissrio ante a minha queixa-, os marinheiros so capazes de beber qualquer coisa: vinho avinagrado, pssegos 
triturados e fermentados dentro de uma bota de borracha..., at soube de um que roubava os curativos usados e os embebia com a esperana de obter um pouco de lcool. 
No, senhora: de nada servir dizer-lhes que o lcool puro os pode matar. E assim era. J tinha morrido um dos quatro que tinham bebido e outros dois estavam num 
canto separado no entrepiso em estado de coma profundo. Se sobrevivessem, o mais provvel era que sofressem leses cerebrais permanentes. 
-Na realidade, viver num inferno flutuante como este deixaria leses cerebrais a qualquer um -me queixei amargamente a uma andorinha que tinha pousado no balastre. 
-Como se no fosse suficiente tratar de salvar do tifo  metade destes azarados, agora a outra metade quer matar-se com o lcool. Malditos sejam!
O oceano se estendia ao redor, completamente deserto. Para frente as Antilhas, onde se escondia o destino do jovem Ian. Atrs, Jamie e o Artemis tinham desaparecido 
fazia tempo. E eu no meio, com seiscentos marinheiros ingleses enlouquecidos pela falta de bebida e um entrepiso cheio de intestinos inflamados. Tranqilizei-me 
e fui com deciso para o corredor de proa. O capito Leonard teria que falar comigo. Detive-me no vo da porta. Ainda no era meio dia mas o capito dormia com a 
cabea apoiada nos braos, que cobriam um livro aberto. Apesar da barba um pouco crescida, seu aspecto era juvenil. Dei a volta com inteno de regressar mais tarde. 
Ao faz-lo rocei um monto de livros mau empilhados num armrio. O primeiro caiu ruidosamente ao solo acordando de um sobressalto ao capito. -Senhora Fra... Malcolm! 
-exclamou esfregando-se a cara e sacudiu a cabea para acordar-se. -Que...? Em que posso servir-vos?
-No era minha inteno acordar-vos mas preciso de mais lcool. Poderia utilizar rum puro mas deve tratar de persuadir aos marinheiros de que no bebam o lcool 
destilado. Tivemos outro caso de envenenamento. Se tivesse algum modo de que entrasse mais ar fresco no entrepiso... Vendo que o constrangia, interrompi-me. 
-Compreendo -disse com ar estpido enquanto se ia despertando. -Sim, darei ordens de instalar uma mangueira para levar mais ar para baixo. Quanto ao lcool... rogo 
que me permitas conferir com o comissrio; agora mesmo no conheo o estado de nossas provises. Respirou fundo, como se preparasse para gritar, quando recordou 
que seu garom se encontrava prostrado no entrepiso. Ento se ouviu o tilintar do sino. 
-Com licena, senhora -disse com a cortesia recobrada. - quase meio dia e devo ir estabelecer nossa posio. Vos enviarei aqui o comissrio, se no vos incomoda 
esperar.
-Obrigado -disse ocupando a cadeira que acabava de abandonar. De repente adicionei, movida por um impulso: 
-Capito Leonard? Voltou-se para mim com expresso interrogante. -Se no vos molesta a pergunta, quantos anos tens? Suas feies se endureceram. -Dezenove, para 
servir-vos, senhora. E desapareceu pela porta. 
Dezenove! Fiquei paralisada pela impresso. Acreditava ser muito jovem mas no tanto. Era ainda um menino! Dezenove anos, a idade de Brianna. Encontrar-se assim, 
de repente, ao comando de uma canhoneira inglesa atacada por uma epidemia que tinha acabado com a quarta parte da tripulao... Senti que o medo e a fria comeavam 
a amainar dentro de mim; a forma que me tinha seqestrado no era arrogncia nem falta de tino, seno puro desespero.
O capito Leonard tinha deixado o livro de bitcula aberto sobre a mesa. Nas ltimas folhas tinham cado umas gotas de saliva. Aproximei-me e vi uma palavra que 
me arrepiou o cabelo. Quando acordou, o capito tinha dito, antes de corrigir-se: "Senhora Fra..." A palavra que me tinha chamado o atendimento era "Fraser". Sabia 
quem era eu... e quem era Jamie. Levantei-me precipitadamente para passar o ferrolho, voltei a sentar-me e comecei a ler. 

3 de fevereiro de 1767. s oito badaladas nos encontramos com o Artemis, bergantim de dois mastros com bandeira francesa. Detivemo-lo para solicitar a ajuda de seu 
cirurgio, C. Malcolm, que veio a bordo e permanece conosco atendendo aos enfermos.

Ento era C. Malcolm, sim? No mencionava meu sexo, talvez por parecer-lhe irrelevante ou bem para evitar investigaes sobre o decoro de seus atos. Passei  seguinte 
anotao. 

4 de fevereiro de 1767. Recebi informao do marinheiro Harry Tompkins, segundo o qual o comissrio do bergantim Artemis  um criminoso conhecido pelo nome de James 
Fraser, bem como pelos apelidos de Jaime Roy e Alexander Malcolm. O tal Fraser  um notrio contrabandista acusado de motim por quem as Adunas Reais oferecem uma 
substanciosa recompensa. Como esta informao me foi comunicada quando j nos tnhamos separado do Artemis, no me pareceu conveniente perseguir ao bergantim, j 
que temos ordens de chegar quanto antes a Jamaica, a servio de nosso passageiro. No obstante, ao devolver-lhes seu cirurgio nos apresentar uma grande oportunidade 
de deter a Fraser.

Ouvi passos no corredor; mal abri o ferrolho, o comissrio chamou  porta. No prestei muita ateno s desculpas do senhor Overholt: minha mente estava muito ocupada 
em tratar de encontrar um sentido  nova situao. Quem diabos era Tompkins? No o tinha ouvido nomear nunca; no entanto, estava perigosamente bem informado sobre 
as atividades de Jamie. O qual me levava a duas perguntas; como era possvel que um marinheiro ingls tivesse tanta informao...? E, quem mais a conhecia? Enquanto 
supervisionava a lavagem dos enfermos e o fornecimento de gua aucarada e leite fervido, minha mente continuava trabalhando no problema do desconhecido Tompkins, 
de quem s conhecia a voz. Por fim decidi perguntar; de qualquer modo, devia saber quem era eu e o fato de que se inteirasse que eu tinha estado fazendo averiguaes 
sobre ele no pioraria as coisas.
O mais fcil era comear por Elias. Esperei at que acabasse o dia, confiando que a fadiga embotaria sua curiosidade natural. 
-Tompkins? -Sua cara de menino se enrugou para voltar a despejar-se. -Ah, sim.  um dos marinheiros do castelo de proa, senhora.  
-Quando subiu a bordo? 
-Oh, em Spithead, parece-me. No, agora recordo! Foi em Edimburgo. -Esfregou o nariz com os ns dos dedos para sufocar um bocejo.-Isso mesmo, em Edimburgo. Recordo-o 
porque lhe obrigaram a alistar-se. Armou um barulho tremendo, proclamando que no podiam lhe obrigar j que trabalhava para sir Percival Turner nas Alfndegas. -O 
bocejo acabou por ganhar a partida, fazendo-lhe abrir amplamente a boca. -Mas como no tinha nenhum documento escrito por sir Percival, no pde fazer nada.
-Ento era um agente de Alfndegas? -Isso explicava muitas coisas, sem dvida. 
-Isso mesmo. Ah... digo... sim, senhora. -Elias tratava de manter-se desperto. Suas pupilas olhavam fixamente o lustre que se balanava num extremo do entrepiso 
e comeavam a acompanh-la em seu bamboleio. 
-V deitar-se, Elias -disse compassiva. -J terminarei. 
-Oh, no, senhora! Eu nem tenho sono! -Alongou torpemente a mo para a garrafa que eu segurava. Ainda que ao terminar estivesse quase to cansada como ele, no pude 
conciliar o sonho. Tompkins trabalhava para sir Percival e este sabia, sem dvida, que Jamie era contrabandista. Mas que mais tinha no assunto? Tompkins conhecia 
a Jamie de vista. Como? Sir Percival tinha tolerado as atividades clandestinas de Jamie em troca de seus subornos... mas era pouco provvel que algum centavo tivesse 
chegado aos bolsos de Tompkins. Nesse caso... e a emboscada em Arbroath? Teria um traidor entre os contrabandistas? E se assim o fosse...
Minhas idias comeavam a perder coerncia. Deitei de bruos, com o travesseiro apertado contra o peito. Meu ltimo pensamento foi que tinha que encontrar Tompkins. 
Finalmente foi Tompkins quem veio a mim. Durante mais de dois dias, ocupada com os enfermos, no tive tempo para nada. No terceiro dia, como as coisas pareciam estar 
melhor, retirei-me ao camarote do cirurgio com inteno de lavar-me e descansar um pouco antes que chamassem para almoar. Algum chamou com delicadeza  porta 
e uma voz desconhecida anunciou: 
-Senhora Malcolm? Aconteceu um acidente. Ao abrir a porta, encontrei-me ante dois marinheiros que sustentavam a um terceiro que se apoiava numa perna e estava plido 
pela dor.
Me bastou uma olhadela para saber de quem se tratava. O ferido apresentava num lado do rosto as cicatrizes de uma queimadura; a plpebra torta deixava entrever a 
pupila leitosa de um olho cego. Ante mim estava o marinheiro caolho que o jovem Ian acreditava ter matado. O escorrido cabelo castanho estava amarrado num rabicho 
que lhe caa sobre um ombro. 
-Senhor Tompkins - saudei com segurana. 
O olho so se alargou pela surpresa. 
-Ponha-o a, por favor. 
Os homens depositaram seu colega num banquinho, junto  parede, e voltaram ao trabalho; tinha muita escassez de tripulantes para permitir distraes. Com o corao 
acelerado, ajoelhei-me para examinar a perna ferida. Ele me conhecia sem dvida alguma. A perna estava muito tensa. A ferida era impressionante mas no to grave 
se fosse atendida corretamente: um talho profundo ao longo da panturrilha.
-Como fez isto, senhor Tompkins? -perguntei enquanto levantava a procura de lcool. 
Levantou os olhos, alerta e desconfiado. 
-Uma farpa, senhora -respondeu com tom anasalado que j tinha ouvido uma vez. -Estava de p sobre uma verga que se rompeu. Sacou furtivamente a ponta da lngua passando-se 
pelo lbio inferior. 
-Compreendo. Estudei-o de esguelha, procurando a melhor maneira de abord-lo. Em procura de inspirao lancei uma olhada  mesa. E a encontrei. Enquanto pedia mentalmente 
perdo ao esprito de Esculapio, peguei o serrote para ossos do finado cirurgio: um objeto maligno, quase meio metro de ao enferrujado. Depois de observ-lo com 
ar pensativo, apoiei a borda dentada na perna ferida acima do joelho e elevei os olhos de forma encantadora para aquele aterrorizado olho. 
-Senhor Tompkins -disse-, falemos francamente.
Uma hora depois, o marinheiro Tompkins era devolvido  sua rede com a ferida suturada e vendada, tremendo de ps a cabea, mas com sua humanidade ainda inteira. 
Eu tambm estava um pouco tremula. Tal como tinha assegurado em Edimburgo, Tompkins era agente de sir Percival Turner e percorria as docas e os depsitos da costa 
alerta a qualquer indcio de atividade ilegal. Seus relatrios podiam levar  deteno de algum pequeno contrabandista, ao que se surpreendia com as mos na massa, 
mas os peixes gordos ficavam reservados ao juzo particular de sir Percival. Em outras palavras: se lhes permitia pagar substanciosos subornos pelo privilgio de 
prosseguir com suas operaes. 
-Sir Percival tem ambies, compreendes? Quer chegar a par do reino. E algo que podia ajud-lo nesse sentido era uma espetacular demonstrao de concorrncia, prestando 
um grande servio  Coroa.
-Uma deteno capaz de chamar a ateno, no? Aaahh! Isso di, senhora! Esta segura do que faz? -Jogou um olhar dubitativo  ferida. Estava limpando com lcool diludo. 
-Estou segura -o tranqilizei. -Continue. 
Suponho que um simples contrabandista no teria bastado, por mais importante que fosse. Obviamente, no. No entanto, quando sir Percival soube que podia ter a um 
delinqente poltico ao alcance das mos, esteve a ponto de estourar de entusiasmo. 
-Mas o motim  mais difcil de provar que o contrabando. Os sediciosos so idealistas -explicou Tompkins mexendo a cabea com desgosto. -Nunca se delatam entre si. 
-E vocs no sabiam a quem estavam procurando? 
-No, no sabamos quem era o peixe gordo... at que um agente teve a sorte de encontrar com um scio de Fraser. Ele lhe contou quem era Malcolm, o impressor, e 
lhe disse seu verdadeiro nome. Ento tudo ficou claro.
Meu corao se deteve por um instante. 
-Quem era esse scio? -perguntei. -No sei, juro, senhora, juro. Aahh! -exclamou ao sentir a agulha na pele. 
-No  minha inteno lhe fazer qualquer dano -lhe assegurei com voz de falsete. -Mas tenho que suturar a ferida. 
-Ai! Ai! Vos digo que no sei! Se o soubesse lhe diria, ponho a Deus por testemunha! 
-No o ponho em dvida -disse concentrada em meus pontos. 
-Ah! Basta, senhora, por favor! Um momento! S sei que era ingls.  Nada mais! Levantei os olhos. 
-Ingls? -repeti inexpressiva. 
-Sim, senhora. Isso disse sir Percival.
Me olhava com lgrimas tremendo-lhe nas pestanas. Apliquei o ltimo ponto com toda a suavidade possvel e atei o n da sutura. Levantei-me sem dizer nada e lhe entreguei 
uma parte de conhaque de minha garrafa particular. Bebeu com gratido, reconfortando-se de imediato. Seja por agradecimento ou pelo alvio de ter terminado com aquela 
dura prova, contou-me o resto da histria. Em procura de provas para respaldar os cargos de sedio, tinha ido  tipografia da Carfax Close.
 -Sei o que sucedeu ali -assegurei, voltando-lhe a cara para a luz para examinar as cicatrizes das queimaduras. -Di ainda? 
-No, senhora, mas me doeu horrores durante algum tempo.
Como estava incapacitado por suas leses, Tompkins no tinha participado da emboscada de Arbroath mas sabia ("Porque ouviu dizer, se me entendeis") o que tinha sucedido. 
Sir Percival tinha avisado a Jamie que teria uma emboscada para que no acreditasse que estava envolvido no assunto. Tambm sabia pelo misterioso colaborador ingls 
as mudanas pactuadas com o barco francs caso falhasse o desembarque; por isso disps que a armadilha ficasse na praia de Arbroath. 
-Mas e o oficial de Alfndegas que foi assassinado no caminho? -perguntei sem poder dominar um arrepio. -Quem fez isso? Dos contrabandistas s cinco puderam faz-lo, 
mas nenhum deles era ingls. 
-No foi nenhum deles, senhora. Foi seu prprio colega. 
-Que? -Dei um suspiro sobressaltada. 
- certo senhora. Eram dois. Um deles tinha instrues.
As instrues eram esperar para ver se algum dos contrabandistas conseguia escapar. Uma vez tivesse chegado ao caminho, um dos servidores pblicos de Alfndegas 
deixaria cair um n corredio sobre a cabea de seu colega e o estrangularia sem perda de tempo. Devia deix-lo pendurado ali, como mostra da ira assassina dos delinqentes. 
-Mas por que? -exclamei horrorizada. -Que sentido tinha? 
-No se d conta? -Tompkins parecia surpreso, como se a resposta fosse bvia. -No tnhamos conseguido retirar da tipografia provas que acusassem a Fraser de sedio. 
Tambm no o pegamos nunca com mercadoria de contrabando. Um dos agentes acreditava saber onde a guardavam, mas em novembro desapareceu sem que voltssemos a ter 
notcias suas.
-Compreendo. -Engoli saliva, pensando no homem que tinha me atacado na escada do bordel. Que teria sido daquele "creme de menta"? 
-Bem, j temos a sir Percival como um caso especial nas mos: um dos contrabandistas maiores da costa alm de autor de material sedicioso de primeira linha. E tambm 
um traidor jacobita indultado, cujo nome causaria sensao em todo o reino. O nico problema -encolheu de ombros-  que no tinha provas. Comeava a apreciar a horrvel 
lgica de tudo aquilo. O assassinato de um servidor pblico de Alfndegas em pleno cumprimento de seu dever no s justificava a deteno de um contrabandista para 
submet-lo  pena capital, como provocaria grande indignao pblica. A aceitao que o contrabando ocorria no povo no lhe salvaria ante uma situao como aquela.
-Vosso sir Percival parece ser um autntico safado -comentei. 
-Bem, nisso tem toda razo, senhora. No vou dizer o contrrio. -E o servidor pblico assassinado... suponho que era s o elemento adequado. 
Com um risinho sardnico, Tompkins espalhou uma fina gota de conhaque. Parecia ter dificuldades para focar seu nico olho. 
-Oh, muito adequado, senhora, em mais de um sentido. Mas no merece que o chores. Foram muitos os que se alegraram de v-lo pendurado... Sir Percival, entre outros. 
-Compreendo. -Terminei de vendar-lhe a panturrilha. -Chamarei algum para que vos leve a vossa rede -disse tirando-lhe a garrafa quase vazia. -Essa perna deve descansar 
durante trs dias pelo menos; diga a vosso superior que no pode levantar at que tenha tirado os pontos. 
-Tudo bem, senhora. Obrigado por ser to boa com um pobre marinheiro. No se incomode por Harry Tompkins. Saiu ao corredor cambaleando e se voltou para piscar-me 
exageradamente o olho. 
-O velho Harry sempre escapa, de uma forma ou outra. 
-Em que ano nasceu, senhor Tompkins? -perguntei. 
Piscou sem compreender. 
-Em 1713, senhora. Por que? 
-Por nada. Teria apostado minhas anguas que 1713 era o Ano do Rato.








CAPTULO 48

MOMENTO DA GRAA

Durante os dias seguintes se estabeleceu uma rotina, como acontece nas circunstancias mais desesperadas sempre que se prolongam em tempo suficiente. Lutar contra 
uma enfermidade sem medicamentos  como empreende-la a empurres contra uma sombra.
Levava nove dias lutando e haviam morrido quarenta e seis homens a mais. Ainda assim me levantava todos os dias ao amanhecer, me salpicava com gua os olhos irritados 
e saa, uma vez mais, ao campo de batalha sem armas a  mais  a no ser a  prpria persistencia...e um tonel de alcool.
Houve algumas vitorias, mas at essas me deixavam um sabor na boca amargo. Descobri a possvel fonte de contagio: um dos ajudantes da cozinha, um homem chamado Howard, 
que havia prestado servio no camarote dos aspirantes aos oficiais. Segundo os incompletos registros do defunto mdico, a primeira vtima foi um dos marinheiros 
que comiam ali. Houve outros quatro casos, todos no mesmo setor, depois a enfermidade comeou a estender-se. Os homens contagiados iam deixando a mortfera contaminao 
nas letrinas do barco.
Bastou que Howard admitisse haver visto antes uma enfermidade assim para que o assunto se esclarecesse. Mas o cozinheiro, escasso de ajudantes, se havia negado rodondamente 
a separar-se de um homem to valioso pela << loucas ideias de uma maldita mulher>>. Como Elias no pde persuad-lo, me vi obrigada a recorrer ao capito em pessoa; 
Leonard, interpretando mal a natureza do conflito, se apresentou com vrios marinheiros armados. Na cozinha houve uma cena muito desagradvel. Por fim, Howard foi 
enviado ao calabouo, o nico lugar onde a quarentena era segura, protestando e inquirindo desconcertado qual havia sido seu delito.
Quando sa da cozinha, o sol descia at o oceano, deixando um fulgor que pavimentava de ouro o mar, como se fossem as ruas do paraso. Me detive transfigurada pelo 
espetculo.
A luz mudou e num instante ficou atrs, deixando-me o eco de sua presena. Em um ato refleto de reconhecimento, fiz o sinal da cruz e desci ao entrepiso.
Quatro dias depois, o Tifo chegou ao Elias Pound. Foi uma infeco virulenta: chegou ao entrepiso com os olhos pesados pela febre e fazendo gestos repelindo a luz; 
seis horas depois delirava. Ao amanhecer do dia seguinte apoiou sua redonda cabea em meu seio, me chamou de Me e morreu em meus braos.
Passei o dia dedicada ao meu trabalho; ao cair o sol, acompanhei o capito Leonard enquanto lia o oficio fnebre. O corpo do marinheiro Pound foi entregado ao mar 
envolto em sua rede.
Aquela noite no jantei com o capito; preferi sentar-me num canto coberto, junto a um dos grandes canhes, onde pude contemplar o mar sem mostrar a cara a ningum.
Todo mdico destesta perder um paciente. A morte  o seu inimigo. Deixar-se arrebatar a algum que nos havia sido confiado  ser derrotado, sentir a impotencia mais 
alm do pesar comum e dos horrores da morte. Aquele dia havia perdido vinte e tres homens entre a auvorada e o acaso.Elias foi s o primeiro.
Levantei uma mo intil para descarreg-la com fora contra a grade. O fiz uma e outra vez, quase sem sentir o ardor dos golpes, cheia de ira e dor.
- Chega! - ordenou uma voz atrs de mim. Um mo me segurou o punho impedindo que voltasse a golpear a grade.
- Solta! - Lutei, mas aqueles dedos eram muito fortes.
- Basta! - disse com firmeza. Me rodeou a cintura com o outro brao para afastar-me dal - No atua desse modo. Ou ters danos.
- No estou dando a mnima! - Me debati mas acabei encurvando os ombros derrotada. O que importava?
Ento me soltou. Ao girar me encotrei de frente um homem que nunca havia visto. No era marinheiro; suas roupas, ainda que enrrugadas e fedorentas por excesso de 
uso, eram muito finas: o casaco e o Jaleco haviam sido feitos por medida e o encaixe que lhe rodeava o pescoo devia ter vindo de Bruxelas.
- Quem diabo s? - perguntei atnita.
Me entregou um leno, enrrugado mas limpo.
- Me chamo Grey - disse com uma reverencia cortes e um leve sorriso - Suponho que voce seja a famosa senhora Malcolm,cujo herosmo elogia tanto nosso capito.
Se interrompeu ao ver minha careta.
- Perdona-me - disse - Eu disse algo inadaquado? Mil desculpas, senhora. No era minha inteno ofende-la.
Mexei a cabea.
- Ver morrer os homens no  um ato de herosmo - disse. Tive que me interromper para soar o nariz. - Estou aqui, isso  tudo. Obrigada pelo leno.
- Posso fazer algo mais por voce? - vacilava - Uma taa de gua? Um pouco de conhaque, talvez?
- Futucou em seu casaco para tirar uma petaca de prata, na frente se via um escudo de armas.
Aceitei com um gesto de agradecimento; tomei um trago to grande que acabei tossindo.
- Obrigada - disse ao devolver a petaca - Tanto usar o conhaque para lavar os enfermos, havia esquecido que tambm se bebe.
Isso me trouxe a memria os sucessos do dia com tal realismo que me deixei cair na caixa de plvora.
- Isso significa que a epidemia no cedeu? - perguntou em voz baixa.
- No posso dizer que no cedeu - Fechei os olhos, me sentia muito triste - Hoje somente houve apenas um caso novo. Ontem foram quatro; anteontem, seis.
- Parece prometedor - comentou - Se diria que ests derrotando a enfermidade.
- No. Somente estamos conseguindo reduzir o contgio. Mas no posso fazer absolutamente nada pelos que j esto contagiados.
- Caramba...- Se inclinou para me pegar a mo. A surpresa fez que eu no resistisse. - Eu diria que voce esteve muito ativa para dizer que no fez absolutamente 
nada.
- Claro que fiz algo! - espetei recuperando a mo -  que no serviu de nada!
- Sem dvida alguma...
- No - Descarreguei o punho no canho - Sabes quantos homens eu perdi hoje?
Vinte e tres! Estou em p desde o amanhecer, afundada at os cotovelos em sebo e esterco, com a roupa pegada ao corpo. E no serviu de nada! Eu no pude ajudar! 
Me ouviu? No consegui ajudar!
- Eu ouvi - disse com voz baixa - Me envergonho, senhora. Me deixaram no camarote por ordens do capito mas no tinha nem ideia das circunstancias que descreves. 
Pelo contrrio eu asseguro que teria saido para ajudar.
- Por que? No tens nenhuma obrigao.
- E voce tem? - Deu-se a volta e me olhou no rosto. Ento v que era um homem charmoso, de uns trinta e oito anos, de feies bem delineadas e grandes olhos azuis 
dilatados pelo assombro.
- Sim - disse
- Compreendo.
- No, no compreendes, mas no importa. - Pressionei com fora na frente com as pontas de meus dedos, no lugar que o senhor Willoughby me havia indicado para aliviar 
a dor de cabea - Se o capito quer que permaneas em vosso camarote, deverias faze-lo. Tenho suficientes homens para que me ajudem com os enfermos. S que... no 
tem remdio. - Conclui deixando cair as mos.
- Compreendo - repitiu como se falasse com as ondas - Imaginei que vossa aflio se devia somente a compaixo natural das mulheres mas vejo que se trata de algo 
muito diferente. - Fez uma pausa. - Eu fui oficial do exrcito. Sei o que significa ter vidas humanas nas mos... e perde-las.
Se fez um silencio.
- Tudo se reduz a reconhecer que no somos Deus - disse com suavidade - E a lamentar no podendo ser.
- Sim - confirmei.
Vacilou como se no soubesse o que dizer e me segurou a mo para beija-la com simplicidade.
- Boa noite, senhora Malcolm - disse.
Se afastou fazendo resonar seus passos na coberta.

Estava a uns metros de distancia quando um marinheiro, ao ve-lo, se deteve com um grito. Era Jones, um de seus camareiros.
- Milord! No deverias ter sado do camarote! O ar da noite  mortal, e com a epidemia a bordo...e as ordens do capito...
Meu novo conhecido fez um gesto de desculpa.
- Sim, sim, eu sei. Eu fiz mal em sair. Mas se permanecesse um momento mais no camarote me teria asfixiado.
-  melhor se asfixiar que morrer destas malditas diarrias, senhor, com vosso respeito - replicou severo.
Ao passar Jones ao meu lado, alarguei a mo para segur-lo pela manga.
- Oh, senhora Malcolm - disse apoiando no peito a mo estendida. - Por Deus! Perdona-me, mas pensei que eras um fantasma.
- Me perdoa - respondi cortes. - Somente queria te perguntar quem  o homem com quem estavas falando.
- Ele? - Jones olhou por cima do ombro mas o senhor Grey j havia desaparecido - Caramba,  lord John Grey, senhora, o novo governador da Jamaica. - Deixou uma olhada 
censora at o lugar por onde o mencionado havia desaparecido. - Somente nos falta chegar ao porto com um poltico morto a bordo.- Depois de sacudir a cabea com 
ar crtico, me perguntou? - J vais dormir, senhora? Quer que eu leve uma taa de ch e alguns biscoitos?
- No, Jones, obrigada. Vou dar uma ltima olhada nos enfermos antes de deitar. No necessito de nada.
- Bem, senhora. Em todo caso, se quiser  s me pedir.A qualquer hora. Os desejos de uma boa noite.
Se tocou ao cabelo cado sobre a frente e continuou de pressa em seu caminho.
Me deixei junto a grade, respirando em grandes inspiradas o ar fresco.Subitamente me dei conta de que, no fim de tudo, me havia concedido esse momento de graa para 
mim que havia rezado sem palavras.
- Tens razo - disse em voz alta, dirigindo-me ao mar e ao cu - Com um crepsculo nos havia bastado. Obrigada.
E desci.













CAPTULO 49
TERRA A VISTA!

 verdade o que dizem os marinheiros: se cheira a terra muito antes de ve-la.
Apesar da larga viagem, o curral das cabras era um lugar muito agradvel. Diariamente se retiravam aos montes o esterco e Annekje Johansen trazia todas as manhs 
uma braada de feno seco. O cheiros a cabra, mesmo forte, era um pouco limpo e natural, bastante mais agradvel que o fedor dos marinheiros, que no se banhavam.
- Komma, komma, komma, dyr get - gritou a mulher, atraindo uma cabra com um punhado de feno; lhe arrancou um carrapato que esmagou contra a coberta.
- H terra  vista? - perguntei.
Assentiu com um sorriso largo e alegre.
- Ah. Cheira? - indicou olfateando vigorosamente - Terra, ah! gua, erva.  bom, bom!
- Necessito ir a terra - disse observando-a com ateno. - Sem dizer nada, secreto.
- Ah? - Annekje me olhou - No dizer a capito, certo?
- A ningum - confirmei movendo afirmativamente a cabea - Me podes ajudar?
Pensou em silencio. Era uma mulher corpulenta e plcida. Atuava como suas cabras, que se adaptavam alegremente a estranha vida a bordo, disfrutando o feno e a clida 
companhia. Com a mesma capacidade de adaptao, fez um sereno gesto de assentimento.
- Ajudo.
Passado do meio dia ancoramos em frente a ilha de Watlings, chamada assim, segundo me disse um guarda marinho, em homenagem a um famoso corsrio do sculo passado. 
A observei com curiosidade; era plana, com grandes praias brancas e palmeiras baixas. Em outro tempo havia recebido o nome de San Salvador e provavelmente foi o 
primeiro que Cristvo Colombo viu do Novo Mundo.
Foi somente uma pausa para renovar nosso abastecimento de gua antes de continuar a viagem at Jamaica. Faltava aproximadamente uma semana de viagem e , com tantos 
enfermos, os grandes toneles de gua doce estavam quase vazios.
San Salvador era uma ilha pequena, mas interrogando com prudencia meus enfermos, descobri que seu porto principal atraa bastante trfico marinho. Mesmo no sendo 
o lugar ideal para uma fuga, no tinha a inteo de aceitar a "hospitalidade" da Marinha em Jamaica, onde serviria como isca para que Jamie fosse detido.
Os tripulantes que no estavam ocupados se aproximaram a borda para conversar e contemplar a ilha. Distingui um rabinho largo e loiro agitado  pela brisa: o governador 
tambm havia abandonado a recluso para expor seu rosto plido ao sol tropical.
Pensei em me aproximar, mas no tinha tempo.Annekje j havia ido buscar a cabra. Me sequei as mos nas anguas fazendo os ltimos clculos. As palmeiras estavam 
a uns duzentos metros. Se conseguisse descer pela prancha e entrando pela selva, teria bastante possibilidades de escapar.
Annekje abordou ao centinela com sua rara mescla de sueco e ingles; assinalava a cabra que levava em braos e na costa, insistindo que o animal necessitava de erva 
fresca. O marinheiro parecia compreender mas se mantinha firme.
- No, senhora - disse com respeito - ningum pode desembarcar, exceto o grupo que vai carregar a gua. Ordens do capito.
Eu me mantinha fora de seu campo de viso, observando a discusso. Ela manobrava sem deixar de discutir, obrigando o marinheiro a retroceder uns passos para que 
eu pudesse passar por detrs dele. Quando o levasse bastante longe da prancha, soltaria a cabra para que,na perseguio, contasse com uns dois minutos para eu escapar.
Passei o peso do corpo de um p ao outro. Ia descala, desse modo me seria mais fcil correr pela areia. O centinela se moveu, dando-me as costas. Necessitava um 
passo mais, s mais um passo.
- Belo dia, verdade, senhora Malcolm? 
Mordi a lingua.
- Muito belo, capito Leonard - disse com dificuldade. Sua voz pareceu me deter o corao.
- Ter chegado at aqui  uma vitria tanto sua como minha, senhora - disse - Sem voce, duvido que o Marsopa houvesse alcanado  terra - Me tocou timidamente a mo.
Voltou a sorrir, um pouco mais amvel.
- Sem dvida conseguiu sair do aperto, capito. Pareces ser muito competente.
Se deitou a rir, corado.
- Bem, em grande parte o mrito so dos marinheiros, senhora; devo reconhecer que se tm comportado com nobreza. E seus esforos, naturalmente, se devem a suas habilidades 
mdicas. - Me olhou com um brilho severo nos olhos pardos. - No posso expressar o que sua ajuda tem sido para ns, senhora. Vou...vou informar ao governador e ao 
sir Greville, o Comissrio Real de Antigua. Escreverei uma carta como sincero testemunho dos esforos que tens feito por ns. Talvez...talvez sirva de algo. - Baixou 
os olhos.
- Para que, capito? - Ainda tinha o corao acelerado.
- No ia dizer nada, senhora, mas a honra me impede guardar silencio. Conheo vosso nome, senhora Fraser, e seu quem  vosso esposo.
-  mesmo? - Fiz o possvel para dominar minhas emoes. - E quem ?
O rapaz pareceu surpreendido.
- Caramba, senhora,  um criminoso! Palideceu um pouco - Por acaso no sabias?
- Eu sabia, sim - repliquei secamente - Mas porque me disse?
Passou a lingua pelos lbios mas me sustentou um olhar corajoso.
- Quando descobri a identidade de vosso esposo fiz uma anotao no livro de bitcora. Agora eu lamento mas j  muito tarde. A informao j tem carter oficial. 
Quando chegar a Jamaica terei que comunicar seu nome e seu destino as autoridades locais e tambm ao Comandante Naval de Antigua. O aprisionaro quando desembarcar 
no Artemis. - Tragou a saliva - E se o prenderem...
- Vo enforc-lo - conclui.
- Eu v enforcar outros - disse depois de uma pausa - Senhora Fraser...eu...sinto. No pretendo que me perdoe. Somente quero dizer que sinto muito.
Girou sobre seus calcanhares e se afastou. Frente a ele Annekje Johansen, com sua cabra, continuava discutindo acaloradamente com o centinela.
- O que significa isto? - inquiriu o capito Leonard aborrecido - Retira imediatamente esse animal da coberta! O que ests pensando, senhor Holford?
Os olhos de Annekje passaram do capito a mim, adivinhando instantaneamente qual havia sido o problema. Me piscou com solenidade um de seus grandes olhos azuis. 
Ns tentaramos outra vez, mas como?
Quatro dias depois, enquanto mudvamos o rumo para entrar pelo Canal de Caicos, uma rajada de ar surgiu inesperadamente e surpreendeu o barco mal preparado.
Naquele momento eu estava na coberta. Ao meu redor tudo era confuso, ordens a gritos e marinheiros que corriam. Me ergui, tratando de ordenar meus pensamentos.
- O que aconteceu? - perguntei a um marinheiro.
- O mastro maior se fudeu - disse sucintamente - Com vosso perdo, senhora, mas  a verdade. E agora teremos um baile infernal.
O Masorpa conxeava lentamente com rumo at o sul, privado de seu mastro maior. O capito Leonard optou por portar na costa norte de uma das ilhas Caicos e realizar 
as reparies necessrias.
Mesmo naquela ocasio se nos permitir desembarcar, de nada me serviria. No podia me ocultar naquela ilha seca sem comida e sem gua, esperando que algum furaco 
me trouxesse um barco.
No entanto, a mudana de rumo fez que Annekje tivesse uma idia.
- Conhecer isto - disse com ar sbio - Agora vamos girar, Gran Turca, Mouchoir. Caicos no. - Se sentou em ccoras desenhando com um dedo na areia.
- Olha: Canal Caicos - disse traando duas linhas, em cima das quais desenhou um pequeno triangulo de uma vela. - Passamos, mas no tem mastro. Agora... - Desenhou 
rapidamente varios circulos irregulares a direita do passo - Caicos do Norte, Caicos do Sul, Caicos, Gran Turca - disse cravando um dedo em cada um dos crculos 
- Agora ir rodeando: recifes. Canal de Mouchoir.
- O Canal de Mouchoir? - eu havia ouvido mencionar, mas no me ocorria que podia ter haver com a minha possibilidade de fuga do Marsopa.
Annekje assentiu sorrindo, desenhou uma linha larga e ondulante por debaixo do desenho anterior e assinalou com orgulho.
- A Espanhola. Santo Domingo. Ilha grande, cidades, muitos barcos.
Levantei as sombrancelhas desconcertada. Ela suspirou ao perceber que no compreendia. Depois de pensar um momento, se levantou, pegou a caarola pouco profunda 
que havamos utilizado para pegar moluscos, a encheu de gua e a agitou cuidadosamente em um movimento circular, arrancou uma linha de sua desfiada angua e cortando 
um pedao com os dentes o cuspiu dentro da gua. O fio se manteve flutuando seguindo os lentos crculos do remoinho dentro da caarola.
- Voce - disse assinalando o pedao de fio - Agua te move - Assinalou novamente o desenho da areia. Fez um novo triangulo no Canal de Mouchoire uma linha que se 
curvava desde a vela fazendo a esquerda, indicando o curso da embarcao. Depositou o fio azul que me representava junto a vela que simbolizava o Marsopa e o arrastou 
at a costa da Espanha.
- Saltar - disse.
- Ests louca! - exclamei horrorizada.
Rio entre dentes, muito satisfeita por se haver feito entender.
- Sim - disse - Mas serve. Agua te levar. Trata de no afogar, n.
Respirei profundamente, deixando os cabelos em meus olhos.
- Sim - repeti - Farei o possvel.

























CAPTULO 50
ENCONTRO COM UM SACERDOTE

O mar estava morno. Comparado com o da Esccia era como um banho quente. Duas ou tres horas nadando me deixaram os ps adormecidos na parte em que estavam atadas 
as cordas de meu improvisado salva-vidas, feito com dois barris vazios.
A esposa do artilheiro havia dito a verdade. A silhueta larga e difusa que havia visto do Marsopa se aproximava cada vez mais; suas colinas escuras pareciam de veludo 
negro em contraste com o cu. A Espanhola...Hait.
Deviam ser quatro da manh e ainda faltava quase dois quilmetros para chegar a costa. Esgotada pelo esforo e a preocupao, me amarrei a corda em um pulso para 
me assegurar de no perder o arns e, com a frente apoiada em um dos toneles que desprendia um forte cheiro a rum, me deixei dormir.
O atrito de algo slido nos ps fez que me despertasse embaixo de uma aurora opalina; mas o cu brilhava com a mesma cor que se pode ver no interior de algumas conchas 
marinhas. Quando consegui ter os ps bem assentados na areia fria , pude perceber a fora da corrente que jogava nos barris. Me libertei das cordas e, com bastante 
alivio, deixei que continuassem sua bamboleante viagem at a costa.
Tinha os ombros machucados e o pulso que me havia atado a corda estava em carne viva; me sentia exausta, congelada e sedenta, com as pernas flcidas como um camaro 
fervido.
O mar estava deserto, sem sinais do Marsopa. Havia escapado. Somente precisava chegar a costa, buscar gua, conseguir algum meio de transporte para chegar rapidamente 
a Jamaica e me reunir com Jamie e com o Artemis antes de que o fizesse a Marinha Real. No momento, apenas podia cumprir com o primeiro ponto da agenda.
O mangue se estendia at onde chegava a vista. No havia outra alternativa a no ser caminhar entre as razes que sobressaiam do lodo formando grandes arcos. Como 
me afundava de barro at os tornozelos, me pareceu melhor seguir descala e com as anguas  presas sobre os joelhos.
No principio foi agradvel receber o sol nascente nos ombros, pois me esquentava a pele gelada e secava minhas roupas, mas depois de uma hora desejava que se ocultasse 
detrs de alguma nuvem. Suava abundantemente, estava de barro seco at os tornozelos e a sede comeava a ser insuportvel.
No se via outra coisa que a folhagem verde cinzenta.
- No  possvel que toda esta ilha seja um mangal - murmurei sem deixar de umudecer - Em algum lugar tem que haver terra seca. E gua...
Um ruido similar de disparo de um pequeno canho me assutou de tal modo que me caiu a faca. Enquanto a buscava freneticamente ante o barro, algo passou zumbando 
junto a minha cabea. Se ouviu um forte agitar das folhas e, por fim, uma espcie de coloquial "Cuac?"
- Que? - Me incorporei com cautela, segurando a faca com uma mo enquanto me afastava os cachos enrolados com a outra. A dois metros de distancia, uma grande ave 
negra penteava as plumas e me olhava com ar crtico.
- Bem - disse sarcstica - voce tem asas, amigo.
A ave deixou de se emplumar.
- Bum! - disse repetindo o canhonao que me havia sobressaltado.
- Deixa de fazer isso - protestei irritada.
Prestando ateno, esvoaou e voltou a troar, em poucos segundos apareceram outras tres silhuetas negras.
Estava bastante segura de que no eram abutres, mas preferia no perder mais tempo. Tinha que recorrer muitos quilometros antes de poder dormir...e buscar Jamie. 
Preferia no pensar na possibilidade de no ach-lo a tempo;
Meia hora depois havia avanado to pouco que ainda ouvia o troar intermitente de meu vizinho e seus amigos. Como ofegava, escolhi uma raiz bastante grossa para 
sentar-me e descansar.
- gua, agua por todas as partes - disse tristemente, olhando ao meu redor - e nem uma gota que se pudesse beber.
Um pequeno movimento no lodo me chamou a ateno. Ao inclinar-me vi vrios peixes de uma espcie que nunca havia visto; longe de boquear e se retorcer, se mantiveram 
erguidos sobre as nanadeiras  peitorais, como se no se preocupassem em absoluto em estar fora da gua. Eu estudei eles com fascinao.
- Quem est alucinando? - perguntei - Voces ou eu?
Os peixes, em vez de responder, deram um sbito salto e aterrizaram sobre um ramo,a um palmo do solo. Talvez perceberam algo, pois no mesmo momento chegou uma onda 
que me cobriu at os joelhos.
Me invadiu uma sbita frescura. O sol havia tido a gentileza de se esconder atrs de uma nuvem e, com seu desaparecimento, o ambiente dos mangais mudou por completo. 
Carangueijos e peixes desapareceram. Ao levantar os olhos uma nuvem afogou uma exclamao. Desde as colinas se aproximava uma enorme massa prpura.
A onda seguinte subiu cinco centmetros a mais que a anterior e tardou em retirar-se. Eu no era carangueijo e nem peixe, mas me tinha dado conta de que se acordava, 
com assombrosa celeridade, uma tempestade.Me invadiu uma onde de pnico, mas tratei de me acalmar. Se perdesse a serenidade estaria perdida.
-Resiste, Beauchamp - Murmurei para mim mesma. Muito bem, at onde ir? At a montanha; era a nica coisa visvel. Abri passos entre as ramas to depressa como pude, 
sem prestar ateno aos agarres de minha saia e a crescente fora com que as ondas se lanavam em minhas pernas.Segui chapinhando. A angua me desprendia da cintura, 
em certo momento me cairam os sapatos e desapareceram de imediato entre a espuma que me chegava aos joelhos.
Quando a mar chegou no meio da minha coxa se iniciou a chuva. Ao principio perdi o tempo em vo levantando o rosto para tratar de absorver a agua da chuva. Por 
fim, recobrando o sentido , tirei o leno que me cobria os ombros e o escorri varias vezes para tirar os vestgios de sal. 
Deixei que se empapasse de chuva e chupei a gua da teagem. Apesar do suor e das algas marinhas: estava deliciosa.
Nas montanhas reluziu um relampago, num instante chegou o sonido do trovo. A mar me estirava com tanta fora que, quando a onda se retirava, necessitava segurar 
as razes mais prximas para que no me arrastassem.
Comeava a pensar que havia me precipitado em abandonar o Marsopa. O vento seguia muito forte. Dizem os marinheiros que a stima onda  sempre a mais alta: me descobri 
contando enquanto avanava. Foi a nona que me golpeou ente os omoplatos, me derrubando antes de que pudesse agarrar-me a uma rama.
Quando pude me erguer j no via a montanha, se no uma grande rvore a cinco ou seis metros de distancia. Trepei nela at que pude ver o mar aberto. Rodeei com 
os braos o tronco da rvore e , apertando o rosto na casca, receei por Jamie, pelo Artemis, pelo Marsopa, por Annekje Johansen, Tom Leonard e pelo governador.E 
por mim.
Quando despertei era pleno dia, tinha uma perna afundada entre a grama e com o joelho adormecido. Desci, quase me desiquilibrando, at cair na gua pouco funda da 
enseada.Peguei um pouco de gua para prov-la e a cuspi: era gua estancada.
Ainda minhas roupas estavam empapadas, e eu estava sedenta. A tempestade havia desaparecido fazia tempo e tudo havia ficado agradvel e normal, excetuando as razes 
enegrecidas devido ao raio.
Cansada e sedenta como estava, somente pude recorrer uma breve distancia antes de me sentar e descansar.Varios daqueles estranhos peixes saltaram tambm a terra, 
olhando-me com olhos salientes carregados de curiosidade.
- Bem, a mim tambm me parecem muito estranhos - disse a um deles.
- s inglesa? - Se estranhou o peixe.
A impresso de ser Alice no Pas das Maravilhas foi to marcada que somente fui capaz de oscilar estupidamente. Levantei a cabea e olhei ao homem que havia falado.
Tinha a cara avezada e queimada do sol e o cabelo negro que se cacheava sobre sua testa e era ainda abundante e sem branco. Se adiantou com cautela, como se temesse 
me assustar. Era corpulento, de estatura mediana e rosto largo com feies marcadas, em sua expresso amistosa se mesclava a desconfiana. Usava roupas gastadas 
e um pesado saco no ombro; do cinturo estava pendurado uma garrafa de pele de cabra.
-Vous tez Anglaise? - repetiu em frances - Comment qa va ?        
- Sou inglesa, sim - disse com dificuldade - Me darias um pouco de gua, por favor?
Abriu os grandes olhos castanhos e se limitou a entregar-me a garrafa sem dizer nada.
Coloquei a faca em minha angua para beber.
- Cuidado - me advertiu ele -  perigoso beber muito rpido.
- Eu sei - disse sufocada - Sou doutora.
Meu salvador me observou com ar intrigado. Era razovel: devia parecer uma mendiga, louca no mnimo.
- Doutora? - repetiu em meu idioma. Me observou com ateno, quase como a ave negra com que me havia encontrado antes - Doutora em que, se me permite pergunt-lo?
- Em medicina - disse sem deixar de beber.
- Nossa! - Foi seu comentrio depois de uma pausa. Inclinou a cabea em uma reverencia formal.- Nesse caso, senhora mdica, permita que me apresente. Sou Lawrence 
Stern, doutor em Filosofa Natural, de Gesellschaft von Naturwissenschaft Philosophieren, de Munich.
Oscilei.
- Naturalista - explicou apontando ao saco de lona que levava no ombro - Estava atrs desses palmpedes com a esperana de observar seus hbitos de cortejo quando 
por casualidade eu a ouvi...
- Falar com um peixe - completei - Bem, sim.
Me olhou com um esboo de sorriso.
- Terei a honra de conhecer vosso nome, senhora mdica?
Vacilei, sem saber o que dizer. Por fim me decidi pela verdade.
- Fraser - disse- Claire Fraser. Casada com James Fraser - disse com a vaga sensao de que o estado conjugal me daria uma maior respeitabilidade, apesar de meu 
aspecto.
- Ao seu servio, senhora - disse com uma graciosa reverencia - Ters sido vtima de um naufrgio, talvez?
Como parecia a explicao mais lgica de minha presena ali, fiz um gesto afirmativo.
- Necessito chegar a Jamaica - disse - Poderias me ajudar?
Me olhou, franzindo levemente o semblante.
- Posso ajud-la, mas antes deveria te dar algo de comer e alguma roupa, no  mesmo?
Tenho um amigo ingles que no vive longe daqui. Me permite que a leve?
Ante a sede e a urgente situao geral, no havia prestado muita ateno nas exigencias de meu estomago, que ante a meno da comida ressurgiu, vociferante, a vida.
- O agradeceria muito - disse em voz alta com a esperana de cal-lo.
Ao sair de um palmar, a terra se abria em uma campina para elevar-se depois em uma larga colina. L em cima se via uma casa... ou as ruinas dela.
- A Fazenda da Fonte - informou meu novo conhecido acenando com a cabea - Suportas a caminhada costa acima ou...? - Vacilou me olhando como se calculasse meu peso 
- Suponho que podia lev-la nos braos - disse com um tom nada bajulador.
- Posso andar - assegurei.
A ladeira estava repleta de pegadas de ovelhas. Vrios destes animais pastavam apazivelmente embaixo do trrido sol de A Espanhola. Ao sair do palmar, uma das ovelhas 
nos viu e deixou escapar um balido de surpresa; o resto do rebanho levantou a cabea em unssono para nos olhar.
Bastante intimidada pelo exrcito de olhos desconfiados, peguei minhas enlodadas anguas para seguir o doutor Stern pela vereda principal que, a julgar por sua largura, 
no s utilizavam as ovelhas.
Ante a perspectiva de receber ajuda, o medo e a fatiga comearam a apaziguar. Todavia devia enfrentar o problema de encontrar transporte at Jamaica, mas uma vez 
calamada a sede, com um amigo ao lado e a possibilidade de um almoo, a tarefa no parecia to impossvel como no mangal.
- Ali est! - Lawrence sinalizava uma silhuera liviana que descia cautelosamente at ns, caminhando entre as ovelhas que no pareciam reparar em seu passo.
- Cristo! - exclamei -  So Francisco de Asss!
- No, nenhum dos dois - afirmou Lawrence com um olhar de surpresa - J tinha dito que  ingles. - Levantou um brao - Ol, senhor Fogden!
A figura de batina cinza se deteve com ar desconfiado.
- Quem s?
- Stern! - Anunciou meu companheiro - Lawrence Stern! Vem, senhora.
E estendeu uma mo para ajudar-me na empinada costa.
- Stern? - disse o homem, afastando o cabelo grisalho da frente e pestanejando como uma coruja a luz do sol. - No conheo nenhum...Ah,  voce! - Seu rosto enxuto 
se iluminou - O verme cheio de merda!
Stern me pediu desculpas com os olhos, um pouco atordoado.
- Eu......em minha ltima visita recolhi vrios parasitas interessantes dos excrementos das ovelhas - explicou.
- Uns vermes horrveis! - exclamou o padre Fogden, violentamente estremecido - Alguns mediam mais de trinta centmetros.
- Apenas vinte - corrigiu Stern sorrindo.- O remdio que eu sugeri, foi efetivo?
O padre Fogden fez cara de surpresa.
- A poo de resina - apontou o naturalista.
- Ah, sim! - O semblante do sacerdote se iluminou - Claro, claro! Sim, foi muito efetivo. Algumas morreram mas a maioria se curou por completo. Extraordinrio!
Rapidamente o padre Fogden pareceu se dar conta de que no estava se mostrando muito hospitaleiro.
- Mas passou, passou! Estava a ponto de sentar-me para almoar. Tens que me acompanhar. Insisto - Se voltou at mim - Esta senhora h de ser a senhora Stern, no?
- No, mas nos encantaria aceitar vossa hospitalidade - respondeu Stern amavelmente - Permita-me apresent-lo a minha acompanhante: a senhora Fraser, sua compatriota.
Os olhos de Fogden se redondaram notavelmente.
- Uma inglesa aqui? - disse, incrdulo, observando o lodo, as manchas de sal, meu vestido enrrugado e meu desalinho geral. - Seu mais humilde servido, senhora. - 
Fez um gesto pomposo at as ruinas que coroavam a colina. - Minha casa  sua.
Emitiu um assobio agudo; um pequeno cocker mostrou a cara, inquisitiva, entre as ervas.
- Temos convidados, Ludo - informou o sacerdote radiante - No  maravilhoso?
Com minha mo bem segura embaixo de seu brao e pegando uma ovelha pela penugem da cabea, nos conduziu at a Fazenda da Fonte.
A razo do nome ficou clara enquanto entramos no ruinoso ptio; em um canto, uma nuvem de liblulas sobrevoava um reservatrio cheio de algas, parecia uma fonte 
que algum havia encerrado ao construir a casa.Dez ou doze galinceos silvestres brotaram entre as pedras cadas, esvoaando enlouquecidas. Ante as provas que deixaram 
atrs de s, deduzi que as rvores do ptio eram sua residencia habitual a muito tempo. Estes haviam crescido at tal ponto que suas ramas se entrelaavam, formando 
uma espcie de tnel. No interior da casa parecia escuro atrs a luz do sol mas meus olhos se adaptaram muito rpido. Olhei ao meu redor com curiosidade.
Era uma habitao simples, escura e fresca, mobiliada com uma mesa larga, algumas cadeiras e banquetas e um pequeno aparador sobre a qual pendia uma horrvel pintura 
de estilo espanhol: Um Cristo esqueltico e plido cuja mo ossuda assinalava o corao sangrante que palpitava em seu peito.
Aquele horrvel quadro me chamou tanto a ateno que tardei em notar a presena de outra pessoa. A mulher deu um passo adiante com os negros olhos fixos em mim. 
Sua estatura no passava de um metro e vinte e era to gorda que seu corpo parecia um bloco slido, sem articulaes, com um volume redondo at a cabea que terminava 
em um pequeno coque cinza. Sua pele era de um mogno claro, no sei se pelo efeito do sol. Pareceu um pulso talhado em madeira. Um pulso vodu.
- Mamacita - disse o sacerdote em espanhol  - veja que sorte! Temos convidados para comer.
Te recordas do senhor Stern?
-Sim, claro - disse -  o assassino de Cristo. E quem  essa rameira branca?
- Ela  a senhora Fraser - continuou o padre Fogden, sorrindo como se ela no houvesse abrido a boca. - A pobre teve a desgraa de naufragar. Devemos prestar-lhe 
toda a ajuda possvel.
Mamacita me olhou lentamente dos ps a cabea sem dizer nada mas com as fossas nasais dilatadas em uma mostra de desdm.
- A comida est pronta - disse nos dando as costas.
- Estupendo! - exclamou o sacerdote feliz - Mamacita os do boas vindas. Nos servir algo de comer. Querem sentar?
A mesa j estava posta, com um grande prato rachado e uma colher de madeira. O padre tirou do aparador outros dois pratos e mais duas colheres, que distribuiu ao 
acaso sobre a mesa.
- Vives sozinho aqui, senhor... padre Fogden? - perguntei ao nosso anfitrio - Sozinho com......Mamacita?
- Sim, temo que sim. Por isso me alegra tanto ve-los. No tenhos mais companhia que no seja de Ludo e Coco - explicou, dando umas palmadas a massa peluda que descansava 
junto ao seu prato.
- Como? - repeti cortesmente. A julgar pelo que havia visto, havia mais de um parafuso frouxo. Stern parecia divertido ms no alarmado.
 -Coco, o duende mau. No consegue ve-lo aqui, com seu nariz de boto e seus olhos escuros? - Fogden afundou subitamente dois dedos nas depresses do fruto e os 
apertou com um riso afogado.
- Ah, ah, no deves olhar fixamente, Coco.  fata de educao, j sabes disso. A senhora  muito bonita - murmurou para s prprio - No se parece com aminha Ermenegilda 
mas ainda assim  muito bonita, no , Ludo?
O cachorro, sem me prestar ateno, brincou com gozo at o seu amo, que lhe coou as orelhas com afeto.
- Talvez nos vestidos de  Ermenegilda tenha algum que a sirva?
Sem saber o que responder, me limitei a sorrir amavelmente com a esperana de que meus pensamentos no se refletissem em minha cara. Por sorte entrou Mamacita, levando 
uma fumegante caarola de barro envolto em toalhas. Depois de colocar uma concha do contedo em cada prato, se retirou; seus ps, sim ela os tinha, se movia invisveis 
embaixo das anguas.
A massa que tinha em meu prato parecia ser de origem vegetal. Ao tomar cautelosamente um bocado descobri, com surpresa, que estava bom.
- Bananas fritas com mandioca e feijes pretos - explicou Lawrence. Se serviu uma grande colherada e comeu sem esperar que se esfriasse.
Eu esperava que me interrogasse sobre minha presena, minha identidade e minhas perspectivas, mas o padre Fogden somente cantava baixinho, elevando o ritmo com golpes 
a colher sobre a mesa entre um bocado e outro. Dei uma olhada a Lawrence com as sombrancelhas altas. Ele se limitou a sorrir com um leve encolhimento de ombros e 
seguiu comendo.
No houve mais conversas at que Mamacita substituiu os pratos por um fruteiro, tres taas e uma gigantesca jarra de argila.
- Conheces a Sangria, senhora Fraser?
Abri a boca para dizer que sim, pois havia sido uma bebida muito popular nos Estados Unidos na dcada dos anos sessenta, mas pensei melhor.
- No. O que ?
- Um mescla de vinho tinto com suco de laranja e limo. - explicou Lawrence Stern - Aromatizada com especiarias; se serve quente ou fria, dependendo da estao; 
reconfortante e saudvel, no  verdade, Fogden?
- Oh, sim, sim. Muito reconfortante.
Sem esperar, o sacerdote esvaziou sua taa e me deu na mo a jarra.
Era aquele mesmo sabor doce e spero; tive a momentanea iluso de estar novamente na festa onde havia provado pela primeira vez, com um professor de botnica que 
fumava maconha.
Contribuiu a essa iluso a conversa sobre as colees do senhor Stern  e o padre Fogden que, bebia vrias taas de Sangria, foi cutucar no aparador e voltou com 
um grande cachimbo de argila que encheu com uma erva de odor potente: haxixe.
-Decidiu, Stern o que pensar fazer, voce e esta nufraga que tens resgatado?
O botnico explicou seu plano: depois de uma noite de descanso iriamos caminhando at a aldeia e San Luis, onde trataramos de conseguir um barco pesqueiro que nos 
leve at o Cabo Haitiano, que estava a uns cinquenta quilmetros. Se no encontra-lo teramos que continuar por terra at Le Cap, o mais importante dos portos prximos.
O sacerdote franziu o cenho, irritado pelo fumo.
- Hum? Bom, suponho que no tenha muitas alternativas, verdade? Mas ters que andar com cuidado, sobretudo se vo por terra a Le Cap. Pelos selvagens, sabes?
- Selvagens? - Olhei interrogativamente a Stern.
-  certo - assentiu cenhudo - Ao ir at o norte, pelo valle de Artibonite, v dois ou tres bandos, os selvagens so escravos fugitivos. Fogem da crueldade de seus 
amos e buscam refgio nas colinas distantes, onde podem se esconder.
- Talvez no os incomodem - disse o padre Fogden- Afinal, ela no parece valer o esforo de um assalto.
Stern me olhou com um amplo sorriso, mas o apagou de imediato, temendo que fosse uma falta de  tato.
- Necessito um pouco de ar fresco - disse afastando a cadeira - E um pouco de gua para me lavar, se for possvel.
- Oh, claro, claro - exclamou o padre Fogden. Se levantou com movimentos inseguros. - Acompanha-me.
O ar do ptio era muito fresco e vigorizante. Respirei fundo, observando com interesse o dono da casa, que forcejava com um cntaro junto a fonte do canto.
- De onde vem a gua? - perguntei - Em uma fonte?
Foi Stern que respondeu.
- Sim, tem milhares. Dizem que em alguns vivem certos espritos, mas no creio que voce acredite em supersties, verdade senhor?
- Ah, disse o padre vagamente - Bem, no. Espritos, no.
Um cheiro desagradvel me fez contrair o nariz. O sacerdote deve ter notado, pois disse:
- Oh, no prestes ateno,  a pobre Arabella.
- Arabella?
- Sim. Est aqui.
Fogden afastou uma surrada cortina que separava um canto do ptio. Do muro de pedra sobressaia uma borda, de um metro de altura, onde se enfilheiravam uma srie 
de crnios de ovelhas, brancos e bem polidos.
- No posso me separar delas, compreendes? - Acariciou a curva pesada de um crnio - Esta era Beatriz, muito doce e gentil. Morreu ao dar a luz a pobrezinha - Assinalou 
outros dois crnios vizinhos, muito mais pequenos.
- Arabella ...outra ovelha? - perguntei. O cheiro era muito forte e quase preferi no saber de onde vinha.
- Um membro de meu rebanho - O sacerdote voltou at mim seus estranhos olhos azuis com um olhada feroz. - A mataram! Pobre Arabella, to suave e confiada que era. 
Como puderam ter a perversidade de trair tal inocencia em aras dos desejos carnais?
- Oh, que pena - exclamei sem saber o que dizer - O lamento muitssimo. E ...quem  o assassino?
- Os marinheiros, esses malditos pages! A assassinaram na praia e  assaram seu corpo em uma grelha, como o So Lorenzo Mrtir.
- Marinheiros? - repeti - Quando aconteceu isto...este lamentvel acontecimento?

No podia tratar-se de Marsopa. O capito Leonard no me considerava to importante para arriscar aproximar seu barco a ilha com o fim de me perseguir. Mas a ideia 
me fez umedecer as mos. Mas as sequei dissimuladamente nas anguas.
- Nesta manh - informou o padre Fogden.Por fim reparou na anciana que o olhava com fria, carregada com um cntaro em cada mo.- Oh, me esqueci! Necessitas tambm 
roupas, no , senhora Fraser?
Meu vestido e minhas anguas estavam to cheias de lodo e to rasgadas que a  duras penas eram decentes.
O sacerdote se voltou at a esttua de madeira.
- No teremos algo que esta desventurada senhora posso colocar, Mamacita? - perguntou em espanhol - Talvez algum vestido de...
A mulher me mostrou os dentes.
- So muito pequeno para essa vaca - disse no mesmo idioma - D sua batina velha - Projetou uma olhada desdenhosa ao meus cabelos cacheados e minha cara suja. - 
Venha - ordenou em ingles me dando as costas - Se lavar.
Me conduziu a um ptio mais pequeno, na parte dos fundos da casa, onde me proporcionou dois cantaros de gua fria, uma gasta toalha de fio e um pequeno pote de sabo 
com um forte odor a alvejante.Atrs me deu uma surrada batina cinza com uma corda no cinturo, voltou a mostrar-me os dentes e se afastou, comentando com ar simptico:
- Lava o sangue que te manchas as mos, rameira, assassina de Cristo.
Fechei a porta do ptio com notvel alivio; ainda me reconfortou mais me desprender daquelas prendas pegajosas e sebosas. Me arrumei tanto como fosse possivel com 
agua fria e pentiei o cabelo molhado com os dedos pensando em meu peculiar anfitrio. Sua excentricidade, era uma forma de demencia ou somente o efeito do alcool 
e do haxixe? Sem dvida, parecia uma alma bondosa.Mamacita, em compensao, me deixava nervosa.No podia ficar toda a tarde no patio. Estava muito cansada e necessitava 
descansar, dormiria durante uma semana. Empurrei uma porta que dava a casa e entrei.
Era um pequeno dormitrio; no parecia formar parte daquela casa espartana, com seus ptios ruinosos. Na cama havia almofadas de plumas e uma colcha de l vermelha. 
Os moveis estavam lustrados com azeite. Em um extremo v uma cortina de algodo se destacando, atrs pendia toda uma fileira de vestidos, como um arco-iris de seda. 
Devia de ser o guarda-roupa da tal Ermenegilda, mencionada pelo padre Fogden.Eram bonitos: seda e veludo, l e cetim, musselina e veludo; aquelas prendas poderiam 
ter sido exibido a corte madrilenha.Toquei numa manga azul como despedida e me afastei na ponta dos ps.
Lawrence Stern estava na galeria do fundo, embaixo de uma empinada pendente de ales e goiabeiras. A distancia se divisava uma pequena ilha; se levantou cortesmente, 
dedicando-me uma pequena reverencia e uma olhada de surpresa.
- Senhora Fraser! Devo reconhecer que seu aspecto melhou muito. A batina do padre lhe fica melhor que a  ele - seus olhos de avel se dilatavam com admirao.
- No ser tanto a batina como a ausencia do barro - observei, ocupando a cadeira que me oferecia. Na desconjunta mesa de madeira havia uma jarra. - Tem algo para 
beber?
- Mais Sangria. - Encheu uma taa para cada um e tragou a sua, suspirando com satisfao. - Espero que no me consideres um mal educado, senhora Fraser, mas levo 
meses percorrendo nestes campos, sem beber outra coisa que gua e o tosco rum dos escravos...- Fechou os olhos - Ambrosia.
Me sentia de acordo com ele.
- E...o padre Fogden est...? - Buscava alguma forma delicada de perguntar o estado de nosso anfitrio.
- Embriagado - disse com firmeza Stern - Est derrubado nas mesa da sala. Quase sempre est nesse estado at o por do sol.
- Compreendo - Me acomodei na cadeira - Faz muito tempo que o conheces?
Esfregou a testa pensativo.
- Oh, a alguns anos - Me deu uma olhada - Por casualidade, conheces um tal de James Fraser, de Edimburgo? Sei que  um apelido comum, mas... Vejo que o conheces!
- Meu esposo se chama James Fraser.
O rosto se iluminou de interesse.
-  mesmo! - exclamou -  um homem muito alto, corpulento e...?
- Ruivo - disse -  Jamie, sim. Rpido me ocorreu algo - Uma vez me contou que havia conhecido um naturalista, com quem manteve uma conversa muito interessante sobre...diversos 
temas.
Me perguntei como sabia Stern o verdadeiro nome de Jamie se em Edimburgo era Jamie Roy, o contrabandista, o o Alexander Malcolm, o respeitvel impressor. Seria aquele 
nome de claro acento alemo o "ingls" mencionado por Tompkins?
- Sobre aranhas e cavernas - apontou Stern de imediato - O recordo perfeitamente. Nos conhecemos em um...um... - Tossiu para cubrir magistralmente um lapso - Num 
estabelecimento onde serviam bebidas. Uma delas......empregadas descobriu uma grande espcie de Arachnida pendurado no teto de sua...e...de sua sala. E saiu correndo 
ao corredor, gritando incoerencias.
Stern bebeu um grande trago de sangria. A lembrana o deixou tenso.
- Acabava de capturar um exemplar em um frasco quando o senhor Fraser invadiu a habitao e...
Naquele momento o cientfico sofreu um forte ataque de tosse.
- E disse o seu nome.
Stern passou uma mo pelos cachos negros.
- No creio que o fizesse, mas a dama em questo o chamava "senhor Fraser". Conversamos quase at o amanhecer, disfrutando muito a mutua companhia. Em algum momento 
comeamos a se intimar - Elevou uma sombrancelha, sardnico - O parece muito familiar?
- Em absoluto. Mencionastes aranhas e cavernas. H cavernas por aqui?
Lawrence arrancou uma folha de seu livreto e a  amassou com a mo.
- Olha - disse alargando a mo. O papel se desdesdobrava lentamente, deixando uma labirntico topografico de dobras e digitos enrrugados. - Assim  est ilha. Recordas 
do que disse o padre Fogden dos selvagens, esses escravos fugitivos que se refugiam nas colinas? Se eles esto em liberdade  porque no os perseguem. H muitas 
zonas que nenhum homem (branco ou negro, me atreveria a dizer) h posto o p ali ainda. 
Nas colinas perdidas existem cavernas ainda mais perdidas, cuja existencia  ignorada por todos, salvo talvez pelos aborgenes do lugar....que desapareceram faz 
tempo, senhora Fraser.
Disse pensativo:
- Eu v uma dessas cavernas. Abandawe, chamam os selvagens. Consideram um lugar sinistro e sagrado, ainda ignoro a razo.
Estimulado pela minha ateno, bebeu outro trago de sangria e continuou com sua lio de histria natural.
- Aquela ilha - indicou assinalando um pequeno vulto que flutuava no mar -  a ilha da Tartaruga. Na realidade se trata de um atol coralino com uma lagoa grande. 
Sabia que em outros tempo foi refugio de piratas? - perguntou como se sentisse obrigado a completar sua conferencia com dados de interesse mais gerais.
- Piratas de verdade? - Observei a pequena ilha com mais interesse - Que romantico.
Stern se deitou a rir. O olhei com surpresa.
- No rio de voce, senhora Fraser - me assegurou -  que, em certa ocasio, tive a oportunidade de convesar com um ancio de Kingston sobre os hbitos dos piratas 
que, em certa poca, estabeleceram seu quartel general na aldeia prxima ao Port Royal. Perdona-me a falta de delicadeza, senhora Fraser, mas s casada e tens certa 
familiaridade com a prtica da medicina. J ou viu falar das abominveis prticas da homossexualidade?
Me olhava de soslaio.
- Sim - respondi - Queres dizer...?
- O asseguro - afirmou com um gesto magistral - Meu informador foi muito explicito quanto aos costumes dos piratas. Homossexuais todos eles - concluiu mexendo a 
cabea.
- Como?
-  de conhecimento pblico. Segundo meu informante, o feito de que Port Royal caiu ao mar faz sessenta anos, foi atribuido a um ato de vingana divina contra aqueles 
perversos, como castigo por seus hbitos grosseiros e antinaturais.
Ia fazer algumas perguntas sobre o carter exato daqueles grosseiros e antinaturais hbitos quando saiu Mamacita da galeria e veio anunciar secamente o jantar, voltando 
a desaparecer.
- Eu gostaria de saber de qual caverna saiu o padre Fogden - murmurei afastando minha cadeira.
- Prximo a Havana - disse Stern. E me contou o resto da histria.
Depois de haver exercido durante dez anos como sacerdote missionrio da ordem de So Anselmo, o padre Fogden havia chegado a Cuba quinze anos atrs. Ali se dedicou 
aos necessitados, trabalhando entre aos lugarejos de Havana, pensando unicamente em aliviar os sofrimentos e  no amor de Deus..., at o dia em que conheceu em um 
mercado a Ermenegilda Ruiz Alcntara e Meroz.
- No creio que saiba como aconteceu - disse Stern secando uma gota de vinho que baixava por sua taa - Talvez ela to pouco o sabe. Ou talvez planejou tudo desde 
o momento em que o viu.
De um modo ou outro, seis meses depois a cidade de Havana ficou boquiaberta pela notcia: a jovem esposa de Don Armando Alcntara havia fugido...com um sacerdote.
- E com sua me - disse bem baixo.
- Ermenegilda jamais havia se separado de Mamacita. Nem de seu cachorro Ludo.
Os fugitivos chegaram a cavalo at Bayamo. A viagem havia sido muito incomoda pelos vestidos que Ermenegilda no queria se separar. A alugaram um barco pesqueiro 
que os levou com seguridade a La Espaola.
- Ela morreu dois anos depois - informou Stern bruscamente enquanto voltava a encher sua taa. - Lhe enterrou com suas prprias mos embaixo de uma buganvilla (planta).
- E desde ento esto aqui - adivinhei - O sacerdote, Ludo e Mamacita.
- Oh, sim - Fechou os olhos - Ermenegilda no queria abandonar a Mamacita e Mamacita no abandonar nunca a Ermenegilda.
Bebeu de um trago s o resto de sua Sangria.
- Aqui no vem ningum - disse - Os aldeanos no querem pisar na colina. Temem o fantasma de Ermenegilda. Una pecadora maldita, sepultada por um padre herege em 
terra no consegrada.  natural que no possa descansar em paz.
- Mas voce mesmo assim veio - observei.
Sorriu.
- Ah, bom, sou cientfico. No acredito em fantasmas. - Me estendeu uma mo um pouco insegura - Vamos jantar, senhora Fraser?
Na manh seguinte, depois do caf da manh, Stern se mostrou disposto a partir at San Luis, mas antes lhe fiz uma ou duas perguntas ao sacerdote sobre o barco que 
havia mencionado: se era o Marsopa, preferia me manter longe dele.
- Que tipo de barco era? - perguntei enchendo minha taa com leite de cabra para acompanhar as bananas fritas.
O padre Fogden, que no parecia muito afetado pelo seus excessos doa dia anterior, acariciava seu coco, cantarolando para s mesmo.
- E ? - Uma cotovelada de Stern o tirou de suas iluses.
Repeti com paciencia a minha pergunta.
- Ah. - Desviou os olhos muito concentrado e relaxou o rosto. - Um de madeira.
Lawrence se inclinou at o prato dissimulando um sorriso. Respirei fundo e fiz outra tentativa.
- Voce viu os marinheiros que mataram a Arabella?
- Sim. Do contrrio, como ia saber que eles o fizeram?
- Naturalmente. Vestiam algum tipo de uniforme? - A roupa de trabalho que usava a tripulao do Marsopa se parecia com um certo uniforme, com cor branca encardida 
e o corte similar.
- No, creio que no. Mas me recordo que o chefe usava um gancho. Quer dizer: lhe faltava uma mo.
Deixei cair minha taa, que estourou contra a mesa.
- Desculpe - disse. Me tremeram tanto as mos que nem sequer pude recorrer aos fragmentos da taa. Tinha medo de fazer a pergunta seguinte - Padre...o barco j foi 
zarpado?
- No! - exclamou levantando os olhos com surpresa - Seria impossvel. Est no meio da praia.

O padre Fogden comeou a andar com a batina recolhida at as coxas e mostrando o branco reluzente de suas magras pernas. Mesmo Lawrence Stern me auxiliando com gentileza, 
afastando as ramas e oferecendo o seu brao nas colinas mais empinadas, cheguei ofegando no alto da colina.
- Achas que existe o barco? - lhe perguntei com voz baixa. Devido a conduta de nosso anfitrio, no estava muito segura de que no houvesse imaginado somente para 
mostrar-se socivel.
Stern se encolheu de ombros, secando um fio de suor que lhe corria pela bochecha bronzeada.
- Suponho que exista algo. Alm do mais, a ovelha morta existe.
Entre as ramas se via o azul relumbrante do Caribe e uma entreita faixa de areia branca. O padre Fogden se deteve e nos chamou por sinais.
- Ali esto estas bestas malvadas - murmurou. Seus olhos azuis cintilaram de fria. Tinha ouriado o escasso cabelo e parecia um porco espinho comido pelas traas.- 
Carniceiros! - acrescentou com veemencia - Canibais!
Dei uma olhada de surpresa, mas Lawrence Stern me segurou o brao para levar-me at uma abertura mais ampla, entre as rvores.
- Sim! Ali tem um barco! - disse.
Era certo. Estava na areia, meio tombado, com desordenadas cargas, velas, cordagens e barris espalhados ao redor. Os homens agitavam-se como formigas e os gritos, 
golpes de martelo ressonavam como canhes. O ar estava impregnado de odor a breu quente.
- Sim  eles!  o Artemis! - A questo ficou esclarecida quando apareceu, junto ao casco, uma silhueta com uma s perna que protegia a cabea do sol com um vistoso 
leno de seda amarela.
- Murphy! - gritei - Fergus!Jamie!
Me soltei de Stern para correr ladeira abaixo sem prestar ateno ao seu grito de advertencia.
Murphy se voltou ao ouvir-me mas no pde se afastar de meu caminho. Levada pelo impulso, avanando como um trem de carga sem controle, me espatifei diretamente 
contra ele, derrubando-o.
- Murphy! - Com o jbilo do momento lhe dei um beijo.
- Ei! - Protestou escandalizado.

- Milady! - Fergus apareceu ao meu lado, desalinhado; seu belo sorriso deslumbrava o rosto escurecido pelo sol - Milady!
Marsali apareceu atrs dele com um largo sorriso.
- Merci aux saints! - murmurou ele - Temia no voltar a ve-los.
Depois de beijar calorosamente em ambas as bochechas e em minha boca soltei. Dei uma olhada no Artemis, que parecia um escaravelho com as patas pra cima.
- O que aconteceu?
A tempestade que me surpreendeu durante a noite anterior no mangal tambm havia atacado o Artemis, arremessando-o contra um recife.
- Estvamos a uns trezentos metros da costa quando aconteceu o acidente - relatou Fergus entristecido pela lembrana.
Enquanto o barco se inclinava, uma onda enorme varreu a coberta, levando o capito Raines e mais quatro marinheiros.
- A costa estava to prxima! - Se queixou Marsali com o rosto contrado pela aflio. - Dez minutos depois estvamos em terra. Sim to somente...
Fergus a interrompeu pondo uma mo em seu brao.
- No podemos entender os designos de Deus. Se estivssemos a mil milhas da costa aconteceria o mesmo, s que nem sequer conseguimos sepultar-los decentemente.
- Eu tinha um pouco de gua bendita que papai me trouxe de Notre Dame - disse com o lbios rachados. - Rezei uma orao e a espalhei sobre as tumbas. Isso...eles 
teriam gostado, no ?
- No tenho dvidas - disse com suavidade dando uma palmada em seu brao. Olhei ao meu redor buscando a grande estatura e colorida cabea de Jamie. Comeava a compreender 
que no estava ali - Onde est Jamie?
Estava vermelha pelo relevo da colina abaixo, mas senti que o sangue abandonou minhas bochechas e um fio de medo corria em minhas veias. Fergus me olhava fixamente; 
sua cara magra era como um espelho da minha.
- No est com voce?
- No. Como comigo? - Senti a pele fria - Onde est?
Fergus mexeu lentamente a cabea, como um boi atordido pelo golpe de uma maa.
- No sei.



CAPTULO 51
ONDE JAMIE SE ENCONTRA NO MOMENTO

Jamie Fraser, estendido na sombra da chalupa do Marsopa, ofegava pelo esforo. No havia sido tarefa fcil abordar a canhoneira sem ser visto; tinha todo o corpo 
machucado devido ter batido contra o flanco do barco ao se jogar nas redes de abordagem, e os braos doloridos como se tivessem sido deslocados; alm disso, tinha 
uma farpa cravada em sua mo. Mas ali estava e ningum o viu.
Mordeu delicadamente sua mo, buscando com os dentes a ponta da farpa enquanto tentava orientar-se. Russo e Stone, dois tripulantes do Artemis, haviam passado horas 
inteiras descrevendo a estrutura de um barco como o Marsopa, compartimentos, cobertas e um lugar onde podia alojar-se o mdico. Mas uma coisa  escutar a descrio 
a outra muito diferente,  orientar-se no prprio barco. Ao menos, aquele miservel navio se mexia menos que o Artemis.
Havia esperado que descesse o sol para que Robbie MacRae o aproximasse em um bote. Raines lhe disse que, povavelmente, o Marsopa ancoraria com a mar noturna, duas 
horas depois. Se conseguisse encontrar a Claire e escapar antes do amanhecer (podia nadar facilmente at a costa com ela), o Artemis o esperaria escondido em uma 
pequena enseada, ou outro lado da ilha de Caicos. Se no conseguir...bem, se preocuparia disso quando chegasse o momento.
Em contraste com o mundo pequeno e atestado do Artemis, o entrepiso do Marsopa parecia uma enorme e labirinta toca. Permaneceu quieto, dilatando o nariz para aspirar 
aquele ar fedido. Percebeu todos os fedores associados a um barco que leva muito tempo no mar, mas tambm um vago gosto a vmitos e fezes. Girando para a esquerda, 
comeou a andar com lentitude, contraindo o nariz. Onde o cheiro da enfermidade fosse mais potente, ali a encontraria.
Quatro horas depois, seu desespero crescia. Foi pela terceira vez at a popa. Tinha percorrido o barco inteiro sem sinais da Claire.
- Maldita mulher! - disse baixo - Onde se meteu esta condenada?
Um pequeno medo lhe roa o corao. Ela havia assegurado que a vacina a protegeria da enfermidade, mas se estivesse errada? Essa possibilidade lhe tinha obrigado 
a perseguir o Marsopa, junto a uma ira assassina contra aquele endiabrado ingles que havia tido a insolencia de sequestrar a sua mulher na frente de seu nariz, com 
a vaga promessa de devolve-la depois de ter utilizados seus servios.
Deix-la na mo dos Sassenachs sem nenhuma proteo! Nem pensar!
Avanou com o ouvido atento. Se ouviam pisadas na coberta e ruidos conhecidos: homens que estavam despendurando as cordas. O haviam visto? Bem, no tinha importancia. 
No era delito nenhum ir em busca de sua esposa.
O Marsopa navegava a toda vela. O encontro com o Artemis estava perdido desde aquele momento.No entanto, no tinha nada que perder e sim se apresentar diretamente 
ante o capito para exigir falar com Claire. Rapidamente se deteve: ouviu cabras. E se ouviu a voz de uma mulher. Uma silhueta feminina se recortava contra a luz 
da lamparina, mas no se tratava de Claire. O corao de Jamie deu uma virada ao ver seu contorno grosso e quadrado. O homem que a acompanhava se inclinou para pegar 
um cesto e caminhou at ele. Jamie saiu do estreito corredor.
- Deus nos proteja! - exclamou o marinheiro, plido pela tenue luz. Seu olho so se abriu horrorizado ao reconhece-lo - O que fazes aqui?
- Me conheces, no ? - O corao lhe saltava no peito, mas no elevou a voz - No creio ter tido a honra de saber o seu nome.
- Prefiro deixar isso assim, Vossa Senhoria, se no se importa.
O marinheiro torto comeou a retroceder mas Jamie o segurou pelo brao com tanta fora que lhe arrancou um grito.
- Um momento, por favor. Onde est a senhora Malcolm, a doutora?
- No sei.
- Sim voce sabe - disse Jamie asperamente - E vai dizer agora mesmo se no queres que lhe rompe a cabea.
- Bem, se me romper a cabea no poderei dizer nada, verdade? - disse o marinheiro, que comeava a recobrar a coragem. O resto se perdeu em um grasnido enquanto 
a mo de Jamie apertava seu pescoo. Tompkins caiu escarrachado na coberta.
- Tens razo - reconheceu Jamie - Mas se lhe romper o brao no ters dificuldade para falar, no  assim? - Se agachou para segurar o brao e retorce-lo nas costas.
- Eu digo, eu digo! - O marinheiro se retorceu, louco de pnico. - Maldito sejas! E ela era to cruel como voce!
- Era? O que siginifica "era"? - Com o corao encolhido, Jamie sacudiu o brao com mais brusquidade do que pensava.
Tompkins deixou escapar um grito.
- Solta-me! Eu vou dizer, mas solta-me, por compaixo.
O escoces afroxou a presso.
- Diga-me onde est a minha esposa! - Ante esse tom, homens mais fortes que Harry Tompkins se haviam precipitado a obedecer.
- Se perdeu! - resmungou o homem! -Caiu pela borda!
- O que? - Jamie aturdido o soltou, Pela borda. Perdida.
- Quando? - interpelou - Como? Conta-me como foi, estpido! - Avanou at o marinheiro com os punhos apertados.
O outro retrocedeu frente ao brao, com uma furtiva satisfao no nico olho.
- No se preocupe, Vossa Senhoria - disse em tom zombador - No estar sozinha por muito tempo. Dentro de alguns dias se juntar com ela no inferno...Quando bailar 
na forca, no porto de Kingston!
Jamie ouviu pisadas a suas costas muito tarde. Nem sequer teve tempo de voltar a cabea antes de receber o golpe.
O haviam golpeado na cabea mais de uma vez e sabia que o mais sensato era permanecer deitado at que passasse a tontura e desaparecesse as luzes que palpitavam 
atrs das plpebras. Se incorporar muito rpido, a dor o faria vomitar.
Claire. Perdida. Afogada. Morta.
Se inclinou at um lado e vomitou, entre tosses e ansias, como se seu copo tratasse de expulsar a ideia. No serviu de nada.
Quando se deitou, exausto, a idea lhe permanecia. Lhe doia respirar.
Se abiu uma porta; uma luz intensa lhe pegou os olhos com a fora de um golpe. Fez uma careta.
- Senhor Fraser - disse uma voz culta. - Eu...eu sinto muito. Queria que soubesses.
Pela ranhura de um olho vio a cara olheiruda do jovem Leonard, o homem que havia levado Claire. Parecia envergonhado. Envergonhado! Envergonhado por ter matado-a!
A fria o colocou em p e saltou do cho inclinado. Se chocou com Leonard e o empurrou at atrs, at ao corredor. Houve um surdo "tump!" quando a cabea do ingles 
golpeou nas tbuas. Se ouviam gritos  as sombras saltavam loucamente pelo bamboleio das lamparinas, mas no prestou ateno.
Deu um forte golpe na mandbula, o seguinte foi no nariz. Estava disposto a esgotar todas as suas foras e morrer contente se pudesse deix-lo maltratado e fatigado, 
se sentia como se rompesse os ossos do capito e o correr do sangue quente embaixo de seus punhos.Necessitava vingana!
Umas mos tiraram ele mas no se importou. To pouco lhe importava que o matassem. O corpo que estava embaixo se retorcia entre suas pernas at ficar imvel.
Quando chegou o golpe seguinte, Jamie se afundou na escurido.
Se despertou com o suave contato de uns toques em sua cara. Alargou a mo, sonolento para pegar, mas...
- Aaahhh!
Se levantou com instintiva repulso dando tapas no rosto. A enorme aranha, quase to assustada como ele, fugiu depressa at os arbustos. Atrs dele se ouviram uma 
risadas. Girou, com o corao palpitando como um tambor, e se encontrou com seis crianas trepadas nas ramas de uma rvore, sorrindo com os dentes manchados de tabaco.
Fez uma reverencia mareada e com as pernas frouxas; a impresso que o haviam impulsado a levantar-se ia desaparecendo de seu sangue.
- Mademoiselles, Messieurs - saudou rouco. No fundo de sua mente se peguntou por que estava falando em frances.
Eram franceses, pois lhe responderam o mesmo idioma, ainda com um spero acento crioulo que nunca havia ouvido.
-Vous tes matelot? - perguntou o maior abservando-o com interesse.
Dobrou os joelhos e teve que sentar-se bruscamente, o que fez rir outra vez as crianas.
- Non - respondeu lutando por mover a lingua - Je suis guerrier.
- Soldado! - exclamou um dos mais pequenos, com olhos redondos e escuros - Onde tens a espada e a pistola?
- No sejas tonto - lhe disse um menina um pouco maior, altanada. - Como quer que nade com uma pistola? Estragaria, cabea de goiaba.
- No me digas isso, cara de caca! - gritou o mais pequeno.
Gritavam e se perseguiam entre os ramos como uns macacos. Jamie passou uma mo pelo rosto, tratando de pensar.
- Mademoiselle!
A maior das meninas se deixou cair em terra.
- Monsieur?
- Pareces uma mulher informada. Diga-me por favor, como se chama este lugar?
- Cabo Haitiano - respondeu de imediato, olhando-o com curiosidade.- Falas esquisito.
- Tenho sede. H gua perto?
Cabo Haitiano. Ento estava em La Espaola.
- Por aqui, por aqui. - As outras crianas haviam descido da rvore e uma das pequenas lhe segurava a mo.
Se ajoelhou junto ao riacho para encher as mos; molhou a cabea e bebeu a grandes tragos a gua deliciosamente fresca. Agora lembrava: o marinheiro de cara de rato, 
a cara supreendida do jovem Leonard, sua profunda ira, a satisfatria sensao da carne esmagada embaixo de seu punho.
E Claire. A lembrana voltou sbitamente com uma emoo confusa de terror. logo, o alvio. O que aconteceu?
- s um desertor? - perguntou um dos meninos - Tens estado em um combate? - Olhava as mos, feridas e doloridas.
- Sim - respondeu Jamie com o pensamento em outro lugar. Comeava a se lembrar: o escuro aprisionamento onde haviam deixado sem sentidos; o horrvel despertar, pensando 
que Claire havia morrido.
Estava ainda quase inconsciente quando abriu a porta do calabouo; um forte odor a cabra lhe invadiu o nariz. Como aquela mulher teria feito para lev-lo pela escada 
at a coberta de popa? E por que? Somente recordava a ltima coisa que ela disse ao empurr-lo at a grade:
- Ela no morreu. Ela est ali. - Apontava ao mar agitado - Ir tambm. Busca! - Tinha se agachado para subir at a grade.
- No s ingles - comentou o pequeno - Esse  um barco ingles, no?
Se voltou automaticamente at o lugar que ele apontava e viu o Marsopa ancorado. Havia outros barcos agrupados no porto, claramente visveis desde a colina.
- Sim - confirmou -  um barco ingles.
- Um ao meu favor! - exclamou o menino, feliz - Eu tinha razo, Jacques!  ingles! So quatro ao meu favor e somente dois para ti, em todo o mes.
- Tres - corrigiu Jacques indignado- Advinhei o espanhol e o portugues. A bruxa era portuguesa, assim tambm se conta.
Jamie alargou uma mo para segurar o menino pelo brao.
- Pardon, Monsieur.Teu amigo mencionou uma bruxa?
- Sim; esteve aqui na semana passada - respondeu o menino - Bruxa  um nome portugues?
No sabemos se contamos como espanhol ou portugues.
- Alguns dos marinheiros estiveram na taberna de minha mame - comentou uma das pequenas. - Pareciam falar em espanhol, mas no como fala tio Geraldo.
- Eu gostaria de falar com tua mame, chrie - disse Jamie a menina - Algum de voces sabem onde foi  que a Bruxa zarpou?
- Em Bridgetown - interveio a maior tratando de recobrar a ateno do desconhecido - Me disse o empregado do quartel.
- De qual quartel?
- Os barraces esto juntos a taberna de minha mame - disse a mais pequena. - Os capites dos barcos vo sempre ali com seus papeis enquanto os marinheiros se embriagam. 
vem! vem! Mame te dar de comer.
- Acho que tua mame vai por as minhas patas na rua. - disse Jamie frontando-se com a espessa barba no feita. - Pareo um vagabundo.
E era verdade.
- J viu piores - assegurou a pequena - Vem!
Lhe deu obrigado com um sorriso e se deixou conduzir colina abaixo, tropeando de vez em quando, pois ainda no havia se habituado a caminhar em terra.
Era isso que queria dizer a mulher das cabras? Claire tinha nadado at a ilha?
A esperana lhe refrescou o corao. Ainda mais, a Bruxa e Ian estavam prximos. Ia se reunir com os dois. Ele estava descalo, sem um centavo e sendo fugitivo da 
Marinha Real,lhe parecia um pouco sem importancia. Tinha sua imaginao, suas mos e terra embaixo dos ps. Tudo parecia possvel.























CAPTULO 52
CELEBRANDO UM CASAMENTO

No tinha outro remdio a no ser reparar o Artemis quanto antes e zarpar at Jamaica. Fiz tudo o possvel para afastar o medo que sentia por Jamie, mas durante 
os dois dias seguintes apenas pude comer.
Para distrair a Marsali, a levei a casa da colina, onde acabou conquistando o padre Fogden preparando-lhe uma receita escocesa contra os carrapatos. Stern colaborou 
nos trabalhos de reparao, deixando-me a custodia de sua bolsa de espcies e ao encargo de pegar qualquer ser curioro de Arachnida  que caisse em minhas mos enquanto 
buscava plantas medicinais.
No terceiro dia, ao sair da selva, v que havamos entrado em uma nova etapa; O Artemis j no estava tombado sobre um flanco, percebi que ia recobrando pouco a 
pouco sua posio vertical, ajudado por cordas, cunhase muitos gritos.
- J est quase terminando? - peguntei a Fergus, que permanecia em p junto a popa.
Se voltou sorrindo e secando o suor de sua testa.
- Sim, Milady! J est quase pronto. O senhor Warren opina que poderemos zarpar ao anoitecer, quando refrescar e quando a resina estiver endurecida.
- Que maravilha! - Estiquei o pescoo para observar o mastro desnudo - Temos velas?
- Oh, sim - me assegurou - Temos tudo o necessrio, menos...
Interrompeu um grito de alarme de MacLeod.
- Soldados! - Fergus, reagindo sem saber de nada, saltou dos andaimes e aterrizou ao meu lado - Pronto, milady, ao bosque! Marsali!
A menina apareceu atrs do casco, plida e sobressaltada. Fergus a empurrou at mim.
- V com milady! Corre!
Lhe segurei a mo e corremos at a selva, levantando areia em nossos ps. Desde o caminho nos chegaram gritos;acima sonou um disparo, seguido por outro. Ns nos 
jogamos numa mara espinosa.
- O que? - ofegou Marsali - Quem so? Que...vai a...contecer? Fergus!
- No sei. - Com a respirao ainda agitada me pus de joelhos - Tudo estava bem. Olha, so somente dez - disse contando os soldados que saiam do palmar - So franceses. 
O Artemis tem documentos franceses. Talvez no haja problemas.
Mas talvez sim. Era legal apoderar-se de um barco ancorado e abandonado. A praia estava deserta. E entre os soldados e o botim somente se interpolavam aos tripulantes 
do Artemis.
Os homens guardavam silencio, agrupados atrs de Fergus, que se mantinha erguido e cenhudo. Vi ele afastando a mecha da testa com o gancho e lanou os ps em terra, 
preparando-se para o que pudesse acontecer. Os cavalos avanavam a passo lento, com o ruido dos cascos sufocados pela areia.Se detiveram a tres metros do grupo. 
O gigante que parecia estar ao comando levantou uma mo, ordenando parar, e desceu do cavalo. Ento vi como Fergus mudava de expresso e ficou petrificado, plido 
embaixo do bronzeado de sua pele.
- Silence, mes amis - pediu o grando em tom de cordial autoridade - Silence et restez, s'il vous plait.
Se no houvesse estado de joelhos me havia derrubado. Fechei os olhos e em uma muda orao de agradecimento. Marsali, ao meu lado, fez uma exclamao.
O comandante tirou o chapu, sacudindo uma espessa massa de cabelo ruivo empapado de suor e dedicou a Fergus um enorme sorriso.
- Voce est no comando? - disse Jamie em frances - Vem comigo. Os demais ficam onde esto. - Vrios dos tripulantes o olhavam com assombro - No digas nada - acresceitou 
despreocupado.
- O que fazem? - sussurou Marsali ao meu ouvido. Plida de excitao, a caca de seu nariz ressaltava o contraste - Como ele chegou at aqui?
- No sei! Cala-te por Deus!
Jamie e Fergus caminharam at a margem falando em voz baixa. Por fim se separaram. Jamie ordenou aos soldados que desmontassem e se reunissem em torno dele; no 
pude ouvir o que diziam. Em troca, Fergus, que havia voltado junto ao casco, estava ao alcance de nossos ouvidos.
- So soldados do quartel Cabo Haitiano - anunciou aos tripulantes - O capito Alessandro - disse levantando as sombrancelhas em um odioso gesto para acentuar o 
nome - disse que nos ajudar a zarpar o Artemis.
O anncio foi recebido com algumas exclamaes de alegria evarios gestos desconcertados.
- Mas, como  que o senhor Fraser...? - comeou Royce, um marinheiro bastante escasso de entendimentos.
- Verdade que  uma casualidade? - lhe interrompeu Fergus em voz alta, rodeando os ombros com um brao para retorcer a orelha - Um grande sorte, por certo! O capito 
Alessandro diz que um homem, caminho de sua plantao, vioo barco tombado e informou aos quartis. Com tanta ajuda teremos o Artemis a navegar em muito pouco tempo. 
Vamos, vamos, mos a obra! Manzetti, nos martelos! Maitland...! - O marinheiro olhava a Jamie boquiaberto. Fergus lhe deu uma palmada no traseiro, com fora suficiente 
para faze-lo parar - Maitland, mon enfant! Canta algo para acelerar nossos esforos.
Os marinheiros voltaram aos andaimes dando olhadas desconfiadas por cima dos ombros. Fergus ia de um lado ao outro, rogando, dando tal espetculo que foram poucasas 
olhadas reveladroas desviadas at Jamie.Os martelos reiniciaram seus golpes vacilantes.
Enquanto isso, Jamie dava cautelosas diretrizes a seus soldados. Mais de um frances olhava cobiosos ao barco, como se no estivessem ajudando por generosidade. 
Sendo assim se puseram mos a obra de boa vontade. Tres deles montaram guarda, armados e atentos a cada movimento dos marinheiros. Jamie permanecia afastado, observando 
tudo.
- Saimos? - me perguntou Marsali ao ouvido.
- No - Eu no afastava os olhos de Jamie, que esperava erguido, a sombra da alta palmeira. Sua expresso era indecifrvel embaixo da estranha barba mas captei um 
leve movimento: os dois dedos esticados tamborilavam na coxa - No, ainda no terminou.
O trabalho continuou durante toda a tarde. Um monto de troncos cortados ia aumentando e deixava o ar com um cheiro de seiva fresca. Fergus j estava rouco e sua 
camisa se aderia ao torso delgado.Os marinheiros haviam parado de cantar e trabalhavam sem dar mais que uma olhada ocasional at a palmeira que dava sombra ao capito 
Alessandro.
Foi uma longa espera, que o assedio dos mosquitos fazia ainda mais dura. Notei que Jamie fez um sinal a um dos soldados e se aproximava das rvores.Depois de indicar 
a Marsali que me esperasse, me agachei embaixo das ramas, sem prestar ateno ao mato, e avancei como enlouquecida at o lugar onde o havia visto desaparecer. O 
encontrei amarrando a braguilha da cala. O ruido fez que voltasse bruscamente a cabea; seu grito fez que Arabella se levantasse entre os mortos, no mencionando 
o centinela que o aguardava.
 Me deitei para me esconder: um ruido de botas se aproximava de ns.
- C'est bien! -gritou Jamie um pouco nervoso - Ce n'est qu'un serpent!
O centinela falava um dialeto estrnho; parecia ter perguntado se a serpente era perigosa. Jamie respondeu que no e , sem vacilao, se lanou at a espessura.
- Claire! 0 Me estreitou contra seu peito e me sacudiu com fora pelos ombros - Maldita sejas! Achava que estavas morta! Como podes cometer a loucura de saltar no 
mar no meio da noite? No tens juzo?
- Solta-me! - sussurei - J disse para me soltar! Achas que no tenho crebro? E voce grandssimo idiota? Como te ocorreu me seguir-me?
- Como assim me ocorreu? s minha esposa, Deus bendito! Como no ia te seguir! Por que no me esperou? Por Deus, se a pegasse a tempo...
Traguei com alguma dificuldade meus prprios cometrios. Em mudana disse:
- Que dizbos ests fazendo aqui?
- Sou o capito - respondeu surgindo um sorriso - No tinhas te dado conta?
- O capito Alessandro, sim! O que pensas fazer?
Em vez de responder, me deu uma ltima sacudidace repartiu uma olhada fulminante entre minha pessoa e Marsali, que havia aparecido com sua cabea inquisitiva.
- No se movem daqui se no querem molar as madeiras.
Sem esperar resposta, girou para voltar a praia.
Marsali e eu trocamos uma olhada, interrompida um segundo depois por Jamie que havia reaparecido. Me segurou pelos braos para dar-me um beijo.
- Me esqueci: Te amo - disse me sacudindo outra vez - E me alegro de que no ests morta. Mas no o faas nunca mais!
Desapareceu. Marsali tinha os olhos surpresos.
- O que vamos fazer? - perguntou - E ele?
 -No sei. Temos que esperar.
A espera foi grande. Prximo ao entardecer, enquanto dormia enconstada no tronco de uma vore enorme, Marsali me apoiou uma mo em meu ombro.
- Esto lanando o barco! - sussurou excitada.
O sol estava se pondo: reluzia, enorme e alaranjado, sobre um mar que havia adquirido o tom prpuro do coral. Os homens eram silhuetas negras, to anonimas como 
os escravos dos frisos egpcios atados pelas sogas em suas enormes cargas.
Quando o casco se deslizou, vi um lampejo de cabelo ruivo: Jamie subia ao barco seguido por um de seus soldados. Os dois motanram guarda a bordo enquanto os tripulantes 
do Artemis remavam a chalupa e subiam pela escalera, junto com o resto dos soldados franceses.
Quando o ltimo homem abandonou a escalera, os remadores olharam tensos para cima. No aconteceu nada.
- O que fazem? - me perguntou Marsali exasperada.
Como resposta, do Artemis se ouviu um grito furioso. Os homens que permaneciam nos botes se levantaram imediatamente prontos para subir a bordo. Mas no se produziu 
nunhum outro sinal. O Artemis flutuava serenamente nas guas da enseada.
- Eu estou farta - decidi - Estes condenados j fizeram o que queriam, seja l o que for. Vamos.
Tomei uma baforada de ar fresco do anoitecer e sai seguida por Marsali. No momento em que chegamos a praia, uma figura escura e delgada se soltou pelo flanco do 
barco e correu pela baixada.
- Mo chridhe chrie! - Fergus corria at ns. Se apoderou de Marsali para levant-la no ar - Ns fizemos! Ns fizemos sem disparar uma s bala! Esto todos amarrados 
como gansos e apertados como arenques na bodega!
Depoisd e beijar energicamente a moa, a deixou na areia e se voltou at mim com um ceremoniosa reverencia.
- Milady!, o capito do Artemis solicita a honra de vossa presena em sua mesa na hora do jantar.
O novo capito do Artemis estava no meio de sua cabine, completamente n e coando os testculos com os olhos fechados e expresso de felicidade.
- En... - sussurrei ante aquele cena.
Abriu os olhos, radiantes de alegria. Num instante me encontrava envolta em seu abrao, com o rosto apertado contra os cachos dourados de seu torso.
Me soltei dando um passo para trs.
- Deveria se vestir - sugeri - No  que eu no desfrute o espetculo, mas... - Acabei me ruborizando - E...acho que esta gostei de sua barba.
- A mim no - disse sem rodeios. - Estou cheio de piolhos e picam como todos os diabos.
- Aaah!
Sorriu. Seus dentes brancos ressaltavam a barba ruiva.
- No se preocupe, Sassenach. Eu mandei trazer uma navalha e gua quente.
- De verdade?  uma pena que v tirar to rpido. - Apesar dos piolhos, me aproximei para inspecionar a barba - Que engraado. Na cabea no tens branc, mas aqui 
sim.
-  mesmo? O que me estraanha  no ter enbranquecido totalmente com tudo o que me tem passado este mes. E falando disso, Sassenach, como te dizia entre as rvores...
- Falando disso, sim - o interrompi - Que diabos fizes-te?
- Te referesaos soldados? - Coou o queixo pensativo - Bem, foi simples. Lhe disse que quando o barco estivesse a flutuar, reuniramos a todos na coberta e, a um 
sinal meu, cairamos sobre a tripulao para tranc-los na bodega - sorriu - Somente Fergus havia posto a tripulao sobreaviso. A medida que os soldados iam chegando 
a bordo, dois dos marinheiros o seguraram pelos braos e um terceiro se encarregava de amordaa-los e tirou as armas. Foram levados todos a bodega. E isso  tudo 
- se encolheu de ombros com modesta desenvoltura.
- E quanto o como chegas-te aqui...
Nos interrompeu uma discreta chamada na porta.
- Senhor Fraser? ...capito? - O rosto anguloso e juvenil de Maitland apareceu por cima de uma tigela fumegante. - O senhor Murphy j tem o fogo aceso e manda gua 
quente com suas saudaes.
- Me chame de Senhor Fraser est bem? - disse Jamie pegando a bandeja com a tigela e a navalha - No h ningum menos digno de chamar-se capito - Fez uma pausa, 
atento ao ruido de pisadas. - mas sou capito, no fim das contas. Isso significa que devo ordenar quando estamos no mar e quando quiser parar-nos.
- Sim, senhor, essa  uma das coisas que fazem os capites - afirmou o marinheiro - E tambm indicam quando se devem repartir racionando adicionais de comida e bebida.
- Compreendo. Diga-me, Maitland:Quanto pode beber um marinheiro sem perder sua capacidade oerativa?
- Oh, bastante, senhor - assegurou o moo pensativo - Talvez...uma poro adicional dobrado para todo mundo?
Jamie levantou uma sombrancelha.
- De conhaque?
- Oh, no senhor! - O marinheiro parecia escandalizado - De alimento. De conhaque, somente meia quantidade extra, seno iram rodar pela letrina.
- Assim: dobrem a poro de alimento - Jamie se inclinou ceremoniosamente at o marinheiro, sem se importar pelo fato de estar completamente desnudo. - E que o barco 
no levante ancora at que eu termine de jantar.
- Sim senhor! -Maitland lhe devolveu a reverencia; os modos de Jamie eram contagiosos - Devo dizer ao chines que os atenda quando levantarmos ancora? 
- Adiante, senhor Maitland. Muito obrigado.
O rapaz deu uma ltima olhada de admirao as cicatrizes de seu capito e se voltou para sai, mas se deteve.
- Algo mais, Maitland.
- Sim, senhora?
- Queres descer a cozinha e pedir para o senhor Murphy que me envie uma garrafa de vinagre a mais forte? Depois averigua onde colocaram minhas medicinas e traga-me 
tambm.
Desconcertado, o rapaz assentiu:
- Oh, sim senhora. De imediato.
- Que pensas fazer com o vinagre, Sassenach? -Jamie me observava com os olhos entornados.
- Te encher dele para matar os piolhos. No penso dormir com uma horda de parasitas.
Coou o pescoo pensativo.
- Ah, isso significa que pensas dormir comigo, no?
- No sei exatamente onde, mas isso eu penso - assegurei - E gostaria que no tirasse ainda a barba.
- Por que no? - Me deu uma olhada curiosa por cim do ombro.
Senti que me acendiam as bochechas.
- Es que...bem, ...diferente.
- Ah ? - Deu um passo at mim. Seus olhos azuis escuror se tinham enviesado divertidos. Em que sentido?
- Bem, ...hum...- Me rocei com os dedos nas ardosas bochechas -  diferente quando me beijas. Na ...pele.
Cravou seus olhos nos meus. No tinha se movido mas parecia estar muito mais prximo.
- Bom,  uma pena no usar a gua quente. A devolvo a Murphy para que faa sopa ou eu a bebo?
Me deitei a rir. A tenso se dissolveu de imediato.
- Usa para lavar-te. Cheirando a bordel.
Algum tossiu na soleira da porta.
- Oh, perdoname, senhor Willoughby -se desculpou Jamie. - No te esperava to rpido. No prefere primeiro jantar? E aproveitando, leva estas coisas a Murphy para 
que queime na cozinha.
Botou ao senhor Willoughby os restos de seu uniforme e comeou a revolver a arca em busca de roupa limpa.
- No esperava voltar a ver Lawrence Stern - comentou - Como veio parar aqui?
Lhe contei meu encontro com Stern no mangal.
- ...E me levou a casa do padre. - me interrompi ante um sbito recordo - Ah, eu me esqueci! Deves a este padre duas libras esterlinas pela Arabella.
- Eu? - Jamie me olhou sobressaltado, com uma camisa na mo.
- Sim. Ser melhor que envies a Lawrence como embaixador. Parece se dar bem com ele.
- De acrodo. O que aconteceu come ssa tal Arabella? Foi ultrajada por algum tripulante?
- Pode se dizer que sim. - Tomei cuidado para explicar, mas antes de que pudesse falar deram outro golpe na porta.
- No vo deixar que me vista em paz? - protestou Jamie irritado - Entre!
A porta se abriu devagar, revelando a presena de Marsali, que pestanejou ao ver a nudez de seu padrasto.Jamie se apressou a cobrir-se com a camisa que tinha nas 
mos e a saudou com a cabea.
- Marsali, filha, me alegro de que ests bem. Necessitas algo?
- Necessito que cumpras a promessa - disse ela.
- Qual? - Jamie parecia desconfiar.
- A de casar-me com Fergus quando chegamos nas Antilhas - Apareceu uam pequena ruga entre as sombrancelhas ruivas - La Espaola est nas Antilhas, no?
- Em efeito. E suponho que sim...bem, est certo, eu prometi. Mas...realmente tem certeza? Os dois?
- Estamos certos.
- Onde est Fergus?
- Ajudando a colocar a carga. Preferi dizer antes de que zarpssemos.
- Bom. - Jamie deu um suspiro de resignao - Mas tambm disse que devias receber a beno de um padre. O padre mais prximo est em Bayamo, a tres das de viagem. 
Talvez na Jamaica...
- Se esquece de algo! - exclamou Marsali triunfal.- Temos um sacerdote aqui mesmo. O padre Fogden.
- Mas partiremos pela manh!
- No demorar tanto - alegou ela - Depois de tudo, so somente algumas palavras. J estamos legalmente casados. Bastar a beno da igreja, no? - Apoiou uma mo 
no abdomen, onde, presumivelmente, guardava o contrato matrimonial, abaixou o corpete.
- Mas tua me...
Jamie me deu uma olhada indefesa, buscando reforos. Me encolhi os ombros com a mesma impotencia.
- No creio que aceite - objetou Jamie com ar de alivio - A tripulao molestou uma de suas paroquianas, chamada Arabella. Temo que no queira fazer nada por ns.
- Far por mim! Ele gostou de mim!
Quase bailava de entusiasmo. Jamie estudou sua expresso. Era to jovem...
- Ests segura disso, filha? - peguntou no fim com muita suavidade.
Ela respirou fundo.
-Sim, papai! Quero Fergus! O amo!
Jamie vacilou. Por fim passou uma mo pelo cabelo.
- De acordo. Enva-me ao senhor Stern. Logo me traga Fergus e diz que se prepare.
- Oh, obrigada, papai, obrigada!
Marsali se lanou sobre ele para dar-lhe um beijo. Jamie a apertou com um brao, sem soltar a camisa com que se cobria e a beijou na testa.
- Tem cuidado - advertiu empurrando-a com suavidade - No quero que chegues ao leito nupcial coberta de piolhos.
- Oh! - Como se recordasse algo se voltou at mim, ruborizada - Claire, poderias me emprestar...um pouco desse sabo especial que preparas com camomila?
Sim...sim temos tempo- disse dando uma olhada a seu padastro - eu gostaria de lavar a cabea.
- Claro - respondi sorridente.- Vem. Te ajudarei ficar bonita.
Dei uma olhada nela, desde a cara redonda e brilhante at os sujos ps descalos.
Logo me voltei at Jamie.
- Necessita um bom vestido para a cerimonia.
- Sassenach - protestei - no temos...
- Ns no, mas o padre sim - interrompi - Lawrence pode pedir ao padre Fogden que nos empreste um de seus vestidos. Quer dizer, um dos vestidos de Ermenegilda. Creio 
que so de seu tamanho.
Jamie ficou atnito pela surpresa.
- Ermenegilda? Arabella? Vestidos? - Me olhou com os olhos semicerrados - Que tipo de padre  esse, Sassenach?
- Bem, bebe um pouco - reconheci da porta - E est muito afeioado com suas ovelhas. Mas ainda deve de se recordar como  um casamento.
Foi uma dos casamentos mais estranhos que eu havia assistido. Quando tudo estava pronto, o sol j tinha se ocultado por atrs do mar. Para chatear o senhor Warren, 
o segundo oficial, Jamie declarou que no partiramos at o dia seguinte, para conceder aos recm casados uma noite de intimidade em terra.
- A mim no me ocorreria consumar um matrimonio em uma dessas maditas liteiras - me disse em particular - Se copulam pela primeira vez ali, jamais poderemos desun-los. 
E desflorar uma moa em uma cama...
- Certo - disse sorrindo para mim mesma enquanto derramava mais vinagre em sua cabea - Muita considerao de tua parte.
Agora o tinha ao meu lado, na praia, onde brilhava muito digno e charmoso com seu casco azul, sua cala de sarja cinza e os cabelos amarrados atrs com uma fita.
Murphy e Maitland, as testemunhas, eram menos impressionantes, mesmo o cozinheiro ter lavado as mos e o marinheiro a cara. Fergus tinha preferido Lawrence Stern 
e Marsali a mim, mas afastamos a idia; em primeiro lugar, Stern no era catlico, nem sequer cristo. E mesmo que eu no tivesse problemas com a religio, era provvel 
que Laoghaire ficasse muito mal.
- Eu disse a Marsali que devo escrever a sua me para anunciar o casamento - me sussurou Jmaie enquanto observvamos os preparativos - Mas acho que no devia dar 
mais detalhes.
Me pareceu muito razovel.
No sei qual foi o milagroso argumento atuado por Lawrence, mas ali estava o padre Fogden,frgil e inspido como um fantasma, com as fascas azuis dos olhos como 
nico sinal de vida. Sua pele estava to cinza como a batina e sustentava o livro de oraes com as mos trmulas. Cambaleando entre as tochas tentava, dificultado 
pelo vento, voltar as pginas do livro. Por fim, vencido, o deixou cair na areia.
- Hum! - disse. E arrotou. R desfilou entre ns com um sorriso de satisfao.- Mamados filhos de Deus...
Passaram vrios segundos at que o grupo de espectadores se deu conta de que j havia comeadp a cerimonia.
- Aceitas a esta mulher? - perguntou o oadre Fogden, voltando sbutamente at Murphy uma olhada feroz.
- No! - protestou o cozinheiro, sobressaltado - No gosto das mulheres. Bichos sujos.
- No? - O padre Fogden fechou um olho. Olhou a Maitland - Aceita voce esta mulher?
- No, senhor, eu no. Mesmo sendo um prazer, claro - disse rapidamente o rapaz - Ele, por favor - Apontava a Fergus, que estava lanando olhares assassinos ao sacerdote.
- Est certo? Maste falta uma mo! - observou o padre Fogden, em dvida - A moa no se importa?
- No me importo! - assegurou Marsali imperiosa. Brilhava com um dos vestido de de Ermenegilda, de seda azul e bordado com fios de ouro ao redor do decote. Mesmo 
aborrecida, estava preciosa. Seu cabelo limpo e bem escovado brilhava como uma palha fresca - Continua!
- Oh, sim - disse nervoso, dando um passo para trs. - Bem, suponho que isso no  imped...impedi...impedimento, apesar de tudo; se houvesse perdido o pnis, digo...Voce 
o tem, no? - perguntou com ar preocupado - Se no, no posso cas-los. No se  permitido.
Para sufocar o iniciante alvoroo, Jamie ficou atrs de Fergus e Masali e apoiou as mos em seus ombros.
- Este homem e esta mulher - disse sinalizando - Case-os, padre. Agora mesmo, por favor.
Retrocedeu um passo, restaurando a ordem entre o pblico com uma cenhuda olhada.
- Oh, bem,bem - O padre Fogden oscilou um pouco - Sim, bem, bem.
Seguiu uma larga pausa, durante a qual o sacerdote olhou de relance a Marsali.
- Teu nome - disse bruscamente - Faz falta um nome. No posso casar quem no tem um nome, assim como no posso casar a quem no tem pi...
- Marsali Jane MacKimmie Joyce! - disse em voz bem alta.
- Sim,sim, claro. Marsali. Mar-sa-li.  isso. Mar-sa-li, aceitas a este homem mesmo faltando uma mo e talvez outras partes que no esto a vista, como seu legtimo 
esposo? Para am-lo e obedece-lo, desde agora at para sempre, com excluso de...
Nesse ponto ele se perdeu, desviando a ateno at uma das ovelhas, que se havia aprosimado a luz e mastigava aplicadamente uma meia de l.
- Aceito!
O padre Fogden recuperou a ateno. Depois de um infrutuoso intento de sufocar outro arroto, transferiu seus olhos azuis a Fergus.
- Voce tambm tens nome? E penis?
- Sim - respondeu Fergu; teve a prudencia de no dizer detalhes - Fergus.
O padre franziu levemente o semblante.
- Fergus? Fergus, Fergus. Sim, Fergus, isso est entendido. No h mais? Necessito mais nomes, claro.
- Fergus -repitiu em francs com a voz tensa. 
Seu nome era Claudel mas Jamie o havia dado o nome de Fergus ao conhece-lo, vinte anos atrs. Era natural que um bastardo, nascido em um bordel, no tivesse sobrenome 
para brindar a sua esposa.
- Fraser - disse uma voz grave e segura.
Os noivos se voltaram, supreendido. Jamie assentiu com a cabea, olhando ao jovem com um leve sorriso.
-Fergus Claudel Fraser - pronunciou com lentitude e clareza.
Fergus pareceu se transficurar.
- Fraser - confirmou ao sacerdote com a voz rouca. Pigarreou - Me chamo Fergus Claudel Fraser.
Uma breve cotovelada nas costas, aplicado por Maitland,devolveu o padre a noo de sua responsabilidade.
- Ah! Hum, bem. Marido e mulher.  isso. Os declaro marido e...No, no est certo. No me disse se a aceitas. A moa tem ambas as mox - disse para ajudar.
- Aceito - afirmou Fergus.
Afundou a mo no bolso para tirar um pequeno anel de ouro. Provavelmente tinha comprado na Esccia e o guardava at ento, para no consumar o matrimonio antes de 
ter recebido a beno...no de um sacerdote, sim de Jamie.
Estava feito. Marsali levantou o rosto radiantes e encotnrou seu espelho nos olhos de Fergus. Senti o ardor das lgrimas detrs das plpebras.<<Te amo>> Eu no sei 
o que tinha dito a Jamie em nosso casamento; at ento eu no o queria. Mas no tempo transcorrido sei que havia dito tres vezes: duas em Craigh na Dun e uma vez 
mais em Lallybroch.
<<Te amo>> Ainda o amava e nada poderia intepor entre ns dois. Ele estava me olhando; senti o peso de seus olhos azuis, escuros e ternos como o mar ao amanhecer.
- Em que ests pensando, mo duinne? - perguntou com doura.
Pestanejei para afastar as lgrimas, sorrindo. Suas mos eram grandes e clidas nas minhas.
- O que te disse tres vezes  verdade.
E me coloquei na ponta dos ps para dar-lhe um beijo, enquanto os marinheiros estavam em festa.




















NONA PARTE

MUNDOS DESCONHECIDOS

CAPTULO 53

FERTILIZANTES DE MORCGOS











o fertilizantes fresco de morcgos  uma substncia viscosa de cor verde escura que uma vez seca se converte em poeira parda.Em ambos estados emite um cheiro a almsca, 
amonaco e apodrecido que enche os olhos de lgrimas.
- Quanta desta porcaria ns vamos ter que levar? - perguntei atravs do leno com o qual me cubria a boca e o nariz.
- Dez toneladas - respondeu Jamie com a voz sufocada.
Estvamos na coberta superior vigiando os escravos que levavam os carrinhos de mo carregados com a escotilha aberta da bodega.
- Sabes como se passa algum pela quilha, Sassenach?        
- No, mas se ests pensando em Fergus te ajudarei a averiguar. A que distancia fica Jamaica?
- Tres ou quatro dias de navegao, segundo Warren - disse com um suspiro - se o tempo se manter assim.
Fergus havia obtido para o Artemis aquele primeiro contrato: uma carga de dez toneladas cbicas de fertilizante, de Barbados a Jamica, para ser utilizado como fertilizante 
na plantaod e aucar de um tal senhor Grey.
Fergus estava supervisionando pessoalmente a operao, o esterco seco se enchia em enormes blocos que se transportavam em carrinhos at a bodega, onde se colocam 
a mo um por um.
Marsali, que nunca se afastava de seu lado,estava no castelo da proa; ali estava sentada em um barril de laranjas, com o rosto envolto de um belo xale que seu marido 
lhe havia comprado no mercado.
- Se supe que somos um barco mercante, no? - Havia argumentado com Fergus - Temos uma bodega vazia que cheia monsieur Grey nos pagar generosamente.
- Pode ser que o cheiro se dissipe no mar - disse.
- Oh, sim, Milady - me assegurou Fergus ao ouvrme - Me disse o proprietrio que o cheiro diminui uma vez que se retira o material seco das cavernas onde se armazenam.
Subiu como um macaco pela cordagem para atar o leno vermelho que chamava a bordo a tripulao.
- Fergus parece muito interresado nesta carga - comentei.
- Participa como scio - explicou Jamie - Lhe disse que tinha uma esposa que manter e devia buscar a maneira de faze-lo. Como passar algum tempo antes de voltar 
a trabalhar na impressa, ter que se dedicar nisso no momento.
- Reconheo que eu gostaria de ler a carta que Marsali escreveu a sua me. Primeiro, sobre Fergus; logo o padre Fogden e Mamacita e, agora, dez toneladas de merda 
como dote.
- Quando Laoghaire souber no poderei voltar a Esccia - disse com um sorriso - J pesnou o que vai fazer com sua nova aquisio.
- No me lembro - disse - Onde est?
- Embaixo - Jamie se distraiu observando um homem que se aproximava pelo cais - Murphy lhe tinha dado de comer e Innes o estava procurando no alojamento. Minhas 
desculpas Sassenach, acho que me procuram.  
Saudou a um colono alto de cara vermelha e avezada, com ar de prosperidade. Sua presena devia de ser resultado da visita que Jamie havia feito a loja manica de 
Bridgetown para perguntar pelo jovem Ian e pedir informao sobre A Bruxa. O grande mestre havia prometido divulgar a notcia entre os franco-maons que frequentavam 
o mercado de escravos e do cais.
O observei com ateno. O rosto de Jamie expressava interesse, mas no exaltava nenhuma decepo.
Talvez no houve nenhuma notcia de Ian. Depois de ter visto o mercado de escravos no dia anterior, desejava que assim fosse.
Lawrence, Fergus, Marsali e eu havamos ido ao mercado de escravos, estreitamente vigiados por Murphy, enquanto Jamie visitava o Grande Mestre da loja. O irlandes, 
com sua paixo pela ordem e honra, insistiu que as mulheres levassem sombrinhas.
- Todas as mulheres brancas de Bridgetown usam sombrinhas - disse com firmeza enquanto me dava uma.
- No preciso - disse impaciente.
Murphy me olhou escandalizado.
- Querem que pense ser uma mulher pouco respeitvel, que no cuida de sua fina tez?
- No penso viver aqui - disse spera No me importa o que pensam.
- Mas vai...deix-los...ruborizados! - protestou o cozinheiro tratando de abrir uma sombrinha.
- Oh, um destino pior que a morte, sem dvida! - lhe espetei. Tinha os nervos ao extremo ante os acontecimentos que nos esperava. - Bem, me d esse traste!
Pouco depois havia podido dar as graas por sua intransigncia. Mesmo com o caminho rodeado pelas altas palmeiras, o mercado de escravos era um amplo espao sem 
sombra, exceto pelas produzidas e desconjuntadas tendas com tetos de chapas ou de folhas de palmeiras nas quais os traficantes e leiloeiros se refugiavam ocasionalmente 
do sol. Se podia ver grande quantidade de corpos quase ns pertencentes a todas as raas. O fedor era espantoso, ainda estando acostumada com a fetidez de Edimburgo 
e com a peste de Marsopa.
- Jesus - murmurou Fergus ao meu lado, desviando o olhar. - Isto  pior que os tugurios de Montmartre.
Marsali, sem dizer uma palavra, se aproximou franzindo o nariz.
Lawrence se mostrava o mais desembaraado; provavelmente no era a primeira vez que vinha a um mercado de escravos.
- Os brancos esto no final - disse sinalizando ao lado oposto da praa - Venham; perguntaremos se venderam homens jovens nos ltimos dias.
Uma negra anciana, em ccoras, alimentava com carvo um pequeno braseiro. Um grupo de pessoas se aproximou dela: era a chefe de uma plantao acompanhado por dois 
negros servidores sujos, vestidos com toscas calas e camisas de algodo. Um deles segurava pelo brao uma escrava recem adquirida. Por uma moeda, a anci lhe ofereceu 
vrias barras de ferro que tinha atrs de s; escolheu dois e a entregou um dos servidores. ESte afundou as pontas do braseiro enquanto  o outro imobilizava a moa 
pelos braos. Uma vez quentes, retirou os ferros do fogo e pressionou na curva do  seio direito da jovem; seu grito sonou como uma sirene. Ao retira-los ficaram 
marcadas as letras HB.
Fiquei parada enquanto os outros continuavam sem notar que no estava com eles. Dei a volta estremecida; atrs de mim se ouviam gritos e gemidos mas no quis olhar.Me 
bloqueava o passo um grupo de pessoas que escutava um leiloador enumerando as virtudes de um escravo manco, exibindo sua nudez sobre a plataforma.
- No serve para trabalhar no campo mas  um bom investimento para cria.
- Oferece garantia de virilidade? - perguntou,incrdulo, um homem que estava atrs de mim.
O leiolador fingiu ofender-se pelas risadas do pblico.
- Garantia? - repitiu - Veja com seus prprios olhos, homens de pouca f!
Inclinando-se at o escravo, comeou a massagear vigorosamente o penis. O homem lanou um grusnido de surpresa e tratou de se afastar mas um assistente o impediu 
segurando-o com firmeza pelo nico brao. Rpido, algo se revirou dentro de mim.
- Basta! - disse numa voz que no reconheci como minha.
O leiloador levantou os olhos sobressaltado, dedicando-me um sorriso conquistador. Me olhou diretamente nos olhos com um gesto obsceno.
- Bom exemplar para cria, senhora. Garantiod, como podes ver.
Fechei a sombrinha; depois lhe golpeei na cabea, deixei cair minha arma e lhe assentei um bom ponta p.
Sabia que no serviria de nada, que somente tinha feito piorar as coisas, mas no podia deixar passar aquilo sem dizer nada. No o fazia pela jovem marcada, nem 
pelo homem da plataforma: o fazia por mim mesma.
Se iniciou um barulho que me afastou do leiloador, o qual, recobrado pela surpresa e tratou de me dirigir um sorriso, desfechou uam enrgica bofetada no escravo.
Olhei ao meu redor buscando reforos e v Fergus que abria passo entrea a multido com a cara contrada pela ira. Se ouviu um grito e vrios homens se voltaram naquela 
direo; as pessoas comeavam a se empurrar e algum me tirou sobre os ladrilhos de pedra. Fiquei ali, confusa, j no me sentia alheia a situao seno descomposta 
e aterrorizada; acabava de cometer uma tolice que provavelmente faria Fergus, , Lawrence e Murphy receberem uma boa sova ou algo pior.
No mesmo momento apareceu Jamie.
- Levanta-se, Sassenach - disse em voz baixa inclinando-se para me oferecer as mos.
Consegui fazer mesmo me tremendo as pernas. Vi o largo bigode de Raeburn a um lado e a MacLeod atrs; vinha acompanhado por seus escoceses. Me afrouxou os joelhos 
mas Jamie me sustentou.
- Faa algo - disse com voz afogada - Por favor, faa algo.
E ele fez. O nico que podia sufocar o distrbio e evitar danos maiores: comprou o manco. Como ironico resultado de meu pequeno arrebato de sensibilidade, era a 
horrorizada proprietria de um autentico escravo macho de Guinea, manco mas em excelente estado de sade e com garantia de virilidade, conhecido pelo nome de Temeraire. 
O temerrio. Nos papis no sugeriam que demonios poderia fazer com ele.
Jamie tinha terminado de revisar os papis que o colono lhe haviam trazido. Pelo que eu vi da grade eram iguais aos que me haviam sido entegues pelo Temeraire.Os 
devolveu com uma reverencia de agradecimento. Parecia preocupado.
- Esto todos a bordo? - perguntou ao subir pela prancha.
- Sim, enhor - assegurou o senhor Warren- Iamos as velas?
- Sim, por favor - Com um pqueno comprimento, Jamie o deixou para se aproximar de mim.Sua expresso era serena mas percebi um profundo aborrecimento.No sabia o 
que dizer e lhe estreitei a mo que havia apoiado a grade.
- Bem, ao menos eu descobri algo. Esse homem era um tal Villiers, dono de uma grande plantao de aucar. H tres dias comprou seis escravos do capito do Bruxa. 
Nenhum deles eram Ian.
- Tres dias? - exclamei sobressaltada - Mas o Bruxa zarpou da La Espaola a mais de duas semanas!
Assentiu, frotando a bochecha.
- Em efeito. E chegou aqui h cinco dias.
- Ou seja que esteve em outro porto antes de vir a Barbados. Sabes onde?
Sacudiu a cabea.
-Villiers no sabia. Disse que falou rpido com o capito do Bruxa e que se mostrava muito reservado sobre o que havia estado fazendo e onde. No lhe chamou a ateno, 
pois o barco tem m fama. - sua expresso se animou um pouco - Me mostraram os papis dos escravos que comprou. J foi ver o seu?
- No gosto que me digas isso - disse - Os que te mostrou eram iguais?
- No todos. Tres dos documentos no mencionava ao proprietrio anterior. Villiers disse que nenhum provinha diretamente da Africa j que todos falavam um pouco 
de ingles. Um constava o proprietrio anterior mas seu nome havia sido borrado e no pde ler. os outros dois haviam pertencido a uma tal senhora Abernathy, de Rose 
Hall, Jamaica.
- Jamaica? - A que distncia...?
- No sei - me interrompeu - Mas perguntaremos ao senhor Warren. En todo caso, acho que agora devemos ir a Jamaica, mesmo que seja para somente nos desfazer desta 
carga antes de que o cheiro nos mate.
Enrrugou o largo nariz.
- Quando fazes isso se parecer com um atrevido tamandu - disse rindo.
A inteno de distra-lo teve exito. Se reclinou sorrindo na grade. Queria dizer algo a mais mas a tosse o impediu.
- Por Deus, o que  isso?
O Artemis tinha se separado do cais para cruzar o porto. Ao virar o vento nos trouxe um odor intenso e desagradvel ao perceber mortos, madeira mida, pescado, algas 
podres e vegetao tropical. Cobri a boca e o nariz com um leno.
- Estamos passando antes a fogueira que houve no mercado de escravos - explicou Maitland ao ouvir minha pergunta. Sinalizava a costa, odne uma fumaa branca se elevava 
atrs do matagal - Ali queimam os cadveres dos escravos que no sobreviveram a viagem desde a Africa.
Olhei a Jamie e em seu rosto encontrei o mesmo medo que devia refletir na minha.
- Com quanta frequencia queimam os cadveres? - perguntei - Todos os dias?
- No sei, senhora, mas no creio. Talvez uma vez por semana. - Encolhendo os ombros Maitland voltou a suas tarefas.
- Temos que ir - disse.
Jamie estava muito plido. Logo apertou os lbios - Sim - foi quando disse. E ordenou ao senhor Warren que virasse at ao porto.
Se encontrava ao cuidado da fogueira um homenzinho de cor e acento irreconhecvel, no qual gritou ante a idea de que uma senhora entrara ali. Jamie o afastou bruscamente 
com uma cotovelada.
Era um pequeno barranco, com rvores fazendo o toldo, que se chegava facilmente a um pequeno porto projetado at o rio. Entre o verde brilhante das samambaias que 
se empilhavam aos barris de resinas e com monetes de lenha seca. A direita haviam formado uma pira imensa, com uma plataforma de madeira carregada de corpos impregnados 
de resina.
Jamie saltou a plataforma e, sem se preocupar com a fumaa e as fascas, foi desprendendo os cadveres e movendo com gesto cenhudo aqueles tristes restos.
- Para uam boa colheita - O homemzinho manchado de fuligem me estava oferecendo informao com evidentes esperanas de receber uma recompensa. Sinalizava as cinzas 
- Faz crescer semeado.
- No, obrigada - disse debilmente.
A fumaa escureceu a silhueta de Jamie; tive a horrvel sensao de que havia cado na pira e ardia com ela. O espantoso odor a carne assada se elevou no ar.
- Jamie! -chamei- Jamie!
No respondeu, mas do fogo surgiu uma to profunda e espasmdica. Minutos depois saiu dando tumbos e sufocado, partindo o vu de fumaa. Desceu da plataforma e, 
dobrando-se, tossiu at quase cuspir os pulmes. Vinha coberto de fuligem oleoso, com as mos e a roupa manchados de resina.
As lgrimas lhe corriam pelas bochechas, abrindo sulcos na fuligem.
Dei vrias moedas ao guardio da fogueira e, pegando o brao de um Jamie cegado e convulso, o conduzi fora daquele vale da morte. Uma vez descendo nas palmeiras 
se colocou em joelhos e vomitou.
- No me toques - Ofegou quando tratei de ajud-lo. Vomitou varias vezes mais. Por fim se levantou com lentitude. - No me toques.
Caminhou at a margem do cais e, tratou de tirar o casaco e os sapatos, se mergulhou vestido na gua. Quando saiu se sentou com a cebea nos joelhos e respirou com 
fora.
Me inclinei para apoiar um mo em seu ombro. Ele a segurou sem levantar a cabea.
- No estava - disse com voz rouca.

CAPTULO 54
O PIRATA IMPETUOSO

- No poso ser dona de uma pessoa, Jamie - negando olhando com horror os documentos espalhados na luz da lamparina - No posso. No  certo.
- Eu sei, Sassenach. Mas o que vamos fazer com esse homem? - Jamie se sentou ao meu lado da liteira - O mais correto era deix-lo em liberdade, mas o que ser dele? 
No conhece mais que algumas palavras em ingles e frances e no tem oficio; mesmo que dssemos um pouco de dinheiro, poderia manter-se sozinho?
- No sei - reconheci - Lawrence me disse que em La Espaola tem muitos negros livres.
Sacudiu a cabea alargando a mo at um pozinho.
- No creio.  certo que alguns negros livres podem ganhar a vida, mas so costureiras, pescadores ou algo assim. Temeraire trabalhou cortando cana at que perdeu 
o brao e no sabe fazer outra coisa.
Havia sido capturado na costa de Guinea cinco anos atrs. Meu impulso inical, era devolve-lo a sua terra, era obviamente impossivel: manco, ignorante e obrigado 
a viajar sozinho, no demoraria em voltar a ser capturado como escravo.
- Suponho que no queres vende-lo. - Jamie fez a questo com delicadeza - Poderiamos procurar algum que o tratasse bem.
- No seria melhor que te-lo conosco - protestei - Pior ainda, porque no sabamos com certeza que sorte correia com seus novos proprietrios.
- Sim,  verdade - suspirou Jamie - Mas h bondade alguma em libert-lo para que passe fome.
Jamie se levantou da liteira para se espreguiar.
- No se preocupe , Sassenach. Falarei com o administrador da plantao de Jared. Talvez eu possa achar algum emprego ou...
O interrompeu um grito de advertencia:
- Barco a vista! Esto armados! Dispara do bombordo! - anunciou desesperadamente o vigia.
- Por Deus, o que...? - Um estrondo terrvel afogou as palavras de Jamie. Caiu para o lado e minha banqueta se tombou me atirando ao cho.
- Sassenach! Ests bem?        
- Sim - disse embaixo da mesa - E voce? O que aconteceu? Esto nos atacando?
Sem responder, Jamie saltou at a porta. Da coberta chegava uma desordem de gritos e golpes secos, enfatizadas pelos sbitos estouros das armas.
- Piratas - disse brevemente - Nos abordaram. procura a Marsali e desci a bodega da popa, onde esto os blocos de fertilizante. Se escondem atrs deles e no se 
movem dali.
Me detive para pegar algum instrumento de medicina; talvez fosse de pouca utilidade contra os piratas mas me sentia melhor com alguma arma na mo.
- Claire? - Era a voz, aguda de medo, de Marsali.
- Estou aqui. - Lhe dei um abre cartas com cabo de marfim - Toma isto, por se acaso precisa. Vamos descer.
A bodega estava escura como um breu. Avanamos com lentitude at a parte do fundo, tossindo pelo p e vapores do fertilizante.
- Quem so? - perguntou com voz sufocda - Piratas?
- Acho que sim. Vem se sentar. S podemos esperar.
Sabia por experiencia que esperar enquanto os homens combatiam era uma das coisas mais difceis da vida; neste caso no havia outra alternativa.
- Oh, Deus, meu Fergus - sussurou Marsali escutando os ruidos - Slva-o, Virgem Bendita!
Pensando em Jamie, me uni em silencio a sua orao. Ao fazer o sinal da cruz na escurido me toquei no ponto da testa onde me havia beijado minutos antes; no quis 
pensar que podia ser seu ltimo beijo.
No mesmo momento se ouviu uma exploso que fez vibrar as madeiras sobre as quais estavamos sentadas.
- Esto virando o barco! - Marsali se levantou de um salto,cheia de pnico. - Vo nos afundar! Temos que sair ou nos afogaremos!
- Espera! - lhe disse. - So somente os canhonao.
Mas ela j no escutava. Avanava, cega pelo medo e gemendo, entre os blocos de fertilizantes.
- Volta aqui, Marsali!
Uma terceira vibrao encheu o ar de poeira. Me limpei os olhos com a manga. No eram imagina~eos minhas: Havia luz na bodega, um leve resplandor iluminava a borda 
do bloco mais prximo.
- Marsali? - Onde ests?
A resposta foi um grito aterrorizado. Rodeei precipitadamente o bloco e sai ao espao aberto junto a  escalera. Ali estava Marsali, nas garras de um homem meio desnudo.
Estava muito gordo; suas capas de graxa bamboleante estvam decoradas com grande diversidade de tatuagens; um colar de moedas e botes lhe rodeava o pescoo. Marsali 
lhe deu uma bofetada sem deixar de gritar e o homem afastou a cara impaciente. O verme dilatou os olhos, com um horrvel sorriso.
- Sultala! -ordenei em castelhano- Basta, cabrn!
Era todo o espanhol que eu dominava. Lhe pareceu divertido, pois alargou o sorriso e se voltou at mim soltando a Marsali. Lhe tirei um de meus escalpelos que quicou 
em sua cabea, lhe fiz agachar-se e Marsali pode esquiv-lo e saltou at a escalera. O pirata duvidou entre ns duas mas no fim optou por ela. Subindo varios degraus 
com uma agilidade imprpria de seu peso, agarrou a Marsali por um p quando j aparecia pela escotilha. A menina de um grito.
Maldizendo embaixo, corri at o p da escalera, estendi o brao e lhe cravei no p a faca de cabo largo que usava para as amputaes.O pirata deu um grito agudo.Espirrando 
sangue em direo a minha cara passando por cima de minha cabea. Fui para trs olhando instintivamente para baixo em busca do que havia cado. Era o dedo pequeno 
do p, calejado e  com a unha cheia de terra.
O pirata saltou ao meu lado com um golpe que fez tremer as tbuas e se lanou sobre mim. Tentei me esquivar mas conseguiu me segurar pela manga. Tirei at desgarrar 
a tela e lhe lancei um soco na cara. Surpreendido, se lanou para trs e escorregou em seu prprio sangue. Fui correndo at a escalera e me caiu a faca.
Na coberta tudo era fumaa negra e grupos de homens brigando. Procurei umas cordas e tratei de subir em uma vela. Foi um erro? o compreendi quando quase de imediato 
pois ele era marinheiro e no tinha o atrapalho das anguas. As cordas me bailavam nas mos pelas vibraes que produzia seu peso ao subir. Quando consegui ficar 
em minha altura me cuspiu na cara. Continuei trepando, impulsada pelo desespero, mas no tinha sada. O pirata se apoiou com uma mo e com a outra tirou a espada 
descrevendo um arco que estava a ponto de me alcanar.
Estava muito assustada para gritar e no podia me defender. Fechei os olhos com fora, pedindo que o fim fosse rpido. Naquele momento ouvi um golpe seco e um grunhido. 
Me chegou um forte cheiro de pescado e ao abrir os olhos o pirata havia desaparecido. Em seu lugar se encontrava Ping An abrindo as asas para consevar o equilibrio.
- Gua! - protestou com a crista erguida em sinal de irritao. Girou at mim o seu olho amarelo e rangeu o bico com advertencia. Pelo visto no gostava do alvoroo 
e nem dos piratas portugueses.
Me sentia mareada. Continuei agarrada a corda, estremecida e sem poder mover-me. Emabixo, o estrondo era menor e o tom dos gritos havia mudado. Dava a sensao de 
que a abordagem chegava ao fim. Ouvi outro ruido: um chiado largo seguido de um sbito flamejado nas velas e a corda que me sustentava vibrou embaixo de minha mo. 
Tudo havia terminado. Vi perder-se o barco pirata no prateado cu antilhano. Lentamente iniciei a larga descida.
Jamie estava sentado em um tonel prximo do leme, com a cabea deitada para trs e um leno na testa, os olhos fechados e uma taa de whisky na mo. Ao seu lado, 
apoiado no traquete, v o descomposto Willie MacLeod que recebia os primeiros auxlios, em forma de whisky,  do senhor Willoughby.
Tremendo dos ps a cabea, mareada e com frio pelos efeitos do acontecimentos pensei, me colocando ao seu lado, que no seria mal tomar um pouco daquele whisky.
- Ests bem? - perguntei inclinando-me para observar Jamie.
- Sim,  somente um galo - sorriu.
Tinha um pequeno corte, j fechado, na testa. No peitilho da camisa tinha algumas manchas de sangue seco, mas a manga era de uma cor vermelha intensa.
- Jamie! - disse apertando-lhe o ombro - Olha! Ests sangrando!
Estava entorpecida, mas pois no senti suas mos quando se agarrou em meus braos para levantar-se alarmado. A ltima coisa que , entre lampejos de luz, foi seu 
rosto que palidecia por momentos.
- Por Deus! - disse com voz assustada - Esse sangue no  meu, Sassenach! teu!
- No vou morrer - disse irritada, - s se for de calor. Me tire um pouco disto!
Marsali me suplicava entre lgrimas que eu no morresse. Me estalo parece ter aliviado-a: deixou de chorar mas no fez nenhum gesto para retirar as capas e as mantas 
que me cobriam.
- Oh, no posso, Claire! Papai disse que  preciso te manter abrigada.
- Abrigada? Mas se estou me cozinhando viva!
Esrava no camarote do capito; incluso com as janelas da proa bem abertas, o sol e os vapores da carga faziam a atmosfera do piso ficar sufocante.
- No se mova - disse uma severa voz escocesa. Um brao me rodeava os ombros e uma mo me sustentou a cabea - Deita-te em meu brao. Te sentes melhor, Sassenach?
- No - disse contemplando os pontinhos coloridos que giravam em meus olhos - Quero vomitar.
O fiz e foi um processo muito desagradvel. Com cada espasmo sentia ferozes picadas cravando em meu brao direito.
- Por todos os santos - sussurei no fim.
- Se acabou? - Jamie me recostou com cuidado, depositando minha cabea na almofada.
- Se eu morri, queres dizer? Por desgraa, no.
Estava ajoelhado junto a minha liteira, ainda com a camisa manchada de sangue. Como o camarote no se movia, me arrisquei a abrir os olhos. Sorriu debilmente.
- No, voce no morreu. Fergus ficar muito contente.
Como se houvesse sido um sinal, o frances mostrou sua cara aflita. Ao me ver desperta, desapareceu com um sorriso para informar a gritos a tripulao que eu havia 
sobrevivido. Para meu rubor a notcia foi recebida com um grito geral de entusiasmo.
- O que aconteceu? - perguntei
- O que aconteceu? - Jamie se ajoelhou ao meu lado e me levantou a cabea para dar-me de beber. - O que aconteceu, ainda perguntas! Isso quem quer saber sou eu! 
Te disse para se esconder com Marsali e , quando me descuido, cais do cu jorrando sangue. Olha-me!
Seus olhos azuis se cravaram nos meus.
- Estives-tes muito prximo de morrer - disse - Tens um corte que te chega at o osso, da axila at o cotovelo. Se no te houvesse posto uma atadura, a estas horas 
estarias alimentando os tubares. Maldita sejas! Nunca vai fazer o que te ordeno?
- Provavelmente, no - respondi mansamente.
- Meu Deus - sussurou Jamie - o que no daria para te ter bem atada em um canho...
Ofegou e tirou a cabea pela porta para chamar:
- Willoughby!
O chines apareceu ao trote, radiante, trazendo uma chaleira e uma garrafa de conhaque.
- Ch! - exclamei me esforando para me erguer. - Ambrosa!        
Mesmo com a atmosfera sufocante do camarote, o que necessitava era ch quente. Inalei seu aroma.
- Somente os chineses preparam melhor o ch at que os ingleses - disse.
O senhor Willoughby me fez uma reverencia e Jamie lanou o terceiro bofido da tarde.
- Sim? Bem, desfrut-o enquanto possas.
Como a frase sonava mais ou menos sinistra, o olhei por cima da borda da taa.
- O que significa isso? - quis saber.
- Ainda no terminei de te curar o brao - me informou dando uma olhada na chaleira - Quanto sangue me disses-te que temos em nosso corpo?
- Oito ou nove litros - disse estranhando - Por que?
Deixou a chaleira cravando um olhar fuminante.
- A julgar pelo que deixas-te na coberta, pode ser que te sobrou quatro. Toma um pouco mais - Voltou a encher minha taa e saiu dando largos passos.
- Acho que Jamie est muito aborrecido comigo - comentei tristemente ao senhor Willoughby.
- No aborrecido - me consolou - Tsei-mi muito assustado - Me apoiou no ombro uma mo delicada como uma mariposa - Isto di?
Suspirei.
- Se tenho que ser sincera, sim.
Me deu umas palmadas.
- Eu ajudo - disse sorrindo - depois.
Uma srie de ruidos no corredor anunciou o regresso de Jamie; vinha com Fergus e traziam minha maleta e outra garrafa de conhaque.
- De acordo - disse resignada - Deixe me dar uma olhada nisto.
Tecnicamente, a ferida no era das piores que havia visto. No obstante, era minha prpria carne a que estava afetada e no me sentia propensa at para investigar.
- Oh - disse bastante intimidada.
A descrio de Jamie era exata. Eu no sangrava muito.Ao que parece no se havia cortado nenhum vaso sanguineo importante.
Jamie abriu minha caixa de medicinas e remexeu o contedo com o indice.
- Necessitars fio para sutura e uma agulha - disse sobressaltada ao me dar conta de que ia receber trinta ou quarenta pontos no brao sem anestesia a no ser o 
conhaque.
- No tem ludano? - perguntou com o semblante franzido.
- No. Gastei tudo no Marsopa.
Derramei uma boa quantidade de conhaque na taa e bebe um trago.
- Tens sido muito atencioso, Fergus - disse, mas no creio que sentiram falta das garrafas.
Dada a potencia do conhaque frances de Jared, dificilmente se necessitar mais de uma taa pequena.Me perguntava se seria aconselhvel me embriagar de imediato ou 
me manter sbria, Ainda que fosse pouco, a fim de supervisionar as operaes. No tinha a menor possibilidade de que pudesse me suturar com a mo esquerdar, ainda 
mais eu tremia como uma folha. To pouco Fergus poderia faze-lo com sua nica mo.
Jamie interrmpeu minhas apreenses com uma sacudida de cabea.
- Esta garrafa no  para beber,Sassenach, sim para lavar a ferida.
- O que?
Em meu maltratado estado havia esquecido a necessidade de desinfetar. A falta de algo melhor, lavava as feridas com um parte de alcool destilado e uma de gua. E 
mesmo os escoceses eram estoicos, na hora de desinfetar com alcool seus alaridos se ouviam a grande distancia.
- ...espera um momento - disse - Talvez um pouco de gua fervida.
Jamie me observava com compreenso.
- Prorrogando no ganharemos nada, Sassenach - disse - Traga essa garrafa, Fergus.
Antes de que pudesse protestar, me sentou em seu colo e me imobilizou o brao esquerdo para que no pudesse me debater.
Quando recobrei a consciencia, Fergus estava dizendo, plido e com gotas de suor correndo pelo queixo:
- Por favor, milady, no grites assim! Os homens ficam nervosos!
Reuni coragem e assenti debilmente. Jamie me tinha presa pela cintura; no sei qual dos dois tremia; ambos, suponho. Com sua ajuda me carregou para chegar na ampla 
cadeira do capito. Jamie tirou uma das agulhas curvas e um pedao de tripa de gato esterilizada; parecia vacilar tanto como eu ante a perspectiva. Ento foi o senhor 
Willoughby quem interveio silenciosamente, pegando a agulha.
- Eu posso - disse com autoridade - Um momento.
E desapareceu. Ao voltar trazia um envoltrio de seda verde com que havia curado os enjoos de Jamie.
- Ah, trouxe suas agulhas? - Jamie deu uma olhada interessado nas agulhas de ouro - No te aflijas, , Sassenach: no doem. No muito, ao menos.
O senhor Willoughby me pegou a palma da mo direita, jogou em cada dedo fazendo estalar as articulaes e por fim apoiou duas na base da munheca, presisonando entre 
o raio e a unha.
- Esta  a Porta Interior - disse suavemente - Aqui est quietude. Aqui est paz.
Na espetada me fez dau um pulo mas me segurou a mo com firmeza e voltei a relaxar.
Francamente, no sei se tinha o brao direito adormecido ou se so seus procedimentos que me mantiam distrda; o certo  que a dor no era to intensa... at que 
comeou a utilizar a agulha de sutura.
Jamie, sentado em uma banqueta, me sustentava a mo esquerda sem deixar de me observar. Por fim disse rabugento:
- Solta o ar, Sassenach. J se passou o pior.
A verdade  que a dor dos pontos era suportvel. Soltei cautelosamente o ar e lhe dediquei algo parecido com um sorriso. O senhor Willoughby cantarolava algo em 
chines.
- Por que nos atacaram? - perguntou Jamie enrrugando a testa - No pdoe ter sido pela carga.
- No, no acho - confirmei.
- Talvez s queriam ter o barco.O Artemis se venderia em um bom preo, com ou sem carga.
Pestanejei. O senhor Willoughby havia interrompido sua cano para atar um n.
- Sabemos como se chamava o barco pirata? - perguntei - Nestas guas deve de haver muitos, mas se o Bruxa estava por aqui at tres dias...
- Nisso estava pensando - disse Jamie - A escuridade no deixava ver grande coisa, mas era do mesmo tamanho e largo, no estilo espanhol.
- Bem, o pirata que me perseguia falava...
Me interrompeu um som de vozes no corredor.
Fergus mostrou a cabea, obviamente excitado. Algo brilhante lhe tilintava na mo.
- Milord, Maitland encontrou um pirata morto na coberta da proa.
- Morto? - disse Jamie.
- Completamente morto, senhor - assegurou o frances com um pequeno arrepio.
O marinheiro mostrou a cabea reclamando sua parte de glria.
- Oh, sim senhor! - assegurou - mas morto que minha av; algo muito duro lhe golpeou a cabea.
Os tres se voltaram a me olhar. Lhes dediquei um sorriso modesto.
- Sassenach...- comeou Jamie medindo o tom.
- Vou excplicar - disse virtuosa.
- Levava isto, milord.
Fergus colocou na mesa um colar de pirata.
Tinha os botes de prata de um uniforme militar, noz kona, varios dentes de tubaro, vrias conchas polidas, troos de madreprola e algumas moedas, tudo perfurado 
e enfiado.
Fergus alargou uma mo para pegar uma das moedas brilhantes. Era de prata, com as cabeas gemeas de Alexandre: um  tetradracma do sculo IV a.c em perfeitas condies.
Totalmente esgotada pelos acontecimentos da tarde e com o cheiro embotado do conhaque, fiquei adormecida de imediato.
Despertei de noite pelas palpitaes do brao inchado, acalorada e talvez um pouco de febre. Ao outro lado do camarote havia uma jarra de gua. Tirei os ps da liteira, 
mareada e fraca; meu brao protestou de imediato. Devia ter feito algum ruido, pois a voz de Jamie surgiu pela escuridade.
- Te doi, Sassenach?
- Me alegro.
- Como que te alegras? - me indgnei.
- Quando uma ferida di  que est se curando. Quando te fizeram isso no sentistes nada, no ?
- No- reconheci.
- Isso foi o que me assutou. As feridas mortais no se sentem, , Sassenach - afirmou suavemente.
- Como sabe disso? - perguntei tratando de me servir pagua com a mo esquerda - No  algo que possas conhecer por prpria experiencia.
- Quem me disse foi Murtagh. Em Culloden. - A voz de Jamie era apenas audvel por cima do estalo das madeiras e do zumbido do vento - Fui a Culloden decidido a morrer. 
Por que Claire?
Por que sobrevivi e eles no?
- No sei - respondi suavemente - Talvez por tua irm e tua famlia. Talvez por mim.
- Eles tambm tinham uma famlia. Esposas, noivas, filhos. Mas se foram. E eu continuo aqui.
- No sei, Jamie - Lhe toquei o queixo spero pela barba crescida - E voce to pouco sabers.
Suspirou.
-  verdade. Mas no posso deixar de perguntar cada vez que penso neles. sobretudo em Murtagh. Deveriamos ter descido antes; os homens estavam em p havia horas, 
com fome e meio congelados, esperando que Sua Alteza desse a ordem de atacar. E Carlos Stuart, empinado em sua rocha, so e salvo, vacilava e perdia o tempo. Mesmo, 
com os canhes ingleses abrindo fogo contra as filas de esfarrapados montanheses. Todos sabiam que a causa estava perdida e que podiamos se dar por mortos. Mas seguiamos 
ali, olhando os canhes que abriam fogo. Nada falavam. Somente se ouvia o vento e os gritos dos ingleses do outro lado.
Fez uma pausa.
- Eu me sentia feliz - reconheceu um pouco surpreendido - Depois de tudo, queria morrer. No tinha nada a temer. Quando morresse terminaria tudo e poderia me reunir 
contigo.
Me paroximei a ele e sua mo procurou a minha na escurido.
- Os homens caiam um a um; as balas passavam roando-me a cabea mas nenhuma me tocou. O cho tremia embaixo de meus ps; estava quase surdo pelo ruido e no podia 
pensar, rapidamente me dei conta de que estava detrs dos canhes ingleses - Me chegou seu riso sufocado. - Mal lugar para morrer, no?
Voltou a cruzar o pramo para se reunir com os montanheses mortos.
- Encontrei Murtagh sentado em uma mata, no meio do campo de batalha. Havia recebido dez ou doze disparos e tinha uma horrvel ferida na cabea. Achei que estava 
morto.
Mas quando Jamie caiu de joelhos junto ao seu padrinho para segur-lo nos braos, Murtagh abriu os olhos, sorriu e lhe acariciou o queixo. "No temas, a bhalaich", 
havia dito, usando o apelido carinhoso que se aplica aos meninos. "Morrer no di nada."
Fiquei em silencio sem soltar a mo de Jamie. Sua outra mo se fechou com suavidade em torno do meu brao ferido.
- Sabia que quando vivia com Laoghaire rara vez queria voltar a casa - disse - Mas ao menos sempre a encontrava onde lhe havia deixado.
- Ah ?  esse tipo de esposa que desejas? A que fique onde desejas?
Emitiu um ruido, mescla de riso e tosse, mas no respondeu. Segundos depois, sua respirao se converteu em um suave e ritmico ronquido.




















CAPTULO 55
ISHMAEL

Naquela noite no dormi bem, despertei tarde com febre e dor de cabea, assim no protestei quando Marsali insistiu em me refrescar a testa.Com os olhos fechados, 
agradeci o contato fresco do pano encharcado em vinagre sobre as temporas. Fiquei to relaxada que voltei a adormecer quando se retirou, at que um sbito estrondo 
disparou um raio de dor atravs de minha cabea e me fez sentar na cama.
- O que aconteceu? - exclamei segurando a minha cabea com as mos - O que foi isso?
Ao outro lado do camarote, uma figura grande tambm segurava a cabea com evidente agonia.
Por fim falou, soltando uma serie de palavras numa mescla de chines, frances e galico.
- Maldita seja! - concluiu reduzindo os apelativos em um suave ingles.
Jamie se aproximou da janela sem deixar de esfregar a cabea que havia golpeado na quina do armrio. Afastou a manta que cobria o olho de boi e ao abriu de par em 
par, deixando entrar uma rajada de ar fresco e um incomodo claro.
- Por todos os diabos, o que voce fez? - disse com aspereza.
- Buscava tua caixa de medicinas - respondeu com uma careta - Meu Deus, olha isto! Eu afundei meu cranio.
Meu colocou embaixo do nariz dois dedos manchados de sangue, os cobri com o pano molhado em vinagre e me deixei cair sobre a almofada.
- Para que necessitas minha caixa? Por que no me pedis-te em vez de andar como um zango em uma garrafa?
- No queria te despertar - me confessou to mansamente, que me pus a rir apesar das marteladas que castigavam toda minha anatomia.
- No importa; no era um sono agradvel - lhe assegurei - Para que necessitas a caixa? H algum ferido?
- Sim: eu - disse tocando timidamente a coronilha com o pano; observou o resultado. - No queres me olhar isto?  
<<No muito>>, gostaria de dizer, mas inspecionei sua cabea: tinha um galo considervel.
- No tem fratura, tens a cabea mais dura que eu tenha visto em toda minha vida.
Impulsionada por um instinto materno lhe beijei suavemente o galo. Ele levantou a cabea surpreendido.
- Imagino que assim se sentirs melhor - expliquei.
- Oh, bom. Sendo assim...- Se inclinou para beijar-me suavemente o brao ferido - Melhor?
- Muitssimo melhor.
- Procurava isso que usas para lavar os arranhes e coisas assim - me explicou.
- Loo de oxiacanta. No a tenho preparada porque no se conserva - expliquei incorporando-me- Mas se s urgente posso te preparar um pouco. No demora muito em 
faze-la.
- No  urgente - me assegurou - Mas temos na bodega um prisioneiro que est um pouco machucado.
- Um prisioneiro? De onde tem sado?
- Do barco pirata. Mas no creio que seja um pirata.
- Ento quem ?
- No sei. pelas feridas que tem nas costas parece um escravo fugitivo,mas isso no explica sua atuao.
- O que fez?
- Se jogou do Bruxa ao mar. MacGregor o vio mergulhar e lhe arremessou uma corda.
- Que curioso! Por que fez isso? - perguntei com interesse.
Jamie passou os dedos pelo cabelo e fez um gesto.
- No sei, Sassenach - reconheceu alisando as mechas. -  improvvel, a simples vista, que uma tripulao como a nossa aborde um barco pirata; qualquer mercante 
se limita a defender-se. Se no o fez para escapar da gente, talvez queria fugir deles, no?
- Se est ferido, posso dar uma olhada - sugeri.
Dada a conduta que Jamie havia exibido ao dia anterior, imaginei que me seguraria na cama e chamaria a Marsali para que se sentasse sobre meu peito. Em troca assentiu 
com ar pensativo.
- Bem. Tens certeza que podes caminhar?
No estava certa em absoluto mas tentei. No camarote dei um tombo; ante os olhos me bailavam pontos negros e amarelos, mas consegui me erguer.
- Bem, vamos - disse respirando fundo.
O prisioneiro estava embaixo de um lugar da coberta inferior que a tripulao chamava de solado. Ali faltava ar e luz, mareada outra vez, avancei lentamente atras 
do resplendor da lamparina de Jamie.
Ao abrir a porta do improvisado calabouo no se via absolutamente nada. Logo um brilho de olhos revelou a presena de um homem. No me estranhou que Jamie o tomasse 
por um escravo fugitivo, pois no parecia nativo das ilhas, seno africano. Sua pele negra tinha um tom avermelhado e sua atitude no era de um homem criado na escravatura. 
Seu corpo magro e musculoso estava tenso, preparado para o ataque ou a defesa mas no para a submisso.
Jamie me indicou por sinais que me mantivesse contra a parede e se pos em ccoras ante o preso olhando-o nos olhos.
- Amiki - disse mostrando as mos vazias. - Amiki. Bene bene.
<<Bom amigo>> era taki-taki, o idioma universal que todos os marinheiros falavam nos portos, desde Barbados a Trindade.O homem me olhou impassivel.    
- Bene-bene, Amiki? - repetiu com ironia sinalizando os ps atados.
Jamie afogou divertido.
- Nisso tens razo - disse em ingles.
- Fala ingles ou frances? - Me aproximei um pouco. O preso me olhou e desviou os olhos com indiferena.
- Seja o que for no est disposto a admiti-lo. A noite Picard e Fergus tentaram falar com ele, mas se limitou a olh-los. Isto foi a primeira vez que pronunciou 
desde que chegou a bordo.
Num momento se voltou at o prisioneiro.
- Falas espanhol? - tentou. No houve resposta. Nem sequer o olhou.
- Sprechen sie Deutsche? - provavelmente no - Suponho que holandes to pouco.
- No posso dizer-te muito dele, Sassenach, mas estou bastante seguro que no  holandes - disse Jamie com uma olhada ironica.
- Em Eleuthera h escravos, no?  uma ilha holandesa e Santa Cruz, dinamarquesa. Sabes o suficiente taki-taki para preguntar por Ian?
Jamie sacudiu a cabea. Rpido disse:
- Que diabos...  
Desembainhou o punhal para cortar as cordas do prisioneiro e se sentou sobre os calcanhares com a faca cruzada sobre a coxa.
-Amigo -disse em taki-taki com firmeza- Bom?
O aprisioneiro no respondeu. Num momento fez um gesto curiosamente interrogante.
- No canto tem uma bacia - informou Jamie em nosso idioma enquanto se erguia - se-a. Depois minha esposa te curar dessas feridas.
Fez um gesto afirmativo, aceitando a derrota. E nos deu as costas fuando sua braguilha. Olhei de relance a Jamie.
- Uma das piores coisas de estar atado assim - me explicou tranquilamente -  que no podes mijar sem ajuda. Isso e a dor nos ombros. Tem cuidado quando o tocar, 
Sassenach.
Assenti. Todavia estava mareada e a falta de ar me havia voltado a provocar dor de cabea; mas estava melhor que o prisioneiro que, obviamente, havia sido maltratado 
durante sua captura. Suas feridas pareciam superficiais: um galo na testa, um ombro com arranhes e sem dvida, manchas roxas difceis de destinguir pela escurido 
do lugar e o tom de sua pele.
Senti sua carne embaixo dos dedos, quente e suave pelo suor. Eu tambm me sentia quente, suada e descomposta. Tive que me apoiar em suas costas para no perder o 
equilibrio. Uma teia de chicotadas lhe cruzava os ombros. Sentia nauseas, mas continuei com meu exame.
O homem me ignorava por completo, incluso quando tocava lugares que deviam lhe doer. No afastava os olhos de Jamie, quem o observava com a mesma intensidade.
O problema era obvio. Devia de ser um escravo fugitivo e no queria falar por medo que seu idioma revelasse o lugar de onde vinha, permitindo identificar o seu proprietrio 
e devolve-lo ao cativeiro. Sabiamos que entendia o ingles e isso redobrava sua desconfiana. Dadas as circunstancias, estaria dificil convence-lo de que no tinhamos 
inteno de escraviz-lo novamente. Por outra parte, representava a melhor oportunidade de averiguar o que havia sido de Ian Murray a bordo da Bruxa. Talvez a nica 
oportunidade.
Quando terminei de vedar o pulso e os tornozelos, Jamie me ajudou a me levantar e disse ao prisioneiro:
- Imagino que tenhas fome. Acompanha-nos ao camarote e comers conosco.
Sem esperar resposta, me segurou pelo brao so e se voltou at a porta. O escravo nos seguia a pouca distancia em silencio.
Fomos ao meu camarote sem pretar ateno as olhadas curiosas dos marinheiros. Somente nos deteve para ordenar a Fergus que nos enviassemos a comida.
 - Volta a cama, Sassenach - me disse Jamie com firmeza.
No discuti. Se continuasse assim teria que usar um pouco de minha preciosa penicilina para combater a infeco do brao. Jamie serviu um pouco de whisky para mim 
e outro para nosso convidado. O aceitou desconfiado. Depois do primeiro trago abriu os olhos surpreendido; o whisky escocs devia de ser uma novidade para ele. Jamie 
sinalizou assentindo,do outro lado da mesa, e se estalou com sua taa.
- Me chamo Fraser - disse - Sou o capito e ela  minha esposa.
O prisioneiro vacilava. Por fim deixou sua taa com ar decidido.
- Me chamam Ishmael - disse - no sou pirata, sim cozinheiro.
- Cozinheiro do barco? - perguntou Jamie com ar indiferente.
- No, homem, no tenho nada haver com este barco! - Ishmael se mostrava veemente - Me pegaram na costa, dizem que me matariam, no estou muito tempo com eles. No 
sou pirata! - repetiu.
Demorei em compreender que a pirataria se castigava com a forca e por isso temia que o tomssemos por um deles.
- Sim, compreendo - O tom de Jamie era entre reconfortante e cptico - Como viras-tes prisioneiro do Bruxa? No te pergunto onde, sim como. No me interessa saber 
de onde veio, somente como te pegaram e quanto tempo estivestes neste barco, posto que no era um deles...
A insinuao era obvia: No queriamos devolve-lo ao seu proprietrio mas se no nos proporcionar informaes, o entregaramos a Coroa por pirataria.
Seus olhos se escureceram. No era tonto e havia captado a inteno.
- Eu estava pescando no rio - disse - Barco grande vinha navegando lento, botes se jogaram.Homens num bote, me viram, gritam. Deixo o pescado, corro, mas me alcano. 
Homens me apanharam junto as canas, creio que me levavam para vender. Isso  tudo, homem.
Se encolheu de ombros, dando o relato por terminado.
- Compreendo - Jamie no afastava os olhos do prisioneiro. Duvidava em perguntar qual rio era por medo que Ishmael voltasse a emudecer. - Enquanto estavas a bordo 
no barco, havia algum menino entre a tripulao como prisioneiro? Meninos jovens?
- Sim, homem, meninos tinham. Por que? Queres um?
- Sim - confirmou Jamie sereno. - Procuro  um jovem parente que foi capturado pelos piratas. Quem me ajudar a ach-lo contar com toda minha gratitude.
- Sim? O que fars por mim se eu ajudar a encontrar esse menino?
- Te desembarcaria no porto que tu escolhesses com um boa quantidade de ouro. Mas necessitar provas de que conheces o paradeiro de meu sobrinho, entendes?
- Ah t - O prisioneiro ainda desconfiava mas comeava a relaxar - Diga, homem, como s o menino?
Jamie mexeu a cabea.
- No. Me descreva voce os meninos que havia no barco pirata.
O fugitivo olhou a Jamie e deu uma gargalhada.
- Nada tonto, homem, no ?
- Me alegro de que se deu conta - replicou Jamie - Diga-me.
Ishmael cumpriu.
- Havia doze meninos falando raro, como voce.
Jamie trocou comigo uma olhada atonita. Doze?
- Como eu? Meninos brancos, ingleses? Ou escoceses queres dizer?
Ishmael sacudiu a cabea sem compreender.
- Como cachorros brigando - explicou - Grrrr! Guf!
- Escoceses, sem dvida - esclareci tratando de no rir.
- Perrrfeitamente - disse Jamie exagerando seu acento natural - Doze meninos escoceses. Como eram?
Ishmael deu uma mordida em sua maga com ar de dvida.
- Somente v uma vez, homem. Mas te digo tudo o que vi - Fechou os olhos cenhudo. - Quatro meninos cabelo castanho- claro, seis castanhos, dois de cabelo negro. 
Dois mais baixos que eu, um como esse chiflado - sinalizava a Fergus, que se pos teso de indignao ante o insulto - Um grande, no tanto como voce...
- Sim, e como estavam vestidos?
Lenta e cuidadosamente Jamie lhe foi tirando as descries. Pedindo detalhes que obrigada a comparar, dissimulando o rumo de seu interesse.
J no me doia a cabea, mas o cansao me achatava os sentidos. Fechei os olhos adormecida pelas vozes graves. A de Jamie sonava como a de uma cachorro grande e 
feroz, com suaves grunhidos e abruptas consonantes. A voz de Ishmael era igualmente grave, mas mais suave e baixa. Me arrulhava at eu adormecer. Se parecia com 
a de Joe Abernathy quando ditava as informaes de uma autopsia.
Despertei subitamente com o corao acelerado, ouvindo o eco da voz de Jamie a uns dois metros de distancia.
- No! - exclamei.
Os tres homens se interromperam e me olharam surpreendidos. Joguei o cabelo mido para trs.
- No me deem importancia. Eu estava sonhando - Voltei a fechar os olhos mas o sono havia desaparecido.
No havia ningum parecido fisicamente entre eles. Joe era corpulento e Ishmael esbelto e fraco, mesmo a curva musculosa das costas sugeria uma fora considervel. 
Mas se fechasse os olhos por completo voltava a ouvir a voz de Joe, exceto pela entonao caribenha de seu ingles.
Ao abrir os olhos para buscar algum parecido compreendi algo:o que havia tomado por um forte arranho era em realidade uma profunda queimadura sobreposta em uma 
cicatriz larga e plana em forma de quadrado. A marca estava quase cicatrizada. Tentava me lembrar: <<No quer um nome de escravo>>, havia dito Joe referindo-se ao 
seu filho. Obviamente, Ishmael havia borrado a marca de seu proprietrio para que no o identificassem em caso de ser capturado. Mas de quem era aquela marca? E 
o nome de Ishmael no podia ser outra coisa que uma coicidencia, mas talvez no to descabelada. Era pouco provvel que fosse seu verdadeiro nome. <<Me chamam Ishmael", 
havia dito. Esse tambm era um nome de escravo que lhe havia posto algum proprietrio. E se o jovem Lenny havia estado investigando sua rvore genealgica, como 
parecia, no era muito provvel que houvesse elegido ele de um de seus antepassados a um modo simblico: Nesse caso...
 Jamie continuava interrogando o homem sobre a tripulao e a estrutura do Bruxa. Eu havia deixado de prestar ateno. Me incorporei com cautela e chamei por sinais 
a Fergus.
- Necessito de ar - lhe disse - Ajuda-me a sair a coberta, por favor?
Sa segurada em seu brao dando um sorriso para tranquilizar o Jamie.
- Onde esto os papeis do escravo que compramos em Barbados? - perguntei quando estvamos fora do camarote - E o escravo, onde est?
- Fergus me olhou com curiosidade buscando embaixo de seu casaco.
- Aqui est os papis milady. Quanto ao escravo, creio que est no alojamento da tripulao. Por que?
Ignorando a pergunta, procurei entre os sujos e repelentes papeis.
- Aqui est - disse ao identificar o fragmento que Jamie me havia lido. - Abernathy! Era Abernathy! Marcado no ombro esquerdo com uma flor de lis. Reparas-tes nessa 
marca?
Fergus sacudiu a cabea um pouco desconcertado.
- No, milady.
- Acompanha-me. Quero ver que tamanho tem.
A marca que tinha Temeraire no ombro media uns sete centmetros de lado: era uma flor coronada pela inicial A. O tamanho e o lugar se correspondiam com a cicatriz 
de Ishmael.Mas no era uma flor de lis, sim a rosa de dezesseis ptalas: o emblema jacobita de Carlos Stuart.
- Acho que deverias voltar a cama, milady - observou Fergus enquanto Temeraire suportava minha inspeo to firme como sempre - Ests com uma cor plida, o milord 
no gostaria ver-te caida na coberta.
- No vou cair - lhe assegurei - E pouco importa a minha cor. Creio que tivemos uma tacada de sorte. Escuta Fergus, quero que faas algo por mim.
- Pode dizer, milady. - Me segurou pelo codo para impedir que um movimento do barco me arroja-se ao outro lado da coberta, subitamente inclinada. -Mas quando estiver 
sana e salva em vossa cama.
No me sentia bem e me deixei levar ao camarote enquanto lhe dava as instrues.
- Te sentes bem - Sassenach? - perguntou Jamie - Tens uma cor horrvel.
- Estou perfeitamente - disse entre dentes, recostando-me na liteira com cuidado de no mover o brao. - J terminou com o senhor Ishmael?
Jamie trocou uma olhada com o prisioneiro. A atmosfera no era hostil, mas sim carregada.
- No momento, sim - se voltou at Fergus - Acompanha o nosso hospede embaixo e ocupa-te de que lhe deem roupa e algo para comer - Logo se sentou ao meu lado - Tens 
um mal aspecto.
Quer um tonico ou algo assim?
- No. Escuta Jamie, creio saber de onde tem sado nosso amigo Ishmael.
-  mesmo? - disse levantando uma sombrancelha.
Lhe expliquei a cicatriz e a marca do escravo Temeraire, sem mecionar-lhe de onde havia tirado a ideia.
- Aposto cinco em um que pertence a mesma pessoa: essa tal senhora Abernathy de Jamaica.
- Pode ser que tenhas razo, Sassenach, tomara, pois esse maldito negro no quis me dizer de onde vinha. No o culpo - disse - Se eu houvesse escapado de semelhante 
vida no haveria nada na terra que me obrigasse a voltar a ela.
- No, eu to pouco lhe culpo - disse - Mas o que ele disse dos meninos? Viu Ian?
- Estou quase certo. Dois dos meninos que descreveu poderia ser Ian. Sabendo que esse barco era o Bruxa, no pode ser de outro modo. Por que demonios queria sequestrar 
doze meninos escoceses?
- Para algum colecionador? - disse me sentindo cada vez mais enjoada - Moedas, pedras preciosas e meninos escoceses.
- Achas que quem sequestrou Ian tem tambm o tesouro? - disse me olhando com curiosidade.
- No sei - disse. Me sentia muito cansada e bocejei at me deslocar. - Mas podemos comprovar pelo Ishmael.Eu pedi a Fergus que observasse como reagiria Temeraire 
ao velo. Se so do mesmo lugar...
Bocejei outra vez. Meu corpo buscava o oxigenio que me faltava pela perdida de sangue.
- Muito sensato, Sassenach. - Jamie me deu um apalmada na mo e se levantou - Por agora no te preocupes, descansa. Te enviarei um pouco de ch com Marsali.
- Whisky -ped.
- Bem, bem, Whisky -  rio afastando-me o cabelo e me beijou a testa quente - Melhor?
- Muitssimo.
Lhe devolvi o sorriso e fechei os olhos. 


CAPTULO 56
SOPA DE TARTARUGA

Despertei tarde. Me doia todo o corpo. Havia tirado as mantas e tinha a pele quente e seca. A dor do brao era horrvel; os quarenta e tres pontos do senhor Willoughby 
eram como alfinetes cravados na carne. No tinha mais remdio: teria que usar a penicilina.
O breve passeio at o armrio onde estava minha roupa me deixou suada e tremula. Tive que me sentar bruscamente para no cair.
- Sassenach! Te sentes bem? - Jamie havia mostrado a cabea pela porta com cara de preocupao.
- No. Vem um momento, por favor? Necessito que me faas algo.
- Quer vinho? Um biscoito? Murphy te preparou um caldo especial - Em um segundo estava ao meu lado, com a mo fresca em minha bochecha - Por Deus, voce est ardendo!
- Sim, mas no se preocupe. Tenho um remdio.
Tirei o estojo com as seringas e as ampolas. O brao direito me doia tanto que cada movimento me obrigava a apertar os dentes.
- Agora tens a oportunidade de se vingar - disse com ironia.
- O que! - exclamou - Pretendes que eu te crave uma dessas estacas?
- Sim, mas preferia que o fizesses de outro modo.
- No traseiro?
- Sim, homem!
Me olhou inclinando a cabea.
- Diga-me o que devo fazer.
Indiquei cuidadosamente como preparar a injeo.
- Tem certeza? - duvidou - No sou muito hbil com as mos.
Apesar da dor no brao, me pus a rir. Lhe havia visto fazer de tudo; sempre com o mesmo toque delve e hbil.
- Olha, eu lhe apliquei, no foi to ruim, no ?
- Hummmm - Com os lbios apertados se ajoelhou a cama limpando o meu traseiro com algodo molhado em conhaque. - Assim est bom?
- Sim. Pressiona com a ponta em ngulo, afundando meio centmetro e aperta o mbolo bem devagar.
Esperei com os olhos fechados. Quando olhei para trs, Jamie estava plido e com os pmulos brilhantes do suor.
- No importa - Me ergui lutando contra a nsia - Me d.
Tirei o algodo para molhar um ponto da extremidade. Devido a febre a mo me tremia.
- Mas...
- Cala-te!
Peguei a seringa e a cravei como pude com a mo esquerda. Doeu. E me doeu mais quando, ao pressionar o mbolo, me escorregou o polegar. Jamie tive que atuar. Com 
uma mo me segurou a perna e com a outra pressionou lentamente o mbolo at que a ltima gota do liquido branco desaparecesse do tubo. Quando retirou a agulha respirei 
fundo.
- Obrigada.
- Eu sinto muito - sussurrou.
- No importa.
O observei em silencio: reclinado na cadeira com os olhos fechados, suas pestanas ruivas pareciam absurdamente infantis em contraste com as orelhas e as rugas marcadas 
na comissura dos olhos.
Estava cansado; apenas havia dormido desde o encontro com o barco pirata.
O ar estava viciando no camarote fechado. Se levantou para abrir um olho.
- Jamie - disse - o que gostarias de fazer?
- Oh...uma laranja no me seria mal - disse - Tenho algumas no escritrio. Mas uma para voce?
- Tudo bem - sorri - mas no me referia a isso. O que gostaria de fazer quando tivermos recuperado Ian?
- Ah - Se sentou na liteira com a laranja na mo.- Creio que ningum me havia feito nunca uma pergunta assim.
Parecia um pouco surpreendido.
- Poucas vezes tens podido decidir, no ? - observei - Mas agora podes.
- Sim,  verdade. - Girou a fruta entre as mos.- Tens compreendido, no ? No podemos voltar a Escocia durante algum tempo.
- Por isso minha pergunta.
Seu ltimo refgio havia sido sempre em Lallybroch,mas agora o havia perdido. Ainda que Lallybroch fosse sempre seu lar, j no lhe pertencia.
- To pouco Jamaica nem as ilhas que pertencem a Inglaterra - disse melancolico - Mesmo Tom Leonard e a Marinha Real nos dando como mortos; se ficarmos por aqui 
no demoraro para nos encontrar.
- Tens pensado na Amrica? - perguntei com delicadeza - Nas Colinas, quero dizer.
Esfregou o nariz em dvida.
- No, no havia pensado. Provavelmente ali estaramos a salvo da Coroa, mas...
- Ali ningum o persegueria: sir Percival no tem interesse em te deter fora da Esccia, a Marinha britanica no pode te seguir por terra e os governadores das Antilhas 
no tem autoridade alguma nas Colonias.
-  verdade - disse lentamente - Mas aquele territrio  selvagem, no? No gostaria de por voce em perigo.
Me pus a rir. Ao adivinhar meus pensamentos esboou um sorriso triste.
- Bem, bastante perigoso tem sido arrastar-te pelo mar e deixar que te sequestrassem em um barco assediado por uma epidemia. Mas ao menos aqui no existe canbais.
- Na Amrica no existe canibais - observei.
- Claro que sim! - replicou acalorado - Imprimi um livro para uma sociedade de missionrios catlicos onde se falava dos pages iroqus do norte. Amarram seus cativos 
e lhes cortam em pedaos. Depois lhe arrancam o corao para come-lo ante seus proprios olhos.
- Primeiro lhes comem o corao e depois os olhos, no? - Minha risada o aborreceu - Tudo bem, desculpe. Mas no podes acreditar em tudo que se l. E por outro lado...
No pude terminar. Me apertou o brao com tanta fora que me fez gritar.
- Escta-me, diabos! Isto no  uma brincadeira!
- Claro que no - balbuciei - No era minha inteno rir de voce, Jamie, mas passei quase vinte anos em Boston. Voce nunca foi a America.
- E achas que o lugar onde vivias se parece em algo como  agora, Sassenach?
- Bem, no - admiti - Mas o territrio no  todo selavagem. H cidades, algumas importantes. 
Disso estou certa.
Me soltou o brao. Ainda tinha  alaranja na outra mo.
- No sou tonto, Sassenach. No acredito em qualquer coisa que digam os livros. Eu mesmo os imprimo.
-  curioso - comentei com melancolia - Quando decidi voltar para voce, li tudo o que pude sobre como era nesta poca na Inglaterra, Esccia e Frana para saber 
o que devia esperar. E agora estamos em um lugar que eu no sei nada, porque nunca me ocorreu cruzarmos o oceano; sabendo sobre seus terrveis mareios...
Isso o fez rir de m vontade.
- Acredita-me, Sassenach: quando recuperar Ian so e salvo, no votlarei a pisar num barco em toda a minha vida, exceto para voltar a Escocia quando tiver passado 
o perigo.
Me ofereceu um pedao da laranja que eu aceitei como prenda de paz.
- Falando em Escocia: ainda tens tua imprensa ali - observei - Poderiam te enviar se nos estabelecssemos em uma das grandes cidades amricanas.
- Achas que seria possvel ganhar a vida com uma imprensa? Existe tanta gente l? Somente as cidades importantes necessitam de um impressor e algum que venda livros.
- Sim. Em Boston, em Filadlfia...em Nova York ainda no.
Comeu lentamente um pedao da fruta e perguntou bruscamente:
- E voce?
- Eu o que?
- Gostaria de se estabelecer em um lugar assim? Porque voce tambm tens um trabalho. Em Pars descobri que no poderias renunciar ele. Podes curar nas Colinas?
- Creio que sim - sussurrei - No fim das contas, em todas as partes existem enfermos. - O olhei com curiosidade. - s um homem muito estranho, Jamie Fraser.
Comeu o resto da laranja rindo.
-  mesmo? - Por que dizes isso?
- Frank me amava, mas havia...partes de mim com as quais no sabia o que fazer. Coisas que no compreendia ou que o assustavam. A voce no assustam.
- No, Sassenach, no me assustam. Somente quando vejo que podem ser perigosas.
Ofeguei.
- Voce me assusta pela mesma razo mas suponho que no posso fazer nada para solicion-lo.
- Como eu to pouco posso, no devo me preocupar.
- Eu no disse que no devas te preocupar. Por acaso achas que eu no me preocupo? Mas  verdade que no podes fazer nada.
Abriu a boca para discordar mas mudou de idia.
- Bem, talvez no, Sassenach - riu - Mas eu j vivi o suficiente para que no me importe tanto...enquanto puder te amar.
Emudecida pelo suco da laranja, o olhei surpreendida.
- Eu te amo - disse suavemente enquanto se inclinava para me beijar - Agora descansa.
Daqui a pouco te trarei um pouco de caldo.
Dormi varias horas. Quando despertei, ainda com febre, tinha fome. Jamie me trouxe o caldo do Murphy: uma rica sopa vegetal, com bastante menteiga e odor a xerez. 
Apesar dos meus protestos, insistiu em me dar a colheradas na boca.
- Quer mais? - me perguntou depois da ltima colherada. - Precisa recuperar as foras - Sem esperar resposta destapou a pequena sopa e voltou a encher meu prato.
- Onde est Ishmael? - perguntei.
- Na coberta da popa. No entrepiso no se sentia cmodo... E no sei se posso sencurar depois de ter visto os barcos negreiros em Bridgetown. Fiz que Maitland arranjasse 
uma cama.
- Te parece prudente dar-lhe tanta liberdade? Ouve, do que  essa sopa? - A ltima colherada me havia deixado um gosto delicioso na lingua.
- De tartaruga; anoite Stern pegou uma bem grande. Disse que guardou a carapaa para fazer pentes- Jamie enrrugou a testa. - E quanto ao begro, Fergus se encarrega 
de vigi-lo.
- Fergus est em plena lua de mel - protestei - No deverias obriga-lo a isso. Ento assim que  a sopa de tartaruga?  a primeira vez que provo. Deliciosa.
- Bem, o matrimonio  muito longo - disse - No ficar mal com as calas postas durante uma noite. Alm do mais, dizem que o corao se fortalece com a abstinencia, 
no?
- Com a ausencia - corregi esquivando a colher-  Se algo se fortalecer com a abstinencia, no ser justamente o corao.
 -Isso no  maneira de falar para uma mulher casada! - me reprovou Jamie - E s muito desrespeitosa, tendo em conta que eu tambm estou bastante fortalecido nestes 
momentos.
Quer mais sopa?
- No, obrigada. Mas eu gostaria de saber mais dessa fora tua.
- No podes. Ests enferma e embriagada pelo xerez da sopa.
- Me encontro muito melhor - lhe assegurei - Quer que eu d uma olhada?
Na larga cala de marinheiro havia conseguido esconder facilmente tres ou quatro salmonetes mortos, imagine a referida fora.
- Nada disso - protestou um pouco escandadlizado - Pode vir algum e no acho que olhando poders me aliviar.
- Bem, sempre se pode provar. Quer fechar a porta? - Estendi com bastante pontaria a mo esquerda.
- Solta-me - sussurrou dando uma olhada nervosa na porta - Em qualquer momento ver algum.
- Te disse para trancar a porta. - No o soltei. O "salmonete" dva mostras de uma notvel vitalidade.
Me olhou com os olhos entreabertos.
- No quero usar a fora com uma enferma - disse entre dentes - mas apertas muito forte para quem est com febre, Sassenach.
- Te disse que estava melhor. Faamos um trato: se correr para fechar a porta, te demosntrarei que eu no estou embriagada.
Como prova de boa f o soltei, mesmo de m vontade. Foi trancar a porta e , quando voltou, havia abandonado a liteira e estava de p, um pouco tremula. Me observou 
com ar crtico.
- No vamos poder, Sassenach - disse com pena - No podemos nos manter em p com um marulho como este e sabes que essa liteira  muito pequena.
- Podemos fazer no cho - sugeri esperanosa.
- No. Te doiria o brao. - Esfregou o labio inferior pensativo.
Decidida a tomar a iniciativa, dei dois passos para me paroximar. O balano do barco me atirou sobre ele, que me segurou pela cintura mantendo a duras penas seu 
prprio equilibrio.
- Cristo! - protestou cambaleando-se.Logo, tanto por reflexo como por desejo, baixou a cabea para me beijar.
Foi assombroso. Estava acostumada ao calor de seu abrao mas agora era eu que ardia enquanto ele estava fresco. Me pus de joelhos, buscando com a boca o interior 
de sua braguilha.
- Oh, Deus! - exclamou - Iss  como fazer amor no inferno...com uma diaba.
R, no qual foi bastante difcil dadas as circunstancias.
- Achas que asseim fazem os spucubos?
- No duvido - Tinha as mos em minha cabea, incentivando a continuar.
Um golpe na porta o deixou que nem pedra. Eu sabia que a porta estava trancada.
- Sim? Quem ? - perguntou, com uma eligivel calma dada a sua situao.
- Fraser? - Era a voz de Lawrence Stern- Disse em frances que o negro est dormindo e quer saber se pode deitar.
- No. Que fique ali. Daqui a pouco urei ver.
- Ah... - Stern parecia vacilar - Bem,  que su...hum...sua esposa parece...muito desejosa de que ele fosse se deitar agora mesmo.
Jamie respirou fundo. A tenso se evidenciava em sua voz.
- Diga que ira...em seu devido tempo.
- Eu direi. E...a senhora Fraser se sente melhor?
- Muito melhor - assegurou Jamie com sinceridade.
- Ela gostou da sopa de tartaruga?
- Muito, obrigado - lhe tremiam as mos em minha cabea - Boa noite, senhor Stern!
Me pus em p, me apoiou na liteira e se ajoelhou detrs de mim, levantando me acariciando em minha camisola.
- Oh...- Lawrence pareca um pouco decepcionado - Suponho que a senhora dorme.
- Se rires te estrangulo - me sussurrou Jamie ao ouvido - Em efeito, senhor Stern. Quando despertar lhe darei vossos saudos.
- Confio que ir descansar bem. O mar parece um pouco agitado.
- Eu...Eu tambm notei, senhor Stern.
- Bom,os desejo uma boa noite.
Jamie soltou o ar em um largo estremecimento.
- Senhor Fraser?
- Boa noites, senhor Stern! - gritou.
- Oh, e...! Boa noite!
O spassos do cientfico se afastaram at se perder o ruido das ondas que se batiam contra o casco. Cuspi a colcha que havia estado mordendo.
- Oh...Deus...meu!
Colocou suas grandes mos, duras e frescas sobre minha carne ardente.
- Tens um traseiro mais redondo que eu j v em minha vida!
Um sacudida do Artemis lhe ajudou em seus esforos at tal ponto que dei um grito.
- Cristo! - Me cubriu a boca com uma mo apertando-me contra a liteira com todo seu peso.
Me estremeci em seus braos.
Num instante, sua respirao se fez mais serena e se afastou, levantnado-me como a uma boneca de trapo cpara me por na cama.
 -Como est teu brao?
- Que brao? - murmurei.Me sentia como se me houvessem afundado e volcado em um molde.
- Bem - disse com uma sorriso - Podes se manter em p?
- Nem por todo o ch da China.
- Vou dizer a Murphy que voce adorou a sopa.
Coloquei minha mo sobre a testa, j fresca. No o ouvi sair.





















CAPTULO 57

A TERRA PROMETIDA

- Isto  uma perseguio! - exclamou Jamie, indignado.
Olhava pela borda do Artemis. A nossa esquerda se estendia o porto de Kingston, reluzente como um safira lquida a luz da manh. Em cima, a cidade se fundia num 
verdor, dos quais se sobressaiam uma srie de cubos de marfim amarelado e quartzo rosado. Embaixo, um majestoso barco de tres mastros flutuava com as velas pregadas 
e o bronze de seus canhes brilhando ao sol: a caonera  Marsopa.
- Esse maldito barco est me perseguindo - disse enquanto passvamos a certa distancia. Onde quer que eu v, ali est.
Me pus a rir, ainda que realidade a sua presena me deixava nervosa.
- No acho que seja nada pessoal - observei - O capito Leonard disse que vinham a Jamaica.
- Sim, mas por que no foram diretamente a Antigua? Ali estam as barracas e os astilheiros da Marinha. Quando os deixei necessitavam de uma reparao.
- Tinham que passar por aqui primeiro - expliquei - Traziam o novo governador da colonia.
- Sim? Quem ser? - Jamie parecia distrado. Dentro de uma hora chegaramos a Sugar Bay, onde Jared tinha sua plantao. Sua mente estava atarefada fazendo planos 
para encontrar Ian.
- Um tal Grey - informei afastando-me da grade -  um bom homem. O conheci no barco.
- Grey? - jamie me olhou com sobressalto - No seria lord John Grey por acaso?
- , assim se chama. Por que?
O vi observar o Marsopa com renovado interesse.
- Conhece a lord John;  meu amigo.
- Que sorte. De onde o conheces?
- Foi o carcereiro da priso de Ardsmuir. - Isso me surpreendeu.
- E  seu amigo? - Sacudi a cabea - Jamais entenderei os homens.
Se voltou sorrindo.
- Um homem faz amigos onde os encontra, Sassenach -  Entornou os olhos olhando at a costa. - Tomara que possamos fazer amizade com a senhora Abernathy.
Enquanto rodevamos o promontrio, junto a grade apareceu uma esbelta silhueta negra.
Vestido com roupas de marinheiro que lhe cobriam as cicatrizes, Ishmael pareca muito mais pirata que escravo.
- Vou embora - anunciou bruscamente.
Jamie levantou uma sombrancelha.
- Quando quiser - disse cortesmente - mas, no preferes faze-lo em um bote?
Um lampejo de humor chispeou por um instante os olhos do negro, sem turvar o contorno severo de sua cara.
- Disse que me deixarias onde eu quisesse se eu dissesse algo sobre os meninos. Quero ali.
Jamie passou os olhos entre Ishmael e a costa desabitada. Finalmente assentiu.
- Farei baixar um bote - Se voltou at o camarote - Tambm prometi ouro, no?
- No quero ouro, homem.
Jamie se deteve em seco.
- Tens pensado em alguma outra coisa?
- Quero esse negro sem brao. - Olhava com audacia a Jamie, mas no podia ocultar certa timidez.
- O Temeraire? Por qu?
- A voce no serve, homem; no pode trabalhar no campo nem no barco; tem um s brao.
Jamie o olhou. Sem responder, se voltou para ordenar a Fergus que trouxesse o escravo manco.
Temeraire apareceu na coberta to inexpressivo como um bloco de madeira.
- Este homem quer que voce v com ele a essa ilha - lhe disse Jamie em lento e claro frances - Aceitas?
Temeraire pestanejou e abriu os olhos assombrado.
- No s obrigado a ir com ele. Se quiser continuar conosco te cuidaremos e vamos te proteger.
A deciso  sua.
O escravo vacilava. Foi Ishmael quam decidiu a questo. Cruzando os braos em uma espcie de cauteloso desafio, disse algo em uma lingua estranha, cheia de vogais 
e slabas que se repetiam como um toque de tambor. Temeraire caiu de joelhos a seus ps, com uma exclamao afogada e tocou a coberta com a testa.
- Vem comigo - informou.
E assim foi. Picard os levou a remo at as rochas, e os deixou ali com uma pequena bolsa de abastecimento e suas facas.
- Por que ali? - me perguntei em voz alta, contemplando as duas pequenas silhuetas que subiam pela costa florestada.- No h nenhuma povoao prxima, nem plantaes.
- Plantaes sim - me assegurou Lawrence - Em terra adentro se cultiva caf e anil. Mas  mais provvel  que eles querem unir-se a algum bando de selvagens.
- Na Jamaica tambm tem selvagens? - perguntou Fergus interessado.
O naturalista sorrio com o cenho franzido.
- Onde h escravos h selvagens, meu amigo. Sempre h quem prefere morrer como um animal antes que viver como um escravo.
Jamie voltou bruscamente a cabea olhando-o, mas no disse nada.
A plantao de Jared se chamava Blue Mountain House, possivelmente pelo pico nebuloso que se elevava atrs dela, a um ou dois quilometros terra adentro. A fazenda 
estava prxima a costa, na curva da baia. Na realidade, as colunas de sua galeria surgiam de uma pequena lagoa repleta de esponjosas plantas aquticas.
Nos esperavam. A carta de Jared havia chegado a um mes antes de ns. O capataz e sua esposa, um corpulento casal escoces de sobrenome Maclver, se sentiram aliviados 
ao nos ver.
Em uma pequena galeria havia uma autentica banheira cheia (mirabile dictu!) de gua quente graas aos bons ofcios de duas escravas, que haviam esquentado o patio 
com grandes recipientes cheios de gua. O remoro por essa explorao humana deviam ter me impedido de desfrutar o banho, mas no foi assim. Me submergi com prazer, 
esfreguei a pele com uma esponja vegetal para tirar o sal e o sebo, lavei a cabea com um xampu preparado pela senhora MacIver com camomila, azeite de geranio, restos 
de sabo e uma gema de ovo.
Perfumada, com o cabelo brilhante e languida de calor, me derrubei agradecida na cama que me haviam resignado. Quase no tive tempo de notar o quanto  bom esticar 
todo o corpo antes de adormecer.
Quando despertei, as sombras do entardecer estavam reunindo, ante as janelas de meu dormitrio. Jamie estava n ao meu lado, com as mos cruzadas sobre o ventre, 
respirando profundamente. Alonguei uma mo at sua boca e o despertei. Tambm se tinha banhado e cheirava a sabo e a cedro.
- Dormistes bem, Sassenach - murmurou com a voz rouca pelo sono - Vem aqui.
- Faz meses que no temos tempo nem lugar para fazer amor como  devido - disse - Assim que agora no nos faro apressar, de acordo?
- Me pegas em desvatagem, Sassenach - murmurou movendo com urgencia seu corpo debaixo do meu - No poderamos deixar isso para a prxima vez?
- No. Agora. No se move.
Suspirou e , deixando cair as mos para os lados, voltei ao meu trabalho. Por fim me levantou sobre os cotovelos.
- Acho que j  o bastante - decidi me afastar o cabelo dos olhos.
Como se lhe tivesse dado um estmulo, se incorporou, me atirando de costas e me imobilizando com o peso de seu corpo.
- Assim  que no devemos ter pressa - Me olhou entornando os olhos - Ters que me suplicar para acabar logo.
Me retorci cheia de expectativa.
- Ooh, misericordia. Que brutalidade...
Chegamos tarde ao jantar.
Enquanto comamos, Jamie no demorou em perguntar pela senhora Abernathy, de Rose Hall.
- Abernathy? -MacIver franziu o cenho enquanto dava golpes na mesa com a colher para incentivar sua memria. - Sim, eu acho que ouvi esse nome.
- Oh, conheces bem Rose Hall -interrumpeu sua esposa, que estava dando indicaes a um servente. -  aquele lugar nas montanhas, sobre o rio Yallahs. Cultivam cana, 
mas tambm um pouco de caf.
- Oh, sim,  isso! - exclamou o marido - Que memria a tua Rosie!
- Bom, eu to pouco o havia recordado - disse modesta - a no ser porque esse ministro, o da igreja da Nueva Gracia, esteve perguntando por ela.
- De qual ministro se trata, senhora? - perguntou Jamie servindo meio frango assado.
- Tens boa apetite senhor Fraser! - exclamou a mulher admirada -  o ar da ilha, suponho.
Jamie , com as orelhas vermelhas, teve a prudencia de no me olhar.
- Suponho que sim. Quanto ao ministro...
- Ah, sim. Campbell, se chama. Archie Campbell. - Me olhou curiosa ao notar que eu dava um sobressalto- O conheces?
- Em uma ocasio nos encontramos em Edimburgo.
- Est aqui como missionrio, para levar aos negros pagos a salvao de Jesus, Nosso Senhor - Falava com admirao enquanto lanava uma olhada fulminante ao seu 
esposo, que havia soltado um bufido - Nada de comentrios religiosos, Kenny! O reverendo Campbell  um santo.E um grande erudito, por acrescimo. Eu perteno a Igreja 
Livre - me explicou em tom confidencial - Quando me casei com Kenny, que  catlica, meus pais me deserdaram, mas lhe disse que, cedo ou tarde, acabaria por ver 
a luz.
- Muito, mas muito tarde - comentou seu esposo servindo gelia.
- Como o reverendo  um grande erudito, a senhora Abernathy  lhe escreveu a Edimburgo para fazer algumas consultas. Agora que est aqui tem inteno de ir visit-la. 
Mesmo com todo o que haviam dito Myra Dalrymple e o reverendo Davis, me surpreenderia muito que pisasse nessa casa - disse a senhora Maclver.
- Por minha aprte, no tenho muita f no que diz o reverendo Davis - disse seu esposo - s to santo que no caga.Myra Dalrymple, em compensao  uma mulher sensata.Ai! 
- disse enquanto afastava bruscamente os dedos, os que sua mulher acabava de acertar com um golpe de colher.
- O que disse a senhora Dalrymple da senhora Abernathy? -Jamie se apressou a intervir antes de que estourasse uma guerra conjugal.
A senhora MacIver estava ruborizada, mas desenrrugou o cenho.
- Bem, em parte  puramente fofoca mal intencionada - admitiu - O tipo de coisa que sempre diz as pessoas quando uma mulher vive sozinha. Que gosta muito de escravos 
jovens, por exemplo.
- Mas tambm houve rumores quando morreu o marido - interrompeu Kenny - Agora o recordo muito bem.
Barnabas Abernathy, proveniente de Escocia, tinha comprado Rose Hall cinco anos atrs.Administrava a propriedade, da qual extraia um pequeno rendimento em caf e 
aucar, sem provocar comentrios entre seus vizinhos. H tres anos se casou com uma desconhecida que trouxe de  Guadalupe.
- Seis meses depois estava morto - concluiu a senhora Maclver com sombria satisfao.
- E se supes que a senhora Abernathy teve algo haver com isso? - perguntei, conhecendo a grande variedade de enfermidades tropicais que atacavam os europeus naquelas 
terras.
- Veneno - informou Rosie em voz baixa, dando uma olhada na porta da cozinha - Disse o mdico que o atendeu. Claro que podem ter sido as escravas. Corriam comentrios 
sobre Barnabas e suas escravas. Mesmo  que doa reconhecer, no  to raro que alguma cozinheira deslize algo a comida, mas...
Se interrompeu ao ver que estrava uma moa para deixar na mesa uma fonte de vidro lapidado. A moa se retirou em meio do silencio geral.
- No se preocupem - nos tranquilizou a dona da casa - Aqui temos um moo que prova tudo antes de nos servir. No corremos perigo.
Traguei com dificuldade o pedao de pescado que tinha na boca.
- E o revrendo Campbell foi visitar a senhora Abernathy? - perguntou Jamie.
- No, no creio. No dia seguinte foi quando aconteceu aquilo com sua irm.
Na excitao de rastrear a Ian e a Bruxa, havia esquecido por completo da Margaret Jane Campbell.
- O que aconteceu com sua irm? - perguntei com curiosidade.
- A pobre desapareceu! - Os olhos azuis da mulher se encheram de impotencia.
- O que? - Fergus, que estava devotamente concentrado em seu prato, levantou a cabea - Desapareceu? Como?
- Em toda ilha no se fala em outra coisa - interveio Kenny - Parece que o reverendo havia contratado uma dama de companhia, mas a mulher  morreu de febre dutante 
a viagem.
- Oh, que pena! - Senti verdadeiro pesar por Nellie Cowden, a de cara larga e agradvel.
- Sim - assentiu Kenny despreocupado - O caso  que o reverendo buscou um alojamento para sua irm. Tenho entendido que no estava bem da cabea, verdade? - M eolhou 
elevando uma sombrancelha.
- No muito bem.
- Bem, parecia bastante tranquila, assim a senhora Forrest a sentava na galeria para que tomasse ar fresco. Na tera feira passada, a senhora Forrest recebeu a notcia 
de que a necessitavam em casa de sua irm, que ia ter um menino. Saiu imediatamente e , quando recordou que havia deixado a senhora Campbell na galeria e enviou 
a algum..., a mulher j havia desaparecido. Desde ento no se sabe nada dela, ainda o revrendo est revirando cu e terra.
- Myra Dalrymple aconselhou o reverendo que pedisse ajuda ao governador para procur-la - disse a senhora MacIver-. Mas ele acaba de chegar e ainda no est pronto 
para receber a ningum. Na quinta oferecer uma grande recepo para conhecer todas as pessoas importantes da ilha.Myra disse que o reverendo deveria ir e aproveitar 
a oportunidade para falar com ele, mas no est convencido, por ser uma ocasio to mundana.
- Uma recepo? - Jamie olhou com interesse a senhora MacIver-  necessrio convite?
- Oh, no. Pode ir quem quiser, pelo que eu entendi.
-  mesmo?- Jamie me olhou sorrindo - O que te parece, Sassenach? Gostaria de ir comigo a residencia do governador?Ser uma boa oportunidade para perguntar por Ian. 
 possvel que no est em Rose Hall, sim em outra parte da ilha.
- Bem, alm de eu no ter nada que vestir...- disse tratando de imaginar o que tinha em mos.
- Oh, isso no  problema - me assegurou Rosie  -Tenho uam das costureiras mais hbeis da ilha. Ela se encarrega de fazer em um abrir e fechar de olhos.
Jamie assentiu pensativo.
 -Seda violeta te ficar bem - opinou afastando delicadamente as espinhas do pescado - E enquanto o outro , Sassenach, no se preocupe. Tenho uam idea. Vers.















CAPTULO 58

A MSCARA DA MORTE VERMELHA

Jamie colocou a peruca e me olhou atravs do espelho. Estava fascinada com sua transformao: sapatos vermelhos de salto, meias de seda negra, cala de cetim cinza 
com fivelas de prata nos joelhos e uma camisa branca com quinze centmetros de renda de Bruxelas nos pinhos e no pescoo. O casaco, uma obra de mestre cinza com 
punhos de cetim acul e botes de prata, esperava a vez pendurado detrs da porta. Quando acabou de empoar-se o rosto, se impregnou na ponta do dedo para pegar uma 
pinta postia, o untou com gomaarbica e o fixou junto no canto da boca.
- Pronto - disse girando pelo banquinho - Pareo um ruivo escoces contrabandista?
- Pareces uma grgula - repliquei.
Em seu rosto floreceu um largo sorriso.
- Non! - se indignou Fergus - Parece um frances.
-  mais ou menos a mesma coisa - decidiu Jamie dando um espirro - Com perdo, Fergus.
Se levantou para por o casaco. Os saltos de sete centmetros o faziam alcanar quase um metro e noventa de estatura.
- No sei - disse em dvida - Eu nunca v um frances to alto.
Jamie encolheu os ombros.
- No tem jeito de dissimular minha estatura. Mas enquanto manter o cabelo oculto, no acho que terei problemas. Alm do mais - disse observando-me com aprovao 
- as pessoas no se fixaram em mim.
Fique de p para eu te ver, por favor?
Para dar-lhe o gosto, girei lentamente exibindo a larga angua de seda violeta. Um ve de encaixe me cobria o decote com uam serie de  furos. Cascatas iguais pendiam 
nos cotovelos me deixando os pulsos descobertos.
-  uma pena que no tenho as prolas de sua me - comentei recordando que as havia deixado com Brianna.
- Eu j tinha pensado isso - Como um mgico, Jamie tirou do bolso uma caixinha que me ofereceu com sua melhor reverencia, ao estilo de Versalles.
Continha um pequeno peixe lapidado em um material negro brilhante, com toques de ouro nas bordas das escamas.
-  um broche - explicou - mas podes coloc-lo no pescoo com uma fita.
-  lindo! - disse encantada -  de bano?
- De coral negro. O comprei ontem na baia de Montego - Junto com Fergus, havia levado o Artemis ao outro lado da ilha para entregar a carga de fertilizantes.
Busquei um pedao de fita acetinada, que Jamie me amarrou ao redor do pescoo; se inclinou por cima de meu ombro para me ver ao espelho.
- No, ningum me olhar - confirmou - A metade da concorrencia estar olhando para voce, Sassenach e a outra metade ao senhor Willoughby.
- O senhor Willoughby? No tem perigo? Porque... - Dei uma olhada no pequeno chines, que esperava pacientemente envolto emseda azul, e baixei a voz - Serviram vinho, 
no ?
Jamie assentiu.
-E tambm whisky, vinho do porto e champagne. E haver tambm um barril do melhor conhaque frances, por cortesia de Monsieur Etienne Marcel de Provac Alexandre. 
- Colocou a mo ao peito e voltou az inclinar-se em uma exagerada representao - No se preocupe. Willoughby prometeu se comportar bem se no irei tirar dele o 
seu globo de coral;
-  necessrio ir?
-  necessrio.- Me tranquilizou com um sorriso - Se tiver algum do Marsopa,no  provvel que me reconhea - Esfregou com vontade a peruca por cima da orelha esquerda. 
- De onde tiras-tes isto, Fergus? Acho que tem piolhos.
- Oh, no, milord. O cabelereiro me assegurou que estava bem guardada para protege-la de possveis pragas.
Fergus luzia sua prpria cabeleira bem cheia. Ainda menos chamativo que Jamie, estava muito bem com seu traje novo de veludo azul escuro.
Se ouviu uma batida na porta. Era Marselli, resplandecente com seu vestido rosa apertado por um tom mais intenso. Na realidade, no resplandecia somente pelo vestido. 
Me virei para murmurar em seu ouvido:
- Ests com azeite de atanasia?
- Ah? - sussurou com ar distraido, olhando a Fergus - Dizias...?
- No importa - disse resignada.
Esse era o menso de nossos problemas.
A manso do governador estava totalmente iluminada. Havia lamparinas penduradas ao longo da galeria e nas rvores que bordeavam os caminhos do jardim. Os apurados 
visitantes desciam de suas carruagens sobre uma vereda de conchas e entravam na casa por um par de enormes portas de cristal.
No hall estavam personalidades da ilha recebendo os convidados. Me adiantei a Jamie para saudar com um sorriso o alcaide de Kingston e sua esposa. O seguinte era 
uma almirante cheio de condecoraes que demonstrou um vago assombro ao estreitar a mo ao gigantes frances e o pequeno chines que me acompanhavam. Continuando se 
encontrava meu conhecido do Marsopa.
Mesmo esta noites Lord John tinha escondido seu cabelo loiro numa peruca formal, reconheci de imediato suas feioes finas e seu corpo leviano e musculoso. Estava 
sozinho, um pouco afastado dos outros dignatrios. Segundo os rumores, sua esposa tinha se negado a abandonar a Inglaterra para acompanh-lo a este destino. Se voltou 
para me saudar com uma expresso de cortesia formal, mas ao me ver um clido sorriso iluminou seu rosto.
- Senhora Malcolm! - exclamou me segurando as mos -  um prazer ve-la aqui!
- O sentimento  mtuo, acredita-me - Sorri - A ltima vez que nos vimos ignorava que fosses o novo governador. Temo no ter sido suficientemente correta.
Se pos a rir e pude observar como era charmoso.
- Tinhas uma desculpa excelente - disse - Esperava ve-la antes de desembarcar, mas quando perguntei por voce ao senhor Leonard me disse que estavas indisposta. Vejo 
que ests recuperada. Ests com um timo aspecto.
- Oh, por completo - lhe disse divertida. Ao que parece, Tom Leonard noe stava disposto a admitir que havia escapado - Me permitas apresentar meu esposo?
Vi Jamie avanando at ns. Quando me voltei de novo at o governador, ele nos olhava verde como um limo.
Jamie se deteve ao meu lado, inclinando graciosamente a cabea.
- John - saudou com suavidade - que alegria te ver.
O governador abria e fechava a boca sem emitir som algum.
- Mais tarde teremos a ocasio de falar - murmurou Jamie - Por agora...me chamo Etienne Alexandre. - Me segurou o brao com uma reverencia formal - Permita-me a 
honra de apresentar minha esposa...Claire - disse em frances em voz alta.
- Claire? - Lord John me olhava com os olhos desorbitados -Claire!
- ...sim - confirmei sem saber por que o meu nome de batismo o afetava tanto.
Os seguintes convidados esperavam. Passamos ao enorme salo principal cheio de pessoas barulhentas e chamativas; parecia uma jaula cheia de papagaios. Em um lado, 
prximo as portas abertas ao terrao, tocava uma pequena orquestra.
No conheciamos ningum nem tinhamos quem nos apresentasse. To pouco nos fez falta.Pouco depois de entrar, as mulheres comearam a agitar-se ao nosso redor, fascinadas 
pelo senhor Willoughby.
- Um conhecido meu, o senhor Yi Tien Cho - disse Jamie para uma rolia jovem envolta em cetim amarelo - originrio do Reino Celestial de la China, Madame.
- Oh! - A jovem agitou o abanador impressionada - Da China,  mesmo? Oh, A que distancia to grande deves ter percorrido! Bem vindo a nossa pequen ilha senhor...senhor 
Cho?
O senhor Willoughby se inclinou com as mos no interior das mangas e disse algo em chines. A jovem parecia emocionadssima. Jamie aproveitou a oportunidade para 
se presentar em um ingles com forte acento estrangeiro:
- Etienne Alexandre, aos seus servios, Madame. Permita-me apresentar Claire, minha esposa.
- Oh, sim, encantada! - A mulher me estreitou a mo, corada pelo entusiasmo - Sou Marcelline Williams. Eu vim passar uma temporada com meu irmo Judah, o dono de 
Twelve-trees.
- Temo que no conhecemos a ningum - me desculpe - Acabamos de chegar... da Martinica, onde meu esposo tem uma fazenda.
- Oh! - exclamou a senhora Williams- Os apresentarei aos meus melhores amigos, os Stephen!
Um hora depois me havia apresentado a dezenas de pessoas e ia de grupo em grupo. Ao outro lado do salo, entre um grupo de prsperos comerciantes, assomava a cabea 
e os ombros de Jamie, viva imagem da dignidade aristocrtica. fergus e Marsali, sem procurar mais companhias que a mtua, bailavam no outro extremo. Enquanto o senhor 
Willoughby, em triunfo sical sem precedentes, era o centro das atenes das senhoras, que rivalizavam em oferecer-lhe comidas e bebidas. Seus olhos brilhavam e um 
leve rubor se apreciava em suas bochechas.
O rechonchudo plantador ingles com quem havia bailado me deixou com um grupo de senhoras e se ofereceu galantemente em me trazer uma taa de vinho. Ento voltei 
a minha misso daquela noite: informar-me sobre os Abernathy.
- Abernathy? - A senhora Hall, uma matrona ainda jovem, se abanou xom ar inexpressivo - No, no creio que os conhea. Sabes se tem muita vida social?
- Oh, no, JOan! - A senhora Yoakum demonstrou esse tipo de horror que precede as revelaes mais interessantes - Claro que sabe quem so os Abernathy! No se lembra? 
O homem que comprou Rose Hall, junto ao rio Yallahs.
- Ah, sim! - A senhora Hall alargou seus olhos azuis - Ele que morreu pouco depois de casar-se!
- Ele mesmo - interveio outra senhora - Disseram que foi malria, mas eu falei com o mdico que o atendeu. Veio em minha casa para ver a perna enferma de mame; 
s um mrtir da hidropesia, pobre. E me disse, em estrita confidencia, claro...
As linguas se soltaram alegremente. O informante de Rosie MacIver tinah sido muito fiel.
- A senhora Abernathy, emprega pessoas contratando como servidores, alm dos escravos?
Enquanto isso, as opinies foram mais confusas. Algumas achavam que a mulher tinha vrios servidores embaixo contrato; outras, que era somente um ou dois. Na realidade, 
ningum tinha estado em Rose Hall, mas as pessoas comentavam...
Posu depois, quando a fofoca tomou outra direo, me desculpei para me retirar na habitao das damas. Me doiam os ouvidos. At aquele momento no havia descoberto 
nada novo sobre a plantao dos Abernathy, mas contava com uma lista das plantaes prximas que contratavam servidores. O que mais me preocupava era a reao de 
Lord John ao conhecer minha identidade; qualquer um haveria dito que tinha visto um fantasma.
Depois de piscar sedutoramente a minha prpria imagem no espelho, arrumei o cabelo e voltei ao salo, rumo as largas mesas onde se encontrava a comida. Quando me 
afastava de uma levando distraidamente um prato de frutas, choquei com um jaleco de cor escura. Ao desculpar-me ante seu proprietrio, cheia de confuso, me encontrei 
frente a frente com a azeda cara do reverendo Archibald Campbell.
- Senhora Malcolm!@ - exclamou atnito.
- Ah...que surpresa, reverendo Campbell - respondi debilmente.
Olhou com frieza meu decote.
- Confio em que estejas bem, senhora Malcolm.
- Sim, obrigada. - Tomara que deixe de me chamar senhora Malcolm; podia ouvir algum que me conheceu como Madame Alexandre" - Lamento muito sobre a sua irm - disse 
com a esperana de distra-lo - Tens sabido algo dela?
- No. E minhas possibilidades de iniciar uma busca so limitadas. Estou aqui com a inteno de apresentar meu caso ante o governador.
- A senhorita Cowden me contou ago sobre a tragdia de vossa irm, reverendo. Se pudesse ter ajudado...
- Ningum pode ajud-la - me interrompeu com olhos tristes - Foi culpa desses catlicos dos Stuart e dos libertino montanheses que os seguiam. No, nigum pode ajudar, 
exceto Deus. Ele tem destruido a casa dos Stuart e destruir tambm a esse Fraser e, quando isso ocorrer, minha irm estar curada.
- Fraser? - Comeava a me inquietar.Dei uma olhada pelo salo mas Jamie, afortunamente, noe stava a vista.
- Assim se chama o homem que seduziu a Margaret, afastando-a de sua famlia e das alianas estipuladas. Sim, Deus julgar James Fraser.
- Oh, no dvido - murmurei - Se me desculpas, me parece que eu v um amigo...
- Deus no permite que a luxria perdure eternamente - prosseguiu o reverendo.
Seus olhos cinzas se pousaram com glacial desaprovao em um grupo prximo: vras senhoras se agitavam em torno do senhor Willoughby como borboletas ao redor de 
uma campnula chinesa.
- As mulheres devem se comportar com sobriedade - entonou o reverendo - evitando chamar a ateno com suas roupas e seus peitos. Olha a senhora Alcott, uma viva 
que deveria estar dedicada as obras caridosas!
Seguindo a direo de seus olhos, v uma mulher gorda de uns trinta anos com cabelos castanhos e aspecto alegre, que ria infantilmente junto ao senhor Willoughby, 
o qual, de joelhos no cho, fingia procurar um pendente perdido, provocando gritos de alarme na senhora Alcott cada vez que se aproximava a seus ps. Pensei em procurar 
Fergus para que afastasse ele dali antes de que as coisas fossem muito longe.
Obviamente ofendido pelo espetculo, o reverendo deixou bruscamente sua limonada e andou at o terrao, abrindo passos com vigorosas cotoveladas. Rapidamente v 
a silhueta de Jamie que cruzava uma porta aooutro lado do salo; provavelmente ia as habitaes privadas do governador. Fui me reunir com ele.
O corredor estava em silencio; um tapete turco apagava o ruido de meus passos. Adiante percebi um murmrio de vozes masculinas, provenientes do que devia de ser 
o escritrio do governador. Ouvi a voz de Jamie.
- Oh, JOhn, por Deus!
Me detive em seco, no to impressionada por suas palavras como pelo tom de sua voz, derrotada por uma emoo desconhecida para mim. A porta entre aberta mostrava 
Jamie que, com a cabea inclinada, estreitava a Lord John Grey em um abrao.
Permaneci imvel, totalmente incapaz de falar nem de fazer nada. Eles se separaram. Jamie estava de contas para mim, mas lord John me haveria visto com facilidades 
se no tivesse os olhos fixos em Jamie com uma paixo que fez meu sangue subir pelas bochechas.
Me caiu o leque. O governador girou a cabea, sobressaltado pelo ruido. Ento me pus a correr at o salo. com o corao saindo-me do peito.
Me detive atrs de uma palmeira, tremendo.Tinha as mos frias e me sentia um pouco descomposta. Que diabo estava acontecendo?
"Era o alcaide da priso de Ardsmuir", haba dito Jamie. E em outra ocasio: "Sabes o que fazem os homens encarcerados?"
Eu sabia, mas tinha jurado pela vida de Brianna que Jamie era incapaz de fazer em qualquer circunstancia. No obstante, se sua relao com Grey era somente amizade, 
por que no me havia falado dele? Por que ficou to incomodado para ve-lo, ao saber que estava na Jamaica? Me senti mareada. Necessitava me sentar.
Ento se abriu a porta e o governador saiu, de regresso a festa. Estava ruborizado e com os olhos brilhantes. POuco minutos depois voltou a abrir para dar passo 
a Jamie. Havia recuperado sua mscara de fria reserva, mas pude detectar embaixo dela uma forte emoo. Comeou a passear pelo salo procurando algum. A mim.
Traguei saliva com dificuldade. No podia enfrentar ele diante dde tanta gente. Permaneci onde estava, observando-o, at que saiu ao terrao. Ento abandonei meu 
esconderijo para ir a toda velocidade at a habitao das damas.
Atrs da porta, me relatou imediatamente o aroma reconfortante dos ps e pefumes. Pouco depois percebi outro cheiro familiar de minha profisso. No esperando ali.
Mina Alcott jazia esparramada no div de veludo vermelho, com a cabea pendurada e as anguas elevadas at o pescoo. Tinha os olhos abertos e fixos. O sangue do 
corte que tinha no pescoo havia  enegrecido ao veludo e formava um grande charco embaixo da cabea.
Fiquei petrificada, sem poder sequer gritar para pedir ajuda. Ouvi vozes aegres no corredos e a porta se abriu. Houve um momento de silencio. Em pouco tempo comeou 
os gritos. Ento v as pegadas de pisadas que iam at a janela: era de um p calado de feltro, pquenos, ntidos e desenhados pelo sangue.










CAPTULO 59
ONDE  MUITO REVELADO

Tinham levado a Jamie. A mim tinham deixado, tremendo, no escritrio do governador junto a Marsali, que tratava de refrescar-me a face com uma toalha mida mesmo 
com a minha resistncia. 
-No podem crer que papai teve algo a ver com isto! -repetiu pela quinta vez. Por fim me dominei o suficiente para responder. 
-No, acham que foi o senhor Willoughby. E foi Jamie quem o trouxe. 
-O senhor Willoughby? -Olhava-me com horror. -No  possvel! 
-Isso  o que eu acho tambm. - Disse olhando a grande escrivaninha. Ainda podia ver a Jamie e lorde John como se estivessem pintados na parede. -No, no creio 
-disse em voz alta, sentindo-me ligeiramente melhor.
-Eu tambm no -assegurou Marsali. - um pago, mas convivemos com ele e o conhecemos... Ou conhecamos? Conhecia a Jamie? Teria jurado que sim, e no o bastante... 
-No, no estou errada -murmurei. Se Jamie era o amante de lorde John, ento no era nem por acaso o homem que eu conhecia. Tinha que ter outra explicao, sem dvida. 
Passei uma mo pelo rosto, tratando de aliviar a confuso e o cansao. -Esto demorando muito. 
O relgio de parede marcava duas da manh quando Fergus entrou no escritrio junto a um militar.
-J podemos ir, chrie -disse a Marsali baixinho. E voltando-se a mim. -Quer vir conosco, milady, ou esperar a milord? 
-Esperarei -disse. No pensava deitar-me sem ver a Jamie.
-Vos enviarei a carruagem - prometeu pegando a Marsali pelos ombros. 
Uma hora depois entrou o governador, to formoso como uma camlia branca, ainda que comeasse a murchar pelas bordas. Deixei a taa de conhaque intacta e me pus 
em p. 
-Onde est Jamie? 
-Ainda o esto interrogando. - Deixou-se cair em sua cadeira, desconcertado. - Ignorava que dominasse to bem o francs. 
-Suponho que no o conheces o suficiente -observei jogando um verde. 
-Acreditas que ser capaz de representar o papel at o final? -perguntou-me. Ento me dei conta da pouca ateno que eu prestava ante o assassinato ocorrido e a 
situao de Jamie. -Sim. -assegurei. -Onde o mantm? 
-Na sala de reunies, mas no creio que devas...
Sem prestar-lhe ateno, fui  ao corredor, mas tive que voltar rapidamente batendo a porta. Por ali se aproximava o almirante que tnhamos visto  entrada, acompanhado 
por uma patrulha de oficiais jovens entre os quais reconheci  Thomas Leonard. Procurei freneticamente onde me esconder, mas no tinha nenhum lugar adequado. O governador 
me observava com as loiras sobrancelhas arqueadas pelo assombro. Voltei-me para ele, levando um dedo aos lbios. 
-No me denuncies se aprecias a vida de Jamie! -sussurrei de modo melodramtico. Dito isto me atirei no sof, cobri a face com uma toalha mida e relaxei todos os 
membros. Depois ouvi o rudo da porta e a voz do almirante.
-Lorde John... -Ento reparou em minha silhueta. -Oh, vejo que tens companhia.
-No  precisamente companhia, almirante. -Tinha que reconhecer que Grey tinha bons reflexos. Parecia completamente dono de si. -A senhora no resistiu a impresso 
de ver um cadver. 
-Ah! -A voz do almirante se tornou compreensiva. -Um golpe horrvel para uma senhora, sem dvida -disse sussurrando. -Dorme, talvez?
-Suponho que sim - lhe assegurou o governador. -Bebeu conhaque suficiente para tombar um cavalo. 
-Oh,  o melhor para estes casos. Queria dizer-vos que mandei trazer tropas de Antiga... a vossa disposio... guardas para revisar a cidade... se os milicianos 
no o encontrarem primeiro. Estarei na cidade, no hotel de MacAdams. No vacile em me chamar se precisar de ajuda, Excelncia -sussurrou.
Com um murmrio geral, os oficiais se retiraram, respeitando meu sonho. Foi feito um momento de silncio. 
-J pode se levantar. Suponho que no estas realmente prostrada pelo golpe -adicionou com ironia. -No creio que baste um simples assassinato para acabar com uma 
mulher que foi capaz de enfrentar sozinha a uma epidemia de tifo. 
Tirei a toalha da cara, incorporando-me para olh-lo. Estava apoiado na escrivaninha, com o queixo entre as mos. 
-H golpes e golpes -disse olhando-o fixamente. -No sei se me entendes. Ficou surpreso, mas depois pareceu entender. Abriu uma gaveta para tirar meu leque. 
- seu? Encontrei-o no corredor. -Torceu a boca com ironia.-J entendo. Ento podes compreender a impresso que sofri ao ver-los esta noite. 
-Duvido-o muito - disse -No sabia que Jamie era casado? 
-Ele me disse (ou ao menos, deu-me a entender) que tnhas morrido. Ele nunca falou de mim? 
Ao meu pesar, senti pena por ele.
-Sim. Disse-me que eram amigos. Seu rosto iluminou ligeiramente. 
-Verdade? 
-Tens que entender -expliquei -Ele... eu... A guerra nos separou, o Levantamento. Cada um achou que o outro tinha morrido. Reencontramo-nos faz ... Por Deus, s 
fazem quatro meses? Na cara de Grey se apagou um pouco a tenso.
-Compreendo - disse lentamente -Assim no o via desde faz... Caramba, vinte anos! -Olhou-me estupefato. -Quatro meses? Por que... como...? -Sacudiu a cabea para 
descartar as perguntas. -Bem, isso no vem ao caso. Mas ele no te contou... isto ... No falou de Willie? 
-Quem  Willie?
Abriu uma gaveta da escrivaninha e tirou um pequeno objeto, indicando-me que me aproximasse. Era um retrato, uma miniatura oval com moldura de madeira escura. Ao 
ver aquela cara, meus joelhos se dobraram e tive que me sentar. "Poderia ser irmo de Bree", foi meu primeiro pensamento. O segundo foi como um golpe no plexo solar: 
"Deus,  irmo de Bree!" No restava dvida. O menino do retrato tinha nove ou dez anos e seu cabelo no era vermelho, mas sim castanho. Mas os olhos azuis e enviesados 
olhavam com audcia acima dos altos pmulos de viking. O nariz era reto e  talvez muito longo. A cabea tinha o mesmo porte confiado do homem de quem tinha herdado 
essa cara. Grey me observava com simpatia.
-No sabia? -perguntou. 
-Quem...? -a surpresa me tinha emudecido. Tive que pigarrear. -Quem  a me? Grey vacilou e se encolheu de ombros. 
-Era. Morreu.
-Quem era? 
-Chamava-se Geneva Dunsany. Era irm de minha esposa. A cabea me dava voltas tratando de encontrar sentido ao que acabava de dizer. 
-Tens esposa! -exclamei, olhando-o com os olhos desorbitados. Suponho que meu tom no foi muito diplomtico. Apertou os olhos enrubescido.
-Explica-me de uma vez que diabos tens a ver com Jamie, com essa tal Geneva e com este menino -disse recolhendo o retrato. 
-No creio ter nenhuma obrigao -observou, outra vez frio e reservado. Tive que respirar fundo vrias vezes para me acalmar. 
- verdade. Mas ficaria muito agradecida. Por que me mostrou este retrato se no queras que eu soubesse? Jamie pode contar-me o resto. E voce pode me contar a sua 
parte agora. Temos tempo. 
-Suponho que sim. -Desviou a mo para a garrafa. -Voc quer conhaque?
-Por favor -disse de imediato. -E sugiro que tambm beba. Creio que o precise tanto quanto a mim. 
- uma opinio mdica, senhora Malcolm? -perguntou com um sorriso. 
-Claro. Estabelecida a trgua, recostou-se em seu assento. -Disse que Jamie tinha falado de mim. -Devo ter feito alguma careta ao ouvir-lhe pronunciar o nome, pois 
franziu o cenho -prefere que utilize o sobrenome? Francamente, no saberia qual usar. 
-No.  verdade que te mencionou. Disse que tinha sido o alcaide de Ardsmuir e que podia confiar em sua pessoa.
-Me alegro saber - disse com suavidade. -Nos conhecemos em Ardsmuir. Quando a priso foi fechada e os internos foram enviados a Amrica, dispus que Jamie pudesse 
permanecer, sob palavra, numa fazenda inglesa de propriedade de uns amigos de minha famlia. -Olhou-me vacilante. 
-No suportava a idia de no voltar a v-lo. 
Em poucas palavras, me falou sobre a morte de Geneva e o nascimento de Willie. 
-Estava apaixonado por ela? -perguntei. 
-Nunca me disse, mas tendo conhecido a Geneva, eu duvido. -Torceu a boca num gesto irnico. -Corriam certos rumores sobre ela e seu ancio esposo. Quando Willie 
atingiu os quatro anos o parecido era evidente... para quem quisesse v-lo. -Bebeu um longo trago de conhaque. -Suspeito que minha sogra o saiba, mas jamais dir 
uma palavra.
-Porqu? 
-Que preferiria para vosso nico neto: que fosse conde e herdeiro de uma rica propriedade ou o filho bastardo de um presidirio? 
-Entendo. 
-Jamie tambm entendeu -disse Grey. -E teve a prudncia de abandonar a zona antes de que todo mundo se desse conta. 
-Foi ento quando voltou a entrar em cena, verdade? Com os olhos fechados, fez um gesto afirmativo. 
-Assim foi. Jamie me entregou o menino.
O estbulo de Ellesmere era clido no inverno e fresco no vero. 
-Isabel est muito chateada contigo -disse Grey. 
-De verdade? -disse Jamie com indiferena. 
-Willie est muito alterado. Passou o dia chorando. No teria sido melhor no lhe dizer que partiria? 
-Suponho que sim... para lady Isabel.
-Jamie... -Grey lhe apoiou uma mo no ombro. - Ests certo em ir. Nos olhos de Fraser se acendeu o alarme, rapidamente suplantada por cautela. 
-Voc  acha mesmo? 
- evidente. Se algum prestasse ateno aos moos do estbulo, isto j teria sido descoberto h muito tempo. 
-Deu uma olhada ao potro baio -H sementes que deixam seu sinal. Tenho a impresso de que teus descendentes so inconfundveis. Fraser se voltou, olhando-o com deciso. 
-Me acompanhas em um passeio?
Saiu do estbulo sem esperar resposta. Deteve-se num claro ensolarado enfrentando a Grey sem prembulos. 
-Quero pedir-te um favor. 
-Se temes que o diga a algum... - comeou o ingls. 
-No. -Um sorriso curvou a boca de Jamie -Sei que no far isso. Mas quero pedir-te... 
-Sim-respondeu Grey imediatamente. 
-No queres saber primeiro do que se trata? 
-Imagino-o: queres que cuide de Willie e que te comunique como ele est. 
Jamie lanou um olhar  casa, meio oculta entre os arcos. 
-Seria muito incomodo que viesses at Londres para v-lo de vez em quando? 
-Em absoluto. Tenho que te dar uma notcia. Vou me casar. 
-Casar? -A surpresa de Fraser foi evidente.-Com uma mulher?
-No creio que tenha muitas opes -replicou azedo o ingls. -Com lady Isabel. 
-Por Deus, homem! No podes fazer isso!
-Posso -o tranqilizou Grey com uma careta. -Em Londres pus a prova minha capacidade; serei um esposo adequado, acredite-me. No  necessrio desfrutar do ato para 
poder execut-lo. J o deves saber. Jamie abriu a boca e voltou a fech-la, pensando melhor. 
-Dunsany  muito velho para seguir administrando a fazenda - explicou John -, Gordon morreu, Isabel e sua me no podem se manter sozinhas e nossas famlias se conhecem 
h muitos anos.  uma aliana muito conveniente. 
- mesmo? -comentou Jamie com cepticismo.
-De verdade -contestou Grey spero. -O casal no  s amor carnal. Existe bem mais do que isso. O escocs se afastou voltando-lhe as costas. Grey aguardou com pacincia 
at que Fraser voltou cabisbaixo. 
- verdade -reconheceu baixinho. -No tenho direito de pensar mal de ti se no tens intenes de desonrar a garota. 
-Mas claro que no -assegurou John. -Ainda mais, isso significa que estarei permanentemente aqui para cuidar de Willie. 
-Renunciars ao exrcito? 
-Sim. -Sorriu com certa melancolia. -Em certo modo, ser um alvio. Creio que no sou apto para a vida militar. 
-Nesse caso, te agradeceria que atuasses como padrasto de... de meu filho. -Provavelmente era a primeira vez que dizia essa palavra em voz alta. O som pareceu impression-lo 
-Lhe ficaria... muito agradecido.
Grey o olhou com curiosidade, notando que sua tez ia tomando um tom avermelhado. 
-Em troca... se quiser... Isto , estaria disposto a... Dominando um sbito riso, apoiou a mo no brao do escocs e notou que este fazia autnticos esforos para 
no o retirar.
-Meu querido Jamie -disse entre o riso e a exasperao-, me ests oferecendo teu corpo em troca de que te prometa cuidar de Willie? Fraser tinha enrubescido at 
a raiz do cabelo. 
-Sim -disse com os lbios tensos. -Queres ou no? 
Grey no pde conter a gargalhada. 
-Oh, Deus -disse por fim-, o que tenho vivido para escutar isto!
Acreditou ver um vago gesto de humor e profundo alvio naquela cara avermelhada. 
-No me quer? 
- provvel que te queira at o dia de minha morte -disse Grey objetivamente. -Mas apesar da tentao... -Sacudiu a cabea. -Achas que poderia aceitar algum pagamento 
por esse favor? Na realidade, me sentiria ofendido por esse oferecimento se no fosse porque compreendo o fundo sentimento que o inspira. 
-No era minha inteno ofender-te -murmurou Jamie. Grey no sabia se ria ou chorava. Tocou-lhe suavemente a bochecha, que j ia recobrando seu claro tom bronzeado. 
-Alm disso -disse baixando a voz-, no podes dar-me o que no tens. 
Jamie, mais descontrado, disse suavemente: 
-Posso dar-te minha amizade, se tem algum valor para ti. 
-Um enorme valor. -Guardaram silncio durante um momento. Por fim Grey soltou um suspiro. -Est perdendo seu tempo. Suponho que hoje tens muito o que fazer. 
Jamie pigarreou. 
-Sim. Deveria estar ocupando-me de meus assuntos. Grey arrumou o colete preparando-se para voltar, mas Jamie se atrasava. De repente, decidido, aproximou-se um passo. 
John sentiu aquelas mos grandes e quentes em sua cara e a boca larga e suave de Jamie tocou a sua. Teve uma fugaz impresso de ternura, de fora contida e sabor 
de cerveja e po recm sado do forno. Desapareceu naquele momento. John Grey ficou piscando sob o sol intenso.
O governador calou-se. Depois levantou os olhos com um triste sorriso. 
-Essa foi a primeira vez que me tocou por vontade prpria -disse baixinho. -E a ltima... at esta noite, quando lhe dei a outra cpia do retrato. 
Tinha ficado completamente imvel, com a taa de conhaque esquecido na mo. No estava segura do que sentia: surpresa, fria, horror, cimes e compaixo; em ondas 
sucessivas. Fazia poucas horas, uma mulher tinha morrido violentamente a pouca distncia e, no entanto, aquela cena parecia irreal comparada com o pequeno retrato. 
O governador me estudava atenciosamente.
-Deveria ter-te reconhecido no barco -disse. -Claro que acreditava estar morta. 
-Bem, estava escuro -disse estupidamente. Ento me dei conta. -Reconhecer-me? Como, se jamais tinha me visto? 
Ele vacilou. 
-Recorda-se de um bosque escuro, cerca de Carryarrick, h vinte anos? E a um jovem com o brao quebrado? Voc me curou. 
-Por todos os santos... -Bebi um trago de conhaque que me fez tossir. Olhei-o, piscando com os olhos cheios de lgrimas. 
-Nunca tinha visto os peitos de uma mulher -comentou. -Foi um verdadeiro golpe. 
-Do que parece ter-se reposto -observei friamente. -Pelo visto, perdoastes a Jamie pela fratura do brao e por ameaa-lo de morte.
Passamos um momento em silncio, sem saber o que dizer. Ele mantinha os olhos fixos em suas mos. 
Por fim disse suavemente: 
-Sabe o que significa amar a algum e no poder oferecer-lhe paz, alegria ou felicidade?-Levantou a cabea; seus olhos estavam cheios de dor. -No poder fazer-lhe 
feliz, no por culpa sua ou dele, seno s porque no , por nascimento, a pessoa adequada?
 -Eu sei, sim -murmurei apertando as mos no colo. "Oh, Frank -pensei-, perdoa-me." 
-Suponho que eu estou perguntando se existe a fatalidade -prosseguiu lorde John com a sombra de um sorriso revolto na cara.-Parece a pessoa mais indicada para dizer-me. 
-Isso lhe parece verdade? -reconheci com tristeza -Mas no sei mais do que voce.
Sua expresso se suavizou ao contemplar o retrato que sustentava na mo. 
-Talvez tenha sido mais afortunado do que a maioria -sussurrou. -S aceitou uma coisa de mim. E em troca me deu algo precioso. Sem dar-me conta pus os dedos sobre 
o ventre. Jamie me tinha dado o mesmo dom... pagando a troca a um custo igualmente enorme. No corredor se ouviu rudo de pisadas amortecidas pelo tapete. Depois 
de um rijo golpe na porta, um miliciano assomou a cabea. 
-Se a senhora j est reposta, o capito Jacobs concluiu seu interrogatrio e a carruagem de Monsieur Alexandre est esperando. Levantei-me precipitadamente.
-Estou bem. -Voltei-me para o governador sem saber o que dizer-lhe. -Agradeo... isto que... Fez-me uma reverncia formal. 
-Lamento muitssimo que tenha tido que passar por uma experincia to desagradvel, senhora -disse diplomaticamente. J na soleira da porta me voltei por um impulso. 
-Aquela noite, a bordo do Marsopa... me alegro que no sabias quem  eu era. Aprecio-o... desde ento.
-Eu tambm vos aprecio -disse perdendo a mscara diplomtica. -Desde aquele momento. Era como se viajasse junto a um desconhecido. 
No cu comeava a clarear, fazendo visvel, em exceto  penumbra da carruagem, o cansao na cara de Jamie. 
-Achas que foi ele? -perguntei s para dizer algo. Encolheu os ombros sem abrir os olhos.
-No sei. -Parecia exausto. -Esta noite me perguntei isso mil vezes... e me  perguntaram muitas mais. No posso imaginar-lhe fazendo algo assim. E no entanto... 
j sabes que quando est bbado  capaz de qualquer coisa. No seria a primeira vez que mata nesse estado. Recordas, no bordel? Mas isto  diferente. Se essa tal 
senhora Alcott esteve brincando com ele... 
-Fez -disse-Eu a vi. 
-S Deus sabe. Eu no. -Passou uma mo pela cabea. -H algo mais. Fui obrigado a dizer que mal conhecia a Willoughby, que nos conhecemos na viagem da Martinica 
e o trouxe por cortesia, sem saber de onde vinha ou que tipo de pessoa era. 
-E acreditaram nisso?
-Sim. Mas o paquete volta dentro de seis dias. Quando interrogarem ao capito, descobriro que nunca tinham visto a Monsieur Etienne Alexandre nem a sua esposa e 
muito menos a um pequeno assassino amarelo. 
-Isso poderia ser bastante incmodo -observei. -Este assunto est pondo a gente na contramo. 
-Pior ser se passar seis dias sem  que o tenham encontrado -me assegurou. - Ento j se saber em Kingston quem so os visitantes do casal Maclvers. Todos seus 
serventes conhecem nosso nome.
-Merda! 
Isso o fez sorrir. 
-Muito expressiva, Sassenach. Isso quer dizer que temos seis dias para encontrar a Ian. Chegamos a Blue Mountain House sem falar e caminhamos na ponta dos ps at 
nosso dormitrio.
As revelaes de John Grey tinham despejado a maior parte de minhas dvidas e temores; no obstante, ficava em p o fato de que Jamie no tinha me contado de seu 
filho. Tinha bons motivos para mant-lo em segredo, mas no acreditava que ele fosse capaz de guardar segredo? Me ocorreu que talvez o tivesse feito pela me, que 
talvez a tivesse amado. Engoli o n que sentia na garganta, reunindo coragem para perguntar-lhe. 
-Em que pensas? -perguntei por fim. 
-Me ocorreu algo -disse contemplando a lagoa. -Com respeito a Willoughby. Ao princpio me parecia impossvel que ele o tivesse feito, mas... -Voltou-se para mim, 
atribulado. -Estava s, muito s. Num pas desconhecido -disse baixinho. -Quando um homem est to s... talvez seja indecente diz-lo, mas fazer amor com uma mulher 
pode ser a nica maneira de esquecer. Por isso me casei com Laoghaire. No foi por insistncia de Jenny, nem por piedade por ela e as pequenas, nem to sequer por 
deitar-me com ela. Foi para esquecer que estava s. 
Voltou-se para a janela, inquieto. 
-Se o chins procurava isso... e ela o recusou... talvez possa t-lo feito. Calamos durante vrios minutos. No sabia como levar a conversa para o que tinha visto 
e ouvido na casa do governador. Na cara de Jamie tinha sinais de cansao mas tambm a mesma deciso de antes de iniciar uma batalha. 
-Claire -disse. 
Pus-me rgida. S nos momentos mais graves me chamava por meu nome. -Claire, devo te dizer algo.
- O que?  
Agora no queria ouvi-lo. Quis me afastar dele mas me segurou pelo brao e me ps algo na mo. Sem olh-lo, soube de que se tratava.
-Claire... tenho um filho. 
Abri a mo sem dizer nada. Era a mesma cara que tinha visto no escritrio de Grey: uma verso infantil do homem que tinha ante mim. 
-Deveria ter-te dito antes. -Estudou-me o rosto, tratando de adivinhar o que eu sentia. Por uma vez, meu traioeiro semblante deve ter permanecido completamente 
inaltervel.
-No o disse a ningum. Nem sequer a Jenny. 
-Jenny no sabe? -disse sobressaltada.
Sacudiu a cabea. 
-Foi na Inglaterra. ... no podia dizer que era meu.  bastardo, compreendes? -quisera fosse o sol o que lhe avermelhava as bochechas. -No o vejo desde que era 
pequeno e no creio que volte a v-lo. 
Pegou-me o retrato e o acalentou na palma de sua mo como se fosse a cabea de um beb. -Tinha medo de dizer-te -reconheceu baixinho. -Podias pensar que eu tinha 
engendrado bastardos por todas partes e que no me interessaria tanto por Brianna se tivesse outro filho, mas a quero bem mais do que posso expressar. -Levantou 
a cabea para olhar-me de frente. 
-Me perdoa? 
-Ela...? -As palavras me sufocavam, mas devia pronunci-las. -Voc a amava? 
Sua cara se encheu de tristeza.
-No -disse baixinho. -Ela... me desejava. Devia ter procurado o modo de dissuadi-la, mas no pude. Quis que me deitasse com ela e o fiz e... isso a levou  morte. 
Ento baixou a cabea, ocultando os olhos sob suas longas pestanas. 
-Sou culpado ante Deus de sua morte, talvez mais culpado porque no a amava. 
Sem dizer nada, levantei uma mo para tocar-lhe a bochecha. 
-Como ? -perguntei suavemente. 
-Teu filho. 
Sorriu sem abrir os olhos.
-Teimoso e malcriado; com maus modos; grita e tem mau carter. -Engoliu saliva. -E  formoso, alegre e forte -concluiu baixinho. 
-E teu -adicionei. 
Apertou-me a mo. 
-E meu. 
-Deverias ter confiado em mim -disse.
-Talvez. Mas no sabia como contar-lhe tudo: sobre Geneva, sobre Willie e John... Sabes sobre o John? -Franziu o cenho mas se tranqilizou ao ver que assentia. 
-Ele me contou tudo. 
-Quando descobriste sobre Laoghaire, como podes explicar-te a diferena? 
-Que diferena? 
-Geneva, a me de Willie, queria meu corpo -explicou suavemente. -Laoghaire, meu sobrenome e o trabalho de minhas mos como sustento. John... bom. -Encolheu-se de 
ombros. -Nunca pude dar-lhe o que desejava... e como  um bom amigo, no me pediu. Mas como posso explicar-te tudo isto e depois dizer-te que s amei a ti? Que devo 
fazer para que me acredites? 
-Se assim me diz, eu acredito em voce.
-Jura? Por que? -disse atnito. 
-Porque s um homem sincero, Jamie Fraser -respondi, sorrindo para no chorar. -E que o Senhor tenha piedade de ti. 
-S a voce -repetiu baixinho. -Para adorar-te com meu corpo e com minhas mos. Para dar-te meu sobrenome e toda minha alma. S a voce. Porque no me deixas mentir... 
e mesmo assim me amas. S ento o toquei, apoiando-lhe uma mo no brao.
-J no ests s, Jamie. 
Segurou-me pelos braos, olhando-me no rosto.
 -Te jurei quando nos casamos .-disse-Ento eu no sentia, mas jurei... e agora eu sinto.
"Sangue de meu sangue"... -sussurrei juntando meu punho com o seu. 
-"Carne de minha carne". - Seu murmrio soou grave e sensual. Ajoelhou-se ante mim para pr suas mos cruzadas entre as minhas; era o gesto com o que os escoceses 
das Terras Altas juram lealdade a seus chefes. 
-Dou-te meu esprito -acrescentou com a cabea inclinada. 
-At o final de nossas vidas -completei suavemente. -Mas no terminou ainda, Jamie, no ? 
Ento se incorporou para tirar-me a camisa. Estendi-me nua na cama atraindo-o para mim. Nenhum dos dois esteve s.
















CAPTULO 60 

O AROMA DAS PEDRAS PRECIOSAS

Rose Hall se encontrava a quinze quilmetros de Kingston. O caminho que subia at as montanhas azuis era uma serpenteante trilha, empinada e cheia de poera avermelhada, 
invadida pelas ervas e to estreita que tivemos que percorrer uma por trs da outra a maior parte do trajeto. Eu seguia a Jamie pelo escuro e nos tneis perfumados 
de ramos, sob cedros que atingiam os trinta metros de altura. Mesmo  intensa procura que realizava na cidade a milcia da ilha, no tinham encontrado o senhor Willoughby 
e naquele momento se esperava a chegada de um destacamento especial da Marinha, enviado desde a Antiga. Enquanto, as casas de Kingston permaneciam fechadas como 
abbadas bancrias e seus proprietrios armados at os dentes.
A cidade tinha um aspecto perigoso e tanto os oficiais da Marinha como o coronel da milcia opinavam que, se o chins fosse capturado, dificilmente sobreviveria 
para chegar  forca. Esta questo continuava preocupando a Jamie, mas no podamos fazer nada. Se era inocente no podamos salv-lo e se era culpado, tambm no 
podamos entreg-lo. Nossa esperana radicava em que no fossem capazes de encontr-lo. E enquanto isso contvamos com cinco dias para encontrar a Ian. Se estava 
em Rose Hall, tudo sairia bem. E se no... Uma cerca e um pequeno porto separavam a plantao da floresta circundante. No interior tinham substitudo o mato por 
cana de acar e caf. A certa distncia da casa se levantava um prdio que parecia ser a refinaria. A grande imprensa de acar, de aspecto primitivo, no estava 
em funcionamento. Em cima tinha dois ou trs homens.
-Como transportam o acar desde aqui? -perguntei- Nos lombos de uma mula? 
-No -respondeu Jamie distrado- Em barcaas, aproveitando a descida do rio. Pronta, Sassenach? 
Rose Hall era uma casa de duas plantas, longa e de grandes propores; o teto no era de chapa, sim de uma cara ardsia. Junto  porta principal crescia um grande 
roseiro amarelo, cujo perfume dificultava a respirao. Enquanto espervamos que nos atendessem olhei a meu arredor, tratando de divisar alguma silhueta de pele 
branca prxima da refinaria. 
-Sim, senhor? -Uma escrava madura tinha aberto a porta e nos olhava com curiosidade. 
-Somos o senhor Malcolm e a senhora Malcolm. Nos agradaria ver  senhora Abernathy -disse Jamie corts.
A mulher pareceu desconcertada. No deviam de receber visitas habitualmente; finalmente abriu a porta. 
- Passe ao salo, por favo, sinalizou. Vou perguntar a ama se pode receber. 
A ampla habitao estava ilumiada por enormes janelas que se abriam em um lado. A parede do fundo estava quase totalmente ocupada pela chamin, uma enorme estrutura 
com estante de pedra. Tinha cadeires de vime e cana com grandes forros. No parapeito de uma das janelas se alinhavam segundo o tamanho vrias campainhas de prata. 
Na mesa lateral vi um grupo de figuras de pedra e esculturas que pareciam fetiches ou dolos primitivos em forma de mulher grvida, de uma sensualidade perturbadora; 
ainda que aquela no era uma poca muito moralista quanto ao sexo, tambm no era habitual encontrar semelhantes objetos num salo. As relquias jacobitas, em mudana, 
resultavam mais ortodoxas e alentadoras: se a dona da casa simpatizava com os Stuart, talvez estivesse disposta a ajudar a um compatriota escocs.
Soou um rudo de pisadas que se aproximavam pela porta que tinha junto ao lar, e a dona da casa entrou no salo. Pus-me em p de um salto e Jamie soltou um rosnado, 
como se tivesse recebido um golpe; a impresso fez que a xcara de prata que eu tinha na mo casse no cho. 
-Vejo que conservas a imagem, Claire. -Olhava-me com a cabea inclinada e olhos divertidos. 
Ainda que a surpresa me impedia de falar, no teria podido dizer o mesmo dela. Geillis Duncan sempre tinha tido peitos volumosos e curvas abundantes. Ainda conservava 
a pele densa, mas suas dimenses se tinham voltado bastante mais generosas. Vestia uma folgada tnica de muselina sob a qual se apreciava o movimento das carnes 
macias. Seus olhos seguiam cheios de humor e malcia. Respirei fundo tratando de recobrar a voz. 
-Espero que no penses mau -disse deixando-me cair no sof de vime-, mas voce no morreu?
- Achavas que deveria ser assim? No s a primeira e suponho que no sers a ltima. Uma xcara de ch? Depois eu poderei ler o borro da xcara. Tenho boa reputao 
como vidente. 
Riu outra vez. 
Se minha presena a tinha surpreendido tanto como a mim a sua, sabia dissimul-lo. 
-Ch -ordenou  escrava que foi ao seu chamado - Do especial, com bolos de noz. -Voltou-se para mim
- Esta  uma ocasio especial. Perguntava-me se voltaramos a nos ver depois daquele dia em Cranesmuir. Minah estupefao comeava a ceder ante a curiosidade. 
- Me conhecias j quando nos encontramos em Cranesmuir? -perguntei. 
Sacudiu a cabea. 
-Ao princpio, no. Eras muito estranha... e no era a nica que pensava. Cruza-ste atravs das pedras sem estar preparada, no ? No o fizeste a propsito. "Ento 
no", ia dizer, mas me contive.
-Foi por acidente. Mas voce o fez conscientemente desde 1967, no? 
Assentiu enquanto me estudava com ateno. 
-Sim, para ajudar ao prncipe Tearlach. -Cuspiu subitamente a um lado- Esse italiano covarde! Se eu soubesse,teria ido a Roma para mat-lo a tempo. Claro que seu 
irmo Enrique no teria sido melhor. De qualquer modo, depois de Culloden era intil qualquer Stuart. -Fez um gesto de impacincia - Mas isso j acabou. Vieste por 
acidente; cruzaste as pedras pelas datas de um Festival de Fogo, no? Assim costuma ocorrer. 
- Sim -disse surpresa- Cruzei na Festa Maia. Mas que queres dizer com assim costuma ocorrer? H muitos como ns? 
Sacudiu a cabea distrada. Parecia estar pensando algo, mas talvez fora s no ch, pois fez soar a campainha com violncia.
- Maldita Clotilda! Como ns? No, s uma mais, que eu saiba. Quando vi a cicatriz da vacina no seu brao, poderias ter-me derrubado por um sopro. Ao dizer que costuma 
ocorrer me baseio nas lendas. Gente que desaparece em crculos embruxados e anis de pedras. Geralmente cruzam na Festa Maia ou em Todos os Santos; alguns, nos Festivais 
do Sol ou os solstcios de vero ou de inverno. 
-Essa era a lista! -exclamei recordando o caderno que tinha deixado a Roger Wakefield - Tinhas uma lista de datas e iniciais: quase duzentas.
- Voce encontrou meu caderno? -Observava-me fixamente- Por isso me procuravas em Craigh na Dun? Porque foste voce, no ?, A que gritou meu nome quando ia cruzar 
pelas pedras. -Gillian -disse. Vi que suas pupilas se alargavam ao ouvir seu antigo nome
- Gillian Edgars. Fui eu, sim. 
-No te vi. Mas quando te ouvi gritar durante a bruxaria, pareceu-me reconhecer tua voz. E depois, ao ver-te a marca no brao... -Encolheu-se de ombros- Quem te 
acompanhava aquela noite? -perguntou curiosa- Tinha duas pessoas: um jovem moreno e uma moa. Ela me era familiar, mas no pude identific-la. Quem era? 
- Senhora Duncan... Ou devo chama-la de senhora Abernathy? -interrompeu Jamie com uma reverncia formal. 
Olhou-o como se o visse pela primeira vez. 
- Caramba, mas se  a pequena raposa! -exclamou divertida- Viras-te um homem muito charmoso, no? Tens todo o aspecto dos MacKenzie, moo. Sempre tives-tes, mas 
agora se parece melhor com seus dois tios. 
- No duvido que Dougal e Colum se alegrariam de saber que os recordo to bem -disse Jamie olhando-a fixamente.
A chegada do ch impediu a resposta. Geillis se comportou como um dona de casa convencional que serve o ch a seus convidados. 
- Se me permites a pergunta, senhora Abernathy -continuou Jamie-, como chegastes aqui? Calava por cortesia a pergunta mais importante: "Como se livrou de que vos 
queimassem por bruxa?" Ela se pos a rir piscando com faceirice. 
- Bem, talvez recordes que ento, em Cranesmuir, estava esperando um filho. 
- Sim, creio record-lo. -Jamie ruborizou um pouco. 
Ela tinha arrancado a roupa no meio do juzo, revelando o vulto secreto que lhe salvaria a vida, ao menos durante um tempo. 
- Tiveste filhos? -perguntou-me. 
- Sim.
-Um esforo terrvel, no? Arrastar-se como uma porca embarrada. E depois, que te rasgue algo que parece uma rato afogado. -Sacudiu a cabea com um rosnado de desgosto- 
Oh, as maravilhas da maternidade! Ainda que no deveria queixar-me, porque esse rato me salvou a vida. Por mais mau que seja o parto, pior  a fogueira. 
- Suponho que sim, ainda que no provei o ltimo -disse. 
Geillis se engasgou com o ch, divertida. 
- Bem, eu tambm no, mas vi arder,o pulso.  pior do que estar num buraco cheio de barro vendo como te cresce a pana. 
- Quanto tempo estiveste no buraco dos ladres? -Eu tinha passado trs dias ali com Geillis Duncan, acusada de bruxa.
-Trs meses -respondeu contemplando sua xcara- Trs meses com os ps gelados e cheia de parasitas. -Levantouos olhos com um gesto de amarga diverso - Mas o menino 
nasceu com todos os luxos. Quando comecei a ter dores me tiraram de l. Naquele estado no tinha perigo de que fugisse, no ? E o menino nasceu em meu antigo dormitrio 
da casa do promotor, a melhor da aldeia. 
De repente soltou um riso feio. 
- Que tontos so os homens! Se os segurarem pela vara levaram eles a qualquer lugar... durante um tempo. Depois, d-lhes um filho e os tens novamente pegados pela 
vara. Os negros sabem: traem seu favorito que so de pura pana,xoxota e tetas, e tero a decncia de ador-los. 
- Muito perspicaz, senhora... Abernathy? -disse Jamie com acalma. Ela levantou a cabea com um sorriso torto.
- Abernathy, isso. Em Paris tinha outro nome: Madame Melisande Robicheaux. Te agrada? A mim me parecia algo grandiloquente, mas como me foi teu tio Dougal que me 
ps, conservei-o por razes sentimentais. 
Apertei o punho entre os vincos da saia. Quando vivamos em Paris tinha ouvido falar de Madame Melisande. No fazia parte da alta sociedade mas tinha certa fama 
como adivinha e as damas da corte a conferiam em segredo. 
- Foi Dougal quem a tirou de Cranesmuir? -deduziu Jamie. 
Ela assentiu, sufocando um pequeno arroto. 
- Veio para levar o menino..., por medo que algum se inteirasse de que era seu. Mas neguei a dar. Quando se aproximou para tirar-me, peguei seu punhal do cinto 
e o apoiei no pescoo da criana. -Um sorriso de satisfao curvou aqueles lbios encantadores- Disse-lhe que o mataria se no jurava pela vida de seu irmo e por 
sua prpria alma tirar-me dali s e salva. 
- E acreditou? -perguntei um pouco enjoada.
-Oh, sim. Dougal me conhecia. Sudoroso, sem poder afastar os olhos daquela cara pequena, Dougal no pde negar-se. Por meio de discretos subornos, assegurou-se de 
que a figura encapuzada que levariam em andarillas  fogueira,  manh seguinte, no fora a de Geillis Duncan. - Supus que colocariam palha -disse ela-, mas foi 
astuto. Naquela mesma tarde deviam enterrar  velha Joan MacKenzie, que tinha morrido trs dias antes. Puseram umas pedras no atade e assim tiveram um autntico 
corpo para queimar. -Bebeu entre risos o resto de seu ch- No  todo mundo que pode ver sua prpria execuo. - Estavas ali? -exclamei. 
- Claro que sim! Envolvida numa capa, como todo mundo, porque fazia frio. No ia perder!-assentiu satisfeita. 
Aproximou-se  janela com passo inseguro e fez soar uma campainha.
- E ento Dougal os levou A Frana -apontou Jamie- Mas como chegastes s Antilhas?
-Isso foi depois de Culloden. -Sorriu para ns dois- Que os trouxe a este lugar? No creio que seja o prazer de minha companhia. 
Joguei uma olhada a Jamie; sua postura era tensa, mas mantinha o semblante sereno. 
- Viemos em procura de um jovem -explicou- Ian Murray, meu sobrinho. Temos motivos para pensar que se encontra aqui, com contrato de servido. 
Geillis enrugou a testa. 
- Ian Murray? -Sacudiu a cabea desconcertada- No tenho nenhum branco sob servido, de fato no h brancos na propriedade. O nico homem livre  o capataz, e  
quarento. 
Geillis Duncan mentia muito bem. Mas tanto Jamie como eu nos demos conta de que no nos dizia a verdade. Pelos olhos de Jamie cruzou um raio de fria, rapidamente 
contida.
-Verdade? -disse corts.-E no tens medo de estar aqui sozinha com seus escravos, to longe da cidade? 
-Oh, no, em absoluto.
Com um amplo sorriso, agitou a papada em direo  sacada. Ao voltar a cabea vi que a porta-janela estava ocupada, desde a soleira do dintel, por um enorme negro, 
vrios centmetros mais alto do que Jamie e com uns braos que pareciam verdadeiros troncos de rvore, pela dureza que formavam seus msculos.
-Apresento Hrcules - riu Geillis. -Tem um irmo gmeo. 
-Se chama Atlas por acaso? -perguntei. 
- O adivinhaste!  astuta tua mulher, no, raposa? -Dedicou a Jamie uma piscada de conspirao. Ao voltar a cabea com a luz iluminando-a de lado, pude distinguir 
a teia de aranha de capilares rompidos que lhe enrubescia a papada. Hrcules parecia no ver nada, no tinha vida naqueles olhos afundados. V-lo era como passar 
junto a uma casa enfeitiada onde algo espreita por trs das janelas a escuras.
-Podes voltar ao trabalho Hrcules. -Geillis fez soar suavemente a campainha uma s vez. 
Sem dizer nada, o gigante se afastou pesadamente da galeria. 
-So os escravos que tm medo de mim - explicou ela. -Crem que sou uma bruxa. Divertido, no? Seus olhos chuviscavam atrs das bolsas de gordura. 
- Geillis, esse homem... -Vacilei. Sentia-me ridcula fazendo essa pergunta. - um... zumbi? 
- Zumbi, por Deus! Bem, reconheo que no s muito inteligente. Mas tambm no est morto! -exclamou rindo e dando palmadas. 
Jamie me olhou sem compreender. 
-Zumbi? 
-Nada, nada -estava to corada como Geillis.-Quantos escravos tens aqui? -disse mudando de assunto. 
-Oh, uma centena, mais ou menos. A fazenda no  muito grande.
Percebi a tenso de Jamie; estava to seguro como eu de que Geillis sabia algo sobre Ian Murray. Pelo menos no se tinha surpreendido ante nossa apario. Retirou-me 
de meus pensamentos uma pergunta de Geillis.
-Quando nos conhecemos na Esccia, tinhas muito talento para curar. Continuas tendo? 
-Claro que sim. -Olhei-a com cautela. Precisas de atendimento? Era evidente que sua sade no era boa. 
-Por enquanto no  para mim. Mas tenho dois escravos enfermos. Terias a bondade de examin-los? - disse adivinhando meus pensamentos. 
Olhei a Jamie, que fez um leve gesto afirmativo. Era uma oportunidade para iniciar contato com os escravos e averiguar algo sobre Ian. 
-Ao vir para c vi que tinhas problemas com a prensa de acar - disse Jamie levantando-se bruscamente. -Poderia vistori-la enquanto minha esposa atende aos enfermos. 
-Sem esperar resposta, pendurou o casaco num cabideiro e saiu  galeria.
- hbil, no? -Geillis o seguiu com um olhar divertido. -Meu esposo Barnabas tambm era dos que no podiam ver uma mquina sem meter-lhe a mo..., nem uma escrava 
- acrescentou. -Acompanha-me. Os enfermos esto atrs da cozinha. 
A cozinha era um pequeno prdio ligado  casa por uma prgula coberta de jasmins em flor. Detive-me a contemplar o claro que tinha entre os canaviais, onde Jamie 
observava as gigantescas barras cruzadas da prensa. Junto a ele tinha um homem que devia ser o capataz. Na cozinha tinha trs ou quatro mulheres amassando po e 
limpando ervilhas. A mais jovem me olhou e a saudei com um sorriso, pensando que talvez tivesse oportunidade de falar com ela mais tarde. Imediatamente baixou os 
olhos para a cumbuca que tinha no colo. Um pequeno vulto no ventre delatava sua gravidez.
Entramos numa pequena despensa. Jogado num colcho de palha, sob uma prateleira cheia de queijos, encontrava-se um jovem de pouco mais de vinte anos; o sbito raio 
de luz lhe fez piscar.
-O que acontece com voce? Por que ests no escuro? Como que respondendo a minha pergunta, o escravo deixou escapar um grito e comeou a enroscar-se e desenroscar-se 
como um i-i, golpeando a cabea contra a parede. 
-Tem um verme loa-loa -explicou Geillis. -Vive no globo ocular, bem embaixo da pele e passa de um olho ao outro; dizem que seus movimentos atravs da ponte do nariz 
so muito dolorosos. A escurido faz com que no se mova muito. Tem que retirar com uma agulha de costura quando entra, enquanto est prximo da pele. Voltou-se 
para a cozinha pedindo a gritos uma lamparina. 
-Trouxe a agulha, para se for o caso -adicionou entregando-me. 
-Ests louca? -Olhei-a com horror. 
-No. No disse que sabes curar?
Dei uma olhada ao escravo com a vela que me ofereceu uma das moas. 
-Traga-me um pouco de conhaque e uma faca pequena e bem afiada. -Enquanto dava as indicaes, revisava os olhos daquele homem. Realmente tinha um pequeno filamento 
translcido que se movia sob o tecido conjuntivo. A operao, ainda que desagradvel  imaginao, resultou assombrosamente singela. Bastou uma pequena inciso para 
que o verme, ondulando preguiosamente, sasse pela abertura. Ento o peguei com a agulha como se fosse um fio de linha. Depois de cobrir-lhe o olho com um curativo, 
incorporei-me, bastante satisfeita com minha primeira incurso na medicina tropical. 
-Perfeito -disse afastando o meu cabelo da testa. -Onde est o outro?
O segundo paciente, um homem maduro e grisalho, j tinha morrido. A causa era bvia: uma hrnia estrangulada. Cravei em Geillis um olhar furioso.
-Pelo amor de Deus, estivemos batendo papo e tomando ch enquanto isto acontecia? Morreu faz menos de uma hora! Por que no me trouxe antes? 
-Esta manh j estava meio morto -disse sem alterar-se. -No teria podido fazer nada. 
Tinha razo; ainda que lhe tivesse operado, as possibilidades de salv-lo eram quase nulas. O que no impedia que experimentasse essa sensao de fracasso que sentia 
sempre na presena da morte. Limpei as mos com um trapo molhado em conhaque. Um ponto a favor, outro contra... e ainda no sabamos nada de Ian. 
-J que estou aqui, poderia dar uma olhada nos outros escravos -sugeri -Mais vale prevenir do que curar. 
-Oh, esto bem. Mas se fazes questo ter que ser mais tarde. Esta tarde espero visitas e quero falar mais um momento contigo. Vamos  casa. Na cozinha, me aproximei 
da escrava gestante. 
-Pode ir na frente enquanto dou uma olhada nesta moa. Tem aspecto de ter sofrido uma intoxicao e no te convm que aborte. Geillis me olhou com curiosidade, mas 
acabou por encolher-se de ombros. 
-J pariu duas vezes sem dificuldades mas tu sabers. No demore muito; o proco disse que viria s quatro. Fingi examinar  estranha jovem at que Geillis desapareceu 
pela prgula.
-Escute -disse: -procuro um jovem branco chamado Ian,  meu sobrinho. Sabes onde possa estar? A garota, sobressaltada, olhou para uma das escravas maiores, que tinha 
deixado seu trabalho e se aproximava. 
-No, senhora -disse a mulher sacudindo a cabea. -Aqui no h garotos brancos. Nenhum. 
-No, senhora -repetiu a jovem obediente mas sem olhar-me nos olhos. -No sabemos nada de vosso garoto.
No podia atrasar-me mais sem que Geillis voltasse. Tirei uma moeda de prata do bolso e o pus na mo. 
-Se ver a Ian, diga-lhe que seu tio veio procur-lo. Sem esperar resposta, sa precipitadamente da cozinha. Da prgula olhei para a fazenda. No tinha sinais de 
Jamie nem do capataz. Teria voltado  casa? Ao entrar no salo me detive em seco. Geillis estava sentada no cadeiro de vime com o casaco de Jamie pendurado no brao 
e as fotografias de Brianna disseminadas em seu colo. 
- Que jovenzinha to linda! Como se chama? 
-Brianna. -Tive que me conter para no lhe arrancar as fotos e sair correndo.
-Se parece muito com seu pai, no? Resultou-me conhecida naquela noite em Craigh na Dun.  sua filha, no? 
-Sim. Me d isso. -De nada servia, pois j tinha visto as fotos, mas no suportava ver a cara de Brianna entre aqueles gordos dedos. Torceu a boca como se fosse 
negar, mas as ps em ordem e me entregou.
-Sente-se, Claire. Trouxeram o caf. Indicou-me por sianais que o servisse e pegou sua xcara sem dizer nada. -Duas vezes -disse de repente. Parecia sobressaltada. 
- Cruzaste duas vezes, Meu Deus ! No: trs, j que ests aqui. -Sacudiu a cabea, maravilhada, sem afastar seus olhos dos meus. -Como pode faz-lo? 
-No sei. -Vi sua expresso de duro cepticismo e repeti, como que defendendo-me: -No sei! Passei, isso  tudo. 
-No sentiste terror ali no meio? Com aquele rudo que parece que te rompe o crnio e te rasga o crebro?
-Sim, foi assim. -No queria nem sequer pens-lo. Minha mente o tinha bloqueado. 
-Tinhas sangue para proteger-te? Pedras? No creio que tenhas coragem para procurar sangue, mas talvez me equivoque. Deve de ser muito forte se sobreviveu. 
-Sangue? -Sacudi a cabea confusa. -No. Disse-te que... cruzei sem mais nem menos. -Ento recordei aquela noite de 1968 em que ela tinha passado: a fogueira em 
Craigh na Dun, sua silhueta retorcida e negra no centro do fogo. -Greg Edgars -Era o nome de seu primeiro esposo. -No o mataste s porque tinha te descoberto e 
tentava de deter-te, verdade? Ele foi... 
-...o sangue. -Observava-me com ateno. -No sabia que poderia cruzar sem sangue. Os antigos sempre o usavam. Alm do fogo. Construam grandes jaulas de vime, que 
enchiam de cativos e lhes tacavam fogo em crculos. Pensava que assim se abria a passagem.
Tinha os lbios e os dedos frios; tratei de esquentar-me com a xcara. Em nome de Deus, onde estava Jamie? 
-E tambm no usou pedras? 
-Que pedras?
Olhou-me como se duvidasse em me contar. Depois abandonou a cadeira para aproximar-se  grande chamin da sala fazendo-me sinais para que eu a seguisse. Agachou-se 
para pressionar uma pedra esverdeada que ao mover-se deixou ouvir um estalo e uma das lajes da lareira se levantou suavemente. 
-Um mecanismo de mola -explicou Geillis tirando da cavidade uma caixa de madeira de uns trinta centmetros de comprimento. Ao v-la mordi os lbios, tratando para 
que minha cara no me denunciasse. J no tinha nenhuma dvida sobre o paradeiro de Ian. Ou estava muito equivocada, ou aquele era o tesouro das focas.
-Um indiano de Calcut me ensinou a fazer medicamentos com pedras preciosas. Suas cinzas se chamam bhasmas e se usam na medicina. Quer ver se consegue abrir esta 
maldita caixa? O fechamento se dilata com a umidade. 
Colocou-a nas minhas mos e se levantou pesadamente. O fechamento era um quebra-cabea bastante singelo: um pequeno painel deslizante destravava a tampa. Mas a madeira 
tinha inchado e no corria pela ranhura. 
-Romp-las traz m sorte -me advertiu Geillis. -Do contrrio j a teria feito caco para acabar com o assunto. Isto pode servir. Entregou-me um pequeno abridor de 
cartas com o que pouco a pouco consegui deslizar o pequeno retngulo de madeira. Tinha-se aproximado  janela para fazer soar outra de suas campainhas. 
-Aqui est -disse devolvendo-lhe a caixa.
A ps na mesa, abriu-a e meteu a mo. Em sua palma cintilavam seis ou sete pedras preciosas: fogo, gelo, fulgor de gua sob o sol. E uma grande pedra dourada, como 
o olho de um tigre  espreita.
-A princpio as queria por seu valor -dizia enquanto as revolvia com satisfao. -So mais fceis de trocar do que o ouro ou a prata. Mas no imaginava que tivessem 
outros usos. -Assinalou com a cabea uma porta. -Acompanha-me ao meu laboratrio. Tenho ali algumas coisas que podem te interessar. 
O quarto era grande e luminoso. Tinha maos de ervas secas pendurados em ganchos e estantes ao longo de uma parede. Nas outras, armrios, gaveteiros e uma pequena 
vitrine. Parecia-se muito com o quarto no qual Geillis trabalhava na casa de seu primeiro... no, de seu segundo esposo. 
-Quantas vezes se casou? -perguntei por curiosidade. Fez uma pausa para contar. 
-Oh, desde que estou aqui, cinco. 
-Cinco? -Os trpicos so muito perigosos para os ingleses. -Sorriu astuta. -Febres, lceras, infeces... Qualquer tolice os leva - disse acariciando um frasquinho. 
No tinha etiqueta mas reconheci seu contedo: arsnico. 
-Isto vai interessar-te -prometeu, empinando-se para baixar um frasco da estante superior. Continha um p grosso, mistura de substncias de diversas cores. 
- O que ? 
-Veneno zumbi -disse rindo. 
- ? No me disseste que no existia? 
-Disse que Hrcules no estava morto, e no est. -Voltou a pr o frasco em sua estante. -Mas no posso negar que fica bem mais fcil de maneja-lo se toma uma dose 
desta mistura no caf da manh uma vez por semana. 
-Que diabos ?
-Um pouco disto e uma pitada daquilo. O ingrediente principal parece ser um peixe de aspecto muito curioso, mas contm outras coisas. Oxal soubesse quais. 
-No o sabe? -Olhei-a com ateno. -No foi voc quem o preparou?
-No. Tive um cozinheiro... Nunca teria me atrevido a provar o que preparava aquele demnio de Ishmael. Era um houngan, assim chamam os negros a seus feiticeiros. 
-Ishmael? -Umedeci-me os lbios. -Veio com esse nome? 
-Oh, no. Eu o pus pelo que o vendedor me contou. Ishmael tinha sido capturado na frica e amontoado no entrepiso de um barco negreiro que ia para Antigua. O barco 
naufragou frente  ilha de Grande Inagua e a tripulao mal teve tempo de escapar nas chalupas. Todos os escravos, encadeados e indefesos, afogaram-se; salvo um 
ao que tinham levado  coberta para que ajudasse na cozinha; este sobreviveu agarrando-se a um tonel e chegou  costa dois dias depois. Os pescadores que descobriram 
o sobrevivente estavam mais interessados no tonel que no escravo, mas ao abri-lo descobriram com horror que continha o cadver de um homem mais ou menos conservado 
pelo licor que o cobria. 
-Tero bebido o creme de menta? -sussurrei. 
-Me atreveria a dizer que sim -comentou Geillis incomodada pela interrupo. -Por isso chamei Ishmael o escravo, pelo atade flutuante, compreende? 
-Muito sagaz - a felicitei. -Esse Ishmael parece um tipo interessante. Ainda o tens aqui?
-No - respondeu indiferente. -Fugiu, o grande cretino. Mas foi ele quem preparou o veneno zumbi. Apesar de tudo o que lhe fiz, no quis ensinar-me - adicionou com 
um riso breve e seco que me recordou as cicatrizes de Ishmael. -Mas no era isso o que te queria ensinar. 
Tirou as pedras e ps cinco na mesa, formando um crculo. Depois baixou de uma estante um gordo livro encadernado em couro. 
-Sabes alemo? -perguntou abrindo-o com cuidado.
-No muito. -Aproximei-me para olhar acima de seu ombro. Hexenhammer, dizia em fina letra manuscrita. -Percutor das bruxas? So feitios? Magia? Meu ceticismo devia 
ser bvio, pois me fulminou com um olhar. 
-Olhe, estpida - disse. -Quem s tu? Ou, melhor dizer, o que s? O que eu sou? Abri a boca para responder, mas calei. -Isto  -disse com suavidade -Nem todos podem 
passar pelas pedras, verdade? Por que ns sim?
-O ignoro - reconheci. -E voce tambm, sem dvida. Mas isso no significa que sejamos bruxas! 

-No? -Voltou vrias pginas do livro. -H pessoas que podem abandonar o corpo e percorrer muitos quilmetros. H quem os v e os reconhece e, no entanto, eles podem 
demonstrar que a essa hora estavam bem agasalhados em sua cama. Outros tm estigmas que se podem ver e tocar..., eu mesma os vi. Mas isso no sucede a todo mundo. 
S a certas pessoas. Virou outra pgina. -Se todo mundo pode faz-lo,  cincia. Se s podem fazer uns poucos,  bruxaria, crendice ou como queiras cham-lo. Mas 
 real. -Seus olhos verdes percorriam o decrpito livro como uma serpente. -Ns somos reais, Claire, eu e voc. E especiais. Nunca te perguntaste por que?
Eu mesma me tinha perguntado muitssimas vezes sem achar resposta. Ao que parece, Geillis achava t-la. Voltou-se para as pedras que tinha depositado na mesa e as 
foi assinalando uma a uma: -Pedras de proteo: ametista, esmeralda, turquesa, lpis-lazli e um rubi macho. 
-Macho? 
-Plnio diz que os rubis tm sexo. Quem sou eu para discutir? Usam-se os machos, as fmeas no servem. Fiquei com vontade de perguntar-lhe como se distinguia o sexo 
dos rubis. 
-No servem para que? 
-Para a viagem. Protegem voce de... o que quer que seja que h ali. Mudou o tom de voz ao pensar no cruzamento do tempo. Compreendi que lhe tinha um medo mortal. 
No me estranhava. 
-Quando vieste? A primeira vez -perguntou olhando-me aos olhos.
-Em 1945 - respondi. -Cheguei em 1743, se  o que quer saber. Ainda que me resistia a revelar-lhe muito, minha prpria curiosidade me constrangia. Ela tinha razo 
num aspecto: no ramos como todo mundo. Talvez no me fosse apresentada outra oportunidade de falar com algum que estivesse na mesma situao. Por outro lado, 
quanto mais tempo a mantivesse entretida, mais tempo teria Jamie para procurar a Ian. 
-Hum -grunhiu satisfeita. -Muito aproximado. Segundo as lendas das Terras Altas, so duzentos anos. Quando algum adormece em lugares enfeitiados e dana toda a 
noite com os Antigos, geralmente viaja duzentos anos atrs. 
-Em teu caso no foi assim. Vieste desde 1968, mas quando cheguei a Cranesmuir fazia vrios anos que estavas ali.
-Cinco anos. -Assentiu com ar distrado. -Bem, isso foi pelo sangue. O sacrifcio te d um maior alcance e um pouco mais de controle, desse modo tens alguma idia 
de onde vais. Como fizeste para ir e vir trs vezes sem sangue? -interpelou.
-Eu... vim, simplesmente. -A necessidade de averiguar o mximo possvel me induziu a admitir o pouco que eu sabia. -Talvez influa o fato de poder fixar a mente numa 
pessoa que est onde tu queres ir. 
-Ser? -murmurou. -Tenho que pensar. Poderia ser. Mas o lance das pedras tambm deveria funcionar. H que fazer um desenho com elas, sabe? Tirou outro punhado do 
bolso e o espalhou na mesa. -As pedras de proteo formam as pedras gemas diferentes, segundo o tempo ao qual queres viajar. Depois se traa entre elas uma linha 
de mercrio e lhe ateia fogo enquanto pronuncias os feitios. Tambm tem que desenhar o pentgono com p de diamante, por suposto. 
-Imagino -murmurei fascinada. 
-Sente o cheiro? -perguntou olfateando. -Ningum diria que as pedras tm cheiro, verdade? S se aprecia uma vez reduzidas a p. 
Inalei profundamente;  percebi um aroma leve e desconhecido entre o perfume das ervas secas. Geillis levantou uma pedra com um pequeno grito de triunfo. 
-Esta! Esta  a que preciso! No pude encontrar nenhuma nestas ilhas e pensei na caixa que tinha deixado na Esccia. 
-Que ?
-Um diamante, o diamante negro que usavam os antigos alquimistas. Segundo os livros, o adiamante permite conhecer o prazer em todas as coisas. -Emitiu um riso breve 
e spero, desprovida de seu habitual encanto juvenil. -E se algo pode permitir-me conhecer o gozo nessa viagem no tempo, preciso-o! 
Ainda que tarde, comeava a dar-me conta do que queria. Em defesa de minha lentido s posso alegar que, enquanto escutava a Geillis, estava atenciosa a qualquer 
possvel sinal de Jamie. 
-Ento, queres regressar? -perguntei com tanta indiferena quanto pude.
-Talvez. -Esboou um leve sorriso. -Agora que tenho tudo o necessrio... Asseguro-te, Claire, que sem elas no me arriscaria. -Olhou-me fixamente mexendo a cabea. 
-Trs vezes e sem sangue -murmurou. -Assim que se pode... De repente recolheu as pedras para guardar em seu bolso.
-Bem, ser melhor descermos. Sua raposa j deve ter regressado. Fraser, chama-se, no? Clotilda disse outra coisa, mas essa estpida deve ter ouvido mal. Voltou-se 
para sair. 
-Perguntaste se eu sabia por que podemos cruzar atravs das pedras -disse a suas costas. -Voc sabe, Geillis? 
- Claro, para mudar as coisas! -exclamou surpresa-, Para que, se no? Ande, vamos. Pelo que ouo, teu homem est l embaixo. 
Jamie devia de ter feito algum trabalho pesado, pois tinha a camisa molhada de suor e colada aos ombros. Estava observando a caixa-quebra-cabea de Geillis. Por 
sua expresso era bvio que se tratava da caixa escondida na ilha das focas. 
-Creio que consegui arrumar vossa prensa, senhora -disse com uma inclinao corts. -O problema era um cilindro rompido. Conseguimos pr-lhe umas cunhas, mas temo 
que cedo precisars mud-lo.
Geillis franziu as sobrancelhas divertida. -Estou em dvida contigo, Fraser. Posso oferecer-te algum refresco depois de tanto trabalho? 
- Agradeo, senhora, mas devemos ir. Estamos longe de Kingston e queremos chegar antes que escurea. De repente seu semblante perdeu a expresso. Compreendi que 
tinha descoberto a falta das fotografias em seu bolso. Me deu uma rpida olhada e lhe respondi com um gesto afirmativo, tocando a minha angua.
-Obrigada por tua hospitalidade - disse a Geillis enquanto recolhia meu chapu para dirigir-me para a porta. Queria afastar-me quanto antes de Rose Hall e de sua 
proprietria. Mas Jamie se atrasou um momento. 
-J que vivestes em Paris, senhora Abernathy, talvez tenhas conhecido o duque de Sandringham. Olhou-o inquisitivamente, mas como ele no disse nada mais, assentiu: 
-Conhei, sim. Por que? 
Jamie lhe obsequiou com o mais encantador de seus sorrisos. 
-S por curiosidade, senhora.
Quando cruzamos o porto, o cu estava completamente encoberto; era bvio que no chegaramos a Kingston sem molhar-nos, mas em tais circunstncias no me importava. 
-Tens as fotos de Brianna? -Foi a primeira coisa que me perguntou Jamie. 
-Aqui -disse dando uma palmadinha em meu bolso. -Encontraste algum rasto de Ian? 
-No pude averiguar nada com o capataz nem com os escravos. Essa mulher lhes inspira terror. Mas sei onde est. 
-Onde? -Ergui-me um pouco na cadeira. -Podemos voltar a procur-lo? 
-Agora no. Precisarei de ajuda. Com o pretexto de procurar material para consertar a imprensa, Jamie tinha visto a maior parte da plantao sem maior interferncia 
do que algum olhar curioso ou hostil. Salvo os arredores da refinaria. 
-Aquele negro enorme estava sentado l fora -disse. -Quando me aproximei o capataz me advertiu, muito nervoso, que no me aproximasse muito dele.
-Parece um bom conselho -disse estremecida. -Mas crs que tem alguma relao com Ian?
-Estava sentado frente a uma portinhola aberta no solo, Sassenach. Deve ser a entrada de um poro. Se Ian est na propriedade,  nesse lugar. 
-Estou segura de que est ali. -Contei-lhe rapidamente os detalhes de minha visita. - No sei para que o quer Geillis, mas no tem de ser para nada bom se o tem 
escondido. Assentiu com a cabea. 
-O capataz no quis falar de Ian mas me contou outras coisas que te colocariam os cabelos de p. -Voltou-se para me olhar. -Pelo tempo que est agora, se diria que 
vai chover daqui a pouco. 
-Muito observador -comentei sarcstica. Pesadas nuvens j cruzavam a baa, seguidos por uma escura cortina de chuva. 
-Ser melhor procurarmos abrigo quanto antes, Sassenach -disse. -Siga-me.
A p, levando aos cavalos pela brida, abandonamos a senda para adentrar-nos na selva. Pouco depois Jamie achou o que procurava: um pequeno arroio de altas bordas, 
onde cresciam samambaias e alguns arbustos ternos. Formou uma estrutura arqueando alguns arbustos e atando-os a um tronco cado e o cobriu com ramos e folhas de 
samambaias. No era exatamente impermevel, mas muito melhor do que estar a cu aberto. As tormentas das Antilhas so muito fortes. A chuva castigava as samambaias 
e uma leve bruma enchia nosso refgio. Entre o rudo da gua e o constante tronar nas colinas, falar era impossvel. Jamie tirou o casaco para me cobrir e me rodeou 
com um brao. Senti-me protegida e em paz, livre da tenso dos ltimos dias.
A chuva cessou to bruscamente como tinha comeado. Pssaros e insetos voltaram a cantar e o ar parecia cheio de vida. Jamie pegou seu casaco e se deteve em seco.
-As fotos de Brianna -disse. 
-Ah, tinha-me esquecido. Quando as devolvi, olhou-as rapidamente, deteve-se e voltou a revis-las com mais ateno. 
-Que foi? -perguntei alarmada. 
-Falta uma. 
-Tem certeza? 
-Conheo-as tanto como tua cara, Sassenach. Estou seguro, a que est junto ao fogo. 
Recordava bem aquela fotografia. Brianna, j adulta, estava sentada numa rocha junto a uma fogueira. 
-Geillis encontrou as fotos em teu bolso enquanto eu estava na cozinha. Seguramente a pegou nesse momento.
- Maldita mulher! -Jamie se voltou para o caminho, com os olhos sombrios. -Para que vai querer? 
-Talvez s seja curiosidade -disse, ainda que o medo no me abandonasse. - O que poderia fazer com ela? No tem a quem mostr-las. 
Em resposta a minha pergunta, a certa distncia apareceu uma silhueta a cavalo. Era um homem vestido de negro. Ento recordei o que tinha dito Geillis: "Espero visita. 
O proco disse que viria as quatro". 
-Disse que esperava a um proco -expliquei. 
- Archie Campbell -adivinhou Jamie carrancudo. -Que diabos...? Ainda que no sei se devo utilizar essa expresso, tratando-se da senhora Duncan. 
- Talvez vem para exorciz-la -sugeri com um riso nervoso. - Pouco trabalho lhe espera! A silhueta desapareceu entre as rvores. 
-Que tens planejado com respeito a Ian? -perguntei-lhe uma vez voltando ao caminho.
-Preciso de ajuda -respondeu energicamente. -Penso em voltar ao rio acima com Innes, MacLeod e os outros. A pouca distncia da refinaria h um embarcadouro. Ali 
amarraremos. Depois de ocupar-nos de Hrcules (e tambm de Atlas se for necessrio), abriremos o poro e liberaremos a Ian. Dentro de dois dias ter lua nova. Me 
agradaria faz-lo antes, mas precisaremos desse tempo para conseguir uma embarcao adequada e as armas necessrias.
- Com que dinheiro? -perguntei sem rodeios. 
A aquisio de roupa e calado tinha requerido uma boa percentagem da parte que tinha correspondido a Jamie pela venda do fertilizante. Restava-nos o justo para 
comer uns dias e, talvez, para alugar uma embarcao por pouco tempo, mas no daria para comprar armas.
Fez uma careta e me olhou de soslaio. 
-Terei que pedir ajuda a John -disse singelamente.
-Suponho que sim. -A idia no me agradava mas o que importava era a vida de Ian. 
- Uma coisa, Jamie. 
-Sim, j o sei -disse resignado. -Queres vir comigo, no? 
-Sim. Depois de tudo, se Ian estiver ferido ou enfermo... 
- Virs! -exclamou irritado.-Mas faa-me um pequeno favor, Sassenach. Trata de que no te matem nem te cortem em pedaos, sim? Se ainda te resta alguma sensibilidade. 
-Farei o possvel -prometi com casualidade. E aticei o meu cavalo para me aproximar dele, sob as rvores que gotejavam.









CAPTULO 61

 A FOGUEIRA DO CROCODILO

Fizemos a viagem rio acima a bordo de um pequeno veleiro no qual mal cabamos as nove pessoas que viajvamos nele: Jamie, os seis contrabandistas escoceses, Lawrence 
Stern, que tinha feito questo de nos acompanhar e eu. Foi ele quem me explicou, ante minha surpresa por cruzar-nos com duas pequenas embarcaes e uma barcaa, 
que as plantaes das colinas utilizavam o rio como via de transporte para Kingston e o porto. 
- s muito amvel em vir, Lawrence - disse Jamie. 
- Bem, confesso que sinto certa curiosidade. -O naturalista alargou a camisa tratando de refrescar seu corpo suado - Conheo essa mulher, sabes? 
-  senhora Abernathy? -Fiz uma pausa antes de perguntar, com delicadeza -: E... o que te pareceu?
-Oh, uma senhora muito agradvel, sumamente... cordial. 
Sua voz tinha um ar estranho, entre comprazido e assustado. Compreendi que a viva Abernathy lhe devia ser muito atraente. Mas Geillis nunca tratava bem a um homem 
se no era para obter algum proveito. 
- Onde a conhecestes? Em sua casa? -Sim, em Rose Hall. Fui pedir-lhe permisso para recolher um inseto da famlia Cucurlionidae que tinha encontrado na plantao. 
Convidou-me a passar e... atendeu-me com muita amabilidade. 
- Que queria de voce ? -perguntou Jamie, que sem dvida tinha chegado s mesmas concluses que eu. - Mostrou-se muito interessada nas espcies de flora e fauna que 
tinha coletado. E tambm me interrogou sobre as virtudes de certas ervas. -Suspirou com momentneo pesar- Custa-me crer que uma senhora to encantadora possa ter 
uma conduta to reprovvel como a que descreves, James. 
- Sim, eh? Creio que te rendeste aos seus encantos, Lawrence.
Na voz do cientista se notou o mesmo sorriso. 
- Observei certo tipo de mosca carnvora, amigo James, cujo macho, quando decide cortejar a uma fmea, encontra incomodo de levar alguma pequena presa envolta em 
seda. Enquanto a fmea est entretida desembrulhando o pequeno presente, ele se precipita sobre ela, cumpre com sua obrigao copulatoria e se afasta apressadamente. 
Se no fosse pelo presente... ela o comeria. - Ouviu-se um suave riso na escurido- Foi uma experincia interessante, mas creio que no voltarei a visitar  senhora 
Abernathy.
- No, se temos sorte -disse Jamie. Os homens me deixaram na orla com instrues de que no me movesse dali e se perderam na escurido. Jamie me tinha dado uma pistola 
carregada com a ordem de no disparar em nenhum um p. Seu peso era reconfortante, mas com o decorrer do tempo, a penumbra e a solido se faziam cada vez mais opressivas. 
Podia ver a casa. Tinha trs janelas aluminadas no trreo. Enquanto a observava vi cruzar uma sombra ante uma delas. No era Geillis pois se tratava de uma silhueta 
alta, estreita e estranhamente angulosa. Olhei a meu arredor nervosa. Queria avisar-lhes mas j era muito tarde. Os homens estavam fora do alcance de minha voz, 
caminho da refinaria. No tinha outro remdio: recolhendo-me as anguas, me meti na escurido.
Quando cheguei  galeria tinha o corao acelerado e estava empapada em suor. Fui at  janela tratando de no me deixarem ver. Dentro, tudo estava em ordem e em 
silncio. A porta principal estava aberta. Detive-me a escutar. Acho que tinha ouvido um vago sussurro que provia do salo, como se algum estivesse passando as 
pginas de um livro. Reunindo todo minah coragem, cruzei a escurido. Cada vez era mais intensa a sensao de abandono: tinha flores secas num vaso e uma xcara 
com os borros secos do ch na mesa. Onde diabos estavam? Ante a porta do salo me detive a escutar outra vez. Percebi o calmo crepitar do fogo e de novo o leve sussurro. 
Assomei a cabea. 
Tinha algum sentado frente a escrivaninha, algum inegavelmente masculino, alto e de ombros estreitos, com a cabea inclinada sobre o mvel. 
- Ian! -sussurrei- Ian! A silhueta deu um respingo e se levantou de um salto. - Meu Deus! -exclamei.
-Senhora Malcolm? -O reverendo Archibald Campbell parecia atnito-  Que estas fazendo aqui? 
-Procuro o sobrinho de meu esposo -disse. 
Mentir no fazia sentido e talvez ele soubesse onde estava Ian. A habitao estava deserta
- Onde est a senhora Abernathy? 
-No tenho nem idia -respondeu cenhudo - Parece ter saido. Que dizas do sobrinho de seu esposo? -Ela saiu? -pisquei- Onde foi? 
-No sei -disse preocupado- Nesta manh, quando me levantei, tinha desaparecido junto com todos seus serventes. Bonita maneira de tratar a um convidado! 
-Bom, admito que no  um comportamento muito hospitalar -disse um pouco mais aliviada- Por acaso, vistes algum jovenzinho de uns quinze anos, alto, delgado, e com 
o cabelo castanho escuro? No, j o iamginava. Nesse caso, tenho de despedir-me... 
-Um momento! - me segurou com fora pelo brao- Qual  o verdadeiro nome de seu esposo?
-Bom... Alexander Malcolm, como bem sabes -respondi tratando de me soltar. 
-E como  possvel que, ante minha descrio, a senhora Abernathy me tenha dito que vosso esposo  na realidade James Fraser? 
-Oh... -Respirei fundo tratando de achar uma resposta razovel. 
-Onde est seu esposo, mulher? 
-Escuta -roguei-, estas muito equivocado com respeito a Jamie. Ele no teve nada haver com sua irm. Me disse que...
-Falastes de Margaret com ele? -Afastou-me com mais fora. 
-Sim. Assegura que ela no foi a Culloden para v-lo, seno a um amigo seu, Ewan Cameron. 
-Mentis -replicou secamente- Ou mente ele. Pouco importa. Onde est? -disse sacudindo-me. 
-J disse que no teve nada que ver com sua irm! -Retrocedi, pensando como poderia escapar sem que se lanasse depois de mim em procura de Jamie.
-Onde est? -O reverendo avanava para mim com os olhos fincados nos meus. 
-Em Kingston! Olhei para um lado. A porta-janela estava perto. Ento minha mente registrou algo que tinha visto na galeria. Voltei bruscamente a cabea. Tinha um 
grande pelicano branco pousado no balastre, com a cabea sepultada sob o asa. A plumagem de Ping An brilhava na noite pela escassa luz que saa pela porta. 
-Que passa? -inquiriu o reverendo Campbell- Quem ? Quem est a? -S uma ave -disse voltando-me. 
O corao me batia muito depressa: o senhor Willoughby devia de estar perto. 
-Duvido muito que vosso esposo esteja em Kingston. -O reverendo me olhava suspicaz- Mas se  assim, vir procurar. 
-Oh, no! -assegurei- Jamie no vir. Vim por minha conta para visitar a Geillis...  senhora Abernathy. Meu esposo no me espera at dentro de um ms. 
-Significa que estas alojada aqui?         
-Sim -disse, alegrando-me de conhecer a distribuio da casa o suficiente para fingir-me hspede. -Bem -disse assentindo de m vontade- Nesse caso deves saber onde 
foi nossa anfitri e quando pensa regressar. Sobre a questo comeava a ter uma idia inquietante, mas no era com Campbell com quem podia compartilh-la.
 -No, temo que -no vacilei- Eh... ontem fui de visita  plantao vizinha. Acabo de voltar.
-Compreendo. Hum... bem. -Fechava e abria as mos ossudas, como se no soubesse que fazer com elas. -No se incomde por mim -disse assinalando a escrivaninha com 
um sorriso encantador- Sem dvida tens coisas importantes para fazer. 
Com os lbios franzidos, parecia uma coruja contemplando um rato. 
-Meu trabalho j est feito. S estava preparando cpias de alguns documentos que me solicitou a senhora Abernathy. 
-Que interessante! -comentei automaticamente. Com sorte, depois de uma breve palestra poderia retirar-me a ao meu terico quarto e escapar em procura de Jamie. 
-Por ventura, compartilhas nosso interesse pela histria escocesa? -Seus olhos eram mais penetrantes. 
Reconheci neles o fanatismo do pesquisador apaixonado. 
-Bom, sem dvida  muito interessante -sussurei aproximando  porta-, mas realmente no estou muito introduzida no assunto.
Ento vi um dos documentos que tinha sobre a mesa e me detive em seco. Era uma rvore genealgica. A rvore genealgica da famlia Fraser (o tinha titulado "Fraser 
de Lovat"). Iniciava-se por volta de 1400 e se estendia at a atualidade. Num canto, com o tipo de anotao correspondente aos filhos ilegtimos, figurava Brian 
Fraser, o pai de Jamie. E embaixo dele, com firmes letras negras, James A. Fraser. Um arrepio me percorreu as costas. O reverendo, que tinha consertado em minha 
reao, observava-me divertido. 
- interessante que se refira aos Fraser, no? 
-Que... que se refere aos Fraser? -perguntei.
-A profecia -respondeu surpreso-. No estas sabendo? Claro que sendo vosso esposo um descendente ilegtimo... 
-No sei nada disso.
-Ah... -O reverendo no deixou passar a oportunidade de me por dentro do assunto . Supus que a senhora Abernathy a teria falado disso; seu interesse  tal que me 
escreveu a Edimburgo. -Folheou os papis para extrair um que parecia escrito em galico-. Este  a linguagem original da profecia -disse pondo-me sob os narizes 
a Prova A. - Talvez tenhas ouvido falar do Vidente de Brahan. 
Ainda que seu tom era ctico, conhecia-o: era um profeta do sculo XVI, uma espcie de Nostradamus escocs. 
-Efetivamente. Se trata de uma profecia referida aos Fraser?
-Aos Fraser de Lovat. Utiliza uma linguagem potica, como j assinalei  senhora Abernathy, mas seu significado  bastante claro. -Mesmo suspeitando de mim, comeava 
a entusiasmar-se-. A profecia afirma que a geneologia de Lovat surgir um novo governante de Esccia. Isto suceder depois do eclipse de "os reis da rosa branca": 
uma bvia referncia a esses catlicos dos Stuarts. -Assinalou com a cabea as rosas brancas tecidas no tapete- Na profecia aparecem referncias mais crpticas: 
a poca na que aparecer este governante, se tem de ser um rei ou uma rainha... 
Existe certa dificuldade para interpret-lo, devido a uma m utilizao do original...
Seguiu falando, mas eu j tinha deixado de escutar. As dvidas sobre o paradeiro de Geillis desapareciam rapidamente, dada sua obsesso pelos governantes de Esccia. 
Mas onde iria? De novo a Esccia para relacionar-se com o herdeiro de Lovat? No, j que se estava preparando para dar novamente o salto no tempo: reunindo seus 
recursos, recuperando o tesouro das focas e completando suas investigaes. Observei o papel entre o espanto e a fascinao. A genealogia, desde depois, s estava 
registrada at o presente. Saberia Geillis quem seriam os descendentes futuros de Lovat? Levantei a cabea para fazer uma pergunta ao reverendo Campbell, mas fui 
incapaz de pronunciar uma palavra. Na porta que dava  galeria se encontrava o senhor Willoughby. Levava a roupa rasgada e suja e sua cara refletia sinais de fome 
e cansao. Todo sua ateno ia dirigida ao reverendo Campbell. 
-Homem muito santo! -disse num tom provocante que nunca lhe tinha ouvido.
O reverendo se deu a volta bruscamente golpeando um vaso com o cotovelo. A gua e as rosas amarelas caram formando uma cascata sobre a escrivaninha. Com um grito 
de ira, o clrigo pegou os papis salvando-os da inundao e os sacudiu freneticamente para tirar-lhes a gua antes de que se escorresse a tinta. 
-Olha o que fizeste, maldito assassino pago! 
O senhor Willoughby se pos a rir. No com seu habitual risida aguda, seno com um riso sufocado. No parecia divertido em absoluto. 
-Eu assassino? -Moveu lentamente a cabea com os olhos fincados no reverendo. -Eu no, homem santo. Assassino, tu. 
-V embora, amigo -ordenou Campbell friamente- Como se atreves entrar na casa de uma dama?
-Te conheo. - O chins falava com voz baixa e serena- Vejo-te. Vejo-te em salo vermelho, com mulher que ri. Vejo-te tambm com ramera barata em Esccia. -Levantou 
muito devagar a mo, pondo-se no pescoo como uma espada- Matas muito, homem santo. 
O reverendo Campbell estava plido, pela impresso ou pela ira. Eu tambm palidec, mas pelo medo. -Senhor Willoughby... 
-Willoughby no -disse sem olhar-me- Yi Tien Cho. 
-Sai daqui! -A palidez do clrigo se devia  ira. 
Avanou para o chins com os grandes punhos apertados. O senhor Willoughby no se moveu. 
-Melhor ir, Primeira Esposa -disse com suavidade-. Homem santo agrada de mulheres, mas no com varo.Com faca. 
-Abobrinha! -replicou o reverendo- Te disse para ir ou...! 
-No se mova, reverendo Campbell -disse. Com mos tremulas, tirei do bolso a pistola que Jamie tinha deixado e lhe apontei. Para minha surpresa, ficou imvel, olhando-me 
como se tivesse me brotado uma segunda cabea.
-Senhor... Yi Tien Cho, viu o reverendo com a senhora Alcott no baile do governador? 
-Vejo. Ele mata. Melhor disparar, Primeira Esposa. 
- No seja ridculo! Minha estimada senhora Fraser, no pode crer na palavra de um selvagem ao que... -O reverendo se voltou para mim, tratando de adotar uma posio 
de superioridade.
-Pode ser que eu lhe acredite -disse. - Voce estava l, eu te vi. E tambm estavas em Edimburgo quando mataram  ltima prostituta. Nellie Cowden me disse que levava 
dois anos dali: o mesmo perodo durante o qual o Diabo esteve assassinando moas. -Sentia o escorregadio gatilho sob meu dedo. 
- Ele tambm vivia ali ento! -O reverendo estava perdendo sua palidez. Sinalizou ao chins com a cabea. -Aceitaria a palavra do homem que traiu seu esposo? 
-Quem? 
- Ele! -A exasperao enrouquecia a voz do clrigo. -Foi esta perversa criatura quem denunciou a Fraser ao sir Percival Turner. Foi o prprio sir Percival que me 
disse!
Estive a ponto de deixar cair o revlver, mas o levantei com inteno de ordenar ao reverendo que fosse para a cozinha; no me ocorria outra coisa que no o trancar 
numa das despensas. 
-Creio que o melhor... Ento se lanou sobre mim. Como um ato reflexo, meu dedo apertou o gatilho produzindo um forte estalido; a arma caiu de minha mo. No acertei 
na mosca. Depois do sobressalto da exploso, sua cara adquiriu uma expresso satisfeita. Sem dizer nada, afundou a mo sob o casaco para tirar um estojo metlico, 
de uns quinze centmetros, onde assomava um cabo de chifre branco. Estava consciente de tudo, com uma horrvel clareza, desde o encaixe da lmina que saa de sua 
bainha at o perfume da rosa que pisou enquanto me aproximava.
No podia fugir. Preparei-me para lutar sabendo que seria intil. De repente passou um reflexo azul no limite de meu campo visual e soou um tunc!, como se tivessem 
deixado cair um melo de certa altura. O reverendo girou lentamente sobre um p, com os olhos abertos e inexpressivos. Naquele momento seu parentesco com Margaret 
se fez evidente. Depois caiu. Na tmpora tinha uma horrvel depresso. Sua cara mudou de cor: do vermelho provocado pela clera ao branco cerleo. Seu peito se elevou 
e voltou a descer um monte de vezes. Tinha os olhos e a boca aberta. 
-Tsei-mi aqui, Primeira Esposa? -disse o chins guardando na manga o saquinho com as bolas de pedra. 
-Sim, a fora. -Sinalizei vagamente na direo da galeria. -Que... ele... foi voce...? -perguntei fechando os olhos. -O que disse, era verdade? Foi voce quem revelou 
a sir Percival o encontro em Arbroath? Quem lhe disse sobre de Malcolm e a tipografia? No tive resposta. Depois de um segundo abri os olhos. Continuava ali, observando 
o reverendo Campbell, que ainda no tinha morrido. 
-No era um homem ingls -disse-, seno um nome ingls. Willoughby. 
-No Willoughby -exclamou com aspereza. - Yi Tien Cho! 
-Por que? -inquiri quase gritando. -Olha-me, maldito sejas! Por que? Ento me olhou. Seus olhos tinham perdido o brilho. 
-Em China... contos. Profecia. Dizem que um dia viro fantasmas. Todo mundo teme fantasmas. Sai China para salvar vida. Muito tempo acordo, vejo fantasmas. Por todas 
partes, fantasmas -continuou com suavidade. -Vem fantasma grande: cara branca, horrvel, cabelo de fogo. Creio me comer a alma. 
Elevou para mim os olhos remotos e serenos.
-Tenho razo -disse simplesmente. -Ele me come a alma, Tsei-mi. No mais Yi Tien Cho. 
-Mas te salvou a vida -assinalei. Assentiu mais uma vez.
-Eu sei. Melhor morrer. Melhor morrer do que ser Willoughby. Willoughby! Puaj! -Girou a cabea para cuspir com a cara contrada. -O fala minhas palavras, Tse-mi! 
Come a alma! Seu arrebato de clera desapareceu com a mesma seriedade. Passou uma mo tremula pela cara suada. 
-Veio um homem na taberna. Pergunta por Mac Dub. Eu embriagado -informou objetivamente. -Quero mulher, nenhuma mulher vem. Ri, dizer verme amarelo... -Moveu uma 
mo para as calas, mexendo a cabea. -Gwaofei todos iguais. Eu embriagado. Homem fantasma quer Mac Dub, me pergunta. Digo sim, conheo Mac Dub. -Encolheu-se de 
ombros. -No importa nada. 
O peito magro de Campbell caiu uma vez mais e ficou imvel. Yi Tien Cho sinalizou o corpo. - dvida. -disse -Eu desonrado. Eu estrangeiro. Mas pagamento. Tua vida 
por minha, Primeira Esposa. Diga a Tsei-mi.
Voltou-se para a escura galeria onde tinha um sussurro de penas. J no escuro acrescentou suavemente: -Quando desperto em docas, penso fantasmas vem, todos arredor. 
Mas no. Sou eu. Eu sou o fantasma. Com rpidas pisadas se afastou pela galeria. Todos os acontecimentos da noite se misturavam em minha cabea como cacos de vidro 
num caleidoscpio. No tinha tempo para procurar sentido em tudo aquilo. Mas recordei o que tinha dito o reverendo antes que entrasse Yi Tien Cho. Se existia alguma 
pista que indicasse onde tinha ido Geillis Abernathy, devia estar l em cima. Depois de acender uma vela cruzei a casa para a escada. Sentia muito frio.
O laboratrio estava a escuras, mas no extremo da mesa se via um vago resplendor lvido. Um estranho cheiro de queimado me invadiu o nariz fazendo-me espirrar. Mercrio, 
mercrio queimado. Seus vapores, ainda que fantasmagoricamente belos, eram muito txicos. Tirei um leno para pr na boca e o nariz antes de me aproximar. As linhas 
do pentgono tinham chamuscado a madeira da mesa. Se Geillis tinha utilizado pedras para formar a figura, j no estavam ali. Mas tinha deixado outra coisa. A fotografia 
tinha as bordas chamuscadas, mas o centro permanecia intacto. Apertei contra meu peito, furiosa e cheia de pnico, a cara de Brianna. Que significava aquilo?
Sem dvida se tratava de magia... na verso de Geillis. Tentei freneticamente recordar nossa conversa. Tinha curiosidade em saber como tinha viajado atravs das 
pedras e lhe respondi com alguma impreciso sobre fixar a ateno numa pessoa que vivesse no momento para o qual se queria viajar. Indubitavelmente, Geillis tinha 
decidido unir minha tcnica  sua, utilizando a imagem de Brianna como ponto de concentrao para sua viagem. Ou se no... 
Ao pensar nos manuscritos do reverendo, em suas cuidadosas genealogias, senti-me  beira do desvanecimento. "Uma das profecias do Vidente de Brahan", tinha dito, 
"afirma que na geneologia de Lovat surgir um novo governante da Esccia". Graas s investigaes de Roger Wakefield, sabia (e Geillis seguro que tambm, dada sua 
obsesso pela histria da Esccia), que a descendncia direta de Lovat se tinha perdido, aparentemente, em torno do ano de 1800. Na realidade, em 1968 s restava 
um sobrevivente dessa geneologia: Brianna.
Depois de guardar a foto mutilada no bolso de minha angua, corri para a porta como se o quarto estivesse habitado por demnios. Tinha que encontrar Jamie..., imediatamente.
No estavam ali. O bote boiava, vazio,  sombra de um grande cedro. No havia sinais de Jamie e os demais. Um arrepio de ansiedade me percorreu o corpo. Tinham tido 
tempo suficiente de regressar. 
Junto ao porto principal de Rose Hall ardiam duas tochas. Eram pequenas partculas de luz a distncia mas tinha uma luz mais prxima,  esquerda da refinaria, cuja 
intensidade sugeria uma grande fogueira. Jamie e seus homens teriam tido alguma dificuldade? Pareceu-me ouvir um canto proveniente daquela direo. Algo na noite 
me inspirava inquietude. Fui consciente ento de um fedor enjoativo que se impunha ao dos agries e o acar queimado. Reconheci-o imediatamente como de carne podre. 
De repente o inferno se abriu sob meus ps.
Foi como se um fragmento da noite se separasse do resto  altura de meus joelhos. Algo muito grande se agitou junto a mim derrubando-me de uma vez sobre as panturrilhas. 
Meu involuntrio grito coincidiu com um sussurro forte. Encontrava-me muito prxima de algo vivo e de grande tamanho que cheirava a carnia. Ainda que no soubesse 
do que se tratava, sabia que no queria ter nenhum contato com aquilo. Levantei-me como pude e me pus a correr. De repente, a luz de uma tocha apareceu ante mim. 
Trombei com o homem que a levava, e a tocha caiu, apagando-se na umidade das folhas midas. Umas mos me seguraram pelos ombros. Ao levantar a cabea me encontrei 
cara a cara com um alto escravo negro que me olhava perplexo.
-Senhora, que est fazendo aqui? -disse. 
Antes que pudesse responder, desviou sua ateno para algo que acontecia por trs de mim. Virei-me para olhar. Seis homens, dois com tochas e outros quatro vestidos 
com uma simples tanga, caminhavam cautelosamente formando um crculo em torno do animal que me tinha golpeado as pernas. Levavam paus acabados numa ponta afiada. 
A cena conseguiu que meus joelhos estivessem a ponto de ceder de novo. O animal media uns trs metros e meio e seu corpo como uma couraa parecia um tonel de rum. 
A enorme calda se desviou lanando um aoite e o homem mais prximo teve que saltar para um lado dando um grito de alarme. O crocodilo girou a cabea, abriu a goela 
e emitiu outro sussurro.
O escravo o cercou com cautela. Os homens estavam atiando o animal com evidente inteno de irrit-lo. Pareciam ter sucesso. O crocodilo fincou as fortes extremidades 
na terra e se lanou  com assombrosa rapidez. O homem que estava na frente retrocedeu de um salto, mas escorregou no lodo. Ento, o grande escravo negro se lanou 
pelo ar aterrizando sobre o lombo do animal. Enquanto os outros o alentavam com gritos, se refizeram para segurar com uma mo o extremo do focinho mantendo-se fechado. 
De repente, uma figura na qual no tinha reparado saiu entre as canas e se ajoelhou junto ao animal. Sem vacilar, deslizou-lhe um n corredio no focinho. Os gritos 
se converteram num alarido triunfal, at que o homem ajoelhado o interrompeu com uma palavra seca. Levantou-se repartindo ordens a gritos. Sua preocupao era bvia: 
a grande calda seguia solta, lanando golpes capazes de derrubar tudo o que se pusesse ao seu alcance. Surpreendi-me de no ter fraturado as pernas.
Imediatamente, os homens armados com varas se aproximaram. Esquecida no calor da cena, no me surpreendeu reconhecer o lder no qual chamavam Ishmael. 
-Huwe! 
Dois dos homens passaram as varas por baixo do crocodilo. Outro, depois de esquivar a cabea, colocou-lhe sua lana sob o peito. Os trs empurraram com fora e, 
com um chapinhar, o rptil caiu sobre o lombo, com a branca e reluzente pana  luz das tochas. 
Ishmael aplacou os gritos com uma s palavra e alongou a mo. No sei o que disse, mas bem pde ter sido: "Bisturi!" A entonao e o resultado foram os mesmos: um 
dos portadores de tochas se apressou a tirar uma faca da tanga e o plantou na mo de seu chefe. Este girou sobre seus calcanhares e, com o mesmo impulso, afundou 
a lmina no pescoo do animal, onde as escamas da mandbula se unem s do pescoo.
Um jorro de sangue, negro  luz do fogo, brotou do pescoo do crocodilo. Todos retrocederam a uma distncia prudente para contemplar com uma mistura de respeito 
e satisfao ao rptil moribundo. Eu tinha permanecido em p durante todo aquele tempo, mas minhas pernas no agentaram mais e ca sentada no solo lamacento com 
as agitadas anguas. O movimento atraiu a ateno de Ishamel, que se voltou para mim.
Eu no lhe prestava ateno. Respirava com o mesmo folego que o crocodilo. As perguntas e os comentrios adquiriram um tom preocupado, mas j no os escutava. Na 
realidade no tinha perdido a conscincia; tive uma vaga impresso de corpos empurrando-se e luzes pestanejantes; depois, uns braos me alaram, estreitando-me com 
fora. Tinha um tagarelando excitado, mas s pude captar palavras soltas.
Quando entramos num claro, junto as cabanas dos escravos, j tinha recuperado a viso e era consciente. Alm de alguns arranhes e machucados, no estava ferida. 
No obstante mantive os olhos fechados e o corpo frouxo. Levaram-me ao interior de uma cabana. Lutava contra o pnico com a esperana de que me ocorresse um plano 
sensato antes de ver-me obrigada a acordar oficialmente. 
Onde diabos estavam Jamie e os outros? Que fariam quando, ao regressar ao bote, descobrissem os restos de luta e que eu tinha desaparecido? E nosso amigo Ishmael, 
que estava fazendo? S uma coisa era certa: no estava ali para cozinhar. 
Fora da cabana, o alvoroo tinha um tom festivo e me chegava o cheiro do lcool. Frente  porta no paravam de ir e vir sombras; no podia sair sem ser vista. De 
repente, depois de um berreiro triunfal, as silhuetas desapareceram bruscamente. Provavelmente estavam fazendo algo com o crocodilo.
Incorporei-me com cautela. Seria possvel escapulir-me enquanto todos estavam ocupados? Meus pensamentos foram interrompidos por uma sombra que apareceu na porta 
bloqueando a luz. Levantei-me bruscamente, lanando um grito. O homem entrou rapidamente e se ajoelhou junto ao meu colcho de palha.
-No faas rudo -disse Ishmael. -Sou eu. 
-Eu sei -disse coberta de suor frio e com o corao como batidas pneumticas.
- Soube desde o princpio. 
Com um chapu levava a enorme cabea do crocodilo que acabavam de caar. Tinham-lhe cortado a lngua e a base da boca. Os olhos de Ishmael eram um pequeno brilho 
sob os dentes. A mandbula lhe ocultava a metade inferior da cara. 
-O egungun, no vos fez dano? -perguntou. 
-No, graas a estes homens -disse-. Eh... suponho que no aceitarias tirar isso, verdade? Ignorando minhas palavras, sentou-se sobre os calcanhares, expressando 
com cada linha do corpo uma profunda indeciso. 
-Que faz aqui? -perguntou enfim fim.
A falta de uma idia melhor, o expliquei. 
-Ah... a senhora no est - explicou como se duvidasse em confiar-me essa informao. 
-Sim, eu sei. -Recolhi os ps sob o corpo, disposta a levantar-me. -Algum poderia levar-me at a rvore grande, junto ao rio? Meu esposo deve estar me procurando 
-acrecentei com inteno. 
-Creio que levaram o moo -prosseguiu Ishmael sem me prestar ateno. 
-Levaram Ian? Por que? 
Dentro da mscara, seus olhos brilharam divertidos. 
- senhora lhe agradam os moos -disse. Seu tom malicioso deixava muito claro o que isso significava. 
-Ah, sim? -Foi meu inexpressivo comentrio. -Sabes quando voltar? O longo focinho dentado se empinou subitamente mas antes que ele pudesse responder percebi a presena 
de algum a minhas costas. Voltei-me subitamente no colcho. 
-Eu a conheo -disse ela com uma pequena ruga que lhe cruzava a ampla frente. -Me equivoco?
-Nos vimos uma vez -confirmei, tratando de engolir o corao que o sobressalto me tinha feito subir  boca. -Como... como estas, senhorita Campbell? 
Melhor do que em nosso encontro anterior, obviamente, apesar de seu belo vestido de l tinha sido substitudo por uma tnica de tosco algodo branco, que cingia 
com uma larga tira da mesma tela tingida com anil. Estava mais delgada e tinha perdido o aspecto macilento que lhe provocava o aprisionamento. 
-Estou bem, obrigada, senhora -respondi cortesmente. Seus olhos descoloridos tinham a mesma expresso distante e descentrada. O sol tinha dado  sua pele uma nova 
cor, mas era evidente que a senhorita Margaret Campbell no estava integralmente bem da cabea.
-s muito gentil em visitar-me, senhora -disse. -Posso oferecer algum refresco? Uma xcara de ch, talvez? No temos vinho. Meu irmo opina que os licores so o 
caminho que nos leva s luxrias da carne. 
-Creio que tem razo -confirmei, ainda que naquele momento no me teria vindo mal um trago. Ishmael lhe fez uma profunda reverncia, sustentando-se como pde a enorme 
cabea. 
-Pronta? -perguntou baixinho. -O fogo espera. 
-Fogo. - repetiu ela. -Sim, claro. -Voltou-se para mim para perguntar-me amavelmente: -Me acompanhas, senhora Malcolm? O ch no demorar. Encanta-me contemplar 
um bom fogo.
-Pegou-me pelo brao. -No te parece que alguma vez viu coisas nas chamas? 
-De vez em quando -reconheci olhando a Ishmael. Sua postura denotava indeciso mas como a senhorita Campbell avanava inexoravelmente para ele levando-me pelo brao, 
encolheu-se de ombros e se afastou para o lado.
No centro da clareira ardia uma pequena fogueira. A pouca distncia tinha mais de trinta pessoas, entre homens, mulheres e meninos, rindo e conversando. Um homem 
cantava suavemente, curvando-se sobre uma maltratada viola. Quando aparecemos, algum nos viu e disse algo como: "Jau!" De imediato cessaram as conversas e risos 
e entre a multido reinou um respeitoso silncio. 
Ishmael se aproximou lentamente; a cabea do crocodilo sorria com prazer. Prximo do fogo tinha um pequeno banco, instalado numa espcie de plataforma feita com 
tbuas empilhadas. Obviamente, era o lugar de honra, pois a senhorita Campbell se dirigiu para ali, indicando-me cortesmente que me sentasse ao seu lado. Observei 
dissimuladamente o crculo de rostos: eram as caras da frica, alheias a mim. Senti o peso de seus olhares, que iam desde a hostilidade at uma cautelosa curiosidade, 
mas o centro de ateno era a senhorita Campbell.
O homem tinha deixado a viola e tinha agora um pequeno tambor entre os joelhos. Comeou a bat-lo suavemente, com um ritmo entrecortado que imitava o palpitar de 
um corao. Olhei  senhorita Campbell que contemplava calmamente as chamas com as mos cruzadas no colo. A multido de escravos se abriu ante a apario de duas 
meninas carregadas com um grande cesto, cuja ala tinha rosas brancas entretecidas. A tampa se sacudia, agitada por um movimento interior. Deixaram o cesto aos ps 
de Ishmael, olhando com respeito seu grotesco penteado. Ento o povo se acercou, esticando o pescoo para ver que passava. O ritmo do tambor, ainda que suave, fazia-se 
mais rpido. Uma das mulheres se adiantou para entregar a Ishmael uma garrafa de pedra e voltou a confundir-se com a multido.
Ishmael caminhou cuidadosamente ao redor da cesta vertendo uma pequena quantidade de licor no solo. O cesto, que momentaneamente tinha ficado quieto, sacudiu-se 
de um lado a outro agitado pelo movimento ou pelo penetrante aroma do lcool. Um homem se adiantou com uma vara envolta em trapos e o sustentou sobre a fogueira 
at que os farrapos comearam a arder. 
Depois de uma palavra de Ishmael, deixou cair a tocha no solo, onde tinha vertido licor. O anel de fogo azul que apareceu provocou uma exclamao dos espectadores. 
Do cesto surgiu um forte "kikirik". A senhorita Campbell se moveu ao meu lado observando a cesta com suspiccia. Como se o canto do galo tivesse sido um sinal (talvez 
foi) elevou-se o som de uma flauta e o tagarelar da multido atingiu um tom mais agudo.
Ishmael se aproximou da nossa improvisada plataforma com um leno vermelho. Amarrou ao punho de Margaret e voltou a deix-lo suavemente no colo. 
-Ah, aqui est meu leno! -exclamou ela, levantando o brao para limpar-se sem rodeios o nariz. Todos estavam atenciosos a Ishmael, que se erguia ante a multido 
falando num idioma que no reconheci. O galo voltou a cantar dentro do cesto e as rosas brancas da ala se estremeceram violentamente. 
-Oxal que no fizesse isso - disse Margaret Campbell. -Se fazer outra vez sero trs e isso traz m sorte, no? 
- mesmo? -Vi que Ishmael estava vertendo o resto do licor em torno da plataforma. 
-Oh, sim,  o que diz Archie. "Me trairs antes que o galo cante trs vezes." Archie diz que as mulheres sempre traem. Achas que  verdade?
-Depende do ponto de vista -murmurei. Minha colega parecia no reparar nos escravos cantores, nem no cesto movedio, nem na msica nem em Ishmael, que recolhia pequenos 
objetos de mos dos presentes. 
-Tenho fome -comentou. -Espero que o ch no tarde. Ishmael a ouviu e, para surpresa minha, afundou a mo num dos sacos que levava na cintura e sacou uma pequena 
trouxa que parecia ser uma xcara de porcelana lascada. Depositou-a cerimoniosamente no colo de Margaret. 
-Oh, que bom. -Bateu palmas com alegria. -Oxal tenha bolos. Ishmael voltou a dizer algo e a tocha baixou outra vez. Uma sbita labareda azul se alou em torno da 
plataforma. Enquanto se apagava, deixando no ar noturno um cheiro de terra cozida e licor queimado, abriu o cesto para tirar o galo. Era um animal grande e saudvel; 
suas plumas negras brilhavam  luz das tochas. Gritava e forcejava enlouquecido, mas tinha as patas bem atadas com tiras de pano para evitar arranhes. Ishmael o 
entregou a Margaret com uma reverncia.
-Oh, obrigada -exclamou amavelmente. O galo esticou o pescoo com um forte cacarejar. Margaret o sacudiu. -Galo malcriado! - protestou irritada enquanto o levantava 
at sua boca e lhe fincava os dentes por trs da cabea. Ouvi o suave ranger dos ossos e o pequeno rosnado que ela emitiu ao arrancar a cabea da indefesa ave. Depois 
apertou contra si o corpo que se debatia. 
-Bem, bom, j est bom, querido. O sangue lhe manchava o vestido e enchia a xcara de ch. A multido, depois de uma primeira exclamao, observava em silncio. 
Tambm a flauta tinha calado, mas o tambor continuava soando, bem mais forte que antes.
Margaret deixou de lado o animal ensangentado. Um menino saiu precipitadamente do meio da multido e o retirou enquanto ela pegava distraidamente a xcara com uma 
mo banhada de sangue. 
-Os convidados primeiro - recordou cortesmente. -Um torro ou dois, senhora Malcolm? No pude responder graas  afortunada interveno de Ishmael, que me ps nas 
mos uma tosca xcara de osso, indicando que a bebesse. Ante a alternativa, levei-a a boca sem vacilar.
Era rum recm destilado, to forte que me engasguei. Desde o fundo de minha garganta ascendeu o gosto spero de uma erva; tinham misturado algo com o licor que no 
era desagradvel. Outras xcaras como a minha passavam de mo em mos entre a gente. Ishmael me fez um gesto brusco para que bebesse mais. Obediente, levei o osso 
aos lbios deixando que o forte lquido me tocasse a boca sem engolir. Ignorava que estava sucedendo ali, mas precisava toda a lucidez possvel. Ao meu lado, a senhorita 
Campbell bebia de sua xcara a tragos melindrosos. A expectativa aumentava cada vez mais. Uma mulher tinha comeado a cantar com voz grave e rouca, fazendo contraponto 
no tambor.
A sombra de Ishmael caiu sobre mim fazendo-me levantar a vista. Ele tambm se balanava suavemente para frente e para trs, com a camisa branca colada ao peito pelo 
suor. De repente levantou as mos e comeou a cantar. Assim, com a cara oculta, sua voz poderia ter sido a de Joe: grave e melflua, capaz de atrair toda a ateno. 
Se fechasse os olhos era realmente Joe, com o suave brilho de seus culos. Quando os abri me impressionou novamente o sinistro bocejo do crocodilo e o verde dourado 
daqueles olhos frios e cruis.
A noite estava cheia de olhos negros e refulgentes pelo fogo; leves gemidos e gritos marcavam as pausas de seu cntico. Sacudi a cabea com fora, apertando a beira 
do banco para aferrar-me  realidade. No estava bbada, sem dvida, mas a erva misturada com o rum me produzia estranhos efeitos. Sentia-a arrastar-se como uma 
vbora por minhas veias. Mantive os olhos apertados resistindo-me ao seu avano. Mas no podia deixar de escutar o som dessa voz que subia e baixava.
No sei quanto tempo passou. Voltei por mim com um sobressalto, notando que o tambor e o canto tinham cessado. O silncio era absoluto em torno da fogueira. Os efeitos 
da droga iam cessando. Senti que a clareza voltava aos meus pensamentos. Com as pessoas no ocorria o mesmo; os olhos permaneciam fixos numa s mirada, sem piscadas, 
como se tivesse um muro de espelhos. Ento pensei nas lendas vodus dos zumbis e os houngans que os faziam. "Toda lenda tem um ponto para valer", tinha dito Geillis. 
Ishmael falou. Tinha tirado a cabea de crocodilo, que jazia no solo, a nossos ps. -Iis sont arrivs -disse baixinho. 
-Quem pergunta?
Uma jovem com turbante se acercou sem deixar de balanar-se, deixou-se cair ante a plataforma e apoiou a mo numa das imagens essulpidas: um tosco cone de madeira 
com a forma de uma mulher grvida. Levantou os olhos cheios de esperana. 
-Aia, puta. -A voz tinha soado junto a mim, mas no era a de Margaret Campbell, seno a voz de uma anci, cascata e aguda, mas cheia de confiana na resposta. A 
jovem lanou uma exclamao de gozo e se prostrou ante a plataforma. Ishmael a incitou suavemente com um p e retrocedeu para a multido, aferrada ao seu pequeno 
dolo.
O seguinte era um garoto. 
-Grandmre, a mulher que amo, corresponde ao meu amor? 
A mulher sentada ao meu lado riu com muita ironia, mas tambm com bondade. 
-Certainement -respondeu. -Corresponde ao teu e ao de outros trs homens. Procura a outra. Menos generosa mas mais digna. 
O jovem se retirou, desanimado, deixando lugar a um homem de mais idade. Falou num idioma africano que no reconheci. Tinha uma nota de amargura em sua voz. 
-Setato hoye -disse... quem? A voz tinha mudado. Agora era a de um homem adulto que respondia no mesmo idioma, com um tom colrico. Olhei de soslaio. Mesmo ao calor 
das chamas, um arrepio me percorreu os braos. Ainda que as feies fossem as mesmas, aquela j no era a cara de Margaret. Os olhos brilhavam sobre uma boca apertada 
com autoridade enquanto o plido pescoo se inchava como o de uma r. 
"Eles chegaram", tinha dito Ishmael. Vi que me olhava um momento e seus olhos voltaram de imediato a Margaret... ou ao que queira que fosse Margaret. Um a um, os 
presentes se adiantavam para ajoelhar-se e perguntar. Uns falavam em ingls; outros, em francs, no dialeto dos escravos ou em alguma lngua africana. A cara e a 
voz do orculo sentado junto a mim mudava segundo mudavam "eles". Eram homens ou mulheres, quase sempre maduros ou ancies, e suas sombras danavam na cara de minha 
colega ao compasso do fogo.
Ento compreendi por que Ishmael tinha voltado quele lugar arriscando-se a ser capturado e devolvido  escravatura. No era por amizade, por amor ou por lealdade 
para os outros escravos, seno por poder. Que preo se pode pagar pelo poder de predizer o futuro? Qualquer, era a resposta que via nas caras absortas da congregao. 
Ishmael tinha voltado por Margaret. Por fim fez um gesto com a cabea e se voltou para ela.
Durante essa pausa, a cara de Margaret ficou em branco; no tinha ningum ali. 
-Bouassa -disse ele. -Vem, Bouassa. Afastei-me involuntariamente. Quem quer que fosse Bouassa, tinha ido rapidamente.
-Escuto. -Era uma voz to grave como a de Ishmael, mas desagradvel. Um dos homens retrocedeu um passo. -Diga-me o que quero saber, Bouassa.
Margaret inclinou levemente a cabea, com um brilho divertido nos olhos. 
-Que queres saber? -disse a voz com suave desdm. -Por que, homem? Ir tambm, no importa o que te diga. 
O ligeiro sorriso de Ishmael foi um reflexo do de Bouassa. 
-Diz a verdade -reconheceu ele suavemente. -Mas estes... -Assinalou com a cabea aos seus colegas, sem afastar o olhar.-Viro comigo? 
-Por que no? -disse com um cacarejo desagradvel. -A Bruxa morre em trs dias. No tm nada que fazer aqui. Isso  tudo? -Sem esperar resposta, Bouassa bocejou. 
Da primorosa boca de Margaret surgiu um forte arroto. Depois fechou a boca e a seus olhos voltou o olhar vago, mas os homens j no prestavam ateno, perdidos numa 
excitada conversa fiada. Ishmael os aplacou assinalando-me com uma olhada significativa. Ento se retiraram entre murmrios. Quando o ltimo deles se foi, Ishmael 
fechou os olhos e seus ombros cederam. Eu tambm me sentia esgotada. 
-Que...? -Mas me interrompi. Ao outro lado do fogo, um homem tinha abandonado seu esconderijo no canavial. Era Jamie, com a cara e a camisa enrubescidas pelas chamas. 
Levou um dedo aos lbios e eu fiz um gesto de consentimento. Podia levantar-me e correr para o canavial antes que Ishmael me atingisse, mas e Margaret? Quando me 
voltei para ela, sua cara tinha voltado a retomar vida. Tinha os lbios entreabertos e os olhos encostados.
-Papai? -disse a voz de Brianna, ao meu lado. Meus cabelos ficaram de p. Era a voz de Brianna, a cara de Brianna e seus olhos azuis escuro cheios de ansiedade. 
-Bree? -sussurrei. Voltou-se para mim. 
-Mame -disse a voz de minha filha da garganta do orculo. 
-Brianna -disse Jamie plido pela impresso. Ela girou bruscamente a cabea para olh-lo.
-Papai -repetiu. -Sabia que era voce. Tenho estado sonhando contigo. No deixes que mame v s, acompanha-a. Eu te protegerei. 
S se ouvia o crepitar do fogo. Ishmael estava transfigurado, com a vista fincada naquela mulher que voltou a falar com o tom suave e sensual de Brianna. 
-Te amo, papai. A ti tambm, mame. Quando se inclinou para mim percebi o cheiro do sangue fresco. Seus lbios tocaram os meus e gritei. No estava consciente de 
nada quando me levantei de um salto e cruzei a clareira. S me recobrei quando estava segura com Jamie, com a cara escondida em seu casaco e tremendo. Creio que 
ele tambm tremia.
-J passou -disse tratando de dominar a voz. - Se foi.
Obriguei-me a olhar para a fogueira. Margaret Campbell cantarolava sentada junto ao fogo. Ishmael, atrs dela, acariciava-lhe o cabelo com algo que podia ser ternura 
enquanto murmurava algo. 
- Oh, no estou nada cansada! -assegurou ela afetuosa. -Bonita festa, no? Duas mulheres com turbante vieram para levar  Margaret com murmrios carinhosos. Ishmael 
nos observava acima do fogo, imvel como um smbolo esculpido na noite. 
-No vim s -disse Jamie, fazendo um gesto para o canavial, como se o seguisse um regimento armado. 
-Oh, ests s, homem - replicou Ishmael com um leve sorriso. -No importa. Tua loa fala por ti. Comigo ests seguro. Primeiro v que uma loa fala a um buckra. Agora 
v -disse sacudindo a cabea. 
-Ainda no. -Jamie se ergueu ao meu lado. -Vim procurar meu sobrinho. No partirei sem Ian. 
-Esquece-o -disse Ishmael. -Se foi. 
-Onde?
-Com a Bruxa, homem. E onde ela vai, no vs. O garoto se foi, homem. -Fez uma pausa para escutar. Ouvia-se o bater de um tambor. -E se s sbio, vais-te tambm. 
Os outros vm cedo. Comigo no h perigo, homem; com os outros sim. 
-Quem so os outros? -perguntei. 
-Selvagens, suponho -disse Jamie. 
Ishmael assentiu com a cabea. 
-Isso. Escutaste a Bouassa? Sua loa nos abenoa, assim que formos. -Assinalou as colinas escuras-O estbulo chama para que descem os que esto fortes e poderam ir. 
Voltou-nos as costas indicando-nos que a conversa tinha terminado.
- Espera! -pediu Jamie- Diga-nos onde foi a senhora Abernathy com o moo. Ishmael se voltou com os ombros cobertos pelo sangue do crocodilo. 
-A Abandawe -disse. 
-E onde fica isso? -inquiriu Jamie impaciente.
Lhe pus uma mo no brao. 
-Eu sei onde est. Em La Espaola. Isso disse Lawrence. Isso era o que Geillis desejava dele: saber onde estava Abandawe. 
-Mas o que ? Uma cidade, uma aldeia? 
-Uma gruta. -Senti frio ainda que prxima do fogo. -Uma antiga gruta. 
-Abandawe, lugar mgico -interveio Ishmael suavemente, como se temesse elevar a voz. Olhou-me examinando-me-. Diz Clotilda que a Bruxa te levou ao quarto de cima. 
Sabes que faz ali? 
-Mais ou menos. -Senti a boca seca ao recordar as mos de Geillis traando figuras com as pedras. Como se tivesse captado esse pensamento, Ishmael deu um passo para 
mim. 
-Pergunto-te, mulher: ainda sangras? Jamie deu um respingo, mas lhe apertei o brao. 
-Sim - disse -Por que? O que tem haver com isso? 
Seu desassossego era bvio.
-Se uma mulher sangra, mata magia. Voce sangra, tens poder de mulher, a magia no funciona. So as velhas que podem fazer magia: Feitiar algum, chamar o loas, 
enferma, cura. -Olhou-me mexendo a cabea- No faas magia, como a Bruxa. A magia mata, sim, mas mata a voce tambm. No ouviu a Bouassa? Diz que a Bruxa morre em 
trs dias. Levou o garoto, o garoto morre. Se o seguir, tambm morto, homem. Seguro. 
Levantou as mos frente a Jamie, com os pulsos cruzadas como se as tivessem atadas. 
-Ests avisado, amiki. -E se voltou bruscamente desaparecendo na escurido. 
-Que So Miguel nos proteja -murmurou Jamie- Conheces esse lugar, Sassenach? Onde esto Geillis e Ian? 
-S sei que est nas colinas de La Espaola e que cruza um ribeiro. 
-Nesse caso, teremos que levar Stern -disse com deciso- Vamos, os rapazes nos esperam no bote.
Junto  beira do canaveral me detive para olhar atrs. 
-Jamie! Olha! Alm de Rose Hall, o cu resplandeca com um fulgor encarnado. -Deve de ser a propriedade de Howe. Est ardendo -disse com calma e sinalizou para a 
esquerda, para uma mata alaranjada no flanco da montanha- E isso deve de ser Twelvetrees. Uma pequena fila de escravos descia desde as cabanas, carregados de vultos 
e meninos. Uma moa levava no brao, com cuidadoso respeito, a Margaret Campbell. Ao v-la, Jamie se adiantou um passo. 
-Senhorita Campbell! Margaret! A mulher e seu colega se detiveram.
-Margaret -repetiu Jamie-, no me reconheces? Sua olhada parecia vazia. Com muita lentido, ele lhe tomou a cara entre as mos. 
-Me ouves, Margaret? Me reconheces? Depois de piscar uma ou duas vezes sua voz soou tmida e temerosa. 
-Sim, Jamie, reconheo-te. -Olhou-o aos olhos- Tens notcias de Ewan? Est bem? 
Jamie ficou em silncio durante um momento; as vezes seu rosto podia ser uma mscara com a que dissimulava suas emoes mais fortes.
-Est bem -sussurrou no fim . Muito bem, Margaret. E me deu isto para dar a voce. -Inclinou a cabea para beij-la com delicadeza. 
As mulheres, protetoras e desconfiadas, fecharam o crculo em torno dela. Margaret sorria. 
- Obrigada, Jamie! -disse enquanto seu assistente a pegava por um brao para leva-la. 
- Diga a Ewan que em breve estarei com ele!
Desapareceram como fantasmas na escurido do canavial. Jamie fez sinal de segu-las, mas o detive. -Deixa-a -sussurrei pensando no que jazia no salo da casa- Deixa-a 
ir, Jamie. No podes det-la. Est melhor com eles. Fechou os olhos e assentiu. 
-Sim, tens razo. 
Mas se deteve subitamente. Tinha luzes em Rose Hall. Luzes de tochas que piscavam depois das janelas. Um lgubre resplendor comeou a crescer nas janelas do gabiente. 
-J deveramos ter ido -disse Jamie. 
Submergimo-nos no escuro canavial, onde o ar cheirava a acar queimado.  








CAPTULO 62
                                ABANDAWE

-Podes usar a pinaa do governador;  pequena, mas navega bem. -Grey remexeu na gaveta de sua escrivaninha- Darei uma ordem para que apresentem aos empregados do 
cais. 
-Precisamos de um barco. O Artemis  de Jared e no posso arriscar que lhe ocorra nada acho que o melhor ser roubarmos, John. -Jamie tinha as sobrancelhas franzidas- 
Muitos problemas j tens para que por cima te possam se relacionar comigo. 
Grey sorriu. 
-Problemas? Suponho que sim: quatro plantaes incendiadas e mais de duzentos escravos fugitivos. Sabe Deus por onde andaro! Mas duvido muito que, em tais circunstncias, 
algum se interesse por minhas relaes sociais. Entre o medo aos selvagens e ao chins fugitivo, o pnico que reina na ilha faz que um simples contrabandista no 
seja mais do que uma trivialidade. 
- um grande alvio que me consideres uma trivialidade -comentou Jamie muito seco- Ainda assim roubaremos o barco e se nos prenderem nunca ouviste meu nome nem minha 
cara, entendido? 
Grey o olhou fixamente. Por fim disse:
-Se te prenderem, queres que deixe que te enforquem sem dizer uma palavra, por medo de manchar minha reputao? Pelo amor de Deus Jamie, por quem me tomas? 
-Por um amigo, John -disse Jamie- E se aceito tua amizade e teu condenado barco, faz o favor de aceitar a minha e guardar silncio. Certo? 
- De acordo -disse o governador- Mas me farias um grande favor se no te deixarem capturar.
- Farei o possvel, John. 
O governador se sentou, fatigado. Tinha grandes olheiras e a camisa enrugada. Era evidente que no tinha mudado de roupa desde o dia anterior.
-Bem. No sei onde vais e provavelmente seja melhor que eu no saiba. Mas se for possvel, no se aproxime s vias navegveis do norte da Antigua. Esta manh enviei 
um barco para pedir que me trouxessem a todos os homens que estavam nas cabanas. Depois de amanh, no mais tardar, viro aqui para custodiar a cidade e o porto. 
 provvel que tenha uma rebelio de selvagens. 
Olhei a Jamie com um gesto interrogante e ele sacudiu imperceptivelmente a cabea. Tnhamos informado ao governador sobre o levantamento do rio Yallahs e a fuga 
dos escravos, mas no mencionamos o que tnhamos visto aquela mesma noite escondidos numa pequena ensenada. A noite era escura. S um pequeno resplendor aparecia 
na superfcie do rio. Ouvimos-os chegar e tivemos tempo de nos esconder antes de que o barco se pusesse a nossa altura. Um bater de tambores e selvagens vozes exaltadas 
ressoavam pelo vale enquanto o Bruxa passava frente a ns,  levado pela corrente. Sem dvida alguma, os cadveres dos piratas comeavam a podrecer apacivelmente 
rio acima, entre os cedros e os franchipaneiros. Os escravos fugitivos do rio Yallahs no tinham entrado nas montanhas de Jamaica seno que saam ao mar, provavelmente 
para unir-se aos seguidores de Bouassa, em La Espaola. As pessoas de Kingston no tinham nada que temer. Mas era muito melhor do que a Marinha Real concentrasse 
seu atendimento ali e no em La Espaola, onde nos dirigamos. 
Jamie se levantou para despedir-se, mas Grey o deteve. 
-Espera. No precisas um lugar seguro para deixar a tua...  senhora Fraser? Me sentiria muito honrado se a deixasses sob minha proteo. Poderia esperar aqui; na 
residncia ningum a incomodaria. 
Jamie vacilou, mas no tinha maneira suave de diz-lo.
-Tem que me acompanhar, John -disse- No h alternativa. 
Grey me olhou fugazmente. 
-Sim -disse engulindo saliva- Compreendo. 
Jamie lhe alongou a mo. Ele vacilou um momento antes de aceit-la. 
-Boa sorte, Jamie -disse com voz rouca- Que Deus te acompanhe. 
Mais difcil tinha sido Fergus compreender; fazia questo de nos acompanhar. Seus argumentos se tornaram mais veementes quando descobriu que os contrabandistas escoceses 
viriam conosco. 
-A eles vais levar e a mim no? -Sua cara ardia pela indignao. 
- claro -confirmou Jamie- Os contrabandistas so solteiros ou vivos. Voce est casado. -Olhou a Marsali, que presenciava a discusso com a cara tensa pela ansiedade.
- Me equivoquei ao pensar que ela era muito jovem para casar-se mas estou seguro de que  muito mais jovem para ser viva. Ficas.
Lhe voltou as costas, dando o assunto por finalizado. J tinha escurecido quando zarpamos na pinaa de Grey, deixando dois homens amarrados e amordaados no embarcadeiro. 
Ainda que a embarcao, com seus trinta ps e sua nica coberta, era maior que o bote pesqueiro no que tnhamos remontado no rio Yallahs, dificilmente se lhe podia 
chamar aquilo de "barco". Ainda assim navegava bem e rpido estvamos fora do porto, rumo a La Espaola. Os contrabandistas se ocuparam do leme e Jamie, Lawrence 
e eu nos sentamos para conversar junto  borda. Logo se fez o silncio e permanecemos absortos em nossos prprios pensamentos. Jamie bocejou vrias vezes; por fim, 
ante minha insistncia, consentiu em tombar-se no banco com a cabea apoiada em meu colo. Por minha parte, estava muito tensa para dormir. Tambm Lawrence permanecia 
desperto, contemplando o cu com as mos cruzadas por trs da cabea.
-Esta noite h umidade no ar -comentou sinalizou a lua crescente em forma de foice-. Ves essa bruma que rodeia a lua?  possvel que chova antes do amanhecer, ainda 
que no  habitual nesta poca. O tema era bastante aborrecedor para acalmar-me os nervos. 
- mesmo? -comentei- Tanto voce como Jamie sabem prever o clima observando o cu. Eu s conheo o velho dito: "Cu vermelho ao anoitecer, o marinho sente prazer; 
pela manh encarnado, o marinho pe cuidado." Mas no vi de que cor estava o cu ontem  noite. 
-Bastante prpura -aclarou Lawrence rindo-  surpreendente mas esses sinais costumam ser dignos de confiana. Claro que encerram um princpio cientfico: a refrao 
da luz na umidade do ar. 
-E da sabes dos fenmenos estranhos? -perguntei- Coisas sobrenaturais onde as regras da cincia no parecem ter aplicao. 
-Por exemplo? 
Depois de pensar, utilizei os exemplos de Geillis.
-Por exemplo, essas pessoas que tm estigmas sangrantes, as viagens astrais, as vises, as manifestaes sobrenaturais... Lawrence se acomodou ao meu lado no banco. 
-Bom,  cincia s lhe corresponde observar -disse- Procurar as causas onde possa, mas recordar sempre que no mundo existem muitas coisas para as quais no se encontraro 
respostas. No porque no existam, seno porque sabemos muito pouco. 
-Isso no est na natureza humana -objetei- A gente sempre quer explicaes. 
-Por isso os cientistas constroem hipteses, mas  preciso no confundir a hiptese com uma explicao provada. Em minha vida vi muitas coisas que se poderiam considerar 
peculiares. Chuvas de peixes, por exemplo: muitos peixes da mesma espcie e do mesmo tamanho caem subitamente do cu despejado sobre a terra seca. No parece ter 
uma causa racional, mas por isso h que atribuir o fenmeno a uma interveno sobrenatural?
-Voce viu pessoalmente algo assim? -perguntei interessada. 
Se pos a rir. 
- Fala a mente cientfica! O primeiro que pergunta um cientista : "Como sabes? Quem o viu? Posso v-lo tambm?" Sim, eu vi; trs vezes e numa ocasio eram peixes 
sem cabea. 
-Estvam prximo do mar ou de algum lago? 
-Uma vez prximo da costa e outra prximo de um lago, mas a terceira chuva foi a uns trinta quilmetros do lugar mais prximo onde tinha gua; no entanto, os peixes 
eram de uma espcie que s se encontra em guas marinhas profundas. H coisas que devem ser aceitas sem poder demonstr-las. A f  uma fora to poderosa como a 
cincia -concluiu com voz suave-, mas bem mais perigosa.
Ficamos contemplando em silncio a mancha negra que dividia a noite. Era a ilha de La Espaola, que se aproximava inexoravelmente. 
-Onde vistes os peixes sem cabea? -perguntei subitamente. No me surpreendeu v-lo sinalziar com a cabea para proa. 
-Ali. Vi muitas coisas estranhas nestas ilhas, mas nessa mais do que em nenhuma. H lugares assim. 
Calei perguntando-me que o nos esperava. Tomar que fosse realmente Ian quem tinha acompanhado a Geillis a Abandawe. Levava vinte e quatro horas tratando de afastar 
uma idia de minha mente. 
-Os outros meninos escoceses, Lawrence... Ishmael nos disse que tinha visto doze, incluso Ian. Quando revisastes a plantao, encontrastes algum sinal deles?
Respirou profundamente, atrasando a resposta. Me dei conta de que procurava as palavras adequadas para explicar o que um arrepio j me tinha revelado. A resposta 
no saiu dele, seno de Jamie. 
-Ns encontramos -disse suavemente estreitando-me o joelho- No perguntes mais, Sassenach, porque no vou dizer-te nada. 
Compreendi. Tinha que ser Ian o que Geillis tinha levado consigo, pois Jamie no suportaria outra possibilidade. Apoiei uma mo em sua cabea.
-Bem aventurados os que no viram -sussurrei baixo -, mas creram. 
Ancoramos perto do amanhecer numa pequena baa sem nome, no norte de La Espaola. Era uma praia estreita rodeada de alcantilados. Atravs de uma greta na rocha se 
via uma estreita senda de areia que conduzia ao interior da ilha. Jamie me levou nos braos at a costa e se voltou para Innes, que chapinava carregado com um pacote 
de comida.
-Obrigado -disse formalmente-  hora de separar-nos. Se a Virgem nos permitir nos reuniremos aqui dentro de quatro dias. 
A cara enxuta de Innes se contraiu desiludida; depois pareceu resignar-se. 
-Me ocuparei da embarcao at que voltes. 
Jamie mexeu a cabea sorrindo. 
-No estars s. Ficaro todos exceto minha esposa e o judeu. 
A resignao desapareceu, substituda pela surpresa. 
- Por que ficamos todos? Mas no nos precisars, Mac Dubh? -Olhou nervoso os alcantilados, cheios de enredadeiras em flor- D medo aventurar-se por a sem amigos. 
-A melhor mostra de amizade que podes me dar  esperar aqui. Innes inclinou a cabea num gesto de aquiescencia. 
-Como quiser, Mac Dubh. Mas j sabes que estamos dispostos. Todos.
Jamie afastou a vista. 
-Eu sei, Duncan. -Innes o abraou torpemente com seu nico brao- Se aproximar um barco, deves pr-vos a salvo. A Marinha Real deve de estar procurando esta pinaa. 
Duvido que venham at aqui mas se algo o ameaar, seja o que for, ia as velas e escapam de imediato. 
-Deixando-te aqui? No. Podes ordenar-me o que quiser, Mac Dubh, que o farei. Mas isso no. 
Jamie sacudiu a cabea. O sol nascente arrancou chispas de seu cabelo e sua barba crescida. 
-No nos fars nenhum favor, nem a minha esposa nem a mim, se te matarem, Duncan. Obedece se vir um barco, vai embora. 
Depois lhe voltou as costas para despedir-se dos outros escoceses. Innes lanou um profundo suspiro de reprovao mas no voltou a protestar.
O clima da selva era caloroso e mido. Avanvamos terra adentro quase sem conversar. No podamos fazer nenhum plano antes de ver o que tinha em Abandawe. Ao meio 
dia conseguimos chegar. Ante ns se elevava uma ladeira empinada e rochosa cheio de mato e pontiagudos loes. E, no cume, vimos grandes pedras erguidas, megalitos 
que formavam um crculo irregular. 
-Ningum disse que tinha um crculo de pedras -sussurrei. Sentia-me dbil, e no s pelo calor e a umidade. 
-Se sentes bem, senhora Fraser? -Lawrence me olhava alarmado. 
-Sim. -Mas a cara deve me denunciar, como sempre, pois Jamie me segurou pela cintura. 
-Por Deus, Sassenach, tem cuidado -murmurou - No te aproximes a. 
-Temos que averiguar se Geillis est a com Ian -disse-. Vamos.
Pus em movimento meus arredios ps. Jamie me seguiu murmurando algo em galico. Suponho que era uma prece. 
-Colocaram-nas faz muito tempo -comentou Lawrence quando chegamos ao cume- No foram escravos, seno os aborgenes destas ilhas. 
O lugar estava deserto e tinha aspecto inofensivo. Parecia to s um crculo irregular de grandes pedras postas em ponta, imveis sob o sol. 
Jamie me observava nervoso. 
-As ouve Claire? -perguntou. 
Lawrence pareceu sobressaltado mas no disse nada. Avancei com prudncia para a pedra mais prxima. 
-No sei -disse- No estamos num Festival do Sol nem do Fogo. Talvez no esteja aberto. No sei. Agarrada  mo de Jamie, adiantei-me um pouco para escutar. Parecia 
ouvir um leve zumbido no ar mas talvez fora s o dos insetos da selva. Com muita suavidade, apoiei a mo na rocha.
Notei vagamente que Jamie me chamava. Minha mente lutava conscientemente em abrir e fechar as vlvulas do corao e em engulir ar e expuls-lo. Um zumbido palpitante, 
muito grave para cham-lo de som, enchia-me os ouvidos e me sacudia at a medula dos ossos. Em algum lugar pequeno e silencioso, no centro daquele caos, estava Geillis 
Duncan com seus olhos sorridentes fincados nos meus. 
-Claire! 
Estava no solo, com Jamie e Lawrence inclinados sobre mim. Tinha as bochechas molhadas e um fio de gua me corria pelo pescoo. Pisquei, movendo as extremidades 
para comprovar se ainda as tinha. Jamie deixou o leno com o que me molhava a cara e me ajudou a me incorporar.
-Ests bem, Sassenach? 
-Sim - disse confusa - Est ali, Jamie!
-Quem? A senhora Abernathy? -Lawrence disparou para cima as sobrancelhas e jogou uma olhada para trs, esperando v-la materializar-se. 
- Eu ouvi ela... Eu a vi... o que seja. -Comeava a recuperar lentamente minhas faculdades- Est aqui. Mas no no crculo. Perto. 
-Onde? -Jamie tinha a mo apoiada no punhal e olhava para um lado a outro. 
Sacudi a cabea e fechei os olhos, tentando de m vontade recuperar a viso. Tive variada sensaes: escurido, frescura mida e o reflexo de uma tocha vermelha. 
-Creio que est numa gruta -disse surpresa- H alguma perto, Lawrence? 
-Sim -confirmou observando-me com curiosidade- A entrada est a pouca distncia daqui. 
-Leva-nos. -Jamie j se tinha posto em p e me ajudava a me levantar: 
-Jamie. - O Detive apoiando-lhe uma mo no brao. 
-Sim?
-Jamie... ela tambm sabe que estou aqui. Isso o deteve. Eu o Vi engulindo a saliva e apertando os dentes com um gesto afirmativo. 
- A Mhicheal bheannaichte, dion sinn bho dheamhainnean -disse suavemente enquanto girava para a borde da colina. "Miguel bendito, defende-nos dos demnios." 
A escurido era absoluta. Levei as minhas mos ao rosto e senti o atrito da palma no nariz, mas sem v-la. O passadio era desigual, com pequenas partculas duras 
que rangiam sob os ps. Em alguns trechos os muros se estreitavam tanto que me perguntava como teria feito Geillis para passar. Ainda nos lugares em que o passadio 
era mais largo, onde as paredes se separavam tanto que no chegava a toc-las com as mos estendidas, se as podia perceber. Era como estar num quarto escuro com 
outra pessoa que guarda silncio mas cuja presena se pode sentir ao alcance da mo.
Os dedos de Jamie me apertavam o ombro; o sentia por trs de mim como uma brisa clida no fresco esvaziamento da gruta. 
-Vamos bem? -perguntou quando me detive para recuperar o alento - H passadios laterais. Noto ao passar. Como sabes onde vamos? 
-Porque ouo. Voce no? 
Falar e formar pensamentos coerentes requeria um esforo. O chamado era diferente: no um som de colmeia como em Craigh na Dun, seno um rumor parecido  vibrao 
do ar depois do tinar de um sino grande. Sentia-o ressoar nos ossos do brao e me produzia ecos nas costelas e na coluna vertebral. 
Jamie me segurou o brao com fora. 
-No se afastes de mim! -disse- No deixe que te pegue, Sassenach. Fica! 
O procurei ele s cegas e me apertou contra seu peito.
-Jamie. Me segura, Jamie. -Nunca tinha tido tanto medo- No me solte. Se me levar, Jamie, no poderei voltar nunca mais. Cada vez  pior que a anterior. Me matar, 
Jamie! 
Me afastou suavemente para adiantar-se sem retirar a mo de mim. 
-Eu irei na frente -disse- Mete a mo sob meu cinto e no o soltes por nada. 
Avanamos lentamente na escurido. Jamie no tinha permitido que Lawrence nos acompanhasse. Esperava-nos na boca da caverna com ordens de voltar  praia se no voltssemos 
a tempo para ir ao encontro com Innes e os outros escoceses. 
-Claire -disse com suavidade- H algo que devo te dizer. Se tiver que escolher entre ela e um de ns, serei eu. Voce sabe,no  verdade? 
Efetivamente, eu sabia. Se Geillis estava ainda ali e um de ns devia morrer para det-la, seria Jamie quem correria o risco. Morto ele, ainda estaria eu para segu-la 
atravs das pedras, onde ele no podia ir.
- Eu sei -sussurrei por fim. 
- Me d um beijo, Claire -sussurrou-. Lembras que para mim vales mais do que a minha vida. No tenho nada a perder. 
Beijei-o na mo e na boca. Depois me voltei para o tnel  esquerda. 
-Por aqui -disse. 
Dez passos alm vi uma luz. Era s um vadio resplendor nas rochas mas bastava para devolver-nos a vista. Soltei um suspiro de alvio e de medo e avancei para a luz 
e a suave vibrao de sino. Ento se fez mais potente, mas voltou a diminuir quando Jamie se deslizou adiante de mim, bloqueando-me a vista. Depois se agachou para 
franquear uma arcada de pouca altura. Eu o segui. Chegamos a uma cmara de um tamanho considervel. As paredes mais afastadas da tocha retinham a fria negrura do 
pesado sonho da caverna. Mas a que estava ante ns tinha acordado. Nela cintilavam partculas minerais que refletiam as chamas de uma tocha de pinheiro metida numa 
greta.
-Voce veio, Heim? -Geillis estava de joelhos, com a vista fixa num relumbrante jorro de p branco que caa de seu punho, desenhando uma linha no solo. 
Ouvi uma exclamao de Jamie, entre alvio e terror: tinha visto Ian. O garoto estava no centro do pentgono, tombado na margem, com as mos atadas s costas e amordaado 
com um leno branco. Junto a ele tinha um machado de pedra negra e reluzente como a obsidiana, com o filo agudo e dentado. O cabo estava coberto por um vistoso desenho 
africano de bandos e bicos. 
-No se aproxime mais, raposa -disse Geillis sentando-se sobre os calcanhares. 
Mostrou os dentes a Jamie com algo que no era um sorriso. Tinha uma pistola na mo e outra, carregada e fixa, no cinto de couro que levava.
Com os olhos fincados em Jamie, afundou a mo no saco que levava pendurado do cinto e extraiu outro punhado de diamantes em p. Vi gotas de suor em sua frente branca. 
Devia de estar percebendo o zumbido passando temporriamente, tal como eu percebia. Estava descomposta; o suor me corria pelo corpo sob a roupa. O desenho estava 
quase concludo. Sem deixar de nos apontar cuidadosamente com a pistola, foi deixando cair o p brilhante at ter completado o pentgono. As pedras cintilavam com 
chispas de cor, unidas por uma linha de mercrio. 
-Bem, j est. -Lanou um suspiro de alvio jogando-se o cabelo para trs com uma mo.- A salvo. O p de diamante impede a chegada do rudo -me explicou- Horrvel, 
no? Deu umas palmadas em Ian, que jazia frente a ela com os olhos dilatados pelo medo.
-Bom, bom, mo chridhe. No te aflijas que logo terminar tudo. 
-Afasta tuas mos dele, maldita bruxa! -Jamie deu um passo impulsivo para diante com a mo no punhal, mas se deteve ao ver que Geillis levantava a pistola. 
- Me lembra o seu tio Dougal, a sionnach -disse com ironia - Pegas o que queres e que o diabo te leve a quem estorvar um passo. 
Jamie olhou Ian, encolhido no solo, e depois a Geillis. 
- Pego o que  meu -corrigiu suavemente. 
-Mas agora no podes, no ? Um passo mais e te mato. Se te deixo viver  s porque Claire parece ter carinho por voce. - Sua olhada se desviou para mim, que permanecia 
na sombra, por trs de Jamie - Uma vida por outra, doce Claire. Uma vez, em Craigh na Dun, tratou de me salvar. Eu te salvei do juzo por bruxaria, em Cranesmuir. 
Estamos em paz, no ?
Geillis pegou uma pequena garrafa, a abriu e verteu cuidadosamente o contedo sobre a roupa do moo. O cheiro a conhaque se elevou, forte e embriagante. Quando os 
vapores alcolicos chegaram at a tocha, a chama se elevou com mais potncia. Ian deu um respingo, pateando e emitindo rudos de protesto at que Geillis lhe deu 
um forte pontap nas costelas. 
- Quieto! -ordenou. 
- No faas isso, Geillis -intervim sabendo que de nada serviria.
- No h mais remdio -replicou serena- Tenho que fazer. Lamento ter que me apoderar da garota mas te deixarei o homem. 
- Que garota? -Jamie tinha os punhos apertados. 
- Brianna. Chama-se assim, no? -Jogou-se para atrs a densa cabeleira- A ltima da descendencia de Lovat. - me sorriu - Que sorte que vieram me visitar! Caso contrrio 
no me teria inteirado. Achava que todos tinham morrido antes do sculo XX.
Me deu um arrepio. Senti que o mesmo estremecimento percorria nos msculos de Jamie. Deve ter refletido em seu rosto, pois Geillis gritou e deu um salto. Disparou 
em pleno ataque de Jamie. A cabea ruiva foi para atrs e o corpo se contraiu com as mos ainda alongadas para o pescoo da mulher. Depois caiu, lasso, cruzando 
a borda do pentgono. Ian lanou um gemido afogado. Senti o som que estourava em minha garganta. No sei o que disse mas Geillis se voltou para mim sobressaltada. 
O fogo iluminava um pouco mas nem a escurido total tivesse podido ocultar sua expresso ao compreender o que se aproximava. Tirou a outra pistola do cinto e apontou 
para mim. Vi com clareza o buraco redondo da arma... e no me importou. O rugido do disparo ressoou em toda a gruta, desprendendo uma chuva de p e pedras, mas j 
me tinha apoderado do machado.
Ouvi um rudo por trs de mim, mas no olhei. Os reflexos do fogo ardiam nas pupilas de Geillis. No senti medo, ira nem dvida. S o movimento em arco do machado. 
O impacto me percorreu todo o brao. Soltei o machado, com os dedos dormentes, e fiquei muito quieta. Nem sequer me movi quando Geillis avanou para mim, com dificuldades. 
O sangue,  luz do fogo, no  vermelha seno negra. Deu um passo para diante e caiu com os msculos descontrados, sem fazer tentativa alguma para salvar-se. O 
ltimo que vi de sua cara foram os olhos: separados, formosos como pedras preciosas, marcados pelo conhecimento da morte.
Algum estava falando, mas as palavras no faziam sentido. A greta aberta na rocha emitia um zumbido potente que me enchia os ouvidos. A tocha piscou, lanando uma 
labareda subitamente amarela ante a corrente de ar. "O bater de asas do anjo negro", pensei. O som se repetiu por trs de mim. Ao voltar vi Jamie. Cambaleava-se 
sobre os joelhos. O sangue que lhe chorreava do cabelo lhe tingia de vermelho e negro um lado do rosto; o outro estava branco; parecia a mscara de um arlequm. 
"Detm a hemorragia", indicou-me o instinto. 
Procurei um leno mas Jamie j se tinha arrastado at Ian para soltar as correias, salpicando-lhe a camisa com gotas de sangue. O moo se ps em p e alongou uma 
mo para ajudar o seu tio.
Pouco depois a mo de Jamie se apoiava em meu brao. Levantei os olhos, aturdida, para oferecer-lhe o leno. Pegou-o para limpar-se um pouco a cara. Depois me pegou 
no brao, levando-me para a boca do tnel. Tropecei e estive a ponto de cair. Isso me devolveu ao presente. 
- Vamos! -estava-me dizendo - No ouves o vento? Aproxima-se uma tempestade. 
"Vento?", pensei. "Numa gruta?" Mas tinha razo; a corrente de ar no tinha sido imaginria; a leve exalao que provinha da gruta se tinha convertido num vento 
que ressoava como um gemido no estreito corredor. Voltei-me para olhar mas Jamie me empurrou para frente. Minha ltima viso da gruta foi uma imprecisa impresso 
de azeviche e rubis com uma silhueta branca no centro. Depois a corrente de ar chegou com um rugido e apagou a tocha.
-Cristo! - Era a voz de Ian, cheia de terror- Tio Jamie! 
-Aqui -disse Jamie assombrosamente sereno- Aqui, filho. Vem. No tenhas medo.  s a respirao da caverna. 
Quando ele disse pude sentir o alento frio da rocha em meu pescoo me arrepiava o cabelo da nuca. A imagem da gruta como algo vivo, que respirava cega e malvola 
ao nosso redor, gelou-me o sangue nas veias. Ao que parece, esta idia aterrorizava tanto a Ian como a mim, pois ouvi uma leve exclamao e senti sua mo tentando 
me agarrar. Peguei-lhe a mo e procurei na escurido com a outra at encontrar o tranqilizador corpo de Jamie. 
-Tenho Ian -disse- Por Deus vamos sair daqui!
Como resposta, pegou-me a mo. Desandamos juntos no tnel serpenteante, tropeando na escurido e pisando nos calcanhares. Durante todo esse tempo o vento no deixou 
de gemer as nossas costas. No via nada: nem a camisa de Jamie adiante de mim nem o movimento de minhas prprias anguas. Tentava afastar a recordao do que deixamos 
para trs, a morbosa fantasia de que o vento trazia vozes susurrantes e secretas que no se deviam escutar. 
- Eu ouo -disse Ian subitamente com a voz rompida pelo pnico- Ouo! Oh, Deus, meu Deus!  Geillis! Vem para c!
Um grito se afogou em minha garganta. Sabia perfeitamente que no era ela, seno o vento e o medo de Ian, mas isso no mudou o arrebato de terror que me brotou desde 
a boca do estmago, fazendo que meus intestinos se convertessem em gua. Eu tambm sabia que ela se aproximava, gritando a pleno pulmo. Ento Jamie nos abraou 
tampando-nos os ouvidos contra o seu peito. Cheirava a fumaa de pinheiro, a suor e a conhaque. Estive a ponto de chorar de alvio.
- Silncio! -disse com fria- No vou permitir que toque voces. Jamais! Vamos -continuou em voz mais baixa-  s o vento. Quando muda o clima na superfcie, as grutas 
ofegam por suas gretas. No  a primeira vez que o ouo. Fora que se aproxima uma tempestade. Vamos! 
A tormenta foi breve. Quando chegamos  superfcie, cambaleando, a chuva tinha cessado e nos cegou a luz do sol. Lawrence estava prximo da entrada, protegido sob 
uma palmeira. Ao nos ver se levantou de um salto e uma expresso de alvio amaciou as rugas de sua cara. 
-Tudo bem? -perguntou. 
Jamie assentiu com um semisorriso.
- Tudo bem -confirmou sinalizando a Ian- Posso te apresentar Ian Murray, meu sobrinho? Ian, este  o doutor Stern; nos foi de grande ajuda em tua busca. 
- Estou muito agradecido, doutor -disse o menino inclinando a cabea. Depois adicionou com um sorriso trmulo, passando a manga pela cara suja- Tinha certeza que 
virias, tio Jamie. Mas demoraste um pouco, no? - O sorriso se alargou e comeou a tremer, piscando para conter as lgrimas.
-  verdade, Ian. Desculpe. Vem aqui, a bhalaich. -Jamie o estreitou num abrao dando-lhe palmadas nas costas, entre murmrios em galico.
- Demorei um momento me dando conta de que Lawrence estava falando comigo. 
- Estas bem, senhora Fraser? -Sem aguardar resposta, segurou-me pelo brao. 
- No estou certa. -Estava completamente exausta, como depois de um parto, mas sem a mesma exaltao. Tudo me parecia irreal: Jamie, Ian e Lawrence eram como brinquedos 
que se moviam e falavam ao longe, emitindo sons que me custava entender. 
- Creio que devemos sair daqui observou -Lawrence olhando a boca da gruta. Estava um pouco intranqilo. No perguntou pela senhora Abernathy. 
-Tens razo. 
Ainda que tinha fresca na mente a imagem da caverna, parecia-me to irreal como a verde selva e as pedras que nos rodeavam. Girei e comecei a andar sem esperar os 
homens. Para o crepsculo nos detivemos num pequeno claro, prximo de um ribeiro e instalamos nosso primitivo acampamento. J tinha descoberto que Lawrence era 
uma presena utilssima nessas excurses. No s tinha tanta habilidade como Jamie para procurar refgio ou constru-lo: ainda mais, por estar familiarizado com 
a flora e a fauna da zona, era capaz de mergulhar na selva e voltar rpido em meia hora com punhados de razes, fungos e frutas comestveis aumentando as espartanas 
raes de nossas mochilas.
Enquanto Lawrence procurava alimentos, Ian saiu em procura de lenha. Eu me sentei com Jamie para curar-lhe a ferida da cabea. Depois de lavar o sangue, descobri 
com surpresa que a bala tinha perfurado a pele acima da linha onde comea a nascer o cabelo mas que no tinha sinais de sada, como se tivesse desaparecido dentro 
da cabea. Remexi no couro cabelludo at que um grito do paciente me anunciou que tinha encontrado a bala. Tinha um vulto na parte traseira da cabea. A bala tinha 
viajado sob a pele, seguindo a curvatura do crnio, at deter-se perto do occipcio. 
- Santo Cu! -exclamei- Tinhas razo ao dizer que tua cabea era de osso macio. Essa mulher te disparou a queima roupa e esse maldito projtil no pde atravessar-te 
o crnio.
Jamie emitiu um bufido como queixa. 
- Tenho a cabea dura, mas isso no teria bastado se a senhora Abernathy tivesse usado uma carga completa de plvora. 
- Te di muito? 
- A ferida no, mas tenho uma horrvel dor de cabea. 
- No me estranha. Agenta um pouco que vou extrair a bala.
Como ignorvamos as condies em que encontraramos a Ian, tinha levado a menor de minhas caixas de primeiros socorros que, felizmente, continha um frasco de lcool 
e um pequeno bistur. Rasurei uma parte do couro cabeludo e o molhei com lcool. Sustentando a pele tensa entre os dedos da mo esquerda, fiz um corte rpido e pressionei 
o inchao com o polegar direito. A bala caiu em minha mo esquerda como uma uva. Pus uma gaze na pequena ferida e a sujeitei com uma venda ao redor da cabea. Ento, 
sem poder resist-lo mais me pus a chorar. Ainda que era consciente destas sensaes, no podia evitar ao me sentir, ainda, fora de meu corpo. 
- Sassenach, ests bem? -Jamie me olhava com preocupao sob a vendaje de pirata que lhe tinha feito.
- Sim - respondi babuciando aos soluos.- No sei porque choro. No sei!
- Vem aqui. - Me pegou a mo para me sentar em seus joelhos e me estreitou entre seus braos. - Tudo est bem, Mo Duinne, tudo est bem.
De repente me encontrei de novo dentro de meu corpo, quente e estremecida. Pouco a pouco deixei de soluar e me recostei em seu peito para sentir a paz e o consolo 
de sua presena. No percebi o regresso de Lawrence e Ian at que ouvi que o garoto dizia, com mais curiosidade que alarme: 
- Corre sangue pelo pescoo, tio Jamie. 
- Ters que me pr outra vendaje, Ian - disse Jamie sem se preocupar- Eu estou ocupado abraando a sua tia. 
Pouco depois fiquei dormida, envolvida em seus braos.
Acordei encolhida num cobertor, junto a Jamie. Ele estava recostado numa rvore com uma mo apoiada em meu ombro. Ao notar que eu acordava me apertou um pouco. Estava 
escuro. A pouca distncia se ouvia um ronquido rtmico que devia de ser Lawrence, pois a voz de Ian se ouvia do outro lado.
- No, no barco no passei to mau - dizia baixinho- Tinha a companhia dos outros moos. Nos davam de comer decentemente e nos deixava caminhar pela coberta, de 
dois em dois. Estvamos assustados, pois no sabamos onde nos levavam, mas no nos maltrataram. 
O Bruxa tinha remontado o rio Yallahs para entregar sua carga humana diretamente em Rose Hall. Ali, os desconcertados meninos receberam as clidas boas vindas da 
senhora Abernathy, que imediatamente os meteu numa nova priso.
O poro da fazenda estava bem preparado, com camas e bacias. Era bastante cmodo apesar de ter que suportar o rudo que se fazia acima durante as horas do dia. Nenhum 
dos moos tinha idia do por que estavam ali. Fizeram muitas dedues, a cada uma mais improvvel do que a anterior. 
- De vez em quando, um negro gigantesco descia com a senhora Abernathy. Sempre lhe implorvamos que nos dissesse o que estvamos fazendo ali e por que no nos deixava 
sair, mas ela se limitava a sorrir, dava-nos umas palmadas e nos dizia que j sairamos em seu momento. Depois escolhia um moo; o gigante o pegava num brao e o 
levava. -A voz de Ian soava afligida. 
- Voltavam esses moos? -perguntou Jamie.
- No, geralmente no. Isso nos assustava muitssimo. Decorrido umas oito semanas chegou o momento de Ian. J tinham desaparecido trs dos garotos quando os olhos 
verdes da senhora Abernathy se posaram nele. Ian no estava disposto a cooperar. 
- Chutei o negro e at lhe mordi a mo - disse melanclico-, mas no serviu de nada. Limitou-se a dar um golpe em minha cabea com tanta fora que me deixou um apito 
nos ouvidos, e me pegou nos braos como se fosse uma criana. 
Tinham-o levado  cozinha, onde o banharam e o vestiram com uma camisa limpa antes de lev-lo  parte principal da casa.
- Era de noite e todas as janelas estavam iluminadas. Parecia-se muito a Lallybroch quando descia das colinas, ao escurecer, onde mame acendendia seu lamento. Isso 
me partiu o corao. 
Mas no teve muito tempo para nostalgias. Hrcules (ou Atlas) levou-o ao andar superior, onde estava o dormitrio da dona. A senhora Abernathy o esperava vestida 
com uma espcie de tnica com estranhas figuras bordadas. Mostrou-se cordial e lhe ofereceu um pouco de beber. Tinha um cheiro estranho, mas no tinha mau sabor. 
Como Ian no podia decidir ao respeito, bebeu.
No quarto tinha duas cmodas cadeiras, com uma mesa baixa em meio e uma grande cama ao lado com dossel digno de um leito real. Ocuparam os cadeires e ela lhe fez 
vrias perguntas. 
-Que tipo de perguntas? -perguntou Jamie ao notar que vacilava. 
-Bom, sobre meu lar e minha famlia. Perguntou os nomes de todos os meus irmos e meus tios. - Dei um respingo: por isso Geillis no tinha se surpreendido ao ve-los!- 
Todo tipo de coisas, tio. Depois me... perguntou se alguma vez... se alguma vez me tinha deitado com uma garota, como se me perguntasse o que tinha comido pela manh! 
No queria responder, mas no pude evit-lo. Sentia muito calor, como se tivesse febre, e me custava me mover. Respondi a todas suas perguntas enquanto ela continuava 
sentada, simptica, observando-me com seus grandes olhos verdes...
-Assim lhe disseste a verdade. 
-Sim, sim. - Ian falava com lentido, revivendo a cena- Disse-lhe que sim e lhe falei... de Edimburgo, da tipografia, do bordel... de Mary, de tudo. 
Ento Geillis pareceu desagradar-se; lhe endureceu a expresso e entornou os olhos. Ian teve muito medo e queria fugir, mas o impediam o peso de seus membros e a 
presena daquele gigante imvel ante a porta. -Levantou-se para passear a grandes passos, dizendo que se eu no era virgem estava arruinado e o que tinha que fazer 
com um menino como eu, deitando-me a perder com as mulheres. De repente se deteve para beber um copo de vinho. Ento pareceu serenar, se pos a rir olhando-me com 
ateno e disse que talvez nem tudo estava perdido. Se no lhe servia para o que tinha pensado, talvez lhe servisse para outras coisas.
A voz de Ian soava um pouco sufocada, como se lhe apertasse o pescoo da camisa. Como Jamie emitisse um som interrogante, ele tomou alento, decidido a continuar: 
- Me... ofereceu-me a mo para levantar-me, tirou-me a camisa e... Te juro que  verdade, tio! Ajoelhou-se no solo e meteu meu penis na boca. Ainda que a mo de 
Jamie se tensionou sobre meu ombro, sua voz no revelou mais do que um suave interesse. 
- Acredito em voce, Ian. E fez amor? 
- Amor? - O garoto parecia aturdido- No... isto , no sei. Se... ela... bom, fez que me empinasse, depois me levou  cama e seguiu fazendo coisas. Mas no foi 
como com Mary, no! 
-No, claro que no - comentou o tio.
- Deus, que estranho! -No tom de Ian se percebia um arrepio - No meio do acontecimento, levantei a cabea e ali estava o negro, em p junto  cama, com uma vela. 
Ela lhe indicou que a levantasse um pouco mais para ver melhor. Fez uma pausa para beber gua e deixou escapar um longo suspiro. 
- Tio, alguma vez... voce se deitou com uma mulher sem querer faz-lo? 
Jamie vacilou um segundo antes de responder. 
- Sim, Ian. 
- Ah. -Ouvi que o garoto coava a cabea- Sabes o que se sente, tio? Podes faz-lo, no queres e te parece detestvel, mas... mas te agrada? Jamie deixou escapar 
um riso breve e seco.
- Bom, Ian, o que sucede  que essa parte do corpo no tem conscincia, mas voce sim. -Soltou-me o ombro para olhar ao seu sobrinho- No te aflijas. No podias evit-lo 
e o mais provvel  que isso te tenha salvado a vida. Os outros garotos, os que no voltaram ao poro..., sabes se eram virgens? 
- Tnhamos muito tempo para conversar e acabamos por nos conhecer bastante. Uns sim eram e outros achavam ter estado com uma garota, mas pelo que me diziam pareceu 
que no era verdade. Fez uma pausa, obrigado a fazer uma dolorosa pergunta. 
- Sabes o que aconteceu com eles, tio? Dos moos que estavam comigo? 
- No, Ian -respondeu Jamie sem alterar-se- No tenho nem idia. -Voltou a reclinar-se na rvore com um profundo suspiro- Poders dormir, pequeno? Te far falta. 
Amanh nos espera uma boa caminhada at a costa.
 -Oh, claro que posso dormir, tio -lhe assegurou Ian- Mas no queres que monte guarda?  voce que deve descansar com esse disparo na cabea. -Teve um silncio. Depois 
acrescentou com timidez- No te disse obrigado, tio Jamie. 
- No tens o por que, Ian -disse depois de soltar uma gargalhada- Deita e dorme. Eu te acordarei se fizer falta. 
Ian se encolheu e em pouco momento dormia profundamente. 
- Queres dormir tambm, Jamie? - Incorporei-me ao seu lado- J que estou desperta posso montar guarda. Tinha fechado os olhos. A luz da fogueira, j quase apagada, 
danava-lhe nas plpebras. Sorriu procurando minha mo s apalpadelas.
- No, mas podes vigiar um pouco. Se mantenho os olhos fechados me di menos a cabea. 
Passamos um momento em silncio pegados na mo. Ocasionalmente se ouvia algum rudo ou um grito longnquo na escurido, mas nada parecia nos ameaar. 
- Voltaremos a Jamaica at Fergus e Marsali? -perguntei ao fim. 
- No. Creio que iremos para Eleuthera.  colnia holandesa, terra neutra. Enviaremos Innes no barco de John para que lhe diga a Fergus que se rena conosco. Preferiria 
no voltar a pisar a Jamaica. 
- Claro -calei um momento. 
- Como vai se virar o senhor Willoughby? Digo, Yi Tien Cho. Se ficar nas montanhas, no creio que o encontrem, mas...
-Oh, se arrumar perfeitamente -interrompeu Jamie- Afinal de contas, tem esse pelicano para que pesque por ele. E se  astuto ir para o sul,  Martinica. Ali h 
uma pequena colnia de mercadores chineses. Falei-lhe dela e me ofereci a lev-lo uma vez que tivssemos resolvido nossos assuntos na Jamaica. 
- J no ests mais aborrecido com ele? -disse com curiosidade. 
Encolheu um ombro, acomodando-se melhor. 
- Oh, no. No creio que pensasse no que fazia, nem como podia terminar tudo isto. Alm disso, seria absurdo odiar a um homem por no te dar o que nunca teve. Abriu 
os olhos com um leve sorriso. Compreendi que estava pensando em John Grey. Depois olhou ao seu sobrinho.
- Graas a Deus -disse-, este voltar com sua me no primeiro barco que zarpar para Esccia. 
- No sei -disse sorrindo- Depois de tantas aventuras, talvez no queira regressar a Lallybroch. 
- Pouco me importa o que queira -afirmou Jamie- Ir, ainda que seja preciso embal-lo numa gaveta. Procuras algo, Sassenach? 
- J o encontrei -disse tirando o estojo de seringas de meu bolso. Abri para verificar seu contedo  escassa luz da fogueira- Oh, bom, fica o suficiente para uma 
dose. Jamie se incorporou um pouco. 
- No tenho febre -advertiu desconfiado- E se ests pensando me fincar essa porcaria na cabea, j podes ir mudando de idia, Sassenach.
- A voce no - esclareci- A Ian. Ou queres devolv-lo a Jenny lotado de sfilis e outras doenas sexuais? 
Jamie levantou as sobrancelhas. A dor ocasionada pelo gesto lhe arrancou uma careta. 
- Ai! Sfilis? Voce acha?
- No me surpreenderia. Um dos sintomas dessa doena, em sua etapa avanada,  uma profunda demncia. No caso de Geillis no  fcil determin-lo. Em qualquer caso, 
mais vale prevenir do que curar, no? 
Jamie soltou um riso. 
- Bom, assim o jovem Ian aprender qual  o preo da diverso. Ser melhor que eu distraia a Stern enquanto tu levas o moo depois dos arbustos. Lawrence  um bom 
homem, mas muito curioso. No quero que te levem A Kingston para te queimar como bruxa.
Suponho que seria incomodo para o governador - apontei secamente-, ainda que pessoalmente o desfrutasse. - No creio que desfrutasse, Sassenach - disse to seco 
como eu - Tens meu casaco a mo? 
- Sim. -Recolhi para dar - Tens frio? 
- No. -Recostou-se para atrs com a jaqueta cruzada nos joelhos- Mas queria sentir as crianas prximos de mim enquanto durmo. -Cruzando suavemente as mos sobre 
o casaco e os retratos, voltou a fechar os olhos - Boa noite, Sassenach.





CAPTULO 63
DAS PROFUNDIDADES

Pela manh, recuperados pelo descanso e por um caf da manh composto de bananas e bolos, continuamos a caminhar para a costa. Ao pouco momento, Ian inclusive deixou 
de reclamar. Mas ao descer pelo desfiladeiro que conduzia  praia nos encontramos com um surpreendente espetculo.
- Meu Deus, so eles! -balbuciou Ian- Os piratas! Deu meia volta para fugir de novo para as colinas mas Jamie o segurou pelo brao. -No so os piratas -disse- So 
escravos. - Olhe! Pouco hbeis para pilotar grandes navios no mar, os escravos fugitivos tinham feito encalhar o barco na costa de La Espaola. O Bruxa jazia inclinado 
na baixada, com a quilha afundada no lodo arenoso. Um grupo de negros corria dando gritos pela praia, outros procuravam refgio na selva e uns poucos ajudavam o 
resto a descer do barco.
Uma rpida olhada ao mar nos mostrou a causa da agitao. No horizonte tinha uma mancha branca que se ia fazendo cada vez maior.
 - Uma canhoneira -disse Lawrence com interesse. 
Jamie murmurou, para horror de seu sobrinho, algo em galico. 
-Vamos sair daqui - ordenou -secamente, empurrando  Ian desfiladeiro acima. 
- Um momento! -Lawrence protegeu os olhos com a mo- Vem outro barco, menor.
Era a pinaa privada do governador de Jamaica, que se inclinava, com as velas inchadas pelo vento, formando um perigoso ngulo para rodear a curva da baa. Jamie 
dedicou uma frao de segundo  pensando nas possibilidades e me pegou pela mo. 
-Vamos! Quando chegamos  orla, o pequeno bote da pinaa se acercava pela baixada, com Raeburn e MacLeod aos remos. Ofegando, com as pernas dbeis pela correria, 
corri para as ondas at que Jamie acabou levantando-me apreensivo; seguiam-nos Lawrence e Ian bufando como baleias.
  Ao ver a Gordon na proa da pinaa, que nos esperava vrios metros alm, apontando seu mosquete para a costa, compreendi que nos seguiam. O arma lanou uma baforada 
de fumaa e Meldrum, que estava depois dele, alou o seu para disparar. Os dois se alternaram, cobrindo nossa caminhada, at que mos amigas nos iaram desde a borda 
e nos subiram  pinaa. 
-Vira! -ladrou Innes da margem. 
A espicha girou para o lado oposto e as velas se incharam de imediato. Jamie caiu ao meu lado no banco, ofegando. 
-Santo Deus, Duncan, no te disse que te mantivesses longe? 
-Poupa saliva, Mac Dubh -replicou Innes sorrindo sob o bigode. Gritou algo a MacLeod e este manipulou as cordagens.
    A pinaa inclinou mudando de curso e ps proa para mar aberto... apontando diretamente para a canhoneira, que j estava perto o bastante para que pudssemos 
distinguir o marsopa de gordos lbios sob o bauprs. MacLeod bradou algo em galico, com uma nfase que no deixou dvidas sobre seu significado. Com um triunfal 
grito montanhs emitido por Innes, passamos como uma flecha diante da proa do Marsopa, to perto que chegamos a ver as caras assombradas da tripulao no balastre. 
Uma vez fora da enseada vi que a canhoneira continuava para a terra. 
-Vo atrs do barco dos escravos -explicou Meldrum- Estvamos ali quando o viram, a cinco quilmetros da ilha. Pensamos que enquanto eles estavam ocupados perseguindo-o, 
ns poderamos aproveitar para pegar voces.
-Bem pensado -disse Jamie com um sorriso- Espero que o Marsopa continue ocupado um bom momento. 
Um grito de advertncia de Raeburn nos indicou que no era assim. O brilho do bronze de dois canhes apareceu na popa. Estavam-nos apontando. A sensao de receber 
um disparo a queima roupa no foi muito agradavel. Mas ns seguamos afastando-nos a toda velocidade. Innes moveu o leme com violncia justo no momento em que se 
ouviu o tronar dos canhes. Ato seguido, um jorro de gua se levantava a vinte metros a bombordo, muito perto para nosso gosto: um projtil de vinte e quatro quilos 
podia atravessar o fundo da pinaa sem nenhuma dificuldade, fazendo que nos afundssemos como uma pedra. Innes, entre maldies, curvava-se sobre o leme. Nossa correria 
se tornou mais errtica ainda e os trs projteis seguintes caram bastante longe. Ento ouvimos um potente canhonao e o flanco do Bruxa voou feito lascas: o Marsopa 
tinha apontado os canhes de proa para o barco zarpado.
Uma chuva de metralha varreu a praia em direo a um grupo de fugitivos. Corpos inteiros e troncos voaram pelos ares e caram na areia como palitos negros, tingindo 
de vermelho. 
-Santa Mara, Me de Deus. -Ian se benzeu horrorizado. 
Outros dois disparos abriram um grande buraco no flanco do Bruxa. Varios caram na areia e outros dois fizeram alvo entre as pessoas que fugiam. Ento rodeamos o 
promontrio que punha fim  ensenada e a praia e seu aougue ficaram ocultas a nossa vista. 
-Roga por ns, pecadores, agora e na hora de nossa morte -concluiu Ian num sussurro. 
Jamie indicou a Innes que se dirigisse a Eleuthera e este conferiu com MacLeod o rumo que devamos seguir. Ns estvamos muito horrorizados para conversar. Fazia 
bom tempo e uma forte brisa nos impulsionava. Ao cair o sol, La Espaola j tinha desaparecido no horizonte e a Grande Turca se elevava  esquerda.
Depois de comer minha pequena poro de bolo e gua, me encostei no fundo do bote, entre Ian e Jamie. Innes, bocejando, acomodou-se na proa enquanto MacLeod e Meldrum 
se alternavam no leme. Pela manh, um grito fez que me colocasse sobre um cotovelo, sonolenta e dolorida pela noite passada sobre aquelas tabuas midas. Jamie estava 
em p, com o cabelo agitado pela brisa. 
- Que houve? -perguntei. 
-No posso acreditar -disse olhando para popa- Outra vez essa maldita canhoneira! Era verdade; para proa se viam umas diminutas velas brancas. 
- Ests seguro? -inquiri preocupada- Como sabes est to longe? 
- Eu no  sei -reconheceu Jamie-, mas Innes e MacLeod dizem que  esse condenado barco ingls. J liquidaram aos pobres negros e agora vm atrs de ns. -Encolheu-se 
de ombros- No h muito que fazer; tomar que possamos manter a distncia. Diz Innes que, se chegarmos  Ilha do Gato ao escurecer, poderemos nos salvar.    
Durante todo o dia nos mantivemos fora do alcance dos canhes, mas Innes parecia cada vez mais preocupado. Entre a Ilha do Gato e Eleuthera, o mar era pouco profundo 
e estava semeado de recifes coralinos. Um navio de guerra jamais poderia seguir-nos por aquele labirinto... mas dificilmente poderamos navegar  velocidade suficiente 
para evitar que o Marsopa nos afundasse com seus canhes. Uma vez ali constituiramos um alvo fcil. Por fim, de m vontade, decidimos pr proa ao leste, a mar aberto; 
no podamos nos arriscar a perder velocidade e tinha uma pequena possibilidade de iludir  canhoneira durante a noite. Ao chegar o dia, todo rasto de terra tinha 
desaparecido. O Marsopa, por desgraa, no. At ento no tinha encurtado a distncia, mas ao levantar-se o vento do amanhecer iou mais velas e comeou a nos alcanar. 
Ns j amos a toda vela e no tnhamos onde ocultar-nos; s podamos seguir adiante... e esperar.
Durante as longas horas da manh, o Marsopa se foi fazendo cada vez maior. O cu comeava a se carregar e se tinha levantado um forte vento que ajudava  canhoneira, 
com seu enorme velame, bem mais do que a ns. Para as dez j estava bastante prximo para arriscar um disparo. Caiu longe mas conseguiu assustar-nos. Innes olhou 
para apreciar a distncia e, sacudindo a cabea, concentrou-se no leme. Nada ganharamos navegando em zig- zag; tinhamos que continuar em linha reta tanto tempo 
como pudssemos, reservando as tentativas de esquivar-lhes para quando no nos ficasse outra coisa.
s onze tnhamos o Marsopa a quatrocentos metros. Cada dez minutos soava o montono tronar de seus canhes de proa provando pontaria. S onze e meia tinha comeado 
a chover e o mar era agitado. Uma rajada nos atingiu de lado, fazendo-nos inclinar at pr o balastre de bombordo a trinta centmetros da gua. Enquanto nos desenredvamos 
na coberta, Innes e Macleod enderearam habilmente a pinaa. Dei uma olhada para trs (coisa que fazia cada poucos minutos) e vi correr os tripulantes do Marsopa, 
arriando as velas. 
- Isso sim que  sorte! -gritou-me MacGregor ao ouvido- Assim se atrasaro.
Ao meio dia, o cu tinha um subito tom purpreo e o vento se tinha convertido num gemido espectral. A canhoneira seguia arriando velas mas ainda assim se lhe desprendeu 
uma, que se afastou esvoaando como um albatros. Fazia tempo que no nos disparava. Era impossvel apontar a um alvo to pequeno no meio daquele mar agitado. Eu 
me segurava  borda com uma mo e  mo de Ian com a outra. Jamie, encurvado por trs de ns, rodeava-nos com os braos para nos proteger. A chuva caa de lado com 
tanta fora que nos fazia dano. As ondas atingiam uma altura de doze metros e a pinaa se elevava ligeiramente, alando-nos a alturas vertiginosas para descer depois 
bruscamente. Jamie estava plido  luz da tormenta, com o cabelo colado ao crnio pelo gua.
Estava escurecendo quando sucedeu. Tinha um fantasmagrico resplendor verde no horizonte, sobre o que se recortava a figura esqueltica do Marsopa. Atingidos por 
outra rajada lateral, demos um tombo no alto de uma imensa onda. Enquanto nos levantvamos de outro doloroso revolto, Jamie me pegou no brao, sinalizando para atrs. 
O mastro maior do Marsopa estava torto e continuou inclinando-se at que a parte superior se rompeu e caiu ao mar arrastando a cordagem e as vergas. Tudo junto atuou 
como se fosse uma ncora improvisada, fazendo que a canhoneira girasse pesadamente. Naquele momento, uma onda caiu violentamente sobre ela pegando-a no costado. 
O Marsopa inclinou e deu uma virada completa. A onda seguinte caiu sobre a popa rompendo os mastros como se fossem pequenos ramos.
Bastaram mais trs ondas para afund-lo; no teve tempo para que a indefesa tripulao escapasse mas sim para que ns compartilhssemos seu terror. Jamie estava 
rgido como o ao. Olhvamos paralisados pelo espanto. S Innes se mantinha teimosamente aferrado ao leme, enfrentando s ondas uma a uma. Outra onda se levantou 
junto ao balastre; suspendidos nela apareceram os restos do naufrgio, com os homens da tripulao formando um grotesco e macabro ballet. Vi o corpo inerte de Thomas 
Leonard a uns trs metros de distncia, com a boca aberta pela surpresa e o longo cabelo loiro em torno do pescoo.
Ento nos sacudiu uma onda enorme que me arrastou da coberta. De imediato me vi devorada pelo caos; surda, cega e incapaz de respirar, ia dando tombos com os braos 
e as pernas a graa da fora da gua. Tudo estava escuro; s tinha intensas e confusas sensaes: presso, rudo, frio. No sentia os puxes da corda que me tinham 
atado  cintura. De repente algo quente me percorreu as pernas: "urina", pensei sem saber se era minha ou de outro corpo. Golpeei a cabea com algo; o rugido foi 
horrvel. De repente me encontrei de novo na coberta da pinaa, tossindo at quase cuspir os pulmes. Incorporei-me pouco a pouco, com a corda to apertada  cintura 
que podia ter-me fraturado as costelas. Atirei debilmente tratando de afroux-la para respirar. Ento Jamie me rodeou com o brao, procurando  sua faca.
- Ests bem? -gritou tratando de se impor ao uivo do vento. 
- No! -sussurrei sacudindo a cabea e tocando-me a cintura. Jamie cortou a corda; sua cabea empapada tinha adquirido uma cor mogna. Por fim pude respirar uma baforada 
de ar, ignorando a apunhalada nas costas e a ardncia da carne esfolada na cintura. O barco se bamboleava selvagemente, com a coberta convertida num escorregador. 
Jamie me arrastava gateando para o mastro. A onda me tinha empapado as roupas, colando-me ao corpo, e o vento era to forte que as fazia revoltear at minha cara 
como asas de ganso. O brao de Jamie me segurava pelo torso como uma cinta. Me segurei a ele. Tratava de impulsionar-me com os ps e ajudar-lhe a avanar quando 
umas mos nos arrastaram o ltimo par de metros para o relativo amparo do mastro.
Falar era impossvel... e desnecessrio. Raeburn, Ian, Meldrum e Lawrence se tinham atados ao mastro. Por mau que fossem as coisas na coberta, ningum queria descer 
 escurido da bodega sem saber o que sucedia acima. Sentei-me com as pernas separadas e o mastro s costas. O cu tinha adquirido um cinza plmbeo por um lado e 
um verde luminoso e intenso pelo outro; os relmpagos caam a esmo sobre a superfcie do oceano. O vento era to forte que at os troves chegavam apagados, como 
canhes disparados ao longe.
De repente, um raio caiu junto ao barco, to prximo que vimos como a gua comeava a ferver. No podia ouvir o que Jamie me gritava, s pude sacudir a cabea emudecida 
pelo horror. O cabelo, como as anguas, me secava ao vento e danava ao redor da cabea, atirando das razes e rangendo pela eletricidade esttica. Os marinheiros 
que me rodeavam se moveram subitamente. Quando levantei os olhos vi que as vergas e o cordagem estavam banhados pela fosforescencia azul do fogo de San Telmo. Uma 
bola de fogo caiu a coberta e comeou a rodar para ns at que Jamie lhe deu um pontap que a fez saltar pela borda, deixando depois de si um cheiro a queimado. 
Jamie tinha os cabelos arrepiados, cobertos de fogo, como se fosse um demnio; ao tocar-se com os dedos, se recobriu um feixe de luz azul. Quando me pegou a mo, 
a ambos nos sacudiu uma descarga eltrica, mas no me soltou.
No sei quanto tempo durou aquilo: horas, dias. O vento nos secava a boca, j pastosa pela sede. O cu passou de cinza a negro, mas no tinha modo de saber se era 
de noite ou se ia chover. Quando chegou a chuva, recebemos-a agradecidos. Melhor ainda: no foi chuva, seno pedrisco; no me importou que me golpeassem o crnio 
com pedras: reuni aqueles granizos com ambas mos e enguli antes de derreter. Me deu um fresco alvio para minha garganta torturada. Meldrum e MacLeod, gateando 
pela coberta, recolheram o granizo em cntaros, caarolas e qualquer objeto capaz de conter gua. s vezes dormia com a cabea apoiada no ombro de Jamie; ao acordar, 
o vento seguia uivando. Insensvel ao medo, limitava-me a esperar. Viver ou morrer no era importante se aquele rudo horrvel cessasse de uma vez.
Por fim o vento atenuou um pouco. A mar seguia muito agitado e a pequena embarcao se agitava como uma casca de noz, mas o rudo tinha diminudo. Pude ouvir a MacGregor 
pedir a Ian que lhe passasse uma xcara de gua. Os homens tinham a cara esfolada e os lbios partidos, mas sorriam.
- J passou -disse a voz de Jamie, grave e rouca, em meu ouvido- A tormenta passou. Era verdade. Tinha gretas no cu plmbeo e alguns reflexos azuis. Supus que era 
pela manh, algo depois da aurora, mas no tinha modo de assegur-lo. Ainda que o furaco tinha cessado, o vento ainda era forte e a corrente nos levava a grande 
velocidade. Meldrum se fez cargo do leme; ao inclinar-se para conferir a bssola deu um grito de surpresa. O fogo de San Telmo no tinha prejudicado ningum, mas 
tinha convertido a bssola numa massa de metal fundido; no entanto, o suporte de madeira seguia intacto.
- Assombroso! -comentou Lawrence tocando-a com ar reverente. 
- Sim, mas  um grande inconveniente - completou Innes secamente. 
Deu uma olhada para os restos das nuvens. 
- Sabes se orientar pelas estrelas, senhor Stern? Depois de muito analisar o sol nascente e as poucas estrelas matutinas, determinou que amos rumo ao nordeste. 
- Devemos virar para o oeste -disse Stern inclinado com Jamie e Innes sobre os toscos mapas- Ainda que no sabemos onde estamos, a terra estar ao oeste.
- Assim ser. Sabe Deus quanto tempo levaremos navegando em mar aberto. O casco segue inteiro mas isso  tudo o que posso assegurar. Quanto ao mastro e as velas... 
bom, talvez resistam um tempo. -Parecia ter grandes dvidas- Quem sabe onde terminaremos.
Jamie lhe dirigiu um amplo sorriso, limpando o sangue do lbio machucado. 
- Desde que encontremos terra, Duncan, no sou muito exigente. 
Innes levantou uma sobrancelha com um leve sorriso. 
- Sim? E eu que pensei voce ter se decidido a viver como marinheiro, Mac Dubh! No vomitaste uma s vez nos dois ltimos dias! 
-Porque durante esse tempo no comi nada -observou Jamie irnico - Quero chegar a alguma ilha, pouco me importa que seja inglesa, francesa, espanhola ou holandesa..., 
mas agradeceria que fosse um lugar onde tivesse comida Duncan. 
Innes passou uma mo pela boca e enguliu saliva com dificuldade. A todos nos fez dar gua a boca. 
- Farei o que posso - prometeu. 
- Terra! Terra  vista!
Cinco dias depois chegou, por fim, o anncio, com uma voz to enronquecida pelo vento e a sede que parecia um grasnido, mas cheio de jbilo. Subi correndo, escorregando 
nos degraus. Todos estavam assomados ao balastre observando a forma negra que se curvava no horizonte. Estava longe, mas indiscutivelmente era terra slida. Innes 
ordenou ao timoneiro que virasse num ponto mais para o vento.
Vi uma fileira de grandes aves que voavam em majestosa procisso, se encostando numa costa longnqua. Eram pelicanos que pescavam na baixada, com o sol cintilando 
nas asas. Peguei Jamie na manga sinalizando. 
- Olha... - mas no pude dizer mais. Teve um forte rangido e o mundo estourou em fogo e negrura. Quando reagi estava na gua, aturdida e meio afogada. Tinha algo 
preso nas pernas que me empurrava para baixo.
Esperneei enlouquecida, tratando de liberar as pernas. Algo passou boiando junto a minha cabea e me lancei nele. Madeira, bendita madeira, algo para me agarrar 
no meio das ondas. Uma forma escura passou por embaixo da gua e a dois metros de mim emergiu uma cabea vermelha.
- Se segura! -exclamou Jamie. Chegou at mim em duas braadas e mergulhou sob o pedao de madeira que me sustentava. Senti um puxo na perna e uma dor aguda; depois 
a tenso cessou. A cabea de Jamie voltou a emergir junto ao tronco. Me segurou os pulsos e ficou ali, respirando grandes baforadas de ar enquanto as ondas nos arrastavam. 
O barco j no estava  vista; teria afundado? Uma onda rompeu sobre minha cabea e Jamie desapareceu. Sacudi a cabea, piscando e ali estava outra vez, sorrindo-me 
com esforo enquanto seus dedos me apertavam os pulsos com mais fora.
- Se Segura! -grasnou outra vez. Agarrei-me  madeira estilhaada com todas minhas foras. Boivamos  deriva meio cegados pela chuva, como um refugo do mar; as 
vezes via a costa longnqua; as vezes, s o oceano aberto e quando as ondas rompiam sobre ns no via mais do que gua. Sentia algo na perna: um estranho entumecimiento 
com apunhaladas de dor. Pela mente me passou a perna de pau de Murphy e o sorriso afiado de um tubaro. E se uma daqueles animais me tinha arrancado a perna? Pensei 
em minha pequena proviso de sangue quente brotando a jorros de um coto e perdendo-se nas frias guas. Presa de pnico, tratei de arrancar a mo entre os dedos de 
Jamie para me tocar e averigu-lo.
Berrou algo ininteligvel e me segurou os pulsos com obstinao. Depois de um momento recobrei a razo: se tivesse perdido a perna estaria inconsciente. Em realidade, 
era o que comeava a suceder. Meu campo visual tinha uma margem cinza e via pontos brilhantes na cara de Jamie. Estaria realmente sangrando ou era efeito do frio 
e a impresso? Importava muito pouco; o efeito era o mesmo. Invadiu-me uma sensao de languidez, de paz absoluta. J no sentia os ps nem as pernas; s a tremenda 
presso de Jamie me recordava que tinha mos. Quando minha cabea ficou sob o gua, custou-me recordar que devia reter o folego.
A onda passou e o madeira se elevou um pouco,me tirando o nariz da gua. Ao respirar me despejou um pouco a viso. A trinta centmetros de distncia estava a cara 
de Jamie com o cabelo colado  cabea e as feies contradas. 
- Se segura! -rugiu- Resiste, maldita sejas! 
Sorri com doura. Essa sensao de paz me levava acima do rudo e o caos. J no tinha dor. Nada importava. Outra onda se abateu sobre mim. Esta vez esqueci de reter 
o folego. A sensao de aperto me reanimou o suficiente para ver o reflexo de terror nos olhos de Jamie. Depois tudo voltou a escurecer.
- Maldita sejas, Sassenach! -disse ele muito longe- Maldita sejas! Se morrer, eu te mato! 
Estava morta. Ao meu redor tudo era de um branco deslumbrante; percebi um rudo suave, susurrante, como o que devem fazer as asas de um anjo. Sentia-me em paz, sem 
corpo, livre de terror, de ira e cheia de felicidade. Ento tossi.
No carecia de corpo. Depois de tudo me doa a perna. Doa muitssimo. Gradualmente, fui tomando conscincia de muitas outras coisas que tambm me doam, mas a perna 
esquerda se elevava sem dvida alguma. Tive a clara impresso de que me tinham tirado o osso para substitu-lo por um atiador ao vermelho vivo. Ao menos, era bvio 
que a perna estava ali. Quando entreabr os olhos, a dor era quase visvel, ainda que talvez fora s um produto de meu aturdimento geral. Fosse mental ou fsico 
em sua origem, o efeito era uma espcie de brancura atravessada por reflexos de uma luz mais intensa. Como me feria os olhos, voltei a fech-los.
- Acordas-te, graas a Deus! -disse uma aliviada voz escocesa prximo de meu ouvido. 
- No  verdade -disse. Minha prpria voz era um croar com incrustao de salitre. Tossi outra vez. O nariz comeou a chorrear em abundncia. Ento espirrei. 
- Aj! -protestei com asco pela cascata que me invadia o lbio superior. Minha mo parecia remota e insustancial mas fiz o esforo de levant-la para limpar o rosto. 
Jamie tinha o cabelo revolto e teso pelo sal e uma grande ferida na nuca. No levava camisa; cobria-se com uma espcie de cobertor.
- Te sentes muito mau? -perguntou. - Horrivelmente -grasnei. Ao ouvir minha voz to rouca, Jamie alongou a mo para uma jarra de gua que estava junto a minha cama. 
Pisquei confusa. Era realmente uma cama, no uma liteira nem uma rede. Os lenis de fio contribuam a dar aquela abrumadora impresso de brancura, reforada pelas 
paredes e o teto pintado e as longas cortinas de musselina torcidas pela brisa. Os reflexos de luz eram os reflexos que reverberavo contra o teto; ao que parece 
tinha gua perto, refletida pelo sol. 
- Creio que voce quebrou a perna, Sassenach - me disse Jamie desnecessariamente- Ser melhor no te mexer muito. 
- Obrigada pela advertncia - sussurei apertando os dentes- Onde diabos estamos? 
Encolheu-se de ombros.
- No sei. S posso dizer que  uma casa bastante grande. No prestei muito ateno quando nos trouxeram. Um homem disse que o lugar se chama Lhes Perles. -Aproximou-me 
a xcara aos lbios e bebi com gratido. 
- O que aconteceu? 
Enquanto no me movesse, a dor da perna era suportvel. Automaticamente me levei dois dedos ao pescoo para comprovar o pulso que era tranquilizadoramente firme. 
Se no estava desmaiada, a fratura no devia ser muito grave. Jamie esfregou a cara. Parecia muito cansado e notei que a mo lhe tremia pela fadiga. Tinha um grande 
hamatoma na bochecha e uma linha de sangue seco pelo pescoo.
- Acredito que se rompeu o mastro superior. Uma das vergas, ao cair, te atirou pela borda. Voce afundou como uma pedra e me atirei depois de voce. Pude te segurar... 
e tambm  verga, graas a Deus. Tinhas parte da cordagem enredado na sua perna empurrando voce para abaixo, mas consegui desprend-lo. 
Lanou um profundo suspiro. 
- No fiz mais que te segurar. Depois de um momento senti areia sob os ps e te levei  costa. Ali nos encontraram uns homens e nos trouxeram aqui. Isso  tudo. 
- Encolheu-se de ombros.
Senti frio, mesmo com  brisa clida que entrava pelas janelas. 
- O que foi do barco? Os homens? Ian? Lawrence? 
- Creio que esto salvos. Com o mastro rompido no puderam se aproximar de ns. Quando conseguiram improvisar uma vela ns j tnhamos desaparecido. -Tossiu esfregando-se 
a boca com o torso da mo- Mas esto a salvo. Os homens que nos encontraram dizem ter visto uma embarcao pequena zarpada num pntano a quatrocentos metros daqui; 
j foram resgat-la e foram trazer os homens. Bebeu um sorvo de gua e foi  janela a cusp-lo. -Tenho areia nos dentes -protestou com uma careta-, nas orelhas, 
no nariz e provavelmente tambm no rego da bunda.
Voltei a pegar-lhe a mo calejada, com marcas de bolhas arrebentadas e ensangentadas. 
- Quanto tempo me sustentaste na gua? -perguntei seguindo suavemente as linhas da mo inchada. - Bastante -respondeu com singeleza. Sorriu e me estreitou a mo. 
Ento me dei conta de que estava nua, pois sentia os lenis suaves e frescos na pele. 
- O que passou com minha roupa? 
- Como no podia te sustentar com o peso das anguas, arranquei. O que ficava no valia a pena.
- Suponho que no - disse lentamente - Mas e voce, Jamie? Onde est teu casaco? 
Encolheu-se de ombros com um sorriso melanclico. - No fundo do mar, suponho. Com os retratos de Willie e de Brianna. 
- Oh, Jamie, sinto muito. - Estreitei-lhe a mo com fora e afastou a vista piscando. 
- Bem -disse baixinho- No creio que os esquea. Em todo caso bastar com que me olhe ao espelho, no? Soltei um riso que era quase um soluo, enquanto ele engulia 
saliva com dificuldade, sem deixar de sorrir. Depois olhou as calas rasgadas e pareceu recordar algo.
- No vim com as mos vazias -comentou procurando no bolso- Ainda que preferiria conservar os retratos e ter perdido isto. Abriu a mo e em sua palma lesionada apareceu 
uma cintilao: pedras preciosas de primeira qualidade: uma esmeralda, um rubi (masculino, supus), um grande palo, uma turquesa to azul como o cu que se via pela 
janela, uma pedra dourada como sol atrapado no mel e a estranha pureza cristalina do diamante negro. 
- Tens o diamante - me estranhei roando-o. Mantinha-se flamante mesmo a ter estado to prximo de seu corpo. 
- Sim. -No olhava a pedra seno a mim - Para que servem os diamantes? Para conhecer o gozo em todas as coisas? -Isso me disseram. -Acariciei-lhe o rosto com suavidade- 
Temos a Ian. E nos temos o um ao outro. -Sim,  verdade.
O sorriso lhe chegou aos olhos. Deixou as pedras na mesa e se reclinou na cadeira pegando minha mo entre as suas. Relaxei-me. Uma paz clida comeava a invadir-me 
em exceto pelos arranhes e a dor da perna. Estvamos vivos, juntos e a salvo, o resto no importava: nem as roupas nem uma tbia fraturada. Tudo isso se arrumaria 
ao seu devido tempo. Agora no. Por agora bastava respirar... e olhar a Jamie. Passamos um momento em aprazvel silncio contemplando as cortinas ensolaradas e o 
cu aberto. Depois de dez minutos ou talvez de uma hora ouvimos pisadas ligeiras e um delicado toque na porta. 
- Entre -disse Jamie incorporando-se sem soltar-me a mo.
Se abriu a porta e entrou uma mulher de rosto simptico, iluminado pelas boas vindas e tingido de curiosidade. 
- Bom dia -disse com certa timidez- Devo pedir perdo por no vos ter atendido antes. Estava na cidade e ao regressar, faz um momento, soube de vossa... chegada. 
-Sorriu ao dizer essa palavra. 
- Estamos sinceramente agradecidos, senhora, pelo amvel tratamento que se nos brindou -disse Jamie levantando-se para fazer-lhe uma reverncia formal- Ao vosso 
servio. Tens notcias de nossos colegas?
Ela se ruboriz um pouco. Era jovem, de uns vinte anos, e no parecia saber como comportar-se ante aquela situao. Tinha a pele clara e rosada e levava o cabelo 
recolhido num lao. Seu acento me chamou a ateno. 
- Oh, sim -disse- Meus criados os trouxeram do barco e agora esto comendo na cozinha. 
- Obrigado -disse sinceramente-  muito amvel. Ruborizou aturdida. 
- Em absoluto -murumurou olhando-me com timidez- Devo pedir perdo por meus maus modos, senhora. Ainda no me apresentei. Sou Patsy Olivier, a esposa de Joseph Olivier.
Olhou a Jamie como se esperasse um gesto equivalente. Trocamos uma olhada. Onde estvamos? A senhora Olivier era obviamente inglesa e seu esposo tinha sobrenome 
francs. A baa no nos oferecia nenhuma pista. Podia ser qualquer das ilhas de Barlovento, ou das Barbados ou as Bahamas, ou Exuma, ou Andros... inclusive poderiam 
ser as Ilhas Virgens. Ento me ocorreu que o furaco podia ter-nos desviado para o sul; neste caso bem podamos estar em Antiga (no colo da Marinha Britnica!), 
a Martinica ou as Granadinas. Olhei a Jamie, encolhendo-me de ombros. Nossa anfitri nos observava expectante. Jamie, respirando fundo, apertou-me a mo.
-Confio em que esta pergunta no te parea muito estranha, senhora Olivier, mas poderas nos dizer onde estamos? 
A jovem elevou as sobrancelhas piscando com assombro. 
- Pois... sim. Isto se chama Lhes Perles. 
- Obrigado -intervim vendo que Jamie tinha inteno para continuar- O que queremos saber  em que ilha estamos. 
Um amplo sorriso de entendimento inundou sua cara redonda e rosada. 
- Ah, compreendo! A tempestade desviou voces. Ontem  noite meu esposo me dizia que nunca tinha visto um vento to terrvel nesta poca do ano. Que sorte que voces 
se salvaram! Voces vieram das ilhas do sul?
O sul. Ento no estvamos em Cuba. Talvez tnhamos chegado a Santo Toms ou  at mesmo a Florida? Trocamos uma rpida olhada. Senti bater o pulso no pulso de Jamie. 
A senhora Olivier sorriu com indulgncia. 
- No estas em nenhuma ilha, seno no continente. Na colnia de Gergia. 
- Gergia -repetiu Jamie - Em Amrica? Parecia um pouco aturdido, e com razo, pois a tempestade nos tinha desviado quase mil quilmetros. 
- Amrica - repeti suavemente- O Novo Mundo.
O pulso se tinha acelerado sob meus dedos, como um eco do meu. Um novo mundo. Refgio. Liberdade.
-Sim -confirmou a senhora sem ter nem idia do que significava essa notcia para ns, mas nos sorriu com amabilidade- Isto  Amrica. 
Jamie ergueu os ombros e lhe devolveu o sorriso. A brisa limpa e brilhante lhe agitava o cabelo como se fossem chamas. 
- Nesse caso me apresentarei senhora -disse- Chamo-me Jamie Fraser. 
Depois me olhou com os olhos azuis e brilhantes como o cu que se estendia a suas costas. Notava batidas de seu corao na palma de minha mo. 
- E ela  Claire. Minha esposa.


FIM

 


 
 




 

  
